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A Transformação na Solidão Espiritual

A solidão é apresentada como um espaço de transformação e encontro com Deus, onde o 'falso eu' é confrontado e um novo eu pode emergir. O texto enfatiza que a verdadeira solidão não é uma busca por privacidade ou descanso, mas um lugar de entrega total a Cristo, onde se enfrenta o vazio e as tentações. A experiência da solidão é vista como essencial para um ministério frutífero e uma relação íntima com Deus.

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A Transformação na Solidão Espiritual

A solidão é apresentada como um espaço de transformação e encontro com Deus, onde o 'falso eu' é confrontado e um novo eu pode emergir. O texto enfatiza que a verdadeira solidão não é uma busca por privacidade ou descanso, mas um lugar de entrega total a Cristo, onde se enfrenta o vazio e as tentações. A experiência da solidão é vista como essencial para um ministério frutífero e uma relação íntima com Deus.

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Encontrar Deus na Solidão

“Em solidão vivia,

Em solidão seu ninho há já construído;

E em solidão a guia,

A sós, o seu querido,

Também na solidão, de amor ferido.” (São João da Cruz)

A solidão é a fornalha da transformação. Sem ela permanecemos vítima de nossa sociedade e continuamos sendo
enredados nas ilusões de nosso falso eu. O próprio Jesus ingressou nessa fornalha e, ali foi tentado pelas três
compulsões mundanas: a de ser relevante (que estas pedras se transformarem em pães) a de ser espetacular (atira-
te para baixo) e a de ser poderoso (eu te darei todos esses reinos). Então, ele confirmou Deus como fonte única de
sua identidade (“Deveis adorar ao Senhor vosso Deus e servir somente a Ele). A solidão é o ensejo da grande luta e
do grande encontro com o Deus amoroso, que se oferece como a substância de uma nova individualidade.

A fim de entender o significado da solidão, devemos primeiro revelar os meios pelos quais essa ideia foi distorcida
por nosso mundo. Dizemos uns aos outros que precisamos de alguma solidão em nossas vidas. O que realmente
estamos pensando, no entanto, num tempo e lugar para nosso proveito, no qual não somos incomodados pelos
outros, podemos ter nossos próprios pensamentos, expressar nossos lamentos e nos ocupar de nossas próprias
coisas, sejam quais forem. Para nós, a solidão, na maioria das vezes, significa privacidade, chegamos a duvidosa
convicção de que todos tem direito à privacidade. Pensamos na solidão como uma estação onde se pode recarregar
as baterias, ou como o corner do ringer de boxe, onde nossas feridas são untadas, nossos músculos massageados e
nossa coragem, restaurada por slogans convenientes. Em suma pensamos na solidão como uma circunstância onde
juntamos novas forças para dar sequência à continua competição da vida.

Mas, não é essa a solidão de São João Batista, de Santo Antão ou de São Bento, nem a que nós buscamos. A solidão
é um lugar de conversão, onde o velho eu morre e um novo nasce, onde sobrevém a emergência do novo homem e
da nova mulher. Na solidão, me livro de meus cadafalsos: nenhum amigo com quem conversar, nenhum
telefonema para fazer, nenhuma reunião ao qual comparecer, nenhuma música para entreter, nenhum livro para
distrair, apenas eu –nu, vulnerável, fraco, pecador, despojado, insignificante-e nada mais. É esse o nada que devo
enfrentar em minha solidão, um nada tão terrível que tudo em mim quer correr para os meus amigos, meu
trabalho e minhas distrações, de modo que eu possa esquecer o meu vazio e passe a acreditar que sou algo que
vale a pena. Mas isso não é tudo, tão logo eu decida permanecer em minha solidão, ideias confusas, imagens
perturbadoras, loucas fantasias e estranhas associações saltam em minha mente como macacos na bananeira. A ira
e a cobiça começam a mostrar sua face repulsiva. Ofereço discursos longos e hostis aos meus inimigos e tenho
sonhos lascivos nos quais sou rico, poderoso e muito atraente –ou pobre e feio -e necessitado de imediato consolo.
Assim, tento escapar ao escuro abismo do meu nada e restaurar meu falso eu em toda a sua vaidade. A tarefa é
perseverar em minha solidão, permanecer em meu calabouço até que meus sedutores visitantes se cansem de
bater em minha porta e me deixem em paz.

A sabedoria do deserto indica que o confronto com o nosso próprio vazio assustador nos compele a entrega total e
incondicional a Nosso Senhor Jesus Cristo. Sozinhos, não podemos enfrentar “o mistério da iniquidade “com a
impunidade, somente Cristo pode vencer os poderes malignos, somente nele e por meio dele podemos suportar as
provações de nossa solidão. Isso é lindamente ilustrado pelo Aba Elias, que conta:” Um ancião estava vivendo num
templo, e os demônios se aproximaram dele para dizer:” Deixa esse lugar, que nos pertence”. O ancião disse:
“Lugar algum vos pertence. “Então, os demônios começaram a espalhar em volta, uma a uma, as folhas de palmeira
do ancião, que se punha a reuni-las com persistência. Pouco depois, o diabo tomou sua mão e o arrastou para a
porta. Quando o ancião alcançou a porta, agarrou a padieira com a outra mão, clamando:” Jesus, salva-me!
“Imediatamente, o demônio fugiu e o ancião se pôs a chorar. O Senhor, então, lhe disse: ‘Porque estás chorando? E
o ancião respondeu: ‘Porque os demônios ousaram subjugar um homem e tratá-lo dessa forma. ‘O Senhor disse a
ele: ‘Estavas desatento. Assim que te voltaste novamente para mim, viste que Eu estava ao teu lado.” Essa história
mostra que somente no contexto do grande encontro com o próprio Cristo uma autêntica batalha poderia ter
lugar. Esse encontro não acontece antes, depois ou além da batalha com nosso falso eu e seus demônios. Não, é
precisamente no meio dessa batalha que Nosso Senhor vem a nós para dizer; como dissera ao ancião da história:
“assim que te voltaste novamente para mim, viste que EU estava ao teu lado.” Adentramos na solidão, antes de
tudo, para encontrar Nosso Senhor e estar com Ele, e somente Nele. Nossa principal incumbência na solidão,
portanto, não é prestar uma indevida atenção ás muitas faces que nos assaltam, mas manter os olhos de nossa
mente e nosso coração sobre aquele que é o nosso Divino Salvador. Somente no contexto da graça podemos
enfrentar nossos pecados; somente na circunstância da cura ousamos mostrar nossas feridas; somente por meio de
uma honesta atenção a Cristo podemos abandonar nossos medos e encarar a nossa verdadeira natureza. Conforme
nos damos conta de que não somos nós que vivemos, mas é o Cristo que vive em nós, e de que é Ele o nosso
verdadeiro eu, podemos lentamente deixar que nossas compulsões se desfaçam e começar a experimentar a
liberdade dos filhos de Deus.

Compulsivo é de fato o melhor adjetivo para o falso eu, que aponta para a necessidade de contínua e crescente
afirmação. Quem sou eu? Eu sou aquele que é apreciado, elogiado, admirado, antipatizado ou desprezado. A
compulsão se manifesta no medo oculto de fracassar e no impulso constante de evitar isso juntando mais do
mesmo: mais trabalho, mais dinheiro, mais amigos, mais ocupações, mais e mais...

Quando Henri Nowen visitou a santa madre Teresa de Calcutá e lhe pediu um conselho para bem viver a sua
vocação, recebeu o conselho:” Passe uma hora por dia em adoração ao seu Senhor e nunca faça nada que saiba
que saiba ser errado, e assim estará correto.” Como todos os grandes discípulos de Jesus, Madre Teresa reafirmou
a verdade de que o ministério só pode ser fecundo se nasce de um encontro direto e íntimo com Nosso Senhor. E
para chegarmos a esse encontro, precisamos nos retirar para o deserto e em solidão, restando somente o silêncio,
descansar a alma no Senhor.

Tomás Merton, insiste que a experiência da solidão só é possível onde há pobreza, onde não há apego a falsas
seguranças, onde se reconhece a verdadeira condição humana de desamparo e carência, uma total e incondicional
dependência de Deus, e logo que alguém se dispõe a ficar só com Deus, estará só com ele, não importa onde se
encontra….

“Ó meu “três”, meu Tudo, minha Beatitude,

Solidão infinita, imensidade em que me perco;

Entrego-me totalmente a Ti;

Sepulta-me em mim para que eu me sepulte em Ti,

Na esperança de chegar a contemplar,

Em tua luz o abismo de tua grandeza. Amém”

(SANTA ELIZABETH DA TRINDADE)

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