Preservação e Cidadania em SP
Preservação e Cidadania em SP
Florianópolis - SC
2022
Mateus Moura Ferreira
Florianópolis - SC
2022
Ficha de identificação da obra
Inclui referências.
1. História. 2. Preservação Patrimonial. I. Silva, Janine
Gomes da. II. Universidade Federal de Santa Catarina.
Graduação em História. III. Título.
Este trabalho é dedicado aos meus familiares e aos meus
professores.
AGRADECIMENTOS
Este trabalho busca refletir sobre o patrimônio material do centro histórico da cidade de São
Paulo. Fundamentado no uso da metodologia da História Oral, através de entrevistas a fim de
analisar a percepção de um pequeno grupo de transeuntes no centro histórico da cidade sobre o
patrimônio e analisando, a partir de suas falas, como o mesmo é visto. Considerando complexo
o processo de preservação patrimonial durante sua trajetória passando por mudanças de
concepções, é focado no conceito de cidadania, entendendo o patrimônio, também, como direito
social à memória, sendo fundamental para o desenvolvimento da noção de cidadania. Procura-
se evidenciar os possíveis contrastes e as relações entre a percepção destes transeuntes e daquilo
que foi objetivado por órgãos institucionais voltados à preservação patrimonial no Brasil e no
estado de São Paulo, o que envolve, também, a capital paulista.
This Work seeks to reflect on the material heritage of the historic center of the city of São Paulo.
Based on the use of methodology of Oral History, through interviews in order to analyze the
perception of a small group of passersby in the historic center of the city about the heritage and
analyzing, from their speeches, how it is seen. Considering the process of heritage preservation
as complex during its trajectory, going through changes in conceptions, it is focused on the
concept of citizenship, understanding heritage, too, as a social right to memory, being
fundamental for the development of the notion of citizenship. It seeks to highlight the possible
contrasts and relationships between the perception of these passersby and what was objectified
by institutional bodies focused on heritage preservation in Brazil and in the state of São Paulo,
which also involves the capital of São Paulo.
Keywords: Citizenship. Heritage Preservation. Memory. Historic center of the city of São
Paulo
LISTA DE TABELAS
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................... 15
2 CAPÍTULO I – A AÇÃO PRESERVACIONISTA E O CENTRO
HISTÓRICO DE SÃO PAULO ............................................................................................ 21
3 CAPÍTULO II - O CENTRO HISTÓRICO DE SÃO PAULO: PERCEPÇÃO
DOS TRANSEUNTES ........................................................................................................... 30
1 INTRODUÇÃO
tons autoritários, é necessário para realizar uma leitura consciente da relação que a cidade tem
com o Patrimônio Histórico e a cidadania. Além disso, observar parte dos caminhos percorridos
pelo Condephaat, a passos lentos e muitas das vezes, conservadores, é igualmente importante
para se discutir a utilidade do patrimônio paulistano, do seu uso atual, a quem ele agrega saber,
cultura e quais símbolos suas ruas evocam.
Estas disputas simbólicas, como aponta Rodrigues (2000) refletem a possibilidade de
cada segmento social se apropriar do passado e manter ou conquistar seus direitos sociais.
Portanto, a importância deste trabalho, é que a partir de um momento marcante da história
patrimonial de São Paulo, é possível pensar como o presente tem dialogado com este passado
e o que se pode extrair do patrimônio localizado no centro histórico.
Para além da relação institucional e cidade, como já dito, buscando incluir a relação
entre o patrimônio e as pessoas, entendi que seria importante acrescentar relatos de experiências
vividas em torno do patrimônio do centro histórico. E, então, ao ir em busca de parte dos
frequentadores da região, a fim de expor visões que incorporem o debate, na tentativa de
apresentar, também, o olhar de camadas diversas da sociedade paulistana, pude conversar com
transeuntes e entrevistá-los com o intuito de obter suas percepções do patrimônio que estava
diante dos mesmos.
Tendo em vista a concepção de que a cidade é fruto da sociedade, pretende-se
compreender como o patrimônio disponível no centro de São Paulo é visto por camadas sociais
que não pertencem à história que tais patrimônios contam.
Para isso, foi estruturada, uma entrevista adequada ao contexto: transeuntes no centro
histórico de São Paulo partindo do pressuposto que o tempo disponível das pessoas abordadas,
não seria muito, gerando materiais curtos para a análise. Desta maneira, a forma como busquei
realizar a análise, levou a pesquisa ao uso da metodologia da história oral.
Para tal metodologia, foram realizadas, considerando as reflexões de Verena Alberti
(2005), uma pequena série de entrevistas, não para preencher lacunas que a documentação
deixará para responder as questões desta pesquisa, mas perceber que a importância da história
oral contempla, não os fatos em si, mas a percepção acerca deles, levando em conta, como
coloca Alberti, as configurações socioculturais do indivíduo. Portanto, para a construção da
discussão desta pesquisa, foi indispensável o uso da História Oral. Com isso, objetivei, a partir
da estruturação do método e definição da categoria analítica das perguntas feitas com base,
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1
COVID-19. Em dezembro de 2019, iniciou-se uma série de casos de pessoas infectadas pelo novo Coronavírus,
na cidade de Wuhan, localizada na China. Tratava-se de uma nova variante do Coronavírus em humanos. Os casos
de infectados cresceram exponencialmente se espalhando pelo mundo em poco tempo. Sem uma vacina que
pudesse combater o vírus de forma eficaz, a Organização Mundial da Saúde em acordo com governos diversos
países, tomaram como principal medida, para evitar o contágio desenfreado, o isolamento social. Em 2021
começaram a surgir vacinas que gradativamente, foram sendo distribuídas à população brasileira. Sendo assim, ao
início de 2022, a população adulta do Brasil já havia sido imunizada.
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[...] a consequente invenção das tradições “políticas” foi mais consciente e deliberada,
pois foi adotada por instituições que tinham objetivos político em mente. Podemos,
no entanto, perceber imediatamente que a invenção consciente teve êxito
principalmente segundo a proporção do sucesso alcançado pela sua transmissão numa
frequência que o público pudesse sintonizar de imediato. Os novos feriados,
cerimônias, heróis e símbolos oficiais públicos, que comandavam os exércitos cada
vez maiores de empregados do estado e o crescente público cativo composto por
colegiais, talvez não mobilizassem os cidadãos voluntários se não tivessem uma
genuína repercussão popular.
uma história de caráter plural, rural e colonial. Assim, a construção da nacionalidade parte em
busca de um nacionalismo que rompia com o passado brasileiro e que almejava uma imagem
do Brasil republicano: moderno e coeso enquanto nação.
É importante destacar o pensamento liberal que pairava na elite que pensava na
organização nacional e sua inspiração na educação, sendo por muitos, creditada como
ferramenta do projeto republicano para o país. Como coloca Bittencourt (1990 apud
RODRIGUES, 2000, p.18)
Atribuía-se à escola o poder de regenerar o homem, de torná-lo cidadão apto ao
exercício da política. Neste sentido, o ensino da História, já bastante valorizado,
passou a ser exaltado por seu potencial disciplinador e formador. Não apenas nas salas
de aula, mas nas festas cívicas e comemorativas de datas e heróis nacionais, a história
fornecia continuadamente os instrumentos simbólicos necessários à moldagem do
trabalhador-cidadão brasileiro.
É neste período que surge o Condephaat. Segundo Rodrigues (2000, p. 41) a criação
do órgão ocorre em decorrência de partes conservadoras e tradicionalistas da burguesia paulista
que buscavam reafirmar a identidade bandeirante, dentro de um contexto autoritário trazido
pela ditadura, a partir de 1964 que, na esfera federal, pouco se engajou na questão
preservacionista. A preservação, neste cenário, era entendida como a resposta à – possível -
destruição dos excluídos da narrativa histórica defendida pelos conservadores – estes que eram
pertencentes a tal narrativa. Ou seja, a manutenção da narrativa bandeirante defendida por uma
elite burguesa e conservadora foi fator fundamental na ação do Condephaat.
Porém, num primeiro momento, as ações se voltaram para práticas que preservavam a
memória através da criação de arquivos e museus, pautadas por uma visão que defendia a ação
cultural no Estado de São Paulo e de uma postura cívica do Estado, visando explorar atividades
turísticas. Sendo assim, a preservação do patrimônio histórico-arquitetônico, ficou em segundo
plano e delegada a historiadores de acordo com Rodrigues. (2000, p.43)
Para Rodrigues (2000, p. 57) num momento em que o consumo e a cultura de massa
cresciam, surge o Condephaat, estabelecendo a ação preservacionista como instituidora do
passado da arquitetura brasileira, através de sua ação ortodoxa. Havia uma noção de que este
órgão tinha como missão salvar a cultura nacional da destruição.
Neste processo, haviam divergências entre os conselheiros. Se por um lado, foram
destacados elementos como: as técnicas construtivas, dos materiais e das formas que lhe davam
concretude e os tornavam testemunhos da história e da cultura brasileiras, do outro, alguns
membros preferiam valorizar edifícios com base na nobiliarquia ou pela relação com grandes
heróis do passado. No entanto, este impasse teve solução através da narrativa bandeirante, ponto
em comum entre os conselheiros que entendiam a trajetória do bandeirante e a ocupação do
litoral brasileiro como marcos fundamentais da memória regional e nacional, como coloca
Rodrigues. (2000, p. 58) Segundo a historiadora, até 1987, houve um aumento nos critérios de
valoração dos bens, porém, sem a definição de políticas de preservação. Assim, com esta
lacuna, as escolhas do Condephaat continuaram sendo pautadas pelos conselhos deliberativos,
referências teóricas e conceituais dos conselheiros participantes, pressões externas resultantes
da vontade política do poder público e de interesses do setor privado, principalmente referentes
à especulação imobiliária, intensificada a partir da década de 1970. Entretanto, durante a década
de 1980 foi seguida a lógica nobiliárquica e de grandes heróis do passado na maioria das
decisões tomadas, fortalecendo a narrativa da dita história oficial, embora tenham começado a
surgir pedidos de tombamentos vinculados à memória de determinados grupos sociais à
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memória local, assim como a manutenção das condições ambientais de determinados espaços.
O surgimento deste tipo de valoração, foi inédito, e é decorrente do aumento do entendimento
sobre patrimônio e cidadania, expandindo o primeiro a uma definição que englobava outros
objetos além de monumentos arquitetônicos.
Entra em cena a noção de patrimônio atrelado ao planejamento urbano dando origem
ao conceito de patrimônio ambiental urbano, sendo entendido como um sistema de partes, não
mais uma parte única, isolada. Passou a se considerar a área em volta, dando ênfase nas questões
de tombamento e planejamento urbano, de acordo com Prata. (2009, p. 55)
O processo de mudanças significativas pelas quais passa o conceito de patrimônio
afetou e ainda afeta a preservação do que se compreende como patrimônio cultural, passando
pelas intervenções públicas em tecidos urbanos, promovida por meio de projetos culturais, que
se utiliza de uma prática cultural-patrimonialista para realizar tais intervenções com um caráter
inclusivo, na tentativa de construir uma ideia de patrimônio de todos. Embora, segundo Monnet
(1996 apud Prata, 2009, p. 60) no geral, essas intervenções acabam por ter um caráter
excludente.
Dessa maneira, Prata indica para estudos que já apontam para outras direções no que
se refere às ações preservacionistas e coloca (2009, p. 61)
O estudo do patrimônio cultural na relação com a cidade deve significar não apenas
uma ampliação do objeto (de um edifício, para um conjunto), mas fundamentalmente
uma mudança de foco: do objeto para “sistema de relações”. Além da “pedra e cal”, a
discussão sobre patrimônio deve incluir “pessoas” que se relacionam com os bens, no
sentido de entender como os homens em sociedade vivem, com o que se identificam,
como se dão as relações sociais hoje e ontem. Esta é a perspectiva da abertura temática
dos anos de 1970 e 1980 que pode ser vislumbrada por exemplo na questão ambiental
e na problemática das áreas envoltórias. É a partir dela que procuraremos compreender
as diversas maneiras dos agentes sociais (órgãos, técnicos e comunidades), de tratar
com a preservação e a tensão a que este confronto nos leva.
Pois bem, conforme este trabalho foi ganhando forma em seu planejamento, ainda
como um projeto, refleti sobre como poderia falar sobre essa visibilidade contraditória: uma
exposição que, em minha percepção, parece ser, em muitos dos casos, decorativa, não tendo
um meio eficaz que seja capaz de estimular reflexão, ou dar sentido àquele monumento.
Durante o processo de desenvolvimento, ainda como um projeto, mantive o trabalho
em torno desta questão, tentando encontrar m caminho seguro de chegar a uma forma de olhar
para este questionamento, podendo garantir que o mesmo fosse legítimo e capaz de garantir um
bom caminho para desenvolver todo o trabalho. Assim, esperando que, ao final da jornada, os
questionamentos e dúvidas originais pudessem se desenvolver de forma a resultar em um
processo capaz de concluir em êxito a estruturação das respostas para as indagações realizadas
previamente.
Por esta razão, pensei ser necessário o compartilhamento das opiniões sobre o
patrimônio da cidade de São Paulo, mais especificamente, aquilo que se reúne no centro
histórico. Realizei então, uma série de visitas a fim de, primeiramente, observar. Houve grande
contraste com as leituras e pesquisas prévias que falam sobre a história do patrimônio brasileiro
e, sobretudo, paulistano. O estado de degradação do centro velho parece ir contra todo empenho
que é relatado em obras de pesquisadores e pesquisadoras que são referência para o debate
patrimonialista uma vez que, como brevemente salientado ao início deste capítulo, ocorreu de
forma homogênea uma lapidação do que uma elite paulista enxergava para o futuro de São
Paulo, evidenciando uma história distorcida e excludente fundada sobre o mito bandeirante. A
classe dominante como apontada criou a história que o patrimônio material da cidade conta.
Portanto, o meu primeiro impacto, ao andar pelo centro histórico, é observar que tudo parece,
como já adianto aqui, alguns transeuntes relataram, abandonado ou em mau estado. Indaguei-
me como aquilo já não parece receber atenção de grupos dominantes. O que se descobre, é que
há algum tempo, o centro da cidade como um todo, vem recebendo uma atenção do poder
público que se traduz em obras e tentativas rasas de reavivar a região. Em alternância de
governos, pouco parece mudar quando se trata de ações que visam mostrar aos cidadãos
paulistanos a importância de seu centro histórico. Aparentemente, o centro é sinônimo de
violência, de abandono, enquanto histórico, parece ser substituído por velho, gasto e obsoleto.
São Paulo parece não ter mais tempo para o antigo, o novo, as transformações e a pressa são
prioridades. Hoje, ao andar pelar ruas, conversar com as pessoas, nota-se a prioridade em novas
linhas de trem e metrô. A população quer estrutura para ir e vir com mais rapidez e conforto.
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Algo que é de extrema importância para uma cidade que continua tendo boa parte de seus
trabalhadores saindo das zonas periféricas, locomovendo-se ao centro para trabalhar, como é o
caso de alguns entrevistados que será discutido mais adiante. Observei, então uma mistura de
reclamações sobre o estado de tudo – o centro da cidade - assim como a invalidação da história,
tem-se uma forte crítica, ou autocrítica sobre a falta de respeito, o que gera a atual degradação
desta parte da cidade.
É legítimo que as pessoas pensem em seu bem estar, e queiram, antes de qualquer
coisa, uma melhoria significativa em sua vida. E, dado que a maioria dos transeuntes são
trabalhadores, a prioridade é para que haja mais facilidade em seu cotidiano. Um ir e vir mais
rápido e seguro é desejado por muitos. O que está pelo caminho, como prédios
arquitetonicamente chamativos, estátuas, ruas e praças importantes, monumentos grandiosos
ou o que quer que seja, não está evidente o que se espera, mas certamente, ao andar pela cidade,
observar e dialogar com alguns transeuntes, pode-se compreender que essas questões não estão
pairando pela cabeça dos cidadãos.
Todavia, reflito, também, sobre outras intervenções – ou a ausência das mesmas – que
poderiam ser realizadas. O setor privado é sempre muito falado em São Paulo e é sempre de
forma generalizada, uma figura presente em debates de administração pública. Nos últimos
anos, se viu aumentar esta forma de governança, cujo apoio de iniciativa privada ocorreu em
larga escala, trazendo uma série de concessões à iniciativa privada. A grosso modo, uma medida
liberal a fim de diminuir as reponsabilidades da administração pública, geralmente com o
argumento de que eliminando inúmeras preocupações, é possível focar nas questões mais
importantes para administrar a cidade. Essa lógica traz consigo, inúmeros problemáticas e nem
sempre suas ações contemplam por inteiro a solução dos problemas. É o caso, por exemplo, das
medidas de revitalização de alguns pontos do centro histórico, como já ocorreu e ocorre,
atualmente, no Vale do Anhangabaú, em que uma inteligível obra deu uma nova cara ao lugar,
que se mostra atraente, mas esbarra em problemas de cunho social que investimento e ações de
marketing são incapazes de resolver, tais como a população de rua, que só tem aumentado e
gerando um clima cada vez maior de insegurança e desconforto para quem visita o lugar. É
preciso pontuar que, estas sensações, são mesclas de uma possível insegurança, mas que, vale
ressaltar, é nutrida pelo estereótipo de que ‘o outro’, aquele que vive sem um teto, é
constantemente uma ameaça a quem tem endereço para chamar de seu. Ocorre que essas
vivências no centro também se tornam um elemento causador do distanciamento, como explica
Zukin (1980 apud Barreto, 2013, p.232)
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Houve um grande ganho em poder ter realizado para além de uma pesquisa prévia
assim como as entrevistas junto de alguns transeuntes, a exploração do local. Poder andar e
ouvir pessoas que estão no centro histórico de São Paulo, morando, trabalhando ou como
turistas foi de extrema importância. Assim, tornou-se possível refletir sobre a bibliografia
realizada. Desta maneira, buscando a maneira mais eficaz de analisar pesquisa prévia e a visita,
tornando significativas as indagações que nortearam este trabalho. Pois bem, o interesse de
saber como outros cidadãos e cidadãs estão ineridos nesta grande e complexa dinâmica que a
cidade oferece, tendo os diversos fatores interferindo simultaneamente na vivência de cada
indivíduo. Para além de fatores externos, há, também, a subjetividade de cada sujeito, tendo,
cada qual, uma combinação de cor, gênero, religiosidade, profissão e nível de escolarização que
geram uma forma própria de cada ser enxergar o mundo à sua volta. Mas, quando se trata da
percepção de transeuntes no centro histórico de São Paulo, a partir de observações, relatos,
conversas e entrevistas, foi perceptível que há diversos transeuntes de diferentes classes sociais,
porém, ainda sim, pertencentes à realidade que não se enquadram na concepção de elite. De
acordo com Rodrigues (2000, p. 146) no senso comum, a ideia da história como explicação do
passado nacional ou regional ainda perdura e fica evidente na noção de valoração de bens
culturais pela sociedade e pelo próprio Condephaat. E, além disso, há uma herança nesta visão
quando se trata do patrimônio de São Paulo, advinda do Sphan, através de publicações do
Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, que escreveu muito sobre uma história de caráter
patriótico e cívico na qual centrou esses elementos no bandeirante, grande símbolo da história
paulista.
Conforme o debate patrimonialista foi se transformando, ele foi furando a bolha elitista
que o mantivera sobre alicerces de órgãos patrimonialistas ortodoxos. Rodrigues (2000, p. 148)
indica que tal forma de conduzir o debate patrimonial, se alterou recentemente na história
levando para fora do círculo de especialistas e institucional, para alcançar o ensino e a mídia,
atribuindo uma multiplicidade até então não vista às perspectivas sobre o passado.
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ligeira, para poderem voltar com seus afazeres o quanto antes. Vale lembrar que entre os
entrevistados, metade estava em horário de trabalho. Esta situação alterou o que era esperado
quando iniciei os estudos sobre a história oral e desejei trabalhar com a mesma. Entretanto,
atuando dentro da realidade, longe do que foi idealizado, pude obter uma pequena quantidade
de relatos que julgo serem ricos os suficientes para preencher e dar sentido a este trabalho.
Iniciei minha jornada em busca de fontes orais. Num primeiro momento, planejei
visitas ao centro histórico de São Paulo a fim de explorar o local para além de leituras e
pesquisas prévias. Ao caminhar pelo centro histórico, pude perceber uma série de elementos
que até então, não havia notado. Como cidadão paulistano, cresci sob uma ótica um tanto quanto
deturpada do centro da cidade. Os relatos sobre o lugar ser inóspito e perigoso geram sempre
um ar de desconfiança. Uma visita, deveria ser sempre pontual, quando não havia outra
alternativa. Para não trabalhadores do local, nem turistas, moradores de regiões periféricas,
como fui durante toda minha vivência, as idas ao centro tinham, geralmente, um caráter
comercial. Alternativas a grandes mercados, os polos comerciais formados no centro sempre
chamaram a atenção de diversos consumidores. Locais como a rua 25 de março são conhecidos
por atrair uma grande quantidade de consumidores, principalmente em períodos festivos, como
o Natal, em que muito se consome em termos de adereços e decorações natalinas, além da
compra de brinquedos e presentes em geral. Há, também, a rua Santa Ifigênia, como já
mencionada, voltada a produtos tecnológicos, há algum tempo são alternativas de consumo do
paulistano.
Esta função, de local alternativo para compra de eletroeletrônicos, reparo ou
manutenção de aparelhos por preços muitas vezes inferiores aos de lojas autorizadas de grandes
marcas, talvez tenha sido a único lampejo de atração que o centro causou em boa parte da
população paulistana devido ao leque de opções e o baixo custo comparada a outros lugares.
Ademais, índices de violência sempre foram evidenciados em boa parte por uma mídia
sensacionalista.
Estes elementos, entre outros, contribuíram para ofuscar o centro, bem como seu
centro histórico, pois o lugar foi perdendo a devida atenção do poder público e da população.
Ao menos parte deste processo pode ser explicado com base na desindustrialização dos centros
urbanos e desmobilização das massas que passa a ocorrer ainda na década de 1960, este período,
denominado de pós-industrial, é marcado pela sobreposição do setor de serviços, terceiro setor,
ao mercado. Esse movimento causou o esvaziamento de grandes fábricas e depósitos nas
cidades. Além disso, um movimento político de desmobilização tem como sua principal
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estratégia desvincular os grandes centros urbanos da indústria, criando assim, polos industriais
afastados com o intuito de enfraquecer a mobilização operária, sua coesão e reivindicação por
direitos melhores, de acordo com Barretto. (2013, p. 233)
Desta forma, foram designados novos locais para se tornarem polos industriais, centros
administrativos e centros empresariais que fossem afastados dos centros das cidades.
Principalmente os distritos industriais foram afastados. Já os polos empresariais, pode-se notar,
em São Paulo, a migração já na década de 1970 para a avenida Paulista e, posteriormente, a
avenida Faria Lima como as principais expressões dessa mudança. Este movimento, segundo
Barretto, torna os centros urbanos locais de abandono, aumentando o número de pessoas em
situação de rua, pontos de drogas e prostituição, passando a imagem já descrita de um local
perigoso a ser evitado.
A partir desta noção, este cenário cria uma dinâmica social complexa, dado os sujeitos
participantes e a forma como estes interagem entre si e com a cidade. De acordo com Arantes
(2000, p. 106) “os habitantes deslocam- se e situam-se no espaço urbano e assim, vão sendo
construídas coletivamente as fronteiras simbólicas que separam, aproximam, nivelam,
hierarquizam ou, numa palavra, ordenam as categorias e os grupos sociais [...]”. Em minha
perspectiva, a partir das andanças que pude realizar, observei como as divisões sociais
ressignificam lugares, ou ofusca os mesmos, dando a importantes monumentos, um
esquecimento perante à população. No centro histórico de São Paulo e, na região central da
cidade, como um todo, o número de prédios degradados e abandonados é alarmante. O cenário
visto ilustra um desinteresse em fazer do centro antigo de São Paulo um lugar que conte a
história da cidade e do povo paulistano, mesmo na ótica conservadora que foi imposta durante
o século XX, na instituição de órgãos patrimonialistas com intuito de formar o ideal de nação.
Mas, o mais estarrecedor é a quantidade de pessoas em situação de rua. O número que já vinha
numa crescente, só foi adensado com a pandemia da COVID-19, com os níveis de pobreza
sofrendo uma piora, que resultou no aumento de pessoas perdendo suas casas em toda a cidade
e, no país todo. Observando estes grupos que ficam às margens, é possível notar que eles são
considerados por quem passa como uma ameaça, sendo assim, são evitados, não são olhados, e
passa-se sempre depressa por eles. Muitos pedem esmola, mas dificilmente recebem alguma
atenção. Essa cena é muito comum no centro histórico: pessoas deitadas nas marquises, ou
vagando pelas calçadas, notoriamente em situação de rua. Embora não seja visto com
frequência, há consumo de drogas. Enquanto dezenas de pessoas tentam se acomodar em
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barracas, calçadas, marquises e praças, muitos outros cidadãos passam apressados evitando
olhares e contatos com quem vive nas ruas. Ocorre uma interação entre quem está desamparado
na rua, pouco vista durante minhas visitas ao centro, assim como uma interação ainda menor
entre os mesmos e os transeuntes que evitam quem está na rua. Arantes (2000, p.133) nos
lembra que pertencimento é ter uma posição no mapa social, reconhecida pelos demais para
que assim seja legitimada. Porém, as pessoas em situação de rua, não têm reconhecimento
perante o restante da sociedade, passando a serem vistos, não como pessoas e cidadãos. Mas
sim como o outro, diferente. A cidadania, como aponta este mesmo autor, está imbricada com
o sentimento de pertencer. Mas, sem esses atributos que permitem uma localização no mapa
social, perde-se o pertencimento, apesar das pessoas em situação de rua, estarem situadas, não
pertencem ao coletivo, à sociedade e isso implica na retirada de direitos das mesmas. A polícia
está presente de maneira constante, entre grupos de cinco ou seis motocicletas estacionadas pelo
centro histórico, um carro rondando vagarosamente por vez ou outra e até um grupo da
cavalaria, numa quantidade próxima à de motociclistas da polícia militar de São Paulo. Em
minha perspectiva, esta dinâmica parece sustentar uma falsa segurança, pois ali observando as
movimentações, logo percebe-se que a quantidade de policiamento visa dar a quem vai à região,
ao lojista e comerciante legal, uma noção de proteção ao potencial perigo. A cidade se divide
entre os que interagem formalmente entre si, geralmente sob o pretexto comercial, e os
excluídos. É como se pessoas em situação de rua perdessem seu direito de ser cidadão, deixando
de serem vistos como tal.
A exemplo disso, o obelisco da liberdade, famoso por ter se tornado ponto de compra
e vendas de africanos escravizados durante o século XVIII, mas que, enquanto pude visualizar,
não se vê pessoas parando para observar o local. Ao invés disso, passos apressados em torno
do obelisco, que em seu entorno possui ao menos uma dezena de pessoas em situação de rua.
Isso muda a dinâmica dos próprios monumentos, como colocou Arantes, ocorre um processo
em que ruas, praças e monumentos se transformam em suportes físicos de significações e
lembranças compartilhadas, que passam a fazer parte de identidades, fronteiras de diferença
cultural e marcos de pertencimento.
Levando isso em conta, iniciei minhas visitas ao centro no dia 15 de janeiro. Desci no
metrô São Bento, caminhei pelo Vale do Anhangabaú, um dos pontos mais famosos do centro.
É ali que se enxerga boa parte de lugares icônicos tais como o prédio dos correios, Edifício
Martinelli, Edifício Altino Arantes, famoso pelo apelido “Banespão”, além da lateral do Teatro
Municipal, entre outros que deram à São Paulo um ar de metrópole moderna no início do século
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passado, exibindo uma arquitetura inspirada em movimentos arquitetônicos ecléticos que, como
já apontado por Rodrigues (2000, p. 18) era uma busca para romper com o passado colonial,
expondo fachadas que corroboram com os símbolos da Nação. Hoje, a área está dentro de um
perímetro considerado perigoso, abandonado e sujo por parte dos paulistanos, inclusive, tendo
sido citada desta maneira pelos entrevistados. No Vale do Anhangabaú, observei as mudanças
realizadas por uma empresa que, através de um consórcio, obteve a concessão do local por 20
anos e aposta em um projeto de revitalização. Muito criticado por parte da população e opinião
pública local, pelo excesso de concreto e retirada de árvores, o Vale foi redefinido, procurando
ser um espaço de lazer, interação da população com a cidade e a cultura. Assim, foram
instalados banheiros públicos e quiosques que vendem lanches e bebidas em seu entorno, além
de cabines para estruturas de shows e eventos gratuitos, como o espetáculo de jatos d’água
instalados no chão, acompanhados de um colorido jogo de luzes. Tais mudanças expressam um
aumento do interesse em revitalizar, sob a ótica de projetos privados o centro, vê-se em
caminhadas à noite uma iluminação forte e colorida que além do próprio Vale, abrange o Teatro
Municipal, o Edifício Altino Arantes e no entorno do Viaduto do Chá. De fato, o jogo de luz
realça os traços e adiciona encanto nas estruturas, chamando atenção de quem passa, mas a
beleza na parte alta dos monumentos se contrasta com as calçadas que servem como refúgio
para as pessoas em situação de rua, além de inúmeros pontos onde a coleta de lixo parece não
funcionar devidamente, o que resulta em muito lixo acumulado nas mesmas calçadas. Ainda
assim, o investimento notório em revitalização não parece aplicar nenhuma medida para
solução destes problemas, mas empenha-se em expor a beleza arquitetônica do que já existe e
da renovação aplicada ao Vale do Anhangabaú. O objetivo do investimento privado é pouco
provável de ser completamente atingido, devido aos problemas de o centro serem complexos
demais para somente a intervenção privada dar conta.
Refleti que as inúmeras categorias sociais que permeiam todo o centro de São Paulo,
necessitam de mais do que a ação de revitalização da iniciativa privada. Neste caso, o Vale do
Anhangabaú demonstra sinais de como há movimentações contrastantes entre grupos e a
tentativa de impor um padrão de comportamento no local. Um exemplo disso, é a monitoria dos
vigilantes a fim de evitar que alguma pessoa em situação de rua se deite sobre os novos bancos
instalados em uma parte do espaço. A reação quando isso ocorre, se dá com o vigilante
abordando e sugerindo ao morador, que deite do lado oposto, na grama, numa área mais
distante. Entre outros sinais de que há uma tentativa de impor uma ordem do que pode e do que
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não pode, além do quem pode e quem não pode usar de determinadas maneiras o espaço
público.
Neste local que pude ter meu primeiro contato com sucesso com um transeunte, após
algumas tentativas frustradas, devido ao contexto de janeiro: as pessoas quando abordadas por
mim, olhavam desconfiadas, faziam perguntas, em geral, sobre o tempo que a entrevista levaria,
sobre não se identificar e quase sempre desistiram de aceitar. Principalmente os mais velhos,
diziam não passar nenhum dado pessoal a ninguém pois o índice de ‘golpes’ com dados pessoais
estava alto, argumentavam. Outro ponto é que, mesmo de máscara e mantendo o
distanciamento, muitos não quiseram conversar a fim de evitar contato. Neste mês, a cidade,
bem como o país, apresentou uma alta nos números de casos da COVID-19, em decorrência da
variante Ômicron que possui maior capacidade de transmissão, o que gerou maior preocupação
na população. Também neste cenário que pude ter ao longo do Vale do Anhangabaú, Estação
São Bento e Pátio do Colégio, um total de oito entrevistas com transeuntes convidados a
participarem desta pesquisa. Os entrevistados se dividem entre turistas, moradores,
trabalhadores e frequentadores do centro histórico. Abaixo seguem os dados sócio biográficos
dos entrevistados:
Tabela 1 - Dados sócio biográficos dos entrevistados
patrimônio histórico, sua vivência e saberes. Tal objetivo passa por questionamentos sobre a
preservação patrimonial, o conhecimento da história do patrimônio e do centro histórico de São
Paulo e sobre cidadania. O Bloco 3 – conclusão – busca ouvir o relato dos entrevistados em
relação à percepção de melhorias e projetos para valorizar, vivenciar e aprender com o
patrimônio histórico. Por se tratar de perguntas semiestruturadas, algumas perguntas foram
feitas de forma exclusiva para alguns entrevistados devido ao percurso de seu relato. Outras
perguntas foram elaboradas de forma diferente quando em sua formulação original não
provocaram resposta ou alguma resposta satisfatória.
A partir disso, pude analisar o áudio completo de cada entrevista, realizando uma
seleção das partes mais ricas de cada depoimento com base nos objetivos da pesquisa. O
primeiro relato que consegui, de Jaciara, 56, auxiliar de limpeza. Ela concordou em realizar
uma entrevista, mesmo sem entender bem a temática que apresentei. Nascida em Itaberaba,
Bahia, veio à São Paulo, a fim de obter melhores condições de trabalho. Há dois anos trabalha
no centro e diz gostar do local, apesar de frequentar apenas com essa finalidade. Jaciara
aproveita seu horário de almoço tomando sol nos novos bancos do Vale do Anhangabaú.
Quando perguntada sobre o Patrimônio Histórico, demonstra pouco interesse sobre o assunto.
Em seu relato, fica evidente a (não) identificação com a cidade, como um todo, pois suas
respostas sobre o patrimônio sempre buscavam valorizar as áreas abertas, como praças e o
próprio Vale. O interessante é que quando questionada acerca desses locais em específico, ela
relata que remete à lembrança de sua terra natal, por também haver praças e árvores em
Itaberaba. Por fim, o último bloco também apresenta respostas e reações vagas.
O primeiro contato com alguém no centro histórico, parece ter dito mais sobre as
questões de deterioração que o centro histórico enfrenta, do que sobre sua preservação. Adiante,
apresento as principais perguntas realizadas sobre questões fundamentais da pesquisa.
Tabela 2 – Depoimento dos entrevistados sobre a pergunta: “para você, o que é
Preservação Patrimonial?”
Jaciara “Preservação assim de coisa antiga? Acho bacana, legal. Uma lembrança de muito tempo. Acho
muito bacana.” (SILVA, JACIARA, 2022)
Susianny “Ela envolve um engajamento das pessoas quanto a conservação daquele lugar, daquele ambiente,
é algo que não fica restrito aquela pessoa, mas ela deve aproveitar e estender isso a sua família,
amigos, se tiver filhos, repassar isso...” (OLIVEIRA, SUSIANNY, 2022)
João “Ela é muito frágil, existem muitas falácias, mas o trabalho efetivo é zero, há uma série de
propaganda, mas você vê um abandono geral no nosso centro histórico.” (SANTOS, JOÃO, 2022)
Beatriz “Ter cuidado com as coisas.” (SCHMACHER, BEATRIZ, 2022)
Elianete “Tudo, né? O patrimônio histórico.” (GONÇALVES, ELIANETE, 2022)
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Felipe “Preservar, mano, assim... é... não marginalizar o bagulho. Pessoal pixa tudo...” (BORGES,
FELIPE, 2022)
Juliana “Então, na verdade, eu acho que falta um pouco de incentivo a isso. É, tanto do governo como da
população. Você vê: eu moro aqui há anos e falei pra minha mãe: eu nunca entrei no pátio do
colégio. Mas assim, conheço outros lugares bastante aqui. Então acho que falta o incentivo.”
(TEIXEIRA, JULIANA, 2022)
Cláudio “(Algo que) Seria muito bom para o futuro das gerações, seria muito legal.” (ALVARES,
CLÁUDIO, 2022)
Fonte: dado colhidos durante as entrevistas
Tabela 3 – Depoimento dos entrevistados sobre a pergunta: “O que você acha que há
de importante para se preservar nos monumentos antigos?”
Jaciara “É, ali mesmo acho um relógio muito interessante. Um relógio bem grande. Você vê assim: meu
deus! Como é que pode? Tudo antigo. Acho bacana, acho bonito.” (SILVA, JACIARA, 2022)
Susianny “[...] chama muita atenção a arquitetura, a construção... são prédios antigos que contam um pouco
a história de São Paulo.” (OLIVEIRA, SUSIANNY, 2022)
João “Seria alguma coisa, algum trabalho de fato, alguma coisa concreta, sair da fala e botar a mão na
massa, realmente cuidar.” (SANTOS, JOÃO, 2022)
Beatriz “Pra ficar uma coisa de museu, guardar as memórias.” (SCHMACHER, BEATRIZ, 2022)
Elianete “Os prédios antigos, as praças, o teatro. Tudo, né?” (GONÇALVES, ELIANETE, 2022)
Felipe “Até me identifico. A minha família vem de cultura negra, por parte do meu pai...” (BORGES,
FELIPE, 2022)
Juliana “Eu acho que esse centro inteiro tinha que ser muito preservado. Então, eu acho que falta isso: falta
uma restauração do centro antigo de São Paulo... Fora do Brasil, eles exploram muito isso: o centro
antigo, as construções. Tudo vira museu lá fora e aqui não, aqui vira prédio abandonado”
(TEIXEIRA, JULIANA, 2022)
Cláudio “As fachadas, cara. Não pode perder. Se destruir as fachadas, acaba, né? Porque você vê que tem
um charme. Você vê hoje em dia a arquitetura nos bairros novos aí, os caras constroem caixote,
parece caixote, não tem aquele charme da arquitetura.” (ALVARES, CLÁUDIO, 2022)
Fonte: dado colhidos durante as entrevistas
Nestes depoimentos ocorreram perguntas e mais uma vez silêncios que considero
importantes destacar. Pois bem, inúmeras perguntas tinham uma reação silenciosa. Muitas
vezes pude perceber os entrevistados confusos com a reflexão provocada. Então, uma resposta
passa a ser elaborada a partir do conhecimento prévio que cada um possui. Há, evidentemente,
lacunas de compreensão sobre o que de fato é a Preservação, a História, enquanto ciência e a
Cidadania. Num primeiro momento, me pareceu que a materialização da história não se
efetivou, gerando desconhecimento acerca do monumento presente no centro histórico. O
patrimônio, como já apresentado por Rodrigues (2000, p. 145) como sendo um lugar de
memória, deve desencadear a mesma entre as pessoas que por ali estavam. Mas, ao realizar esta
pequena série de entrevistas, notei a ausência de memória, que se traduziu em silêncios e na
busca por alguma resposta vaga. Porém, não se pode deixar de considerar que a consolidação
do patrimônio material, forjada para sustentar determinadas narrativas e identidades, exclui
outras tantas e por isso, concede a cada camada social, uma possibilidade de apropriação.
Muitas das vezes, esta capacidade de apreender sobre o patrimônio, é tão restrita que não
permite estabelecer um elo de ligação entre cidadãos e cidade. Tem-se, então, a desconexão, o
esquecimento da história evocada por determinado patrimônio, a não identificação e, por
consequência, a falta de acesso aos direitos.
Primeiramente, mais de um relato aponta a arquitetura, assim como relata Rodrigues
(2000, p. 146): O patrimônio tem como foco, desde o início da atuação do Condephaat, a própria
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história e a arquitetura. Não por acaso, são dois elementos citados com certa frequência pelos
transeuntes entrevistados. Partindo da arquitetura, destaco o relato de Susianny, turista vinda
de Porto Velho, Rondônia, diz que a estética chama a atenção, e além disso, se tem a história
da cidade sendo contada. No entanto, algo que chama atenção é que quando mencionada a
história e arquitetura, se tem a compreensão de que o patrimônio evoca ambas, mas não ocorreu
nenhum relato que aprofunde estas duas categorias. É perceptível a diferença de edifícios que
compõem o patrimônio material do centro velho de outros prédios no entorno, mas a história,
ou o conhecimento que contextualiza os monumentos, como o Teatro Municipal, por exemplo,
não aparece em nenhum diálogo que registrei. O que observo, em alguns casos, é que a história
que é falada, é também uma história abstrata, sem aprofundamento. Outro caso que chama
atenção é o de Cláudio, vindo do interior do estado de São Paulo, vive há mais de 30 anos na
capital, é vigilante no Vale do Anhangabaú contratado pela concessionária Viva o Vale, que
adquiriu a concessão do local por 10 anos. Ele trabalha e mora no centro e fala com apego da
região, algo perceptível quando pergunto se ele prefere os prédios antigos ao invés dos
modernos e espelhados que começam a surgir, ainda que aos poucos, pela região central da
cidade. Sem hesitar, Cláudio opta pelos prédios históricos e reforça isso ao longo da conversa
que se seguiu após a gravação da entrevista. Neste relato, ele demonstra a valorização do estilo
arquitetônico do passado, de uma maneira generalista, em detrimento de construções atuais que
se vê na cidade, denominadas, por ele de ‘caixote’.
Assim, é importante ressaltar que há um processo de exclusão de camadas sociais
daquilo que foi imposto como oficial, tornando estas camadas alheias ao conhecimento e
reconhecimento dos símbolos e valores oficiais apresentados, mas que, simultaneamente, tem-
se a formação de outras interpretações destas camadas que se aproximam mais ou menos da
imposição oficial. Como coloca Arantes, (2000, p. 106) os lugares e monumentos passam a ser
estruturas físicas de significações e lembranças compartilhadas que passam a “fazer parte da
experiência ao se transformarem em balizas reconhecidas de identidades, fronteiras de diferença
cultural e marcos de pertencimento”. Ainda na linha teórica deste autor, a formação destes
lugares sociais, ou como penso, a reconfiguração de espaços já definidos, não ocorre de forma
harmoniosa, mas sim, se superpõem, entrelaçando-se de forma complexa, dando origem às
zonas de transição. Arantes chama este processo de territorialidades flexíveis. Creio que esta
definição é importante para nos ajudar a compreender a relação de uma gama de grupos sociais
e visualizar, como as diferentes concepções e significações do centro histórico, principalmente
o patrimônio material, a partir de sua própria ótica, levando em consideração o processo de
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apropriação do passado de cada grupo como mencionado acima. Ou seja, sujeitos que não se
enquadram ao oficial, além de sofrerem uma exclusão das formas de representação do passado
impostas, adquirem, a partir de suas próprias vivências, uma forma própria de compreensão que
varia de acordo com cada segmento social. Para melhor ilustrar essa situação, volto a mencionar
o aumento gritante de pessoas em situação de rua a partir de 2020, já na crise instaurada pela
pandemia da Covid-19. Durante minha pesquisa de campo, me deparei com uma quantidade de
pessoas pelas marquises, em barracas ou debaixo de viadutos. De forma improvisada vivem e
dão outro sentido ao espaço. Isso é o que Arantes apresenta como territorialidades flexíveis,
lugares em que se cruzam as fronteiras entre o privado e o público, entre a necessidade e a
propriedade privada, dando origem às cenas como as que pude observar na nova versão
público/privada do Vale do Anhangabaú, gerenciado pela iniciativa privada.
Outro aspecto que ocorreu com certa frequência, foram as respostas que giravam em
torno do assunto proposto, mas que não respondiam objetivamente à pergunta. João, não
responde explicitamente sobre o que ele acha importante preservar, mas aponta soluções de
preservação práticas, sem detalhar as mesmas. Observando essas respostas, cada qual à sua
maneira respondeu, como já dito, algo que demonstra lacunas, mas que não deixa de ter
riquezas. Jaciara, primeira entrevistada, se encanta com a beleza do relógio exposto no prédio.
Seu olhar se atenta ao estético, vislumbra algo que eu sequer havia notado. Já Susianny, chama
a atenção para o fato de os monumentos contarem a história da cidade, percepção valiosa pois
de fato o olhar que busquei, de modo geral, foi o entendimento do que se pode apreender nas
fachadas de prédios e lugares históricos do centro velho. João é enfático em apresentar uma
solução ao problema da degradação: argumenta que o poder público precisa tomar providências.
Elianete nomeia as riquezas do centro histórico com consciência, enquanto Beatriz de forma
mais abstrata entende que é necessário ‘guardar as memórias'. Juliana também defende as ideias
de restaurar e divulgar os locais a fim de explorar sua beleza e história.
Além disso, Felipe acrescenta um relato singular. O rapaz demonstra uma resposta que
fica mais completa na análise geral de sua entrevista. Ele relatou que, entre os monumentos
históricos, o que chama mais a sua atenção – dentro da questão sobre o que lhe chama atenção
- é o obelisco no Largo da Memória. Com o intuito de compreender sua escolha, pergunto a ele
se já havia pesquisado sobre o local em específico. O mesmo responde “Ali tem uma história
até meio obscura...Os portugueses prendiam os escravos lá para vender eles...” (BORGES,
FELIPE, 2022) Pergunto se, de alguma forma, ele se identifica com a história – dos monumentos
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de maneira geral. Felipe foca no Largo da Memória e responde: que se identifica por vir de uma
cultura negra por parte de pai. O entrevistado, demonstrou algum reconhecimento entre sua
história própria e o monumento histórico. Apresentou uma noção histórica daquele ponto da
cidade, levantou temas importantes para a compreensão da história da cidade, bem como do
Brasil.
Ao me deparar com estes relatos, reflito sobre os lugares que o centro histórico pode
ser para cada indivíduo. Não há um consenso, pois, as vivências ressignificam, cada qual à sua
maneira, o espaço e os monumentos. Mas para isso, é necessário paciência, já que é difícil
perceber algo que naturalmente chame atenção para a importância e, principalmente, para a
valorização do patrimônio histórico. Além de uma camada superficial de elementos já citados
aqui, como violência, marginalização de pessoas, degradação do espaço público, mudança do
eixo de grandes escritórios etc., que quase impede uma visualização dos diversos marcos,
símbolos e a interpretação dos mesmos no centro histórico e de seu patrimônio
material, fazendo com que seja muito difícil ler a real importância dos marcos, há, também,
uma rotina dos transeuntes, criando um ir e vir que transforma esses marcos e lugares em um
caminhar entre pontos, um trajeto que coloca pontos históricos como distâncias que percorrem
cotidianamente diversas pessoas. Arantes (2000, p. 121) escreve que este deslocamento torna
invisíveis os marcos, fronteiras simbólicas, tornando sua leitura uma construção de um espaço
sem lugares. Com base nesta reflexão, percebo e analiso as respostas dos transeuntes acerca do
patrimônio como um exercício que possivelmente tenha ocorrido poucas vezes sobre observar
as distâncias percorridas pelo centro histórico e o que está expresso no patrimônio. Assim, as
observações durante a entrevista são, em minha percepção aquilo que conseguiu furar a bolha
da construção, do que Arantes chamou de um espaço sem lugares, ou o que se sobressai em
meio à vida cotidiana e os elementos que ofuscam o centro histórico e seu patrimônio, enquanto
causadores de conhecimento histórico e da contribuição para o exercício da cidadania.
O conceito de cidadania, foi tema de pergunta nas entrevistas e, abaixo, está exposto
os relatos sobre cidadania. Esta foi a pergunta em que ocorreu menor número de respostas
objetivas. Diante do desafio de obter uma resposta, realizei a pergunta: O que é cidadania para
você? Seguida da indagação: O que vem à sua cabeça quando você pensa em cidadania? Esse
movimento gerou respostas curtas: a primeira palavra que vinha à cabeça da pessoa
entrevistada. E a principal, foi a palavra respeito, que quando não dita, era subentendida nas
falas de 5 dos 8 entrevistados. Segue a tabela de respostas completa acerca da pergunta: O que
é cidadania para você?
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Susianny “Um compromisso de a gente buscar desenvolver nossos direitos e deveres enquanto pessoa,
pensando sempre no próximo.” (OLIVEIRA, SUSIANNY, 2022)
João “Cidadania é dignidade, é respeito, amor e valorização.” (SANTOS, JOÃO, 2022)
Juliana “Então, tá tão difícil falar sobre cidadania hoje em dia, né? Tá cada dia pior, eu acho que falta o
principal da cidadania que é a educação.” (TEIXEIRA, JULIANA, 2022)
Cláudio “Pô, cidadania, cara... eu acho que o pessoal se respeitar mais... acho que primeiramente respeito,
cara. E direitos e deveres... eu acho que é isso aí.” (ALVARES, CLÁUDIO, 2022)
Fonte: dados colhidos durante as entrevistas
O tema cidadania envolve pelo menos dois aspectos que convém destacar logo. Em
primeiro lugar, ele se refere ao sentimento de pertencer, compartilhar interesses,
memória e experiências com outrem, sentir-se parte de uma ampla coletividade,
possuir valores em comum e sentimento profundo de identificação. Este não é um
terreno de puro interesse e informações frias. É nele que se forma a ideia de
comunidade e germinam sentimentos como a lembrança da terra distante e da
solidariedade. Trata-se de um campo povoado por valores profundos, carregados de
conteúdos emocionais e força simbólica.
Juliana Prata (2009, p. 82) ao discutir sobre a participação da sociedade civil nos
processos de tombamento realizados pelo Condephaat, a partir da década de 1980, descreve que
a pauta patrimonial é conduzida pelos eixos da cidade, preservação ambiental e a cidadania. No
que tange à cidadania, a autora aponta as atuações de mobilizações sociais, nos posicionamentos
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de diversos agentes e na luta pela participação política nas decisões políticas tomadas pelo
órgão. Apesar de ser significativo, o movimento que ocorre em alguns processos de
tombamento de bairros nobres paulistanos destacados pela autora, há de considerar a
especificidade em que ocorreu esta participação civil e o quão distante a mesma está de um
ideal de participação e envolvimento da população nas decisões preservacionistas. A linha pela
qual segue a autora, coloca a importância de se articular a questão urbana como meio e ambiente
e ao direito à memória. A partir disto, é necessário enxergar a complexidade da atuação do
Condephaat para contemplar uma série de fatores. Entre eles, este trabalho busca o direito à
memória, visto a experiência de coleta de entrevistas com transeuntes do centro histórico.
Então, como salientado por Fenelon (1992 Apud Prata, 2009, p. 106)
o menos acesso à sociedade, algo que se traduz em direitos e deveres perante aquele meio social
em que o mesmo vive. Alguém, como Felipe, jovem pertencente ao movimento punk, por
exemplo, que vive de forma autônoma e informal, fazendo malabares para sobreviver, criando
arte de contestação, pode-se notar que ele está inserido em alguma esfera no meio em que vive,
porém de forma marginalizada por tudo aquilo que representa.
Os níveis de inserção vão variando muito, conforme pude observar em minhas
andanças pelo centro histórico. O caso do homem em situação de rua, convidado a se retirar do
banco do Vale do Anhangabaú é um que, didaticamente, me mostrou o quão afastado aquele
sujeito está de seus direitos e o quão longe tudo aquilo que faz o centro histórico ser de fato,
histórico, é invalidado em uma vivência que se traduz em sobrevivência, transformando
qualquer prédio rico em história, patrimônio tombado e arquitetonicamente singular, em um
mero abrigo, oferecendo nada mais que as marquises para um desabrigado.
À medida que observei essas relações, pude notar que o centro histórico é de difícil
acesso, além de vários pontos levantados previamente nas pesquisas e nos próprios relatos já
descritos, pois há uma frieza nas relações que gera distanciamento entre as pessoas. Há diversos
elementos na sociedade como raça, gênero, classe social e etnia que conflitam numa disputa
voraz. A heterogeneidade é conflituosa e nessas múltiplas identidades, percebe-se que no
processo social, como relata Arantes (2000, p. 138) o resultado se dá a partir do conjunto, não
do individual. É o conjunto que reivindica, com maior ou menor capacidade de articulação,
somando instância de identidade, evidenciando algumas, disfarçando outras, ocorre um fluxo
de indivíduos, negociando interesses. Este movimento reorganiza as fronteiras simbólicas que
são capazes de unir e separar, tais como o patrimônio histórico material.
46
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com diferentes pesos, essas categorias formam conjuntos complexos e daí, analiso, a
dificuldade em se ter uma vivência inclusiva da cidade, do uso de seu patrimônio histórico, do
saber que ele dispõe e das iniciativas que possam fomentar isso. Além do mais, os muitos grupos
que embora estejam inseridos em vários desses eixos não são assim reconhecidos. Pelo
contrário, são excluídos da sociedade e essa exclusão gera um efeito reverso dos excluídos, que
por sua vez repelem os demais, como o caso do homem em situação de rua deitado no banco
do Vale do Anhangabaú ser retirado pelo fato de sua presença afastar a utilização daquele
espaço por indivíduos aceitos.
De certa forma, a história oficial, elitista e branca fortemente expressa nos órgãos
patrimonialistas brasileiros, entre eles, o Condephaat, ainda carrega uma forte marca excludente
assimilada e reproduzida diariamente. Concluindo, após esta pesquisa, percebo essa questão
como algo a ser trabalhado a partir da consciência histórica, no sentido de evocar m
conhecimento a partir do monumento, que demonstre os motivos de sua existência na cidade
princípios de cidadania que a preservação patrimonial deve desempenhar.
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REFERÊNCIAS
ALBERTI, Verena. Manual de história oral. Rio de Janeiro. Editora FGV, 2005.
ALVARES, CLÁUDIO [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan.
2022.
BORGES, FELIPE [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan. 2022.
GONÇALVES, ELIANETE [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan.
2022.
HOBSBAWN, Eric; RANGER, Terence. A invenção das tradições. 6. ed. São Paulo: Paz e
Terra, 2008.
OLIVEIRA, SUSIANNY [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan.
2022.
SANTOS, JOÃO, [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan. 2022.
SCHMACHER, BEATRIZ, [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan.
2022.
SILVA, JACIARA [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan. 2022.
TEIXEIRA, JULIANA [entrevista concedida a] Mateus Moura Ferreira. São Paulo, jan. 2022.
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Bloco 3 – Conclusão
▪ Você acha que a sua condição financeira/social interfere no jeito que você
enxerga/frequenta o centro? De que forma?
▪ Se o centro deixasse de existir, você se importaria?
▪ Se você tivesse poder para interferir no governo da cidade, o que faria pelo centro?
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Fonte:[Link]