AUTOBIOGRAFIAS DE MULHERES:
MEU ESTRANHO DIÁRIO E
APRENDENDO A VIVER
AUTOBIOGRAPHIES OF WOMEN: MEU ESTRANHO DIÁRIO AND APRENDENDO
A VIVER
REVELL – ISSN: 2179-4456 - 2023– v.3, nº.36 – dezembro de 2023.
Leticia Pereira de Andrade Maia1
RESUMO: Ao ver a imagem de Carolina Maria de Jesus (1914-1977) ao lado de Clarice Lispector
(1920-1977), na foto do acervo de Paulo Gurgel, autoras tão diferentes, pensou-se em fazer um
estudo comparado entre textos poucos estudados de escritoras brasileiras. Na hipótese de que
essa articulação, entre autoras diferentes socioculturalmente, poderia revelar vozes silenciadas
que autorrepresentam ou representam diversas mulheres. Para tanto, serão analisados textos
autobiográficos dessas duas autoras: Meu estranho diário e Aprendendo a viver.
PALAVRAS-CHAVE: Autobiografia; Mulheres; Clarice Lispector; Carolina Maria de Jesus.
ABSTRACT: When seeing the image of Carolina Maria de Jesus (1914-1977) alongside Clarice
Lispector (1920-1977), in the collection photo by Paulo Gurgel, two such different authors, the
idea of conducting a comparative study between lesser-studied texts of Brazilian women
writers emerged. The hypothesis being that this connection between culturally diverse authors
could unveil silenced voices that self-represent or represent various women. For this purpose,
autobiographical texts from these two authors will be analyzed: Meu estranho diário and
Aprendendo a viver.
KEYWORDS: Autobiographies; Women; Clarice Lispector; Carolina Maria de Jesus.
1 Introdução
O ser humano vive condicionado aos discursos – veículos das
representações e/ou autorrepresentações. Os discursos não são meios
transparentes que mostram o mundo como ele é, mas perfazem e recriam rotas
e roteiros para uma compreensão e participação dessa realidade. Por isso em
145
1Doutora em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - Brasil. Técnica de Nível
Superior na Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – Brasil. E-mail:
leticiauems@[Link]
autobiografias existe um paradoxo entre a realidade vivida e a transcrita: a
autobiografia é ficção quando a consideramos recriação do “eu”, pois “é
impossível passar para a página a realidade fielmente retratada” (MACIEL,
2005). A crítica que está sendo tecida sobre os pressupostos da representação,
nas narrativas de mulheres, é sobre a ideia de se pensar o referencial e a
representação como estruturas estáticas nascidas no amparo do sujeito
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cartesiano, considerado o porta-voz do logos e criador do discurso autorizado.
A linguagem em discursos, sendo um fator decisivo na (re)construção da
subjetividade, está constantemente apontando para outras maneiras de
representações de sujeitos nos textos. E, ao se falar em textos escritos por
mulheres, é bom lembrar que estes sujeitos podem se relacionar como
(auto)representação:
Un individuo (una mujer, en este caso) tiene múltiples posiciones de
sujeto - identidades e identificaciones imaginarias que la interpelan,
desde el marco de los discursos institucionalizados de autoridad: la
Iglesia, el Estado, la ley. Lo importante es que las posiciones del
sujeto son provisorias y relacionales, y surgen como respuestas a
interpelaciones, a discursos que nos llaman. Todo ello supone que no
tenemos solo una posición en el mundo, sino que nos podemos
mover entre fronteras, rechazando, polemizando o aceptando las
posiciones de sujeto que nos interpelan (ZAVALA, 1993, p. 70).
Pode-se pensar que a construção ou reconstrução do sujeito mulher, ao
assinalar um lugar relacional e dialógico nas identificações hegemônicas, inicia
um trabalho de desconstrução das modalidades discursivas patriarcais, de
acordo com as teorias feministas de Lauretis (1994) e Showalter (1994).
Assim, por questões metodológicas, escolheram-se, para este trabalho,
narrativas escritas por volta de 1960-70, época em que, segundo Lajolo (1995),
uma proliferação de vozes literárias femininas vem à tona no Brasil. Lajolo
146 refere-se às autoras que assumiram, apesar da dificuldade de afirmação em um
meio cultural dominado por homens, posições de relevo na cena intelectual
brasileira, como: Cecília Meireles, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles,
Nélida Piñon. No entanto, essas não foram as únicas, a favelada Carolina Maria
de Jesus também estava nesta época (1950-1970) com “ideias na cabeça e
caneta na mão”.
Carolina Maria de Jesus passou sua infância em Sacramento, interior de
Minas Gerais, migrando ainda jovem à cidade de São Paulo em busca de uma
vida melhor, com apenas dois anos de escolaridade. Nessa grande cidade,
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Carolina trabalhou como empregada doméstica em diversas casas de família até
que, grávida de seu primeiro filho, já não a aceitavam para esse tipo de serviço.
Muda-se então para a favela do Canindé, onde teve mais dois filhos (um menino
e uma menina), e começa a escrever seus textos, também, a catar “lixos” para
sobreviver. Ao publicar seu livro Quarto de despejo (cujos fragmentos foram
publicados primeiramente em jornais, por um homem), muda-se do barraco da
favela para uma casa de alvenaria no Alto de Santana, zona norte de São Paulo.
No fim de sua carreira, mudou-se para um sítio em Palheiros – SP, onde
continuava a escrever seus textos (muitos destes ainda inéditos) e morreu em
1977.
Clarice Lispector nasceu em Tchetchelnik na Ucrânia, nas palavras dela:
“uma cidade tão pequena que nem figura no mapa”, em 10 de dezembro de
1920. Nessa época, seus pais, judeus, preparavam-se para imigrar para o Brasil,
a fim de fugir da perseguição antissemita e da Revolução Bolchevique de 1917.
Clarice chegou às terras brasileiras com dois meses de idade, estabelecendo-se
primeiramente em Maceió (AL) e mais tarde em Recife (PE). Em 1943, aos 23
anos, casou-se com o diplomata Maury Gurgel Valente, passando a residir em
vários países, até retornar ao Brasil em 1959. Clarice Lispector foi formada em
Direito, estudou latim, viveu em Nápoles, Washington, Berna, traduziu textos
para o português, atuou como repórter e jornalista. Era dona de uma prosa
densa, rebuscada, rica em inovações sintáticas e recursos linguísticos. 147
Apesar das diferenças sociais e literárias das escritoras, a proposta de
ler Carolina ao lado de Clarice não está desprovida de relevância. Afinal,
acredita-se em uma cartografia da mulher mais abrangente da margem à elite,
a partir da análise dos textos autobiográficos: Meu estranho Diário (1996) de
Carolina e Aprendendo a Viver (2004) de Clarice.
A obra Meu estranho diário (1996) é uma publicação póstuma,
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organizada pelos pesquisadores José Carlos S. B. Meihy e Robert M. Levine. Nela
são apresentadas três trajetórias de Carolina: no Quarto de despejo; na Casa de
Alvenaria; e no Sítio (onde morreu em 1977). Aprendendo a viver é uma seleção
das crônicas confessionais escritas por Clarice Lispector na década de 1970.
Organizado por Pedro Karp Vasquez, o livro reúne uma série de textos em que
a escritora conta sua própria vida, da infância até as reflexões sobre a morte. É
narrado em primeira pessoa, detalhando passagens marcantes de sua história,
divagando sobre os temas mais variados, revelando particularidades de seu
cotidiano e esmiuçando seu processo criativo.
Foram escolhidos esses textos autobiográficos porque é possível
verificar o como se estabelece as representações de mulheres brasileiras, por
meio de discursos e técnicas narratológicas, e até que ponto existe (ou não) a
repetição de estereótipos criados por uma sociedade “machista”. São essas
formas possíveis de consciências enunciadas de acordo com o contexto
situacional de gênero que serão estudados nos textos de Carolina Maria de Jesus
e Clarice Lispector. Gênero não como uma construção do masculino e o feminino
com base na diferença sexual em que se especificam comportamentos e atitudes
aos sexos, mas sistema de significação que nos rodeia desde o nascimento.
Teresa de Lauretis (1994), em Tecnologias de Gênero, desconstrói aquele
conceito de gênero marcado pela diferença sexual, conceituando como uma
148 representação e autorrepresentação produto de várias tecnologias sociais
(cinema, discurso, epistemologias, práticas institucionais e práticas da vida
cotidiana, entre outras).
Por fim, partindo do princípio de que o estatuto das vozes e seus
discursos podem apontar para a (re)construção de sujeitos nos textos
autobiográficos, este artigo se propõe a verificar as vozes que sonorizam as
narrativas confessionais dessas duas autoras diferentes: Carolina de Jesus,
negra, semianalfabeta e pobre; Clarice Lispector, branca e de classe média/alta.
E se essas vozes se encontram em algum momento diante das questões de
opressão vividas pelas mulheres brasileiras, ou seja, se por acaso se desviam de
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um sistema hegemônico, oficial, buscando um espaço de autorrealização, do
direito de falar, da apropriação do discurso, fazendo-se ouvir, não importa se da
sua marginalidade ou se repetem estereótipos aceitando o imposto por uma
sociedade patriarcal.
2 Autobiografia de Mulheres: um breve histórico
Durante as últimas décadas do século XX e início do século XXI, assistiu-
se a um processo de renovação e reordenação no terreno dos estudos literários
a partir da incorporação de novos objetos, problemas e orientações da teoria e
da crítica literária, permitindo o florescer de novas percepções e a revalorização
de práticas discursivas que, anteriormente, eram vistas à margem da maioria
dos estudos literários ou não constituíam objeto de estudo específico, como são
os casos de um interessante grupo de textos, os chamados “gêneros menores”
ou “não-canônicos”, entre os quais se incluíam as autobiografias e/ou textos de
autoria de mulheres.
A autobiografia não correspondia aos cânones teóricos e sofreu
resistências por parte da crítica que a considerava como gênero plebeu,
feminino, infantil, “baixo”, ainda como um vício (doença) e como trabalho fácil
(SOUSA, 2004, p. 179). A maioria dos críticos literários não considerava os
149
textos autobiográficos/confessionais como literatura, porque, segundo
Lejeune:
[...] quanto à autobiografia, considerava-se que se explica por si só,
via-se nela apenas uma subcategoria do discurso histórico, e, além
disso, era vista com certo desprezo, muitos consideravam que não
era literatura e supunham que, ao se buscar a verdade, saía-se do
campo da arte (apud NORONHA, 2002, p. 21).
Outros, quando reconheciam algum interesse, o faziam apenas em
autobiografias de pessoas famosas, de escritores consagrados. Mas, atualmente,
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a autobiografia é vista como uma reflexão em primeira pessoa, enraizada na
cotidianidade, sobre a condição e o sentido da vida, que se entrega à força
realizadora da ficção e ao seu trato com a linguagem. Trato que deve ser
verificado a partir do “lugar de fala” das autoras e incluir o problema do “lugar
de onde se ouve” (DALCASTAGNÉ, 2005, p. 72).
As teorias feministas, de base francesa e anglo-americana, deram
suporte teórico e metodológico, a partir dos anos de 1980, para a construção e
concretização de um desejo de resgatar textos de mulheres que contribuíram
para construir a história social e cultural da humanidade. Passou-se a contestar
então a historiografia literária tradicional. Como diz Ria Lemaire (1994, p. 58-
71), em “Repensando a História Literária”, este tipo de historiografia, definida
em termos patrilineares, a qual repete a sucessão de escritores brilhantes, com
ênfase excessiva na paternidade cultural, precisa ser desconstruída em dois
vieses: a desestabilização do sujeito masculino e, consequentemente, do “herói”
das obras literárias; e a destruição do mito de uma única literatura.
Por meio do Grupo de Trabalho GT – A mulher na literatura, da
Associação Nacional de Pós-Graduação em Letras e Linguística (ANPOLL),
criado em 1986, pesquisadores passaram a resgatar textos de autoria de
mulheres. Assim surgiu o Catálogo virtual de escritoras brasileiras do século XX.
Também surgiu um Guia de Escritoras Brasileiras, de Luiza Lobo, o qual tem a
150 intenção de recuperar a história literária de autoria de mulheres no Brasil desde
seus primórdios até a atualidade.
Nessa perspectiva, Meu estranho diário e Aprendendo a viver, hoje, são
objetos reconhecidos nos estudos literários, podendo ser estudados a partir de
uma visão de que gênero, assim como classe, etnia, nacionalidade, são
categorias da “diferença” que se inscrevem no horizonte dos processos
históricos, políticos, sociais e culturais e das práticas teóricos críticos da
contemporaneidade.
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Nesse estudo comparado, os textos autobiográficos escolhidos serão
vistos nas relações entre tessituras que se encontram de maneira horizontal,
sem hierarquias, pois:
A literatura comparada deseja superar preconceitos e
provincianismos nacionais, mas disso não resulta ignorar ou
minimizar a existência e a vitalidade das diferentes tradições
nacionais. Precisamos tanto da literatura nacional quanto da geral,
precisamos tanto da história quanto da crítica literária, e precisamos
da perspectiva ampla que somente a literatura comparada pode
oferecer (WELLEK, 1980, p. 144).
Sendo assim, é possível ler as narrativas confessionais pouco
conhecidas de Carolina Maria de Jesus e Clarice Lispector em vez de relegá-las
simplesmente ao limbo do “confessional”. Fazer esta articulação entre textos de
autoras diferentes em termos, sobretudo de gênero e classe social, implica
aceitar a dicção de cada autora, por mais que se afaste do que fora estabelecido
(pela própria academia) como cânone brasileiro.
Apesar de ser anterior a chegada do movimento feminista no Brasil,
muitas pessoas relacionam os textos de Clarice Lispector ao feminismo por
tratarem de forma única e pertinente o papel da mulher na sociedade. Gotlib
(2013) afirma que a obra clariceana é um importante registro da condição da
mulher no século XX. Segundo a biógrafa, Clarice não se declarou explicitamente
feminista e fez até algumas críticas ao movimento no que se referia à burocracia. 151
No entanto, o olhar dela registra os padrões de comportamento redutores de
uma sociedade machista e patriarcal. “Não é gratuito o fato de que as
personagens femininas, de repente, se encontram num outro mundo, não
domesticado, selvagem, em que podem experimentar livremente a reinvenção
de si mesmas”. (GOTLIB, 2013, 27). Assim, é inquestionável a preocupação de
Clarice em abordar e desconstruir temáticas acerca da organização social que
se baseou na questão de gênero. Isso era feito por ela, comumente, a partir de
um sentimento de estranheza que vinha de suas protagonistas. Essas
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geralmente eram mulheres insatisfeitas com a vida e seus papéis na sociedade,
além de serem repletas de interrogações sobre suas identidades.
Carolina Maria de Jesus também não foi uma feminista militante,
embora em sua obra haja algo nas entrelinhas. Fica claro que sua preocupação
principal era com a alimentação:
De manhã eu estou sempre nervosa. Com medo de não arranjar
dinheiro para comprar o que comer. Mas hoje é segunda-feira e tem
muito papel na rua. (...) O senhor Manuel apareceu dizendo que quer
casar-se comigo. Mas eu não quero porque já estou na maturidade. E
depois, um homem não há de gostar de uma mulher que não pode
passar sem ler. E que levanta para escrever. E que deita com lápis e
papel debaixo do travesseiro. Por isso é que eu prefiro viver só para
o meu ideal (JESUS, 1996, p.44).
Carolina era conhecedora de que eram poucos aqueles que, no início da
segunda metade do século XX, compreendiam os seus desejos de ler e escrever,
uma vez que a sociedade de sua época reprovava tal comportamento para uma
mulher pobre e com poucos estudos. Os homens ainda reivindicavam para si, e
somente para si, o direito de produzir o que eles classificavam como literatura,
na qual apenas algumas poucas mulheres adentraram. No entanto, a riqueza da
composição feminina, seja pobre ou rica, está justamente em sua pretensão de
singularidade. Em síntese, a narrativa autobiográfica de mulheres inova no
sentido de permitir ao sujeito feminino escrever sobre si mesmo.
152
3 Frente a frente com o sujeito mulher
Na literatura, o representado recebe toda uma carga de impressões do
autor sobre o mundo. E quando se fala de uma literatura confessional de
mulher, a carga de impressões parece aumentar: pois a mulher é sujeita e objeto
da representação literária ao mesmo tempo. O tom de conversa informal
próprio da narrativa confessional traz experiências pessoais, tornando os textos
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gênero. Essas autoras representam um momento em que mulheres exigem
espaço e em que textos confessionais deixam de ser redigidos para baús ou
gavetas de escritórios (LAJOLO, 1996).
Sabendo que o signo “mulher” não é uma categoria unívoca, questionam-
se quais seriam os tipos de mulheres “re-presentadas” nos textos selecionados:
mulheres ambíguas, nervosas, histéricas, “donas de si”? Este artigo tende a
apontar para as estratégias literárias utilizadas por Carolina Maria de Jesus e
Clarice Lispector que as fazem dialogar com as identificações que as interpelam
em seus percursos em relação à representação da mulher.
Clarice Lispector (1920-1977) foi uma escritora e jornalista brasileira
que escreveu suas crônicas confessionais para um jornal. Considerada uma das
maiores autoras nacionais do século XX, ela ficou eternizada, sobretudo, pelas
obras de romance, contos e crônicas. O amor pela literatura surgiu ainda
durante a infância: com apenas 9 anos de idade, Clarice já escrevia peças de
teatro e contos, como registra em Aprendendo a Viver. Mais tarde, com o
falecimento de sua mãe, ela se mudou para o Rio de Janeiro com o pai e as irmãs,
onde cursou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ – uma
instituição e curso que eram destinados principalmente à elite masculina e
branca). Em 1943, Clarice lançou a sua primeira obra, o romance Perto do
153
Coração Selvagem, que apresentava uma visão interiorizada do mundo e da
adolescência. O livro foi bem acolhido pela crítica literária, marcando o início de
uma carreira brilhante. Deixando um grande legado, após uma luta contra o
câncer de ovário, Clarice Lispector faleceu em 9 de dezembro de 1977, na
véspera de completar 57 anos.
Carolina Maria de Jesus (1914-1977) foi uma escritora que, ao se mudar
para São Paulo, torna-se uma “escritora vira-lata”: pois catava lixo para
sobreviver com seus três filhos, um de cada pai. Quanto ao fato de não ter tido
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um marido, um homem ao seu lado, Carolina não via problema nisso, como
destaca em seus diários, apesar de ter sofrido muitos preconceitos, por,
sobretudo, ser negra e mãe solteira. Portanto, Carolina de Jesus tinha
comportamentos não aceitos pela sociedade nos anos 50 a 70 do século XX.
Carolina escreve com o desejo de publicar seus textos e rompe com valores e
comportamentos esperados de uma mulher dessa época: sensível, aquela
imagem de ser frágil e necessitada de proteção, sob o domínio dos sentimentos,
atuando na intimidade e presa aos cuidados com a prole. No dia 7 de julho de
1958, ela narra que poderia se defender sozinha: “Eu sou da favela do Canindé.
Sei cortar de gilete e navalha e estou aprendendo a manejar a peixeira” . Ela se
considerava uma “mulher-macho” e sempre criticava as mulheres da favela: “só
sabem fazer intrigas” (JESUS, 1996).
Diferente do sujeito Clarice que autorrepresenta a mulher como decente,
aquele “vaso delicado e frágil”, pois “tinha um sonho imenso de ficar moça – ser
mulher” [...] “Pintava a minha boca de batom bem forte, passando também
batom e ruge nas minhas faces. Então, eu me sentia bonita e feminina, eu
escapava da meninice” (LISPECTOR, 2004, p. 10). Para a tímida Clarice, a
descoberta do mundo, foi saber, aos noves anos como uma mulher e um homem
se unem: “E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é
por pudor apenas feminino” (LISPECTOR, 2004, p. 10).
154
Resumindo, Carolina de Jesus foi uma chefe de família que demonstrou
as dificuldades enfrentadas, em fins de 1950, para sustentar, sozinha, três filhos.
A representação da mulher em textos de Carolina, portanto, contraria o
“sistema falocêntrico”, o sistema familiar pré-estabelecido como “normal”,
segundo o qual os homens deveriam ocupar o lugar de provedores financeiros
e chefes de família e as mulheres encarregarem-se das atividades domésticas,
como cuidar dos filhos, da casa, da comida, entre outros afazeres. A realidade da
favelada contrastava com o padrão estabelecido como “normal”.
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Por sua vez o sujeito Clarice de Aprendendo a Viver foi uma moça
ousada, mas que tinha o pai e, na escola, um amiguinho, para protegê-la:
“Leopoldo – além do meu pai – foi meu primeiro protetor masculino, e tão bem
o fez que me deixou para o resto da vida aceitando e querendo a proteção
masculina” (LISPECTOR, 2004, p. 17). E não sofria preconceitos, como o sujeito
Carolina, ao apresentar seu desejo de escrever: “Morava em um sobrado e se
considerava uma pessoa impulsiva, uma tímida ousada” (LISPECTOR, 2004, p.
24). Tinha acesso a livros infantis. Com 7 anos de idade escrevia “histórias para
uma seção infantil que saía às quintas-feiras num diário. Nunca foram aceitas.
E, eu, teimosa, continuava escrevendo” (LISPECTOR, 2004, p. 25). Porém, dos
13 a 14 anos já escrevia pra valer e com 15 anos já recebia por seus textos
escritos, tendo consciência de estar “tomando um lugar no espaço”.
Em uma narrativa de autoria de mulher, a representação do mundo é
produzida a partir de uma posição que exige sua definição na “diferença”
(CATELLI, 1996). Bahia (2000, p. 70) corrobora com Nora Catelli, ao dizer que
“escrever como mulher é lançar-se num horizonte para além do que o
movimento histórico lhe vinha permitindo”. Contudo, Cíntia Schwantes lembra,
em “Espelho de Vênus” (2009), que essa (auto)representação da mulher se dará
de forma tensa, posto que as escritoras tenham uma representação ambígua,
dependendo de sua etnia e de sua classe social. Por isso, acredita-se que o signo
“mulher” não é uma categoria unívoca – os fatores de classe e etnia interferem 155
na construção de uma significação de mulher, podendo apontar “aporias” no
interior dos seus discursos. A contradição (ou “tensão” nas palavras de
Schwantes) pode levar a “aporia” nos discursos das autoras que porventura
buscam um diálogo com as representações hegemônicas de gênero.
Assim sendo, Clarice Lispector e Carolina de Jesus foram consideradas
mulheres atrevidas, impulsivas e outros adjetivos… Seguindo as teorizações de
Sílvia Alexim Nunes (2000, p. 108-109), pode-se dizer que “histérica,
desvairada, enlouquecida, geniosa e perigosa são essas algumas representações
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de mulheres que foram se inscrevendo no imaginário social desde o século
XVIII”. E nos anos de 1950 a 1970, no Brasil, ainda encontravam essa
ressonância para a nomeação da mulher em épocas de ditadura. Nessa ótica,
pode-se ainda afirmar que valores tradicionais como “Obediência”,
“Submissão”, “Delicadeza no Trato”, “Pureza”, “Capacidade de Doação” e
“Habilidades Manuais” foram considerados atributos fundamentais e
definidores da feminilidade até meados do século XX, sendo “deixados para
trás” quando a mulher conquista o direito à escolarização e a exercer atividades
profissionais diversificadas.
Carolina Maria de Jesus irritada pelas perversidades dos homens,
desabafa: “Eu disse: o meu sonho é escrever! / Responde o Branco: ela é louca /
O que as negras devem fazer... / é ir pro tanque lavar roupa”. A obra Meu
estranho diário (1996) desvela três trajetórias da autora, organizados sob três
subtítulos: “no Quarto de despejo”, “na Casa de alvenaria” e “no Sítio”. Quando
sai da favela (Quarto de despejo) e passa a viver em outro meio social (casa de
alvenaria), relata: “Depois de conhecer a humanidade/ suas perversidades/
suas ambições/ Eu fui envelhecendo/ E perdendo/ as ilusões/ o que predomina
é a maldade/ porque a bondade: Ninguém pratica” [...] “é horrível, suportar a
humanidade/ Quem tem aparência nobre/ Que encobre/ As péssimas
qualidades” (JESUS, 1996, p. 138). Seus escritos são denúncias da humanidade,
156 do comportamento humano.
A parte “No Quarto de Despejo” (1996, p. 31-116) trata do momento
em que Carolina Maria de Jesus resolve escrever, tornar-se escritora. Nessa
época de miséria na favela do Canindé, às margens do rio Tietê, na cidade de São
Paulo, Carolina escreve sobre as “lambanças dos favelados”. É quando conhece
Audálio Dantas, o repórter que lança, no mercado editorial, seu primeiro livro
intitulado Quarto de despejo: diário de uma favelada.
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Na segunda parte, “Na casa de alvenaria” (1996, p. 117-119), Carolina
já é uma celebridade, seu diário Quarto de Despejo está sendo vendido e
traduzido no mundo inteiro. Já não mora mais na favela, mora em uma casa de
alvenaria, como sonhava. Tem contato com escritores (inclusive com Clarice
Lispector, como na foto), editores, pessoas da alta sociedade, mas está sempre
criticando a todos, afirmando não se dar bem com a vizinhança
burguesa/branca. A partir daqui pode-se perceber que a escritora acusa às
classes dominantes detentoras do poder aquisitivo e da ciência, e a tudo aquilo
que de alguma maneira lhes representam. Esse discurso que ataca sempre ao
outro, conforme afirma Nietzsche (1999), é característico dos povos
“oprimidos”, que desenvolvem o que o filósofo chama de “memória do
ressentimento”, que seria o discurso do dominado contra o dominante.
A última parte do livro, “No sítio” (1996, p. 200), trata do momento em
que Carolina Maria de Jesus se muda da casa de alvenaria para um sítio em
Parelheiros/SP, com a esperança de encontrar paz longe das letras e da cidade.
No sítio, Carolina Maria de Jesus se lamenta da vida, bem como continua a
refletir sobre a existência humana. O “eu” narrativo, dessa terceira fase, é
nervoso, ambíguo e tenso. A vida de Carolina está atormentada por mudanças
sociais e a noção de inviabilidade de convívio no “espaço do outro” é evidente.
Por isso, Carolina enxerga no branco o motivador das misérias: “o mundo é
como o branco quer. Eu não sou branca, não tenho nada com essas 157
desorganizações” (JESUS, 1996, p. 63).
A história de Carolina está atravessada, manchada e massacrada pelo
preconceito. Questão delicada que toca em temas como o ódio, a morte, o
preconceito, o racismo, as hostilidades, o “não lugar” dos excluídos e as
identidades recalcadas: “Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de
circos. Eles respondiam-me: - É pena você ser preta”. Historiadores, literatos e
cientistas sociais têm se dedicado à apreensão de seus textos. Memórias que se
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avizinham de sentimentos de rancores passivos e, indefinidamente,
prisioneiras da inveja e do ciúme. Um recalque de ressentimento que transmuta
na recusa do esquecimento humilhante da exclusão que obriga o exílio
psicológico é o que se nota na inscrição de diários de Carolina Maria de Jesus.
Carolina teve a chance de ser ouvida, de erguer-se, de conquistar sua
casa de alvenaria. Porém, o “eu” narrativo despertara, de um dia para outro, em
um outro mundo (o mundo dos brancos e dos ricos), que segundo ela talvez
fosse melhor não ter conhecido. Aqui as repercussões negativas vêm à tona:
“porque é que eu não fiquei lá no mato plantando lavoura” (JESUS, 1996, p. 153).
O “eu” narrativo, a memória ressentida de Carolina é saudosa pelo tempo em
que vivia no interior de Minas Gerais, antes de vir para São Paulo em busca de
uma vida melhor. Pois, por fim, além de triste, sentia-se cansada e sem grandes
perspectivas, sem sonhos a seguir.
Carolina registra, ora um mundo que não é seu, ora maldizendo o
sonhado sucesso, ela se localiza em um espaço que não a quer e que ela também
rejeita: “01 de dezembro de 1961. Cheguei à conclusão, que se um pobre fica
rico, a alma continua pobre”. O que torna claro, nesta trajetória de Carolina, é
que nem o reconhecimento, nem a fama fez com que a autora deixasse de ser
uma mulher negra de grandes barreiras e conflitos existenciais. O sujeito
Carolina é uma mulher que não consegue romper “fronteiras”, diferente de
158 Clarice Lispector, uma mulher “sem fronteiras” no sentido de infinitude de suas
obras que tratam de um sujeito feminino fluido, em processo.
Em obras de Clarice Lispector, o sujeito feminino não é um sujeito uno,
mas múltiplo que se movimenta fora da ideologia de gênero. Diferente de
Carolina, Clarice Lispector foi uma mulher que participou ativamente do
processo de modernização, no Brasil, por ter tido acesso ao direito igualitário
da construção de construtos simbólicos de um processo econômico-social e
político da época. Daí por fazerem parte de classe social diferentes, as
representações da mulher surgem de acordo com o olhar de cada classe.
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Segundo Showalter (1994, p. 44), as diferenças entre mulheres escritoras
(classe, raça, nacionalidade) são determinantes literários significativos,
contudo, “a cultura das mulheres forma uma experiência coletiva dentro do
todo cultural, uma experiência que liga as escritoras umas às outras no tempo e
no espaço”.
Como no texto de Carolina é possível perceber no livro de Clarice um
impacto da divisão hierarquizada de gêneros. A Clarice de Aprendendo a viver é
a dona-de-casa que enfrenta os problemas de toda e qualquer dona-de-casa de
classe/média/alta, preocupando-se com o orçamento doméstico e com a
educação dos filhos. Matéria extraída do cotidiano da própria autora, como em
um jogo de espelhos, as vozes parecem ansiar por romper os próprios
preconceitos, a própria passividade, por arriscar uma nova vida, escrita com as
tintas de uma subjetividade latente. Clarice, mulher burguesa parece ser
solidária com mulheres que vivem marginalizadas: as empregadas domésticas,
as migrantes, as pobres que surgem nos questionamentos de gênero.
Apesar das diferenças de classe social e econômica, Clarice e Carolina se
encontram na situação-limite da mulher em um contexto sócio-histórico
brasileiro dos anos de 1950 a 1980. Essas autoras representam por meio dos
seus discursos o paradigma da função da mulher, de denunciadora da injustiça
e da repressão máxima ao instinto de vida. Cada autora (cada uma a seu modo) 159
denuncia as “forças da morte”; lá onde as “forças da vida” deveriam ser
preservadas (MAGNABOSCO, 2002). Elas parecem fazer uso da palavra verbal
para resistirem à imposição de um emudecimento político e de gênero, ou seja,
de falar em lugar de quem é desconsiderado e já não sabe mais falar. É pela
palavra que elas se opõem ao “instinto de morte” 2, seja esta física, simbólica ou
afetivo-emocional.
A diferença na perspectiva do olhar tem feito com que a memória
afetivo-emocional (ou memória compartilhada) do sujeito
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confessional/autobiográfico traga um questionamento sobre os conceitos de
representação. Ao narrar a partir de uma voz não engendrada pelos discursos
dominantes, o sujeito mulher “presenta-se” e, diante dessa outra posição
enunciativa, questiona a representação.
Mediante os estudos realizados por CATELLI (1996) e outros, é possível
afirmar que as narrativas confessionais/autobiográficas de mulheres possuem
uma característica fundamental de “abrir espaço para o reconhecimento
público e pessoal da voz antes marginalizada do reprimido social e político”
(PULVIRENTI, 1995, p. 12).
Respondendo às interpelações de opressões culturais em relação à
mulher, os textos de Carolina e Clarice revelam o desejo de falar. Clarice dizia
que tomava “conta do mundo”, porque nasceu incumbida disso: “sou
responsável por tudo o que existe” (LISPECTOR, 2004, p. 28). Já Carolina deseja
estar no lugar do outro:
Quando eu era menina o meu sonho era ser homem para defender o
Brasil porque eu lia a história do Brasil e ficava sabendo que existia
guerra. Só li os nomes masculinos como defensor da pátria. [...] Não
tenho força física, mas as minhas palavras ferem mais do que espada.
E as feridas são incicatrizáveis. (JESUS, 1996).
160
2. Os termos “instintos de vida” e “instintos de morte” advêm da Psicanálise e são
representativos das forças construtivas e destrutivas que habitam todo ser humano
(MAGNABOSCO, 2002).
O cotidiano dessas duas mulheres é bem diferente, por isso se observa
um empoderamento da mulher e, em outro momento, a ausência da mulher em
determinadas áreas, como na política brasileira da época de Carolina. É possível
perceber que um momento de transição está acontecendo nos anos 60 e 70 do
século XX, pois o sujeito Clarice sente-se “dona de si e do mundo”, ao passo que
o sujeito Carolina, para se sentir “dona do mundo”, usa apenas as palavras nessa
“guerra de poder”. Para Clarice, o processo de escrita é mais do que uma
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denúncia, segundo ela, “é como um cálculo renal”; “é a pedra passando enfim.
Entrego-me toda a esses momentos” (LISPECTOR, 2004, p. 29).
Observa-se que os obstáculos enfrentados por mulheres ao acesso
político e cultural brasileiro foram muitos; Clarice foi uma exceção: uma mulher
bem-sucedida que denunciava a discriminação contra mulheres em seus textos.
Também, em suas crônicas confessionais, o sujeito Clarice é muito observadora
em relação às mulheres: “lembro-me de um rosto terrivelmente inexpressível
de uma mulher que vi na rua. Tomo conta dos milhares de favelados pelas
encostas acima. Observo em mim mesma as mudanças de estação” (LISPECTOR,
2004, p. 27).
Para Carolina, escrever representava uma fuga, já para Clarice era uma
forma de acessar as informações assentadas na esfera da intuição. Se a favela
não lhe oferecia as condições necessárias para meditar, Carolina aproveitava
sua “calma interior para ler”. Ela acrescenta: “Peguei uma revista e sentei na
grama, bem exposta ao sol para me aquecer. Eu li um conto. Quando eu estava
começando outra, as crianças vinham pedindo pão”. Graças à leitura e à escrita,
Carolina construiu uma intimidade impossível, transformando esse lugar
caótico, desumano e selvagem em um espaço de sobrevivência e sonho, onde
ela poderia se refugiar. Agora, o sujeito mulher de classe média alta, não escreve
com pretensão de mudar o mundo. Grande parte de suas crônicas de 161
Aprendendo a viver, publicada primeiramente em jornais, fala sobre suas
aventuras íntimas de mulher: “o contato com o outro ser” e o desejo de escrever.
Segundo ela, uma de suas vocações era escrever “a própria vida se vivendo em
nós e ao redor de nós”.
4 Considerações Finais
O desafio deste artigo foi evidenciar as correspondências que existem
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entre a literatura e o universo social de duas mulheres. Ler textos de Clarice e
Carolina nessa perspectiva foi tentar identificar a tensão existente entre a
subjetividade das escritoras e a objetividade do mundo em que viveram e que,
até certo ponto, moldaram o sujeito mulher. Os textos de Carolina fazem mais
do que “documentar” a vida dos pobres, da classe média e da elite brasileira.
Foi possível perceber o quanto os artefatos físicos, sociais e simbólicos
tiveram impacto nas vidas de mulheres, ou seja, percebe-se o quanto as
construções materiais, os campos de conflito e as representações moldaram-
nas. Seus escritos permitem pensar o cotidiano real ou imaginário dentro de um
período que estava em plena reconfiguração acompanhando a acelerada
modernização da sociedade brasileira. Assim, os diários de Carolina e textos
confessionais de Clarice podem operar a desconstrução das velhas imagens e
clichês construídos patriarcalmente sobre a mulher ou repetir esses
estereótipos, de forma tensa e ambígua, pois o próprio tecido ficcional se
equilibra na fronteira entre referencialidade e representação.
Em textos confessionais, observa-se que a “re-presentação” pode ser
mediada por recortes afetivos que recuam, estabelecem filiações e vínculos com
outros territórios linguísticos tornando memória compartilhada. Segundo
Magnabosco (2002), “presentação” traz a emergência da subjetividade do
sujeito que vivencia, que está dentro do processo e, por esse motivo,
162 descentraliza territórios de gêneros ao transitar pelos caminhos fluídos da
memória e linguagem afetivas.
A “mulher” não é uma categoria unívoca (SCHWANTES, 2009), por isso
mesmo se detectou diferenças nas vozes que sonorizam Meu estranho diário e
Aprendendo a Viver. Conclui-se que a memória ou texto confessional tem uma
dimensão pessoal, introspectiva (interior) e uma dimensão coletiva e/ou social.
Fato possível de ser identificado nos diários de Carolina Maria de Jesus e textos
confessionais de Clarice Lispector.
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