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Teoria da Prova no Processo Penal

O documento aborda a Teoria Geral da Prova no Processo Penal, destacando a livre apreciação da prova pelo juiz e os princípios que regem o sistema probatório, como o contraditório e a comunhão da prova. Também discute o ônus da prova, que recai sobre quem alega um fato, e os 'standards' probatórios que definem o grau de confirmação necessário para considerar um fato como provado. Além disso, menciona a produção de provas e suas classificações, incluindo a importância do contraditório e a possibilidade de o juiz agir de ofício em determinadas situações.

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Teoria da Prova no Processo Penal

O documento aborda a Teoria Geral da Prova no Processo Penal, destacando a livre apreciação da prova pelo juiz e os princípios que regem o sistema probatório, como o contraditório e a comunhão da prova. Também discute o ônus da prova, que recai sobre quem alega um fato, e os 'standards' probatórios que definem o grau de confirmação necessário para considerar um fato como provado. Além disso, menciona a produção de provas e suas classificações, incluindo a importância do contraditório e a possibilidade de o juiz agir de ofício em determinadas situações.

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PROCESSO PENAL

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SUMÁRIO

1 – Teoria Geral da Prova no Processo Penal ................................................................................................ 3


2. Questões Comentadas - Teoria Geral da Prova ........................................................................................16

3. Do Exame de Corpo de Delito, da Cadeia de Custódia e das Perícias em Gera ....................................... 31

4. Questões Comentadas - Exame de Corpo de Delito ............................................................................. 32

5. Da Acareação ........................................................................................................................................ 33

6. Da Prova Documental ............................................................................................................................ 33

7. Indícios .................................................................................................................................................. 34

8. Busca e Apreensão ................................................................................................................................ 35

9. Reconhecimento de Pessoas e Coisas ................................................................................................... 41

ADMIN
ISTRATIVOS

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TEORIA GERAL DA PROVA NO PROCESSO PENAL

Introdução. Classificações

O art. 155 do CPP assim dispõe:

Art. 155. O juiz formará sua convicção pela


livre apreciação da prova produzida em
contraditório judicial, não podendo
fundamentar sua decisão exclusivamente
nos elementos informativos colhidos na
investigação, ressalvadas as provas
cautelares, não repetíveis e antecipadas.
Parágrafo único. Somente quanto ao estado
das pessoas serão observadas as restrições
estabelecidas na lei civil.

A expressão “livre apreciação da prova produzida” consagra a adoção do sistema do livre


convencimento motivado da prova. O que isso significa? O princípio ou sistema do livre convencimento
motivado, ou livre convencimento regrado, diz que o Juiz deve valorar a prova produzida da maneira que
entender mais conveniente, de acordo com sua análise dos fatos comprovados nos autos.

Assim, o Juiz não está obrigado a conferir determinado “peso” a alguma prova. Por exemplo: num
processo criminal, mesmo que o acusado confesse o crime, o Juiz não está obrigado a dar a esta prova
(confissão) valor absoluto, devendo avaliá-la em conjunto com as demais provas produzidas no processo, de
forma a atribuir a esta prova o valor que reputar pertinentes.

Entretanto, esta liberdade do Magistrado (Juiz) não é absoluta, pois:

⇒ O Magistrado deve fundamentar suas decisões;


⇒ As provas devem constar dos autos do processo;
⇒ As provas devem ter sido produzidas sob o crivo do contraditório judicial
– Assim, as provas exclusivamente produzidas em sede policial (Inquérito
Policial) não podem, por si sós, fundamentar a decisão do Juiz.

Além disso, o CPP determina que as provas urgentes, que não podem esperar para serem produzidas
em outro momento (cautelares, provas não sujeitas à repetição, etc.), estão ressalvadas da obrigatoriedade
de serem produzidas necessariamente pelo crivo do contraditório judicial, embora se deva sempre procurar
estabelecer o contraditório em sede policial quando da realização destas diligências.

Ao sistema do livre convencimento regrado ou motivado, contrapõem-se:


⇒ Sistema da prova tarifada (ou certeza moral do legislador, sistema das
regras legais ou da prova legal) - Estabelece, diretamente pela lei,
3

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determinados “pesos” que cada prova possui, num sistema de apreciação
bastante rígido para o Juiz. De acordo com este sistema, cabe ao Juiz apenas
fazer a soma aritmética dos “pesos” de cada prova, a fim de decidir se o
somatório das provas em determinado sentido é superior ao somatório das
provas em sentido contrário. Neste sistema, a título de exemplo, a confissão
deveria possuir valor máximo (rainha das provas), de forma que sendo o réu
confesso, o Juiz deveria condená-lo, ainda que todas as outras provas
indicassem o contrário. Não foi adotado como regra, mas apenas em
situações excepcionais (ex.: quanto ao estado das pessoas – nascimento,
morte, casamento, etc. – somente serão aceitas as provas previstas na Lei
civil, na forma do art. 155, § único do CPP).

Art. 155. O juiz formará sua


convicção pela livre apreciação da
prova produzida em contraditório
judicial, não podendo fundamentar
sua decisão exclusivamente nos
elementos informativos colhidos na
investigação, ressalvadas as provas
cautelares, não repetíveis e
antecipadas. Parágrafo único.
Somente quanto ao estado das
pessoas serão observadas as
restrições estabelecidas na lei civil.

⇒ Sistema da íntima convicção (ou certeza moral do Juiz) – É um sistema no


qual não há necessidade de fundamentação por parte do julgador, podendo
ele decidir da maneira que a sua “sensação de Justiça” indicar. Também não
é adotado como regra no Processo Penal pátrio, tendo sido adotado, porém,
como exceção, nos processos cujo julgamento seja afeto ao Tribunal do Júri,
pois os jurados, pessoas leigas que são, julgam conforme o seu sentimento
interior de Justiça, não tendo que fundamentar o porquê de sua decisão.

Vale mencionar a vocês que o Brasil não adotou, como regra, o sistema taxativo da prova. O sistema
taxativo implica a impossibilidade de produção de outros meios de prova que não sejam aqueles
expressamente previstos na Lei Processual.

Podemos definir prova como o elemento produzido pelas partes ou mesmo pelo Juiz, visando à
formação do convencimento deste (Juiz) acerca de determinado fato. Por sua vez, o objeto de prova é o fato
que precisa ser provado para que a causa seja decidida, pois sobre ele existe incerteza. Assim, num crime de
homicídio, o exame de corpo de delito é prova, enquanto o fato (existência ou não do homicídio – a
materialidade do crime) é o objeto de prova.

Somente os fatos, em regra, podem ser objeto de prova, pois o Direto não precisa ser provado, na
medida em que o Juiz conhece o Direito (iura novit curia). No entanto, utilizando-se por analogia o

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regramento processual civil, a parte que alegar direito municipal, estadual ou estrangeiro, deve provar-lhes
o teor e a vigência, pois o Juiz não está obrigado a conhecer estas normas jurídicas.

Porém, existem determinados fatos que não necessitam serem provados 4 (não sendo, portanto,
objeto de prova). São eles:
⇒ Fatos evidentes (ou axiomáticos, ou intuitivos) – São fatos que decorrem
de um raciocínio lógico, intuitivo, decorrente de alguma situação que gera a lógica
conclusão de outro fato (ex.: o réu, nascido em junho de 1985, fato este conhecido
do Juízo, não precisa provar que em agosto de 2015 ele possuía 30 anos. É evidente
que se nasceu em junho de 1985, em agosto de 2015 já terá completado 30 anos).
⇒ Fatos notórios – São aqueles que pertencem ao conhecimento comum de
todas as pessoas (ex.: não é necessário provar que em 2020 o mundo passou por uma
pandemia de COVID-19). ⇒ Presunções legais – São fatos que a lei presume tenham
ocorrido (ex.: ausência de discernimento para a prática de ato sexual por alguém
menor de 14 anos. Não se precisa provar, pois é um fato presumido pela Lei).
⇒ Fatos inúteis – São aqueles que não possuem qualquer relevância para a
causa, sendo absolutamente dispensáveis e, até mesmo, podendo ser dispensada a
sua apreciação pelo Juiz.

Princípios que regem o sistema probatório

⇒ Princípio do contraditório – Todas as provas produzidas por uma das partes


podem ser contraditadas (contraprova) pela outra parte.
⇒ Princípio da comunhão da prova (ou da aquisição da prova) – A prova é produzida
por uma das partes ou determinada pelo Juiz, mas uma vez integrada aos autos, deixa
de pertencer àquele que a produziu, passando a ser parte integrante do processo,
podendo ser utilizada em benefício de qualquer das partes.
⇒ Princípio da oralidade – Sempre que for possível, as provas devem ser produzidas
oralmente na presença do Juiz. Desse princípio decorrem:
⇒ 1) Subprincípio da concentração – Sempre que possível as provas devem
ser concentradas na audiência.
⇒ 2) Subprincípio da publicidade – Os atos processuais não devem ser
praticados de maneira secreta, sendo vedado ao Juiz apresentar obstáculos
à publicidade dos atos processuais. Isto deriva da própria Constituição, em
seus Arts. 5°, LX e 93, IX. Porém, esta publicidade não é absoluta, podendo
ser restringida em alguns casos, apenas às partes e seus procuradores, ou
somente a estes.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem


distinção de qualquer natureza, garantindo-
se aos brasileiros e aos estrangeiros
residentes no País a inviolabilidade do direito
à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança
e à propriedade, nos termos seguintes: LX - a
lei só poderá restringir a publicidade dos atos

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processuais quando a defesa da intimidade
ou o interesse social o exigirem;

Art. 93. Lei complementar, de iniciativa do


Supremo Tribunal Federal, disporá sobre o
Estatuto da Magistratura, observados os
seguintes princípios: IX todos os julgamentos
dos órgãos do Poder Judiciário serão
públicos, e fundamentadas todas as
decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei
limitar a presença, em determinados atos, às
próprias partes e a seus advogados, ou
somente a estes, em casos nos quais a
preservação do direito à intimidade do
interessado no sigilo não prejudique o
interesse público à informação;

⇒ 3) Subprincípio da imediação – o Juiz, sempre que possível, deve ter


contato físico com a prova, no ato de sua produção, a fim de que melhor
possa formar sua convicção
⇒ Princípio da autorresponsabilidade das partes – As partes respondem
pelo ônus da produção da prova acerca do fato que tenham de provar. Assim,
se o titular da ação penal não provar a autoria e a materialidade do fato, terá
uma consequência adversa para si, que é a absolvição do acusado.
⇒ Princípio da não autoincriminação (ou Nemo tenetur se detegere) – Por
este princípio entende-se a não obrigatoriedade que a parte tem de produzir
prova contra si mesma. Assim, não está o acusado obrigado a responder às
perguntas que lhe forem feitas, nem a participar da reconstituição simulada,
nem fornecer material gráfico para exame grafotécnico, etc.

ÔNUS DA PROVA

O ônus da prova pode ser definido como o encargo conferido a uma das partes referente à produção
probatória relativa ao fato por ela alegado. Nos termos do art. 156, 1° parte, do CPP, como regra, a prova da
alegação incumbirá a quem a fizer.

Art. 156. A prova da alegação incumbirá a


quem a fizer.

Portanto, cabe ao acusador fazer prova da materialidade e da autoria do delito. Cabe ao réu, por sua
vez, provar os fatos que alegar (algum álibi) ou desconstituir a prova feita pelo acusador (um excludente de
ilicitude, uma excludente de culpabilidade, etc.).

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Todavia, o Juiz também pode determinar a produção de provas, ex officio. Pode se dar de duas
formas distintas:
I - Na produção antecipada de provas – Nos termos do art. 156, o Juiz pode ordenar,
mesmo antes de iniciada a ação penal, a produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes,
observando a necessidade, adequação e proporcionalidade da medida. Deve, ainda, o Magistrado quando
determinar a produção de prova antecipada, fazer isto obedecendo:
⇒ A necessidade da prova – A prova determinada deve ser
indispensável à elucidação dos fatos.
⇒ Adequação da prova – A prova da adequação se dá mediante uma
análise da urgência de sua realização. Se determinada a realização de
uma prova que não é urgente, não haverá adequação da medida.
⇒ Proporcionalidade – Está relacionada à ponderação de valores em
conflito. Assim, a proporcionalidade deve ser extraída mediante um
balanço entre a busca da verdade real e a imparcialidade do Juiz,
mediante a análise de fatores como a existência de outras provas
acerca do mesmo fato, gravidade do delito, grau de urgência, etc.
Todavia, a Lei 13.964/19 (“pacote anticrime”) retirou do Juiz a
possibilidade de agir “de ofício” (sem provocação) na fase pré-
processual, motivo pelo qual cremos que a possibilidade de o Juiz
determinar “ex officio” (sem provocação) a produção antecipada de
provas na fase pré-processual estaria tacitamente revogada.

II - Na produção de provas após iniciada a fase de instrução do processo – O art. 156,


II do CPP estabelece que o Juiz pode determinar, “no curso da instrução, ou antes de proferir sentença
(durante o processo, portanto), a realização de diligências para dirimir dúvida sobre ponto relevante”. Um
exemplo de exercício desta faculdade está no art. 196 do CPP, que permite ao Juiz proceder, de ofício (ou
seja, sem requerimento das partes), a novo interrogatório do réu. Ou, ainda, nos termos do art. 209 do CPP,
ouvir testemunhas não arroladas pelas partes, dentre outros exemplos.

Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a


fizer, sendo, porém, facultado ao juiz de ofício:
II – determinar, no curso da instrução, ou antes de
proferir sentença, a realização de diligências para
dirimir dúvida sobre ponto relevante.

Art. 196. A todo tempo o juiz poderá proceder a novo


interrogatório de ofício ou a pedido fundamentado
de qualquer das partes.

“Standards” probatórios

“Standards“ probatórios “são critérios que estabelecem o grau de confirmação probatória necessário
para que o julgador considere um enunciado fático como provado.” (Badaró, 2019).
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Em resumo, são padrões estabelecidos para que um determinado fato se considere “provado”, e
podem variar conforme a etapa da persecução penal. Dito de outra forma, são “graus de certeza” exigidos a
respeito de determinado fato.

Assim, por exemplo, para que o Juiz receba a denúncia, é necessário que haja certeza quanto à
materialidade, mas não se exige tal grau de certeza quanto à autoria, bastando, nesse momento, indícios
suficientes de que o denunciado participou do delito. Porém, para que o Juiz venha a proferir sentença
condenatória, não serão suficientes meros indícios de autoria, sendo necessária certeza quanto à autoria.

Podemos estabelecer os seguintes “standards”: Para a condenação criminal – Para que o Juiz possa
considerar que a autoria está devidamente comprovada no processo, é necessário um juízo de certeza “para
além de qualquer dúvida razoável” (“beyond any reasonable doubt”). A certeza absoluta é praticamente
impossível de se obter no processo penal. Porém, é suficiente que o Juiz considere que há certeza quanto à
materialidade e à autoria “para além de qualquer dúvida razoável”, ou seja, que o Juiz entenda que as
evidências dos autos indicam não há qualquer dúvida razoável em sentido contrário.

EXEMPLO: José é acusado de ter agredido Pedro, com socos e pontapés. Não há testemunhas oculares do
fato, mas o exame de corpo de delito compra que Pedro sofreu lesões corporais. Há um vídeo que registrou
o ingresso de José na residência de Pedro, com passadas apressadas e aparentemente transtornado.
Podemos afirmar, CATEGORICAMENTE, que José agrediu Pedro? Não. Mas as provas dos autos indicam que
isso ocorreu, trazendo um grau de certeza para além de qualquer dúvida razoável em sentido contrário.

Para o recebimento da inicial acusatória – Para que o Juiz receba a denúncia e o processo tenha seu
início, exige-se prova da materialidade delitiva, mas não é necessário que haja certeza quanto à autoria
delitiva, bastando que haja um juízo de probabilidade quanto à autoria delitiva.

PROVAS ILEGAIS

As provas ilegais são um gênero do qual derivam três espécies: provas ilícitas, provas ilícitas por
derivação e provas ilegítimas.

1. Provas ilícitas

São consideradas provas ilícitas aquelas produzidas mediante violação de normas de direito material
(normas constitucionais ou legais). A Constituição Federal expressamente prevê a vedação da utilização de
provas obtidas por meios ilícitos. Nos termos do seu art. 5°, LVI. O art. 157 do CPP, por sua vez, diz:

Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser


desentranhadas do processo, as provas
ilícitas, assim entendidas as obtidas em
violação a normas constitucionais ou legais.

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São exemplos de prova ilícita:
⇒ Interceptação telefônica realizada sem ordem judicial, por violar o
art. 5°, XII da Constituição Federal.
⇒ Busca e apreensão domiciliar sem ordem judicial, por violação ao
art. 5°, XI da Constituição.
⇒ Prova obtida mediante violação de correspondência, pois viola o
art. 5°, XII da Constituição Federal.

2. Provas ilícitas por derivação

São aquelas provas que, embora sejam lícitas em sua essência, derivam de uma prova ilícita, daí o
nome “provas ilícitas por derivação”. Trata-se da aplicação da Teoria dos frutos da árvore envenenada (fruits
of the poisonous tree), segundo a qual, o fato de a árvore estar envenenada necessariamente contamina os
seus frutos. Trazendo para o mundo jurídico, significa que o defeito (vício, ilegalidade) de um ato contamina
todos os outros atos que a ele estão vinculados.

O art. 157, § 1° do CPP trata expressamente da prova ilícita por derivação. Vejamos:

Art. 157 (...) § 1º São também inadmissíveis as


provas derivadas das ilícitas, salvo quando não
evidenciado o nexo de causalidade entre umas e
outras, ou quando as derivadas puderem ser obtidas
por uma fonte independente das primeiras.

Perceba que a primeira parte do dispositivo transcrito trata da regra, qual seja: Toda prova derivada
de prova ilícita é inadmissível no processo. Entretanto, a segunda parte do artigo excepciona a regra, ou
seja, existem casos em que a prova, mesmo derivando de outra prova, esta sim ilícita, poderá ser utilizada.

Exige-se, primeiramente, que a prova ilícita por derivação possua uma relação de causalidade
exclusiva com a prova originalmente ilícita. Assim, se uma prova B (lícita) só pode ser obtida porque se
originou de uma prova ilícita (A), a prova B será inadmissível. Entretanto, se a prova B não foi obtida
exclusivamente em razão da prova A, a prova B não será inadmissível.

EXEMPLO: Imagine que Paulo fora arrolado pelo MP como testemunha em um processo criminal, tendo
prestado seu depoimento de maneira válida durante a instrução processual. O que esta prova tem de ilícita?
Nada. Porém, imagine que a testemunha Paulo só tenha sido descoberta em razão de um depoimento
testemunhal ocorrido em sede policial, na qual a testemunha Carlos foi torturada. Assim, o depoimento de
Carlos é prova ilícita, de formar que contamina o depoimento (válido) de Paulo, pois somente através do
depoimento mediante tortura de Carlos é que se chegou até a testemunha Paulo.

Imagine, agora, que além de ter sido mencionado como testemunha do crime por Carlos (que estava
sob tortura), Paulo tenha sido apontado como testemunha ocular do crime por outra testemunha, Ricardo,
que prestou depoimento válido e de maneira livre em sede policial. Ora, estamos aqui diante do que se

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chama de fonte independente capaz de conduzir ao objeto de prova. Assim, se a prova ilícita por derivação
(depoimento de Paulo) tenha sido obtida também por uma fonte independente (depoimento de Ricardo) da
fonte contaminada (depoimento de Carlos, sob tortura), a prova deixará de ser ilícita por derivação e poderá
ser utilizada no processo, nos termos do § 2° do art. 157 do CPP.

Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser


desentranhadas do processo, as provas
ilícitas, assim entendidas as obtidas em
violação a normas constitucionais ou
legais. § 2o Considera-se fonte independente
aquela que por si só, seguindo os trâmites
típicos e de praxe, próprios da investigação
ou instrução criminal, seria capaz de
conduzir ao fato objeto da prova.

Por fim, há ainda o que a Doutrina chama de “Teoria da descoberta inevitável” (inevitable discovery),
segundo a qual também poderá ser utilizada a prova que, embora obtida através de uma outra prova, ilícita,
teria sido obtida inevitavelmente pela autoridade.

EXEMPLO: Imagine que o Juiz tenha determinado a Busca e apreensão de documentos e objetos na casa do
suspeito José. Antes de realizada a diligência, José, que estava preso, afirma, mediante tortura, que a arma
do crime está em sua residência, dentro do armário. Chegando no local, a autoridade policial constata que
de fato a arma está no armário, mas simultaneamente chega ao local outra equipe, para cumprimento do
Mandado de Busca e Apreensão determinado anteriormente. Ora, a arma seria localizada inevitavelmente
pela equipe que fora realizar a busca e apreensão (diligência válida e regular).

Portanto, a prova ilícita por derivação (arma do crime, à qual se chegou através de interrogatório
mediante tortura) teria sido inevitavelmente descoberta de forma lícita, ainda que não houvesse a prova
ilícita que lhe deu origem.

Assim, a prova foi obtida de forma ilícita, pois decorreu do interrogatório mediante tortura. Todavia,
analisando-se as circunstâncias, é perfeitamente possível concluir que esta mesma prova acabaria sendo
obtida de qualquer modo, licitamente. Desta forma, a prova poderá ser usada no processo.

3. Provas ilegítimas

São provas obtidas mediante violação a normas de caráter eminentemente processual, sem que haja
nenhum reflexo de violação a normas constitucionais.

EXEMPLO: Imagine que num determinado processo criminal em uma comarca do interior, não havendo
perito oficial, o Juiz tenha determinado a produção de prova pericial por um perito não oficial. Esta prova
pericial produzida será ilegítima, pois viola uma norma processual, prevista no art. 159, § 1° do CPP. Neste
caso, não há qualquer violação à Constituição, pois a realização de uma prova pericial por apenas um perito
não-oficial, ao invés de dois, em nada prejudica algum direito fundamental. No entanto, trata-se de violação
a uma norma processual, de forma que esta prova é considerada ilegítima.

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Art. 159. O exame de corpo de delito e
outras perícias serão realizados por perito
oficial, portador de diploma de curso
superior. § 1o Na falta de perito oficial, o
exame será realizado por 2 (duas) pessoas
idôneas, portadoras de diploma de curso
superior preferencialmente na área
específica, dentre as que tiverem habilitação
técnica relacionada com a natureza do
exame.

IMPORTANTE: Não se pode esquecer que o termo “ilegítimas” só se aplica às provas obtidas com violação às
normas de direito PROCESSUAL. Já o termo “ilícitas” se aplica apenas às provas obtidas com violação às
normas de direito material.

ILÍCITAS (08 LETRAS) – MATERIAL (08 LETRAS)

ILEGÍTIMAS (10 LETRAS) – PROCESSUAL (10 LETRAS)

4. Consequências processuais no caso de reconhecimento da ilegalidade da prova

Reconhecida a ilegalidade da prova, este reconhecimento gera algumas consequências práticas no


processo criminal. Entretanto, estas consequências são diferentes no caso de provas ilícitas (ilícitas e ilícitas
por derivação) e provas ilegítimas.

No caso das provas ilícitas e ilícitas por derivação, declarada sua ilicitude, elas deverão ser
desentranhadas do processo 7 e, após estar preclusa a decisão que determinou o desentranhamento (não
couber mais recurso desta decisão), esta prova será inutilizada pelo Juiz. É o que preconiza o § 3° do art. 157
do CPP.

Art. 157. São inadmissíveis,


devendo ser desentranhadas do
processo, as provas ilícitas, assim
entendidas as obtidas em violação a
normas constitucionais ou legais. §
3o Preclusa a decisão de
desentranhamento da prova
declarada inadmissível, esta será
inutilizada por decisão judicial,
facultado às partes acompanhar o
incidente.

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CUIDADO: Há parcela da Doutrina (considerável parcela) sustentando a possibilidade de utilização de prova
ilícita se for a única prova que possa conduzir à absolvição do réu, ou comprovar fato importante para sua
defesa, em razão do princípio da proporcionalidade, deverá ser utilizada no processo.

Outra questão interessante diz respeito à impossibilidade de o Juiz que conhecer do conteúdo da
prova declarada inadmissível vir a proferir posteriormente a sentença ou acórdão:

Art. 157 (...) § 5º O juiz que conhecer


do conteúdo da prova declarada
inadmissível não poderá proferir a
sentença ou acórdão - DECLARADO
INCONSTITUCIONAL PELO STF!!

Qual a razão de tal vedação, professor? A razão é simples. Quando o Juiz declara inadmissível uma
prova, dada sua ilicitude, aquela prova passa a não fazer mais parte dos autos do processo e, portanto, não
pode ser utilizada para formar o convencimento do Juiz. Todavia, na prática, nenhum ser humano é
absolutamente isento e capaz de fazer tal separação. Imagine que um Juiz tomou conhecimento de uma
confissão realizada pelo réu, mas tal confissão foi obtida mediante interceptação telefônica clandestina.
Ainda que o referido Juiz não possa fundamentar sua decisão com base naquela confissão (prova ilícita), é
inegável que aquilo está na cabeça do Juiz e vai fazer com que o mesmo olhe para as demais provas dos autos
já com a imagem de um culpado em sua cabeça.

Diferentemente do que ocorre com as provas ilícitas, em que a natureza e a gravidade dos crimes
podem implicar a sua utilização, no que tange às provas ilegítimas, o critério para definição de sua utilização
ou não será outro.

Para que se defina se a prova ilegítima (obtida ou produzida mediante violação à norma de caráter
processual) será utilizada ou não, devemos distingui-las em dois grupos: provas ilegítimas por violação a
norma processual de caráter absoluto (que importam nulidade absoluta) e provas ilegítimas por violação a
norma processual de caráter relativo (que importam em nulidade relativa).

A prova decorrente de violação à norma processual de caráter absoluto (nulidade absoluta) jamais
poderá ser utilizada no processo, pois as nulidades absolutas, são questões de ordem pública e são
insanáveis. O STF e o STJ estão relativizando isso, ao fundamento de que não pode ser declarada qualquer
nulidade sem comprovação da ocorrência de prejuízo).

Já a prova decorrente de violação à norma processual de caráter relativo (nulidade relativa), poderá
ser utilizada, desde que não haja impugnação à sua ilegalidade (essa ilegalidade deve ser arguida por alguma
das partes, não podendo o Juiz suscitá-la de ofício), ou tenha sido sanada a irregularidade em tempo
oportuno.

Seja como for, de acordo com a Doutrina majoritária, às provas ilegítimas deve ser aplicado o regime
jurídico das nulidades, e não as regras atinentes às provas ilícitas, que vimos anteriormente.

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Dispositivos legais pertinentes

CÓDIGO DE PROCESSO PENAL


DA PROVA
CAPÍTULO I
DISPOSIÇÕES GERAIS

Art. 155. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova
produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão
exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as
provas cautelares, não repetíveis e antecipadas. Parágrafo único. Somente quanto
ao estado das pessoas serão observadas as restrições estabelecidas na lei civil.

Art. 156. A prova da alegação incumbirá a quem a fizer, sendo, porém,


facultado ao juiz de ofício: I – ordenar, mesmo antes de iniciada a ação penal, a
produção antecipada de provas consideradas urgentes e relevantes, observando a
necessidade, adequação e proporcionalidade da medida; II – determinar, no curso
da instrução, ou antes de proferir sentença, a realização de diligências para dirimir
dúvida sobre ponto relevante.
Art. 157. São inadmissíveis, devendo ser desentranhadas do processo, as
provas ilícitas, assim entendidas as obtidas em violação a normas constitucionais ou
legais. § 1° São também inadmissíveis as provas derivadas das ilícitas, salvo quando
não evidenciado o nexo de causalidade entre umas e outras, ou quando as derivadas
puderem ser obtidas por uma fonte independente das primeiras. § 2° Considera-se
fonte independente aquela que por si só, seguindo os trâmites típicos e de praxe,
próprios da investigação ou instrução criminal, seria capaz de conduzir ao fato objeto
da prova. § 3° Preclusa a decisão de desentranhamento da prova declarada
inadmissível, esta será inutilizada por decisão judicial, facultado às partes
acompanhar o incidente. (Incluído pela Lei nº 11.690, de 2008) § 4° (VETADO). § 5º
O juiz que conhecer do conteúdo da prova declarada inadmissível não poderá
proferir a sentença ou acórdão.

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EXERCÍCIOS COMENTADOS – TEORIA GERAL DA PROVA

(CESPE – 2018 – PC-MA – DELEGADO – ADAPTADA)


Em atendimento ao princípio da legalidade, no processo penal brasileiro são inadmissíveis provas
não previstas expressamente no CPP.

COMENTÁRIOS: Item errado, pois o Brasil não adotou o sistema taxativo da prova. O sistema taxativo
implica a impossibilidade de produção de outros meios de prova que não sejam aqueles expressamente
previstos na Lei Processual. No Brasil, é plenamente possível a utilização de meios de prova inominados ou
atípicos (não previstos expressamente na Lei).
RESPOSTA ERRADA.

(CESPE – 2017 – PC-MT – DELEGADO – ADAPTADA)


De acordo com o princípio do livre convencimento motivado, a decisão judicial condenatória
poderá ser fundamentada exclusivamente nos elementos probatórios coletados durante o inquérito
policial.

COMENTÁRIOS: Item errado, pois o art. 155 do CPP expressamente veda que a decisão seja
fundamentada apenas em elementos de convicção colhidos durante a fase pré-processual: Art. 155. O juiz
formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo
fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas
as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas.
RESPOSTA ERRADA

(CESPE – 2017 – DPU – DEFENSOR PÚBLICO FEDERAL)


Acerca dos sistemas de apreciação de provas e da licitude dos meios de prova, julgue o item
subsequente. Embora o ordenamento jurídico brasileiro tenha adotado o sistema da persuasão racional
para a apreciação de provas judiciais, o CPP remete ao sistema da prova tarifada, como, por exemplo,
quando da necessidade de se provar o estado das pessoas por meio de documentos indicados pela lei civil.
COMENTÁRIOS: Item correto, pois o CPP adota, como regra geral, o sistema da persuasão racional,
ou sistema do livre convencimento baseado em provas, na forma do art. 155 do CPP.
Todavia, em alguns casos, o CPP se remete ao sistema da prova tarifada, quando, por exemplo, exige
a certidão de óbito para a prova da morte com vistas à extinção da punibilidade (art. 62 do CPP).
O mesmo se dá com relação à prova do estado civil das pessoas, que exige o cumprimento das
restrições impostas pela lei civil, na forma do art. 155, § único do CPP.
RESPOSTA CORRETA

(CESPE – 2016 – PC-PE – AGENTE DE POLÍCIA – ADAPTADA)


Conforme a teoria dos frutos da árvore envenenada, são inadmissíveis provas ilícitas no processo
penal, restringindo-se o seu aproveitamento a casos excepcionais, mediante decisão fundamentada do
juiz.

COMENTÁRIOS: Item errado, pois as provas derivadas das ilícitas são também inadmissíveis, sendo
consideradas contaminadas pela prova originariamente ilícita, devendo ser desentranhadas do processo,

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“salvo quando não evidenciado o nexo de causalidade entre umas e outras, ou quando as derivadas puderem
ser obtidas por uma fonte independente das primeiras”, na forma do art. 157, §1º do CPP.
RESPOSTA ERRADA

(CESPE – 2013 – PRF – POLICIAL RODOVIÁRIO FEDERAL)


A prova declarada inadmissível pela autoridade judicial por ter sido obtida por meios ilícitos deve
ser juntada em autos apartados dos principais, não podendo servir de fundamento à condenação do réu.

COMENTÁRIOS: Pela redação do art. 157 §3º do CPP, a prova, neste caso, deverá ser inutilizada, e
não juntada em autos apartados. Vejamos: Art. 157. (...) § 3º Preclusa a decisão de desentranhamento da
prova declarada inadmissível, esta será inutilizada por decisão judicial, facultado às partes acompanhar o
incidente.
RESPOSTA ERRADA

(CESPE – 2013 – TJDF – ANALISTA JUDICIÁRIO)


Consideram-se ilícitas, inadmissíveis no processo penal, as provas que importem em violação de
normas de direito material (Constituição ou leis), mas não de normas de direito processual.

COMENTÁRIOS: O item está correto. Na tradicional classificação das provas, as provas ILEGAIS se
dividem em provas ILÍCITAS e provas ILEGÍTIMAS. As primeiras são violações a normas de direito material (e
ainda se dividem em ilícitas propriamente ditas e ilícitas por derivação). As segundas são obtidas com violação
a normas de direito processual.
Embora todas sejam consideradas ILEGAIS, o termo “ilícitas”, de fato, não se aplica às provas obtidas
com violação às normas de direito processual.
RESPOSTA CERTA

(CESPE – 2014 – TJ/CE – TÉCNICO - ADAPTADA)


Com base no disposto na Constituição Federal de 1988 acerca do processo penal, assinale a opção
correta. As provas obtidas por meios ilícitos, desde que produzidas durante inquérito policial, poderão ser
admitidas no processo.
COMENTÁRIOS: São inadmissíveis no processo as provas obtidas por meios ilícitos,
independentemente da fase em que tenham sido produzidas. Vejamos: Art. 5º (...) LVI - São inadmissíveis,
no processo, as provas obtidas por meios ilícitos;
RESPOSTA ERRADA

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DO EXAME DE CORPO DE DELITO, DA CADEIA DE CUSTÓDIA E DAS PERÍCIAS EM GERAL

Do exame de corpo de delito e perícias em geral

1 - Noções gerais, obrigatoriedade e prioridade na realização

O exame de corpo de delito nada mais é que a perícia realizada sobre os vestígios deixados pela
infração penal, com a finalidade é comprovar a materialidade (existência) das infrações que deixam vestígios.

EXEMPLO: José, com dolo de matar, atirou contra Maria, que veio a óbito. Os peritos, então, realizaram o
exame de corpo de delito, ou seja, o exame pericial sobre o corpo da vítima e demais vestígios da infração,
com vistas a comprovar se houve, de fato, homicídio, bem como as demais circunstâncias do crime.

O exame de corpo de delito pode ser direto, quando realizado pelo perito diretamente sobre o
vestígio deixado, ou indireto, quando o perito realizar o exame com base em informações verossímeis
fornecidas a ele.

EXEMPLO: Houve determinado crime de furto qualificado pelo arrombamento. Todavia, não foi realizado o
exame de corpo de delito diretamente sobre os vestígios da infração. Posteriormente, a vítima compareceu
à delegacia e registrou ocorrência, mas os vestígios já haviam desaparecido. Todavia, a própria vítima havia
tirado fotos da porta arrombada e feito um vídeo. Além disso, duas testemunhas descreveram como se
encontravam os vestígios da infração. O perito, portanto, pode ser capaz de elaborar um laudo pericial com
base nas informações fornecidas a ele, de forma que haverá um exame de corpo de delito indireto.

O art. 158 do CPP estabelece a obrigatoriedade de realização do exame de corpo de delito nos crimes
que deixam vestígios, chamados de crimes “não transeuntes”. Mais que isso, o art. 158 do CPP estabelece
que se a infração deixar vestígios, a confissão do acusado não será capaz de afastar a necessidade do exame
de corpo de delito. Vejamos:

Art. 158. Quando a infração deixar


vestígios, será indispensável o exame
de corpo de delito, direto ou indireto,
não podendo supri-lo a confissão do
acusado.

O art. 167 do CPP, porém, autoriza a comprovação da materialidade delitiva mediante prova
testemunhal quando desaparecerem os vestígios:

Art. 167. Não sendo possível o


exame de corpo de delito, por
haverem desaparecido os vestígios,
a prova testemunhal poderá suprir-
lhe a falta.

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O exame de corpo de delito pode ser realizado tanto na fase investigatória quanto na fase de
instrução do processo criminal. Inclusive, o art. 184 do CPP estabelece que a autoridade não pode indeferir
a realização de exame de corpo de delito:

Art. 184. Salvo o caso de exame de


corpo de delito, o juiz ou a
autoridade policial negará a perícia
requerida pelas partes, quando não
for necessária ao esclarecimento da
verdade.

Como se vê pela leitura do art. 184, a autoridade poderá negar a realização de perícia requerida pelas
partes, exceto quando se tratar do exame de corpo de delito.
O §único do art. 158, incluído pela Lei 13.721/18, passou a estabelecer uma prioridade de
atendimento para realização do exame de corpo de delito. Haverá prioridade para realização do exame de
corpo de delito quando se tratar de:
➔ Crime que envolva violência doméstica e familiar contra a mulher;

➔ Crime que envolva violência contra criança adolescente, idoso ou pessoa com
deficiência

Art. 158. Quando a infração deixar


vestígios, será indispensável o exame
de corpo de delito, direto ou indireto,
não podendo supri-lo a confissão do
acusado. Parágrafo único. Dar-se-á
prioridade à realização do exame de
corpo de delito quando se tratar de
crime que envolva: (Incluído dada
pela Lei nº 13.721, de 2018). I -
violência doméstica e familiar contra
mulher; II - violência contra criança,
adolescente, idoso ou pessoa com
deficiência.

2 - Realização do exame e valoração da prova

Nos termos do art. 159 do CPP, o exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por um
perito oficial. Vejamos:

Art. 159. O exame de corpo de delito


e outras perícias serão realizados por
perito oficial, portador de diploma de
curso superior.

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Na falta de perito oficial, porém, o exame será realizado por duas pessoas idôneas, portadoras de
diploma de curso superior, preferencialmente na área da perícia, chamados de peritos não oficiais. Ou seja,
serão dois peritos não oficiais:
Art. 159 (...) § 1° Na falta de perito
oficial, o exame será realizado por 2
(duas) pessoas idôneas, portadoras
de diploma de curso superior
preferencialmente na área
específica, dentre as que tiverem
habilitação técnica relacionada com
a natureza do exame. § 2° Os peritos
não oficiais prestarão o
compromisso de bem e fielmente
desempenhar o encargo.

IMPORTANTE: Em se tratando de perito oficial, basta um. Caso estejamos diante de peritos não oficiais, a
lei exige que sejam dois (art. 159 e seu § 1° do CPP). No caso de peritos não oficiais, estes deverão prestar
compromisso (art. 159, § 2° do CPP).
Mesmo os peritos não oficiais devem ser portadores de diploma de curso superior, sendo facultativo
que esse diploma seja na área da perícia. Ademais, os peritos não oficiais deverão prestar o compromisso de
bem e fielmente desempenhar o encargo.

OBSERVAÇÃO: Sobre o perito, é importante destacar que as partes não podem intervir em sua nomeação,
até para preservar sua imparcialidade, nos termos do art. 276 do CPP.

Art. 276. As partes não intervirão na


nomeação do perito.

As partes, o ofendido e o assistente de acusação podem formular quesitos, indicar assistentes


técnicos e requerer esclarecimentos aos peritos (art. 159, §§ 3°, 4° e 5° do CPP). Frise-se que os quesitos são
prévios ao laudo, pois são perguntas a serem respondidas pelo perito, enquanto o pedido de esclarecimentos
ao perito é posterior ao laudo, em razão de dúvidas que a parte possui acerca do laudo produzido.

Art. 159 (...) § 3o Serão facultadas ao


Ministério Público, ao assistente de
acusação, ao ofendido, ao
querelante e ao acusado a
formulação de quesitos e indicação
de assistente técnico. § 4o O
assistente técnico atuará a partir de
sua admissão pelo juiz e após a
conclusão dos exames e elaboração
do laudo pelos peritos oficiais, sendo

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as partes intimadas desta decisão. §
5o Durante o curso do processo
judicial, é permitido às partes,
quanto à perícia: I – requerer a oitiva
dos peritos para esclarecerem a
prova ou para responderem a
quesitos, desde que o mandado de
intimação e os quesitos ou questões
a serem esclarecidas sejam
encaminhados
com antecedência mínima de 10
(dez) dias, podendo apresentar as
respostas em laudo
complementar; II – indicar
assistentes técnicos que poderão
apresentar pareceres em prazo a ser
fixado pelo juiz ou ser inquiridos em
audiência.

Os quesitos e eventuais pedidos de esclarecimentos ao perito devem ser repassados ao perito com
antecedência mínima de 10 dias, nos termos do art. 159, §5º, I do CPP.

O assistente técnico, por sua vez, é um expert, um profissional da área, alguém que possui os
conhecimentos técnicos necessários para acompanhar o exame pericial. Já os quesitos são perguntas que a
parte elabora e que devem ser respondidas pelo perito quando da elaboração do laudo pericial. Vamos a
exemplo:

EXEMPLO: Em determinado processo criminal pela suposta prática do crime de lesão corporal grave, o Juiz
determinou a realização de exame de corpo de delito, para comprovar a materialidade do crime, nomeando
o perito Ricardo. A defesa do acusado, indicou o assistente técnico José, e formulou três quesitos a serem
respondidos pelo perito Ricardo: a) A vítima sofreu lesão corporal; b) é possível precisar com que instrumento
a lesão corporal teria sido provocada; c) qual teriam sido as consequências das lesões?

Perceba que caberá ao perito Ricardo responder aos quesitos formulados pela defesa do acusado.

E qual a função do assistente técnico José? José é um auxiliar da parte que o contratou, e terá a
função de verificar se a perícia foi bem feita, se foram seguidos os padrões exigidos para uma perícia desta
natureza e informar a quem o contratou (a defesa do acusado) se há algo a impugnar ou não.

Assim, o perito é o “expert” nomeado pela autoridade (delegado, se na fase do inquérito, ou Juiz, se
na fase do processo) para realizar o exame pericial, devendo ser imparcial. Já o assistente técnico está lá
para defender os interesses da parte que o indicou, sendo, portanto, parcial. O assistente técnico só atuará
a partir de sua admissão pelo Juiz.

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IMPORTANTE: Em se tratando de perícia complexa, que abranja mais de uma área de conhecimento, poderá
o Juiz designar mais de um perito oficial (nesse caso, a parte também poderá indicar mais de um assistente
técnico).

EXEMPLO: Num determinado processo é necessária perícia em engenharia. Contudo, será necessária perícia
em engenharia ambiental e em engenharia civil, pois existem questões controvertidas a serem resolvidas em
ambas as áreas. Nesse caso, o Juiz pode designar um perito para cada área da perícia, bem como a parte
poderá designar um assistente técnico para cada área.

O art. 159, § 5°, II do CPP, possibilita, ainda, que os assistentes técnicos sejam inquiridos em
audiência, do que decorre a interpretação de que possam, também, ser alvo de pedidos de esclarecimentos
quanto aos laudos que apresentarem (os assistentes técnicos podem apresentar seus próprios laudos).
Na elaboração do laudo os peritos devem descrever minuciosamente o que examinarem, e
responderão aos quesitos formulados pelas partes, na forma do art. 160 do CPP, devendo o laudo ser
entregue no prazo de 10 dias. Esse prazo pode ser prorrogado, em casos excepcionais, a requerimento dos
peritos.

IMPORTANTE: Ainda, que não há restrição de horário e data para realização do exame de corpo de delito,
que pode ser realizado em qualquer dia e em qualquer horário.

Art. 161. O exame de corpo de delito poderá


ser feito em qualquer dia e a qualquer hora.

Durante a elaboração do laudo pericial, pode ser que ocorra divergência entre os peritos. Nesse caso,
o art. 180 do CPP estabelece o que segue:

Art. 180. Se houver divergência entre os


peritos, serão consignadas no auto do exame
as declarações e respostas de um e de outro,
ou cada um redigirá separadamente o seu
laudo, e a autoridade nomeará um terceiro;
se este divergir de ambos, a autoridade
poderá mandar proceder a novo exame por
outros peritos.

Assim, serão consignadas no auto as declarações e respostas de um e de outro, ou cada um redigirá


separadamente o seu laudo, e a autoridade deverá nomear um terceiro perito. Caso o terceiro perito
discorde de ambos, a autoridade poderá mandar proceder à realização de um novo exame pericial.

Uma vez produzido o laudo pericial e finalizada a instrução, chega o momento de o Juiz proferir
sentença. Na sentença o Juiz não ficará vinculado ao laudo, podendo aceitá-lo ou rejeitá-lo, no todo ou em
parte. Trata-se do sistema liberatório de apreciação da prova pericial. Vejamos:

Art. 182. O juiz não ficará adstrito ao laudo,


podendo aceitá-lo ou rejeitá-lo, no todo ou
em parte.

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Esse sistema guarda estreita relação com o sistema do livre convencimento motivado de apreciação
da prova, previsto no art. 155 do CPP.

EXEMPLO: José foi denunciado pela prática do crime de furto qualificado pelo arrombamento. Foi realizado
exame de corpo de delito para comprovar a materialidade da qualificadora do rompimento de
obstáculo/arrombamento. O perito, no laudo, concluiu ter havido arrombamento, provavelmente com uso
de um pé-de-cabra. O Juiz, porém, não reconheceu a existência da qualificadora, e condenou o réu apenas
por furto simples, por entender que as demais provas dos autos, notadamente o depoimento das
testemunhas, comprovaram que não houve arrombamento.

3 - Regras especiais

Vou elencar, abaixo, algumas regras para determinadas espécies de perícias, conforme estabelecido
no CPP:

ESPÉCIE DE PERÍCIA REGRAMENTO DO CPP


 Pelo menos seis horas após o óbito (salvo
se pelos sinais da morte os peritos
entenderem que pode ser feita antes)
 No caso de morte violenta, basta o exame
externo do cadáver
 Os cadáveres serão sempre fotografados
na posição em que forem encontrados, bem
AUTÓPSIA como as lesões externas e vestígios
deixados no local
 Para melhor esclarecer as lesões
encontradas, os peritos, quando possível,
juntarão ao laudo do exame provas
fotográficas, esquemas ou desenhos,
devidamente rubricados
 Serão arrecadados e autenticados todos os
objetos encontrados que possam ser úteis à
identificação do cadáver
 Caso o primeiro exame tenha sido
incompleto, será procedido a novo exame,
por determinação da autoridade policial ou
do Juiz
 O exame complementar pode ser
determinado de ofício (sem requerimento
de ninguém) ou a requerimento do MP, do
ofendido, do acusado ou de seu defensor
 No exame complementar os peritos terão
LESÕES CORPORAIS em mãos auto de corpo de delito, para
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poderem complementá-lo ou retificá-lo
(caso contenha erros)
 Se a finalidade for comprovar que se trata
de crime de lesão corporal GRAVE (por
deixar a vítima afastada de suas atividades
habituais por mais de 30 dias), deverá o
exame ser realizado logo após o prazo de 30
dias
 A ausência do exame complementar pode
ser suprida pela prova testemunhal
 Os peritos, além de descrever os vestígios,
ANÁLISE DE DESTRUIÇÃO DE COISAS OU indicarão com que instrumentos, por que
ROMPIMENTO DE OBSTÁCULO meios e em que época presumem ter sido o
fato praticado, podendo proceder-se,
quando necessário, à avaliação de coisas
destruídas, deterioradas ou que constituam
produto do crime
Deve ser verificada (o):
 A causa e o lugar em que houver começado
 O perigo que dele tiver resultado para a
INCÊNDIO vida ou para o patrimônio alheio
 A extensão do dano e o seu valor
 Demais circunstâncias que interessarem à
elucidação do fato
RECONHECIMENTO DE ESCRITOS Devem ser observadas as seguintes regras
(literalidade do CPP):
● A pessoa a quem se atribua ou se possa
atribuir o escrito será intimada para o ato, se for
encontrada
● Para a comparação, poderão servir quaisquer
documentos que a dita pessoa reconhecer ou já
tiverem sido judicialmente reconhecidos como
de seu punho, ou sobre cuja autenticidade não
houver dúvida
● A autoridade, quando necessário, requisitará,
para o exame, os documentos que existirem em
arquivos ou estabelecimentos públicos, ou
nestes realizará a diligência, se daí não puderem
ser retirados
● Quando não houver escritos para a
comparação ou forem insuficientes os exibidos,
a autoridade mandará que a pessoa escreva o
que lhe for ditado. Se estiver ausente a pessoa,
mas em lugar certo, esta última diligência
poderá ser feita por precatória, em que se
consignarão as palavras que a pessoa será
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intimada a escrever (CUIDADO! O acusado não
está obrigado a fornecer os padrões gráficos
para a realização do exame, ou seja, não está
obrigado a escrever nada, pelo princípio do
nemo tenetur se detegere, ou seja, ninguém
pode ser obrigado a produzir prova contra si
próprio).

DA CADEIA DE CUSTÓDIA

O art. 158-A conceitua “cadeia de custódia” como: “O conjunto de todos os procedimentos utilizados
para manter e documentar a história cronológica do vestígio coletado em locais ou em vítimas de crimes,
para rastrear sua posse e manuseio a partir de seu reconhecimento até o descarte.”

Assim, a cadeia de custódia dos vestígios (criada pela lei 13.964/19, o chamado “pacote anticrime”)
se inicia:
➔ Com a preservação do local de crime; ou
➔ Com procedimentos policiais ou periciais nos quais seja detectada a existência de vestígio

Desta forma, é dever do agente público (que reconhecer um elemento como de potencial interesse
para a produção da prova pericial) preservar o vestígio da infração penal. Ademais, o art. 158-A, em seu §2º,
estabelece:

Art. 158-A (...) § 2º O agente público que


reconhecer um elemento como de potencial
interesse para a produção da prova pericial
fica responsável por sua preservação.

EXEMPLO: Se um policial encontra uma cápsula de munição na cena de um crime de homicídio praticado por
meio de disparo de arma de fogo, sua obrigação é identificá-la como possível elemento útil à produção da
prova pericial e zelar pela preservação deste vestígio.

A propósito, considera-se vestígio: “Todo objeto ou material bruto, visível ou latente, constatado ou
recolhido, que se relaciona à infração penal”.

Trago um mnemônico desde a introdução da cadeia de custódia no CPP, que é:

REI FICA TREPADO


➔ REconhecimento
➔ Isolamento
➔ FIxação
➔ Coleta
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➔ Acondicionamento
➔ Transporte
➔ REcebimento
➔ Processamento
➔ Armazenamento
➔ Descarte

O ato relativo à coleta, de acordo com o art. 158-C, deve ser realizado preferencialmente por perito
oficial. Além disso, todos vestígios coletados no curso da persecução penal (investigação ou processo
criminal) devem ser tratados como previsto na Lei. Fica proibida, ainda, a entrada em locais isolados bem
como a remoção de quaisquer vestígios de locais de crime antes da liberação pelo perito responsável.

Art. 158-C. A coleta dos vestígios deverá ser


realizada preferencialmente por perito
oficial, que dará o encaminhamento
necessário para a central de custódia,
mesmo quando for necessária a realização
de exames complementares. § 1º Todos
vestígios coletados no decurso do inquérito
ou processo devem ser tratados como
descrito nesta Lei, ficando órgão central de
perícia oficial de natureza criminal
responsável por detalhar a forma do seu
cumprimento. § 2º É proibida a entrada em
locais isolados bem como a remoção de
quaisquer vestígios de locais de crime antes
da liberação por parte do perito responsável,
sendo tipificada como fraude processual a
sua realização.

Nos termos do art. 158-D, o recipiente para que seja realizado acondicionamento do vestígio será
determinado de acordo com a natureza do material (vestígio), a fim de permitir o correto armazenamento
do vestígio. Todavia, algumas regras devem ser seguidas:

Art. 158-D. O recipiente para


acondicionamento do vestígio será
determinado pela natureza do material. § 1º
Todos os recipientes deverão ser selados com
lacres, com numeração individualizada, de
forma a garantir a inviolabilidade e a
idoneidade do vestígio durante o
transporte. § 2º O recipiente deverá
individualizar o vestígio, preservar suas
características, impedir contaminação e

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vazamento, ter grau de resistência adequado
e espaço para registro de informações sobre
seu conteúdo. § 3º O recipiente só poderá
ser aberto pelo perito que vai proceder à
análise e, motivadamente, por pessoa
autorizada. § 4º Após cada rompimento de
lacre, deve se fazer constar na ficha de
acompanhamento de vestígio o nome e a
matrícula do responsável, a data, o local, a
finalidade, bem como as informações
referentes ao novo lacre utilizado.

➔ Todos os recipientes deverão ser selados com lacres, com numeração


individualizada
➔ O recipiente deverá individualizar o vestígio, preservar suas características,
impedir contaminação e vazamento, ter grau de resistência adequado e espaço para registro
de informações sobre seu conteúdo.
➔ O recipiente só poderá ser aberto pelo perito que vai proceder à análise e,
motivadamente, por pessoa autorizada.
➔ Após cada rompimento de lacre, deve se fazer constar na ficha de
acompanhamento de vestígio o nome e a matrícula do responsável, a data, o local, a
finalidade, bem como as informações referentes ao novo lacre utilizado
➔ O lacre rompido deverá ser acondicionado no interior do novo recipiente.

Os arts. 158-E e 158-F, por sua vez, estabelecem a necessidade de que cada Instituto de Criminalística
tenha uma Central de Custódia:

Art. 158-E. Todos os Institutos de


Criminalística deverão ter uma
central de custódia destinada à
guarda e controle dos vestígios, e sua
gestão deve ser vinculada
diretamente ao órgão central de
perícia oficial de natureza criminal. §
1º Toda central de custódia deve
possuir os serviços de protocolo, com
local para conferência, recepção,
devolução de materiais e
documentos, possibilitando a
seleção, a classificação e a
distribuição de materiais, devendo
ser um espaço seguro e apresentar
condições ambientais que não
interfiram nas características do
vestígio. § 2º Na central de custódia,

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a entrada e a saída de vestígio
deverão ser protocoladas,
consignando-se informações sobre a
ocorrência no inquérito que a eles se
relacionam. § 3º Todas as pessoas
que tiverem acesso ao vestígio
armazenado deverão ser
identificadas e deverão ser
registradas a data e a hora do
acesso. § 4º Por ocasião da
tramitação do vestígio armazenado,
todas as ações deverão ser
registradas, consignando-se a
identificação do responsável pela
tramitação, a destinação, a data e
horário da ação.

Art. 158-F. Após a realização da


perícia, o material deverá ser
devolvido à central de custódia,
devendo nela permanecer.
Parágrafo único. Caso a central de
custódia não possua espaço ou
condições de armazenar
determinado material, deverá a
autoridade policial ou judiciária
determinar as condições de depósito
do referido material em local diverso,
mediante requerimento do diretor
do órgão central de perícia oficial de
natureza criminal.

Apesar das regras claras e específicas sobre como o vestígio deve ser tratado, manuseado e
registrado durante a persecução penal, pode ser que ocorra alguma intercorrência, ou seja, a quebra na
cadeia de custódia (ex.: acesso de alguém não autorizado ao vestígio, modificação do local do crime, extravio
de parte do vestígio coletado, etc.).

Havendo quebra na cadeia de custódia, isso conduzirá à nulidade do processo ou à imprestabilidade


da prova? A quebra na cadeia de custódia não gera nulidade do processo, mas pode conduzir à
imprestabilidade da prova, cabendo ao Juiz, no caso concreto, avaliar se, mesmo diante da intercorrência
identificada, a prova é confiável ou não (STJ - AgRg no HC n. 818.830/PE, relator Ministro Jesuíno Rissato
(Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta Turma, julgado em 23/10/2023, DJe de 26/10/2023.)

Dispositivos legais pertinentes

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CÓDIGO DE PROCESSO PENAL
Arts. 158 a 184 do CPP - Regulamentam as espécies de prova no CPP
DO EXAME DE CORPO DE DELITO, DA CADEIA DE CUSTÓDIA E DAS PERÍCIAS EM GERAL

Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de
delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado.

Art. 158-A. Considera-se cadeia de custódia o conjunto de todos os procedimentos


utilizados para manter e documentar a história cronológica do vestígio coletado em
locais ou em vítimas de crimes, para rastrear sua posse e manuseio a partir de seu
reconhecimento até o descarte. § 1º O início da cadeia de custódia dá-se com a
preservação do local de crime ou com procedimentos policiais ou periciais nos quais
seja detectada a existência de vestígio. § 2º O agente público que reconhecer um
elemento como de potencial interesse para a produção da prova pericial fica
responsável por sua preservação. § 3º Vestígio é todo objeto ou material bruto, visível
ou latente, constatado ou recolhido, que se relaciona à infração penal.

Art. 158-B. A cadeia de custódia compreende o rastreamento do vestígio nas


seguintes etapas: (Incluído pela Lei 13.964/19) I - reconhecimento: ato de distinguir
um elemento como de potencial interesse para a produção da prova pericial; II -
isolamento: ato de evitar que se altere o estado das coisas, devendo isolar e preservar
o ambiente imediato, mediato e relacionado aos vestígios e local de crime; III -
fixação: descrição detalhada do vestígio conforme se encontra no local de crime ou
no corpo de delito, e a sua posição na área de exames, podendo ser ilustrada por
fotografias, filmagens ou croqui, sendo indispensável a sua descrição no laudo
pericial produzido pelo perito responsável pelo atendimento; IV - coleta: ato de
recolher o vestígio que será submetido à análise pericial, respeitando suas
características e natureza; V - acondicionamento: procedimento por meio do qual
cada vestígio coletado é embalado de forma individualizada, de acordo com suas
características físicas, químicas e biológicas, para posterior análise, com anotação da
data, hora e nome de quem realizou a coleta e o acondicionamento; VI - transporte:
ato de transferir o vestígio de um local para o outro, utilizando as condições
adequadas (embalagens, veículos, temperatura, entre outras), de modo a garantir a
manutenção de suas características originais, bem como o controle de sua posse; VII
- recebimento: ato formal de transferência da posse do vestígio, que deve ser
documentado com, no mínimo, informações referentes ao número de procedimento
e unidade de polícia judiciária relacionada, local de origem, nome de quem
transportou o vestígio, código de rastreamento, natureza do exame, tipo do vestígio,
protocolo, assinatura e identificação de quem o recebeu; VIII - processamento: exame
pericial em si, manipulação do vestígio de acordo com a metodologia adequada às
suas características biológicas, físicas e químicas, a fim de se obter o resultado
desejado, que deverá ser formalizado em laudo produzido por perito; IX -
armazenamento: procedimento referente à guarda, em condições adequadas, do
material a ser processado, guardado para realização de contraperícia, descartado ou
transportado, com vinculação ao número do laudo correspondente; X - descarte:

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procedimento referente à liberação do vestígio, respeitando a legislação vigente e,
quando pertinente, mediante autorização judicial.’

Art. 158-C. A coleta dos vestígios deverá ser realizada preferencialmente por perito
oficial, que dará o encaminhamento necessário para a central de custódia, mesmo
quando for necessária a realização de exames complementares. § 1º Todos vestígios
coletados no decurso do inquérito ou processo devem ser tratados como descrito
nesta Lei, ficando órgão central de perícia oficial de natureza criminal responsável
por detalhar a forma do seu cumprimento. § 2º É proibida a entrada em locais
isolados bem como a remoção de quaisquer vestígios de locais de crime antes da
liberação por parte do perito responsável, sendo tipificada como fraude processual a
sua realização.

Art. 158-D. O recipiente para acondicionamento do vestígio será determinado pela


natureza do material. § 1º Todos os recipientes deverão ser selados com lacres, com
numeração individualizada, de forma a garantir a inviolabilidade e a idoneidade do
vestígio durante o transporte. § 2º O recipiente deverá individualizar o vestígio,
preservar suas características, impedir contaminação e vazamento, ter grau de
resistência adequado e espaço para registro de informações sobre seu conteúdo. § 3º
O recipiente só poderá ser aberto pelo perito que vai proceder à análise e,
motivadamente, por pessoa autorizada. § 4º Após cada rompimento de lacre, deve
se fazer constar na ficha de acompanhamento de vestígio o nome e a matrícula do
responsável, a data, o local, a finalidade, bem como as informações referentes ao
novo lacre utilizado. § 5º O lacre rompido deverá ser acondicionado no interior do
novo recipiente.

Art. 158-E. Todos os Institutos de Criminalística deverão ter uma central de custódia
destinada à guarda e controle dos vestígios, e sua gestão deve ser vinculada
diretamente ao órgão central de perícia oficial de natureza criminal. § 1º Toda central
de custódia deve possuir os serviços de protocolo, com local para conferência,
recepção, devolução de materiais e documentos, possibilitando a seleção, a
classificação e a distribuição de materiais, devendo ser um espaço seguro e
apresentar condições ambientais que não interfiram nas características do vestígio.
§ 2º Na central de custódia, a entrada e a saída de vestígio deverão ser protocoladas,
consignando-se informações sobre a ocorrência no inquérito que a eles se
relacionam. § 3º Todas as pessoas que tiverem acesso ao vestígio armazenado
deverão ser identificadas e deverão ser registradas a data e a hora do acesso. § 4º
Por ocasião da tramitação do vestígio armazenado, todas as ações deverão ser
registradas, consignando-se a identificação do responsável pela tramitação, a
destinação, a data e horário da ação.

Art. 158-F. Após a realização da perícia, o material deverá ser devolvido à central de
custódia, devendo nela permanecer. Parágrafo único. Caso a central de custódia não
possua espaço ou condições de armazenar determinado material, deverá a
autoridade policial ou judiciária determinar as condições de depósito do referido

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material em local diverso, mediante requerimento do diretor do órgão central de
perícia oficial de natureza criminal.

Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito
oficial, portador de diploma de curso superior. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de
2008) § 1º Na falta de perito oficial, o exame será realizado por 2 (duas) pessoas
idôneas, portadoras de diploma de curso superior preferencialmente na área
específica, dentre as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza do
exame. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) § 2º Os peritos não oficiais
prestarão o compromisso de bem e fielmente desempenhar o encargo. § 3º Serão
facultadas ao Ministério Público, ao assistente de acusação, ao ofendido, ao
querelante e ao acusado a formulação de quesitos e indicação de assistente técnico.
§ 4º O assistente técnico atuará a partir de sua admissão pelo juiz e após a conclusão
dos exames e elaboração do laudo pelos peritos oficiais, sendo as partes intimadas
desta decisão. § 5º Durante o curso do processo judicial, é permitido às partes, quanto
à perícia: I – requerer a oitiva dos peritos para esclarecerem a prova ou para
responderem a quesitos, desde que o mandado de intimação e os quesitos ou
questões a serem esclarecidas sejam encaminhados com antecedência mínima de 10
(dez) dias, podendo apresentar as respostas em laudo complementar; II – indicar
assistentes técnicos que poderão apresentar pareceres em prazo a ser fixado pelo juiz
ou ser inquiridos em audiência. § 6º Havendo requerimento das partes, o material
probatório que serviu de base à perícia será disponibilizado no ambiente do órgão
oficial, que manterá sempre sua guarda, e na presença de perito oficial, para exame
pelos assistentes, salvo se for impossível a sua conservação. § 7º Tratando-se de
perícia complexa que abranja mais de uma área de conhecimento especializado,
poder-se-á designar a atuação de mais de um perito oficial, e a parte indicar mais de
um assistente técnico.

Art. 160. Os peritos elaborarão o laudo pericial, onde descreverão minuciosamente o


que examinarem, e responderão aos quesitos formulados. Parágrafo único. O laudo
pericial será elaborado no prazo máximo de 10 dias, podendo este prazo ser
prorrogado, em casos excepcionais, a requerimento dos peritos.

Art. 161. O exame de corpo de delito poderá ser feito em qualquer dia e a qualquer
hora.
Art. 162. A autópsia será feita pelo menos seis horas depois do óbito, salvo se os
peritos, pela evidência dos sinais de morte, julgarem que possa ser feita antes
daquele prazo, o que declararão no auto. Parágrafo único. Nos casos de morte
violenta, bastará o simples exame externo do cadáver, quando não houver infração
penal que apurar, ou quando as lesões externas permitirem precisar a causa da morte
e não houver necessidade de exame interno para a verificação de alguma
circunstância relevante.

Art. 163. Em caso de exumação para exame cadavérico, a autoridade providenciará


para que, em dia e hora previamente marcados, se realize a diligência, da qual se
lavrará auto circunstanciado. Parágrafo único. O administrador de cemitério público

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ou particular indicará o lugar da sepultura, sob pena de desobediência. No caso de
recusa ou de falta de quem indique a sepultura, ou de encontrar-se o cadáver em
lugar não destinado a inumações, a autoridade procederá às pesquisas necessárias,
o que tudo constará do auto.

Art. 164. Os cadáveres serão sempre fotografados na posição em que forem


encontrados, bem como, na medida do possível, todas as lesões externas e vestígios
deixados no local do crime.

Art. 165. Para representar as lesões encontradas no cadáver, os peritos, quando


possível, juntarão ao laudo do exame provas fotográficas, esquemas ou desenhos,
devidamente rubricados.

Art. 166. Havendo dúvida sobre a identidade do cadáver exumado, proceder-se-á ao


reconhecimento pelo Instituto de Identificação e Estatística ou repartição congênere
ou pela inquirição de testemunhas, lavrando-se auto de reconhecimento e de
identidade, no qual se descreverá o cadáver, com todos os sinais e indicações.
Parágrafo único. Em qualquer caso, serão arrecadados e autenticados todos os
objetos encontrados, que possam ser úteis para a identificação do cadáver.

Art. 167. Não sendo possível o exame de corpo de delito, por haverem desaparecido
os vestígios, a prova testemunhal poderá suprir-lhe a falta.

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EXERCÍCIOS COMENTADOS – DO EXAME DE CORPO DE DELITO, DA CADEIA DE CUSTÓDIA E DAS PERÍCIAS
EM GERAL

(FCC – 2018 – DPE-AM – DEFENSOR PÚBLICO - ADAPTADA)


O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial, portador de
diploma de curso superior, havendo necessidade, segundo o Código de Processo Penal, de que sua
formação técnica seja a mesma do exame a ser realizado.

COMENTÁRIOS: Item errado. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por
perito oficial, portador de diploma de curso superior. Não há exigência de que o diploma seja na área
objeto da perícia. O mesmo se aplica aos peritos não oficiais. É PREFERENCIAL que a formação seja na área
objeto da perícia: Art. 159. O exame de corpo de delito e outras perícias serão realizados por perito oficial,
portador de diploma de curso superior. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008) § 1º Na falta de perito
oficial, o exame será realizado por 2 (duas) pessoas idôneas, portadoras de diploma de curso superior
preferencialmente na área específica, dentre as que tiverem habilitação técnica relacionada com a natureza
do exame. (Redação dada pela Lei nº 11.690, de 2008)
GABARITO ERRADO

(VUNESP – 2016 – TJM-SP – JUIZ)


O exame de corpo e delito, por expressa determinação legal, exige a assinatura de dois peritos.

COMENTÁRIOS: Item errado, pois o exame de corpo de delito e as perícias em geral serão
realizados por UM perito oficial ou, na sua falta, por dois peritos não oficiais, na forma do art. 159 do CPP.
RESPOSTA ERRADA

(VUNESP – 2016 – TJM-SP – JUIZ)


No procedimento comum, segundo o Código de Processo Penal, o juiz, no interrogatório, não
inicia as perguntas ao réu, devendo inquiri-lo somente após a defesa e apenas em caráter supletivo.

COMENTÁRIOS Item errado, pois primeiramente quem interroga o acusado é o Juiz, e só depois
desta etapa é que o juiz indagará às partes se restou algum fato para ser esclarecido, formulando as
perguntas correspondentes (aquelas que as partes formularam) se o entender pertinente e relevante, na
forma do art. 188 do CPP.
RESPOSTA ERRADA

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DA ACAREAÇÃO

A acareação é ato de “colocar frente a frente” duas pessoas que prestaram informações divergentes.
Fundamenta-se no constrangimento, ou seja, busca-se que o “mentiroso” se retrate da informação errada
que forneceu. Pode ser realizada tanto na fase de investigação quanto na fase processual.

Mas quem pode ser acareado? Nos termos do art. 229 do CPP, podem ser acareados testemunhas,
acusados e ofendidos, entre si (acusado x acusado) ou uns com os outros (ofendido x testemunha). Embora
o CPP fale em “acusado” (fase processual), aplica-se também aos suspeitos/indiciados (fase pré-processual).

Art. 229. A acareação será admitida


entre acusados, entre acusado e
testemunha, entre testemunhas,
entre acusado ou testemunha e a
pessoa ofendida, e entre as pessoas
ofendidas, sempre que divergirem,
em suas declarações, sobre fatos ou
circunstâncias relevantes. Parágrafo
único. Os acareados serão
reperguntados, para que expliquem
os pontos de divergências,
reduzindo-se a termo o ato de
acareação.

A acareação também pode ser feita mediante carta precatória, quando as pessoas a serem acareadas
se encontrarem em localidades distintas. Na verdade, essa hipótese (art. 230 do CPP) descaracteriza a
natureza da acareação, que é a de colocar “frente a frente” duas pessoas, de forma a, mediante
constrangimento, fazer emergir a verdade.

Art. 230. Se ausente alguma


testemunha, cujas declarações
divirjam das de outra, que esteja
presente, a esta se darão a conhecer
os pontos da divergência,
consignando-se no auto o que
explicar ou observar. Se subsistir a
discordância, expedir-se-á
precatória à autoridade do lugar
onde resida a testemunha ausente,
transcrevendo-se as declarações
desta e as da testemunha presente,
nos pontos em que divergirem, bem
como o texto do referido auto, a fim
de que se complete a diligência,
ouvindo-se a testemunha ausente,

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pela mesma forma estabelecida para
a testemunha presente. Esta
diligência só se realizará quando não
importe demora prejudicial ao
processo e o juiz a entenda
conveniente.

DA PROVA DOCUMENTAL

Na forma do art. 232 do CPP, “consideram-se documentos quaisquer escritos, instrumentos ou


papéis, públicos ou particulares”. À fotografia de um documento, desde que autenticada, se dará o mesmo
valor do original.

Art. 232. Consideram-se documentos


quaisquer escritos, instrumentos ou papéis,
públicos ou particulares. Parágrafo único. À
fotografia do documento, devidamente
autenticada, se dará o mesmo valor do
original.

A prova documental pode ser produzida a qualquer tempo pelas partes (art. 231 do CPP), salvo nos
casos em que a lei expressamente veda sua produção fora de um determinado momento.

Art. 231. Salvo os casos expressos em lei, as


partes poderão apresentar documentos em
qualquer fase do processo.

As cartas e demais documentos interceptados ilegalmente, por óbvio, não poderão ser juntados aos
autos. Todavia, as cartas poderão ser exibidas em juízo pelo respectivo destinatário, para a defesa de seu
direito, ainda que não haja consentimento do signatário (remetente). O Juiz também pode determinar a
produção de prova documental (independentemente de requerimento das partes), se tiver notícia de algum
documento importante (art. 234 do CPP).

Art. 234. Se o juiz tiver notícia da existência


de documento relativo a ponto relevante da
acusação ou da defesa, providenciará,
independentemente de requerimento de
qualquer das partes, para sua juntada aos
autos, se possível.

A Doutrina classifica os documentos como:

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⇒ Instrumentos – Aqueles que foram produzidos com a específica finalidade
de produzir prova. Dividem-se em públicos e privados;
⇒ Documento stricto sensu – Todo escrito que não foi produzido com a
finalidade de produzir prova, mas possa, eventualmente, ter essa função. Também
se dividem em públicos e privados.

Valor probante dos documentos

Os documentos, como qualquer prova, possuem o valor que o Juiz lhes atribuir. Entretanto, alguns
documentos, em razão da pessoa que os confeccionou, possuem, inegavelmente, maior valor. O valor dos
documentos não se refere, apenas, ao poder para formar o convencimento do Juiz, mas também à extensão
de sua força probante.

Como assim, professor? Explico!


Os instrumentos públicos (produzidos pela autoridade pública competente) fazem prova:
⇒ Dos fatos ocorridos na presença da autoridade que o elaborou;
⇒ Das declarações de vontade emitidas na presença da autoridade que
lavrou o documento;
⇒ Dos fatos e atos nele documentados;

Já os instrumentos particulares, assinados pelas partes e por duas testemunhas, provam as


obrigações firmadas entre elas. No entanto, essa eficácia não alcança terceiros.

Vícios dos documentos

Pode ocorrer de o documento apresentado possuir algum vício, que pode ser:

⇒ Extrínseco – relacionado à inobservância de determinada formalidade


para a elaboração do documento;
⇒ Intrínseco – relacionado à essência, ao conteúdo do próprio ato; O
documento, embora não viciado, pode ser falso. A falsidade pode ser:
⇒ Material – relativa à criação de um documento falso, fruto da adulteração
de um documento existente ou da criação de um completamente falso;
⇒ Ideológica – refere-se à substância, ao conteúdo do fato documentado.

A diferença entre o vício e a falsidade consiste no dolo do agente. No vício não há propriamente dolo,
mas apenas uma irregularidade. Já na falsidade o documento foi deliberadamente adulterado ou produzido
de maneira errada.

Indícios

Os indícios são elementos de convicção cujo valor é inferior, pois não provam o fato que se discute,
mas provam outro fato, a ele relacionado, que faz induzir que o fato discutido ocorreu ou não.

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Trata-se, portanto, de “circunstância conhecida e provada, que, tendo relação com o fato, autorize,
por indução, concluir-se a existência de outra ou outras circunstâncias”, nos termos do art. 239 do CPP. Parte
da Doutrina, no entanto, admite que se o indício for muito relevante, será considerado prova indiciária,
podendo embasar uma sentença condenatória1 (tese bem discutível).

Art. 239. Considera-se indício a circunstância


conhecida e provada, que, tendo relação com o fato,
autorize, por indução, concluir-se a existência de
outra ou outras circunstâncias.

Os indícios, porém, são diferentes das presunções legais, pois os indícios apenas induzem uma
conclusão mais ou menos lógica (ex.: meu carro foi encontrado estacionado próximo ao local do crime, o que
leva à conclusão de que provavelmente eu estaria ali). Já as presunções legais são situações nas quais a lei
estabelece que são verdadeiros determinados fatos, se outros forem verdadeiros [ex.: Se Ana é menor de
14 anos (fato provado), é incapaz de consentir na relação sexual (fato presumido)]

DA BUSCA E APREENSÃO

Aspectos gerais

Em regra, a “busca e apreensão” é um meio de obtenção de prova. Entretanto, pode ser um meio de
assegurar direitos (quando se determina o arresto de um bem para garantir a reparação civil, por exemplo).
1 Tecnicamente, busca e apreensão são duas coisas distintas, pois pode haver busca sem que se consiga
apreender pessoa ou coisa, bem como pode haver apreensão sem que tenha havido busca (entrega
voluntária, por exemplo).
A Busca e apreensão pode ocorrer na fase judicial ou na fase de investigação policial. Pode ser
determinada a requerimento do MP, do defensor do réu, ou representação da autoridade policial (art. 242
do CPP). Por fim, a busca pode ser domiciliar ou pessoal (art. 240 do CPP).

Art. 240. A busca será domiciliar ou pessoal.


§ 1o Proceder-se-á à busca domiciliar, quando
fundadas razões a autorizarem, para: a) prender
criminosos; b) apreender coisas achadas ou obtidas
por meios criminosos; c) apreender instrumentos de
falsificação ou de contrafação e objetos falsificados
ou contrafeitos; d) apreender armas e munições,
instrumentos utilizados na prática de crime ou
destinados a fim delituoso; e) descobrir objetos
necessários à prova de infração ou à defesa do réu; f)
apreender cartas, abertas ou não, destinadas ao
acusado ou em seu poder, quando haja suspeita de
que o conhecimento do seu conteúdo possa ser útil à

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elucidação do fato; g) apreender pessoas vítimas de
crimes; h) colher qualquer elemento de convicção.

Art. 242. A busca poderá ser determinada de ofício


ou a requerimento de qualquer das partes.

Busca e apreensão domiciliar

Nos termos do art. 240, § 1° do CPP: Este rol é considerado pela Doutrina e Jurisprudência
predominantes como um rol taxativo, ou seja, não admite ampliação. Parte da Doutrina entende, ainda, que
previsão do inciso f (“cartas abertas ou não...”) não foi recepcionada pela Constituição, que tutelou, sem
qualquer ressalva, o sigilo da correspondência, nos termos do art. 5°, XII da CRFB/88.

ATENÇÃO: A Doutrina majoritária sustenta que a carta aberta pode ser objeto de busca e apreensão (a carta,
uma vez aberta, torna-se um documento como outro qualquer).

A busca domiciliar só pode ser determinada pela autoridade judiciária (Juiz), em razão do princípio
constitucional da inviolabilidade de domicílio, previsto no art. 5°, XI da Constituição.

Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção


de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros
e aos estrangeiros residentes no País a
inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à
igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos
seguintes: XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo,
ninguém nela podendo penetrar sem consentimento
do morador, salvo em caso de flagrante delito ou
desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia,
por determinação judicial;

Percebam, assim, que mesmo com autorização judicial, a diligência só poderá ser realizada durante
o dia, exceto se o morador consentir que seja realizada à noite. Ou seja: sem o consentimento do morador,
só durante o dia; todavia, se o morador autorizar, pode ser realizada à noite.

Mas, qual o conceito de dia? Há divergência doutrinária 3 e jurisprudencial. Na jurisprudência


prevalece o conceito físico-astronômico: dia é o lapso de tempo entre o nascer (aurora) e o pôr-do-sol
(crepúsculo). Todavia, apesar da divergência, é terminantemente proibido o cumprimento do mandado
entre 21h e 5h, sob pena de configurar crime de abuso de autoridade.

Qual é o conceito de casa? Casa, para estes fins, possui um conceito muito amplo, considerando-se,
como norte interpretativo o conceito previsto no art. 246 do CPP:
⇒ Compartimento habitado
⇒ Aposento ocupado de habitação coletiva

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⇒ Compartimento não aberto ao público, onde alguém exerce profissão ou
atividade.

Art. 246. Aplicar-se-á também o disposto no


artigo anterior, quando se tiver de proceder
a busca em compartimento habitado ou em
aposento ocupado de habitação coletiva ou
em compartimento não aberto ao público,
onde alguém exercer profissão ou atividade.

Assim, não é necessário que se trate de local destinado à moradia, podendo ser, por exemplo, um
escritório ou consultório particular. A inexistência de obstáculos (ausência de cerca ou muro, por exemplo),
não descaracteriza o conceito.

IMPORTANTE: Os veículos, em regra, não são considerados domicílio, salvo se representarem a habitação
de alguém (Boleia do caminhão, trailer, etc.), de acordo com a Doutrina majoritária. O STJ, porém, em decisão
mais recente, considerou que a boleia, por exemplo, não seria casa para fins penais.
Quartos de hotéis, pousadas, motéis, etc., são considerados “casa” para estes efeitos,
quando estiverem ocupados.

A ordem judicial de busca e apreensão deve ser devidamente fundamentada, esclarecendo as


fundadas razões nas quais se baseia. Caso a própria autoridade judiciária que proferir a ordem venha a
participar da diligência, não há necessidade de expedição de mandado, bastando que se qualifique e explicite
o objeto da diligência (art. 241 e 245 § 1° do CPP).

Art. 241. Quando a própria autoridade


policial ou judiciária não a realizar
pessoalmente, a busca domiciliar deverá ser
precedida da expedição de mandado.

Art. 245. As buscas domiciliares serão


executadas de dia, salvo se o morador
consentir que se realizem à noite, e, antes de
penetrarem na casa, os executores
mostrarão e lerão o mandado ao morador,
ou a quem o represente, intimando-o, em
seguida, a abrir a porta. § 1o Se a própria
autoridade der a busca, declarará
previamente sua qualidade e o objeto da
diligência.

Mas e se ao tentar cumprir o mandado se verificar que não há ninguém em casa? O CPP determina
que seja intimado algum vizinho para que presencie o ato, nos termos do § 4° do art. 245 do CPP.

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Art. 245. § 4o Observar-se-á o disposto nos
§§ 2o e 3o, quando ausentes os moradores,
devendo, neste caso, ser intimado a assistir à
diligência qualquer vizinho, se houver e
estiver presente.

De qualquer forma, a diligência, por si só vexatória e constrangedora, deve violar o mínimo possível
da intimidade da pessoa que sofre a busca domiciliar, nos termos do art. 248 do CPP.

Art. 248. Em casa habitada, a busca será


feita de modo que não moleste os moradores
mais do que o indispensável para o êxito da
diligência.

Além disso, a autoridade que irá cumprir a diligência deve se ater ao objeto da busca e apreensão.
Assim, se a pessoa indica onde está a coisa que se foi buscar, e sendo esta encontrada, não pode a autoridade
simplesmente resolver continuar vasculhando o local, por achar que pode encontrar mais objetos, já que isso
configuraria pescaria probatória (fishing expedition), o que é vedado.

O mandado de busca e apreensão deve ser o mais preciso possível, de forma a limitar ao estritamente
necessário a ação da autoridade que realizará a diligência, devendo especificar claramente o local, os motivos
e fins da diligência. Deverá, ainda, ser assinado pelo escrivão e pela autoridade que a determinar, na forma
do art. 243 do CPP.
Art. 243. O mandado de busca deverá:
I - indicar, o mais precisamente possível, a
casa em que será realizada a diligência e o
nome do respectivo proprietário ou
morador; ou, no caso de busca pessoal, o
nome da pessoa que terá de sofrê-la ou os
sinais que a identifiquem; II - mencionar o
motivo e os fins da diligência; III - ser
subscrito pelo escrivão e assinado pela
autoridade que o fizer expedir. § 1o Se
houver ordem de prisão, constará do próprio
texto do mandado de busca. § 2o Não será
permitida a apreensão de documento em
poder do defensor do acusado, salvo quando
constituir elemento do corpo de delito.

IMPORTANTE: E no caso de a diligência ter de ser realizada no escritório de advogado? Nos termos do art.
7°, §6° do Estatuto da OAB, alguns requisitos devem ser observados:
⇒ Deve haver indícios de autoria e materialidade de crime praticado pelo próprio
advogado
⇒ Decretação da quebra da inviolabilidade pela autoridade Judiciária competente
⇒ Decisão fundamentada
⇒ Acompanhamento da diligência por um representante da OAB

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7°, §6° do Estatuto da OAB: § 6º Presentes
indícios de autoria e materialidade da prática
de crime por parte de advogado, a
autoridade judiciária competente poderá
decretar a quebra da inviolabilidade de que
trata o inciso II do caput deste artigo, em
decisão motivada, expedindo mandado de
busca e apreensão, específico e
pormenorizado, a ser cumprido na presença
de representante da OAB, sendo, em
qualquer hipótese, vedada a utilização dos
documentos, das mídias e dos objetos
pertencentes a clientes do advogado
averiguado, bem como dos demais
instrumentos de trabalho que contenham
informações sobre clientes.

Na verdade, as únicas diferenças em relação à regra geral são a necessidade de que o crime tenha
sido praticado pelo próprio advogado e que acompanhe a diligência um representante da OAB.

Podemos sintetizar o procedimento da busca domiciliar da seguinte forma:

⇒ Apresentação e leitura do mandado


⇒ Intimação para abertura da porta
● Recalcitrando o morador, admite-se o uso da força
● Sendo específica a coisa ou pessoa objeto da busca e apreensão,
será o morador intimado a mostrá-la
⇒ Encontrada a pessoa ou coisa, será imediatamente apreendida e posta sob
custódia da autoridade ou de seus agentes
⇒ Finalizada a diligência, os executores lavrarão auto circunstanciado,
assinando-o com duas testemunhas presenciais

Busca pessoal

A busca pessoal é aquela realizada em pessoas (no corpo, nas vestes, na bolsa, etc.), com a finalidade
de encontrar arma proibida ou determinados objetos, nos termos do § 2° do art. 240 do CPP. Vejamos:

Art. 240 (...) § 2° Proceder-se-á à


busca pessoal quando houver
fundada suspeita de que alguém
oculte consigo arma proibida ou
objetos mencionados nas letras b a f
e letra h do parágrafo anterior.

Os objetos mencionados nas letras b a f e letra h do art. 240, §1º do CPP são:

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➔ coisas achadas ou obtidas por meios criminosos;
➔ instrumentos de falsificação ou de contrafação e objetos falsificados ou
contrafeitos;
➔ armas e munições, instrumentos utilizados na prática de crime ou
destinados a fim delituoso;
➔ objetos necessários à prova de infração ou à defesa do réu;
➔ cartas, abertas ou não, destinadas ao acusado ou em seu poder, quando
haja suspeita de que o conhecimento do seu conteúdo possa ser útil à elucidação do
fato;
➔ qualquer elemento de convicção.

Ao contrário da busca domiciliar, poderá ser feita de maneira menos formal, podendo ser realizada
diretamente pela autoridade policial e seus agentes (sem necessidade de mandado), ou pela autoridade
judicial. Entretanto, mesmo nesse caso, a realização da busca deve se basear em fundadas suspeitas de que
o indivíduo se encontre em alguma das hipóteses previstas no CPP:

Art. 244. A busca pessoal independerá de


mandado, no caso de prisão ou quando
houver fundada suspeita de que a pessoa
esteja na posse de arma proibida ou de
objetos ou papéis que constituam corpo de
delito, ou quando a medida for determinada
no curso de busca domiciliar.

Pela redação do art. 244 é possível verificar que mesmo a busca pessoal depende de mandado,
salvo nas seguintes situações:

➔ No caso de prisão
➔ Quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma
proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito
➔ Quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar

Portanto, a busca pessoal desprovida de mandado somente pode ocorrer nos casos acima. A hipótese
mais comum é a segunda (quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida
ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito).

EXEMPLO: Policiais militares faziam ronda de rotina em determinada região e verificaram a presença de um
indivíduo que portava um objeto semelhante a uma arma de fogo. Ao ver os policiais, o indivíduo
rapidamente escondeu o objeto na cintura. Os policiais, então, diante da fundada suspeita de que o sujeito
estivesse na posse de arma proibida, realizaram a busca pessoal.

IMPORTANTE: CUIDADO! Apesar da expressão “busca pessoal”, tal diligência não será necessariamente
realizada no corpo ou nas vestes da pessoa. A expressão “oculte consigo” autoriza que a busca pessoal seja
realizada em objetos pessoais da pessoa alvo da busca (malas, mochilas, bolsas, etc.), inclusive veículos

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(busca veicular), desde que o veículo não se insira naquele momento no conceito de casa, pois nesta hipótese
devem ser aplicadas as regras de busca domiciliar (doutrina majoritária).

O CPP, de forma a compatibilizar a medida com os princípios da dignidade da pessoa humana,


determina que a busca pessoal em mulher será realizada por outra mulher, se não importar prejuízo ou
retardamento da diligência (art. 249 do CPP).

Art. 249. A busca em mulher será feita por


outra mulher, se não importar retardamento
ou prejuízo da diligência.

Pode a busca pessoal ser realizada em localidade diversa daquela na qual a autoridade exerce seu
poder? Em regra, não. Contudo, o CPP admite essa possibilidade no caso de haver perseguição, tendo esta
se iniciado no local onde a autoridade possui “Jurisdição”:

Art. 250. A autoridade ou seus agentes


poderão penetrar no território de jurisdição
alheia, ainda que de outro Estado, quando,
para o fim de apreensão, forem no
seguimento de pessoa ou coisa, devendo
apresentar-se à competente autoridade
local, antes da diligência ou após, conforme
a urgência desta.

Assim, em resumo, a busca e a consequente apreensão podem ser realizadas em outra localidade,
diversa daquela em que a autoridade exerce sua atribuição, quando ocorrer perseguição iniciada em
território no qual a autoridade exerce sua “jurisdição”.

RECONHECIMENTO DE PESSOAS E COISAS

Aspectos gerais

O reconhecimento de pessoas e coisas está regulamentado nos Arts. 226 a 228 do CPP:

Art. 226. Quando houver necessidade de


fazer-se o reconhecimento de pessoa,
proceder-se-á pela seguinte forma: I - a
pessoa que tiver de fazer o reconhecimento
será convidada a descrever a pessoa que
deva ser reconhecida; II - a pessoa, cujo
reconhecimento se pretender, será colocada,
se possível, ao lado de outras que com ela
tiverem qualquer semelhança, convidando-
se quem tiver de fazer o reconhecimento a
apontá-la; III - se houver razão para recear

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que a pessoa chamada para o
reconhecimento, por efeito de intimidação
ou outra influência, não diga a verdade em
face da pessoa que deve ser reconhecida, a
autoridade providenciará para que esta não
veja aquela; IV - do ato de reconhecimento
lavrar-se-á auto pormenorizado, subscrito
pela autoridade, pela pessoa chamada para
proceder ao reconhecimento e por duas
testemunhas presenciais. Parágrafo único. O
disposto no no III deste artigo não terá
aplicação na fase da instrução criminal ou
em plenário de julgamento.

O reconhecimento de pessoas e coisas é a prova consubstanciada no ato de identificar alguém (ex.:


o infrator) ou alguma coisa (ex.: a arma usada no crime) de especial relevância para a persecução penal. O
rito é aquele previsto no art. 226 do CPP, e deve ser obedecido, sob pena de a prova se tornar imprestável.
Vamos a um exemplo:

EXEMPLO: Maria foi vítima de um crime de roubo majorado pelo emprego de arma branca. Ao narrar o fato
na delegacia, foi convidada a descrever o infrator, tendo-o descrito como um homem pardo, careca, barbudo
e meio gordinho, aparentando ter por volta de 40 anos. A autoridade policial, então, coloca o suspeito (José)
ao lado de outras pessoas com ele semelhantes (fisicamente) e convida Maria a reconhecer o infrator. Maria,
então, sem pensar duas vezes, aponta para José e, virando-se para o delegado, diz: “foi ele, doutor!”.

Do ato de reconhecimento será lavrado auto pormenorizado, subscrito pela autoridade, pela pessoa
chamada para proceder ao reconhecimento e por duas testemunhas presenciais.

Caso haja motivo para acreditar que a pessoa chamada para o reconhecimento (ex.: a vítima, uma
testemunha, etc.), por efeito de intimidação ou outra influência, não irá dizer a verdade em face da pessoa
que deve ser reconhecida (ex.: um suposto criminoso muito perigoso), a autoridade providenciará para que
esta não veja aquela, ou seja, o reconhecedor irá realizar o reconhecimento sem ser visto pela pessoa que
será objeto do reconhecimento.

No reconhecimento de coisas, aplicam-se as mesmas regras, no que for cabível. Assim, não se aplica,
portanto, o inciso III do art. 226, por questões de lógica.

Tanto no reconhecimento de pessoas como no de coisas, se houver mais de uma pessoa para fazer
o reconhecimento, cada uma delas realizará o ato em separado, de forma a que uma não influencie a outra.
Trata-se do princípio da individualidade aqui também presente (art. 228 do CPP).

Art. 228. Se várias forem as pessoas


chamadas a efetuar o reconhecimento de
pessoa ou de objeto, cada uma fará a prova

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em separado, evitando-se qualquer
comunicação entre elas.

IMPORTANTE: Apesar de não estarem expressamente previstos na Lei, a Doutrina e a jurisprudência


admitem o reconhecimento fotográfico e o reconhecimento fonográfico. No primeiro, o reconhecedor é
chamado a dizer se reconhece a pessoa ou coisa que aparece em determinada imagem. No reconhecimento
fonográfico o reconhecedor (a vítima ou outra pessoa) é chamado a dizer se reconhece determinada voz
como sendo a da pessoa investigada/acusada.

EXEMPLO: Maria foi vítima de um crime de roubo, praticado por dois criminosos encapuzados. Maria,
todavia, apesar de não ter visto o rosto de nenhum deles, ouviu a voz de um dos criminosos, que era quem
conduzia a empreitada criminosa. A autoridade policial, durante as investigações, conclui que José pode ter
sido um dos autores do crime, e mediante autorização judicial, tem acesso a vários áudios enviados por José
a outras pessoas por meio de um aplicativo para smartphones. Maria, então, é chamada para dizer se
reconhece a voz contida naqueles áudios (voz de José) como sendo a voz do criminoso.

O acusado não está obrigado a fornecer material fonográfico para que haja o reconhecimento de voz
(princípio do nemo tenetur se detegere).

Ademais, é também importante destacar que este reconhecimento fonográfico não deve ser
confundido com a perícia para verificação de locutor, que é um exame pericial por meio do qual um perito
analisa se determinada voz gravada (interceptação telefônica, p. ex.) provém, ou não, de determinada
pessoa.

Vale destacar, ainda, que o reconhecimento fonográfico e o reconhecimento fotográfico devem


seguir o mesmo rito previsto para o reconhecimento pessoal propriamente dito, sob pena de
imprestabilidade da prova. Ademais, no caso do reconhecimento fotográfico, a Jurisprudência se consolidou
no sentido de que, “a par de dever seguir o mesmo procedimento do reconhecimento pessoal, há de ser visto
como etapa antecedente a eventual reconhecimento pessoal e, portanto, não pode servir como prova em
ação penal, ainda que confirmado em juízo.”

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