Ser negro é uma identidade racial que se baseia na ancestralidade
africana. É um posicionamento político, que envolve a cor da pele,
mas também a cultura e as tradições.
Traços físicos Cor da pele, Formato do nariz e dos lábios, Cor e textura dos cabelos.
Identidade negra Sentimento de pertença a um povo, Cultura e tradições próprias, Influência da
matriz africana.
Discriminação racial
• A discriminação racial no Brasil acontece muitas vezes a partir da aparência física
• Ações afirmativas, como cotas raciais, visam compensar as desigualdades
Experiência de ser negro
• Ser negro no Brasil é conviver com o preconceito e a desigualdade
• A luta diária contra o racismo
• A dor de ser negro em uma sociedade racista
A identidade racial/étnica
De acordo com a convenção do IBGE, portanto, negro é quem se auto-declara preto ou pardo.
Embora a ancestralidade determine a condição biológica com a qual nascemos, há toda uma
produção social, cultural e política da identidade racial/étnica no Brasil.
Vale mencionar ainda as polêmicas sobre o conceito de raça e de etnia, que, grosso modo, raça
deveria ser um conceito biológico, enquanto etnia deveria ser um conceito cultural. Não sendo raça
uma categoria biológica, etnia também se revela como um conceito que não é estritamente cultural,
pois a delimitação de grupos étnicos parte de uma suposta alocação deles no conjunto dos grupos
populacionais raciais sem abstrair a unidade do local de origem, e, para delimitar etnia, considera-se
a concomitância de características somáticas (aparência física), lingüísticas e culturais. Enfim, o
conceito de raça é uma convenção arbitrária e pode ser enquadrada como uma categoria descritiva
da antropologia, uma vez que é baseada nas características aparentes das pessoas. Portanto, o uso
dos termos raça ou etnia está circunscrito à destinação política que se pretende dar a eles.
Estudos da genética molecular, sob o concurso da genômica, são categóricos: a espécie humana é
uma só e a diversidade de fenótipos, bem como o fato de que cada genótipo é único, são normas da
natureza. Tendo o DNA como material hereditário e o gene como unidade de análise, não é possível
definir quem é geneticamente negro, branco ou amarelo. O genótipo sempre propõe diferentes
possibilidades de fenótipos. O que herdamos são genes e não caracteres!
Se para as ciências biológicas raça não existe e é consensual nas ciências sociais que o conceito de
raça está superado, por que a insistência, em particular do movimento negro, em usá-lo como um
paradigma da luta contra a opressão de base racial/étnica, ou seja, do racismo? Por questões
políticas, já que o racismo existe e é uma prática política que tem por base não apenas a existência
das raças, mas que as "não-brancas" são inferiores.
Políticas de ação afirmativa segundo sexo/gênero e raça/etnia
A alocação das pessoas segundo classe social, sexo/gênero e raça/etnia se constitui em indicadores
que podem ser traduzidos em políticas públicas antidiscriminatórias na área da saúde, da educação,
do saneamento, da habitação, da segurança etc. Um exemplo paradigmático é dado pelo Dossiê
"Assimetrias raciais no brasil: alertas para a elaboração de políticas", publicado pela Rede
Feminista de Saúde e elaborado pela pesquisadora Wânia Sant'Anna (2003). Este Dossiê promove
um diálogo entre dados com recorte racial/étnico nas mais diferentes áreas da vida social,
sistematizados pelo Ipea e obtidos das PNADs da década de 1990 até 2001, além dos
Megaobjetivos do "Plano Plurianual (PPA) 2004-2007 Orientação estratégica de governo, um
Brasil de todos: crescimento sustentável, emprego e inclusão social". O referido Dossiê visibiliza a
crueza da realidade vivenciada pela população negra, uma situação de desvantagens e
vulnerabilidades em todas as esferas da vida (disponível em
< [Link]/dossies/html/[Link]).
A medicina baseada em evidências demonstra que algumas doenças são mais comuns ou mais
freqüentes, ou evoluem de forma diferenciada, em determinados agrupamentos humanos raciais ou
étnicos, conforme determinadas interações ambientais e culturais com o patrimônio genético.
Relembrando que humanos são seres biológicos regidos também por leis biológicas, urge considerar
que há uma produção social da enfermidade, ou da manutenção da sanidade, nas condições das
sociedades de classes, da opressão racial/étnica e da opressão de gênero. Diante do exposto, o
significado político de se dar visibilidade aos dados da morbidade e da mortalidade segundo
sexo/gênero e raça/etnia é incomensurável.
No caso da população negra, há vários estudos que corroboram que o recorte racial/étnico na saúde
é um componente essencial para a compreensão do que chamamos predisposição biológica, a qual,
como tenho afirmado em vários escritos, significa a maior ou a menor capacidade de um ser vivo
responder às complexas interações solicitadas pelo meio ambiente físico, e, no caso de humanos,
também pelo meio ambiente cultural em que vive. A predisposição biológica resulta e refere-se a
um longo processo evolutivo da humanidade, é o binômio indissociável: constituição hereditária +
meio ambiente. O que quer dizer que o caráter social e histórico das doenças é amplamente
demonstrado através da história de vida das pessoas, e esta está intimamente vinculada ao sexo (ao
privilégio ou desprivilégio de gênero); à raça/etnia (à vivência ou não do racismo).
Apesar das limitações inerentes ao que se convenciou denominar de classificação racial, é de grande
valia uma classificação racial como a brasileira, pois através dela é possível delimitar de que adoece
(morbidade) e de que morre a população negra, indicadores fundamentais para políticas de combate
ao racismo institucional no aparelho formador, nas instituições e profissionais de saúde, sendo o
mesmo válido para outras áreas.
Texto recebido e aceito para publicação em 23 de fevereiro de 2004
Fátima Oliveira é médica, secretária executiva da Rede Feminista de Saúde (2002-2006) e
presidenta da Regional Minas Gerais da Sociedade Brasileira de Bioética. Autora de: Engenharia
genética: o sétimo dia da criação (Moderna, 1995); Bioética: uma face da cidadania (Moderna,
1997); Oficinas mulher negra e saúde (Mazza, 1998); Transgênicos: o direito de saber e a liberdade
de escolher (Mazza, 2000); O "estado da arte" da reprodução humana assistida em
2002 e Clonagem e manipulação genética humana: mitos, realidade, perspectivas e
delírios (CNDM/MJ, 2002); e Saúde da população negra, Brasil 2001 (OMS/Opas, 2002).
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Em 1940, o "quesito cor" era composto de: amarelo, branco e preto, mas havia o recurso para "cor
indefinida" que na tabulação dos dados foi denominada de "pardo" o qual englobava: mulato,
caboclo, moreno e similares que expressassem "não-brancos" e não enquadrados como amarelo ou
preto.
[Link] - 19/03/2025