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Limites de Descontos para Militares

O Informativo de Jurisprudência n. 843 destaca teses sobre recursos repetitivos, incluindo a aplicação de limites para descontos em folha de pagamento de militares e a incidência de prescrição intercorrente em processos administrativos aduaneiros. Além disso, aborda a correção monetária e juros de mora na multa civil por improbidade administrativa, estabelecendo que devem incidir a partir da data do ato ímprobo. As decisões refletem a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça em temas relevantes do Direito Administrativo.

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Limites de Descontos para Militares

O Informativo de Jurisprudência n. 843 destaca teses sobre recursos repetitivos, incluindo a aplicação de limites para descontos em folha de pagamento de militares e a incidência de prescrição intercorrente em processos administrativos aduaneiros. Além disso, aborda a correção monetária e juros de mora na multa civil por improbidade administrativa, estabelecendo que devem incidir a partir da data do ato ímprobo. As decisões refletem a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça em temas relevantes do Direito Administrativo.

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Informativo

de Jurisprudência

Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

Este periódico destaca teses jurisprudenciais e não consiste em repositório oficial de jurisprudência.

RECURSOS REPETITIVOS

PROCESSO REsp 2.145.185-RJ, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura,


Primeira Seção, por unanimidade, julgado em 12/2/2025. (Tema
1286).
REsp 2.145.550-RJ, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura,
Primeira Seção, por unanimidade, julgado em 12/2/2025 (Tema
1286).

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO

TEMA Militares da União. Consignação em folha de pagamento. Descontos


autorizados antes de 4/8/2022. Limite de 70% para a soma dos
descontos obrigatórios e autorizados. Aplicação da Medida Provisória
n. 2.215-10/2001.

DESTAQUE

Para os descontos autorizados antes de 4/8/2022, data da vigência da Medida


Provisória n. 1.132/2022, convertida na Lei n. 14.509/2022, não se aplica limite específico para as
consignações autorizadas em favor de terceiros, devendo ser observada apenas a regra de que o
militar das Forças Armadas não pode receber quantia inferior a trinta por cento da sua
remuneração ou proventos, após os descontos, na forma do art. 14, § 3º, da Medida Provisória n.
2.215-10/2001.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia consiste em definir se aos empréstimos consignados em folha de pagamento
firmados por militares das Forças Armadas aplica-se o art. 14, § 3º, da Medida Provisória n. 2.215-10/2001,
ou deve ser feita articulação com outros diplomas normativos, como a Lei n. 10.820/2003 e a Lei n.
14.509/2022.

Para tanto, destaca-se que o limite total de descontos em folha de pagamento dos militares
das Forças Armadas é de 70% (setenta por cento) da remuneração ou proventos, na forma do art. 14, § 3º,
da Medida Provisória n. 2.215-10/2001. Esse limite corresponde à soma dos descontos obrigatórios e

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 1/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

autorizados.

Por seu turno, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça firmou-se no sentido de que
não se aplica a Lei n. 10.820/2003, específica para empregados e beneficiários do RGPS e da assistência
social; nem o art. 45, § 2º, da Lei n. 8.112/1991, introduzido pela Medida Provisória 681/2015 (hoje
revogado), específico para servidores públicos civis.

Cabe, ainda, esclarecer que, a partir de 4/8/2022, data da vigência da Medida Provisória n.
1.132/2022, convertida na Lei n. 14.509/2022, aplica-se, aos militares das Forças Armadas, um segundo
limite para as consignações autorizadas em favor de terceiros, observadas as especificações do art. 2º da
Lei n. 14.509/2022.

Esse novo teto de descontos autorizados em favor de terceiros é aplicável ao pessoal das
Forças Armadas visto que leis ou regulamentos específicos não definiram outro percentual (art. 3º, I, da
Lei n. 14.509/2022). Em consequência, passa a existir duplo limite - 70% (setenta por cento) para a soma
dos descontos obrigatórios e autorizados; e 45% (quarenta e cinco por cento) para as consignações
autorizadas em favor de terceiros, observadas as especificações do art. 2º da Lei n. 14.509/2022.

Destarte, firma-se a seguinte tese repetitiva: Para os descontos autorizados antes de 4/8/2022,
data da vigência da Medida Provisória n. 1.132/2022, convertida na Lei n. 14.509/2022, não se aplica limite
específico para as consignações autorizadas em favor de terceiros, devendo ser observada apenas a regra
de que o militar das Forças Armadas não pode receber quantia inferior a trinta por cento da sua
remuneração ou proventos, após os descontos, na forma do art. 14, § 3º, da Medida Provisória n. 2.215-
10/2001

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Medida Provisória n. 2.215-10/2001, art. 14, § 3º.


Lei n. 10.820/2003.
Lei n. 14.509/2022, artigos 2º; e 3º, I.
Lei n. 8.112/1991, art. 45, § 2º.

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 2/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

PROCESSO REsp 2.147.578-SP, Rel. Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira


Seção, por unanimidade, julgado em 12/3/2025. (Tema 1293).
REsp 2.147.583-SP, Rel. Ministro Paulo Sérgio Domingues, Primeira
Seção, por unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1293).

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO

TEMA Aduaneiro. Processo administrativo. Infração à legislação aduaneira.


Prescrição intercorrente. Art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999. Incidência
da prescrição intercorrente aos processos administrativos de
apuração de infrações aduaneiras (natureza não tributária). Tema
1293.

DESTAQUE

1. Incide a prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 quando
paralisado o processo administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não
tributária, por mais de 3 anos.
2. A natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração à legislação
aduaneira é de direito administrativo (não tributário) se a norma infringida visa primordialmente ao
controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda
que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes
sobre a operação.
3. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 apenas se a obrigação descumprida,
conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação
ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia jurídica repetitiva afetada pela Primeira Seção deste Superior Tribunal de Justiça
ao regime dos artigos 1.036 a 1.041 do Código de Processo Civil encontra-se sintetizada na seguinte
proposição: "definir se incide a prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999
quando paralisado o processo administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não
tributária, por mais de 3 anos".

Dito isso, tem-se que é a natureza jurídica da norma de conduta violada o critério legal que
deve ser observado para dizer se tal ou qual infração à lei deve ou não obediência aos ditames da Lei n.
9.873/1999, e não o procedimento que tenha sido escolhido pelo legislador para se promover a apuração
ou constituição definitiva do crédito correspondente à sanção pela infração praticada.

Noutras palavras, o rito estabelecido para a apuração ou constituição definitiva do crédito


correspondente à sanção pelo descumprimento de uma norma aduaneira não é importante para a
definição da natureza jurídica da norma descumprida.

Nessa linha de raciocínio, o que se tem é que, segundo a jurisprudência uniforme das Turmas
de Direito Público do STJ, é a natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pelo descumprimento
de obrigação estabelecida no curso do procedimento de despacho aduaneiro o elemento determinante
para se definir a incidência da regra do art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 em benefício do infrator,
reconhecendo-se a prescrição da pretensão punitiva se paralisado o procedimento administrativo, sem

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 3/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

justa causa, por mais de três anos.

Ora, a natureza jurídica desse tipo de crédito será de direito administrativo se a norma
infringida visa primordialmente ao controle do trânsito internacional de mercadorias ou à regularidade do
serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa colaborar para a fiscalização do recolhimento dos
tributos incidentes sobre a operação. Não incidirá o art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 apenas se a
obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente
à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes sobre o negócio jurídico realizado.

Destarte, propõe-se as seguintes teses jurídicas aplicáveis para toda e qualquer infração à
legislação aduaneira cuja natureza jurídica tenha que ser investigada pelas instâncias ordinárias: 1. Incide a
prescrição intercorrente prevista no art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 quando paralisado o processo
administrativo de apuração de infrações aduaneiras, de natureza não tributária, por mais de 3 anos; 2. A
natureza jurídica do crédito correspondente à sanção pela infração à legislação aduaneira é de direito
administrativo (não tributário) se a norma infringida visa primordialmente ao controle do trânsito
internacional de mercadorias ou à regularidade do serviço aduaneiro, ainda que, reflexamente, possa
colaborar para a fiscalização do recolhimento dos tributos incidentes sobre a operação; e 3. Não incidirá
o art. 1º, § 1º, da Lei n. 9.873/1999 apenas se a obrigação descumprida, conquanto inserida em ambiente
aduaneiro, destinava-se direta e imediatamente à arrecadação ou à fiscalização dos tributos incidentes
sobre o negócio jurídico realizado.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código de Processo Civil (CPC), artigos 1.036 a 1.041.


Lei n. 9.873/1999, artigo 1º, § 1º.

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO REsp 1.942.196-PR, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 12/3/2025. (Tema 1128).
REsp 1.953.046-PR, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1128)
REsp 1.958.567-PR, Rel. Ministro Afrânio Vilela, Primeira Seção, por
unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1128)

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO

TEMA Improbidade administrativa. Multa civil. Termo inicial da incidência


dos juros de mora e da correção monetária. Data do ato ímprobo.
Súmulas 48 e 54/STJ. Tema 1128.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 4/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

DESTAQUE

Na multa civil prevista na Lei 8.429/1992, a correção monetária e os juros de mora


devem incidir a partir da data do ato ímprobo, nos termos das Súmulas 43 e 54/STJ.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Trata-se de controvérsia repetitiva assim delimitada: "definir o termo inicial dos juros e da
correção monetária da multa civil prevista na Lei de Improbidade Administrativa, isto é, se devem ser
contados a partir do trânsito em julgado, da data do evento danoso - nos termos das Súmulas 43 e 54/STJ
-, ou de outro marco processual".

Nos termos do art. 12, I, II e III, da Lei 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa), a multa
civil tem como base de cálculo o proveito econômico obtido, o dano causado ao erário ou o valor da
remuneração percebida. Assim, em qualquer dos casos, o critério legal para a fixação da multa civil
remete a um fator relacionado à data da efetivação do ato ímprobo.

Ainda que o montante da multa civil somente venha a ser definido ao final da ação, a incidência
de correção monetária apenas após a sua fixação ou do trânsito em julgado, resultaria em quantia
desvinculada do proveito econômico obtido, do dano causado ao erário ou do valor da remuneração
percebida pelo agente, critérios que remetem à data do ato ímprobo.

Desse modo, é o caso de incidência da Súmula 43/STJ: "Incide correção monetária sobre
dívida por ato ilícito a partir da data do efetivo prejuízo", sendo lícito concluir que o valor devido a título
de multa civil seja corrigido monetariamente desde a data do ato ímprobo.

Além disso, conforme ensinamento doutrinário, haverá responsabilidade extracontratual se o


dever jurídico violado não estiver previsto no contrato, mas sim na lei ou na ordem jurídica. Nesse
contexto, é possível afirmar que as sanções e o ressarcimento do dano, previstos na Lei 8.429/1992,
inserem-se no âmbito da responsabilidade extracontratual por ato ilícito.

Sendo assim, em se tratando de responsabilidade extracontratual, é aplicável o disposto no art.


398 do Código Civil (Nas obrigações provenientes de ato ilícito, considera-se o devedor em mora, desde
que o praticou) e na Súmula 54/STJ (Os juros moratórios fluem a partir do evento danoso, em caso de
responsabilidade extracontratual).

Dessa forma, deve ser fixada a seguinte tese jurídica: Na multa civil prevista na Lei 8.429/1992,
a correção monetária e os juros de mora devem incidir a partir da data do ato ímprobo, nos termos das
Súmulas 43 e 54/STJ.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 5/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Lei 8.429/1992 (Lei de Improbidade Administrativa), art. 12, I, II e III


Código Civil (CC), art. 398

SÚMULAS

Súmula n. 43/STJ
Súmula n. 54/STJ

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO REsp 1.955.655-RS, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura,


Primeira Seção, por unanimidade, julgado em 12/3/2025. (Tema
1148).
REsp 1.956.946-RS, Rel. Ministra Maria Thereza de Assis Moura,
Primeira Seção, por unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema
1148).

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO, DIREITO PROCESSUAL CIVIL

TEMA Conta de Desenvolvimento Enérgico - CDE. Parâmetros de cálculo


das quotas anuais. Discussão em Juízo. União. ANEEL. Ilegitimidade
passiva. Tema 1148.

DESTAQUE

As demandas em que o consumidor final discute parcela dos objetivos e parâmetros de


cálculo das quotas anuais da Conta de Desenvolvimento Energético - CDE devem ser movidas
contra a prestadora de serviços de energia elétrica, sendo ilegítimas para a causa a União e a
ANEEL, ainda que a causa de pedir seja a legalidade dos regulamentos expedidos pelo Poder
Público.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A questão controversa afetada ao rito dos recursos repetitivos é a definição da legitimidade
passiva para as demandas em que se discute a legalidade dos regulamentos expedidos pelo Poder Público
a respeito dos objetivos e parâmetros de cálculo das quotas anuais da Conta de Desenvolvimento
Energético - CDE.

Como relação entre o sujeito e a causa, a legitimidade passiva deve ser aferida com base no
direito material em disputa. Neste caso, a controvérsia gira em torno das quotas anuais devidas à Conta

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 6/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

de Desenvolvimento Energético - CDE, previstas no art. 13, § 1º, I, da Lei n. 10.438/2002.

O direito material em disputa é sobre o valor do adicional tarifário cobrado do consumidor pela
prestadora do serviço de energia elétrica.

Em casos semelhantes, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça definiu que a causa é


pertinente apenas ao prestador e ao consumidor do serviço público, de modo que apenas a prestadora do
serviço público é legítima para figurar no polo passivo de processos movidos pelo consumidor discutindo
o valor da tarifa. No âmbito dos serviços de telefonia, o entendimento foi plasmado na Súmula 506 do
STJ: A Anatel não é parte legítima nas demandas entre a concessionária e o usuário de telefonia
decorrentes de relação contratual.

A CDE, criada pelo art. 13 da Lei n. 10.438/2002, é um fundo público setorial que "subvenciona
alguns agentes ou atividades econômicas do setor elétrico a partir de recursos do Tesouro Nacional e dos
consumidores de energia elétrica ".

Dentre as fontes de recursos da CDE, estão as quotas anuais "pagas por todos os agentes que
comercializem energia com consumidor final". Trata-se, portanto, de uma dívida das concessionárias,
permissionárias ou autorizadas a prestar serviços de distribuição ou de transmissão de energia elétrica ao
consumidor final. As quotas anuais são pagas "mediante encargo tarifário" incluído nas tarifas de uso dos
sistemas de transmissão (TUST) ou de distribuição (TUSD).

Ocorre que os custos das quotas anuais não são suportados pelas empresas do ramo de
energia. Elas são autorizadas a repassá-los "às tarifas dos consumidores finais, conforme metodologia de
cálculo a ser definida pela ANEEL", na forma do art. 10, § 3º, do Decreto n. 9.022/2017.

Portanto, as empresas de transmissão e distribuição são as devedoras das quotas anuais, mas
repassam esse encargo ao último elo da cadeia: os consumidores finais.

Além dos fornecedores e dos consumidores, há outros três atores, cuja posição é relevante
para a compreensão do direito material envolvido na controvérsia: UNIÃO, ANEEL e CCEE.

O primeiro ator é a UNIÃO, poder concedente e dona do patrimônio da CDE. Apesar de ser a
dona da CDE, a UNIÃO tem um papel limitado na sua supervisão, a qual é descentralizada à Agência
Nacional de Energia Elétrica - ANEEL.

A ANEEL é o segundo ator. Tem atribuição, na forma do Decreto n. 9.022/2017, para aprovar o
orçamento da CDE, fixar as quotas anuais, fiscalizar a movimentação e receber a prestação de contas
anual, além de estabelecer a destinação de recursos.

O terceiro ator é a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica - CCEE, uma pessoa jurídica
de direito privado, sem fins lucrativos, cuja criação foi autorizada pela UNIÃO, sob regulação e
fiscalização da ANEEL, encarregada da administração da conta.

Identificados os atores, é relevante identificar quem discute (autor da ação) e o que é discutido
(causa de pedir). As discussões judiciais que dão origem à presente controvérsia são movidas pelo
consumidor final.

A causa de pedir é a ilegalidade de componentes da quota imposta às empresas do setor


energético. Indiretamente, o consumidor discute o encargo das distribuidoras e transmissoras, não
havendo nenhuma discussão sobre o cálculo do repasse pela fornecedora. A afirmação é de que a quota
da empresa deveria ser menor, por isso, o repasse ao consumidor deveria ser mais módico.

O autor é consumidor final e, como tal, tem legitimidade apenas para discutir a própria relação
com a empresa de energia. Portanto, a procedência do pedido reduz a tarifa ao usuário final, mas não
gera efeitos na quota anual devida pela prestadora do serviço.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 7/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

Portanto, se "a legitimidade" é a "individualização do interesse" em causa, a "pertinência


subjetiva" em face do interesse, é a prestadora do serviço de distribuição ou transmissão de energia
elétrica, a qual tem o contrato com o consumidor final, quem tem essa pertinência subjetiva.

Dessa forma, apenas a fornecedora de energia elétrica é legítima para figurar no polo passivo
da demanda. Na forma da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, UNIÃO e ANEEL não são
legítimas para a causa, e não tem nem sequer a possibilidade de atuarem como assistentes.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Decreto n. 9.022/2017, art. 10, § 3º.


Lei n. 10.438/2002, art. 13, § 1º, I.

SÚMULAS

Súmula 506/STJ

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO REsp 2.124.412-RJ, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Primeira


Seção, por unanimidade, julgado em 12/3/2025. (Tema 1297).
REsp 2.132.208-RJ, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, Primeira Seção
por unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1297).
REsp 2.085.764-PE, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, Primeira Seção,
por unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1297).
REsp 2.040.852-PE, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, Primeira Seção,
por unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1297).
REsp 2.009.309-RN, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, Primeira Seção,
por unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1297).
REsp 1.966.548-PE, Rel. Min. Teodoro Silva Santos, Primeira Seção,
por unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1297).

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO ADMINISTRATIVO MILITAR

TEMA Militares. Quadro de taifeiros da aeronáutica. Proventos e pensões.


Promoção na inatividade e percepção simultânea de remuneração
correspondente ao grau hierárquico superior. Aplicação cumulativa
de normas. Possibilidade. Sobreposição de graus hierárquicos.
Inexistência. Reparação histórica. Alegação de decadência.
Prejudicada. Tema 1297.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 8/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

DESTAQUE

É compatível a aplicação cumulativa da Lei n. 12.158/2009 e do art. 34 da Medida


Provisória n. 2.215-10/2001 aos militares oriundos do Quadro de Taifeiros da Aeronáutica na
reserva remunerada, reformados ou no serviço ativo, cujo ingresso no referido Quadro se deu até
31/12/1992.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia consiste em definir: (i) a possibilidade de aplicação cumulativa da Lei n.
12.158/2009 e do art. 34 da Medida Provisória n. 2.215-10/2001 aos militares oriundos do Quadro de
Taifeiros da Aeronáutica na reserva remunerada, reformados ou no serviço ativo, cujo ingresso no referido
Quadro se deu até 31/12/1992.

Importa saber, portanto, se a norma que garante o acesso às graduações superiores na


inatividade, limitada à de Suboficial, é cumulável com a que assegura o recebimento de remuneração
correspondente ao grau hierárquico superior ou melhoria dessa remuneração, caso preenchidos os
requisitos para transferência à inatividade até 29/12/2000.

A questão repetitiva trazida a debate cinge-se em definir se é possível de aplicação a Lei n.


12.158, de 28/12/2009, cumulativamente ao disposto no art. 34 da Medida Provisória n. 2.215-10, de
31/8/2001, aos militares oriundos do Quadro de Taifeiros da Aeronáutica na reserva remunerada,
reformados ou no serviço ativo, cujo ingresso no referido Quadro se deu até 31/12/1992.

Nesse sentido, entende-se que a aplicação cumulativa da Lei n. 12.158/2009 e do art. 34 da


Medida Provisória n. 2.215-10/2001 é compatível, pois tratam de institutos jurídicos distintos, sendo
possível o recebimento conjunto pelos militares abrangidos pelos requisitos legais. Isso porque a Lei
Federal assegura o acesso às graduações superiores na inatividade, enquanto a Medida Provisória garante
a percepção de remuneração correspondente ao grau hierárquico superior.

Esses benefícios legais, portanto, podem ser concedidos a um mesmo militar inativo, por não
representarem cumulação de promoções, visto que apenas a lei concede o efetivo acesso à graduação
superior, enquanto a MP trata somente da concessão de melhoria na remuneração quando da passagem
para a inatividade.

Cumpridos todos requisitos legais, os Taifeiros da Aeronáutica terão direito às promoções


previstas na Lei n. 12.158/2009, regulamentada pelo Decreto n. 7.188/10, e ao incremento financeiro
disposto no art. 34 da MP n. 2.215-10/2001, por se tratarem de benefícios legais diferentes, os quais só
vêm a corrigir a injustiça histórica perpetrada por uma legislação mais que cinquentenária, que somente
veio a ser regulamentada entre 2009 e 2010.

Explicados os objetivos diferenciados desses dois comandos normativos - o incremento


financeiro de proventos (art. 50, inciso II, Lei n. 6.880/1980 c.c. o art. 34, MP n. 2.215-10/2001) e a efetiva
promoção hierárquica na reserva (Lei n. 12.158/2009) -, que, por si só, já justificam sua aplicação
concomitante, também é importante destacar que esse último diploma, após decorrido quase meio
século, veio tardiamente garantir o direito de promoção aos taifeiros da Aeronáutica, consoante
autorizado desde a Lei n. 3.953/1961, que previa a possibilidade de promoção à graduação de suboficial.

Nesse sentido, a situação em exame coaduna a conclusão de que, diante da ausência de


vedação legal em relação à cumulação dos benefícios previstos no art. 34 da Medida Provisória n. 2.215-
10/2001 e nos arts. 1º e 2º da Lei n. 12.158/2009, não se mostra legítima a redução da remuneração de

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 9/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

tais militares, não havendo motivos fáticos, jurídicos e jurisprudenciais que desabonem a concomitância
da aplicação dos benefícios de promoção e de incremento financeiro.

Afinal, a interpretação teleológica de todos os dispositivos em conjunto leva à conclusão de


que a intenção legislativa era corrigir injustiças e propiciar benefícios financeiros e hierárquicos aos
taifeiros da Aeronáutica que foram prejudicados com a mora regulamentar, razão pela qual confirma-se
que a cumulatividade dos dispositivos em comento é permitida e que o não reconhecimento de tal
possibilidade significaria, novamente, um grande dano aos integrantes desse quadro.

Conclui-se, portanto, ser compatível a aplicação cumulativa da Lei n. 12.158/2009 e do art. 34


da Medida Provisória n. 2.215-10/2001 aos militares oriundos do Quadro de Taifeiros da Aeronáutica na
reserva remunerada, reformados ou no serviço ativo, cujo ingresso no referido Quadro se deu até
31/12/1992.

Por fim, a outra questão debatida é se a revisão dos proventos de aposentadoria concedidos
aos militares reformados e/ou aos pensionistas militares que foram promovidos ao grau hierárquico
superior, em decorrência da Lei n. 12.158/2009, está sujeita ao prazo decadencial quinquenal previsto no
art. 54 da Lei n. 9.784/1999.

Todavia, uma vez reconhecido o direito à simultaneidade desses institutos com reflexos
funcionais e remuneratórios, resta prejudicada a inquirição sobre eventual decadência da Administração
na supressão desse direito.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Lei n. 12.158/2009, arts. 1º e 2º.


Decreto n. 7.188/10.
Medida Provisória n. 2.215-10/2001, art. 34.
Lei n. 6.880/80, art. 50, inciso II.
Lei n. 3.953/61.
Lei n. 9.784/1999, art. 54.

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 10/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

PROCESSO REsp 1.949.182-SP, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Primeira


Seção, por unanimidade, julgado em 12/3/2025. (Tema 1158).
REsp 1.959.212-SP, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Primeira
Seção, por unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1158).
REsp 1.982.001-SP, Rel. Ministro Teodoro Silva Santos, Primeira
Seção, por unanimidade, julgado em 12/3/2025 (Tema 1158).

RAMO DO DIREITO DIREITO TRIBUTÁRIO

TEMA Imposto Territorial Urbano - IPTU. Imóvel objeto de alienação


fiduciária. Inclusão do credor fiduciário na demanda. Impossibilidade.
Ausência de posse com animus domini. Ausência de
responsabilidade tributária solidária. Ilegitimidade passiva. Tema 1158.

DESTAQUE

O credor fiduciário, antes da consolidação da propriedade e da imissão na posse no


imóvel objeto da alienação fiduciária, não pode ser considerado sujeito passivo do IPTU, uma vez
que não se enquadra em nenhuma das hipóteses previstas no art. 34 do CTN.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia tem origem na execução fiscal ajuizada pelo Município de São Paulo com vistas
à cobrança do Imposto Predial e Territorial Urbano - IPTU incidente sobre imóvel alienado
fiduciariamente. Requerida a exclusão do credor fiduciário da demanda, o pedido foi rejeitado. Interposto
Agravo de Instrumento, o Tribunal de origem deu provimento ao recurso para reconhecer a ilegitimidade
passiva da instituição financeira.

Portanto, o tema repetitivo em apreciação foi assim delimitado: definir se há responsabilidade


tributária solidária e legitimidade passiva do credor fiduciário na execução fiscal em que se cobra IPTU de
imóvel objeto de contrato de alienação fiduciária.

Conforme o art. 34 do Código Tributário Nacional (CTN), é contribuinte do IPTU o proprietário


do imóvel, o detentor do seu domínio útil ou o seu possuidor a qualquer título.

Especificamente em relação ao possuidor, conforme a interativa jurisprudência do Superior


Tribunal de Justiça, a posse deverá ser qualificada pelo animus domini, ou seja, pela intenção de ser o
dono do bem. Por conseguinte, a sujeição passiva da relação jurídico-tributária não alcança aquele que
detém a posse precária da coisa, como é o caso do cessionário do direito de uso e do locatário do imóvel.

No contrato de alienação fiduciária, o credor detém a propriedade resolúvel do bem, para fins
de garantia do financiamento contraído, sem que exista o propósito de ser o dono da coisa (art. 22 da Lei
n. 9.514/1997).

Quanto aos tributos que incidem sobre o bem alienado fiduciariamente, dispõe expressamente
o art. 27, § 8º, da Lei n. 9.514/1997 que o devedor fiduciante responde pelo pagamento dos impostos,
taxas, contribuições condominiais e quaisquer outros encargos que recaiam sobre o imóvel, até a data da
imissão na posse pelo credor fiduciário, em razão do inadimplemento contratual.

A ratio do comando normativo que nega a sujeição passiva do credor fiduciário ao

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 11/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

recolhimento do imposto predial decorre, justamente, da ausência de posse qualificada pelo animus
domini, elemento subjetivo essencial para o reconhecimento da posse passível de tributação.

Embora caiba à lei municipal, frente a múltipla sujeição passiva prevista em abstrato pela
norma, indicar a quem caberá o recolhimento do IPTU (Súmula n. 399 do STJ), tal escolha não é livre,
devendo o ente político observar o sujeito melhor qualificado para o cumprimento da obrigação. Em caso
de desdobramento da posse, como ocorre na alienação fiduciária, não pode a municipalidade, no
exercício da competência tributária, eleger, simultaneamente, dois ou mais sujeitos passivos para fins de
recolhimento do imposto.

Após a entrada em vigor da Lei n. 14.620, de 13 de julho de 2023, que acrescentou o § 2º ao art.
23 da Lei n. 9.514/1997, ficou expressamente previsto que caberá ao devedor fiduciante a obrigação de
arcar com os custos do IPTU incidente sobre o bem.

Assim, deve ser firmada a seguinte tese jurídica: o credor fiduciário, antes da consolidação da
propriedade e da imissão na posse no imóvel objeto da alienação fiduciária, não pode ser considerado
sujeito passivo do IPTU, uma vez que não se enquadra em nenhuma das hipóteses previstas no art. 34 do
CTN.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código Tributário Nacional (CTN), artigo 34.


Lei n. 9.514/1997, artigos 22; 23, § 2º; 27, § 8º.
Lei n. 14.620/2023.

SÚMULAS

Súmula n. 399/STJ.

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO REsp 2.161.548-BA, Rel. Ministro Otávio de Almeida Toledo


(Desembargador convocado do TJSP), Terceira Seção, por
unanimidade, julgado em 12/3/2025. (Tema 1303).

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL

TEMA Acordo de não persecução penal. Exigência da confissão durante a


fase de inquérito. Fundamentação inidônea para a recusa na
formulação da proposta correspondente. Natureza negocial do
instituto. Ausência de certeza da contrapartida. Garantia de não
autoincriminação. Necessidade de escolha informada. Possibilidade
de realização do ato perante o ministério público. Tema 1303.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 12/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

DESTAQUE

1. A confissão pelo investigado na fase de inquérito policial não constitui exigência do


art. 28-A do Código de Processo Penal para o cabimento de Acordo de Não Persecução Penal
(ANPP), sendo inválida a negativa de formulação da respectiva proposta baseada em sua ausência.
2. A formalização da confissão para fins do ANPP pode se dar no momento da
assinatura do acordo, perante o próprio órgão ministerial, após a ciência, avaliação e aceitação da
proposta pelo beneficiado, devidamente assistido por defesa técnica, dado o caráter negocial do
instituto.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Cinge-se a controvérsia em definir se a ausência de confissão pelo investigado a respeito do
cometimento do crime, durante a fase de inquérito policial, constitui fundamento válido para o Ministério
Público não ofertar proposta de Acordo de Não Persecução Penal (ANPP).

De início, cabe ressaltar que o entendimento atual de ambas as Turmas que compõem a
Terceira Seção deste Superior Tribunal de Justiça (STJ) se consolidou no sentido da impossibilidade do
condicionamento da proposta de ANPP à confissão extrajudicial na fase inquisitorial.

A confissão anterior não foi exigida quando da definição do Tema Repetitivo n. 1098 por esta
Terceira Seção, entendendo-se cabível a celebração do ANPP "em casos de processos em andamento
quando da entrada em vigor da Lei n. 13.964/2019, mesmo se ausente confissão do réu até aquele
momento", na mesma linha do decidido pelo Supremo Tribunal Federal no HC n. 185.913/DF.

Ainda, cabe pontuar a premissa fixada na primeira tese do Tema Repetitivo n. 1098: "o Acordo
de Não Persecução Penal constitui um negócio jurídico processual" e entabula "possibilidade de
composição entre as partes com o fim de evitar a instauração da ação penal".

Resta claro, assim, que o aspecto negocial é elemento chave para a compreensão do instituto
do ANPP e, consequentemente, para a interpretação dos contornos de tal inovação legislativa quanto à
quaestio enfrentada nesta oportunidade.

Ademais, já se alinhavou na jurisprudência deste Tribunal Superior que "[a] confissão é


indispensável à realização do acordo, por ser o que revela o caráter de justiça negocial do ANPP" (AgRg
no HC n. 879.014/PR, relator Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador Convocado do TJDFT), Sexta
Turma, julgado em 22/04/2024, DJe de 25/04/2024).

Ora, diante de um instituto de características negociais, como é o ANPP, parece distante dos
pressupostos basilares subjacentes exigir que uma das partes - a mais vulnerável, no caso - cumpra de
antemão com uma das obrigações a serem assumidas, sobretudo sem ao menos saber de antemão se terá
ou não sequer a oportunidade de negociar.

Isto porque este STJ adotou a posição no sentido de que "o acordo de não persecução penal
não constitui direito subjetivo do investigado, podendo ser proposto pelo Ministério Público conforme as
peculiaridades do caso concreto e quando considerado necessário e suficiente para a reprovação e a
prevenção da infração penal" (AgRg no REsp n. 1.912.425/PR, relator Ministro Sebastião Reis Júnior, Sexta
Turma, julgado em 20/3/2023, DJe de 23/3/2023).

Assim, qualquer projeção anterior à efetiva iniciação das tratativas a respeito do acordo
configuraria mera conjectura, não havendo, conforme a jurisprudência desta Corte, se falar em direito
subjetivo à celebração do acordo.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 13/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

Nesse cenário, a exigência de uma prévia renúncia (ainda que retratável, como é da natureza
do instituto da confissão) ao direito ao silêncio e à não autoincriminação, sem a certeza da contrapartida,
representaria desarrazoada condicionante, não prevista, ademais, na legislação de regência.

Mais ainda, a exigência de confissão prévia significaria, em última análise, um incentivo à sua
realização em ambiente inquisitorial, sem a plenitude das garantias do devido processo legal, na maioria
das vezes sem assistência por defesa técnica - incompatível com os esforços que tem empreendido esta
Terceira Seção pela racionalização do uso da confissão extrajudicial no Processo Penal - v.g., com as
teses estabelecidas no AREsp n. 2.123.334/MG (relator Ministro Ribeiro Dantas, Terceira Seção, julgado em
20/6/2024, DJe de 2/7/2024).

Também não se pode perder de vista, diante de tal questão, a garantia convencional de não ser
obrigado a depor contra si mesmo ou declarar-se culpado (art. 8.2, "g", da Convenção Americana de
Direitos Humanos).

É sabido que os direitos humanos possuem tendência expansiva e reclamam máxima


efetividade, com as normas internacionais que os asseguram consubstanciando vetores interpretativos
para a legislação ordinária. É essencial, portanto, a compatibilização da possibilidade legal de celebração
de um Acordo de Não Persecução Penal com a força normativa exercida pelo art. 8.2, "g", da CADH. Para
tanto, não se pode, conforme a letra do Pacto de San José, obrigar a parte a depor contra si mesma ou
declarar-se culpada, de modo que a confissão só pode se colocar como uma faculdade para viabilizar o
acesso ao ANPP.

Não é cabível exigir que tal opção seja tomada "no escuro", antes mesmo de se saber se haverá
ou não proposta - e consequente tratativa - da solução negociada, quais os seus termos, bem como os
elementos de que dispõe a acusação para a formulação de eventual denúncia.

Sem a certeza da contrapartida, a faculdade em questão não poderia ser exercida plenamente
pela pessoa investigada, mais se aproximando de uma obrigação. É necessário, assim, garantir seu pleno
exercício, que deve ser devidamente informado, pois, caso contrário, se converterá num "salto de fé"
incompatível com a essencialidade da garantia subjacente, da qual se estará abrindo mão.

Nessa linha, deve a escolha - informada - pela confissão mirando a celebração do ANPP se dar
com consciência dos ganhos e perdas de cada via (processual ou negocial), o que implica na ciência do
conteúdo da proposta formulada pelo Ministério Público, bem como dos elementos que lastreiam a
pretensão acusatória, além da necessária assistência da defesa técnica (sobre esse ponto, já se decidiu
que a "[a]usência de orientação e presença da Defesa técnica [contamina] a negativa de acordo" - HC n.
838.005/MS, relator Ministro Otávio de Almeida Toledo (Desembargador Convocado do Tjsp), Sexta
Turma, julgado em 13/8/2024, DJe de 23/8/2024).

Por outro lado, também não satisfaz os ditames da CADH a interpretação de que a utilização,
na fase inquisitorial, desses direitos pela pessoa (não depor contra si mesma nem declarar-se culpada)
seria impeditivo para acesso a instrumento processual negocial que lhe pode ensejar situação mais
favorável. Isto porque a própria Convenção estabelece em seu artigo 29, "b", que a interpretação de seus
dispositivos não pode ocorrer de modo a "limitar o gozo e exercício de qualquer direito ou liberdade que
possam ser reconhecidos de acordo com as leis de qualquer dos Estados-Partes".

Portanto, não atende à garantia do art. 8.2, "g", da Convenção Americana de Direitos Humanos
a exigência de confissão pelo investigado a respeito do cometimento do crime, durante a fase de
inquérito policial; e não observa seu art. 29, "b", a interpretação de que o uso de tal garantia na fase de
inquérito impede o acesso à negociação de eventual ANPP.

Desse modo, no silêncio do art. 28-A do Código de Processo Penal quanto ao momento em

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 14/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

que deve se dar a confissão, sua interpretação não pode implicar em (inexistente) exigência de que ela
ocorra de antemão a eventual proposta de ANPP, ainda na fase inquisitiva. Assim, nada impede que a
confissão seja levada a efeito perante o próprio órgão ministerial, após a formulação da proposta de
acordo, sua avaliação (assistida por defesa técnica), eventual negociação e aceitação dos termos do
ANPP.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código de Processo Penal (CPP), art. 28-A.


Lei n. 13.964/2019.
Convenção Americana de Direitos Humanos, art. 8.2, g.

PRECEDENTES QUALIFICADOS

Tema 1098/STJ

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 15/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

CORTE ESPECIAL

PROCESSO REsp 2.072.206-SP, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Corte
Especial, por maioria, julgado em 13/2/2025, DJEN 12/3/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL CIVIL, DIREITO EMPRESARIAL

TEMA Desconsideração da personalidade jurídica. Natureza jurídica de


demanda incidental. Existência de litigiosidade. Improcedência do
pedido. Não inclusão do sócio (ou da empresa) no polo passivo.
Honorários advocatícios de sucumbência. Cabimento. Superação da
jurisprudência dominante.

DESTAQUE

O indeferimento do pedido de desconsideração da personalidade jurídica, tendo como


resultado a não inclusão do sócio (ou da empresa) no polo passivo da lide, dá ensejo à fixação de
verba honorária em favor do advogado de quem foi indevidamente chamado a litigar em juízo.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Cinge-se a controvérsia em definir se é possível a fixação de honorários advocatícios na
hipótese de rejeição do pedido formulado em incidente de desconsideração da personalidade jurídica.

Há julgados do Superior Tribunal de Justiça, inclusive já na vigência do CPC/2015, afirmando a


impossibilidade de condenação em honorários advocatícios nos incidentes processuais, ressalvadas
situações excepcionais.

Com idêntica linha de raciocínio, a Terceira Turma desta Corte debruçou-se sobre o assunto e
concluiu, por maioria, que, tratando-se de incidente de desconsideração da personalidade jurídica, "(...) o
descabimento da condenação nos ônus sucumbenciais decorre da ausência de previsão legal
excepcional, sendo irrelevante se apurar quem deu causa ou foi sucumbente no julgamento final do
incidente." (REsp 1.845.536/SC, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Rel. para acórdão Ministro Marco Aurélio
Bellizze, Terceira Turma, DJe de 9/6/2020).

Todavia, no julgamento do REsp 1.925.959/SP, o Ministro Paulo de Tarso Sanseverino propôs


ao Órgão Colegiado nova reflexão a respeito da matéria, trazendo relevantes aspectos que levaram o
Órgão Julgador a meditar mais profundamente sobre a questão, estando o primeiro deles
consubstanciado no fato de que o incidente de desconsideração da personalidade jurídica foi incluído no
capítulo das intervenções de terceiros, a exigir a análise do tema sob esse específico enfoque.

Com efeito, o que se busca com a instauração do incidente é a formação de um litisconsórcio,


com ampliação subjetiva da lide, para que no polo passivo da relação jurídica litigiosa passem a figurar
terceiros, que assim são considerados até o momento em que são regularmente cientificados da intenção
de serem incluídos na lide como responsáveis por dívidas que não contraíram.

Tal pretensão pode ser exercitada na petição inicial, conforme faculdade conferida pelo art.
134, § 2º, do CPC/2015, ou em outras fases do processo, sendo mais comum a hipótese em que o pedido
de desconsideração é formulado já na fase de cumprimento de sentença ou na própria execução.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 16/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

Sob esse prisma, e considerando a efetiva existência de uma pretensão resistida, manifestada
contra terceiro(s) que até então não figurava(m) como parte, entende-se que a improcedência do pedido
formulado no incidente, tendo como resultado a não inclusão do sócio (ou da empresa) no polo passivo
da lide - situação que se equipara à sua exclusão quando indicado desde o princípio para integrar a
relação processual -, mesmo que sem a ampliação do objeto litigioso, dará ensejo à fixação de verba
honorária em favor do advogado de quem foi indevidamente chamado a litigar em juízo, como vem
entendendo a doutrina.

Em suma, com base no princípio hermenêutico segundo o qual onde há a mesma razão,
aplica-se o mesmo direito - ubi eadem ratio ibi eadem jus -, entende-se que pode ser aplicada ao caso a
mesma orientação adotada para a hipótese de extinção parcial do processo em virtude da exclusão de
litisconsorte passivo, que dá ensejo à condenação do autor ao pagamento de honorários advocatícios
sucumbenciais em favor do advogado do excluído.

Como já havia advertido a eminente Ministra Nancy Andrighi em voto proferido no julgamento
do REsp nº 1.845.536/SC, "o incidente de desconsideração da personalidade jurídica tem natureza
semelhante à de um procedimento comum e autônomo, capaz de alterar substancialmente o rumo da
ação principal, monitória, em fase de cumprimento de sentença, porquanto poderia acarretar a inclusão
ou a exclusão da sócia recorrida do alcance dos efeitos da execução forçada promovida em juízo. Nessas
circunstâncias, portanto, a despeito de não haver previsão expressa no art. 85, § 1º, do CPC/15, a parte
que requer a desconsideração e não obtêm êxito em seu propósito deveria, em tese, arcar com os ônus
referentes à sucumbência. Isso porque há, no julgamento ocorrido na vigência do CPC/15, inegável
decisão parcial de mérito por meio de decisão interlocutória, porquanto permanece em curso o processo
quanto à pessoa jurídica que originariamente ocupa o polo passivo da demanda".

Nesse mesmo julgado, contudo, a eminente Ministra Nancy Andrighi defendeu a aplicação do
princípio da causalidade para impedir que a parte exequente fosse responsabilizada pelo pagamento de
encargos que se fizeram necessários na busca de seu direito de crédito, ao ressaltar que "mesmo que não
estejam presentes os requisitos autorizadores da desconsideração, afrontaria à equidade impor ao credor,
que sequer consegue a satisfação de seu crédito, a responsabilidade pelo pagamento de honorários em
favor do advogado da parte que, além de não ter encerrado corretamente sua empresa, ainda sairia
vitoriosa da lide, fazendo jus à verba honorária em prol de sua defesa.".

Nesse específico ponto, todavia, ao menos no âmbito da Terceira Turma, prevaleceu


entendimento em sentido contrário, visto que a desconsideração da personalidade jurídica é medida
excepcional, de modo que, sendo invocada fora das hipóteses estritamente previstas em lei, os encargos
da sucumbência devem ser imputados a quem se utilizou indevidamente do instituto.

Já em caso de deferimento do pedido de desconsideração (direta ou inversa), com o efetivo


redirecionamento da demanda contra o sócio ou a pessoa jurídica, conforme o caso, o eventual
sucumbimento destes somente poderá ser aferido ao final, a depender do juízo de procedência ou
improcedência da pretensão contra eles direcionada.

Ressalta-se, por fim, que a definição dos critérios de fixação dos honorários advocatícios na
hipótese de improcedência do pedido formulado em incidente de desconsideração da personalidade
jurídica é matéria que pode exigir maiores esforços no futuro, mas não foi devolvida a esta Corte no
presente recurso especial.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 17/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código de Processo Civil (CPC), art. 85, § 1º e art. 134, § 2º.

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 18/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

PRIMEIRA TURMA

PROCESSO AgInt no REsp 2.155.160-BA, Rel. Ministro Benedito Gonçalves,


Primeira Turma, por unanimidade, julgado em 17/2/2025, DJEN
24/2/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO ADMINISTRATIVO

TEMA Pensão especial. Ex-combatente. Reversão de cota-parte. Lei n.


8.059/1990. Impossibilidade.

DESTAQUE

A pensão especial instituída na vigência da Lei n. 8.059/1990 em favor de mais de um


beneficiário não comporta a reversão da cota-parte aos demais por vedação legal expressa.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Trata-se de hipótese na qual um instituidor de pensão faleceu na condição de ex-combatente
da Segunda Guerra Mundial, logrando a sua viúva, bem como os seus filhos, menores à época do óbito,
cada qual sua cota-parte da pensão especial.

A parte autora requereu a transferência da cota-parte de pensão especial na qualidade de viúva


após o advento da maioridade dos filhos do falecido.

Controverte-se a respeito da interpretação a ser dada ao art. 14 da Lei n. 8.059/1990.

Em análise do tema, a Corte de origem afirmou que a cota-parte destinada aos filhos deveria
ser transferida à viúva sob pena de violar o art. 53, III, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias
(ADCT) e o princípio da igualdade ao diminuir o valor do benefício.

Não obstante, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça entende que a pensão especial
instituída na vigência da Lei n. 8.059/1990 em favor de mais de um beneficiário não comporta a reversão
da cota-parte aos demais por vedação legal expressa.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Lei n. 8.059/90, art. 14.


ADCT, art. 53, III.

ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 19/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

TERCEIRA TURMA

PROCESSO REsp 2.144.296-TO, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma,


por unanimidade, julgado em 18/2/2025, DJEN 25/2/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL

TEMA Direito de família. Direito de crédito decorrente de expurgos


inflacionários. Cédula rural pignoratícia firmada no curso do
casamento. Regime da comunhão universal de bens. Direito à
meação.

DESTAQUE

Há direito de meação de crédito rural decorrente de valor pago a maior em


contratação anuída e vencida no curso do casamento sob o regime da comunhão universal de
bens, ainda que reconhecido retroativamente, após a separação judicial, para recomposição do
patrimônio comum.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A controvérsia consiste em decidir se a ex-esposa ostenta direito à meação de crédito
decorrente de expurgos inflacionários reconhecido após a separação judicial, referente à cédula de
crédito rural anuída e vencida durante o curso do casamento sob o regime da comunhão universal de
bens.

Conforme dispõe o art. 1.667 do Código Civil (CC), o regime da comunhão universal de bens
importa na comunicação de todos os bens presentes e futuros dos cônjuges e suas respectivas dívidas
passivas. Existe, pois, verdadeira confusão entre o patrimônio adquirido por cada um dos cônjuges, de
modo que haverá apenas um único universo de bens de propriedade do casal, com atenção ao princípio
da solidariedade.

Desse modo, realizada contratação de cédula de crédito bancário ou financiamento no curso


do casamento pelo regime da comunhão universal de bens, ambos os cônjuges respondem pela dívida
contraída, na qualidade de coobrigados.

A regra geral do regime de bens comunheiro, portanto, pressupõe o esforço comum do casal
para a aquisição do patrimônio e cumprimento das obrigações, mesmo que assumidas por um dos
cônjuges. A incomunicabilidade da dívida assumida por um do casal apenas ocorrerá se comprovado que
não reverteu em benefício da família (AgRg no AREsp n. 427.980/PR, Quarta Turma, DJe 25/02/2014).

Na eventualidade de ser reconhecido direito de crédito em razão de pagamento a maior de


cédula de crédito ou contrato de financiamento anuído e vencido no curso do casamento, ambos os
cônjuges unidos pelo regime da comunhão universal farão jus à restituição dos valores, mesmo que
firmada a obrigação por um deles, tendo em vista a natureza solidária do regime.

Outrossim, por ocasião da extinção da sociedade conjugal, faz-se necessária a partilha dos
bens adquiridos durante a relação. Nesse sentido, o art. 1.576 do CC estabelece que a separação judicial
põe termo ao regime de bens

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 20/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

No entanto, verificado direito de crédito retroativamente após a separação judicial, decorrente


de contratação realizada no curso do casamento, ambos os ex-cônjuges terão igualmente direito à
indenização do valor pago a maior no curso do relacionamento. Isso, pois, uma vez presumido o esforço
comum na aquisição do patrimônio e, desse modo, reconhecida a corresponsabilidade pelas obrigações
assumidas, ambos terão direito à indenização dos valores pagos à maior, para recomposição do
patrimônio comum.

Do contrário, tal fato implicaria enriquecimento sem causa daquele que receberia sozinho os
valores cujo fato gerador remonta ao período do casamento, uma vez que a cédula de crédito bancário
fora firmada presumindo-se o esforço comum de ambos.

Assim, constatado direito de crédito decorrente de diferença de indexador de correção


monetária de cédula de crédito ou financiamento anuído e quitado no curso do matrimônio, ambos os
cônjuges farão jus ao recebimento dos valores, mesmo que reconhecido retroativamente, após a
separação judicial. Pois, houvesse sido aplicado o índice de correção monetária entendido como correto
à época da contratação, haveria a comunicação dos valores por ocasião da separação judicial do casal.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código Civil (CC), artigos 1.576 e 1.667.

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO REsp 2.155.065-MG, rel. Ministra Nancy Andrighi, rel. para acórdão
Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira Turma, por maioria,
julgado em 11/3/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO DO CONSUMIDOR

TEMA Fraude perpetrada por terceiro. "Golpe do Motoboy". Compra, de


modo parcelado, em loja física. Entrega voluntária do cartão original
e de senha pessoal pelo consumidor. Responsabilidade civil de
instituição financeira. Ausência. Nexo de causalidade. Inexistência.
Defeito na prestação do serviço. Não configuração. Vulnerabilidade.
Doença grave. Irrelevância. Culpa exclusiva do consumidor.
Configuração.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 21/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

DESTAQUE

Exclui-se a responsabilidade da instituição financeira por danos decorrentes de fraude


praticada por terceiro, quando a compra, realizada em loja física, foi realizada com a entrega
voluntária do cartão original e de senha pessoal pelo correntista, prática comumente conhecida
como golpe do motoboy, caracterizando culpa exclusiva do consumidor, ainda que vulnerável em
decorrência de doença grave.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Cinge-se a controvérsia em definir se a instituição financeira é responsável por danos
decorrentes de fraude praticada por terceiros, quando a operação foi realizada com o cartão original e
senha pessoal do correntista, prática comumente conhecida como "golpe do motoboy"; bem como em
definir se é possível a mitigação da responsabilidade da consumidora diante do seu estado de
vulnerabilidade decorrente de tratamento médico.

De acordo com a narrativa apresentada, a autora forneceu sua senha pessoal durante a ligação
com suposto representante de seu banco e, posteriormente, entregou o seu cartão bancário a terceiro
que se fez passar por prestador de serviço do banco demandado.

O dano decorrente da prática fraudulenta nomeada como "golpe do motoboy" afigura-se


diante da concorrência das seguintes causas: (i) o fornecimento do cartão magnético original e da senha
pessoal ao estelionatário por parte do consumidor, bem como (ii) a inobservância do dever de segurança
pela instituição financeira em alguma das etapas da prestação do serviço.

Conforme entendimento enunciado na Súmula nº 479/STJ: "As instituições financeiras


respondem objetivamente pelos danos gerados por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados
por terceiros no âmbito de operações bancárias". Em tais casos, a responsabilidade da instituição
financeira somente poderá ser afastada se comprovada a inexistência de defeito na prestação do serviço
bancário ou a culpa exclusiva do consumidor ou de terceiro, a teor do disposto no § 3º do art. 14 do
Código de Defesa do Consumidor (CDC).

A responsabilidade da instituição financeira tem origem no defeito em alguma das etapas da


prestação do serviço, a exemplo, (i) da guarda dos dados sigilosos do consumidor e (ii) do aprimoramento
dos mecanismos de autenticação dos canais de relacionamento com o cliente e de verificação de
anomalias nas operações que fujam do padrão do consumidor.

Vale também lembrar, conforme destacado na apreciação do Tema nº 466/STJ, que "(...) a
culpa exclusiva de terceiros apta a elidir a responsabilidade objetiva do fornecedor é espécie do gênero
fortuito externo, assim entendido aquele fato que não guarda relação de causalidade com a atividade do
fornecedor, absolutamente estranho ao produto ou serviço" .

A partir de tais premissas, esta Terceira Turma firmou o entendimento de que, em regra, a
responsabilidade da instituição financeira deve ser afastada na hipótese em que as transações contestadas
são realizadas com o uso do cartão original, com "chip", e o uso de senha pessoal do correntista,
ressalvada a comprovação de que a instituição financeira agiu com negligência, imprudência ou imperícia.

Posteriormente, esta Terceira Turma julgou recurso que versou sobre hipótese semelhante ao
"golpe do motoboy". Na ocasião, restou consignado que "(...) a entrega voluntária do cartão magnético e
da senha pessoal a terceiro, ainda que não espontaneamente, não torna a instituição financeira
responsável quando provada a existência de culpa exclusiva do consumidor ou de terceiros", ou seja, a
fraude praticada por terceiro não teria, a princípio, aptidão para afastar a culpa da vítima para o resultado

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 22/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

danoso.

Na espécie, a consumidora, após ser convencida de que estava falando com representante do
banco demandado, compartilhou seus dados bancários sigilosos, situação que deu ensejo à compra
questionada.

A operação fraudulenta consistiu em uma única compra, de modo parcelado, realizada em loja
física, com a utilização do cartão da recorrente, após a inserção de sua senha pessoal, dentro dos limites
pré-aprovados. Tal contexto afasta a deficiência na prestação do serviço por parte do banco e aponta
para a culpa exclusiva da consumidora.

Por fim, a vulnerabilidade da consumidora, que à época do ato fraudulento se encontrava em


tratamento médico, não autoriza, isoladamente, a mitigação de sua responsabilidade quanto ao dever de
cuidado de seus dados sigilosos e com o cartão de acesso à conta. Tal situação, a toda evidência, é capaz
de gerar grave abalo no exercício das atividades cotidianas. Isso não significa, no entanto, que sua
capacidade para os atos da vida civil possa ser desconsiderada de modo a mitigar sua responsabilidade
pelo compartilhamento de dados bancários sigilosos.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código de Defesa do Consumidor (CDC), art. 14, § 3°.

SÚMULAS

Súmula n. 479/STJ

PRECEDENTES QUALIFICADOS

Tema 466/STJ

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO REsp 2.171.089-DF, Rel. Ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, Terceira
Turma, por unanimidade, julgado em 3/12/2024, DJEN 6/12/2024.

RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL, RECUPERAÇÃO JUDICIAL

TEMA Recuperação judicia. Locatária. Aluguéis posteriores ao pedido. Falta


de pagamento. Stay Period. Suspensão da ação de despejo.
Impossibilidade.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 23/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

DESTAQUE

As ações de despejo não devem ficar suspensas com o deferimento do processamento


da recuperação judicial da locatária.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Cinge-se a controvérsia em definir se as ações de despejo de locatária em recuperação judicial
devem ficar suspensas com o deferimento do processo recuperacional.

A Lei de Recuperação de Empresas e Falência prevê uma fase, instaurada com a decisão de
deferimento do processamento da recuperação, na qual o patrimônio do devedor empresário é
preservado, ficando suspensas as execuções ajuizadas contra ele e vedadas as medidas constritivas (art.
6º, I, II e III, da LREF), de modo que possa ter um fôlego para apresentar o plano de recuperação judicial, é
o chamado stay period.

Na ação de despejo por falta de pagamento, porém, o bem cuja retomada se pretende não
pertence ao devedor, de modo que não se insere nas hipóteses de suspensão tratadas no artigo 6º, I, II e
III, da Lei nº 11.101/2005.

Tampouco o despejo se encaixa nas exceções previstas no artigo 49, § 3º, da referida lei, que
não permite a venda ou retirada do estabelecimento do devedor, no período de suspensão, dos bens de
capital essenciais à atividade empresarial pertencentes a credores fiduciários, de arrendamento mercantil
e proprietários vendedores.

A situação do locador é diversa da do credor fiduciário e do arrendador. Isso porque o locador


não irá se ressarcir com a retomada do bem como ocorre com aqueles, em que o bem funciona como
uma espécie de garantia. Também não se confunde com a do promissário vendedor, que, diante da
inadimplência do adquirente em recuperação judicial, terá garantido seu direito de propriedade, inclusive
na incorporação imobiliária.

Por essas razões que não cabe falar em aplicação por analogia das hipóteses do artigo 49, § 3º,
da LREF no caso da locação.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Lei n. 11.101/2005, arts. 6º e 49, § 3º

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 24/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

QUARTA TURMA

PROCESSO REsp 2.022.841-SP, Rel. Ministro Raul Araújo, Quarta Turma, por
unanimidade, julgado em 11/3/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO CIVIL, DIREITO DO CONSUMIDOR

TEMA Emissora de televisão. Apresentador de TV. "Bingão da felicidade".


Recusa de pagamento do prêmio. Responsabilidade solidária com o
anunciante. Ausência de nexo causal. Responsabilidade afastada.

DESTAQUE

A empresa de comunicação e o apresentador de programa de televisão não fazem


parte, em regra, da cadeia de consumo para fins de responsabilidade pelo fornecimento de
produto e/ou serviço anunciados.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Cinge-se a controvérsia em analisar se, em caso de não pagamento da premiação prometida
pelo "Bingão da Felicidade", os contratados (emissora de televisão e o apresentador do programa) para a
realização da publicidade do concurso respondem solidariamente com a sociedade empresária
responsável pela realização do certame pelos danos causados ao consumidor titular da cartela premiada.

Nos termos do art. 942 do CC/2002, quando a ofensa tem mais de um autor, todos respondem
solidariamente pela reparação. E nos termos do art. 265 do CC/2002, a solidariedade não se presume,
resultando da lei ou do contrato e, em se tratando de situação excepcional, a solidariedade apenas
comporta interpretação restritiva. E ainda, a situação não se enquadra em nenhuma das hipóteses de
responsabilidade objetiva solidária previstas no art. 932 do CC, o que em tese autorizaria a
responsabilização solidária independentemente de culpa.

Assim, não havendo previsão legal ou previsão nos contratos firmados pelas partes sobre a
assunção da responsabilidade pela integridade dos produtos anunciado, não há como reconhecer a
responsabilidade solidária.

Sob o viés da legislação consumerista, o Código de Defesa do Consumidor (CDC), ao tratar da


publicidade, impõe deveres ao anunciante, no papel de fornecedor do produto ou serviço, e não aos
responsáveis pela elaboração e veiculação das peças publicitárias, conforme se extrai dos artigos 30, 35 e
38 do CDC.

Nesse contexto, a empresa de comunicação, na veiculação de anúncios, atua como mera


divulgadora, e, no desempenho dessa atividade, não assume a condição de fornecedora do produto e/ou
serviço anunciado, não integrando a cadeia de consumo. Não há, nesses casos, relação de consumo entre
a empresa de comunicação que divulga a publicidade e o consumidor que adquire o produto e serviço
anunciado, atraído pela publicidade.

Dessa forma, a "propaganda de palco", como ocorreu no caso, não implica a


corresponsabilidade da empresa de televisão ou do apresentador do programa televisivo que atuou como

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 25/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

garoto-propaganda pelo anúncio divulgado. Isso porque, para além de também não haver qualquer
relação de consumo, o fato de atuar como garoto-propaganda, atestando a qualidade e confiabilidade do
objeto da publicidade, não o transforma em garantidor do cumprimento das obrigações do fornecedor
anunciante.

No caso, não houve qualquer defeito na propaganda em si, não se configurando situação de
desídia ou de conivência da empresa jornalística com a veiculação de anúncios manifestamente
fraudulentos e potencialmente lesivos aos consumidores, não ficando configurada, portanto, situação
excepcional que autorize a responsabilização da empresa de comunicação e demais envolvidos na
publicidade.

Assim, não havendo nexo causal entre a conduta da emissora e do apresentador na prestação
dos serviços de publicidade para os quais foram contratados e os danos materiais causados em razão do
recursa do pagamento do prêmio pela organização do certame, não há que se falar em responsabilidade
solidária.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código Civil (CC/2002), arts. 265, 932 e 942


Código de Defesa do Consumidor (CDC/1990), arts. 30, 35 e 38

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO REsp 1.867.409-SP, Rel. Ministro João Otávio de Noronha, Quarta


Turma, por unanimidade, julgado em 11/3/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO EMPRESARIAL, DIREITO FALIMENTAR

TEMA Processo falimentar. Crétidos de Fundo Garantidor de Créditos -


FGC. Classificação. Subordinação e subclasse de quirografários.

DESTAQUE

Na falência, a sub-rogação não confere ao Fundo Garantidor de Créditos - FGC o


status de credor subordinado ou subquirografário, mas o de credor quirografário, o qual ocupa a
posição de seus antecessores em igualdade de condições.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A administração exercida pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) durante o regime de
administração especial temporária (RAET) difere da administração ordinária exercida pelos controladores

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 26/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

e administradores de uma sociedade, não configurando vínculo empregatício ou relação de confiança


que justifique a subordinação de seus créditos.

A atuação do FGC está subordinada às diretrizes do Banco Central do Brasil, o que caracteriza
sua gestão como "múnus público" voltado à estabilidade do sistema financeiro, distinta da administração
comum prevista na Lei de Falências. Trata-se de uma entidade com a finalidade exclusiva de proteger o
sistema financeiro e garantir o pagamento de depósitos em instituições financeiras em crise, conforme
determinado pela legislação específica.

No contexto falimentar, o conceito de sub-rogação impõe que o FGC assuma a mesma


posição jurídica dos credores originários (quirografários), sem alteração na classificação de seus créditos.
A natureza desse crédito não é voluntária ou especulativa; ao contrário, é o resultado de uma intervenção
obrigatória e institucional para cobrir obrigações que, de outra forma, seriam inadimplidas.

Desse modo, a classificação dos créditos do FGC como subquirografários prejudicaria a


posição do fundo no concurso de credores e, portanto, comprometeria sua capacidade de honrar outros
compromissos de proteção ao sistema financeiro, distorcendo a lógica da sub-rogação, que visa manter o
status do crédito original. Ou seja, se os créditos originários teriam a condição de quirografários, o FGC,
ao sucedê-los, herda essa mesma posição, não havendo base para rebaixá-lo na hierarquia concursal.

Logo, a aplicação do art. 351 do Código Civil em contexto falimentar, para classificar créditos
do FGC como subquirografários, não encontra suporte legal e distorce princípios do direito falimentar,
como o da par conditio creditorum. O direito falimentar exige, por fim, interpretação restritiva para
preservar a hierarquia de créditos e a estabilidade do sistema financeiro, fundamentais ao papel
institucional do FGC.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código Civil (CC), art. 351

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 27/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

QUINTA TURMA

PROCESSO REsp 2.083.823-DF, Rel. Ministro Joel Ilan Paciornik, Quinta Turma,
por unanimidade, julgado em 11/3/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL

TEMA Ação penal privada. Acordo de não persecução penal. Cabimento.


Ministério Público. Legitimidade supletiva.

DESTAQUE

É cabível acordo de não persecução penal em ação penal privada, mesmo após o
recebimento da denúncia, tendo o Ministério Público legitimidade supletiva para propor a medida
quando houver inércia ou recusa infundada do querelante.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A questão em discussão consiste em saber se é cabível o oferecimento de acordo de não
persecução penal em ação penal privada após o recebimento da queixa-crime, e se o Ministério Público
possui legitimidade para propor o ANPP em substituição ao querelante.

O acordo de não persecução penal foi introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pelo art.
28-A do CPP, por meio da Lei n. 13.964/2019 (Pacote Anticrime), com o inegável propósito de possibilitar
soluções consensuais para crimes de menor gravidade, reduzindo o número de processos penais ao
mesmo tempo em que propicia maior celeridade à justiça criminal.

O ANPP veio como forma de mitigação ao princípio da obrigatoriedade da ação penal pública
diante da existência de lastro suficiente de autoria e materialidade para oferecimento da denúncia, assim
como já acontece na transação penal, instituto cabível para as infrações de menor potencial ofensivo (art.
76 da Lei n. 9.099/1995). Pode-se asseverar, também, a mitigação ao princípio da indisponibilidade,
segundo o qual, em linhas gerais, não é dado ao Ministério Público desistir no curso da ação penal, sob a
perspectiva de aplicação do ANPP aos processos em curso ao tempo do início da vigência do ANPP no
ordenamento jurídico (Lei n. 13.964/2019, em 23/1/2020), consoante decidido no julgamento do Habeas
Corpus n. 185.913/DF pelo Supremo Tribunal Federal.

Todavia, o CPP não disciplinou expressamente a possibilidade de celebração do acordo de não


persecução penal no âmbito da ação penal privada, o que gerou controvérsia doutrinária e
jurisprudencial. A despeito da lacuna normativa, a extensão por analogia do ANPP à ação penal privada
deve ser admitida, pelos seguintes fundamentos:

a) O interesse público subjacente à ação penal privada - Ainda que o direito de ação seja
atribuído ao ofendido, a persecução penal continua sendo uma manifestação do ius puniendi estatal,
sendo inalienável ao particular. O querelante não age em nome de um direito material próprio, mas sim
no exercício de um direito de substituição processual.

b) O princípio da isonomia entre réus de ações penais públicas e privadas - Negar o ANPP a
crimes de ação penal privada, nos casos em que todos os requisitos legais estão preenchidos, significaria

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 28/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

conceder tratamento mais gravoso a acusados que se encontram em situações fáticas idênticas, o que
violaria o princípio da igualdade substancial.

c) O caráter restaurativo e desjudicializante da política criminal contemporânea - O ANPP visa


a garantir uma justiça penal mais eficiente e menos punitivista, fomentando a reparação do dano e
prevenindo o encarceramento desnecessário. Se há espaço para essa abordagem na ação penal pública,
com maior razão deve ser admitida na ação penal privada, que, por sua própria natureza, confere ao
ofendido um juízo de conveniência sobre a persecução penal.

Dessa forma, a ausência de previsão expressa não pode ser interpretada como proibição,
devendo-se reconhecer a aplicação do acordo de não persecução penal na ação penal privada por
analogia in bonam partem.

Quanto a legitimidade para a propositura do acordo, ainda que se reconheça a titularidade da


ação penal privada pelo ofendido, a doutrina e a jurisprudência têm apontado que esse direito não é
absoluto e deve ser exercido dentro dos limites da razoabilidade e proporcionalidade. Ou seja, o
querelante não pode recusar arbitrariamente um acordo de não persecução penal, pois a persecução
penal não pode ser utilizada como um instrumento de vingança privada. Nesse sentido, o Ministério
Público, como custos legis, pode e deve atuar subsidiariamente nos seguintes casos:

a) Recusa injustificada do querelante - Quando o querelante, sem fundamentação razoável, se


recusar a ofertar o ANPP, ainda que estejam preenchidos os requisitos legais, o Ministério Público deve
intervir para impedir que a persecução penal se torne um instrumento de abuso.

b) Silêncio ou inércia do querelante - Na hipótese de omissão do querelante diante da proposta


de ANPP, o Ministério Público pode supletivamente ofertá-la, garantindo que o processo penal atenda a
uma finalidade justa e racional.

c) Propostas abusivas e desproporcionais - Caso o querelante imponha exigências irrazoáveis


ou desproporcionais para a celebração do acordo, inviabilizando sua efetivação, caberá ao Ministério
Público intervir para garantir que os parâmetros legais sejam respeitados.

A função do Ministério Público, nesse contexto, não se confunde com a titularidade da ação
penal. Sua atuação ocorre de forma supletiva e excepcional, apenas para garantir que o instituto do ANPP
seja aplicado de maneira justa e eficaz.

Note-se que parte da resistência à tese da legitimidade supletiva do Ministério Público decorre
do entendimento consolidado deste Superior Tribunal de Justiça no sentido de que, em ações penais
privadas, a transação penal só pode ser proposta pelo querelante. Contudo, o acordo de não persecução
penal possui natureza jurídica distinta da transação penal, o que justifica uma abordagem diferenciada.
Assim, a jurisprudência do STJ sobre a transação penal não pode ser aplicado automaticamente ao ANPP,
sob pena de se comprometer a coerência do sistema penal.

Quanto ao momento para oferecer o ANPP, por interpretação sistemática ao contido no art.
28-A do CPP e seus parágrafos, especialmente o § 8º e o § 10, tem-se que, em regra, é anterior ao
oferecimento da denúncia. Na prática, porém, a certeza do investigado quanto à falta de propositura do
ANPP ocorre quando citado para responder à acusação. Assim, precedentes desta Corte admitem que na
fase da resposta à acusação, primeiro momento processual para manifestação da defesa do acusado, o
agora denunciado possa manifestar-se pelo cabimento do acordo.

Sucede que a definição dos momentos processuais para o acordo de não persecução penal na
ação penal privada perpassa a interpretação sistemática do artigo 28-A do Código de Processo Penal com
os artigos 105 e 106 do Código Penal e o artigo 51 do CPP, que consagram o princípio da disponibilidade.
A ação penal privada rege-se pelo princípio da oportunidade, conferindo ao querelante ampla margem de

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 29/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

disponibilidade sobre a persecução penal, podendo, inclusive, renunciar ao direito de queixa, perdoar o
querelado ou realizar composição civil em qualquer fase do processo.

Se o querelante pode exercer atos ainda mais abrangentes, como desistir integralmente da
persecução penal, segue-se que também pode firmar um acordo de não persecução penal, ato de menor
impacto dentro da mesma esfera de atuação, até o trânsito em julgado, pois este representa uma
alternativa intermediária que não extingue de plano o direito de punir, mas apenas o condiciona ao
cumprimento de determinadas obrigações. Dessa forma, não há justificativa lógica ou principiológica para
restringir a possibilidade do querelante formalizar um ANPP em momento posterior ao recebimento da
queixa.

Ressalte-se que essa interpretação vale para as iniciativas do querelante, pois a atuação do
Ministério Público na ação penal privada é excepcional, limitando-se à fiscalização da ordem jurídica e
intervenção supletiva quando houver inércia do autor da queixa-crime.

Nessa conformidade, a legitimidade ministerial para propor o ANPP decorre do artigo 45 do


CPP, que lhe confere função de custos legis, mas essa atuação deve ocorrer na primeira oportunidade
processual, sob pena de preclusão. Esse entendimento assegura a coerência do sistema acusatório e a
primazia do querelante na condução da ação penal privada, sem esvaziar o papel fiscalizador do
Ministério Público.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código de Processo Penal (CPP), art. 28-A, § 8º e § 10, art. 45 e art. 51


Código Penal (CP), art. 105 e art. 106
Lei n. 9.099/1995, art. 76
Lei n. 13.964/2019

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

PROCESSO AgRg no REsp 2.167.109-RS, Rel. Ministro Ribeiro Dantas, Quinta


Turma, por unanimidade, julgado em 26/2/2025, DJEN 7/3/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL

TEMA Acordo de não persecução penal. Interpretação de cláusulas.


Recurso especial. Impossibilidade. Súmula n. 5/STJ.

DESTAQUE

A interpretação de cláusulas de acordo de não persecução penal não enseja recurso


especial, conforme a Súmula n. 5 do STJ.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 30/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


A questão consiste em saber se a interpretação das cláusulas do Acordo de Não Persecução
Penal (ANPP), realizada pelo Tribunal de origem, pode ser revista em sede de recurso especial.

No caso, o Tribunal a quo concluiu motivadamente que os armamentos cuja renúncia o


Ministério Público almejara não foram abrangidos pelo acordo, e o fez a partir do exame direto das
cláusulas do acordo de não persecução penal.

Note-se que a modificação do julgado exigiria que o Superior Tribunal de Justiça substituísse o
exame feito pela Corte estadual sobre o teor das cláusulas do acordo, a fim de verificar se elas abrangiam
ou não os materiais pretendidos pelo Ministério Público. Essa medida, entretanto, é inviável em sede de
recurso especial, nos termos da Súmula n. 5/STJ, segundo a qual "a simples interpretação de cláusula
contratual não enseja recurso especial".

Na mesma linha, "... não se mostra plausível nova análise de cláusulas contratuais previstas no
acordo de colaboração premiada por parte desta e. Corte Superior, a qual não pode ser considerada uma
terceira instância recursal. Incide, portanto, a Sumula 5 deste col. Superior Tribunal de Justiça..." (AgRg no
REsp 1.864.096/PR, Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador convocado do TJDFT), Quinta Turma, DJe
de 2/9/2021).

Ademais, as próprias razões recursais confirmam tal conclusão, porque se pautam na


interpretação que um voto vencido no âmbito da Corte local fez sobre as cláusulas do acordo -
interpretação esta que o Parquet pretende ver resgatada nesta instância especial. A Súmula n. 5/STJ,
entretanto, impede que este Tribunal Superior avalie novamente a redação das cláusulas do ANPP, a fim
de aferir quem as interpretou melhor: os votos vencedores ou o vencido, como requer o Ministério
Público.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
SÚMULAS

Súmula n. 5 do STJ

ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 31/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

SEXTA TURMA

PROCESSO AgRg no AREsp 2.603.711-AL, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz,


Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 18/2/2025, DJEN
24/2/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL

TEMA Roubo. Dosimetria. Crime praticado contra menor de idade no


trajeto da escola. Pena-base. Circunstância desfavorável.
Fundamento idôneo.

DESTAQUE

O roubo praticado contra menor de idade no caminho da escola supera a


reprovabilidade da conduta e justifica o aumento da pena-base.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


As instâncias ordinárias valoraram negativamente a pena-base com fundamento no local onde
o roubo foi praticado. No caso, verifica-se que a vítima era menor de idade e estava a caminho da escola,
circunstâncias que eram de conhecimento do réu.

Com efeito, é mais reprovável a subtração mediante grave ameaça praticada contra
adolescente, por terem seu desenvolvimento físico e psíquico incompleto e, consequentemente,
apresentarem menor capacidade de resistência, o que justifica a exasperação da pena-base
(culpabilidade).

Nesse sentido, "Mostra-se idônea a valoração negativa das circunstâncias do crime, tendo em
vista que foi praticado contra uma vítima adolescente do sexo feminino, o que denota maior
reprovabilidade da conduta, dado o menor grau de resistência da vítima" (HC 376.166/SP, Rel. Ministro
Felix Fischer, Quinta Turma, DJe 31/5/2017).

Ademais, o roubo praticado em prejuízo de menores de idade no caminho para a escola é


elemento que supera os ínsitos ao delito de roubo, a demonstrar maior gravidade da conduta.

Isso porque, o trajeto para a escola torna previsível que o agente vai encontrar vítimas mais
vulneráveis e frustra os esforços do Estado e da sociedade para tornar o ambiente da escola e os
arredores mais seguros para os estudantes, o que justifica o sopesamento negativo das circunstâncias do
crime.

ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 32/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

PROCESSO AgRg no AREsp 2.703.772-DF, Rel. Ministro Rogerio Schietti Cruz,


Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 18/2/2025, DJEN de
24/2/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO PENAL, DIREITO PROCESSUAL PENAL

TEMA Furto. Qualificadora referente à escalada. Depoimento de policiais.


Flagrante. Prova incontestável. Perícia técnica dispensável.

DESTAQUE

É desnecessária perícia técnica para configurar a qualificadora referente à escalada em


furto cujo iter criminis foi testemunhado pelos policiais.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


Compreende-se configurada a escalada como qualificadora do furto quando constatado o
emprego de qualquer meio anormal para alcançar o bem a ser subtraído. Assim, saltar um muro alto,
cavar um túnel por baixo de obstáculos ou subir em uma árvore para subtrair patrimônio alheio bastam
para aplicar a forma qualificada do furto.

No caso, apesar de não realizada perícia técnica, o furto de fios de eletricidade e de telefonia
por meio de escalada foi comprovado pelo depoimento dos dois policiais que efetuaram a prisão em
flagrante da acusada com uma mochila preenchida com res furtivae e com lâminas, enquanto o comparsa
estava no alto de um poste.

Nesse ponto, cabe ressaltar que a hipótese é a de flagrante, pois os policiais surpreenderam o
corréu no alto de um poste retirando cabos de energia enquanto a acusada o aguardava embaixo, com
uma bolsa em que esses bens eram armazenados, perto de um facão utilizado por ambos para fazer os
cortes.

Não é o caso de cogitar de investigação sobre a permanência de vestígios do crime, pois os


policiais presenciaram o iter criminis e detiveram os agentes durante a subtração.

Trata-se de prova incontestável sobre a materialidade, caracterizada pelo emprego de


escalada, o que dispensa a realização de perícia técnica.

ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 33/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

PROCESSO AgRg no AREsp 2.795.012-SP, Rel. Ministro Antonio Saldanha


Palheiro, Sexta Turma, por unanimidade, julgado em 11/3/2025.

RAMO DO DIREITO DIREITO PROCESSUAL PENAL

TEMA Homicídio na direção de veículo automotor. Art. 121, § 2º, IV, c/c o §
4º do CP e artigos 304 e 305 do CTB. Decisão de pronúncia.
Existência de indícios mínimos de autoria. Fase de mero juízo de
admissibilidade da acusação. Competência do Tribunal do Júri para a
análise do elemento subjetivo.

DESTAQUE

Em casos envolvendo a prática de homicídio na direção de veículo automotor,


havendo elementos indiciários que subsidiem, com razoabilidade, as versões conflitantes acerca
da existência de dolo, ainda que eventual, a divergência deve ser solvida pelo Conselho de
Sentença, evitando-se a indevida invasão da sua competência constitucional.

INFORMAÇÕES DO INTEIRO TEOR


É cediço que, no procedimento de competência do Tribunal do Júri, a pronúncia encerra o
juízo de admissibilidade da inicial acusatória, dispondo o art. 413 do Código de Processo Penal que o juiz,
fundamentadamente, pronunciará o acusado, se convencido da materialidade do fato e da existência de
indícios suficientes de autoria ou de participação.

Não é necessário que na decisão fique demonstrada de forma cabal a autoria do delito, o que
somente ocorrerá num eventual juízo condenatório, mas apenas que se exponha os indícios mínimos de
autoria e materialidade, inclusive aqueles angariados em solo policial.

O Supremo Tribunal Federal firmou nova orientação jurisprudencial de que a primeira fase do
procedimento do júri constitui filtro processual com a função de evitar julgamento pelo plenário sem a
existência de prova de materialidade e indícios de autoria firmados no bojo do processo, o que tornou
ilegal a sentença de pronúncia elaborada com base exclusiva nas provas produzidas no inquérito policial
(HC n. 180.144/PI, Relator Ministro Celso de Mello, DJe 22/10/2020).

Recentemente, o Superior Tribunal alinhou-se ao entendimento acima detalhado e passou a


entender não ser possível que a pronúncia esteja lastreada tão somente em elementos colhidos na fase
inquisitorial.

No caso, o Tribunal de origem entendeu que "a acusação por homicídio doloso, praticado com
dolo eventual, tomou por base uma sucessão de fatos, como (i) a velocidade do veículo, no momento da
colisão, (ii) o fato de o atropelamento ter ocorrido na faixa de pedestres, (iii) a possível embriaguez do
acusado, (iv) a fuga do local dos fatos, (v) a anotação de diversas multas por excesso de velocidade, em
momentos anteriores, e (vi) a existência de condenação criminal do acusado, por homicídio culposo, na
direção de veículo automotor, em outra oportunidade.".

Portanto, os fundamentos utilizados pelo Tribunal de origem para manter a pronúncia do


agravante indicam a existência de indícios sobre o elemento subjetivo do tipo penal, em razão de
múltiplos fatos, que não se restringem à suposta ingestão de bebidas alcoólicas pelo réu.

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 34/35
Informativo de Jurisprudência n. 843 18 de março de 2025.

Dessa forma, a menção aos indícios que aludem à suposta ingestão de bebidas alcoólicas pelo
réu foi feita como forma de refutar os argumentos lançados pela defesa, que pretendia ver reconhecida,
nesta fase, a modalidade culposa.

Com efeito, consoante reiterados pronunciamentos do Superior Tribunal de Justiça, o deslinde


da controvérsia sobre o elemento subjetivo do crime, especificamente se o acusado atuou com dolo
eventual ou culpa consciente, fica reservado ao Tribunal do Júri, juiz natural da causa, no qual a defesa
poderá exercer amplamente a tese contrária à imputação penal.

Assim, havendo elementos indiciários que subsidiem, com razoabilidade, as versões


conflitantes acerca da existência de dolo, ainda que eventual, a divergência deve ser solvida pelo
Conselho de Sentença, evitando-se a indevida invasão da sua competência constitucional.

INFORMAÇÕES ADICIONAIS
LEGISLAÇÃO

Código de Processo Penal (CPP), art. 413.

VÍDEO DO JULGAMENTO ÁUDIO DO TEXTO

[Link]/jurisprudencia/externo/informativo/ 35/35

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