4.
5 ABNT NBR ISO 26000:2010 – Diretrizes da
responsabilidade social
Em um contexto marcado pela proliferação de normas relacionadas à
responsabilidade social, surge a ISO 26000, na tentativa de produzir uma
norma global que atendesse a demanda pela responsabilidade social. Em
2001, durante uma reunião do Comitê da ISO, foi discutida, pela primeira
vez, a criação de uma norma internacional de responsabilidade social
empresarial. Entretanto foi em 2005 que essa norma começou de fato a ser
desenvolvida, liderada pelo Instituto Sueco de Normalização (SIS – Swedish
Standards Institute) e a ABNT.
Em 2010, foi publicada a Norma Internacional ISO 26000 – Diretrizes sobre
responsabilidade social, em Genebra, Suíça. A versão portuguesa da
norma foi lançada em São Paulo com a denominação de ABNT NBR ISO
26000.
Diretrizes da responsabilidade social
A ISO 26000 fornece orientação sobre como empresas e organizações
podem operar de uma forma socialmente responsável, agindo de forma
ética e transparente e assim contribuindo para a saúde e o bem-estar da
sociedade. As diretrizes e temas centrais da responsabilidade social de
acordo com a ISO 26000 estão a seguir.
Organização: desenvolvimento social, práticas de trabalho, governança
organizacional, práticas leais de operação, meio ambiente, questões
relativas aos consumidores e direitos humanos.
Governança organizacional
A governança organizacional é uma função essencial a toda organização,
ela pode ser definida como o sistema pelo qual a organização toma suas
decisões e a implementa, na busca de seus objetivos e metas. A
governança organizacional pode envolver mecanismos formais de
governança, por meio de estruturas e processos definidos, como também
mecanismos informais, representados a partir da cultura e dos valores da
organização, influenciados, muitas vezes, pelas pessoas que estão na
administração da organização.
Assim, a governança organizacional é imprescindível ao se tratar da
responsabilidade social, pois uma organização que procura ser
socialmente responsável precisa ter um sistema de governança
organizacional que permita à organização supervisionar e pôr em prática
os princípios da responsabilidade social.
Direitos humanos
Os direitos humanos são os direitos básicos atribuídos a todos os seres
humanos. Eles se dividem em duas categorias, os direitos civis e políticos,
que abrangem direitos, como o direito à vida e à liberdade, igualdade
perante a lei e liberdade de expressão. A outra categoria diz respeito aos
direitos econômicos, sociais e culturais, os quais envolvem direito ao
trabalho, o direito à alimentação, o direito ao mais alto possível padrão de
saúde, o direito à educação e o direito à seguridade social.
É dever e responsabilidade dos Estados respeitarem, proteger e cumprir os
direitos humanos. Com as organizações, não poderia ser diferente, elas
também têm a responsabilidade de respeitar os direitos humanos, inclusive
dentro de sua esfera de influência. Dentre as principais questões
abordadas nesse tema, destaca-se o dever da organização não praticar
discriminação contra empregados, parceiros, clientes, partes interessadas,
conselheiros, sócios ou qualquer outra parte interessada que ela possa
impactar.
Práticas de trabalho
As práticas de trabalho de uma organização são representadas por todas
as políticas e práticas referentes ao trabalho desenvolvido dentro, para ou
em nome da organização, incluindo também trabalho subcontratado.
Assim, as práticas de trabalho ultrapassam e vão muito além da fronteira
física da organização, envolvem recrutamento e promoção de
colaboradores, procedimentos disciplinares e de queixas, transferência e
realocação de trabalhadores, rescisão de emprego, treinamento e
capacitação, saúde, segurança e higiene industrial e quaisquer políticas
ou práticas que afetem as condições de trabalho, jornada de trabalho e a
remuneração. Além disso, as práticas de trabalho incluem o
reconhecimento de organizações e de representantes de trabalhadores e
a participação de organizações trabalhistas e a negociação com as
mesmas.
Meio ambiente
As organizações durante seus processos produtivos e organizacionais
podem gerar inúmeros impactos negativos ao meio ambiente. Sabemos
que o planeta passa por muitos problemas ambientais dentre os quais, o
esgotamento dos recursos naturais, poluição, mudanças climáticas,
destruição dos hábitats naturais, degradação do ecossistema.
Com o crescimento da população, o consumo também aumenta, levando
as organizações a aumentar seus impactos no meio ambiente e no bem
estar da sociedade. Para reduzir os impactos ambientais é preciso que a
empresa adote um sistema integrado, considerando, nas suas decisões e
atividades, as variáveis econômicas, sociais na saúde e no meio ambiente.
A responsabilidade ambiental é um fator determinante para a
sobrevivência e manutenção da espécie humana, sendo assim
fundamental na responsabilidade social.
As organizações devem respeitar e seguir os seguintes princípios
ambientais:
Responsabilidade ambiental – a organização deve assumir a
responsabilidade pelos impactos ambientais provocados por suas
atividades em áreas rurais ou urbanas e no meio ambiente, devendo ainda
implementar melhorias no seu desempenho e dentro de sua esfera de
influência.
Princípio da precaução – quando houver ameaças de danos graves ou
irreversíveis ao meio ambiente ou à saúde humana, a falta de certeza
científica absoluta não deve ser razão para postergar medidas eficazes em
função dos custos para evitar a degradação ambiental ou danos à saúde
humana.
Gestão de risco ambiental – a organização deve implementar programas
usando uma perspectiva baseada em riscos e na sustentabilidade para
avaliar, evitar, reduzir e mitigar riscos e impactos ambientais de suas
atividades. Nesse sentido, é preciso desenvolver atividades de
conscientização e procedimentos de resposta a emergências para reduzir
os impactos ambientais, garantir a saúde e a segurança social, divulgando
sempre as autoridades competentes às informações a respeito de
acidentes.
Poluidor pagador – os custos da poluição, provocada pelas atividades da
organização, conforme sua gravidade devem ser arcadas pelas mesmas,
bem como a organização deve realizar ações corretivas, ou na medida
em que a poluição ultrapassa um nível aceitável.
Práticas leais de operação
Essa diretriz refere-se à conduta ética nas atividades e no negócio da
organização com as demais, promovendo resultados positivos. Isso envolve
todas as relações que a organização possui, seja com órgãos públicos,
como parceiros, fornecedores, clientes, concorrentes e empresas
terceirizadas.
As práticas legais de operação têm o objetivo de combater a corrupção,
proporcionar o envolvimento responsável na esfera pública, estimular a
concorrência leal, o comportamento socialmente responsável e o respeito
pelos direitos de propriedade.
Assim, podemos perceber que o comportamento ético é essencial para a
sustentação de relações legítimas e produtivas entre as organizações.
Desse modo, observar, promover e encorajar o comportamento ético na
organização está implicitamente inserida em todas as práticas leais de
operação.
Questões relativas ao consumidor
As organizações oferecem produtos e serviços aos consumidores e clientes,
tendo assim responsabilidades para com os mesmos. Estas
responsabilidades envolvem o provimento em educação e informações
precisas, utiliza comunicações de marketing leais e contratos justos,
transparentes e úteis e estimula o consumo sustentável e o design de
produtos e serviços que ofereçam acesso a todos.
Além disso, as responsabilidades incluem a minimização de riscos
decorrentes do uso de produtos e serviços por meio de procedimentos de
design, fabricação, distribuição, prestação de informações, serviços de
suporte, retirada de produtos do mercado e recall.
Portanto, as organizações têm oportunidades significativas em contribuir
para o consumo sustentável e o desenvolvimento sustentável por meio dos
produtos e serviços que oferecem e as informações que prestam, entre as
quais informações sobre uso, reparos e descarte.
Envolvimento e desenvolvimento da comunidade
Toda organização está inserida em uma comunidade, e o envolvimento
com a comunidade pode contribuir para o desenvolvimento da mesma,
assim reconhecer o valor da comunidade é fundamental para as
organizações. O envolvimento da comunidade pode ser de forma
individual ou por meio de associações, tem como objetivo o bem comum
e fortalece as organizações. As empresas que se preocupam com a
comunidade em que atua, demonstram valores democráticos e cívicos,
agindo de maneira respeitosa, proporcionando o desenvolvimento social e
a melhoria na qualidade de vida da população.
Um dos princípios básicos do envolvimento da comunidade é a interação
com as partes interessadas, enfatizando os impactos das atividades da
organização, apoiando e construindo um relacionamento com a
comunidade. Podemos entender que o envolvimento de uma organização
com a comunidade parte do reconhecimento de que estas tem interesses
em comum.
A partir do envolvimento da organização com a comunidade, esta
contribui para a geração de emprego, para a geração de riqueza e renda
por meio de iniciativas de desenvolvimento econômico local e
investimentos, desenvolvimento de programas de educação e
capacitação, promoção e preservação da cultura e das artes, e
prestação de serviços de saúde para a comunidade.
Processo de implantação da ISO 26000
Com relação ao seu processo de implantação, a normativa ISO 26000 é
orientada pelo ciclo PDCA. É importante destacar que essa norma é
aplicável a todos os tipos de organizações, inclusive as de caráter
governamental. Dentro do seu escopo a ISO 26000, além de estabelecer as
diretrizes para a responsabilidade social, identifica e interage com
seus stakeholders, comunica o compromisso e o desempenho com a
responsabilidade social, colabora para o desenvolvimento sustentável,
instigando as organizações de ir além dos aspectos exigidos por lei.
As diretrizes para a implementação da responsabilidade social de acordo
com a norma ISO 26000 e seus princípios, incluem as atividades a seguir:
• Entender o contexto da responsabilidade social.
• Atuar com stakeholders.
• Integrar a responsabilidade social nos objetivos e estratégias de uma
organização.
• Implantar ações de responsabilidade social nas práticas diárias.
• Comunicar a responsabilidade social.
• Avaliar as atividades e práticas de responsabilidade social.
• Aumentar a credibilidade.
Como principais benefícios em adotar essa norma, podemos citar a
melhoria de imagem e reputação da empresa, o aumento da vantagem
competitiva, uma maior capacidade de atrair e reter as partes
interessadas (clientes, fornecedores, acionistas...), e também pode
influenciar no comportamento dos colaboradores, no compromisso e na
maior produtividade dos mesmos.
Por fim, é importante lembrar que a ABNT NBR ISO 26000 não é uma norma
de sistema de gestão, não pode ser considerada para fins de certificação
ou uso regulatório ou contratual.
Todas as pessoas tem o sonho de um mundo melhor e mais próspero, com
ética, respeito, justiça, paz, diferenças, valores e saúde. Essa norma tem o
intuito de promover um planeta mais sustentável e seguro para as pessoas.
Agora, assista ao vídeo abaixo para entender um pouco mais sobre a ABNT
NBR ISO 26000:2010.
4.6 ABNT NBR 16001:2012 – Responsabilidade
social – Sistema de gestão – Requisitos
A NBR 16001:2012 teve sua primeira edição elaborada e publicada em
2004 pela ABNT e a sua segunda versão em 2012. Como principal
diferencial da ISO, a ABNT NBR 16001:2012 se destaca por ser uma norma
de especificação, ou seja, passível de certificação.
Dentre as principais características da NBR 16001, destaca-se a sua
aplicabilidade e possibilidade de adoção a todos os tipos e portes de
organizações. Geralmente, percebemos que as normas de sistemas de
gestão são mais utilizadas por grandes corporações, visando mudar essa
realidade a norma brasileira de responsabilidade social foi desenvolvida de
maneira a aplicar-se, também, às pequenas e médias empresas de
qualquer tipo de setor, bem como de qualquer natureza pública ou
privada.
De acordo com esta norma, a responsabilidade social é percebida como
a responsabilidade de uma organização pelos impactos que suas decisões
e atividades causam na sociedade e no ambiente em que estão inseridas,
por meio de um comportamento ético e transparente que:
• Contribua para o desenvolvimento sustentável, e promova a saúde
e o bem estar da sociedade.
• Considere as expectativas das partes interessadas.
• Cumpra com a legislação aplicável e seja consistente com as
normas internacionais de comportamento.
• Envolva e integre a responsabilidade social em toda a organização,
sendo praticada em suas relações externas.
Desse modo, esta norma define os requisitos mínimos para um sistema de
gestão da responsabilidade social. A alta gerência tem o papel de definir
sua política de responsabilidade social alinhada aos objetivos e estratégias
organizacionais. Essa política deve ser registrada, implementada e
mantida, bem como, comunicada para todos os colaboradores e
acessível aos stakeholders. Além disso, ela deve garantir o compromisso
com o desenvolvimento sustentável, nas suas três dimensões e se
comprometer com os seguintes princípios da responsabilidade social:
Responsabilização (accoutability): A organização deve ser responsável por
suas decisões e atividades, prestando contas das mesmas às autoridades
legais e às partes interessadas da organização.
Transparência: A organização deve comunicar e ser clara e honesta
quanto a suas decisões e operações que impactam a sociedade, a
economia e ao meio ambiente.
Comportamento ético: O comportamento da organização deve seguir os
princípios e normas aceitos internacionalmente, com uma conduta moral e
adequada a cada situação.
Respeito pelo interesse das partes interessadas: Saber ouvir, considerar e
responder as iniciativas das pessoas que demonstram interesse nas
decisões organizacionais.
Atendimento aos requisitos legais e outros requisitos: Estar em
conformidade com a lei.
Respeito pelas normas internacionais de comportamento: Possuir um
comportamento organizacional socialmente responsável, de acordo com
os princípios e as leis universalmente aceitos e reconhecidos.
Direitos humanos: Garantir a universalidade dos direitos humanos na
organização, cuidando do ambiente econômico, social e natural que
necessitam.
Para ter uma política da responsabilidade social eficiente é preciso que
haja o comprometimento da alta direção com a melhoria contínua e com
a prevenção de impactos adversos. A seguir, veremos os principais
requisitos da NBR 16001:2012.
Requisitos da NBR 16001:2012
Em 2006, o INMETRO aprovou os requisitos para que órgãos de certificação
possam emitir certificados de conformidade segundo esta norma. Desse
modo, as organizações interessadas estarão aptas a implantar práticas de
responsabilidade social e serão certificadas por sistema de avaliação de
conformidade, reconhecido oficialmente. Esses requisitos envolvem todo o
processo de implementação: política de responsabilidade social,
planejamento, implementação e operação, requisitos de documentação,
medição análise e melhoria e melhoria contínua.
Como podemos perceber, esta norma também segue a metodologia
descrita pelo PDCA. Anteriormente, estudamos as características da
política de responsabilidade social, assim, após a definição da política,
seguindo os requisitos destacados, a organização seguirá mais cinco
etapas, descritas a seguir juntamente com seus principais requisitos.
Planejamento
Na fase de planejamento, a organização deve definir os objetivos, metas
e programas que atenderá na área de responsabilidade social, bem como
os meios e prazos nos quais devem ser atingidos. É nessa fase que
acontece o estabelecimento, implementação e a manutenção dos
procedimentos, sendo sempre necessário documentar, identificando as
partes interessadas e suas
Ainda, lembramos que o planejamento deve estar em conformidade com
a política da responsabilidade social, e conforme a normativa ABNT NRB
16001 deve abordar ações nos seguintes aspectos:
• Combate à pirataria, sonegação e a corrupção.
• Boas práticas de governança.
• Práticas leais de concorrência.
• Direitos da criança e do adolescente e o combate ao trabalho
infantil.
• Direitos do trabalho, incluindo o de livre associação, de negociação,
remuneração justa e benefícios básicos, bem como o combate ao
trabalho forçado.
• Promoção da diversidade e combate à discriminação.
• Promoção da saúde e segurança.
• Promoção de padrões sustentáveis de desenvolvimento, produção,
distribuição e consumo de produtos e serviços, incluindo as partes
interessadas.
• Proteção ao meio ambiente e aos direito das gerações futuras.
• Ações sociais de interesse público.
Implementação e operação
A organização precisa identificar as necessidades de treinamento
associadas com seus interesses com o seu sistema da gestão da
responsabilidade social. Assim, a organização deve dar a oportunidade e a
oferta de treinamento, adotando as ações para suprir as necessidades
levantadas, visando a melhoria do desempenho pessoal.
Outros dois fatores também fazem parte da implementação e operação,
são eles a comunicação e o controle operacional. É necessário que a
organização estabeleça, implemente e mantenha procedimentos de
comunicação interna entre os diferentes níveis da organização, receber e
dar respostas sempre que solicitado as partes interessadas, além de
elaborar e divulgar informações periódicas a respeito do sistema de
responsabilidade social.
O controle operacional visa identificar e planejar aquelas operações que
estão associadas aos aspectos da responsabilidade social e garantir a sua
execução, documentando os procedimentos estabelecidos, definindo
critérios operacionais nos procedimentos e realizando a manutenção de
melhorias periódicas no plano.
Requisitos de documentação
Conforme a norma analisada, uma organização necessita possuir uma
documentação específica que inclua:
• Declarações documentadas da política da responsabilidade social
e dos objetivos e metas da responsabilidade social.
• Manual do sistema da gestão da responsabilidade social.
• Procedimentos documentados, documentos e registros definidos
pela organização como necessários para assegurar o planejamento,
a operação e o controle eficazes de seus processos relacionados
com a responsabilidade social.
Estes documentos devem ser mantidos e registrados para prover evidências
de conformidade com os requisitos do sistema de gestão da
responsabilidade social.
Medição, análise e melhoria
É dever da organização estabelecer, implementar e manter processos
documentados para monitorar e medir o impacto significativo de suas
principais relações, processos, produtos e serviços. A avaliação deve ser
realizada periodicamente para cumprir a legislação e a norma, caso
houver não conformidade deve-se aplicar as ações corretivas e
preventivas, que deverão ser devidamente documentadas.
O principal benefício que esta norma oferece é a possibilidade de ser
certificável. Além disso, a norma se destaca pela sua abrangência quanto
ao atendimento de requisitos do conceito de responsabilidade social,
contemplando a sustentabilidade e a relação com as partes interessadas.
Como podemos perceber, a NBR 16001 possui muitas semelhanças com a
norma ISO 14001, tanto no que refere a sua estrutura, quanto em seu
conteúdo, envolvendo os elementos básicos de sistema da gestão, política
da qualidade, procedimentos, conformidade, controle de documentos,
controle de registros, ação corretiva, ação preventiva, análise e melhoria
de processos. Por essa razão, é fácil a sua integração com outros sistemas
de gestão, além de ser uma norma aplicável a qualquer tipo de
organização.
É importante compreender que o atendimento aos requisitos dessa norma
não significa que a empresa é socialmente responsável, significa que ela
possui um sistema de gestão de responsabilidade social. Por mais que a
empresa se esforce para ser responsável, dificilmente satisfará todos os
aspectos avaliativos dos seus stakeholders.
Para consolidarmos nosso estudo a respeito das normas e do compromisso
com a responsabilidade social, traremos a seguir um caso de sucesso nessa
temática, amplamente reconhecido no Brasil, e de conhecimento de
todos. A Natura é líder de mercado no ramo de cosméticos, fundada há
mais de 40 anos e com sede em São Paulo se destaca no âmbito da
responsabilidade social corporativa.
Case de responsabilidade social – Natura Cosméticos
A Natura Cosméticos prima pela ética e transparência em seus negócios, e
já ganhou diversos prêmios nesse contexto. Para a organização, a
consciência da responsabilidade social e a responsabilidade corporativa
representam um dos principais instrumentos a serem conhecidos pelos
seus stakeholders.
A empresa considera a sustentabilidade no seu modelo de negócio,
dando valor e prática a diversas ações, assim ela é reconhecida nacional
e internacionalmente por seu comportamento em relação aos programas
sociais desenvolvidos e ao sustentável da biodiversidade e do ambiente. A
seguir, destacam-se algumas práticas da empresa.
Programa de qualidade de vida: benefícios criados para apoiar o
colaborador, visando à melhor qualidade de vida. Envolve quatro
dimensões: saúde física e mental, integração social e familiar, ambiente de
trabalho e cultura e lazer, por meio de uma série de ações e benefícios
que vão além do cumprimento da legislação e dos acordos sindicais.
Programa Natura educação: oferece subsídios para pagamento (total ou
parcial) de cursos diversos aos colaboradores e seus familiares, além de
aperfeiçoamento pessoal e profissional no trabalho.
Programa de meio ambiente: treinamento de aproximadamente 2.000
pessoas, entre colaboradores e terceiros, para atuar em conformidade
com os requisitos da NBR ISO 14001, além de diversas práticas
desenvolvidas nessa temática.
Programa de incentivo à contratação de pessoas com deficiência: é um
programa de acolhimento às pessoas com deficiência, prática que a
Natura já adotava antes de ser determinada por lei.
Programa Qlicar: programa que tem o intuito de avaliar os fornecedores
em relação às questões críticas para a sustentabilidade, garantindo a
qualidade de todos os insumos, produtos e serviços adquiridos de terceiros.
Agenda 21: é um trabalho que envolve governo, empresa e
sociedade com o objetivo de elaborar um plano de desenvolvimento
sustentável para cada um dos municípios em que a Natura possui unidades
industriais.
Linha de produtos SOU: faz parte de um processo e coeficiente da Natura,
que envolve a cadeia de ponta a ponta para otimizar recursos e reduzir
custos e impacto negativos, como menos lixo, menor gasto de energia,
menos transporte e menos poluição. Além disso, na dimensão do
consumidor incentiva o consumo consciente e sustentável.
A Natura possui um sistema de gestão integrada que considera os aspectos
de meio ambiente e de saúde ocupacional e segurança do trabalho,
certificado pelo BVC nas normas ISO 14001:2004 e OHSAS 18001:2007.
4.7 Indicadores de responsabilidade social
Conceitos iniciais
Como já estudamos, nas últimas décadas o conceito de responsabilidade social ganhou
força nas organizações, diversas certificações e diretrizes foram criadas para contribuir e
auxiliar as organizações a inserirem a responsabilidade social nas suas atividades e nos
seus negócios. Nesse contexto, também surgiram alguns institutos e indicadores que
mensuram o comprometimento das empresas com a responsabilidade social, como
também nas três dimensões da sustentabilidade.
Podemos destacar, a nível nacional, o Instituto Ethos, instituto criado em 1998 por um
grupo de empresários e executivos da iniciativa privada de São Paulo. Este instituto tem
como missão: “mobilizar, sensibilizar e ajudar as empresas a gerir seus negócios de
forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade
justa e sustentável”.
No contexto internacional, destacam-se diversos órgãos que desenvolvem indicadores
de responsabilidade social, ambiental e econômico. Dos quais podemos destacar o
Índice Mundial de Desenvolvimento Sustentável Dow Jones – DJSI, da Bolsa de
Valores de Nova York, que desde 1999 monitora o desempenho das empresas líderes no
mundo, no que se refere à incorporação da sustentabilidade em sua gestão de
negócios. A seguir, vamos conhecer o Instituto Ethos e seus indicadores de
responsabilidade social.
Instituto Ethos
O Instituto Ethos tem como objetivo disseminar o conceito de responsabilidade social
no meio empresarial, contribuindo para que as organizações compreendam e
incorporem o conceito do comportamento empresarial socialmente responsável, que
executem políticas e práticas que atendam a critérios éticos, alcançando o sucesso
econômico e sustentável em longo prazo. Além disso, o instituto procura ajudar as
organizações a assumirem suas responsabilidades com todos aqueles que são
influenciados pelas suas atividades, a demonstrar a importância do comportamento
socialmente responsável a seus acionistas, a identificar oportunidades e formas
inovadoras em atuar em parceria com a comunidade e prosperar, por meio do
desenvolvimento social, econômico e ambientalmente sustentável.
As empresas associadas têm a possibilidade de participar de atividades que as ajudam a
compreender e incorporar a responsabilidade social nas suas rotinas. As empresas
também possuem acesso a fóruns de discussão, reuniões, palestras e debates, bem como
a um banco de dados que reúne práticas empresariais socialmente responsáveis de
excelência. Ainda, possuem acesso a publicações de apoio à implementação de políticas
e práticas de responsabilidade social empresarial. O Instituto Ethos oferece todas essas
contribuições a suas empresas associadas, no entanto é fundamental ressaltar que o
instituto não é uma entidade certificadora de responsabilidade social ou de conduta
ética, como algumas normativas que vimos nas aulas anteriores, ela não fornece nenhum
tipo de selo.
Para o Instituto Ethos a responsabilidade social corporativa é uma maneira de conduzir
e administrar os negócios, tornando as organizações parceiras e corresponsáveis pelo
desenvolvimento da sociedade. A empresa considerada socialmente responsável é
aquela que tem a competência de identificar, envolver e considerar os interesses das
partes interessadas (acionistas, clientes, governo, fornecedores...), integrando esses
interesses às suas decisões e ao planejamento das suas atividades. Além disso, a
produção e comercialização são direcionadas para reduzir o consumo dos bens naturais,
garantir a competitividade e continuidade à própria atividade e manter o
desenvolvimento social.
Desse modo, o Instituto Ethos desenvolveu indicadores sociais que auxiliam as
empresas a identificarem o seu grau de responsabilidade social e, assim, traçar planos de
melhoria e novas práticas sociais. Estudaremos estes indicadores na seção a seguir.
Indicadores Ethos para negócios sustentáveis e responsáveis
Os indicadores Ethos são uma ferramenta de gestão, que tem como objetivo apoiar as
empresas na inserção da sustentabilidade e da responsabilidade social empresarial no
seu negócio, para que este seja sustentável e responsável. Esta ferramenta é composta
por um questionário que possibilita o autodiagnóstico pela administração da empresa e
um sistema de preenchimento on-line que permite gerar relatórios, servindo estes para o
planejamento e a gestão de metas para a melhoria da gestão sustentável e responsável.
Assim, os indicadores desenvolvidos pelo Instituto Ethos têm como intuito mensurar e
avaliar quanto a sustentabilidade e a responsabilidade social estão inseridas no negócio,
contribuindo para a definição de políticas, práticas e processos. Esta ferramenta não tem
como objetivo reconhecer as empresas mais ou menos sustentáveis e responsáveis, e
sim apoiar e contribuir para as práticas e melhorias nesse contexto.
O questionário principal dos indicadores Ethos é composto de 47 indicadores,
distribuídos em quatro dimensões (visão e estratégia, governança organizacional, social
e ambiental), oito temas e 18 subtemas.
Percebe-se que as temáticas consideradas nessas ferramentas vêm ao encontro dos
princípios estudados nas normativas, pois essa ferramenta foi desenvolvida integrando
os princípios da norma ABNT NBR ISO com as diretrizes de relatórios de
sustentabilidade da Global Reporting Initiative (GRI).
Além dessa ferramenta, o Instituto Ethos desenvolve projetos específicos, promove
conferências e debates e também disponibiliza um banco on-line de práticas nas quatro
dimensões (visão e estratégia, governança organizacional, social e ambiental). A seguir,
aprofundaremos as principais práticas sociais divulgadas pelo instituto.
Dimensão social Tema: Direitos Humanos.
Tema: Práticas de trabalho
Relações de trabalho; Desenvolvimento humano, benefícios e treinamento e Saúde e
segurança no trabalho e qualidade de vida.
Tema: Questões relativas ao consumidor
Respeito aos direitos do consumidor e Consumo consciente. Tema: Envolvimento com
a comunidade e seu desenvolvimento. Dimensão visão e estratégia
• Estratégias para a sustentabilidade;
• Proposta de valor;
• Modelo de negócios.
Dimensão Governança e Gestão Tema: Governança e Gestão
Governança e conduta e Prestação de contas. Tema: Práticas de Operação e
Gestão. Concorrência leal; Práticas anticorrupção; Envolvimento político responsável e
Sistemas de gestão.
Dimensão ambiental Tema: Meio Ambiente
Mudanças climáticas; Gestão e monitoramento dos impactos sobre os serviços
ecossistêmicos e a biodiversidade e Impactos de Consumo. Banco de práticas –
dimensão social. O Instituto Ethos fornece um banco de práticas consideradas
socialmente responsáveis, que foram desenvolvidas em empresas brasileiras e
envolvem seus colaboradores internos e a comunidade, a seguir vamos conhecer
algumas dessas práticas.
Companhia Paranaense de Energia (Copel)
Objetivo principal: Otimizar o uso de energia elétrica entre consumidores da classe
residencial definida como “baixa renda”, beneficiados pela tarifa social de energia
elétrica, inscritos obrigatoriamente no Cadastro Único para Programas Sociais do
Governo Federal (CadÚnico) e possuidores do Número de Identificação Social (NIS).
Descrição da prática: O programa A Copel da Comunidade contempla as seguintes
etapas:
• Realização de palestras sobre o uso eficiente da energia.
• Realização de diagnósticos energéticos nas instalações consumidoras
selecionadas pelo programa.
• A partir dos diagnósticos energéticos, substituição de refrigeradores usados por
novos com selo Procel, que consomem menos energia elétrica; ou de chuveiros
elétricos convencionais por um sistema composto de chuveiro elétrico de menor
potência e mecanismos de reaproveitamento de calor.
• Substituição de lâmpadas incandescentes por lâmpadas fluorescentes compactas
com selo Procel de economia de energia em todas as residências.
Projeto Futuro Digital JBR Engenharia
Objetivo principal: Possibilitar o desenvolvimento de adolescentes e jovens em
situação de risco social para a inserção no mundo do trabalho de produtos com melhor
desempenho ambiental ao longo de seu ciclo de vida
Descrição da prática:
• Curso de informática, com introdução ao processamento de dados, Windows,
Word, Excel, Power point, Corel Draw, Autocad 2000 e internet, com carga total
de 240 horas.
• Nivelamento nas disciplinas Português e Matemática, também com 240 horas de
carga horária.
• Visitas a museus e locais históricos da região metropolitana do Recife.
• Apresentação e discussão de filmes educativos e de entretenimento.
• Visitas a parques de diversões, zoológico e reservas ecológicas.
• Atendimento psicológico.
Programa Florescer – Randon
Objetivo principal: Promover a formação integral de crianças e adolescentes entre 6 e
14 anos em situação de vulnerabilidade social, preparando-os para o exercício da
cidadania, para uma melhor qualidade de vida e um futuro digno.
Descrição da prática: Funcionando em formato de contra turno escolar, disponibiliza
metodologia própria, oferecendo atividades como inglês, informática, canto coral,
música instrumental, educação corporal, educação ambiental, educação para a vida,
atendimento diário das tarefas escolares, reforço pedagógico e robótica, além de
transporte, alimentação e uniforme gratuitamente.
Concluída a formação no Programa Florescer, os beneficiários têm a oportunidade de
ingressar no Programa Florescer Iniciação Profissional, o qual oferece cursos técnicos e
tem por missão preparar jovens para uma melhor inserção no mercado de trabalho, por
meio de uma formação técnica e humanística, promovendo a inclusão social.
Árvore da Vida Jardim Teresópolis – Fiat
Principal objetivo da prática: Promover a inclusão social de crianças e adolescentes
por meio de práticas socioeducativas de jovens e adultos, através de ações de
capacitação profissional, empreendedorismo, encaminhamento ao mercado de trabalho,
além do fortalecimento da comunidade.
Descrição da prática: Após o diagnóstico, o programa iniciou suas atividades em 2004
e, desde então, são oferecidas para a comunidade do Jardim Teresópolis ações
esportivas, socioculturais, de geração de trabalho e renda e fortalecimento da
comunidade. Crianças e adolescentes participam de grupos de canto, dança e
percussão, formação cidadã e reforço escolar. Jovens e adultos são qualificados e
encaminhados ao mercado de trabalho e empreendedores são apoiados em suas
atividades comerciais. Em 2006, foi criada uma cooperativa para produção de artigos a
partir de refugos da indústria e, em parceria com as escolas formais, são oferecidos
cursos complementares aos educadores.
Índice Mundial de Desenvolvimento Sustentável Dow Jones – DJSI
O Índice Mundial de Desenvolvimento Sustentável Dow Jones, criado pela bolsa
americana Dow Jones, é o primeiro índice desse tipo e um dos mais importantes em
nível internacional. Esse índice tem como objetivo identificar e analisar as práticas
adotadas pelas corporações que têm ações na bolsa de valores, medindo seus resultados
e classificando assim estas como sustentáveis ou não. Desse modo, ao comprar uma
ação de uma empresa, os compradores terão conhecimento se esta possui um
comportamento socialmente e ambientalmente correto, além de poder analisar o
desempenho da sustentabilidade, possibilitando identificar oportunidades de
investimentos em longo prazo. Essa classificação ocorre por meio de questionário
composto de perguntas gerais e específicas, sendo comprovadas com o envio de
documentos e relatórios. O questionário aborda questões ambientais, sociais e
econômicas, além da dimensão de governança corporativa.
A dimensão econômica contém cinco temas: governança corporativa, relação com o
investidor, gestão de crises e risco, código de conduta e cumprimento da lei e corrupção
e relacionamento com cliente. As principais questões abordadas nessa dimensão
referem-se à igualdade entre homens e mulheres, elaboração clara e consistente de um
código de ética e transparência nas relações com seus stakeholders.
A dimensão ambiental abordam-se duas temáticas: gestão ambiental e ecoeficiência,
nelas destacam-se questões como o desenvolvimento de uma política de gestão
ambiental, elaboração de relatórios ambientais e divulgação para seus stakeholders,
quantidade de gases de efeito estufa emitidos e resíduos gerados, estabelecimento de
metas e auditoria.
A dimensão social envolve seis temas, são eles: práticas de trabalho, desenvolvimento
de capital humano, atração e retenção de talentos, cidadania corporativa, envolvimento
das partes interessadas e relatório social. As principais práticas abordadas são a
mensuração e o controle do desenvolvimento dos funcionários, saúde e segurança,
outros benefícios sociais, além dos exigidos por lei, quantidade gasta com filantropia e
monitoramento dos impactos das ajudas à comunidade e gestão de risco.
Portanto, podemos perceber que as práticas de responsabilidade social além de
atenderem a legislação, podem ser fatores de risco ou de oportunidades para
investidores que procuram comprar ações. A responsabilidade social influencia os
processos e atividades da organização, seus stakeholders e toda a sociedade. Assim, as
organizações devem ser um dos principais atores na busca pelo desenvolvimento
socialmente responsável e sustentável, por meio de uma gestão consciente e que prioriza
a minimização dos impactos sociais, econômicos e ambientais.
4.8 Responsabilidade social empresarial
Responsabilidade social é algo de suma importância quando se trata do
meio empresarial. No vídeo a seguir, o advogado Rodolfo Ciciliato explica
o que é uma empresa socialmente responsável, o que ela precisa ter e
fazer para ser considerada como tal, e qual o seu papel e importância no
corpo social. Assista abaixo: