UNIVERSIDADE PAULISTA
CAT-A
TESTE DE APERCEPÇÃO INFANTIL
COM FIGURAS ANIMAIS
Apostila para fins didáticos
Material elaborado pelo professor Antonio
Pacheco como um guia de referência, não
excluindo a necessidade de consulta ao Manual
do CAT-A e outros textos de referência.
Testes psicológicos são de conhecimento exclusivo de psicólogos e estudantes de Psicologia.
O conteúdo e modo de interpretar os resultados dos testes psicológicos não devem ser
conhecidos pelo público para que o teste seja válido. Por favor, não divulgue esse material.
2024
I - HISTÓRICO
Henry A. Murray, Christiana Morgan e colaboradores elaboraram o Teste de
Apercepção Temática (TAT) na Clínica Psicológica da Universidade de Harvard, nos EUA,
apresentando a primeira série de cartões em 1935. A terceira revisão, que foi considerada a
definitiva, foi publicada em 1945; o manual do TAT traduzido para o português e utilizado
no Brasil corresponde à terceira edição. O TAT destina-se a adultos e adolescentes. Os
cartões apresentam cenas, a maioria delas com pessoas em situações de interação social.
Leopold Bellak e Sonia Bellak publicaram o Children’s Apperception Test (CAT) em
1949, para ser usado em crianças. Os cartões apresentam animais em cenas de interação
humanas. Posteriormente, as mesmas cenas foram reproduzidas com pessoas interagindo.
Assim, temos o CAT-A, com figuras animais e o CAT-H com figuras humanas. O CAT-A é o
mais utilizado.
A adaptação do CAT-A para o Brasil, em sua versão mais recente, foi publicada em
2010. Pesquisas brasileiras de fidedignidade e validade foram realizadas, bem como o
levantamento dos temas mais frequentes das histórias aos cartões (ver anexo).
II – MATERIAL DO TESTE
O teste é composto por 10 cartões que apresentam animais em cenas de interação
humanas.
III – FUNDAMENTOS TEÓRICOS
A tarefa consiste em contar histórias a partir das figuras. As respostas envolvem
apercepção, ou seja, não uma mera percepção de um objeto, mas toda uma interpretação de
uma cena.
A criança identifica-se com um dos animais da figura, comumente o de menor
tamanho, e atribui (projeta) a este personagem características suas (da criança). (Foram
escolhidos cenas com animais, porque supõe-se que é mais fácil a criança se identificar com
animais.) As histórias também expressam como a criança compreende e experiencia as
outras pessoas e situações sociais.
Bellak utilizou a teoria psicanalítica para elaborar as cenas presentes nos cartões, de
modo a investigar como a criança lida com a alimentação (fase oral), controle dos esfíncteres
(fase anal), agressividade, sua relação com os pais (complexo de Édipo) e com os irmãos.
Assim sendo, as histórias permitem compreender como a criança está lidando com essas
questões centrais no desenvolvimento infantil (segundo a psicanálise).
IV – APLICAÇÃO
Preparação da criança para o teste
Antes de aplicar o CAT o psicólogo deve estabelecer o rapport, ou seja, conversar
com a criança para deixá-la à vontade e prepará-la para a testagem.
Ambiente
O ambiente deve ser tranquilo, bem iluminado e arejado e o psicólogo deve tratar o
testando com cordialidade.
Cartões
Os cartões devem ser apresentados à criança seguindo a ordem padronizada. O
número do cartão encontra-se impresso no verso (em edições antigas, na parte inferior do
lado direito do cartão).
Instruções
Este é um jogo de histórias. São dez figuras ao todo. Eu vou mostrar uma figura por vez, e você deve
tentar criar uma história de faz de conta para ela. Diga o que está acontecendo na figura, o que vai
acontecer depois e como termina a história. Ou você pode dizer o que aconteceu antes; em seguida, o
que está acontecendo na figura e depois qual é o fim da história. O que interessa é você inventar uma
história com começo, meio e fim, da sua própria imaginação. Muito bem, esta é a primeira figura.
O examinador deve cuidar para que as instruções sejam seguidas, isto é, deve
enfatizar a necessidade de a criança fornecer histórias completas. Se a resposta é uma
descrição da figura, com elaboração mínima de história, o examinador deve lembrar as
instruções à criança e solicitar uma história completa. Se faltarem alguns dados na história, o
examinador deve perguntar (por exemplo: “O que aconteceu antes?”, “O que acontece
depois?”). Perguntas podem ser feitas também sobre aspectos da história que não ficaram
claros. Não perguntar “por que ...?”, pergunta que induz a criança a justificar certo aspecto
da história; as perguntas servem apenas para completar a história. Quando não se sabe quem
é o personagem principal, o aplicador pode perguntar “qual personagem você gostou mais?”
– a resposta da criança provavelmente indica o personagem com o qual ela se identificou.
Na aplicação, anotar:
● As verbalizações da criança, exatamente do modo como ela falou; as
verbalizações incluem as respostas, comentários e perguntas, ou seja, o
examinador deve anotar tudo o que a criança falar.
● As verbalizações do examinador – anotadas entre parênteses;
● Os momentos em que ocorreram pausas (mais do que 5 segundos) [pode-se
indicar as pausas com a notação (...)];
● Dados do comportamento da criança: mudanças de postura, reações
corporais aos estímulos dos cartões, alterações na voz, sinais de ansiedade.
V - INTERPRETAÇÃO
Aspectos induzidos pelo estímulo e aspectos projetados pelo testando
As respostas dependem do estímulo e do que é projetado pelo testando. Em relação
aos estímulos, os cartões contêm elementos que podem ser percebidos objetivamente:
há personagens com sexo e idade relativamente definidos, e suas posturas e expressões
faciais sugerem determinadas ações e sentimentos; há também certos elementos do cenário
que fornecem um contexto para a compreensão da situação.
Ações e sentimentos dos personagens algumas vezes são simplesmente induzidos
pelo estímulo. Por outro lado, as motivações dos personagens e o final da história são
aspectos do conteúdo das respostas projetados pela criança.
Análise formal
A interpretação psicanalítica, segundo a escola francesa, proposta por Vica Shentoub
e desenvolvida por Brelet-Foulard e Chabert (2005), considera que as figuras mobilizam
afetos e fantasias inconscientes (cujo modo de funcionamento é o processo primário) e o
indivíduo deve organizar estes afetos e fantasias em termos verbais (de acordo com o modo
de funcionamento do processo secundário), construindo histórias coerentes e adequadas aos
estímulos apresentados. Avalia-se o quanto o indivíduo é capaz de estar em contato com os
afetos e fantasias e de atender às demandas da realidade. Podem ocorrer três tipos de
situação:
1) Intensa mobilização de afetos e fantasias pode levar a um prejuízo na
percepção da figura ou na organização da história. Então, as histórias contêm
elementos dramáticos e são desorganizadas.
2) Por outro lado, controle consciente excessivo leva a histórias coerentes e
adequadas à figura, porém pobres em termos dos conteúdos pessoais, com
reduzida mobilização afetiva e inibição da fantasia. Então, as histórias são bem
organizadas, mas pobres em termos de expressarem fantasias inconscientes.
3) Equilíbrio entre as fantasias inconscientes e o controle consciente. Então, as
histórias são bem organizadas, adequadas à figura e com riqueza de conteúdos
projetivos, indicando flexibilidade e adaptação. São histórias elaboradas.
Análise do conteúdo
Ao responder, a criança identifica-se com um personagem, atribuindo a ele suas
características e necessidades (motivações, impulsos), além de configurar a situação e
demais personagens do modo como configura sua percepção do ambiente e sua relação com
o mesmo.
Tema
A análise do tema tem por objetivo explicitar o significado psicológico ou o conteúdo
latente da história.
Nível descritivo: resumo da história. Uma sugestão é organizar a história considerando a
ação do personagem principal, situando-a no contexto e anotando sua consequência:
Contexto Ação Consequência
Nível interpretativo: elaborar uma descrição da relação entre os elementos da história, na
forma “se..., então...”
Nível diagnóstico: significado psicológico da história ou conteúdo latente. Nessa parte, a
história é interpretada segundo o referencial teórico da psicanálise.
Exemplo de história ao cartão 7: “Tem um tigre que quer pegar o macaco. O macaco está pensando:
‘Será que o tigre quer me comer?’, sentindo medo. O tigre está nervoso, pensando em pegar o macaco.
(O que aconteceu antes?) O macaco estava pirraçando ele e o tigre ficou nervoso e foi para cima. (O que
acontece depois?) O leão, rei, deixou o tigre um mês sem sair de casa.”
Nível descritivo: “O macaco provoca o tigre, que fica nervoso e quer comê-lo; o leão
deixa o tigre preso em casa.”
Nível interpretativo: “Se faço algo errado, então fico em perigo; se estou em perigo,
então alguém me protege.”
Nível diagnóstico: Agride (impulsos agressivos), teme ser agredido/punido (ansiedade
de aniquilamento), e espera proteção/apoio externo.
Temática: frequentemente evocada.
Percepção dos elementos do estímulo: adequada.
Em se tratando do conteúdo latente, consideramos que a resposta pode expressar duas
problemáticas:
A) Perda do objeto (separação)
- Agressão/destruição x temor de ser agredido/destruído → ansiedade de
aniquilamento/persecutória. (Posição esquizoparanóide)
- Agressão x temor de ficar sem o objeto, desamparado → ansiedade de perda do objeto
(ansiedade de separação). Muitas vezes, a agressão não aparece na história, aparece apenas a
separação ou a perda do objeto.
- Agressão ao objeto bom x culpa depressiva → ansiedade depressiva (culpa). (Posição
depressiva)
B) Complexo de Édipo (rivalidade em disputa pelo objeto desejado)
- Desejo x Proibição/punição → ansiedade de castração (punição por desejo ou ato proibido)
Aqui estão incluídas também as histórias em que há o conflito impulso x regra.
Na análise da autoimagem, consideramos que o personagem principal representa a criança. Na
análise das relações de objeto, os demais personagens representam pessoas significativas na
vida da criança.
1. Autoimagem
A criança costuma se identificar com o personagem de tamanho menor, e projeta nele
as características de sua autoimagem1. O examinador deve anotaras características do
personagem principal2, considerando as características atribuídas diretamente a ele e também
aquelas que transparecem em seu desempenho na história.
Em princípio, as características atribuídas ao personagem principal expressam as
características da autoimagem (consciente e inconsciente) da criança. Contudo, pode
tratar-se da autoimagem ideal (como a criança gostaria de ser) em vez da autoimagem real
(como a criança se vê).
1
Identificação é o processo psicológico inconsciente no qual o indivíduo se toma como idêntico a outra pessoa (ou
personagem) em alguma característica. No CAT, a criança se toma como idêntica ao personagem principal, porque, como
ele, tem tamanho menor. Projeção é o processo psicológico inconsciente pelo qual o indivíduo coloca para fora, atribui a
outra pessoa alguma característica sua, ou estrutura sua percepção (interpretação) da realidade de acordo com sua
personalidade. No CAT, a criança atribui ao personagem principal características dela e interpreta a cena de acordo com sua
personalidade, seu modo de conceber o ambiente, as relações de objeto e suas expectativas sobre as situações.
2
O personagem principal é chamado herói. Não é necessário que tenha ações heroicas ou positivas, herói é apenas um
termo técnico para se referir ao personagem principal.
Ao anotar as características do herói, usar adjetivos. Alguns exemplos de
características são: bonito/feio, forte/fraco, ativo/passivo, ambicioso, inteligente, motivado,
competitivo/cooperativo, orgulhoso/humilde, habilidoso, empático/indiferente,
independente/dependente, eficiente/ineficiente, empreendedor, confiante/inseguro,
honesto/desonesto, organizado/desorganizado, persistente, solitário, ponderado/impulsivo,
alegre/triste, corajoso/medroso, decidido/indeciso, calmo/tenso, criativo, fantasioso, curioso.
Exemplo de história ao cartão 7: “Tem um tigre que quer pegar o macaco. O macaco está pensando:
‘Será que o tigre quer me comer?’, sentindo medo. O tigre está nervoso, pensando em pegar o macaco.
(O que aconteceu antes?) O macaco estava pirraçando ele e o tigre ficou nervoso e foi para cima. (O que
acontece depois?) O leão, rei, deixou o tigre um mês sem sair de casa.”
No exemplo, o personagem principal (macaco) tem como características: provocador,
pensativo e medroso.
2. Relações objetais
Os outros personagens da história representam as pessoas com as quais a criança
(representando pelo personagem principal da história) convive. Descrever, então, como a
criança percebe as outras pessoas (como percebe os outros personagens, que representam a
mãe, o pai, os irmãos ou pares) e o tipo de relação das outras pessoas para com a criança
(relações dos outros personagens para com o personagem principal).
Exemplo de história ao cartão 7: “Tem um tigre que quer pegar o macaco. O macaco está pensando:
‘Será que o tigre quer me comer?’, sentindo medo. O tigre está nervoso, pensando em pegar o macaco.
(O que aconteceu antes?) O macaco estava pirraçando ele e o tigre ficou nervoso e foi para cima. (O que
acontece depois?) O leão, rei, deixou o tigre um mês sem sair de casa.”
No exemplo, o leão protege o macaco, ou seja, o Pai é percebido como uma figura
protetora e a relação é de proteção.
3. Concepção do ambiente
O examinador deve identificar as características do ambiente físico e social expressas
nas histórias.
Exemplo de história ao cartão 7: “Tem um tigre que quer pegar o macaco. O macaco está pensando:
‘Será que o tigre quer me comer?’, sentindo medo. O tigre está nervoso, pensando em pegar o macaco.
(O que aconteceu antes?) O macaco estava pirraçando ele e o tigre ficou nervoso e foi para cima. (O que
acontece depois?) O leão, rei, deixou o tigre um mês sem sair de casa.”
No exemplo, o ambiente é ameaçador ou punitivo, mas também protetor.
4. Necessidades e conflitos:
A identificação das necessidades [motivações, impulsos] se dá a partir dos comportamentos do
personagem principal ou de afirmações explícitas do que ele procura, deseja ou quer. Os conflitos
referem-se a desejos incompatíveis [entre si] e concomitantes, revelados a partir das necessidades do
personagem principal, ou a impulsos que se opõem ao superego ou ao ambiente. (p. 83)
Exemplo de história ao cartão 7: “Tem um tigre que quer pegar o macaco. O macaco está pensando:
‘Será que o tigre quer me comer?’, sentindo medo. O tigre está nervoso, pensando em pegar o macaco.
(O que aconteceu antes?) O macaco estava pirraçando ele e o tigre ficou nervoso e foi para cima. (O que
acontece depois?) O leão, rei, deixou o tigre um mês sem sair de casa.”
No exemplo, o macaco provoca o tigre - impulso agressivo. Existe conflito entre o
impulso agressivo e o ambiente - o tigre quer comer o macaco; ou podemos anotar como
conflito: agredir x temor de ser agredido.
Na análise dos conflitos, consideramos que os diferentes personagens representam
diferentes aspectos da criança. No exemplo, o macaco representa o impulso agressivo e o
tigre representa o superego.
5. Ansiedades
As ansiedades referem-se ao que está por trás dos conflitos, àquilo de que a criança se defende, o
motivo fundamental da configuração dos conflitos. (p. 83)
Ansiedades segundo o manual do CAT-A:
- Dano físico
- Abandono (solidão, falta de apoio)
- Castigo ou desaprovação.
Em termos psicanalíticos:
● Ansiedade de privação: ficar sem suprimentos necessários à sobrevivência
(alimento, abrigo, cuidado pelos pais).
● Ansiedade de aniquilamento (persecutória): temor de ser destruído, morto,
aniquilado (associada à posição esquizoparanóide, à fantasia inconsciente de agredir/
destruir o objeto e temor de retaliação).
● Ansiedade de separação ou ansiedade de perda do objeto: temor de ficar
sozinho e desamparado
● Ansiedade depressiva (culpa) estar associada ao reconhecimento da agressão
ao objeto bom, na posição depressiva.
● Ansiedade de castração: temor de perder algo importante, ou de ser punido
por ter desejado ou feito algo proibido (associada ao complexo de Édipo).
Exemplo de história ao cartão 7: “Tem um tigre que quer pegar o macaco. O macaco está pensando:
‘Será que o tigre quer me comer?’, sentindo medo. O tigre está nervoso, pensando em pegar o macaco.
(O que aconteceu antes?) O macaco estava pirraçando ele e o tigre ficou nervoso e foi para cima. (O que
acontece depois?) O leão, rei, deixou o tigre um mês sem sair de casa.”
No exemplo, a história expressa temor de ser comido, ansiedade de aniquilamento.
6. Mecanismos de defesa
Mecanismos de defesa adaptativos:
Formação reativa: um impulso indesejável é mantido inconsciente por meio da adoção de
seu oposto. Por exemplo, em vez do impulso agressivo, o personagem principal comporta-se
de modo excessivamente amistoso.
Anulação: uma ação visa cancelamento ou negação do que foi expresso anteriormente. Por
exemplo: “o tigre está atacando o macaco, quer dizer ele vai dar um beijo no macaco”.
Ambivalência3: expressão de atitudes ou sentimento contraditórios em relação a um objeto,
pessoa ou ato. Por exemplo: “os pintinhos ficaram felizes, porque estavam com fome e iam
almoçar. Mas ficaram chateados, porque tinha pouca comida”.
Isolamento: ruptura das conexões de um comportamento ou pensamento com outros
comportamentos ou pensamento, de modo a evitar o autoconhecimento. Por exemplo. “A mãe
canguru e o filho foram passear no parque. O menorzinho não faz parte dessa história”.
Repressão4: operação psíquica que visa fazer desaparecer da consciência um conteúdo
3
Ambivalência é um estado afetivo, não um mecanismo de defesa, mas foi assim considerado por Haworth (1963) e
adotado no manual brasileiro do CAT-A.
4
O termo correto seria recalque, mas o manual usa repressão. Em inglês, Verdrängung foi traduzido como repression, pois
não há palavra para recalcamento. A tradução brasileira do manual original em inglês traduziu repression como repressão.
indesejável. Por exemplo: “O ratinho está na casa do leão. Não sei o que ele está fazendo lá”.
Negação: o sujeito admite intelectualmente o recalcado, mas defende-se negando que lhe
pertença. Por exemplo: “O ratinho estava com medo do leão. Não, ele não estava com medo,
estava querendo ser amigo do leão”.
Falseamento: distorção da realidade decorrente da dificuldade em aceita-la como se
apresenta. Por exemplo: “O tigre está brincando de morder o macaco”.
Simbolização: uso de símbolos para representar (de modo disfarçado) um desejo recalcado,
inaceitável para o indivíduo. Por exemplo: “O coelhinho tinha um ursinho de pelúcia para não
se sentir sozinho”. Nesse caso, o ursinho de pelúcia simboliza a mãe.
Projeção: o impulso inaceitável é atribuído a outra pessoa. Por exemplo: “A mãe canguru foi
passear no parque com o filho dela. Ele já sabe andar de bicicleta, tem 6 anos e gosta muito da
mãe. Esse bebezinho é muito briguento e não gosta do irmão. Eles vão no parque fazer
piquenique e depois voltam para casa”.
Introjeção: atribuição a si de características de outras pessoas, de modo a resolver
dificuldades emocionais. Por exemplo: “O ratinho é muito pequenininho, mas ele vai crescer
e se tornar forte como o leão”.
Mecanismos fóbicos, imaturos ou desorganizados:
Medo e ansiedade5: conteúdos ansiógenos expressos explicitamente, mas sem desorganizar a
história. Por exemplo: “O ratinho fez a toca na casa do leão e está com medo de que o leão
não goste e pegue ele”.
Regressão: retorno a formas de gratificação de fases anteriores do desenvolvimento para se
defender de conflitos. “O cachorrinho fez cocô no lugar errado e a mãe está batendo nele para
ele aprender. Depois ele vai mamar e dormir”.
Controles frágeis ou ausentes6: expressão de conteúdos primitivos e intensos, e
desorganização da história. Por exemplo: “Os pintinhos foram almoçar. Esse aqui comeu o
irmãozinho. Depois eles estavam brincando e foram almoçar, quer dizer, foram no enterro do
que matou o irmãozinho e depois foram tomar lanche”.
7. Superego
5
Medo e ansiedade não são mecanismos de defesa, são estados emocionais, mas foram assim considerados por Haworth
(1963) e adotados no manual brasileiro do CAT-A.
6
Não se trata de mecanismo de defesa, mas de falha na defesa e prejuízo na organização da história. Foi incluído por
Haworth (1963) e adotado no manual brasileiro do CAT-A.
Verifica-se aqui se existe alguma punição pelos comportamentos inadequados do personagem principal,
e, se houver, se é proporcional à gravidade do deslize cometido (o que indica presença de superego
atuante), exagerado em relação à gravidade da falha (o que indica interferência de superego rígido)
[punição excessiva] ou leve demais ou inexistente (o que indica superego frágil). Nem todas as histórias
permitem verificar diretamente o superego. (p. 86)
Exemplo de história ao cartão 7: “Tem um tigre que quer pegar o macaco. O macaco está pensando:
‘Será que o tigre quer me comer?’, sentindo medo. O tigre está nervoso, pensando em pegar o macaco.
(O que aconteceu antes?) O macaco estava pirraçando ele e o tigre ficou nervoso e foi para cima. (O que
acontece depois?) O leão, rei, deixou o tigre um mês sem sair de casa.”
No exemplo, há noção de consequência para o comportamento agressivo, pois o
macaco agride e pode sofrer retaliação, ser comido pelo tigre. A consequência punitiva (ser
comido) é excessiva frente ao comportamento, o que indica superego rígido, punição
excessiva. Também o leão intervém e impede que o tigre coma o macaco. Aqui também a
punição é excessiva - ficar um mês preso em casa - o que indica superego rígido.
8. Ego
A) Análise formal: O quanto a criança consegue lidar com a ansiedade, mantendo o
contato com a realidade (percepção adequada do cartão), pensamento lógico (história
organizada) e adaptação flexível (história elaborada e que expressa simbolicamente o
conflito).
B) Análise do conteúdo: Considerar o final da história: A criança consegue resolver o
problema ou conflito de modo adaptado à realidade e às regras sociais?
O grau de adequação do herói para lidar com os problemas presentes na trama são uma boa
indicação disso. A plausibilidade e qualidade (positiva ou negativa) do desenlace [final da história]
são esclarecedoras nesse sentido. Uma boa integração do ego é indicada por desenlaces realistas
que apresentam soluções adequadas. Desenlaces negativos, omitidos ou irrealistas indicam baixa
integração do ego. (p. 86)
Exemplo de história ao cartão 7: “Tem um tigre que quer pegar o macaco. O macaco está
pensando: ‘Será que o tigre quer me comer?’, sentindo medo. O tigre está nervoso, pensando em
pegar o macaco. (O que aconteceu antes?) O macaco estava pirraçando ele e o tigre ficou nervoso e
foi para cima. (O que acontece depois?) O leão, rei, deixou o tigre um mês sem sair de casa.”
No exemplo, a percepção está adequada, a história está bem organizada e
expressando adaptação flexível. Contudo, o macaco só consegue resolver o conflito com
ajuda externa. Portanto, o ego se mostra imaturo.
BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
Bellak, L. & Abrahams, D. M. (2010). Teste de apercepção infantil. Adaptado à população
brasileira por Adele Miguel e colaboradores; tradução de Maria Cecília de Vilhena Moraes
Silva. São Paulo: Vetor.
Brelet-Foulard, F. & Chabert, C. (2005). Novo manual do TAT: abordagem psicanalítica. São
Paulo: Vetor.
Murray, H. A. (2005). T. A. T.: Teste de Apercepção Temática. São Paulo: Casa do Psicólogo.
(Manual do TAT, publicado originalmente em 1945.)
Silva, M. C. V. (1989). TAT: aplicação e interpretação do Teste de Apercepção Temática. São
Paulo: EPU.
ANEXO: Descrição dos cartões do CAT-A e temas comumente evocados
Cartão 1: Três pintinhos estão sentados à mesa, um deles sem guardanapo. No fundo, há uma figura
sombreada de um galináceo de sexo indefinido.
Os temas comumente evocados referem-se à alimentação ou rivalidade entre irmãos.
Cartão 2: Três ursos puxam uma corda, um pequeno e um médio de um lado, um grande do outro.
O tema comumente evocado refere-se ao complexo de Édipo.
Cartão 3: Um leão está sentado em uma cadeira, segurando um cachimbo; uma bengala pode ser
vista, apoiada na cadeira. Ao fundo, há um ratinho, dentro de um buraco na parede.
O tema comumente evocado refere-se à relação com a figura paterna (autoridade).
Cartão 4: A mãe canguru leva um bebê em sua bolsa e uma cesta na mão direita. O bebê segura uma
bexiga. Um pequeno canguru segue atrás, de bicicleta.
O tema comumente evocado refere-se à relação (rivalidade) com o irmão mais novo.
Cartão 5: Um quarto escura no qual se observa uma cama de casal, com volumes sob as cobertas. No
primeiro plano há um berço com dois ursinhos.
O tema comumente evocado refere-se à cena primária, ou seja, uma situação em que os pais estão em
relação íntima e prazerosa (ou agressiva), sem a presença da criança.
Cartão 6: Numa caverna, dois ursos grandes dormem. No primeiro plano, um ursinho está deitado, de
olhos abertos.
O tema comumente evocado refere-se à cena primária, ou seja, uma situação em que os pais estão em
relação íntima e prazerosa (ou agressiva), sem a presença da criança.
Cartão 7: Numa floresta, um tigre avança em direção a um macaquinho.
O tema comumente evocado refere-se à agressão.
Cartão 8: Vários macacos tomam chá e interagem em uma sala. No primeiro plano, um macaco adulto
conversa com um macaco pequeno. Na parede do fundo observa-se um retrato de uma macaca anciã.
O tema comumente evocado refere-se ao papel da criança na família, assim como as relações entre os
familiares.
Cartão 9: Em um quarto escuro, com a porta aberta, observa-se um coelhinho acordado no berço.
Os temas comumente evocados referem-se ao medo do escuro ou de ser deixado sozinho.
Cartão 10: Um cachorro grande e um cachorro pequeno estão em um banheiro. O cachorro maior está
com uma das mãos sobre o cachorrinho, cujo olhar está voltado para o examinando.
Os temas comumente evocados referem-se ao treino de toalete e controle dos impulsos.