CAPÍTULO 2
A INTEGRAÇÃO SENSORIAL NAS PRODUÇÕES
CIENTÍFICAS BRASILEIRAS: REVISÃO DE LITERATURA
Heloisa Briones Mantovani
Bianca Rosa Fadoni
Karina dos Santos Moitinho
Sarah Elias Suhr
Aila Narene Dahwache Criado Rocha
Introdução
A Integração Sensorial (IS), de acordo com Ayres (1972), é
caracterizada pelos processos neurais que organizam, interpretam,
processam e modulam as informações sensoriais advindas do corpo
e do ambiente externo para facilitar a exploração adequada do
ambiente pelo corpo. Nosso cérebro recebe constantemente
informações simultâneas que chegam através dos nossos sentidos
(tátil, vestibular, proprioceptivo, olfativo, visual, auditivo e
gustativo) e quando o cérebro consegue organizá-las, somos capazes
de usá-las para favorecer nossa percepção, comportamento e
aprendizagem. Quando, por algum motivo, o processamento
sensorial dessas informações acontece de maneira desorganizada,
temos dificuldades em organizar o que sentimos e,
[Link]
49
consequentemente, não conseguimos responder às demandas do
ambiente de maneira adequada (AYRES, 1972; OLIVEIRA;
SOUZA, 2022; SERRANO, 2016).
O processamento sensorial diz respeito à forma como o
Sistema Nervoso Central (SNC) recebe os estímulos advindos dos
sistemas sensoriais, realiza a modulação, integração, discriminação e
organização das sensações, a fim de criar uma resposta adaptativa, ou
seja, uma resposta adequada, às situações que estão sendo
experimentadas. Os estímulos e respostas provenientes do ambiente
e do próprio corpo, possibilitam que o indivíduo compreenda o que
ocorre ao seu redor, fazendo com que não haja sobrecarga ou
distração com as informações (BRITTO et al., 2020).
A Drª. Anna Jean Ayres iniciou seus estudos acerca desse
processo neurológico na década de 60, o que originou a hoje
conhecida por Teoria de Integração Sensorial de Ayres®, que tem
como propósito explanar os problemas comportamentais e de
aprendizagem leves e moderados, principalmente os que estão
associados com as dificuldades na modulação sensorial e
incoordenação motora, sendo que os mesmos não podem estar
relacionados a danos ou anormalidades do SNC (CARDOSO;
BLANCO, 2019; OLIVEIRA; SOUZA, 2022; SERRANO, 2016).
Crianças que possuem Disfunções de Integração Sensorial
(DIS) apresentam dificuldade para planejar e executar os
movimentos, o que repercute no engajamento em suas atividades de
vida diária e são o público alvo ideal para as intervenções de IS.
(BARROS, 2019; REIS; COSTA; OLIVEIRA, 2017). Os
procedimentos da intervenção de IS são traçados para ampliar as
funções sensoriais e motoras que ajudam a criança a aprender novas
50
habilidades mais facilmente. Para isso, o terapeuta ocupacional deve
levar em consideração, durante suas intervenções, o interesse e
motivação da criança, selecionando as experiências sensoriais (toque,
movimento, sensações musculares e articulares), oferecendo desafios
“na medida certa” com encorajamento, empatia, motivação e
conduzindo à organização das respostas da criança dentro do
contexto da brincadeira (ABIS, 2021; SERRANO, 2016).
Essas intervenções devem ser baseadas em avaliações
padronizadas e delineadas, de acordo com a Medida de Fidelidade©
de Intervenção de Integração Sensorial Ayres®. A medida de
fidelidade orienta a aplicação dos princípios da IS na prática
terapêutica ocupacional e na realização de pesquisas. No Brasil,
somente o terapeuta ocupacional pode realizar a formação completa
e obter a Certificação Internacional de Integração Sensorial de
Ayres®. Os programas de Certificação são divididos em módulos:
Fundamentos teóricos da Integração Sensorial de Ayres®, Avaliação
da Função de IS e Disfunção; Interpretação de Dados de Avaliação
para informar o Raciocínio Clínico, Intervenção em Integração
Sensorial de Ayres®. As quatro áreas de conteúdo podem ser
distribuídas em diferentes fases do processo de aprendizagem e não
necessariamente apresentadas como cursos separados (ABIS, 2021).
Tendo isso em vista, é possível afirmar que a IS é um
processo neurofisiológico que possui o envolvimento de diversos
sistemas sensoriais, os quais estão relacionados a memórias e
aprendizagem (OLIVEIRA; SOUZA, 2022). Sendo assim, permite
a promoção, desenvolvimento e a manutenção de habilidades
necessárias para que o indivíduo torne-se funcional em todos os
contextos em que está inserido (CREFITO-5, 2017). Diante do
51
exposto, o objetivo deste estudo foi identificar a produção científica
brasileira, expressa por meio de artigos, sobre a Integração Sensorial
de Ayres®.
Método
Trata-se de um estudo qualitativo, exploratório e de uma
revisão de literatura. A questão norteadora foi: Como se configura
as publicações brasileiras na área da Integração Sensorial?
O levantamento de dados foi realizado através da busca em
cinco bases de dados: Portal Brasileiro de Publicações Científicas em
Acesso Aberto (OASIS), Scientific Electronic Library Online
(SCIELO), Portal de Periódicos CAPES, Cadernos Brasileiros de
Terapia Ocupacional (UFSCar), Revista Interinstitucional Brasileira
de Terapia Ocupacional (RevisbraTO) e Revista de Terapia
Ocupacional da Universidade de São Paulo (USP) e correspondente
ao período de 01 de janeiro de 2016 a 01 de junho de 2022. Foram
utilizadas as seguintes palavras-chave: “Integração Sensorial” OR
“Processamento Sensorial”. A busca foi realizada através dos títulos,
seguida pela verificação do conteúdo integral do resumo de cada
artigo. Os critérios de inclusão foram: artigos completos publicados
nas bases de dados e durante o período selecionado, e os critérios de
exclusão, por sua vez: revisões de literatura e artigos em outros
idiomas, que não fosse o português. A Imagem - 1 mostra as etapas
realizadas para o levantamento dos dados.
52
Imagem 1- Etapas para o levantamento de dados
Fonte: Elaborado pelas autoras
Foi realizada a análise do conteúdo proposta por Bardin
(2016), através da categorização dos dados, com o objetivo de
agrupar os elementos e ideias presentes na amostra. Foram criadas
cinco categorias a fim de expor a frequência com que esses dados
aparecem: Ano publicação; Formação dos autores; Público alvo da
pesquisa; Instrumentos utilizados; Abordagem utilizada. Os dados
foram organizados segundo o ano de publicação. A tabela 1 descreve
as categorias criadas.
53
Tabela 1- Categorias
Categorias Descrição
Ano de publicação Ano em que cada artigo foi publicado
Formação dos profissionais Formação dos autores dos artigos selecionados
Características/diagnóstico dos participantes dos
Público alvo das pesquisas
artigos selecionados
Subdividida em: Instrumentos estruturados de
Integração Sensorial de Ayres®; Instrumentos não
Instrumentos utilizados
estruturados de Integração Sensorial de Ayres®;
Instrumentos estruturados complementares
Subdividida em: Abordagem de Integração
Sensorial de Ayres®; Abordagem de ISA associada à
Abordagens utilizadas
outra abordagem; Abordagem de Estimulação
Sensorial.
Fonte: Elaborado pelas autoras
Resultados e Discussão
Para melhor compreensão, primeiramente será mostrado os
resultados das etapas para o levantamento dos dados, depois será
realizada a caracterização dos periódicos selecionados e,
posteriormente, os resultados serão discutidos de acordo com as
categorias criadas.
Foram avaliados os títulos, palavras-chaves de 25 artigos
publicados entre os anos de 2016 a 2022. Entre eles, apenas nove
atenderam os critérios de inclusão e foram selecionados para leitura
na íntegra deste estudo. A Imagem 2 apresenta os resultados de cada
54
etapa realizada para levantamento dos dados e a Tabela 2 caracteriza
os nove artigos selecionados para este estudo, em relação à referência,
ano de publicação e base de dados em que cada artigo foi
encontrado.
Imagem 2 - Resultados das etapas realizada
Fonte: Elaborado pelas autoras
55
Tabela 2- Caracterização dos periódicos selecionados
Nº do Ano de
Referência Base de dados
artigo Publicação
BUFFONE, Flávia Regina Ribeiro
Cavalcanti; EICKMAN, Sophie Helena; Cadernos
LIMA, Marília de Carvalho. Processamento Brasileiros de
1 sensorial e desenvolvimento cognitivo de 2016 Terapia
lactentes nascidos pré-termo e a termo. Cad. Ocupacional
[Link]. UFSCar, São Carlos, v. 24, n.4, (UFSCAR)
p. 695-703, 2016.
REIS, Deyvianne Thayanara de Lima; DA
COSTA, Renata Moura; DE OLIVEIRA,
Lilian Voughan Lima. Repercursões dos
transtornos de processamento sensorial ao
desempenho funcional de crianças com
2 paralisia cerebral/Repercussions of sensory 2017 CAPES
processing disorders in the functional skills
of children with cerebral palsy. Revista
Interinstitucional Brasileira de Terapia
Ocupacional-REVISBRATO, v. 1, n. 3, p.
318-331, 2017
BRITTO, Luana Borges; SANTOS, Camila
Boarini; GARROS, Danielle dos Santos
Cutrim; ROCHA, Aila Narene Dahwache
Criado. Práticas e desafios para a terapia
3 ocupacional no contexto da Intervenção 2020 CAPES
Precoce Processamento sensorial e
oportunidades para o desenvolvimento de
bebês. Rev Ter Ocup Univ São Paulo, v.31,
n. 1-3, p. 9-16, 2020.
MATOS, Hédila de Almeida;
4 CALHEIROS, Maria Natália Santos; 2020 OASIS
VIRGULINO, Jessyca Gabrielle
56
Albuquerque. A relação entre os princípios
da integração sensorial e dificuldades de
aprendizagem na visão dos professores de
educação infantil na cidade de Lagarto/SE.
Rev. Interinst. Bras. Ter. Ocup. Rio de
Janeiro, v.4, n. 6, p. 891-910, 2020.
MONTEIRO, Rubiana Cunha; SANTOS,
Camila Boarini dos; ARAÚJO, Rita de
Cássia Tibério; GARROS, Danielle dos
Santos Cutrim; ROCHA, Aila Narene
5 Dahwache Criado. Percepção de professores 2020 SCIELO
em relação ao processamento sensorial de
estudantes com Transtorno do Espectro
Autista. Revista Brasileira de Educação
Especial, v. 26, p. 623-638, 2020.
SOUSA, Patrícia Amaral; OLIVEIRA,
Roberta Martins; ALMOHALHA, Lucieny.
Perfil sensorial de crianças com distúrbio de
6 2020 OASIS
aprendizagem sob a ótica materna. Rev.
Interinst. Bras. Ter. Ocup. Rio de Janeiro,
v.4, n.6, p.968-984, 2020.
SOUZA, Vanessa Rafaelle Brasil de Souza.
A atuação do terapeuta ocupacional com
base na Teoria da Integração Sensorial na
7 assistência de crianças com Transtorno do 2020 CAPES
Espectro Autista (TEA) durante a pandemia
da Covid-19. Rev. Interinst. Bras. Ter. Ocup.
Rio de Janeiro. v.4. n. 3. 371-379, 2020.
FERNANDES, Amanda Dourado Souza
Akahosi; POLLI, Letícia Migliatti;
8 MARTINEZ, Luciana Bolzan Agnelli. 2021 CAPES
Características Psicomotoras e Sensoriais de
crianças com Transtorno do Espectro
57
Autista (TEA) em atendimento terapêutico
ocupacional. Revista Chilena de Terapia
Ocupacional, v. 22, n. 2, p. 137-146, 2021.
OLIVEIRA, Pâmela Lima de; SOUZA, Ana
Paula Ramos de. Terapia com base em
integração sensorial em um caso de
9 2022 SCIELO
Transtorno do Espectro Autista com
seletividade alimentar. Cadernos Brasileiros
de Terapia Ocupacional, v. 30, 2022.
Fonte: Elaborado pelas autoras
É possível observar, de acordo com o Gráfico 1, que a
maioria dos artigos selecionados foram encontrados na base de dados
Portal de Periódicos CAPES (44,5%). Alguns dos artigos foram
identificados em mais de uma das bases de dados, sendo
contabilizados na base de dados Portal de Periódicos CAPES, por
ter sido a primeira fonte de pesquisa. Destaca-se também que alguns
artigos identificados na base de dados Portal de Periódicos CAPES
de origem na Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de
São Paulo (USP) e RevisbraTO não foram identificados na base de
busca dos próprios periódicos.
58
Gráfico 1 - Artigos encontrados nas bases de dados
Fonte: Elaborado pelas autoras
Categoria 1: Ano de publicação
De acordo com os resultados dessa categoria, o ano com
maior número de publicações foi 2020, com 55,6% das publicações
encontradas nesse período no Brasil. Isso pode dizer respeito ao fato
de que, nesse período, a formação em IS tornou-se mais conhecida
e almejada no país, assim como o aumento nos diagnósticos de
Transtorno do Espectro Autista (TEA), que são o público alvo dessa
intervenção. Esta maior evidência da abordagem também pode ter
refletido na produção científica no país. O Gráfico 2 mostra a
quantidade de artigos publicados durante os anos avaliados.
59
Gráfico 2 - Ano de publicação
Fonte: Elaborado pelas autoras
Categoria 2: Formação dos profissionais
Os resultados mostraram que 88,9% dos profissionais
autores dos artigos eram terapeutas ocupacionais, formados em
diversas universidades do país. Apenas três dos autores eram de
outras profissões, sendo elas fonoaudiologia e medicina. O Gráfico
3 mostra a formação dos profissionais autores dos artigos.
Gráfico 3: Formação dos autores
Fonte: Elaborada pelas autoras
60
Isso pode ser justificado porque, segundo o Conselho
Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (COFFITO), na
Resolução nº483, de 12 de junho de 2017, o Terapeuta
Ocupacional é o profissional competente para avaliar, utilizar
recursos e estratégias terapêuticas, assim como desenvolver pesquisas
no campo da IS.
Categoria 3: Público alvo das pesquisas
De acordo com os resultados dessa categoria, a maioria do
público alvo das pesquisas foram crianças com TEA, representando
44,5% das publicações. O segundo público alvo mais encontrado
nos artigos selecionados dizem respeito a prematuros, os outros estão
divididos entre participantes com Paralisia Cerebral (PC) e
Professores da Educação Infantil. O Gráfico 4 mostra o público alvo
dos artigos selecionados.
Gráfico 4: Público Alvo dos artigos selecionados
Fonte: Elaborado pelas autoras
61
Uma pesquisa realizada por Monteiro e colaboradores
(2020), identificou a percepção dos professores em relação ao
processamento sensorial dos estudantes com TEA, utilizando o
questionário Perfil Sensorial 2 de Acompanhamento Escolar como
instrumento de avaliação. Participaram desta pesquisa 19 professores
de Educação Infantil e Ensino Fundamental I, de escolas públicas,
de um município do interior do estado de São Paulo, bem como
seus estudantes, sendo 62 no total. Os resultados mostraram que
houve prevalência na indicação de crianças hiper-reativas, na
classificação dos estudantes com TEA e o perfil característico para
Disfunções de IS. Evidenciou-se a importância de cuidados quanto
à adequação do ambiente para a realização de atividades, mediante a
implementação de intervenções baseadas em estratégias de IS para os
estudantes, a fim de melhorar a participação e o desempenho desses
alunos nas atividades escolares.
O estudo de Matos, Calheiros e Virgolino (2020), objetivou
entender a percepção dos professores de educação infantil sobre os
princípios da IS, assim como a identificação dos sinais sugestivos de
Disfunção de Integração Sensorial e as atribuições do processo de
aprendizagem. Participaram da pesquisa 13 professores da rede de
Educação Infantil do município de Lagarto/SE. Portanto, este
estudo traz a problematização da relação entre princípios da IS e
Dificuldades de Aprendizagem, principalmente objetivando à
capacitação do professor da Educação Infantil, visto que o mesmo
lida, diariamente e diretamente, com situações adversas que podem
indicar uma Disfunção de Integração Sensorial. O estudo conclui
que o terapeuta pode atuar, também, por meio de consultoria
colaborativa na escola, avaliando cada caso em particular e, além de
62
apoio e orientações a todos que compõem a escola, pode oferecer
contribuições para uma intervenção contextualizada e centrada nas
particularidades de cada realidade.
Com o objetivo de caracterizar o perfil sensorial de crianças
com PC, buscando conhecer se existe relação entre processamento
sensorial e independência do indivíduo, Reis, Costa e Oliveira
(2017), utilizaram as avaliações: Perfil Sensorial, Inventário de
Avaliação Pediátrica de Incapacidade (PEDI) - Parte 1 e o Sistema
de Classificação da Função Motora Grossa (GMFCS). Os resultados
demonstraram que houve uma prevalência de participantes do sexo
masculino (72%), assim como comprovaram que existe uma
correlação entre a área função social do PEDI com o item L do Perfil
Sensorial, cujo sumário por seção corresponde às respostas
comportamentais e emocionais. Portanto, torna-se fundamental
que, desde cedo, as crianças com PC comecem o tratamento
terapêutico ocupacional, pois, assim, irão adquirir conhecimento
por meio da manipulação de diversos objetos/jogos, do contato com
texturas distintas, cheiros, e das experiências vivenciadas no meio em
que se desenvolvem.
Categoria 4: Instrumentos Utilizados
Os resultados mostraram que 52,63% dos instrumentos
utilizados nos artigos selecionados são da subcategoria
“Instrumentos Estruturados complementares” que diz respeito à
instrumentos como a Scales Bayley of Infant Development (BAYLEY,
2006), a Gross Motor Function Classification System (GMFCS)
63
(PALISIANO et al., 1997), formulários e entrevistas semi-
estruturadas criadas pelos autores dos artigos.
Quando comparado a quantidade de Instrumentos
Estruturados de Integração Sensorial de Ayres® e Instrumentos Não
Estruturados de Integração Sensorial de Ayres®, esta última
subcategoria está mais presente, uma vez que os instrumentos mais
utilizados nos artigos selecionados foram o Perfil Sensorial (Dunn,
2017) e Test of Sensory Functions in Infants (TSFI) (DEGANGI;
GREENSPAN, 1989). Instrumentos padronizados de Integração
Sensorial de Ayres®, como o Sensory Integration and Praxis Test
(SIPT) (AYRES, 1998) e o Sensory Processing Measure (SPM)
(PARHAM et al., 2007). O Gráfico 5 mostra os instrumentos
utilizados nos artigos selecionados.
Gráfico 5 - Instrumentos Utilizados
Fonte: Elaborado pelas autoras
O estudo realizado por Buffone, Eickman e Lima (2016),
teve como objetivo avaliar a relação entre o processamento sensorial
64
e o desenvolvimento cognitivo de lactentes e, também, a associação
entre a prematuridade e o processamento sensorial dessa população.
Participaram da pesquisa 182 lactentes, de oito a 15 meses de idade,
sendo que 54 (29,7%) nasceram prematuros. Os instrumentos
utilizados neste estudo foram o Test of Sensory Functions in Infants
(TSFI) e a Bayley Scales of Infant and Toddler Development III. Os
resultados do estudo demonstraram uma frequência
substancialmente maior de processamento sensorial em risco e
deficiente entre os lactentes nascidos pré-termo (37%) quando
comparado ao processo sensorial dos nascidos a termo (21,9%).
Com relação ao atraso cognitivo, foi notório que é
consideravelmente maior (8,3%) entre os lactentes com
processamento sensorial em risco e deficiente, quando comparados
aos com processamento sensorial normal (1,5%).
Já com o objetivo de caracterizar o processamento sensorial
e as oportunidades ambientais de bebês, o estudo de Britto e
colaboradores (2019) teve como participantes pais de 21 bebês de 0
a 24 meses e os instrumentos utilizados foram: Perfil Sensorial 2 do
Bebê e Perfil Sensorial 2 da Criança Pequena. A pesquisa trouxe
como resultado a necessidade do monitoramento do
desenvolvimento de bebês sem indicativos de atrasos no
desenvolvimento, pela Atenção Primária à Saúde, visto que existem
áreas do processamento sensorial nas quais os bebês apresentam
alterações no seu desenvolvimento, menor e/ou maior do que o
esperado para idade, podendo interferir nas atividades diárias do
bebê.
A pesquisa desenvolvida por Sousa, Oliveira e Almohalha
(2020) apresentou, a partir da ótica materna, uma descrição do perfil
65
sensorial de crianças com distúrbios de aprendizagem (DA);
identificar alterações ou déficits sensoriais e analisar a presença de
possíveis relações entre manifestações sensoriais e DA. Participaram
13 mães de crianças entre 7 e 10 anos de idade, de ambos sexos, com
diagnóstico de DA, que responderam ao Perfil Sensorial 2. Por meio
deste estudo, foi possível verificar uma maior quantidade de
respostas sensoriais não usuais do que de respostas usuais aos
estímulos sensoriais do meio no qual a criança se inseriu, indicando
que as crianças participantes desta pesquisa possuíam sinais de
alterações sensoriais.
Categoria 5: Abordagem utilizada
De acordo com os resultados dessa categoria, na maioria dos
artigos selecionados (66,7%) prevalecem propostas que utilizam a
Abordagem de Estimulação Sensorial que diz respeito a intervenções
marcadas pelo oferecimento de estímulos táteis e proprioceptivos,
por exemplo e não aos princípios que caracterizam a Abordagem de
Integração Sensorial de Ayres®. Os periódicos que utilizam a
Abordagem de Integração Sensorial de Ayres® mostraram resultados
positivos nas habilidades de noção espacial, corporal e temporal. No
Gráfico 6 são apresentadas as abordagens utilizadas pelos autores dos
artigos.
66
Gráfico 6 - Abordagens utilizadas
Fonte: Elaborado pelas autoras
Oliveira e Souza (2022), através do estudo realizado,
analisaram a relação entre a seletividade alimentar e a DPS em
crianças com TEA e acompanharam sua evolução com abordagem
terapêutica de intervenção sensorial. O participante foi um menino
de cinco anos, com diagnóstico de TEA e seletividade alimentar, que
foi acompanhado por um ano e cinco meses e os instrumentos
utilizados foram o Protocolo Perfil Sensorial – Questionário para os
Pais – 3 a 10 anos e o roteiro sobre a alimentação. Os resultados
demonstraram que o caso acompanhado traz a relação entre
alterações sensoriais e seletividade alimentar, o que faz a
compreensão do funcionamento dos sistemas sensoriais e sua
interferência no processo da alimentação se tornar essencial, bem
como, elaborar um plano singular de intervenção para ultrapassar as
limitações sensoriais corporais. A intervenção de IS, nesse estudo de
caso, foi possível permitir a evolução sensório-motora da criança,
produzindo efeitos importantes em seu processo de alimentação.
67
A pesquisa de Fernandes e colaboradores (2021), objetivou
identificar as características psicomotoras e sensoriais de crianças
com diagnóstico de TEA atendidas no setor de Terapia Ocupacional
na Unidade Saúde Escola da Universidade Federal de São Carlos
(USE-UFSCar). Os participantes foram nove crianças de quatro a
dez anos de idade, com diagnóstico de TEA e seus responsáveis. Os
instrumentos utilizados foram: Questionário de dados gerais, Bateria
Psicomotora (BPM) e o Perfil Sensorial. Os resultados
demonstraram que os participantes apresentaram déficits no
desenvolvimento psicomotor, principalmente no que se refere a
noção espacial/temporal, corporal e coordenação motora global e
fina. Já em âmbito sensorial, os déficits mais significativos se
encontram no campo do processamento sensorial, mais
especificamente nos sistemas auditivo, vestibular, multissensorial e
oral, além da inatenção, sensibilidade oral, constante procura
sensorial e na modulação sensorial, sendo destacadas as modulações
nas respostas emocionais.
Ainda em relação às abordagens utilizadas nos artigos, o
estudo de Souza (2022) teve o objetivo de descrever a intervenção
terapêutica ocupacional no telemonitoramento de duas crianças com
TEA de 4 e 8 anos, durante o período de isolamento social na
pandemia do novo Coronavírus - COVID-19. Devido ao contexto
pandêmico e para atender às necessidades da intervenção, construiu-
se um método de avaliação e elaboração da dieta sensorial, de acordo
com os conhecimentos científicos sobre Modelo da Ocupação
Humana, Teoria da Integração Sensorial de Ayres®, etapas do
desenvolvimento infantil e análise do brincar. A contar deste
momento, houve a constituição de um programa de dieta sensorial
68
para ser executado, em ambiente domiciliar. Os resultados
demonstraram que a implementação da dieta sensorial em crianças
com TEA, executada por meio da modalidade de
telemonitoramento, mostrou-se como uma maneira inovadora de
estruturação de atividades, levando em consideração os aspectos
sensoriais das crianças, suas ocupações, habilidades e fragilidades no
brincar, além da rotina familiar e das percepções do cuidador.
Considerações Finais
O presente estudo teve como objetivo identificar a produção
de artigos brasileiros sobre a Integração Sensorial de Ayres® e seus
resultados mostraram que, a maioria dos artigos selecionados, foram
publicados no ano de 2020, por terapeutas ocupacionais, em que o
público-alvo era composto por crianças com TEA. Os instrumentos
mais utilizados por esses artigos foram aqueles que o estudo nomeou
de Instrumentos Estruturados Complementares, ou seja, aqueles
como Scales Bayley of Infant Development (BAYLEY, 2006), a Gross
Motor Function Classification System (GMFCS) (PALISIANO et al.,
1997), formulários e entrevistas semi-estruturadas e as abordagens
que compuseram a maioria deles dizem respeito à Abordagem de
Estimulação sensorial, que consiste no oferecimento de estímulos
sensoriais táteis e proprioceptivos.
Evidenciou-se também a necessidade da publicação de mais
pesquisas acerca do tema, uma vez que, cada vez mais, reconhece-se
a importância da Intervenção de Integração Sensorial de Ayres®
dentro do ambiente clínico e isso deve ser evidenciado por meio de
pesquisas publicadas em revistas científicas.
69
Portanto, foi possível concluir que esse tipo de intervenção é
importante para o desenvolvimento infantil, uma vez que, através
das sensações experienciadas dentro da terapia, a criança se torna
capaz de organizar as informações sensoriais, classificá-las e integrá-
las, de maneira a conseguir responder aos estímulos do ambiente e
assim, realizar suas ocupações de maneira adequada.
Referências
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