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Preservação e Cidadania em SP

Este trabalho analisa a percepção de transeuntes sobre o patrimônio material do centro histórico de São Paulo, utilizando a metodologia da História Oral. A pesquisa busca entender como essa percepção se relaciona com a noção de cidadania e o direito à memória, destacando contrastes entre as visões dos entrevistados e as ações de preservação patrimonial institucionais. O estudo enfatiza a importância do patrimônio na construção da cidadania e na consciência histórica da população.
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Preservação e Cidadania em SP

Este trabalho analisa a percepção de transeuntes sobre o patrimônio material do centro histórico de São Paulo, utilizando a metodologia da História Oral. A pesquisa busca entender como essa percepção se relaciona com a noção de cidadania e o direito à memória, destacando contrastes entre as visões dos entrevistados e as ações de preservação patrimonial institucionais. O estudo enfatiza a importância do patrimônio na construção da cidadania e na consciência histórica da população.
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS


DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

Mateus Moura Ferreira

Preservação patrimonial e cidadania no centro histórico de São


Paulo na percepção de alguns transeuntes

Florianópolis - SC
2022
Mateus Moura Ferreira

Preservação patrimonial e cidadania no centro histórico de São


Paulo na percepção de alguns transeuntes

Trabalho Conclusão do Curso de Graduação em História


do Centro de Filosofia e Ciência Humanas da
Universidade Federal de Santa Catarina como requisito
para a obtenção do título de Bacharel em História
Orientador: Prof. Dra. Janine Gomes da Silva.

Florianópolis - SC
2022
Ficha de identificação da obra

Ferreira, Mateus Moura


Preservação patrimonial e cidadania no centro histórico
de São Paulo na percepção de alguns transeuntes / Mateus
Moura Ferreira; orientadora, Janine Gomes da Silva, 2022. p.
50.
Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) –
Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia
e Ciências Humanas, Graduação em História, Florianópolis,
2022.

Inclui referências.
1. História. 2. Preservação Patrimonial. I. Silva, Janine
Gomes da. II. Universidade Federal de Santa Catarina.
Graduação em História. III. Título.
Este trabalho é dedicado aos meus familiares e aos meus
professores.
AGRADECIMENTOS

Gostaria de agradecer a cada professor e professora que participou de alguma maneira


da minha trajetória até o presente momento, em especial à professora Janine Gomes da Silva
que me orientou, confortou e ensinou em momentos de grandes dificuldades. Minha gratidão
às pessoas que se dedicam à educação.
E, não poderia deixar de agradecer à minha família, sobretudo à minha mãe por todo
apoio desde sempre.
Também quero ressaltar a importância de ter vivido a minha graduação em uma
universidade pública e gratuita. A garantia de ter estado em uma comunidade fundamental para
a manutenção e inovação da sociedade, formando anualmente diversos profissionais aptos a
preencherem vagas no mercado de trabalho com competência e coragem, bem como inúmeras
inovações nas mais diversas áreas do conhecimento que contribuem para a melhoria da vida
humana. A vivência em ambiente plural, de ciências, artes e troca de aprendizados foi
demasiadamente enriquecedora ao longo deste percurso.
RESUMO

Este trabalho busca refletir sobre o patrimônio material do centro histórico da cidade de São
Paulo. Fundamentado no uso da metodologia da História Oral, através de entrevistas a fim de
analisar a percepção de um pequeno grupo de transeuntes no centro histórico da cidade sobre o
patrimônio e analisando, a partir de suas falas, como o mesmo é visto. Considerando complexo
o processo de preservação patrimonial durante sua trajetória passando por mudanças de
concepções, é focado no conceito de cidadania, entendendo o patrimônio, também, como direito
social à memória, sendo fundamental para o desenvolvimento da noção de cidadania. Procura-
se evidenciar os possíveis contrastes e as relações entre a percepção destes transeuntes e daquilo
que foi objetivado por órgãos institucionais voltados à preservação patrimonial no Brasil e no
estado de São Paulo, o que envolve, também, a capital paulista.

Palavras-chave: Cidadania. Preservação Patrimonial. Memória. Monumento. Centro Histórico


de São Paulo.
ABSTRACT

This Work seeks to reflect on the material heritage of the historic center of the city of São Paulo.
Based on the use of methodology of Oral History, through interviews in order to analyze the
perception of a small group of passersby in the historic center of the city about the heritage and
analyzing, from their speeches, how it is seen. Considering the process of heritage preservation
as complex during its trajectory, going through changes in conceptions, it is focused on the
concept of citizenship, understanding heritage, too, as a social right to memory, being
fundamental for the development of the notion of citizenship. It seeks to highlight the possible
contrasts and relationships between the perception of these passersby and what was objectified
by institutional bodies focused on heritage preservation in Brazil and in the state of São Paulo,
which also involves the capital of São Paulo.

Keywords: Citizenship. Heritage Preservation. Memory. Historic center of the city of São
Paulo
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Dados sócio biográficos dos entrevistados ............................................................. 35


Tabela 2 – Depoimento dos entrevistados sobre a pergunta: “para você, o que é Preservação
Patrimonial?” ..........................................................................................................................36
Tabela 3 – Depoimento dos entrevistados sobre a pergunta: “O que você acha que há de
importante para se preservar nos monumentos antigos?” ........................................................38
Tabela 4 – Depoimento dos entrevistados sobre a pergunta: O que é cidadania para você?......42
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

CONDEPHAAT – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e


Turístico

IPHAN – Instituo do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional

SPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico Artístico e Nacional


SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO.................................................................................................... 15
2 CAPÍTULO I – A AÇÃO PRESERVACIONISTA E O CENTRO
HISTÓRICO DE SÃO PAULO ............................................................................................ 21
3 CAPÍTULO II - O CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO: PERCEPÇÃO
DOS TRANSEUNTES ........................................................................................................... 30

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................. 46


5 REFERÊNCIAS ................................................................................................... 48

6 APÊNDICE A - ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA ................................. 49

7 ANEXO A - MAPA DO TRIÂNGULO HISTÓRICO DE SÃO PAULO ........ 50


15

1 INTRODUÇÃO

“A cidade – seja ao vivo ou nas cores das


instituições de comunicação e do mercado –
continua sendo locus e objeto de importantes
disputas na incessante estruturação prática e
simbólica da cidadania.” (ARANTES, 2000, p.
161)

Este trabalho parte do interesse de refletir sobre o patrimônio material do centro


histórico da cidade de São Paulo, procurando observar como este mesmo patrimônio é
percebido por um pequeno grupo de transeuntes da cidade. A partir disso, busco compreender
a relação entre a percepção destes transeuntes acerca do patrimônio do centro da cidade de São
Paulo e a noção de cidadania que estas mesmas pessoas possuem. Com base nisso, procuro
evidenciar os possíveis contrastes entre a percepção destes transeuntes e da trajetória da
preservação patrimonial no Brasil, desde a instauração do Serviço do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional – Sphan, sendo, atualmente o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional – Iphan, passando pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico,
Artístico e Turístico – Condephaat. Tendo em vista o estabelecimento do conceito patrimônio,
que segundo Prata (2009) direciona a preservação patrimonial a partir dos pilares da questão
urbana, meio ambiente e cidadania, sendo este último, investigado mais a fundo por este
trabalho.
Levanto nesta pesquisa alguns pontos que giram em torno da questão da preservação
e que são considerados para a compreensão do atual estado de preservação patrimonial da
cidade. Sendo assim, o trabalho observa a principal iniciativa de preservação do patrimônio
material no Estado de São Paulo, o Condephaat, criado em 1968. Levando isso em conta, reflito
como as práticas preservacionistas do centro histórico são utilizadas para desencadear o
exercício da cidadania, em especial, o direito à memória, como sugere Rodrigues (2000) criando
assim, a oportunidade de gerar consciência histórica bem como sentimento de pertencimento.
A análise deste percurso do patrimônio material, principalmente no estado de São
Paulo e sua capital, está baseada no conceito de patrimônio, de acordo com os autores centrais
utilizados nesta discussão, e da concepção de preservação mostrada desde 1937, com o
surgimento do órgão, primeiro setor governamental dedicado à preservação no Brasil. E
16

abordará, essencialmente, a criação, segundo Rodrigues (2009) já em outro contexto do


Condephaat.
O trabalho se desenvolve a partir da observação do Teatro Municipal, imponente
prédio, inaugurado em 1911, chama a atenção pela arquitetura eclética que dá ao mesmo, uma
aparência singular. Ao andar por cerca de 5 quadras, no extremo oposto do triângulo histórico,
me deparo com o Pátio do Colégio, onde foi levantada a primeira construção da cidade e que,
atualmente, abriga prédios em estilo colonial, construídos posteriormente, onde se tem parte do
patrimônio histórico material que compreende o centro histórico, região que vai da região da
Sé, com o triângulo histórico, Largo São Francisco, Largo São Bento e Praça da Sé, onde se
inicia a cidade, ainda como Vila de São Paulo de Piratininga, neste local, realizei abordagens
de transeuntes nessa região. Também percorri o trajeto do Pátio do Colégio ao Vale do
Anhangabaú, cerca de 4 quadras e ao longo do Vale, pude ter a maior parte de encontros com
os entrevistados. Entre estes pontos, o recorte feito, se deve aos espaços onde pude ouvir relatos
dos transeuntes, e convidá-los para uma entrevista que será apresentada neste trabalho. Todavia,
para melhor compreensão da espacialidade na qual o trabalho gira em torno, coloco em anexo
(Anexo A) o mapa do triângulo histórico, que auxilia em muito a percepção do espaço
percorrido.
Com os relatos pessoais de um pequeno grupo de oito transeuntes, exploro, a partir da
visão individual dessas pessoas como e se o centro atende, segundo estes entrevistados, à
população, propiciando acesso à cultura, ao conhecimento e em qual medida ele faz isso, a
partir do patrimônio. Deste modo, observando as subjetividades desses sujeitos, a partir de
conversas que provoquem reflexões sobre o patrimônio material, a noção de cidadania busco,
de maneira geral, compreender como o centro histórico para além de um local que essas pessoas
precisam transitar, na maior parte dos casos por motivos de trabalho, contribui para o
desenvolvimento da cidadania das diferentes camadas sociais em que estão inseridos os
entrevistados durante este trabalho, a partir de uma análise de suas próprias perspectivas.
Em minhas idas ao centro, pude notar a variedade de pessoas à medida que fazia
abordagens convidando-as para uma rápida entrevista. Assim, como uma das indagações que
norteiam este trabalho, investigo o porquê de algumas camadas sociais a que pertencem alguns
transeuntes do centro histórico da cidade de São Paulo, acessam a zona central da cidade, ou
seja, o que leva estas pessoas àquela região. E comparar tais depoimentos à compreensão do
conceito de patrimônio e o que a preservação do centro está legitimando no levantamento
17

bibliográfico realizado previamente. Ao final da análise das entrevistas, refleti sobre a


importância da preservação patrimonial, tendo o centro histórico de São Paulo em perspectiva,
para o direito à cidadania.
Para tanto, foram fundamentais as leituras de parte da obra de Marly Rodrigues (2000);
de Antônio Arantes (2000) e Juliana Prata (2009), trabalhos estes que, entre outros assuntos,
contemplam à análise do patrimônio material, ainda que se reconheça a relevância do
patrimônio imaterial, a discussão realizada no presente trabalho, se detém à análise de parte do
patrimônio material do centro histórico de São Paulo, com embasamento tais autoras. As obras
de Rodrigues e Prata têm em comum a análise do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico,
Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo – Condephaat, primeiro órgão paulista voltado
à preservação patrimonial, seus usos, e os discursos que legitimam a defesa de determinados
patrimônios. Já o trabalho de Arantes traz suas contribuições a partir de um estudo acerca dos
caminhos por meio dos quais se constituem e se legitimam os marcos, lugares e cenários da
memória social.
A partir de uma das reflexões que Marly Rodrigues faz, ao dizer que o uso das formas
espetaculares nas fachadas de edifícios e em áreas públicas retratavam a possibilidade de uma
moderna sociedade urbana que deixava apagada a identidade real, reflito como ocorre este
afastamento da memória coletiva, a história indígena, negra e das camadas pobres de maneira
geral. Com isto, o resultado deste apagamento da cidade real, torna-se, muitas vezes, um local
alienante, sem identificação com sua população e, portanto, excludente.
Os trabalhos aqui citados, bem como os demais que contribuem para a discussão do
tema, já adiantam que esta narrativa da história do centro, está entrelaçada com a história
paulistana, como um todo, que por sua vez é moldada de acordo com interesses de uma elite
política, econômica e intelectual. Isto já foi colocado por Marly Rodrigues (2000) que aponta,
entre os elementos que causaram a preocupação da população em relação ao seu passado, a
defesa de uma história homogênea, sem abertura para a pluralidade cultural que carrega São
Paulo, e o país como um todo. Dessa forma, coloca a historiadora, o conto de uma experiência
distante, tida como de todos, não é de ninguém. Portanto, compreender como este passado
forjado pode contribuir para gerar um campo fértil para se exercer o direito à cidadania e uma
consciência histórica, nos dias atuais, foi uma das reflexões deste trabalho, questionando, assim,
o uso de uma narrativa elitista.
Entretanto, observar como se deu este processo de construção de uma narrativa em que
determinadas elites buscaram reafirmar a identidade bandeirante, e que a partir de 1964, recebe
18

tons autoritários, é necessário para realizar uma leitura consciente da relação que a cidade tem
com o Patrimônio Histórico e a cidadania. Além disso, observar parte dos caminhos percorridos
pelo Condephaat, a passos lentos e muitas das vezes, conservadores, é igualmente importante
para se discutir a utilidade do patrimônio paulistano, do seu uso atual, a quem ele agrega saber,
cultura e quais símbolos suas ruas evocam.
Estas disputas simbólicas, como aponta Rodrigues (2000) refletem a possibilidade de
cada segmento social se apropriar do passado e manter ou conquistar seus direitos sociais.
Portanto, a importância deste trabalho, é que a partir de um momento marcante da história
patrimonial de São Paulo, é possível pensar como o presente tem dialogado com este passado
e o que se pode extrair do patrimônio localizado no centro histórico.
Para além da relação institucional e cidade, como já dito, buscando incluir a relação
entre o patrimônio e as pessoas, entendi que seria importante acrescentar relatos de experiências
vividas em torno do patrimônio do centro histórico. E, então, ao ir em busca de parte dos
frequentadores da região, a fim de expor visões que incorporem o debate, na tentativa de
apresentar, também, o olhar de camadas diversas da sociedade paulistana, pude conversar com
transeuntes e entrevistá-los com o intuito de obter suas percepções do patrimônio que estava
diante dos mesmos.
Tendo em vista a concepção de que a cidade é fruto da sociedade, pretende-se
compreender como o patrimônio disponível no centro de São Paulo é visto por camadas sociais
que não pertencem à história que tais patrimônios contam.
Para isso, foi estruturada, uma entrevista adequada ao contexto: transeuntes no centro
histórico de São Paulo partindo do pressuposto que o tempo disponível das pessoas abordadas,
não seria muito, gerando materiais curtos para a análise. Desta maneira, a forma como busquei
realizar a análise, levou a pesquisa ao uso da metodologia da história oral.
Para tal metodologia, foram realizadas, considerando as reflexões de Verena Alberti
(2005), uma pequena série de entrevistas, não para preencher lacunas que a documentação
deixará para responder as questões desta pesquisa, mas perceber que a importância da história
oral contempla, não os fatos em si, mas a percepção acerca deles, levando em conta, como
coloca Alberti, as configurações socioculturais do indivíduo. Portanto, para a construção da
discussão desta pesquisa, foi indispensável o uso da História Oral. Com isso, objetivei, a partir
da estruturação do método e definição da categoria analítica das perguntas feitas com base,
19

também, no trabalho de Cristian Laville (1999) sobre a metodologia em pesquisa de ciências


humanas, obter relatos sobre o tema abordado no trabalho.
Em suma, a partir de uma investigação da trajetória da preservação patrimonial,
examinei como pode se apresentar o contraste entre anos de debate teórico e ações institucionais
e a percepção de transeuntes no centro, relatando suas experiências naquele local.
É necessário pontuar que este trabalho de campo, ocorreu durante o mês de janeiro de
2022, portanto, o mesmo esteve inserido no contexto global da pandemia do novo Coronavírus,
iniciada em dezembro de 2019. Dado o quadro instaurado pela pandemia da COVID-191, há
duas questões que impactam diretamente o trabalho de coletar relatos orais, bem como a
interação física. O primeiro é que a própria pandemia gera um grande desconforto para
interação, visto que a contração do vírus acontece justamente no contato. Por isso, apesar do
uso de máscara e do distanciamento social, sempre proposto durante as abordagens aos
transeuntes, muitos preferiram evitar qualquer tipo de contato, uma vez que este ainda é o
melhor método para se proteger. Esse movimento se mescla com a segunda questão que me
deparei ao realizar a saída de campo, no centro histórico da cidade de São Paulo, a pressa.
Quando ocorria alguma interação, a mesma se dava de uma maneira muito breve. Além da
questão pandêmica, creio que isso se deve, também, ao perfil dos abordados: trabalhadores
finalizando sua hora de almoço, turistas aproveitando ao máximo suas últimas horas na cidade,
entre outros motivos que geraram um conjunto de conversas curtas e falas objetivas e
sucintas. Porém, entre muitas idas ao centro histórico, ao longo do mês de janeiro, pude
conversar e entrevistar 8 transeuntes que aceitaram o convite de participar desta pesquisa,
compartilhando suas experiências e visões do patrimônio. Ocorreram no Vale do Anhangabaú,
em frente ao Teatro Municipal e no Pátio do Colégio entrevistas que muito enriquecem o
presente trabalho. Esses relatos, demonstram pessoas diferentes, localizadas em lugares
diferentes da sociedade, apresentando experiências diversas, vindas de outro lugar, diferente,
creio eu, dos lugares pelos quais o debate patrimonialista passou. Desta forma, as entrevistas
cumprem com parte essencial do objetivo inicial da pesquisa, de trazer, possivelmente, outra

1
COVID-19. Em dezembro de 2019, iniciou-se uma série de casos de pessoas infectadas pelo novo Coronavírus,
na cidade de Wuhan, localizada na China. Tratava-se de uma nova variante do Coronavírus em humanos. Os casos
de infectados cresceram exponencialmente se espalhando pelo mundo em poco tempo. Sem uma vacina que
pudesse combater o vírus de forma eficaz, a Organização Mundial da Saúde em acordo com governos diversos
países, tomaram como principal medida, para evitar o contágio desenfreado, o isolamento social. Em 2021
começaram a surgir vacinas que gradativamente, foram sendo distribuídas à população brasileira. Sendo assim, ao
início de 2022, a população adulta do Brasil já havia sido imunizada.
20

interpretação do patrimônio e suas possibilidades enquanto mecanismo que fomenta o saber


histórico e cidadania.
Sendo assim, apoiando-me no método qualitativo, observar as formas como o passado
e aqui, o patrimônio material do centro histórico da cidade de São Paulo, é apreendido e
interpretado por alguns transeuntes, através das entrevistas. No entanto, como já mencionado,
o caráter das entrevistas tem uma maneira que se diferencia do que visto nas considerações de
Alberti (2005) dada a pouca duração das conversas que tive com cada uma das 8 pessoas
entrevistadas. Foi preciso me adequar a esta realidade e considerar que apesar de me valer, neste
trabalho, da história oral como fonte, não pude obter um número considerável de relatos que
fosse capaz de dar alguma noção ampla de opiniões de uma região que tem tamanho número de
transeuntes. Além disso, a entrevista estruturada para esta pesquisa, precisou se adequar ao
pouco tempo disponibilizado pelos próprios entrevistados, que leva o trabalho a fazer uma
reflexão, para além do que aponta Alberti, ao analisar o depoimento e perceber: um diálogo
entre entrevistador e entrevistado com recuos e evocações paralelas, repetições, desvios e
interrupções com o agravante de todas as experiências terem sido aceleradas pelos
entrevistados, gerando conversas de 4 a 8 minutos. Desta forma, organizo este trabalho em dois
capítulos. O primeiro capítulo, aborda a importância da trajetória da preservação patrimonial
no Brasil, estado de São Paulo, bem como de sua capital, lembrando a relevância do patrimônio
e a trajetória patrimonialista dos órgãos Sphan e Condephaat, dentro daquilo que gera maior
interesse no estudo realizado. Apresento os autores que nortearam a pesquisa, Antônio Arantes,
Juliana Prata e Marly Rodrigues, suas indagações e aquilo de mais importante que destaco em
suas respectivas obras, a preservação patrimonial no Brasil, já como uma república, em meados
do século XX, bem como a consolidação do Condephaat, órgão de maior interesse para esta
pesquisa, que é responsável pela preservação no estado de São Paulo, bem como sua capital,
objeto de maior interesse já que nela se encontra o centro histórico paulistano.
E, na segunda parte da pesquisa, relato a experiência da pesquisa de campo, de maneira
mais detalhada, nesta etapa me debruço sobre essas andanças, abordagens, porém, focando mais
nos indivíduos.
21

2 CAPÍTLO 1 - A AÇÃO PRESERVACIONISTA E O CENTRO HISTÓRICO DE


SÃO PAULO
A concepção de preservação do patrimônio, em sua origem, está relacionada ao
conceito de nação. Tal associação parte da construção desta nação, seu legado e
consequentemente, seu patrimônio, símbolos e representações, como apresenta Prata. (2009, p.
20)
A preocupação com o patrimônio, como mencionada acima ter sido resultado de uma
preocupação em oficializar uma história marcadamente branca e europeia, no processo de
criação das representações simbólicas que pudessem transmitir ao cidadão o que significava ser
brasileiro. O projeto republicano pós-independência instituído pela elite até então no poder,
forjou através da história a festividades, heróis nacionais e demais símbolos. Sobretudo em São
Paulo, o uso da imagem bandeirante como conquistador, empreendendo em busca dos próprios
interesses marcou o início de uma ideia que foi sendo enraizada no paulista de que a sua
identidade estava fortemente ligada a essa origem desbravadora, que, mais tarde, foi vinculada
ao grande movimento de imigração europeia entre o final do século XIX e início do século XX,
gerando uma identidade branca, cristã e homogênea, como explicou Rodrigues. (2000, p.22)
Trata-se, portanto de algo forjado. Tal como são as tradições, usadas a fim de instaurar
a coesão nacional como coloca Hobsbawm (2008, p. 271-272)

[...] a consequente invenção das tradições “políticas” foi mais consciente e deliberada,
pois foi adotada por instituições que tinham objetivos político em mente. Podemos,
no entanto, perceber imediatamente que a invenção consciente teve êxito
principalmente segundo a proporção do sucesso alcançado pela sua transmissão numa
frequência que o público pudesse sintonizar de imediato. Os novos feriados,
cerimônias, heróis e símbolos oficiais públicos, que comandavam os exércitos cada
vez maiores de empregados do estado e o crescente público cativo composto por
colegiais, talvez não mobilizassem os cidadãos voluntários se não tivessem uma
genuína repercussão popular.

Acima, o autor descreve os interesses que foram politicamente pensados. No caso,


desta pesquisa, é analisado, órgãos estratégicos para a preservação patrimonial, como o Sphan
e o Condephaat que puderem incitar à população brasileira e paulista, mais especificamente,
uma educação com base em suas ideias.
A ideia de preservar um patrimônio se encontra com o intuito de formar um Estado-
Nação ainda na década de 1910, no Brasil. O ideal de modernidade a ser seguido, com base nas
cidades europeias, prescinde do desenvolvimento da identidade da nação. No entanto, as elites
políticas e econômicas responsáveis por este processo, não estavam interessadas em séculos de
22

uma história de caráter plural, rural e colonial. Assim, a construção da nacionalidade parte em
busca de um nacionalismo que rompia com o passado brasileiro e que almejava uma imagem
do Brasil republicano: moderno e coeso enquanto nação.
É importante destacar o pensamento liberal que pairava na elite que pensava na
organização nacional e sua inspiração na educação, sendo por muitos, creditada como
ferramenta do projeto republicano para o país. Como coloca Bittencourt (1990 apud
RODRIGUES, 2000, p.18)
Atribuía-se à escola o poder de regenerar o homem, de torná-lo cidadão apto ao
exercício da política. Neste sentido, o ensino da História, já bastante valorizado,
passou a ser exaltado por seu potencial disciplinador e formador. Não apenas nas salas
de aula, mas nas festas cívicas e comemorativas de datas e heróis nacionais, a história
fornecia continuadamente os instrumentos simbólicos necessários à moldagem do
trabalhador-cidadão brasileiro.

Portanto, dentro do contexto republicano, a tarefa da História era dar corpo às


representações simbólicas da nação brasileira. Neste movimento, buscou-se remover tudo que
remetesse ao colonial e que não estivesse apto ao exercício da política: indígenas, negros e
brancos pobres. A construção homogênea foi posta em prática pela elite intelectual e política,
sendo as únicas a terem voz, conforme explica Rodrigues. (2000, p. 20)
A partir da década de 1930 com o governo Vargas, as ideias modernizadoras visam
impor a coesão nacional em detrimento de regionalismos e do que era considerado antigo.
Sendo assim, em 1937, tendo em vista a consciência emancipacionista, de valorização da arte
e arquitetura, é oficialmente criado o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
(SPHAN).
O primeiro órgão federal destinado ao patrimônio histórico focou nos monumentos
arquitetônicos, religiosos e civis, do período colonial. O Sphan teve importância para o
desenvolvimento da arquitetura brasileira, bem como para a História da Arquitetura Brasileira.
Focado nesta questão, o órgão estabeleceu uma ortodoxia preservacionista, formando tal
mentalidade nas escolas de arquitetura, de acordo com Rodrigues. (2000, p. 28-29)
No entanto, na década de 1970, o monumento começa a deixar de ser visto de forma
isolada e passa entrar no planejamento urbano, na produção e reprodução do espaço. Essa
mudança é provocada por fatores como a dinâmica imprimida às cidades industrializadas, a
reivindicação social da memória, questões ambientais, qualidade de vida e elevação da
participação civil nas decisões políticas, segundo Prata. (2009, p. 20)
23

É neste período que surge o Condephaat. Segundo Rodrigues (2000, p. 41) a criação
do órgão ocorre em decorrência de partes conservadoras e tradicionalistas da burguesia paulista
que buscavam reafirmar a identidade bandeirante, dentro de um contexto autoritário trazido
pela ditadura, a partir de 1964 que, na esfera federal, pouco se engajou na questão
preservacionista. A preservação, neste cenário, era entendida como a resposta à – possível -
destruição dos excluídos da narrativa histórica defendida pelos conservadores – estes que eram
pertencentes a tal narrativa. Ou seja, a manutenção da narrativa bandeirante defendida por uma
elite burguesa e conservadora foi fator fundamental na ação do Condephaat.
Porém, num primeiro momento, as ações se voltaram para práticas que preservavam a
memória através da criação de arquivos e museus, pautadas por uma visão que defendia a ação
cultural no Estado de São Paulo e de uma postura cívica do Estado, visando explorar atividades
turísticas. Sendo assim, a preservação do patrimônio histórico-arquitetônico, ficou em segundo
plano e delegada a historiadores de acordo com Rodrigues. (2000, p.43)
Para Rodrigues (2000, p. 57) num momento em que o consumo e a cultura de massa
cresciam, surge o Condephaat, estabelecendo a ação preservacionista como instituidora do
passado da arquitetura brasileira, através de sua ação ortodoxa. Havia uma noção de que este
órgão tinha como missão salvar a cultura nacional da destruição.
Neste processo, haviam divergências entre os conselheiros. Se por um lado, foram
destacados elementos como: as técnicas construtivas, dos materiais e das formas que lhe davam
concretude e os tornavam testemunhos da história e da cultura brasileiras, do outro, alguns
membros preferiam valorizar edifícios com base na nobiliarquia ou pela relação com grandes
heróis do passado. No entanto, este impasse teve solução através da narrativa bandeirante, ponto
em comum entre os conselheiros que entendiam a trajetória do bandeirante e a ocupação do
litoral brasileiro como marcos fundamentais da memória regional e nacional, como coloca
Rodrigues. (2000, p. 58) Segundo a historiadora, até 1987, houve um aumento nos critérios de
valoração dos bens, porém, sem a definição de políticas de preservação. Assim, com esta
lacuna, as escolhas do Condephaat continuaram sendo pautadas pelos conselhos deliberativos,
referências teóricas e conceituais dos conselheiros participantes, pressões externas resultantes
da vontade política do poder público e de interesses do setor privado, principalmente referentes
à especulação imobiliária, intensificada a partir da década de 1970. Entretanto, durante a década
de 1980 foi seguida a lógica nobiliárquica e de grandes heróis do passado na maioria das
decisões tomadas, fortalecendo a narrativa da dita história oficial, embora tenham começado a
surgir pedidos de tombamentos vinculados à memória de determinados grupos sociais à
24

memória local, assim como a manutenção das condições ambientais de determinados espaços.
O surgimento deste tipo de valoração, foi inédito, e é decorrente do aumento do entendimento
sobre patrimônio e cidadania, expandindo o primeiro a uma definição que englobava outros
objetos além de monumentos arquitetônicos.
Entra em cena a noção de patrimônio atrelado ao planejamento urbano dando origem
ao conceito de patrimônio ambiental urbano, sendo entendido como um sistema de partes, não
mais uma parte única, isolada. Passou a se considerar a área em volta, dando ênfase nas questões
de tombamento e planejamento urbano, de acordo com Prata. (2009, p. 55)
O processo de mudanças significativas pelas quais passa o conceito de patrimônio
afetou e ainda afeta a preservação do que se compreende como patrimônio cultural, passando
pelas intervenções públicas em tecidos urbanos, promovida por meio de projetos culturais, que
se utiliza de uma prática cultural-patrimonialista para realizar tais intervenções com um caráter
inclusivo, na tentativa de construir uma ideia de patrimônio de todos. Embora, segundo Monnet
(1996 apud Prata, 2009, p. 60) no geral, essas intervenções acabam por ter um caráter
excludente.
Dessa maneira, Prata indica para estudos que já apontam para outras direções no que
se refere às ações preservacionistas e coloca (2009, p. 61)

O estudo do patrimônio cultural na relação com a cidade deve significar não apenas
uma ampliação do objeto (de um edifício, para um conjunto), mas fundamentalmente
uma mudança de foco: do objeto para “sistema de relações”. Além da “pedra e cal”, a
discussão sobre patrimônio deve incluir “pessoas” que se relacionam com os bens, no
sentido de entender como os homens em sociedade vivem, com o que se identificam,
como se dão as relações sociais hoje e ontem. Esta é a perspectiva da abertura temática
dos anos de 1970 e 1980 que pode ser vislumbrada por exemplo na questão ambiental
e na problemática das áreas envoltórias. É a partir dela que procuraremos compreender
as diversas maneiras dos agentes sociais (órgãos, técnicos e comunidades), de tratar
com a preservação e a tensão a que este confronto nos leva.

Entretanto, a autora também observa: o alargamento do conceito de patrimônio não é


algo linear, tendo seus avanços e retrocessos. E neste processo, vai consolidando novos
entendimentos, que por sua vez, necessitam de acompanhar as dinâmicas e transformações da
sociedade e da cidade a fim de fazer da preservação patrimonial algo vivo. A autora, que trata
do patrimônio sob a ótica da política preservacionista, demonstra que esse processo não é
simples e, muitas das vezes, acaba por ser incoerente em suas idas e vindas. Isso ocorre por
conta dos diversos influenciadores durante o processo que alteram a forma tradicional da
preservação exercida pelos especialistas. E abre espaço para outro agentes sociais que mostram
25

a importância de pensar a preservação como um direito social e atrelado sobretudo, à cidadania


e sentimento de pertencimento, conforme aponta Fonseca (1997 apud Prata, 2009, p.62)

Resumindo, se a emergência da noção de patrimônio histórico e artístico nacional se


deu no âmbito da formação dos Estados-nações e da ideologia do nacionalismo, sua
versão atual, enquanto patrimônio cultural, indica sua inserção em um contexto mais
amplo – o dos organismos internacionais – e em contextos mais restritos – o das
comunidades locais. Nesse sentido, nas duas últimas décadas, essa noção
ressemantizada, extrapolou o seu domínio tradicional, o dos Estados Nacionais, e
passou a envolver outros atores que não apenas burocratas e intelectuais. As
modificações na conceituação e no gerenciamento do patrimônio enquanto objeto de
políticas públicas indicam sua progressiva apropriação como tema político por parte
da sociedade, o que trouxe conflitos a uma prática tradicionalmente exercida pelo
Estado, com o concurso de intelectuais de perfil definido, e à margem das pressões
sociais.

O movimento descrito acima, demonstra ser rico, complexo e demorado. Há muitos


desdobramentos a se considerar. Porém, buscando a relação deste panorama com a pesquisa do
presente trabalho, me atento a observar como a possibilidade de a preservação patrimonial ser
estendida a outros segmentos da sociedade, viso colocar a tentativa de expor mais a fundo a
maneira que pude perceber a relação entre o patrimônio material e uma pequena parte das
pessoas à sua volta. Assim, iniciei o planejamento para elaborar um roteiro de entrevistas, bem
como utilizá-lo com alguns transeuntes que aceitassem participar da pesquisa.
Outro elemento a ser mostrado nesta etapa, é a minha própria vivência enquanto
pesquisador em campo, somando às análises teóricas, penso na relevância de expor ideias que
contribuíram para o desenvolvimento das perguntas feitas durante as entrevistas. Andanças,
conversas e observações sobre o centro histórico de São Paulo que foram primordiais para a
construção do trabalho final.
Acredito que seja necessário construir um panorama que leva à pesquisa,
demonstrando além da mesma, as ideias e percepções que impulsionam a mesma. Ao elaborar
um trabalho que visa se aprofundar na questão patrimonialista, surgem dúvidas e movimento a
fim de sanar tais dúvidas enquanto pesquisador. Mas, não é possível – e nem de interesse aqui
– desvincular o pesquisador do cidadão que carrega suas dúvidas, observações enquanto transita
na cidade. Então, ao refletir sobre como o patrimônio da cidade de São Paulo é sempre visível,
exposto em larga escala pela cidade, sendo constantemente exibido em campanhas publicitárias,
e obras dramatúrgicas, fazendo com que, sem muita dificuldade se possa citar um ou outro
ponto preservado. Aquele mais relevante, até mesmo algum patrimônio que fica evidente no
caminho para o trabalho e que, assim, acaba sendo parte do cotidiano de milhares de
paulistanos.
26

Pois bem, conforme este trabalho foi ganhando forma em seu planejamento, ainda
como um projeto, refleti sobre como poderia falar sobre essa visibilidade contraditória: uma
exposição que, em minha percepção, parece ser, em muitos dos casos, decorativa, não tendo
um meio eficaz que seja capaz de estimular reflexão, ou dar sentido àquele monumento.
Durante o processo de desenvolvimento, ainda como um projeto, mantive o trabalho
em torno desta questão, tentando encontrar m caminho seguro de chegar a uma forma de olhar
para este questionamento, podendo garantir que o mesmo fosse legítimo e capaz de garantir um
bom caminho para desenvolver todo o trabalho. Assim, esperando que, ao final da jornada, os
questionamentos e dúvidas originais pudessem se desenvolver de forma a resultar em um
processo capaz de concluir em êxito a estruturação das respostas para as indagações realizadas
previamente.
Por esta razão, pensei ser necessário o compartilhamento das opiniões sobre o
patrimônio da cidade de São Paulo, mais especificamente, aquilo que se reúne no centro
histórico. Realizei então, uma série de visitas a fim de, primeiramente, observar. Houve grande
contraste com as leituras e pesquisas prévias que falam sobre a história do patrimônio brasileiro
e, sobretudo, paulistano. O estado de degradação do centro velho parece ir contra todo empenho
que é relatado em obras de pesquisadores e pesquisadoras que são referência para o debate
patrimonialista uma vez que, como brevemente salientado ao início deste capítulo, ocorreu de
forma homogênea uma lapidação do que uma elite paulista enxergava para o futuro de São
Paulo, evidenciando uma história distorcida e excludente fundada sobre o mito bandeirante. A
classe dominante como apontada criou a história que o patrimônio material da cidade conta.
Portanto, o meu primeiro impacto, ao andar pelo centro histórico, é observar que tudo parece,
como já adianto aqui, alguns transeuntes relataram, abandonado ou em mau estado. Indaguei-
me como aquilo já não parece receber atenção de grupos dominantes. O que se descobre, é que
há algum tempo, o centro da cidade como um todo, vem recebendo uma atenção do poder
público que se traduz em obras e tentativas rasas de reavivar a região. Em alternância de
governos, pouco parece mudar quando se trata de ações que visam mostrar aos cidadãos
paulistanos a importância de seu centro histórico. Aparentemente, o centro é sinônimo de
violência, de abandono, enquanto histórico, parece ser substituído por velho, gasto e obsoleto.
São Paulo parece não ter mais tempo para o antigo, o novo, as transformações e a pressa são
prioridades. Hoje, ao andar pelar ruas, conversar com as pessoas, nota-se a prioridade em novas
linhas de trem e metrô. A população quer estrutura para ir e vir com mais rapidez e conforto.
27

Algo que é de extrema importância para uma cidade que continua tendo boa parte de seus
trabalhadores saindo das zonas periféricas, locomovendo-se ao centro para trabalhar, como é o
caso de alguns entrevistados que será discutido mais adiante. Observei, então uma mistura de
reclamações sobre o estado de tudo – o centro da cidade - assim como a invalidação da história,
tem-se uma forte crítica, ou autocrítica sobre a falta de respeito, o que gera a atual degradação
desta parte da cidade.
É legítimo que as pessoas pensem em seu bem estar, e queiram, antes de qualquer
coisa, uma melhoria significativa em sua vida. E, dado que a maioria dos transeuntes são
trabalhadores, a prioridade é para que haja mais facilidade em seu cotidiano. Um ir e vir mais
rápido e seguro é desejado por muitos. O que está pelo caminho, como prédios
arquitetonicamente chamativos, estátuas, ruas e praças importantes, monumentos grandiosos
ou o que quer que seja, não está evidente o que se espera, mas certamente, ao andar pela cidade,
observar e dialogar com alguns transeuntes, pode-se compreender que essas questões não estão
pairando pela cabeça dos cidadãos.
Todavia, reflito, também, sobre outras intervenções – ou a ausência das mesmas – que
poderiam ser realizadas. O setor privado é sempre muito falado em São Paulo e é sempre de
forma generalizada, uma figura presente em debates de administração pública. Nos últimos
anos, se viu aumentar esta forma de governança, cujo apoio de iniciativa privada ocorreu em
larga escala, trazendo uma série de concessões à iniciativa privada. A grosso modo, uma medida
liberal a fim de diminuir as reponsabilidades da administração pública, geralmente com o
argumento de que eliminando inúmeras preocupações, é possível focar nas questões mais
importantes para administrar a cidade. Essa lógica traz consigo, inúmeros problemáticas e nem
sempre suas ações contemplam por inteiro a solução dos problemas. É o caso, por exemplo, das
medidas de revitalização de alguns pontos do centro histórico, como já ocorreu e ocorre,
atualmente, no Vale do Anhangabaú, em que uma inteligível obra deu uma nova cara ao lugar,
que se mostra atraente, mas esbarra em problemas de cunho social que investimento e ações de
marketing são incapazes de resolver, tais como a população de rua, que só tem aumentado e
gerando um clima cada vez maior de insegurança e desconforto para quem visita o lugar. É
preciso pontuar que, estas sensações, são mesclas de uma possível insegurança, mas que, vale
ressaltar, é nutrida pelo estereótipo de que ‘o outro’, aquele que vive sem um teto, é
constantemente uma ameaça a quem tem endereço para chamar de seu. Ocorre que essas
vivências no centro também se tornam um elemento causador do distanciamento, como explica
Zukin (1980 apud Barreto, 2013, p.232)
28

[...] classes médias e altas evitam lugares chamados populares, ou em situações em


que grupos sociais considerados marginais (mendigos, usuários de drogas,
desabrigados) ocupam espaços que são evitados, na medida do possível, por todas as
classes sociais, numa situação paradoxal na qual, aqueles que, estão destituídos de
poder (econômico, político e de decisão) tem o poder de excluir os que tem aquele
poder.

Houve um grande ganho em poder ter realizado para além de uma pesquisa prévia
assim como as entrevistas junto de alguns transeuntes, a exploração do local. Poder andar e
ouvir pessoas que estão no centro histórico de São Paulo, morando, trabalhando ou como
turistas foi de extrema importância. Assim, tornou-se possível refletir sobre a bibliografia
realizada. Desta maneira, buscando a maneira mais eficaz de analisar pesquisa prévia e a visita,
tornando significativas as indagações que nortearam este trabalho. Pois bem, o interesse de
saber como outros cidadãos e cidadãs estão ineridos nesta grande e complexa dinâmica que a
cidade oferece, tendo os diversos fatores interferindo simultaneamente na vivência de cada
indivíduo. Para além de fatores externos, há, também, a subjetividade de cada sujeito, tendo,
cada qual, uma combinação de cor, gênero, religiosidade, profissão e nível de escolarização que
geram uma forma própria de cada ser enxergar o mundo à sua volta. Mas, quando se trata da
percepção de transeuntes no centro histórico de São Paulo, a partir de observações, relatos,
conversas e entrevistas, foi perceptível que há diversos transeuntes de diferentes classes sociais,
porém, ainda sim, pertencentes à realidade que não se enquadram na concepção de elite. De
acordo com Rodrigues (2000, p. 146) no senso comum, a ideia da história como explicação do
passado nacional ou regional ainda perdura e fica evidente na noção de valoração de bens
culturais pela sociedade e pelo próprio Condephaat. E, além disso, há uma herança nesta visão
quando se trata do patrimônio de São Paulo, advinda do Sphan, através de publicações do
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que escreveu muito sobre uma história de caráter
patriótico e cívico na qual centrou esses elementos no bandeirante, grande símbolo da história
paulista.
Conforme o debate patrimonialista foi se transformando, ele foi furando a bolha elitista
que o mantivera sobre alicerces de órgãos patrimonialistas ortodoxos. Rodrigues (2000, p. 148)
indica que tal forma de conduzir o debate patrimonial, se alterou recentemente na história
levando para fora do círculo de especialistas e institucional, para alcançar o ensino e a mídia,
atribuindo uma multiplicidade até então não vista às perspectivas sobre o passado.
29

No capítulo seguinte, analiso as conversas e reflexões que, então, deixam de ter um


caráter generalista e passam a ter nome e características dos entrevistados e das entrevistadas,
bem como seus relatos que serão analisados, também, no segundo capítulo, demonstrando desde
o repertório teórico para utilização da história oral até o resultado final, os relatos desses
transeuntes no centro histórico da cidade de São Paulo.
30

3 CAPÍTULO 2 – O CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO: PERCEPÇÃO DOS


TRANSEUNTES

Para o desenvolvimento do trabalho, preparei a busca pelo depoimento oral. Como


coloca, Verena Alberti, a entrevista tem valor de documento, sendo necessário interpretá-las, a
fim de descobrir o que documentam. Há uma série de elementos no uso do relato. Neste caso,
minha reflexão teve, inicialmente, o intuito de, como coloca Alberti, valorizar o indivíduo, que
segundo a autora, é um dos paradigmas da história oral. Então, considerar o indivíduo como
termo elevado a envolver os demais, possuindo assim, uma capacidade totalizadora. (2004, p.
19-20)
No entanto, é preciso ter certo cuidado, pois a experiência prática neste trabalho,
mostra olhares sobre o patrimônio que são muito reduzidos em comparação ao número da
população da cidade, e seria necessário coletar muitas vivências para se ter uma ideia que
chegasse próxima de ser totalizante. O que objetivei foi agregar olhares distintos dos
documentos escritos, partindo da curiosidade em saber da curiosidade do outro pelo objeto
estudado neste trabalho.
Como também coloca Alberti (2004, p. 23) o empenho na entrevista é sempre
construir, através da experiência concreta, da vivência que o indivíduo expressa. E acrescenta,
uma das maiores vantagens da história oral é esta experiência. A mesma torna o passado mais
concreto, ensinando sobre este passado, através da experiência do outro. É defendido por
autores adeptos da história oral que os relatos de indivíduos demonstram características do
grupo, sua estrutura, e formas típicas de comportamento. Ela mostra aquilo que é
potencialmente possível em determinada sociedade ou grupo. Mas, para partir em busca de
experiências de outros indivíduos, é importante questionar se os mesmos possuem um
conhecimento ou vivência que o pesquisador não possui, e se essa busca responde ao que
procura saber a pesquisa. No entanto, dadas as condições desta pesquisa, o material coletado
não se encaixa no sentido de entrevista que Alberti emprega, uma vez que elas ocorreram de
maneira apressada, gerando entrevistas breves com perguntas objetivas e, na maioria das vezes,
respostas impacientes. Havia certa presunção, pelas características metropolitanas da cidade de
São Paulo, como a pressa, o excesso de pessoas se locomovendo a trabalho e o sentimento de
desconfiança com a segurança pública, que as poucas pessoas que aceitaram compartilhar seus
relatos acerca do patrimônio material no centro histórico de São Paulo, o fizessem de maneira
31

ligeira, para poderem voltar com seus afazeres o quanto antes. Vale lembrar que entre os
entrevistados, metade estava em horário de trabalho. Esta situação alterou o que era esperado
quando iniciei os estudos sobre a história oral e desejei trabalhar com a mesma. Entretanto,
atuando dentro da realidade, longe do que foi idealizado, pude obter uma pequena quantidade
de relatos que julgo serem ricos os suficientes para preencher e dar sentido a este trabalho.
Iniciei minha jornada em busca de fontes orais. Num primeiro momento, planejei
visitas ao centro histórico de São Paulo a fim de explorar o local para além de leituras e
pesquisas prévias. Ao caminhar pelo centro histórico, pude perceber uma série de elementos
que até então, não havia notado. Como cidadão paulistano, cresci sob uma ótica um tanto quanto
deturpada do centro da cidade. Os relatos sobre o lugar ser inóspito e perigoso geram sempre
um ar de desconfiança. Uma visita, deveria ser sempre pontual, quando não havia outra
alternativa. Para não trabalhadores do local, nem turistas, moradores de regiões periféricas,
como fui durante toda minha vivência, as idas ao centro tinham, geralmente, um caráter
comercial. Alternativas a grandes mercados, os polos comerciais formados no centro sempre
chamaram a atenção de diversos consumidores. Locais como a rua 25 de março são conhecidos
por atrair uma grande quantidade de consumidores, principalmente em períodos festivos, como
o Natal, em que muito se consome em termos de adereços e decorações natalinas, além da
compra de brinquedos e presentes em geral. Há, também, a rua Santa Ifigênia, como já
mencionada, voltada a produtos tecnológicos, há algum tempo são alternativas de consumo do
paulistano.
Esta função, de local alternativo para compra de eletroeletrônicos, reparo ou
manutenção de aparelhos por preços muitas vezes inferiores aos de lojas autorizadas de grandes
marcas, talvez tenha sido a único lampejo de atração que o centro causou em boa parte da
população paulistana devido ao leque de opções e o baixo custo comparada a outros lugares.
Ademais, índices de violência sempre foram evidenciados em boa parte por uma mídia
sensacionalista.
Estes elementos, entre outros, contribuíram para ofuscar o centro, bem como seu
centro histórico, pois o lugar foi perdendo a devida atenção do poder público e da população.
Ao menos parte deste processo pode ser explicado com base na desindustrialização dos centros
urbanos e desmobilização das massas que passa a ocorrer ainda na década de 1960, este período,
denominado de pós-industrial, é marcado pela sobreposição do setor de serviços, terceiro setor,
ao mercado. Esse movimento causou o esvaziamento de grandes fábricas e depósitos nas
cidades. Além disso, um movimento político de desmobilização tem como sua principal
32

estratégia desvincular os grandes centros urbanos da indústria, criando assim, polos industriais
afastados com o intuito de enfraquecer a mobilização operária, sua coesão e reivindicação por
direitos melhores, de acordo com Barretto. (2013, p. 233)
Desta forma, foram designados novos locais para se tornarem polos industriais, centros
administrativos e centros empresariais que fossem afastados dos centros das cidades.
Principalmente os distritos industriais foram afastados. Já os polos empresariais, pode-se notar,
em São Paulo, a migração já na década de 1970 para a avenida Paulista e, posteriormente, a
avenida Faria Lima como as principais expressões dessa mudança. Este movimento, segundo
Barretto, torna os centros urbanos locais de abandono, aumentando o número de pessoas em
situação de rua, pontos de drogas e prostituição, passando a imagem já descrita de um local
perigoso a ser evitado.
A partir desta noção, este cenário cria uma dinâmica social complexa, dado os sujeitos
participantes e a forma como estes interagem entre si e com a cidade. De acordo com Arantes
(2000, p. 106) “os habitantes deslocam- se e situam-se no espaço urbano e assim, vão sendo
construídas coletivamente as fronteiras simbólicas que separam, aproximam, nivelam,
hierarquizam ou, numa palavra, ordenam as categorias e os grupos sociais [...]”. Em minha
perspectiva, a partir das andanças que pude realizar, observei como as divisões sociais
ressignificam lugares, ou ofusca os mesmos, dando a importantes monumentos, um
esquecimento perante à população. No centro histórico de São Paulo e, na região central da
cidade, como um todo, o número de prédios degradados e abandonados é alarmante. O cenário
visto ilustra um desinteresse em fazer do centro antigo de São Paulo um lugar que conte a
história da cidade e do povo paulistano, mesmo na ótica conservadora que foi imposta durante
o século XX, na instituição de órgãos patrimonialistas com intuito de formar o ideal de nação.
Mas, o mais estarrecedor é a quantidade de pessoas em situação de rua. O número que já vinha
numa crescente, só foi adensado com a pandemia da COVID-19, com os níveis de pobreza
sofrendo uma piora, que resultou no aumento de pessoas perdendo suas casas em toda a cidade
e, no país todo. Observando estes grupos que ficam às margens, é possível notar que eles são
considerados por quem passa como uma ameaça, sendo assim, são evitados, não são olhados, e
passa-se sempre depressa por eles. Muitos pedem esmola, mas dificilmente recebem alguma
atenção. Essa cena é muito comum no centro histórico: pessoas deitadas nas marquises, ou
vagando pelas calçadas, notoriamente em situação de rua. Embora não seja visto com
frequência, há consumo de drogas. Enquanto dezenas de pessoas tentam se acomodar em
33

barracas, calçadas, marquises e praças, muitos outros cidadãos passam apressados evitando
olhares e contatos com quem vive nas ruas. Ocorre uma interação entre quem está desamparado
na rua, pouco vista durante minhas visitas ao centro, assim como uma interação ainda menor
entre os mesmos e os transeuntes que evitam quem está na rua. Arantes (2000, p.133) nos
lembra que pertencimento é ter uma posição no mapa social, reconhecida pelos demais para
que assim seja legitimada. Porém, as pessoas em situação de rua, não têm reconhecimento
perante o restante da sociedade, passando a serem vistos, não como pessoas e cidadãos. Mas
sim como o outro, diferente. A cidadania, como aponta este mesmo autor, está imbricada com
o sentimento de pertencer. Mas, sem esses atributos que permitem uma localização no mapa
social, perde-se o pertencimento, apesar das pessoas em situação de rua, estarem situadas, não
pertencem ao coletivo, à sociedade e isso implica na retirada de direitos das mesmas. A polícia
está presente de maneira constante, entre grupos de cinco ou seis motocicletas estacionadas pelo
centro histórico, um carro rondando vagarosamente por vez ou outra e até um grupo da
cavalaria, numa quantidade próxima à de motociclistas da polícia militar de São Paulo. Em
minha perspectiva, esta dinâmica parece sustentar uma falsa segurança, pois ali observando as
movimentações, logo percebe-se que a quantidade de policiamento visa dar a quem vai à região,
ao lojista e comerciante legal, uma noção de proteção ao potencial perigo. A cidade se divide
entre os que interagem formalmente entre si, geralmente sob o pretexto comercial, e os
excluídos. É como se pessoas em situação de rua perdessem seu direito de ser cidadão, deixando
de serem vistos como tal.
A exemplo disso, o obelisco da liberdade, famoso por ter se tornado ponto de compra
e vendas de africanos escravizados durante o século XVIII, mas que, enquanto pude visualizar,
não se vê pessoas parando para observar o local. Ao invés disso, passos apressados em torno
do obelisco, que em seu entorno possui ao menos uma dezena de pessoas em situação de rua.
Isso muda a dinâmica dos próprios monumentos, como colocou Arantes, ocorre um processo
em que ruas, praças e monumentos se transformam em suportes físicos de significações e
lembranças compartilhadas, que passam a fazer parte de identidades, fronteiras de diferença
cultural e marcos de pertencimento.
Levando isso em conta, iniciei minhas visitas ao centro no dia 15 de janeiro. Desci no
metrô São Bento, caminhei pelo Vale do Anhangabaú, um dos pontos mais famosos do centro.
É ali que se enxerga boa parte de lugares icônicos tais como o prédio dos correios, Edifício
Martinelli, Edifício Altino Arantes, famoso pelo apelido “Banespão”, além da lateral do Teatro
Municipal, entre outros que deram à São Paulo um ar de metrópole moderna no início do século
34

passado, exibindo uma arquitetura inspirada em movimentos arquitetônicos ecléticos que, como
já apontado por Rodrigues (2000, p. 18) era uma busca para romper com o passado colonial,
expondo fachadas que corroboram com os símbolos da Nação. Hoje, a área está dentro de um
perímetro considerado perigoso, abandonado e sujo por parte dos paulistanos, inclusive, tendo
sido citada desta maneira pelos entrevistados. No Vale do Anhangabaú, observei as mudanças
realizadas por uma empresa que, através de um consórcio, obteve a concessão do local por 20
anos e aposta em um projeto de revitalização. Muito criticado por parte da população e opinião
pública local, pelo excesso de concreto e retirada de árvores, o Vale foi redefinido, procurando
ser um espaço de lazer, interação da população com a cidade e a cultura. Assim, foram
instalados banheiros públicos e quiosques que vendem lanches e bebidas em seu entorno, além
de cabines para estruturas de shows e eventos gratuitos, como o espetáculo de jatos d’água
instalados no chão, acompanhados de um colorido jogo de luzes. Tais mudanças expressam um
aumento do interesse em revitalizar, sob a ótica de projetos privados o centro, vê-se em
caminhadas à noite uma iluminação forte e colorida que além do próprio Vale, abrange o Teatro
Municipal, o Edifício Altino Arantes e no entorno do Viaduto do Chá. De fato, o jogo de luz
realça os traços e adiciona encanto nas estruturas, chamando atenção de quem passa, mas a
beleza na parte alta dos monumentos se contrasta com as calçadas que servem como refúgio
para as pessoas em situação de rua, além de inúmeros pontos onde a coleta de lixo parece não
funcionar devidamente, o que resulta em muito lixo acumulado nas mesmas calçadas. Ainda
assim, o investimento notório em revitalização não parece aplicar nenhuma medida para
solução destes problemas, mas empenha-se em expor a beleza arquitetônica do que já existe e
da renovação aplicada ao Vale do Anhangabaú. O objetivo do investimento privado é pouco
provável de ser completamente atingido, devido aos problemas de o centro serem complexos
demais para somente a intervenção privada dar conta.
Refleti que as inúmeras categorias sociais que permeiam todo o centro de São Paulo,
necessitam de mais do que a ação de revitalização da iniciativa privada. Neste caso, o Vale do
Anhangabaú demonstra sinais de como há movimentações contrastantes entre grupos e a
tentativa de impor um padrão de comportamento no local. Um exemplo disso, é a monitoria dos
vigilantes a fim de evitar que alguma pessoa em situação de rua se deite sobre os novos bancos
instalados em uma parte do espaço. A reação quando isso ocorre, se dá com o vigilante
abordando e sugerindo ao morador, que deite do lado oposto, na grama, numa área mais
distante. Entre outros sinais de que há uma tentativa de impor uma ordem do que pode e do que
35

não pode, além do quem pode e quem não pode usar de determinadas maneiras o espaço
público.
Neste local que pude ter meu primeiro contato com sucesso com um transeunte, após
algumas tentativas frustradas, devido ao contexto de janeiro: as pessoas quando abordadas por
mim, olhavam desconfiadas, faziam perguntas, em geral, sobre o tempo que a entrevista levaria,
sobre não se identificar e quase sempre desistiram de aceitar. Principalmente os mais velhos,
diziam não passar nenhum dado pessoal a ninguém pois o índice de ‘golpes’ com dados pessoais
estava alto, argumentavam. Outro ponto é que, mesmo de máscara e mantendo o
distanciamento, muitos não quiseram conversar a fim de evitar contato. Neste mês, a cidade,
bem como o país, apresentou uma alta nos números de casos da COVID-19, em decorrência da
variante Ômicron que possui maior capacidade de transmissão, o que gerou maior preocupação
na população. Também neste cenário que pude ter ao longo do Vale do Anhangabaú, Estação
São Bento e Pátio do Colégio, um total de oito entrevistas com transeuntes convidados a
participarem desta pesquisa. Os entrevistados se dividem entre turistas, moradores,
trabalhadores e frequentadores do centro histórico. Abaixo seguem os dados sócio biográficos
dos entrevistados:
Tabela 1 - Dados sócio biográficos dos entrevistados

Nome Idade Sexo Profissão


Jaciara 56 Feminino Auxiliar de limpeza
Susianny 35 Feminino Professora
João 58 Masculino Captador de imóveis
Beatriz 25 Feminino Atendente
Elianete 56 Feminino Vendedora
Felipe 22 Masculino Artista de rua
Juliana 44 Feminino Analista de pesquisa
Cláudio 50 Masculino Vigilante
Fonte: dados colhidos durante as entrevistas

As entrevistas ocorreram com um roteiro de perguntas semiestruturadas desenvolvido


anteriormente. Nele desenvolvi perguntas que procurassem provocar a expressão dos conceitos
que norteiam esta pesquisa: preservação patrimonial e cidadania. Para efetivação dos relatos,
realizei a gravação do áudio com a permissão dos entrevistados. Então, foram pensadas 14
perguntas, divididas em três blocos: Bloco 1 – perguntas introdutórias: davam início ao diálogo,
procurando mostrar onde o indivíduo se localiza dentro da temática. Assim, de início, procurei
saber do entrevistado, onde residia e/ou trabalhava. Qual o uso que é feito do centro por essa
pessoa. O Bloco 2 – perguntas temáticas – investiga a percepção dos entrevistados do
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patrimônio histórico, sua vivência e saberes. Tal objetivo passa por questionamentos sobre a
preservação patrimonial, o conhecimento da história do patrimônio e do centro histórico de São
Paulo e sobre cidadania. O Bloco 3 – conclusão – busca ouvir o relato dos entrevistados em
relação à percepção de melhorias e projetos para valorizar, vivenciar e aprender com o
patrimônio histórico. Por se tratar de perguntas semiestruturadas, algumas perguntas foram
feitas de forma exclusiva para alguns entrevistados devido ao percurso de seu relato. Outras
perguntas foram elaboradas de forma diferente quando em sua formulação original não
provocaram resposta ou alguma resposta satisfatória.
A partir disso, pude analisar o áudio completo de cada entrevista, realizando uma
seleção das partes mais ricas de cada depoimento com base nos objetivos da pesquisa. O
primeiro relato que consegui, de Jaciara, 56, auxiliar de limpeza. Ela concordou em realizar
uma entrevista, mesmo sem entender bem a temática que apresentei. Nascida em Itaberaba,
Bahia, veio à São Paulo, a fim de obter melhores condições de trabalho. Há dois anos trabalha
no centro e diz gostar do local, apesar de frequentar apenas com essa finalidade. Jaciara
aproveita seu horário de almoço tomando sol nos novos bancos do Vale do Anhangabaú.
Quando perguntada sobre o Patrimônio Histórico, demonstra pouco interesse sobre o assunto.
Em seu relato, fica evidente a (não) identificação com a cidade, como um todo, pois suas
respostas sobre o patrimônio sempre buscavam valorizar as áreas abertas, como praças e o
próprio Vale. O interessante é que quando questionada acerca desses locais em específico, ela
relata que remete à lembrança de sua terra natal, por também haver praças e árvores em
Itaberaba. Por fim, o último bloco também apresenta respostas e reações vagas.
O primeiro contato com alguém no centro histórico, parece ter dito mais sobre as
questões de deterioração que o centro histórico enfrenta, do que sobre sua preservação. Adiante,
apresento as principais perguntas realizadas sobre questões fundamentais da pesquisa.
Tabela 2 – Depoimento dos entrevistados sobre a pergunta: “para você, o que é
Preservação Patrimonial?”

Jaciara “Preservação assim de coisa antiga? Acho bacana, legal. Uma lembrança de muito tempo. Acho
muito bacana.” (SILVA, JACIARA, 2022)
Susianny “Ela envolve um engajamento das pessoas quanto a conservação daquele lugar, daquele ambiente,
é algo que não fica restrito aquela pessoa, mas ela deve aproveitar e estender isso a sua família,
amigos, se tiver filhos, repassar isso...” (OLIVEIRA, SUSIANNY, 2022)
João “Ela é muito frágil, existem muitas falácias, mas o trabalho efetivo é zero, há uma série de
propaganda, mas você vê um abandono geral no nosso centro histórico.” (SANTOS, JOÃO, 2022)
Beatriz “Ter cuidado com as coisas.” (SCHMACHER, BEATRIZ, 2022)
Elianete “Tudo, né? O patrimônio histórico.” (GONÇALVES, ELIANETE, 2022)
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Felipe “Preservar, mano, assim... é... não marginalizar o bagulho. Pessoal pixa tudo...” (BORGES,
FELIPE, 2022)
Juliana “Então, na verdade, eu acho que falta um pouco de incentivo a isso. É, tanto do governo como da
população. Você vê: eu moro aqui há anos e falei pra minha mãe: eu nunca entrei no pátio do
colégio. Mas assim, conheço outros lugares bastante aqui. Então acho que falta o incentivo.”
(TEIXEIRA, JULIANA, 2022)
Cláudio “(Algo que) Seria muito bom para o futuro das gerações, seria muito legal.” (ALVARES,
CLÁUDIO, 2022)
Fonte: dado colhidos durante as entrevistas

Na tabela acima, pude observar que ao questionar os entrevistados sobre o que é, em


suas respectivas definições, a preservação patrimonial, boa parte dos entrevistados não
souberam responder ou respondiam o que pensam sobre a preservação patrimonial no centro
histórico de São Paulo, por ser o cenário em que se deu o relato, mas não houve uma tentativa
de definição clara. Com base nas respostas, olhares e a forma como foi respondida, penso nas
dificuldades em se compreender o patrimônio, neste caso, material. Assim, a sociedade se
utiliza do patrimônio para criar formas de representação do passado em que justificam valores
que fundamentam relações sociais do presente, sendo o patrimônio um lugar de memória que
permite criar imagens que sustentam identidades individuais e coletivas, e por esta razão, um
lugar de disputas simbólicas no qual se refletem as possibilidades de cada segmento social
apropriar-se do passado e manter ou conquistar o acesso pleno aos direitos sociais, o que o torna
também um lugar de esquecimento e de exclusão. Levando em conta os relatos coletados,
percebo que há um distanciamento entre os entrevistados e a apropriação da memória que
compõe identidades individuais e coletivas. Sem esta apropriação, surgem respostas distantes,
mas que ainda sim, revelam traços importantes como a ideia de memória e história – ainda que
vagas – como algo a preservar e o repúdio à degradação foi percebida nas falas dos
entrevistados. Além disso, há também uma interessante noção, compartilhada entre quase todas
as respostas, ações do poder público e da população como um todo, para engajar a preservação
do patrimônio, bem como a sua valorização.
Seguindo a temática que o trabalho busca contemplar, discutirei adiante o patrimônio
em si, a pergunta em questão foi elaborada visando extrair dos entrevistados, o que pensam
sobre aquilo que veem à sua volta. Então, realizei a seguinte pergunta: “O que você acha que
há de importante para se preservar nos monumentos antigos?”
Essa pergunta foi respondida por alguns entrevistados de forma parcial. Os
entrevistados escolhiam o caminho que os deixassem mais confortáveis e por isso, cada qual
focou em um aspecto, apresentando as respostas abaixo.
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Tabela 3 – Depoimento dos entrevistados sobre a pergunta: “O que você acha que há
de importante para se preservar nos monumentos antigos?”

Jaciara “É, ali mesmo acho um relógio muito interessante. Um relógio bem grande. Você vê assim: meu
deus! Como é que pode? Tudo antigo. Acho bacana, acho bonito.” (SILVA, JACIARA, 2022)
Susianny “[...] chama muita atenção a arquitetura, a construção... são prédios antigos que contam um pouco
a história de São Paulo.” (OLIVEIRA, SUSIANNY, 2022)
João “Seria alguma coisa, algum trabalho de fato, alguma coisa concreta, sair da fala e botar a mão na
massa, realmente cuidar.” (SANTOS, JOÃO, 2022)
Beatriz “Pra ficar uma coisa de museu, guardar as memórias.” (SCHMACHER, BEATRIZ, 2022)
Elianete “Os prédios antigos, as praças, o teatro. Tudo, né?” (GONÇALVES, ELIANETE, 2022)
Felipe “Até me identifico. A minha família vem de cultura negra, por parte do meu pai...” (BORGES,
FELIPE, 2022)
Juliana “Eu acho que esse centro inteiro tinha que ser muito preservado. Então, eu acho que falta isso: falta
uma restauração do centro antigo de São Paulo... Fora do Brasil, eles exploram muito isso: o centro
antigo, as construções. Tudo vira museu lá fora e aqui não, aqui vira prédio abandonado”
(TEIXEIRA, JULIANA, 2022)
Cláudio “As fachadas, cara. Não pode perder. Se destruir as fachadas, acaba, né? Porque você vê que tem
um charme. Você vê hoje em dia a arquitetura nos bairros novos aí, os caras constroem caixote,
parece caixote, não tem aquele charme da arquitetura.” (ALVARES, CLÁUDIO, 2022)
Fonte: dado colhidos durante as entrevistas

Nestes depoimentos ocorreram perguntas e mais uma vez silêncios que considero
importantes destacar. Pois bem, inúmeras perguntas tinham uma reação silenciosa. Muitas
vezes pude perceber os entrevistados confusos com a reflexão provocada. Então, uma resposta
passa a ser elaborada a partir do conhecimento prévio que cada um possui. Há, evidentemente,
lacunas de compreensão sobre o que de fato é a Preservação, a História, enquanto ciência e a
Cidadania. Num primeiro momento, me pareceu que a materialização da história não se
efetivou, gerando desconhecimento acerca do monumento presente no centro histórico. O
patrimônio, como já apresentado por Rodrigues (2000, p. 145) como sendo um lugar de
memória, deve desencadear a mesma entre as pessoas que por ali estavam. Mas, ao realizar esta
pequena série de entrevistas, notei a ausência de memória, que se traduziu em silêncios e na
busca por alguma resposta vaga. Porém, não se pode deixar de considerar que a consolidação
do patrimônio material, forjada para sustentar determinadas narrativas e identidades, exclui
outras tantas e por isso, concede a cada camada social, uma possibilidade de apropriação.
Muitas das vezes, esta capacidade de apreender sobre o patrimônio, é tão restrita que não
permite estabelecer um elo de ligação entre cidadãos e cidade. Tem-se, então, a desconexão, o
esquecimento da história evocada por determinado patrimônio, a não identificação e, por
consequência, a falta de acesso aos direitos.
Primeiramente, mais de um relato aponta a arquitetura, assim como relata Rodrigues
(2000, p. 146): O patrimônio tem como foco, desde o início da atuação do Condephaat, a própria
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história e a arquitetura. Não por acaso, são dois elementos citados com certa frequência pelos
transeuntes entrevistados. Partindo da arquitetura, destaco o relato de Susianny, turista vinda
de Porto Velho, Rondônia, diz que a estética chama a atenção, e além disso, se tem a história
da cidade sendo contada. No entanto, algo que chama atenção é que quando mencionada a
história e arquitetura, se tem a compreensão de que o patrimônio evoca ambas, mas não ocorreu
nenhum relato que aprofunde estas duas categorias. É perceptível a diferença de edifícios que
compõem o patrimônio material do centro velho de outros prédios no entorno, mas a história,
ou o conhecimento que contextualiza os monumentos, como o Teatro Municipal, por exemplo,
não aparece em nenhum diálogo que registrei. O que observo, em alguns casos, é que a história
que é falada, é também uma história abstrata, sem aprofundamento. Outro caso que chama
atenção é o de Cláudio, vindo do interior do estado de São Paulo, vive há mais de 30 anos na
capital, é vigilante no Vale do Anhangabaú contratado pela concessionária Viva o Vale, que
adquiriu a concessão do local por 10 anos. Ele trabalha e mora no centro e fala com apego da
região, algo perceptível quando pergunto se ele prefere os prédios antigos ao invés dos
modernos e espelhados que começam a surgir, ainda que aos poucos, pela região central da
cidade. Sem hesitar, Cláudio opta pelos prédios históricos e reforça isso ao longo da conversa
que se seguiu após a gravação da entrevista. Neste relato, ele demonstra a valorização do estilo
arquitetônico do passado, de uma maneira generalista, em detrimento de construções atuais que
se vê na cidade, denominadas, por ele de ‘caixote’.
Assim, é importante ressaltar que há um processo de exclusão de camadas sociais
daquilo que foi imposto como oficial, tornando estas camadas alheias ao conhecimento e
reconhecimento dos símbolos e valores oficiais apresentados, mas que, simultaneamente, tem-
se a formação de outras interpretações destas camadas que se aproximam mais ou menos da
imposição oficial. Como coloca Arantes, (2000, p. 106) os lugares e monumentos passam a ser
estruturas físicas de significações e lembranças compartilhadas que passam a “fazer parte da
experiência ao se transformarem em balizas reconhecidas de identidades, fronteiras de diferença
cultural e marcos de pertencimento”. Ainda na linha teórica deste autor, a formação destes
lugares sociais, ou como penso, a reconfiguração de espaços já definidos, não ocorre de forma
harmoniosa, mas sim, se superpõem, entrelaçando-se de forma complexa, dando origem às
zonas de transição. Arantes chama este processo de territorialidades flexíveis. Creio que esta
definição é importante para nos ajudar a compreender a relação de uma gama de grupos sociais
e visualizar, como as diferentes concepções e significações do centro histórico, principalmente
o patrimônio material, a partir de sua própria ótica, levando em consideração o processo de
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apropriação do passado de cada grupo como mencionado acima. Ou seja, sujeitos que não se
enquadram ao oficial, além de sofrerem uma exclusão das formas de representação do passado
impostas, adquirem, a partir de suas próprias vivências, uma forma própria de compreensão que
varia de acordo com cada segmento social. Para melhor ilustrar essa situação, volto a mencionar
o aumento gritante de pessoas em situação de rua a partir de 2020, já na crise instaurada pela
pandemia da Covid-19. Durante minha pesquisa de campo, me deparei com uma quantidade de
pessoas pelas marquises, em barracas ou debaixo de viadutos. De forma improvisada vivem e
dão outro sentido ao espaço. Isso é o que Arantes apresenta como territorialidades flexíveis,
lugares em que se cruzam as fronteiras entre o privado e o público, entre a necessidade e a
propriedade privada, dando origem às cenas como as que pude observar na nova versão
público/privada do Vale do Anhangabaú, gerenciado pela iniciativa privada.
Outro aspecto que ocorreu com certa frequência, foram as respostas que giravam em
torno do assunto proposto, mas que não respondiam objetivamente à pergunta. João, não
responde explicitamente sobre o que ele acha importante preservar, mas aponta soluções de
preservação práticas, sem detalhar as mesmas. Observando essas respostas, cada qual à sua
maneira respondeu, como já dito, algo que demonstra lacunas, mas que não deixa de ter
riquezas. Jaciara, primeira entrevistada, se encanta com a beleza do relógio exposto no prédio.
Seu olhar se atenta ao estético, vislumbra algo que eu sequer havia notado. Já Susianny, chama
a atenção para o fato de os monumentos contarem a história da cidade, percepção valiosa pois
de fato o olhar que busquei, de modo geral, foi o entendimento do que se pode apreender nas
fachadas de prédios e lugares históricos do centro velho. João é enfático em apresentar uma
solução ao problema da degradação: argumenta que o poder público precisa tomar providências.
Elianete nomeia as riquezas do centro histórico com consciência, enquanto Beatriz de forma
mais abstrata entende que é necessário ‘guardar as memórias'. Juliana também defende as ideias
de restaurar e divulgar os locais a fim de explorar sua beleza e história.
Além disso, Felipe acrescenta um relato singular. O rapaz demonstra uma resposta que
fica mais completa na análise geral de sua entrevista. Ele relatou que, entre os monumentos
históricos, o que chama mais a sua atenção – dentro da questão sobre o que lhe chama atenção
- é o obelisco no Largo da Memória. Com o intuito de compreender sua escolha, pergunto a ele
se já havia pesquisado sobre o local em específico. O mesmo responde “Ali tem uma história
até meio obscura...Os portugueses prendiam os escravos lá para vender eles...” (BORGES,
FELIPE, 2022) Pergunto se, de alguma forma, ele se identifica com a história – dos monumentos
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de maneira geral. Felipe foca no Largo da Memória e responde: que se identifica por vir de uma
cultura negra por parte de pai. O entrevistado, demonstrou algum reconhecimento entre sua
história própria e o monumento histórico. Apresentou uma noção histórica daquele ponto da
cidade, levantou temas importantes para a compreensão da história da cidade, bem como do
Brasil.
Ao me deparar com estes relatos, reflito sobre os lugares que o centro histórico pode
ser para cada indivíduo. Não há um consenso, pois, as vivências ressignificam, cada qual à sua
maneira, o espaço e os monumentos. Mas para isso, é necessário paciência, já que é difícil
perceber algo que naturalmente chame atenção para a importância e, principalmente, para a
valorização do patrimônio histórico. Além de uma camada superficial de elementos já citados
aqui, como violência, marginalização de pessoas, degradação do espaço público, mudança do
eixo de grandes escritórios etc., que quase impede uma visualização dos diversos marcos,
símbolos e a interpretação dos mesmos no centro histórico e de seu patrimônio
material, fazendo com que seja muito difícil ler a real importância dos marcos, há, também,
uma rotina dos transeuntes, criando um ir e vir que transforma esses marcos e lugares em um
caminhar entre pontos, um trajeto que coloca pontos históricos como distâncias que percorrem
cotidianamente diversas pessoas. Arantes (2000, p. 121) escreve que este deslocamento torna
invisíveis os marcos, fronteiras simbólicas, tornando sua leitura uma construção de um espaço
sem lugares. Com base nesta reflexão, percebo e analiso as respostas dos transeuntes acerca do
patrimônio como um exercício que possivelmente tenha ocorrido poucas vezes sobre observar
as distâncias percorridas pelo centro histórico e o que está expresso no patrimônio. Assim, as
observações durante a entrevista são, em minha percepção aquilo que conseguiu furar a bolha
da construção, do que Arantes chamou de um espaço sem lugares, ou o que se sobressai em
meio à vida cotidiana e os elementos que ofuscam o centro histórico e seu patrimônio, enquanto
causadores de conhecimento histórico e da contribuição para o exercício da cidadania.
O conceito de cidadania, foi tema de pergunta nas entrevistas e, abaixo, está exposto
os relatos sobre cidadania. Esta foi a pergunta em que ocorreu menor número de respostas
objetivas. Diante do desafio de obter uma resposta, realizei a pergunta: O que é cidadania para
você? Seguida da indagação: O que vem à sua cabeça quando você pensa em cidadania? Esse
movimento gerou respostas curtas: a primeira palavra que vinha à cabeça da pessoa
entrevistada. E a principal, foi a palavra respeito, que quando não dita, era subentendida nas
falas de 5 dos 8 entrevistados. Segue a tabela de respostas completa acerca da pergunta: O que
é cidadania para você?
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Tabela 4 – Depoimento dos entrevistados sobre a pergunta: O que é cidadania para


você?
Jaciara “Seria da cidade? Não sei te responder sobre isso aí.” (SILVA, JACIARA, 2022)

Susianny “Um compromisso de a gente buscar desenvolver nossos direitos e deveres enquanto pessoa,
pensando sempre no próximo.” (OLIVEIRA, SUSIANNY, 2022)
João “Cidadania é dignidade, é respeito, amor e valorização.” (SANTOS, JOÃO, 2022)

Beatriz “Ah, respeito eu acho.” (SCHMACHER, BEATRIZ, 2022)

Elianete “É a pessoa, o ser humano, cidadão.” (GONÇALVES, ELIANETE, 2022)

Felipe “Cidadania.... não sei te dizer... respeito...” (BORGES, FELIPE, 2022)

Juliana “Então, tá tão difícil falar sobre cidadania hoje em dia, né? Tá cada dia pior, eu acho que falta o
principal da cidadania que é a educação.” (TEIXEIRA, JULIANA, 2022)
Cláudio “Pô, cidadania, cara... eu acho que o pessoal se respeitar mais... acho que primeiramente respeito,
cara. E direitos e deveres... eu acho que é isso aí.” (ALVARES, CLÁUDIO, 2022)
Fonte: dados colhidos durante as entrevistas

Observando os relatos dos transeuntes, entre todos os questionamentos feitos, percebe-


se a questão da cidadania como a mais desafiadora. Mas, interpreto as respostas que foram de
alguma maneira, evasivas, incompletas ou não respondidas, revelam, também, traços que
marcam a percepção destas pessoas entrevistadas e o grau de interação que elas têm na
sociedade como um todo. Dentre os participantes, a maioria esmagadora atua no setor terciário,
sem vínculos com funções públicas e/ou governamentais. A vivência no centro se dá em volta
da atividade profissional que executam. Tais características se entrelaçam com as percepções,
principalmente, em relação à cidadania. Este é um conceito amplo e complexo, mas aqui, me
detenho às considerações referente à pertencimento, de Arantes (2000, p. 132)

O tema cidadania envolve pelo menos dois aspectos que convém destacar logo. Em
primeiro lugar, ele se refere ao sentimento de pertencer, compartilhar interesses,
memória e experiências com outrem, sentir-se parte de uma ampla coletividade,
possuir valores em comum e sentimento profundo de identificação. Este não é um
terreno de puro interesse e informações frias. É nele que se forma a ideia de
comunidade e germinam sentimentos como a lembrança da terra distante e da
solidariedade. Trata-se de um campo povoado por valores profundos, carregados de
conteúdos emocionais e força simbólica.

Juliana Prata (2009, p. 82) ao discutir sobre a participação da sociedade civil nos
processos de tombamento realizados pelo Condephaat, a partir da década de 1980, descreve que
a pauta patrimonial é conduzida pelos eixos da cidade, preservação ambiental e a cidadania. No
que tange à cidadania, a autora aponta as atuações de mobilizações sociais, nos posicionamentos
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de diversos agentes e na luta pela participação política nas decisões políticas tomadas pelo
órgão. Apesar de ser significativo, o movimento que ocorre em alguns processos de
tombamento de bairros nobres paulistanos destacados pela autora, há de considerar a
especificidade em que ocorreu esta participação civil e o quão distante a mesma está de um
ideal de participação e envolvimento da população nas decisões preservacionistas. A linha pela
qual segue a autora, coloca a importância de se articular a questão urbana como meio e ambiente
e ao direito à memória. A partir disto, é necessário enxergar a complexidade da atuação do
Condephaat para contemplar uma série de fatores. Entre eles, este trabalho busca o direito à
memória, visto a experiência de coleta de entrevistas com transeuntes do centro histórico.
Então, como salientado por Fenelon (1992 Apud Prata, 2009, p. 106)

Quando propomos o debate e reflexão sobre as políticas de patrimônio histórico,


queremos tratá-lo não apenas no âmbito restrito das técnicas de intervenção ou dos
critérios de identificação e preservação e seus conceitos operacionais. Para além desses
aspectos, é preciso politizar o tema, reconhecendo as condições históricas em que se
forjaram muitas das suas premissas - e articulando-as com as lutas pela qualidade de
vida, pela preservação do meio ambiente, pelos direitos à pluralidade e sobretudo pelo
direito à cidadania cultural. Com isso esperamos retomar um sentido de patrimônio
histórico que nos permita entendê-lo como prática social e cultural de diversos e
múltiplos agentes.

A percepção que o debate sobre patrimônio sofreu ao longo do tempo e, mais


precisamente, ao longo da atuação do Condephaat, demonstra que é notório como a importância
da cidadania e do direito à memória se estabeleceu. Isso foi fundamental para as indagações
feitas aos transeuntes durante esta pesquisa. Assim, com leitura prévia, busquei o que seria
possível extrair de algumas pessoas pelo centro histórico.
Ao examinar as entrevistas realizadas, me parece haver um frágil elo de ligação entre
a concepção de cidadania presente na teoria utilizada de Arantes (2000, p. 132) e as respostas.
A começar pela resposta de Jaciara, percebe-se que há lacunas em sua compreensão, mas a
mesma identifica a cidade como sendo parte da cidadania. Tento corroborar com a sua resposta
ao pedir para que a entrevistada pense em tudo aquilo que havíamos discutido até o presente
momento. Em outro caso, de Susianny, vê-se uma compreensão de buscar os direitos e deveres
de um cidadão. Ainda que em sua resposta, não tenha um aprofundamento do que seria, dentro
da compreensão de Susianny, os direitos e deveres, é salientado, por ela, o respeito. Posto isso,
para que haja essa visão de respeito, julgo que há uma ideia de que existe um coletivo em que
Susianny, está inserida. Como descreve Arantes (2000, p. 133) “pertencimento significa, em
termos amplos, fazer parte do que a coletividade reconhece como um nós…”
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O entrevistado João, apresenta mais brevemente sua concepção de cidadania com as


palavras dignidade, respeito e amor. Durante a fala, é perceptível a noção de pertencer, pois
João complementa após o encerramento da gravação de sua entrevista, com palavras que giram
em torno do coletivo, como nós, referindo-se às pessoas que estão no centro e que elas devem
ter, principalmente, o respeito. Prata (2009, p. 96) explica em seu trabalho, que questões
relacionadas à cidadania, demonstram ações de mobilização social, especialmente, nos casos
de tombamentos que a autora estudou e explicitou mais detalhadamente, com a participação de
moradores formando associações em seus bairros. A autora afirma que estes casos mostram
“grupos lutando pelos seus direitos, qualidade de vida, pela permanência de determinados
valores referentes, sobretudo, ao sentimento de pertença”.
Os três entrevistados seguintes: Beatriz, Elianete e Felipe mencionam direta ou
indiretamente o respeito como parte do entendimento sobre Cidadania. Estas falas, foram
acompanhadas de maior silêncio e uma certa resistência para responder, como se as pessoas
estivessem arriscando uma resposta com receio do que iriam dizer. Refiz a pergunta de formas
diferentes nestes três casos, tendo por fim, perguntado de forma mais livre, o que vinha à cabeça
quando pensavam sobre cidadania. Em respostas curtas e similares percebe-se, como colocou
Arantes (2000, p. 134) o pertencimento a um todo, significa possuir valores em comum, entre
outros fatores, 61,5% dos entrevistados têm respeito como uma base de sua compreensão sobre
cidadania. A ideia de valorização da sociedade também está presente em mais de 50% das
respostas. Vale ressaltar o caráter qualitativo dessa amostragem, visto que há um número
escasso de entrevistados. Juliana, quando questionada, fala sobre educação de uma forma um
pouco vaga. A princípio evasiva, bem como Cláudio e Felipe, buscou na educação dar
significado ao seu entendimento sobre cidadania.
As pessoas entrevistadas representam a pluralidade de São Paulo, mesmo tendo sido
um número tão pequeno de relatos, pois as origens e trajetórias demonstram a variedade, são
figuras como as que pude conversar que ajudam a compor e a dar cor e cara à cidade. Ainda
que o sentimento de pertencimento possa ser complexo e, por mais que, como citado os ideais
de respeito e educação serem fundamentais nas respostas sobre cidadania, pode ser pouco para
afirmar que há uma unidade capaz de dar sentido ao pertencimento. Pois é difícil definir uma
vez que, como descreve Arantes (2000, p. 133) há diversas camadas da vida que se estruturam
a partir de princípios de inclusão-exclusão no universo de direitos e na definição de
responsabilidades sociais. Ou seja, cada ser está inserido em uma posição que lhe garante mais
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o menos acesso à sociedade, algo que se traduz em direitos e deveres perante aquele meio social
em que o mesmo vive. Alguém, como Felipe, jovem pertencente ao movimento punk, por
exemplo, que vive de forma autônoma e informal, fazendo malabares para sobreviver, criando
arte de contestação, pode-se notar que ele está inserido em alguma esfera no meio em que vive,
porém de forma marginalizada por tudo aquilo que representa.
Os níveis de inserção vão variando muito, conforme pude observar em minhas
andanças pelo centro histórico. O caso do homem em situação de rua, convidado a se retirar do
banco do Vale do Anhangabaú é um que, didaticamente, me mostrou o quão afastado aquele
sujeito está de seus direitos e o quão longe tudo aquilo que faz o centro histórico ser de fato,
histórico, é invalidado em uma vivência que se traduz em sobrevivência, transformando
qualquer prédio rico em história, patrimônio tombado e arquitetonicamente singular, em um
mero abrigo, oferecendo nada mais que as marquises para um desabrigado.
À medida que observei essas relações, pude notar que o centro histórico é de difícil
acesso, além de vários pontos levantados previamente nas pesquisas e nos próprios relatos já
descritos, pois há uma frieza nas relações que gera distanciamento entre as pessoas. Há diversos
elementos na sociedade como raça, gênero, classe social e etnia que conflitam numa disputa
voraz. A heterogeneidade é conflituosa e nessas múltiplas identidades, percebe-se que no
processo social, como relata Arantes (2000, p. 138) o resultado se dá a partir do conjunto, não
do individual. É o conjunto que reivindica, com maior ou menor capacidade de articulação,
somando instância de identidade, evidenciando algumas, disfarçando outras, ocorre um fluxo
de indivíduos, negociando interesses. Este movimento reorganiza as fronteiras simbólicas que
são capazes de unir e separar, tais como o patrimônio histórico material.
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3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

No início da jornada deste trabalho, partindo de uma série de leitura a respeito de


memória, busquei identificar as formas como o patrimônio do centro histórico contribui para
geração de consciência histórica e o sentimento de pertencimento. Este espaço amplo, complexo
e tão rico do ponto de vista histórico apresenta, também, uma grande e complexa rede de
relações e formas de ocupar os lugares do centro que embaralham a concepção, não podendo
ser possível ter um único entendimento da direção que percorre a cidadania e a consciência
histórica. para os transeuntes do centro histórico da cidade de São Paulo.
Refletir aos debates iniciais acerca da preservação patrimonial no estado de São Paulo,
que foram analisados, após minha curta vivência no centro, conversando e observando alguns
sujeitos ali presentes, percebo a narrativa forjada do centro como uma – entre outros fatores -
causadora do distanciamento da população e como fonte de lacunas na assimilação da memória
coletiva no local investigado.
Hobsbawm e Ranger (2008) consideraram o termo “tradição inventada” como sendo
um conjunto de práticas ordenado por regras implícitas, geralmente aceitas que se traduzem em
rituais e símbolos gerando um conjunto de valores e normas a fim de estabelecer relação
autêntica com o passado. Tal relação pôde ser vista à medida que desenvolvi o trabalho. E fica
evidente, como apontou Rodrigues, a memória coletiva em torno do centro exclui sujeitos
pertencentes à história paulistana. Assim, a pesquisa de campo corrobora a bibliografia
utilizada: o centro é alienante pois a cidade real sofreu um apagamento em decorrência da
história oficial de cunho elitista. Prata (2009, p. 46) descreve o processo da construção da
identidade brasileira como um momento em que o Estado tem a intenção de definir a própria
nação e usa o Patrimônio como uma importante ferramenta para a demarcação da nação nos
âmbitos: econômico, político, social, racial, cívico e cultural. Assim sendo, a trajetória é
marcada por tais.
No entanto, percebe-se, entre falas e gestos dos sujeitos entrevistados, alguns lampejos
da consciência histórica, do sentimento de pertencer e entendimento da história, ao menos, em
partes.
Como apresentou Arantes (2000, p. 136) a questão do pertencimento, é que os diversos
indivíduos da sociedade estão, num só tempo, inseridos em diferentes pertencimentos, tais
como de gênero, regionais, de raça, profissionais, religiosos, partidários e classe entre outros.
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Com diferentes pesos, essas categorias formam conjuntos complexos e daí, analiso, a
dificuldade em se ter uma vivência inclusiva da cidade, do uso de seu patrimônio histórico, do
saber que ele dispõe e das iniciativas que possam fomentar isso. Além do mais, os muitos grupos
que embora estejam inseridos em vários desses eixos não são assim reconhecidos. Pelo
contrário, são excluídos da sociedade e essa exclusão gera um efeito reverso dos excluídos, que
por sua vez repelem os demais, como o caso do homem em situação de rua deitado no banco
do Vale do Anhangabaú ser retirado pelo fato de sua presença afastar a utilização daquele
espaço por indivíduos aceitos.
De certa forma, a história oficial, elitista e branca fortemente expressa nos órgãos
patrimonialistas brasileiros, entre eles, o Condephaat, ainda carrega uma forte marca excludente
assimilada e reproduzida diariamente. Concluindo, após esta pesquisa, percebo essa questão
como algo a ser trabalhado a partir da consciência histórica, no sentido de evocar m
conhecimento a partir do monumento, que demonstre os motivos de sua existência na cidade
princípios de cidadania que a preservação patrimonial deve desempenhar.
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REFERÊNCIAS

ALBERTI, Verena. Manual de história oral. Rio de Janeiro. Editora FGV, 2005.

ALVARES, CLÁUDIO [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan.
2022.

ARANTES, Antonio A. Paisagens paulistanas: transformações do espaço público.


Campinas: Editora da Unicamp, 2000.

BARRETTO, Margarita. Processos de revitalização urbana e a percepção dos usuários. Arxiu


D'Etnografia de Catalunya, Florianópolis, v. 13, n. 1, p. 231-252, jan. 2013. Disponível em:
[Link] Acesso em: 15 fev. 2022.

BORGES, FELIPE [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan. 2022.

GONÇALVES, ELIANETE [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan.
2022.

HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence. A invenção das tradições. 6. ed. São Paulo: Paz e
Terra, 2008.

LAVILLE, Christian. A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em


ciências humanas. Porto Alegre: Artmed; Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

OLIVEIRA, SUSIANNY [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan.
2022.

PRATA, J. M. Patrimônio Cultural e Cidade: práticas de preservação em São Paulo. 2009.


f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo,
2009.

RODRIGUES, Marly. Imagens do Passado. São Paulo: Editora Unesp, 2000.

SANTOS, JOÃO, [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan. 2022.

SCHMACHER, BEATRIZ, [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan.
2022.

SILVA, JACIARA [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan. 2022.

TEIXEIRA, JULIANA [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan. 2022.
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APÊNDICE A – ENTREVISTA SEMIESTRUTURADA

Bloco 1 – Perguntas introdutórias

▪ O que você faz no seu trabalho?


▪ Há quanto tempo trabalha no centro?
▪ Além do seu trabalho/moradia, você frequenta o centro a lazer?
▪ Você gosta de vir/estar no Centro? (se sim, por quê? / se não, por quê?)
▪ Quais as lembranças que o centro histórico desperta em você?

Bloco 2 – Perguntas temáticas (de acordo com o objetivo do trabalho)


▪ Para você, o que é Preservação Patrimonial?
▪ O que você acha que há de importante para se preservar nos monumentos antigos?
▪ Você repara nos monumentos antigos da cidade? Se sim, eles despertam alguma coisa
em você?
▪ O que você conhece sobre a história dos monumentos ou a história do centro histórico
da cidade?
▪ O que você acha que estes lugares que estamos olhando, tem a ver com a sua história
de vida?
▪ O que é cidadania para você?

Bloco 3 – Conclusão
▪ Você acha que a sua condição financeira/social interfere no jeito que você
enxerga/frequenta o centro? De que forma?
▪ Se o centro deixasse de existir, você se importaria?
▪ Se você tivesse poder para interferir no governo da cidade, o que faria pelo centro?
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ANEXO A – MAPA DO TRIÂNGULO HISTÓRICO DE SÃO PAULO

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