Limites de Descontos para Militares
Limites de Descontos para Militares
de Jurisprudência
Este periódico destaca teses jurisprudenciais e não consiste em repositório oficial de jurisprudência.
RECURSOS REPETITIVOS
DESTAQUE
Para tanto, destaca-se que o limite total de descontos em folha de pagamento dos militares
das Forças Armadas é de 70% (setenta por cento) da remuneração ou proventos, na forma do art. 14, § 3º,
da Medida Provisória n. 2.215-10/2001. Esse limite corresponde à soma dos descontos obrigatórios e
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autorizados.
Por seu turno, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça firmou-se no sentido de que
não se aplica a Lei n. 10.820/2003, específica para empregados e beneficiários do RGPS e da assistência
social; nem o art. 45, § 2º, da Lei n. 8.112/1991, introduzido pela Medida Provisória 681/2015 (hoje
revogado), específico para servidores públicos civis.
Cabe, ainda, esclarecer que, a partir de 4/8/2022, data da vigência da Medida Provisória n.
1.132/2022, convertida na Lei n. 14.509/2022, aplica-se, aos militares das Forças Armadas, um segundo
limite para as consignações autorizadas em favor de terceiros, observadas as especificações do art. 2º da
Lei n. 14.509/2022.
Esse novo teto de descontos autorizados em favor de terceiros é aplicável ao pessoal das
Forças Armadas visto que leis ou regulamentos específicos não definiram outro percentual (art. 3º, I, da
Lei n. 14.509/2022). Em consequência, passa a existir duplo limite - 70% (setenta por cento) para a soma
dos descontos obrigatórios e autorizados; e 45% (quarenta e cinco por cento) para as consignações
autorizadas em favor de terceiros, observadas as especificações do art. 2º da Lei n. 14.509/2022.
Destarte, firma-se a seguinte tese repetitiva: Para os descontos autorizados antes de 4/8/2022,
data da vigência da Medida Provisória n. 1.132/2022, convertida na Lei n. 14.509/2022, não se aplica limite
específico para as consignações autorizadas em favor de terceiros, devendo ser observada apenas a regra
de que o militar das Forças Armadas não pode receber quantia inferior a trinta por cento da sua
remuneração ou proventos, após os descontos, na forma do art. 14, § 3º, da Medida Provisória n. 2.215-
10/2001
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
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DESTAQUE
1. Incide a prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 quando
paralisado o processo administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não
tributária, por mais de 3 anos.
2. A natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração à legislação
aduaneira é de direito administrativo (não tributário) se a norma infringida visa primordialmente ao
controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda
que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes
sobre a operação.
3. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 apenas se a obrigação descumprida,
conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação
ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado.
Dito isso, tem-se que é a natureza jurídica da norma de conduta violada o critério legal que
deve ser observado para dizer se tal ou qual infração à lei deve ou não obediência aos ditames da Lei n.
9.873/1999, e não o procedimento que tenha sido escolhido pelo legislador para se promover a apuração
ou constituição definitiva do crédito correspondente à sanção pela infração praticada.
Nessa linha de raciocínio, o que se tem é que, segundo a jurisprudência uniforme das Turmas
de Direito Público do STJ, é a natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pelo descumprimento
de obrigação estabelecida no curso do procedimento de despacho aduaneiro o elemento determinante
para se definir a incidência da regra do art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 em benefício do infrator,
reconhecendo-se a prescrição da pretensão punitiva se paralisado o procedimento administrativo, sem
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Ora, a natureza jurídica desse tipo de crédito será de direito administrativo se a norma
infringida visa primordialmente ao controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do
serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos
tributos incidentes sobre a operação. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 apenas se a
obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente
à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado.
Destarte, propõe-se as seguintes teses jurídicas aplicáveis para toda e qualquer infração à
legislação aduaneira cuja natureza jurídica tenha que ser investigada pelas instâncias ordinárias: 1. Incide a
prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 quando paralisado o processo
administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não tributária, por mais de 3 anos; 2. A
natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração à legislação aduaneira é de direito
administrativo (não tributário) se a norma infringida visa primordialmente ao controle do trânsito
internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa
colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação; e 3. Não incidirá
o art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 apenas se a obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente
aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes
sobre o negócio jurídico realizado.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
PROCESSO REsp 1.942.196-PR, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 12/3/2025. (Tema 1128).
REsp 1.953.046-PR, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1128)
REsp 1.958.567-PR, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1128)
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DESTAQUE
Nos termos do art. 12, I, II e III, da Lei 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa), a multa
civil tem como base de cálculo o proveito econômico obtido, o dano causado ao erário ou o valor da
remuneração percebida. Assim, em qualquer dos casos, o critério legal para a fixação da multa civil
remete a um fator relacionado à data da efetivação do ato ímprobo.
Ainda que o montante da multa civil somente venha a ser definido ao final da ação, a incidência
de correção monetária apenas após a sua fixação ou do trânsito em julgado, resultaria em quantia
desvinculada do proveito econômico obtido, do dano causado ao erário ou do valor da remuneração
percebida pelo agente, critérios que remetem à data do ato ímprobo.
Desse modo, é o caso de incidência da Súmula 43/STJ: "Incide correção monetária sobre
dívida por ato ilícito a partir da data do efetivo prejuízo", sendo lícito concluir que o valor devido a título
de multa civil seja corrigido monetariamente desde a data do ato ímprobo.
Dessa forma, deve ser fixada a seguinte tese jurídica: Na multa civil prevista na Lei 8.429/1992,
a correção monetária e os juros de mora devem incidir a partir da data do ato ímprobo, nos termos das
Súmulas 43 e 54/STJ.
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INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
SÚMULAS
Súmula n. 43/STJ
Súmula n. 54/STJ
DESTAQUE
Como relação entre o sujeito e a causa, a legitimidade passiva deve ser aferida com base no
direito material em disputa. Neste caso, a controvérsia gira em torno das quotas anuais devidas à Conta
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O direito material em disputa é sobre o valor do adicional tarifário cobrado do consumidor pela
prestadora do serviço de energia elétrica.
A CDE, criada pelo art. 13 da Lei n. 10.438/2002, é um fundo público setorial que "subvenciona
alguns agentes ou atividades econômicas do setor elétrico a partir de recursos do Tesouro Nacional e dos
consumidores de energia elétrica ".
Dentre as fontes de recursos da CDE, estão as quotas anuais "pagas por todos os agentes que
comercializem energia com consumidor final". Trata-se, portanto, de uma dívida das concessionárias,
permissionárias ou autorizadas a prestar serviços de distribuição ou de transmissão de energia elétrica ao
consumidor final. As quotas anuais são pagas "mediante encargo tarifário" incluído nas tarifas de uso dos
sistemas de transmissão (TUST) ou de distribuição (TUSD).
Ocorre que os custos das quotas anuais não são suportados pelas empresas do ramo de
energia. Elas são autorizadas a repassá-los "às tarifas dos consumidores finais, conforme metodologia de
cálculo a ser definida pela ANEEL", na forma do art. 10, § 3º, do Decreto n. 9.022/2017.
Portanto, as empresas de transmissão e distribuição são as devedoras das quotas anuais, mas
repassam esse encargo ao último elo da cadeia: os consumidores finais.
Além dos fornecedores e dos consumidores, há outros três atores, cuja posição é relevante
para a compreensão do direito material envolvido na controvérsia: UNIÃO, ANEEL e CCEE.
O primeiro ator é a UNIÃO, poder concedente e dona do patrimônio da CDE. Apesar de ser a
dona da CDE, a UNIÃO tem um papel limitado na sua supervisão, a qual é descentralizada à Agência
Nacional de Energia Elétrica - ANEEL.
A ANEEL é o segundo ator. Tem atribuição, na forma do Decreto n. 9.022/2017, para aprovar o
orçamento da CDE, fixar as quotas anuais, fiscalizar a movimentação e receber a prestação de contas
anual, além de estabelecer a destinação de recursos.
O terceiro ator é a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica - CCEE, uma pessoa jurídica
de direito privado, sem fins lucrativos, cuja criação foi autorizada pela UNIÃO, sob regulação e
fiscalização da ANEEL, encarregada da administração da conta.
Identificados os atores, é relevante identificar quem discute (autor da ação) e o que é discutido
(causa de pedir). As discussões judiciais que dão origem à presente controvérsia são movidas pelo
consumidor final.
O autor é consumidor final e, como tal, tem legitimidade apenas para discutir a própria relação
com a empresa de energia. Portanto, a procedência do pedido reduz a tarifa ao usuário final, mas não
gera efeitos na quota anual devida pela prestadora do serviço.
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Dessa forma, apenas a fornecedora de energia elétrica é legítima para figurar no polo passivo
da demanda. Na forma da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, UNIÃO e ANEEL não são
legítimas para a causa, e não tem nem sequer a possibilidade de atuarem como assistentes.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
SÚMULAS
Súmula 506/STJ
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 8/35
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DESTAQUE
Esses benefícios legais, portanto, podem ser concedidos a um mesmo militar inativo, por não
representarem cumulação de promoções, visto que apenas a lei concede o efetivo acesso à graduação
superior, enquanto a MP trata somente da concessão de melhoria na remuneração quando da passagem
para a inatividade.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 9/35
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tais militares, não havendo motivos fáticos, jurídicos e jurisprudenciais que desabonem a concomitância
da aplicação dos benefícios de promoção e de incremento financeiro.
Por fim, a outra questão debatida é se a revisão dos proventos de aposentadoria concedidos
aos militares reformados e/ou aos pensionistas militares que foram promovidos ao grau hierárquico
superior, em decorrência da Lei n. 12.158/2009, está sujeita ao prazo decadencial quinquenal previsto no
art. 54 da Lei n. 9.784/1999.
Todavia, uma vez reconhecido o direito à simultaneidade desses institutos com reflexos
funcionais e remuneratórios, resta prejudicada a inquirição sobre eventual decadência da Administração
na supressão desse direito.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 10/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
DESTAQUE
No contrato de alienação fiduciária, o credor detém a propriedade resolúvel do bem, para fins
de garantia do financiamento contraído, sem que exista o propósito de ser o dono da coisa (art. 22 da Lei
n. 9.514/1997).
Quanto aos tributos que incidem sobre o bem alienado fiduciariamente, dispõe expressamente
o art. 27, § 8º, da Lei n. 9.514/1997 que o devedor fiduciante responde pelo pagamento dos impostos,
taxas, contribuições condominiais e quaisquer outros encargos que recaiam sobre o imóvel, até a data da
imissão na posse pelo credor fiduciário, em razão do inadimplemento contratual.
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recolhimento do imposto predial decorre, justamente, da ausência de posse qualificada pelo animus
domini, elemento subjetivo essencial para o reconhecimento da posse passível de tributação.
Embora caiba à lei municipal, frente a múltipla sujeição passiva prevista em abstrato pela
norma, indicar a quem caberá o recolhimento do IPTU (Súmula n. 399 do STJ), tal escolha não é livre,
devendo o ente político observar o sujeito melhor qualificado para o cumprimento da obrigação. Em caso
de desdobramento da posse, como ocorre na alienação fiduciária, não pode a municipalidade, no
exercício da competência tributária, eleger, simultaneamente, dois ou mais sujeitos passivos para fins de
recolhimento do imposto.
Após a entrada em vigor da Lei n. 14.620, de 13 de julho de 2023, que acrescentou o § 2º ao art.
23 da Lei n. 9.514/1997, ficou expressamente previsto que caberá ao devedor fiduciante a obrigação de
arcar com os custos do IPTU incidente sobre o bem.
Assim, deve ser firmada a seguinte tese jurídica: o credor fiduciário, antes da consolidação da
propriedade e da imissão na posse no imóvel objeto da alienação fiduciária, não pode ser considerado
sujeito passivo do IPTU, uma vez que não se enquadra em nenhuma das hipóteses previstas no art. 34 do
CTN.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
SÚMULAS
Súmula n. 399/STJ.
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DESTAQUE
De início, cabe ressaltar que o entendimento atual de ambas as Turmas que compõem a
Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça (STJ) se consolidou no sentido da impossibilidade do
condicionamento da proposta de ANPP à confissão extrajudicial na fase inquisitorial.
A confissão anterior não foi exigida quando da definição do Tema Repetitivo n. 1098 por esta
Terceira Seção, entendendo-se cabível a celebração do ANPP "em casos de processos em andamento
quando da entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019, mesmo se ausente confissão do réu até aquele
momento", na mesma linha do decidido pelo Supremo Tribunal Federal no HC n. 185.913/DF.
Ainda, cabe pontuar a premissa fixada na primeira tese do Tema Repetitivo n. 1098: "o Acordo
de Não Persecução Penal constitui um negócio jurídico processual" e entabula "possibilidade de
composição entre as partes com o fim de evitar a instauração da ação penal".
Resta claro, assim, que o aspecto negocial é elemento chave para a compreensão do instituto
do ANPP e, consequentemente, para a interpretação dos contornos de tal inovação legislativa quanto à
quaestio enfrentada nesta oportunidade.
Ora, diante de um instituto de características negociais, como é o ANPP, parece distante dos
pressupostos basilares subjacentes exigir que uma das partes - a mais vulnerável, no caso - cumpra de
antemão com uma das obrigações a serem assumidas, sobretudo sem ao menos saber de antemão se terá
ou não sequer a oportunidade de negociar.
Isto porque este STJ adotou a posição no sentido de que "o acordo de não persecução penal
não constitui direito subjetivo do investigado, podendo ser proposto pelo Ministério Público conforme as
peculiaridades do caso concreto e quando considerado necessário e suficiente para a reprovação e a
prevenção da infração penal" (AgRg no REsp n. 1.912.425/PR, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta
Turma, julgado em 20/3/2023, DJe de 23/3/2023).
Assim, qualquer projeção anterior à efetiva iniciação das tratativas a respeito do acordo
configuraria mera conjectura, não havendo, conforme a jurisprudência desta Corte, se falar em direito
subjetivo à celebração do acordo.
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Nesse cenário, a exigência de uma prévia renúncia (ainda que retratável, como é da natureza
do instituto da confissão) ao direito ao silêncio e à não autoincriminação, sem a certeza da contrapartida,
representaria desarrazoada condicionante, não prevista, ademais, na legislação de regência.
Mais ainda, a exigência de confissão prévia significaria, em última análise, um incentivo à sua
realização em ambiente inquisitorial, sem a plenitude das garantias do devido processo legal, na maioria
das vezes sem assistência por defesa técnica - incompatível com os esforços que tem empreendido esta
Terceira Seção pela racionalização do uso da confissão extrajudicial no Processo Penal - v.g., com as
teses estabelecidas no AREsp n. 2.123.334/MG (relator Ministro Ribeiro Dantas, Terceira Seção, julgado em
20/6/2024, DJe de 2/7/2024).
Também não se pode perder de vista, diante de tal questão, a garantia convencional de não ser
obrigado a depor contra si mesmo ou declarar-se culpado (art. 8.2, "g", da Convenção Americana de
Direitos Humanos).
Não é cabível exigir que tal opção seja tomada "no escuro", antes mesmo de se saber se haverá
ou não proposta - e consequente tratativa - da solução negociada, quais os seus termos, bem como os
elementos de que dispõe a acusação para a formulação de eventual denúncia.
Sem a certeza da contrapartida, a faculdade em questão não poderia ser exercida plenamente
pela pessoa investigada, mais se aproximando de uma obrigação. É necessário, assim, garantir seu pleno
exercício, que deve ser devidamente informado, pois, caso contrário, se converterá num "salto de fé"
incompatível com a essencialidade da garantia subjacente, da qual se estará abrindo mão.
Nessa linha, deve a escolha - informada - pela confissão mirando a celebração do ANPP se dar
com consciência dos ganhos e perdas de cada via (processual ou negocial), o que implica na ciência do
conteúdo da proposta formulada pelo Ministério Público, bem como dos elementos que lastreiam a
pretensão acusatória, além da necessária assistência da defesa técnica (sobre esse ponto, já se decidiu
que a "[a]usência de orientação e presença da Defesa técnica [contamina] a negativa de acordo" - HC n.
838.005/MS, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do Tjsp), Sexta
Turma, julgado em 13/8/2024, DJe de 23/8/2024).
Por outro lado, também não satisfaz os ditames da CADH a interpretação de que a utilização,
na fase inquisitorial, desses direitos pela pessoa (não depor contra si mesma nem declarar-se culpada)
seria impeditivo para acesso a instrumento processual negocial que lhe pode ensejar situação mais
favorável. Isto porque a própria Convenção estabelece em seu artigo 29, "b", que a interpretação de seus
dispositivos não pode ocorrer de modo a "limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que
possam ser reconhecidos de acordo com as leis de qualquer dos Estados-Partes".
Portanto, não atende à garantia do art. 8.2, "g", da Convenção Americana de Direitos Humanos
a exigência de confissão pelo investigado a respeito do cometimento do crime, durante a fase de
inquérito policial; e não observa seu art. 29, "b", a interpretação de que o uso de tal garantia na fase de
inquérito impede o acesso à negociação de eventual ANPP.
Desse modo, no silêncio do art. 28-A do Código de Processo Penal quanto ao momento em
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 14/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
que deve se dar a confissão, sua interpretação não pode implicar em (inexistente) exigência de que ela
ocorra de antemão a eventual proposta de ANPP, ainda na fase inquisitiva. Assim, nada impede que a
confissão seja levada a efeito perante o próprio órgão ministerial, após a formulação da proposta de
acordo, sua avaliação (assistida por defesa técnica), eventual negociação e aceitação dos termos do
ANPP.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
PRECEDENTES QUALIFICADOS
Tema 1098/STJ
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 15/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
CORTE ESPECIAL
PROCESSO REsp 2.072.206-SP, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Corte
Especial, por maioria, julgado em 13/2/2025, DJEN 12/3/2025.
DESTAQUE
Com idêntica linha de raciocínio, a Terceira Turma desta Corte debruçou-se sobre o assunto e
concluiu, por maioria, que, tratando-se de incidente de desconsideração da personalidade jurídica, "(...) o
descabimento da condenação nos ônus sucumbenciais decorre da ausência de previsão legal
excepcional, sendo irrelevante se apurar quem deu causa ou foi sucumbente no julgamento final do
incidente." (REsp 1.845.536/SC, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Rel. para acórdão Ministro Marco Aurélio
Bellizze, Terceira Turma, DJe de 9/6/2020).
Tal pretensão pode ser exercitada na petição inicial, conforme faculdade conferida pelo art.
134, § 2º, do CPC/2015, ou em outras fases do processo, sendo mais comum a hipótese em que o pedido
de desconsideração é formulado já na fase de cumprimento de sentença ou na própria execução.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 16/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
Sob esse prisma, e considerando a efetiva existência de uma pretensão resistida, manifestada
contra terceiro(s) que até então não figurava(m) como parte, entende-se que a improcedência do pedido
formulado no incidente, tendo como resultado a não inclusão do sócio (ou da empresa) no polo passivo
da lide - situação que se equipara à sua exclusão quando indicado desde o princípio para integrar a
relação processual -, mesmo que sem a ampliação do objeto litigioso, dará ensejo à fixação de verba
honorária em favor do advogado de quem foi indevidamente chamado a litigar em juízo, como vem
entendendo a doutrina.
Em suma, com base no princípio hermenêutico segundo o qual onde há a mesma razão,
aplica-se o mesmo direito - ubi eadem ratio ibi eadem jus -, entende-se que pode ser aplicada ao caso a
mesma orientação adotada para a hipótese de extinção parcial do processo em virtude da exclusão de
litisconsorte passivo, que dá ensejo à condenação do autor ao pagamento de honorários advocatícios
sucumbenciais em favor do advogado do excluído.
Como já havia advertido a eminente Ministra Nancy Andrighi em voto proferido no julgamento
do REsp nº 1.845.536/SC, "o incidente de desconsideração da personalidade jurídica tem natureza
semelhante à de um procedimento comum e autônomo, capaz de alterar substancialmente o rumo da
ação principal, monitória, em fase de cumprimento de sentença, porquanto poderia acarretar a inclusão
ou a exclusão da sócia recorrida do alcance dos efeitos da execução forçada promovida em juízo. Nessas
circunstâncias, portanto, a despeito de não haver previsão expressa no art. 85, § 1º, do CPC/15, a parte
que requer a desconsideração e não obtêm êxito em seu propósito deveria, em tese, arcar com os ônus
referentes à sucumbência. Isso porque há, no julgamento ocorrido na vigência do CPC/15, inegável
decisão parcial de mérito por meio de decisão interlocutória, porquanto permanece em curso o processo
quanto à pessoa jurídica que originariamente ocupa o polo passivo da demanda".
Nesse mesmo julgado, contudo, a eminente Ministra Nancy Andrighi defendeu a aplicação do
princípio da causalidade para impedir que a parte exequente fosse responsabilizada pelo pagamento de
encargos que se fizeram necessários na busca de seu direito de crédito, ao ressaltar que "mesmo que não
estejam presentes os requisitos autorizadores da desconsideração, afrontaria à equidade impor ao credor,
que sequer consegue a satisfação de seu crédito, a responsabilidade pelo pagamento de honorários em
favor do advogado da parte que, além de não ter encerrado corretamente sua empresa, ainda sairia
vitoriosa da lide, fazendo jus à verba honorária em prol de sua defesa.".
Ressalta-se, por fim, que a definição dos critérios de fixação dos honorários advocatícios na
hipótese de improcedência do pedido formulado em incidente de desconsideração da personalidade
jurídica é matéria que pode exigir maiores esforços no futuro, mas não foi devolvida a esta Corte no
presente recurso especial.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 17/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 18/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
PRIMEIRA TURMA
DESTAQUE
Em análise do tema, a Corte de origem afirmou que a cota-parte destinada aos filhos deveria
ser transferida à viúva sob pena de violar o art. 53, III, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias
(ADCT) e o princípio da igualdade ao diminuir o valor do benefício.
Não obstante, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça entende que a pensão especial
instituída na vigência da Lei n. 8.059/1990 em favor de mais de um beneficiário não comporta a reversão
da cota-parte aos demais por vedação legal expressa.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
ÁUDIO DO TEXTO
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 19/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
TERCEIRA TURMA
DESTAQUE
Conforme dispõe o art. 1.667 do Código Civil (CC), o regime da comunhão universal de bens
importa na comunicação de todos os bens presentes e futuros dos cônjuges e suas respectivas dívidas
passivas. Existe, pois, verdadeira confusão entre o patrimônio adquirido por cada um dos cônjuges, de
modo que haverá apenas um único universo de bens de propriedade do casal, com atenção ao princípio
da solidariedade.
A regra geral do regime de bens comunheiro, portanto, pressupõe o esforço comum do casal
para a aquisição do patrimônio e cumprimento das obrigações, mesmo que assumidas por um dos
cônjuges. A incomunicabilidade da dívida assumida por um do casal apenas ocorrerá se comprovado que
não reverteu em benefício da família (AgRg no AREsp n. 427.980/PR, Quarta Turma, DJe 25/02/2014).
Outrossim, por ocasião da extinção da sociedade conjugal, faz-se necessária a partilha dos
bens adquiridos durante a relação. Nesse sentido, o art. 1.576 do CC estabelece que a separação judicial
põe termo ao regime de bens
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 20/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
Do contrário, tal fato implicaria enriquecimento sem causa daquele que receberia sozinho os
valores cujo fato gerador remonta ao período do casamento, uma vez que a cédula de crédito bancário
fora firmada presumindo-se o esforço comum de ambos.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
PROCESSO REsp 2.155.065-MG, rel. Ministra Nancy Andrighi, rel. para acórdão
Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, por maioria,
julgado em 11/3/2025.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 21/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
DESTAQUE
De acordo com a narrativa apresentada, a autora forneceu sua senha pessoal durante a ligação
com suposto representante de seu banco e, posteriormente, entregou o seu cartão bancário a terceiro
que se fez passar por prestador de serviço do banco demandado.
Vale também lembrar, conforme destacado na apreciação do Tema nº 466/STJ, que "(...) a
culpa exclusiva de terceiros apta a elidir a responsabilidade objetiva do fornecedor é espécie do gênero
fortuito externo, assim entendido aquele fato que não guarda relação de causalidade com a atividade do
fornecedor, absolutamente estranho ao produto ou serviço" .
A partir de tais premissas, esta Terceira Turma firmou o entendimento de que, em regra, a
responsabilidade da instituição financeira deve ser afastada na hipótese em que as transações contestadas
são realizadas com o uso do cartão original, com "chip", e o uso de senha pessoal do correntista,
ressalvada a comprovação de que a instituição financeira agiu com negligência, imprudência ou imperícia.
Posteriormente, esta Terceira Turma julgou recurso que versou sobre hipótese semelhante ao
"golpe do motoboy". Na ocasião, restou consignado que "(...) a entrega voluntária do cartão magnético e
da senha pessoal a terceiro, ainda que não espontaneamente, não torna a instituição financeira
responsável quando provada a existência de culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros", ou seja, a
fraude praticada por terceiro não teria, a princípio, aptidão para afastar a culpa da vítima para o resultado
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 22/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
danoso.
Na espécie, a consumidora, após ser convencida de que estava falando com representante do
banco demandado, compartilhou seus dados bancários sigilosos, situação que deu ensejo à compra
questionada.
A operação fraudulenta consistiu em uma única compra, de modo parcelado, realizada em loja
física, com a utilização do cartão da recorrente, após a inserção de sua senha pessoal, dentro dos limites
pré-aprovados. Tal contexto afasta a deficiência na prestação do serviço por parte do banco e aponta
para a culpa exclusiva da consumidora.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
SÚMULAS
Súmula n. 479/STJ
PRECEDENTES QUALIFICADOS
Tema 466/STJ
PROCESSO REsp 2.171.089-DF, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira
Turma, por unanimidade, julgado em 3/12/2024, DJEN 6/12/2024.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 23/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
DESTAQUE
A Lei de Recuperação de Empresas e Falência prevê uma fase, instaurada com a decisão de
deferimento do processamento da recuperação, na qual o patrimônio do devedor empresário é
preservado, ficando suspensas as execuções ajuizadas contra ele e vedadas as medidas constritivas (art.
6º, I, II e III, da LREF), de modo que possa ter um fôlego para apresentar o plano de recuperação judicial, é
o chamado stay period.
Na ação de despejo por falta de pagamento, porém, o bem cuja retomada se pretende não
pertence ao devedor, de modo que não se insere nas hipóteses de suspensão tratadas no artigo 6º, I, II e
III, da Lei nº 11.101/2005.
Tampouco o despejo se encaixa nas exceções previstas no artigo 49, § 3º, da referida lei, que
não permite a venda ou retirada do estabelecimento do devedor, no período de suspensão, dos bens de
capital essenciais à atividade empresarial pertencentes a credores fiduciários, de arrendamento mercantil
e proprietários vendedores.
Por essas razões que não cabe falar em aplicação por analogia das hipóteses do artigo 49, § 3º,
da LREF no caso da locação.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 24/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
QUARTA TURMA
PROCESSO REsp 2.022.841-SP, Rel. Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 11/3/2025.
DESTAQUE
Nos termos do art. 942 do CC/2002, quando a ofensa tem mais de um autor, todos respondem
solidariamente pela reparação. E nos termos do art. 265 do CC/2002, a solidariedade não se presume,
resultando da lei ou do contrato e, em se tratando de situação excepcional, a solidariedade apenas
comporta interpretação restritiva. E ainda, a situação não se enquadra em nenhuma das hipóteses de
responsabilidade objetiva solidária previstas no art. 932 do CC, o que em tese autorizaria a
responsabilização solidária independentemente de culpa.
Assim, não havendo previsão legal ou previsão nos contratos firmados pelas partes sobre a
assunção da responsabilidade pela integridade dos produtos anunciado, não há como reconhecer a
responsabilidade solidária.
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 25/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
garoto-propaganda pelo anúncio divulgado. Isso porque, para além de também não haver qualquer
relação de consumo, o fato de atuar como garoto-propaganda, atestando a qualidade e confiabilidade do
objeto da publicidade, não o transforma em garantidor do cumprimento das obrigações do fornecedor
anunciante.
No caso, não houve qualquer defeito na propaganda em si, não se configurando situação de
desídia ou de conivência da empresa jornalística com a veiculação de anúncios manifestamente
fraudulentos e potencialmente lesivos aos consumidores, não ficando configurada, portanto, situação
excepcional que autorize a responsabilização da empresa de comunicação e demais envolvidos na
publicidade.
Assim, não havendo nexo causal entre a conduta da emissora e do apresentador na prestação
dos serviços de publicidade para os quais foram contratados e os danos materiais causados em razão do
recursa do pagamento do prêmio pela organização do certame, não há que se falar em responsabilidade
solidária.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
DESTAQUE
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 26/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
A atuação do FGC está subordinada às diretrizes do Banco Central do Brasil, o que caracteriza
sua gestão como "múnus público" voltado à estabilidade do sistema financeiro, distinta da administração
comum prevista na Lei de Falências. Trata-se de uma entidade com a finalidade exclusiva de proteger o
sistema financeiro e garantir o pagamento de depósitos em instituições financeiras em crise, conforme
determinado pela legislação específica.
Logo, a aplicação do art. 351 do Código Civil em contexto falimentar, para classificar créditos
do FGC como subquirografários, não encontra suporte legal e distorce princípios do direito falimentar,
como o da par conditio creditorum. O direito falimentar exige, por fim, interpretação restritiva para
preservar a hierarquia de créditos e a estabilidade do sistema financeiro, fundamentais ao papel
institucional do FGC.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 27/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
QUINTA TURMA
PROCESSO REsp 2.083.823-DF, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma,
por unanimidade, julgado em 11/3/2025.
DESTAQUE
É cabível acordo de não persecução penal em ação penal privada, mesmo após o
recebimento da denúncia, tendo o Ministério Público legitimidade supletiva para propor a medida
quando houver inércia ou recusa infundada do querelante.
O acordo de não persecução penal foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pelo art.
28-A do CPP, por meio da Lei n. 13.964/2019 (Pacote Anticrime), com o inegável propósito de possibilitar
soluções consensuais para crimes de menor gravidade, reduzindo o número de processos penais ao
mesmo tempo em que propicia maior celeridade à justiça criminal.
O ANPP veio como forma de mitigação ao princípio da obrigatoriedade da ação penal pública
diante da existência de lastro suficiente de autoria e materialidade para oferecimento da denúncia, assim
como já acontece na transação penal, instituto cabível para as infrações de menor potencial ofensivo (art.
76 da Lei n. 9.099/1995). Pode-se asseverar, também, a mitigação ao princípio da indisponibilidade,
segundo o qual, em linhas gerais, não é dado ao Ministério Público desistir no curso da ação penal, sob a
perspectiva de aplicação do ANPP aos processos em curso ao tempo do início da vigência do ANPP no
ordenamento jurídico (Lei n. 13.964/2019, em 23/1/2020), consoante decidido no julgamento do Habeas
Corpus n. 185.913/DF pelo Supremo Tribunal Federal.
a) O interesse público subjacente à ação penal privada - Ainda que o direito de ação seja
atribuído ao ofendido, a persecução penal continua sendo uma manifestação do ius puniendi estatal,
sendo inalienável ao particular. O querelante não age em nome de um direito material próprio, mas sim
no exercício de um direito de substituição processual.
b) O princípio da isonomia entre réus de ações penais públicas e privadas - Negar o ANPP a
crimes de ação penal privada, nos casos em que todos os requisitos legais estão preenchidos, significaria
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 28/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
conceder tratamento mais gravoso a acusados que se encontram em situações fáticas idênticas, o que
violaria o princípio da igualdade substancial.
Dessa forma, a ausência de previsão expressa não pode ser interpretada como proibição,
devendo-se reconhecer a aplicação do acordo de não persecução penal na ação penal privada por
analogia in bonam partem.
A função do Ministério Público, nesse contexto, não se confunde com a titularidade da ação
penal. Sua atuação ocorre de forma supletiva e excepcional, apenas para garantir que o instituto do ANPP
seja aplicado de maneira justa e eficaz.
Note-se que parte da resistência à tese da legitimidade supletiva do Ministério Público decorre
do entendimento consolidado deste Superior Tribunal de Justiça no sentido de que, em ações penais
privadas, a transação penal só pode ser proposta pelo querelante. Contudo, o acordo de não persecução
penal possui natureza jurídica distinta da transação penal, o que justifica uma abordagem diferenciada.
Assim, a jurisprudência do STJ sobre a transação penal não pode ser aplicado automaticamente ao ANPP,
sob pena de se comprometer a coerência do sistema penal.
Quanto ao momento para oferecer o ANPP, por interpretação sistemática ao contido no art.
28-A do CPP e seus parágrafos, especialmente o § 8º e o § 10, tem-se que, em regra, é anterior ao
oferecimento da denúncia. Na prática, porém, a certeza do investigado quanto à falta de propositura do
ANPP ocorre quando citado para responder à acusação. Assim, precedentes desta Corte admitem que na
fase da resposta à acusação, primeiro momento processual para manifestação da defesa do acusado, o
agora denunciado possa manifestar-se pelo cabimento do acordo.
Sucede que a definição dos momentos processuais para o acordo de não persecução penal na
ação penal privada perpassa a interpretação sistemática do artigo 28-A do Código de Processo Penal com
os artigos 105 e 106 do Código Penal e o artigo 51 do CPP, que consagram o princípio da disponibilidade.
A ação penal privada rege-se pelo princípio da oportunidade, conferindo ao querelante ampla margem de
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 29/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
disponibilidade sobre a persecução penal, podendo, inclusive, renunciar ao direito de queixa, perdoar o
querelado ou realizar composição civil em qualquer fase do processo.
Se o querelante pode exercer atos ainda mais abrangentes, como desistir integralmente da
persecução penal, segue-se que também pode firmar um acordo de não persecução penal, ato de menor
impacto dentro da mesma esfera de atuação, até o trânsito em julgado, pois este representa uma
alternativa intermediária que não extingue de plano o direito de punir, mas apenas o condiciona ao
cumprimento de determinadas obrigações. Dessa forma, não há justificativa lógica ou principiológica para
restringir a possibilidade do querelante formalizar um ANPP em momento posterior ao recebimento da
queixa.
Ressalte-se que essa interpretação vale para as iniciativas do querelante, pois a atuação do
Ministério Público na ação penal privada é excepcional, limitando-se à fiscalização da ordem jurídica e
intervenção supletiva quando houver inércia do autor da queixa-crime.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
DESTAQUE
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 30/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
Note-se que a modificação do julgado exigiria que o Superior Tribunal de Justiça substituísse o
exame feito pela Corte estadual sobre o teor das cláusulas do acordo, a fim de verificar se elas abrangiam
ou não os materiais pretendidos pelo Ministério Público. Essa medida, entretanto, é inviável em sede de
recurso especial, nos termos da Súmula n. 5/STJ, segundo a qual "a simples interpretação de cláusula
contratual não enseja recurso especial".
Na mesma linha, "... não se mostra plausível nova análise de cláusulas contratuais previstas no
acordo de colaboração premiada por parte desta e. Corte Superior, a qual não pode ser considerada uma
terceira instância recursal. Incide, portanto, a Sumula 5 deste col. Superior Tribunal de Justiça..." (AgRg no
REsp 1.864.096/PR, Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador convocado do TJDFT), Quinta Turma, DJe
de 2/9/2021).
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
SÚMULAS
Súmula n. 5 do STJ
ÁUDIO DO TEXTO
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 31/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
SEXTA TURMA
DESTAQUE
Com efeito, é mais reprovável a subtração mediante grave ameaça praticada contra
adolescente, por terem seu desenvolvimento físico e psíquico incompleto e, consequentemente,
apresentarem menor capacidade de resistência, o que justifica a exasperação da pena-base
(culpabilidade).
Nesse sentido, "Mostra-se idônea a valoração negativa das circunstâncias do crime, tendo em
vista que foi praticado contra uma vítima adolescente do sexo feminino, o que denota maior
reprovabilidade da conduta, dado o menor grau de resistência da vítima" (HC 376.166/SP, Rel. Ministro
Felix Fischer, Quinta Turma, DJe 31/5/2017).
Isso porque, o trajeto para a escola torna previsível que o agente vai encontrar vítimas mais
vulneráveis e frustra os esforços do Estado e da sociedade para tornar o ambiente da escola e os
arredores mais seguros para os estudantes, o que justifica o sopesamento negativo das circunstâncias do
crime.
ÁUDIO DO TEXTO
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 32/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
DESTAQUE
No caso, apesar de não realizada perícia técnica, o furto de fios de eletricidade e de telefonia
por meio de escalada foi comprovado pelo depoimento dos dois policiais que efetuaram a prisão em
flagrante da acusada com uma mochila preenchida com res furtivae e com lâminas, enquanto o comparsa
estava no alto de um poste.
Nesse ponto, cabe ressaltar que a hipótese é a de flagrante, pois os policiais surpreenderam o
corréu no alto de um poste retirando cabos de energia enquanto a acusada o aguardava embaixo, com
uma bolsa em que esses bens eram armazenados, perto de um facão utilizado por ambos para fazer os
cortes.
ÁUDIO DO TEXTO
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 33/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
TEMA Homicídio na direção de veículo automotor. Art. 121, § 2º, IV, c/c o §
4º do CP e artigos 304 e 305 do CTB. Decisão de pronúncia.
Existência de indícios mínimos de autoria. Fase de mero juízo de
admissibilidade da acusação. Competência do Tribunal do Júri para a
análise do elemento subjetivo.
DESTAQUE
Não é necessário que na decisão fique demonstrada de forma cabal a autoria do delito, o que
somente ocorrerá num eventual juízo condenatório, mas apenas que se exponha os indícios mínimos de
autoria e materialidade, inclusive aqueles angariados em solo policial.
O Supremo Tribunal Federal firmou nova orientação jurisprudencial de que a primeira fase do
procedimento do júri constitui filtro processual com a função de evitar julgamento pelo plenário sem a
existência de prova de materialidade e indícios de autoria firmados no bojo do processo, o que tornou
ilegal a sentença de pronúncia elaborada com base exclusiva nas provas produzidas no inquérito policial
(HC n. 180.144/PI, Relator Ministro Celso de Mello, DJe 22/10/2020).
No caso, o Tribunal de origem entendeu que "a acusação por homicídio doloso, praticado com
dolo eventual, tomou por base uma sucessão de fatos, como (i) a velocidade do veículo, no momento da
colisão, (ii) o fato de o atropelamento ter ocorrido na faixa de pedestres, (iii) a possível embriaguez do
acusado, (iv) a fuga do local dos fatos, (v) a anotação de diversas multas por excesso de velocidade, em
momentos anteriores, e (vi) a existência de condenação criminal do acusado, por homicídio culposo, na
direção de veículo automotor, em outra oportunidade.".
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 34/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.
Dessa forma, a menção aos indícios que aludem à suposta ingestão de bebidas alcoólicas pelo
réu foi feita como forma de refutar os argumentos lançados pela defesa, que pretendia ver reconhecida,
nesta fase, a modalidade culposa.
INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO
[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 35/35