CAPÍTULO 3
TRADUÇÃO E ADAPTAÇÃO CULTURAL DOS
INSTRUMENTOS DE AVALIAÇÃO DO PERFIL
SENSORIAL II
Luzia Iara Pfeifer
Lucieny Almohalha
Introdução
O processamento sensorial é um mecanismo neurofisio-
lógico do sistema nervoso para filtrar, organizar e interpretar os
estímulos relevantes provenientes do ambiente e do próprio corpo e
emitir um comportamento adequado às demandas do contexto
(MOMO; SILVESTRE; GRACIANI, 2012; DURÃO, 2014).
Portanto, o processamento sensorial depende da habilidade de
absorver e regular os inputs sensoriais tais como estímulos visual,
auditivo, tátil, gustativo, olfativo, proprioceptivo, vestibular e
interoceptivo os quais são processados pelo sistema nervoso central
(throughput) por meio da recepção, modulação, integração,
discriminação e organização desses estímulos afim de gerar respostas
comportamentais adaptativas (output) (MACHADO et al., 2017).
A integração sensorial é a capacidade de receber e processar
as informações provenientes do corpo, movimentos e ambiente para
[Link]
75
a ideação, planejamento, e execução das tarefas (AYRES, 2008),
organizando as sensações detectadas pelos sistemas sensoriais,
selecionando o que é relevante, e assim permitindo agir ou responder
adequadamente às situações. (SERRANO, 2016). As respostas
adaptativas aos estímulos sensoriais ocorrem de forma instantânea,
automática e inconsciente em crianças com a integração sensorial
intacta, fazendo com que elas sejam capazes de processar
eficientemente as sensações e produzir respostas motoras e
comportamentais apropriadas aos estímulos, resultado assim em um
senso de confiança e controle sobre as ações (KANDEL et al, 2014;
ELIOT, 2010).
Quando a interpretação destas informações desencadeia
respostas não apropriadas ocorrem as desordens do processamento
sensorial, as quais impactam o desempenho das atividades de vida
diária, já que respostas atípicas podem influenciar o comportamento
cognitivo-emocional, as habilidades motoras ou de organização,
prejuízo social, problemas de autorregulação, e baixa autoestima
(MILLER, 2014; AYRES, 2008).
Nas décadas de 50 e 60, a terapeuta ocupacional Anna Jean
Ayres desenvolveu a teoria de integração sensorial, com o objetivo
de explicar a relação entre os processos neurológicos e as respostas
comportamentais apresentadas pelos indivíduos, baseada em um
processo neural através do qual o cérebro organiza as sensações
recebidas para uso em respostas adaptativas ao meio em que se
encontra (AYRES, 2005). Ao longo dos anos essa teoria veio se
modificando devido aos novos conhecimentos da neurobiologia e a
evolução da terapia ocupacional, e termo “integração sensorial”
passou a ser criticado pela comunidade médica e de pesquisa por se
76
referir aos mecanismos neurobiológicos em nível celular, sendo
assim, foi sugerido o uso do termo “transtorno do processamento
sensorial”, pois o maior foco de interesse se tornaram as alterações
comportamentais decorrentes das dificuldades do processamento
sensorial (MILLER, 2006).
Baseado nos princípios da neurociência e da Teoria de
Integração Sensorial, e buscando compreender como ocorre o
transtorno do processamento sensorial, a terapeuta ocupacional
Winnie Dunn elaborou, na década de 90, o Modelo de
Processamento Sensorial, que analisa os padrões de respostas frente
aos estímulos ambientais e a relação cérebro-corpo-comportamento
(DUNN; BROWN, 1997). Este modelo considera a existência de
uma interação entre os limiares neurológicos e as respostas
comportamentais de autorregulação (comportamento padrão
manifesto pelo indivíduo) e, portanto, o processamento sensorial
pode ser explicado a partir da interação destes dois contínuos, os
quais impactam no comportamento humano e faz com que o
indivíduo responda aos estímulos de modo inesperado (DUNN,
2014; DUNN; BROWN, 1997). Problemas de integração e
processamento sensorial podem afetar profundamente o
desenvolvimento infantil e a capacidade de participar em ocupações
de vida diária. (WATLING et al, 2018).
A Teoria de Integração Sensorial e o Modelo de
Processamento Sensorial reforçam a importância da identificação
dos problemas sensoriais que geram comportamentos não
adaptativos e problemas de aprendizagem (DUNN, 2014; DUNN;
BROWN, 1997), já que o processamento adequado das informações
sensoriais é fundamental para a organização e emissão de respostas
77
adaptativas e para favorecer a participação ativa das crianças nas
atividades cotidianas, escolares e no brincar (COSTA, 2019).
Por ocasionar impacto no engajamento das ocupações
significativas da infância e adolescência, as alterações do
processamento sensorial são de grande interesse para a Terapia
Ocupacional. O processo de terapia ocupacional inclui as etapas de
avaliação e intervenção para alcançar os objetivos ocupacionais
(AOTA, 2020). A avaliação ocorre por meio de técnicas de
entrevistas e de aplicação de protocolos de avaliação, e o terapeuta
ocupacional, a partir de seus conhecimentos profissionais prévios,
constrói a narrativa ocupacional da criança que chega para a
intervenção.
A avaliação envolve duas etapas distintas mas complemen-
tares: a identificação do perfil ocupacional [informações acerca da
história ocupacional e experiências prévias (histórico pré, peri e pós-
natal; internações hospitalares; diagnóstico clínico; idade), dos
padrões de vida diária (estrutura familiar, rotina diária), interesses
(brincadeiras preferidas), valores e necessidades de cada criança
(aspectos culturais e religiosos, alterações de funções e estruturas
corporais), e depois, junto à própria criança, identificar o que ela
quer fazer, buscando compreender os problemas e as questões atuais
que causam impacto em suas ocupações] e a análise do desempenho
ocupacional [informações obtidas por meio da observação direta do
desempenho da criança durante a realização das atividades relevantes
às ocupações desejadas e verificar a eficácia das habilidades de
desempenho e padrões de desempenho] (PFEIFER, 2020). Outra
forma de classificar as avaliações é quanto ao serem diretas, quando
o Terapeuta Ocupacional interage pessoalmente com o cliente
78
avaliado, ou indiretas, através de perguntas ou questionários sobre o
desempenho de um cliente ou respostas a situações/tarefas (SAA,
2019).
A avaliação do processamento sensorial tem o objetivo de
identificar como a criança integra as sensações vestibulares, visuais,
táteis, proprioceptivas, e com que eficiência planeja os movimentos
(AYRES, 2008). Para tal, o uso de testes padronizados associados às
observações e ao julgamento clínicos consistentes são os melhores
métodos para avaliar e identificar dificuldades de processamento
sensorial (SAA, 2019). Dentre os testes padronizados podem ser
citados o SOSI-M (Structure Observation Sensory Integration –
Motor), o COP-R (Comprehensive Observations of Proprioception –
Revised), o SPM-P Sensory Processing Measure-Preschool, e o perfil
sensorial (DUNN, 2002, 2006, 2014; BLANCHE, 2012;
REINOSO, 2021; REIS et al., 2020), sendo os três primeiros
focados na análise de desempenho, de observação direta e o último
focado no perfil sensorial, de coleta indireta por meio dos pais,
cuidadores ou professores.
A partir do modelo teórico do Processamento Sensorial,
foram desenvolvidos os instrumentos de triagem do perfil sensorial
para crianças até 3 anos de idade, Infant/Toddler Sensory Profile
(DUNN, 2002); para crianças e adolescentes entre 3 e 14 anos,
Sensory Profile School Companion (DUNN, 2006), e para crianças de
3 a 10 anos, Sensory Profile Supplement. (DUNN, 2006). Em 2014
Dunn publicou uma atualização dos instrumentos de triagem do
perfil sensorial os quais foram distribuídos em novas faixas etárias e
reunidos em uma versão única e integrada denominado de Kit
Sensory Profile 2 composto por cinco questionários: o Infant Sensory
79
Profile 2 (para bebês do nascimento aos 6 meses), o Toddler Sensory
Profile 2 (para crianças pequenas de 7 a 35 meses), o Child Sensory
Profile 2; o Short Sensory Profile 2 (versão resumida do Child Sensory
Profile 2) e o School Companion Sensory Profile 2, sendo os três
últimos para crianças de 3 a 14 anos e 11 meses (DUNN, 2014).
As avaliações do Sensory Profile 2 fornecem um método
padronizado para verificar as habilidades de processamento sensorial
e para traçar o perfil deste processamento e seus efeitos no
desempenho funcional das atividades diárias de crianças. É também
uma forma de documentar os padrões do processamento sensorial
das crianças americanas nas referidas idades. Quando combinado
com informações sobre o desempenho da criança, fornece, aos
profissionais, informações para identificar os efeitos do
processamento sensorial nas diversas atividades da criança nos
contextos doméstico, escolar e comunitário. São instrumentos que
contribuem para uma avaliação compreensiva da criança, e oferecem
uma perspectiva sobre os pontos fortes e barreiras vividas por elas
para um desempenho ocupacional apropriado ao desenvolvimento
infantil (DUNN, 2014).
O Infant Sensory Profile 2 (ISP2) é composto por 25 itens e
objetiva avaliar o perfil sensorial de bebês nos primeiros 6 meses de
vida a partir da percepção dos cuidadores, distribuídos em seis
categorias sensoriais: Processamento Sensorial Geral (8 itens),
Processamento Auditivo (4 itens), Processamento Visual (4 itens),
Processamento Tátil (3 itens), Processamento do Movimento (4
itens) e Processamento Sensorial Oral (2 itens). A soma total dos
escores deste questionário irá determinar a necessidade ou não de
acompanhamento em programas de follow-up (DUNN, 2017). O
80
tempo de aplicação do teste, segundo a autora, varia de 5 a 10
minutos (ALMOHALHA, 2018).
O Toddler Sensory Profile (TSP2) é um questionário
composto por 54 itens e objetiva avaliar o perfil sensorial de crianças
pequenas entre 7 e 35 meses, a partir da percepção dos cuidadores,
distribuídos nas mesmas seis categorias do ISP 2 além de uma nova
categoria chamada comportamentos relacionados ao processamento
sensorial (DUNN, 2014). Segundo a autora, o tempo de aplicação
do teste varia de 10 a 15 minutos (ALMOHALHA, 2018). Todos
os itens do TSP2 são agrupados em quadrantes e os escores brutos
são obtidos. Esses quadrantes refletem a responsividade da criança às
experiências sensoriais e são baseadas no Modelo de Processamento
Sensorial de Dunn (1999). A partir disso, é possível verificar se a
criança apresenta um perfil de procura sensorial, recusa sensorial,
sensibilidade sensorial e registro sensorial, referindo-se aos
indivíduos com características de explorador, esquivador, sensível e
observador, respectivamente (DUNN, 2014), permitindo que a
criança seja classificada com uma performance sensorial típica ou
atípica, além de apontar qual sistema sensorial está contribuindo ou
dificultando a performance funcional (ALMOHALHA, 2018).
O Child Sensory Profile 2 (CSP2) é composto por 86 itens e
objetiva avaliar o perfil sensorial de crianças e adolescentes entre 3 e
14 anos e 11 meses, a partir da percepção dos cuidadores,
distribuídos nas mesmas sete categorias do TSP2 (DUNN, 2014).
O tempo de aplicação do teste foi em média de 30 minutos
(RODRIGUES; PFEIFER, 2022). Os itens são agrupados nos 4
quadrantes e os escores brutos são obtidos (DUNN, 2014). O Short
81
Sensosry Profile 2 (SSP2) é uma versão reduzida do CSP2 e é
composto por 34 itens (DUNN, 2014).
O School Companion Sensory Profile 2 (SCSP2) é composto
por 44 itens, distribuídos em seis categorias sensoriais: Processa-
mento Auditivo (7 itens), Processamento Visual (7 itens),
Processamento Tátil (8 itens), Processamento do Movimento (10
itens) e Respostas comportamentais associadas ao processamento
sensorial (12 itens) (DUNN, 2014). Há também uma forma de
classificação do comportamento sensorial em quatro fatores
escolares, relacionando os padrões de processamento sensorial do
estudante e a aprendizagem de conceitos importantes em sala de
aula; o fator escolar 1 envolve os estudantes que precisam de suporte
externo para aprender, tais como alunos que apresentam dificuldade
para manter os materiais organizados e usá-los durante o dia; o fator
escolar 2 reflete o nível de alerta e o nível de atenção no ambiente de
aprendizagem, por exemplo, quando o aluno quer limpar as mãos
rapidamente após uma atividade que envolva sujar-se; o fator escolar
3 reflete na tolerância dos estudantes com o ambiente de
aprendizagem, tendo como exemplo, um estudante que fica
angustiado com as mudanças de planos, de rotinas e de expectativas;
o fator 4 reflete na disponibilidade do estudante para a aprendizagem
e seu ambiente, por exemplo, a dificuldade de interagir ou participar
em grupos com crianças em idades menores (DUNN, 2014). Este
questionário, respondido por professores, avalia as habilidades de
processamento sensorial e possibilita traçar o perfil deste
processamento e seus efeitos no desempenho funcional das
atividades diárias em ambiente escolar de crianças e jovens de 3 a 14
82
anos e 11 meses (DUNN, 2014). Demanda um tempo de
aplicação/preenchimento de 10 a 15 minutos (COSTA, 2019).
Todos os itens dos cinco questionários do Kit são
respondidos pelos pais, cuidadores e professores baseado em seus
julgamentos sobre a frequência com que os comportamentos
ocorrem no cotidiano, por meio de uma escala Likert em que cada
item é classificado quanto à frequência com que cada
comportamento acontece: quase sempre (90% do tempo ou mais),
frequentemente (75% do tempo), metade do tempo (50% do
tempo), ocasionalmente (25% do tempo), quase nunca (10% do
tempo ou menos) ou não se aplica (DUNN, 2014).
A soma total dos escores irá determinar a necessidade ou não
de intervenção caso a criança esteja respondendo diferentemente da
maioria das crianças segundo os dados normativos (DUNN, 2014)
se enquadrando como respondendo mais, muito mais, menos ou
muito menos comparada aos pares, conforme figura 1 a seguir.
Figura 1: Curva normal e Sistema de Classificação do Perfil Sensorial 2
83
O Modelo de Processamento Sensorial considera que
existem quatro tipos de respostas comportamentais que se
manifestam por procura sensorial, recusa sensorial, sensibilidade
sensorial e registro sensorial, referindo-se aos indivíduos com
características de explorador, esquivador, sensível e observador,
respectivamente. Assim, por meio da aplicação dos instrumentos do
Kit Perfil Sensorial 2 é possível verificar o perfil, classificando assim
a criança como tendo um desempenho sensorial típico ou atípico,
identificar qual sistema sensorial está dificultando seu desempenho
funcional, além de categorizá-la por perfil de explorador, esquivador,
sensível ou observador (DUNN, 2014).
Entretanto, o uso de avaliações padronizadas pode ter um
impacto negativo em pesquisas e/ou como medidas de desfecho, se
o processo de adaptação não for conduzido seguindo-se um
referencial teórico-metodológico, incluindo uma avaliação
meticulosa da equivalência entre o original e sua versão adaptada,
bem como investigação das propriedades psicométricas do
instrumento adaptado (REICHENHEIM; MORAES, 2007).
Objetivo
Este estudo metodológico, transversal, de abordagem
quantitativa, teve como objetivo apresentar os procedimentos
metodológicos seguidos durante o processo de tradução, adaptação
e verificação da clareza, compreensão e confiabilidade (estabilidade,
consistência interna e equivalência) dos cinco instrumentos do perfil
sensorial 2 (Infant Sensory Profile 2 - ISP2, Toddler Sensory Profile 2
84
- TSP2, Child Sensory Profile 2 - CSP2, Short Sensory Profile 2 - SSP2
e School Companion Sensory Profile 2 - SCSP2) para uso no Brasil.
Procedimentos Metodológicos
O desenvolvimento das versões para o português do Brasil
dos cinco instrumentos do perfil sensorial 2 constou de duas fases, a
primeira consistiu do processo de tradução, retrotradução e estudo
de validade de conteúdo e, na segunda fase, foram realizados estudos
psicométricos para verificar a clareza e compreensão (desdobra-
mento cognitivo/validade de face), e a confiabilidade (estabilidade
teste-reteste, consistência interna, e equivalência interexaminadores)
de cada um dos instrumentos para uso junto a bebês, crianças e
adolescentes brasileiros.
Respeitando às exigências da Resolução 466/12 da Comissão
Nacional de Ética em Pesquisa do Conselho Nacional de Saúde do
Ministério da Saúde (BRASIL, 2012), esta pesquisa foi submetida,
analisada e aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa Humana da
Universidade Federal do Triângulo Mineiro, segundo parecer n°:
1.537.364.
O processo da adaptação cultural e validação dos
instrumentos do kit Perfil Sensorial 2 foi iniciado, com a solicitação,
por meio de correio eletrônico, à autora dos instrumentos Dra.
Winnie Dunn, de autorização para que fosse realizado todo o
processo científico no Brasil. Após sua autorização, os trâmites legais
em relação aos direitos autorais e licença para uso dos instrumentos
foram realizados e aprovados junto à NCS Pearson, Inc. Minnesota
Corporation contemplando todo o Kit Sensory Profile 2 (DUNN,
85
2014). As despesas referentes aos Direitos Autorais foram cobertas
pelos pesquisadores.
1ª Fase
Esta fase envolveu as etapas de adaptação cultural, seguiu os
referenciais de Beaton et al (2007), Wild et al. (2005) e Pasquali
(1998, 2001, 2003) e foram realizadas nos seguintes estágios:
Tradução inicial: foi realizada de forma independente por
dois tradutores brasileiros (distintos em cada um dos instrumentos
do Kit Perfil Sensorial 2), sendo o tradutor 1 com conhecimento na
área de Integração Sensorial de Ayres® e neuropediatria, e domínio
em inglês, e o tradutor 2 sem conhecimento dos instrumentos, sem
experiência na área da saúde e educação, mas com domínio da língua
inglesa. O tradutor 1 elaborou a Versão Português 1 (VP1) e o
tradutor 2 elaborou a Versão Português 2 (VP2).
Tradução conciliada: A síntese das traduções foi realizada
por um comitê técnico, formado pelas autoras deste capítulo, ambas
terapeutas ocupacionais, com grande experiência na área de
neuropediatria e com domínio em ambas as línguas. Esse comitê
criou uma versão técnica (VPT) de cada um dos instrumentos do
perfil sensorial, os quais foram encaminhados para uma equipe de
especialistas.
Análise de equivalência de itens: Entre quatro e cinco
especialistas com formação em Integração Sensorial de Ayres® e com
experiência na área de reabilitação infantil realizaram, de modo
independente, a análise semântica e de conteúdo, organizada em
forma de um checklist contendo as opções “de acordo” e “não está de
86
acordo”. A porcentagem de concordância de cada item foi calculada,
sendo considerado aceitável uma concordância acima de 80%
(apenas uma discordância), caso contrário o item era reavaliado e
reestruturado pelo comitê técnico e reencaminhado aos especialistas
buscando o aceite dos mesmos. Esse processo assegurou a validade
de conteúdo da versão criada pelo comitê técnico e garantiu a
elaboração das versões consensuais em Português (VCP) e sua
fidedignidade aos instrumentos originais. Essas versões foram
encaminhadas para o processo de retrotradução.
Retrotradução: O processo de retrotradução da VCP de
cada instrumento foi realizado por dois tradutores independentes
(distintos em cada um dos instrumentos do perfil sensorial 2), que
possuíam como língua materna o inglês. Foram criadas a Versão
Retrotradução 1 (VRT1) e Versão Retrotradução 2 (VRT2) e ao
final da síntese e análise consensual pelo comitê técnico da VRT 1 e
VRT 2, foi elaborada a Versão Consensual Retrotradução (VCR),
para cada um dos cinco instrumentos.
Aprovação da autora: As versões VCP e VCR, de cada um
dos instrumentos, foram enviadas à Dra. Winnie Dunn e à NCS
Pearson e, após as adequações solicitadas e aprovação da autora,
foram criadas as versões adaptadas culturalmente dos ISP2, TSP2,
CSP2, SSP2 e SCSP2 para a população brasileira (ISP2br, TSP2br,
CSP2br , SSP2br e SCSP2br).
2ª Fase
Esta fase envolveu a análise dos critérios de evidência de
validade baseada no conteúdo, critério e construto; a confiabilidade
87
a partir da estabilidade teste-reteste, equivalência entre avaliadores
(intra e inter-examinador) e consistência interna (SOUZA et al.,
2017).
As análises de cada um dos instrumentos do Kit Perfil
Sensorial 2 foram desenvolvidas em quatro etapas:
a) Desdobramento cognitivo/validade de face: para
analisar a clareza e compreensão das versões traduzidas junto ao
público alvo (pais/cuidadores ou professores) e verificar a
compreensão, interpretação e relevância cultural da tradução e
se há necessidade da utilização de palavras alternativas (WILD
et al., 2005). Nos estudos realizados para esta etapa em cada um
dos instrumentos do perfil sensorial 2 a pesquisadora lia cada
um dos itens aos pais/cuidadores ou professores e solicitava que
eles classificassem se o item estava claro e compreensível ou não.
No ISP2 participaram 9 pais/cuidadores de bebês de até 6
meses de idade (ALMOHALHA; SANTOS; PFEIFER, 2021).
No TSP2 participaram 54 pais/cuidadores de crianças na faixa
etária de 7 a 35 meses (ALMOHALHA, 2018). No CSP2 e
Short participaram 26 pais/cuidadores de crianças e
adolescentes na faixa etária de 3 a 14 anos (ALMOHALHA;
PFEIFER, 2021). No SCPS2 participaram 22 professoras da
educação infantil e do ensino fundamental (COSTA, 2019).
b) Confiabilidade de Equivalência inter-examinadores:
para verificar o grau de concordância entre dois ou mais
observadores quanto aos escores de um instrumento (SOUZA
et al., 2017). Para verificar a confiabilidade dos dados coletados
em cada um dos instrumentos, realizou-se a avaliação por 2
avaliadores independentes, sendo que o examinador 1 (E1) ao
aplicar o instrumento preenchia o formulário do respectivo
questionário e, ao mesmo tempo, gravava em áudio as respostas
dadas pelos respondentes (pais/cuidadores ou professoras) a
88
cada um dos itens; e o examinador 2 (E2) realizava o
preenchimento do instrumento por meio do áudio da primeira
avaliação e a análise do nível de concordância
interexaminadores foi realizada comparando as pontuações de
E1 e E2.
c) Aplicabilidade do instrumento: para verificar a
consistência interna das versões traduzidas e adaptadas
culturalmente para o Brasil de cada um dos cinco instrumentos
do perfil sensorial 2, foram realizadas as análise do alfa de
Cronbach para cada item, para o escore total, para as áreas
sensoriais e para os quadrantes de cada instrumento
(ALMOHALHA, 2018; ALMOHALHA; PFEIFER; 2021,
COSTA, 2019). Para esta análise no ISP2, participaram 135
pais/cuidadores de bebês na faixa etária de 0 a 6 meses
(ALMOHALHA; SANTOS; PFEIFER, 2021). No TSP2,
participaram 168 pais/cuidadores de crianças com idade entre
7 a 35 meses (ALMOHALHA, 2018). No CSP2 e SSP2,
participaram 192 pais/cuidadores de crianças e adolescentes
com idade entre 3 e 14 anos (ALMOHALHA; PFEIFER,
2021). No SCSP2, participaram 74 professores, que
responderam sobre um total de 146 crianças e adolescentes de
3 a 14 anos e 11 meses (COSTA, 2019). O tamanho da
amostra de cada um dos instrumentos foi determinado por
conveniência, sendo o número de participantes autorizado pela
NSC Pearson, Inc. Minnesota Corporation, que detém os
direitos autorais do uso do instrumento, possibilitou uma
distribuição adequada das crianças entre os avaliadores.
d) Estabilidade teste-reteste: visa avaliar a
reprodutibilidade de cada instrumento, ou seja, refere-se ao
grau em que resultados similares são obtidos em dois momentos
distintos (SOUZA et al., 2017). Foi realizada, com intervalos
de 7 a 14 dias, uma nova aplicação dos instrumentos a um
subgrupo de participantes que já haviam respondido ao
89
instrumento, respeitando o intervalo de tempo proposto por
Terwee e colaboradores (2007). Para o ISP2, 35 participantes
foram incluídos na etapa do teste-reteste (ALMOHALHA;
SANTOS; PFEIFER, 2021). Para o TSP2, 39 pais/cuidadores
de crianças entre 7 e 35 meses responderam novamente ao
questionário após o intervalo proposto (ALMOHALHA,
2018). No CSP2 e no SSP2, 30 pais/cuidadores de crianças
entre 3 e 14 meses (RODRIGUES; PFEIFER, 2022). E no
SCSP2, 22 professoras de crianças e adolescentes entre 3 e 14
anos, com intervalos de 7 a 14 dias responderam ao
instrumento (COSTA, 2019).
Considerações Finais
Estes estudos aqui apresentados, forneceram cinco
instrumentos traduzidos, adaptados culturalmente e validados
preliminarmente para avaliar o perfil sensorial de crianças e
adolescentes brasileiros, do nascimento aos 14 anos e 11 meses de
idade.
Dentre as limitações encontradas nestes estudos destaca-se o
número limitado de participantes em cada um dos instrumentos do
perfil sensorial autorizado pela empresa que detém os direitos
autorais. Assim, embora para cada um dos instrumentos tenha sido
realizada a análise e a organização dos dados normativos referente ao
processamento sensorial de crianças brasileiras, os quais distinguiram
dos dados americanos, não se pode defini-los como confiáveis,
devido à restrição da amostra.
Assim, sugere-se novos estudos para continuidade das
análises psicométricas para apresentação de novas evidências de
validade.
90
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CAPÍTULO 4
PROTOCOLO DE OBSERVAÇÃO CLÍNICA NÃO
ESTRUTURADA COM ÊNFASE NA ABORDAGEM DE
INTEGRAÇÃO SENSORIAL
Aila Narene Dahwache Criado Rocha
Heloisa Briones Mantovani
Rubiana Cunha Monteiro
Introdução
Este manuscrito é resultado das atividades de pesquisa e
extensão vivenciadas pelos colaboradores do Laboratório de Estudos
em Acessibilidade, Tecnologia Assistiva e Inclusão (LATAI) da
Universidade Estadual Paulista (UNESP) na Faculdade de Filosofia
e Ciências (FFC), Câmpus de Marília. Desde o ano de 2018, o
LATAI tem uma linha de pesquisa denominada “Processos de
intervenção com ênfase na Abordagem de Integração Sensorial de
Ayres®”, que contempla investigações numa perspectiva
epistemológica, bem como dos aspectos inerentes às práticas da
Terapia Ocupacional, da avaliação à intervenção, nos diferentes
contextos da criança.
Desde então, os diferentes estudos provenientes desta linha
de pesquisa promoveram evidências que deram origem a disserta-
[Link]
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