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Gêneros Textuais: Resumos Acadêmicos

O documento aborda a importância dos gêneros textuais e discursivos, focando na estrutura e elaboração de resumos de artigos científicos. Destaca a necessidade de um resumo claro e conciso, que sintetize os objetivos, métodos, resultados e conclusões da pesquisa, facilitando a comunicação e a seleção do artigo pelo leitor. Além disso, apresenta recomendações para a escrita eficaz do resumo, enfatizando a relevância do contexto acadêmico e das normas específicas de publicação.
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Gêneros Textuais: Resumos Acadêmicos

O documento aborda a importância dos gêneros textuais e discursivos, focando na estrutura e elaboração de resumos de artigos científicos. Destaca a necessidade de um resumo claro e conciso, que sintetize os objetivos, métodos, resultados e conclusões da pesquisa, facilitando a comunicação e a seleção do artigo pelo leitor. Além disso, apresenta recomendações para a escrita eficaz do resumo, enfatizando a relevância do contexto acadêmico e das normas específicas de publicação.
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LINGUÍSTICA

TEXTUAL E ENSINO

Andréia Almeida Mendes


Gêneros textuais
e discursivos
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:

 Comparar diferentes gêneros textuais e discursivos com base nos


conceitos de domínio e suporte.
 Analisar a estrutura de resumos de artigos acadêmicos da área de
Letras (objetivo, lacuna, fundamentação teórica, método, resultados,
discussão, conclusão).
 Identificar os elementos do resumo em artigos acadêmicos já
existentes.

Introdução
Neste capítulo, você vai estudar os gêneros textuais e discursivos, mais
especificamente o resumo de artigos científicos. O artigo científico é um
gênero textual acadêmico com suas especificidades, e algumas de suas
características estão presentes também em seu resumo. A apropriação
desse gênero é um mecanismo fundamental para garantir a legitimação
discursiva no ambiente acadêmico (BRONCKART, 1999).
A escrita de um resumo não é uma tarefa simples, mas ela se torna menos
complicada se você analisar a estrutura desse texto e alguns exemplos. Assim,
ao longo do capítulo, você vai estudar questões gerais relativas aos gêneros
com foco no artigo científico. Você também vai ver como se configuram os
resumos dos artigos. Por fim, você vai analisar exemplos de resumos.

Principais conceitos
Os textos possuem inúmeras diferenças relativas ao assunto (macroestrutura), à
expressão linguística (estilo verbal) e à organização global (superestrutura). Em
função disso, classificá-los não é uma tarefa simples (COSTA, 2003). Segundo
2 Gêneros textuais e discursivos

Bronckart (1999), essa tarefa torna-se ainda mais complexa devido aos inúmeros
critérios para se definir um gênero. Além disso, os textos nunca se encontram
“puros”, mas reúnem diferentes tipos textuais, o que pode ser classificado como
heterogeneidade. Para solucionar esse impasse, deve-se observar o critério
da dominância, ou seja, o gênero e o tipo textual serão analisados pela maior
incidência de determinadas características sobre outras (MENDONÇA, 1997).
Como você acabou de ver, um texto nunca será puro. Afinal, ele pode apre-
sentar características de outros gêneros. Ainda assim, haverá sempre algumas
características que prevalecerão sobre outras; por meio dessa prevalência, o texto
será classificado em um gênero ou outro. Segundo Bakhtin (2003), os gêneros têm
sua base na concepção dialógica da linguagem, ou seja, eles não se restringem
apenas ao enunciado em si, mas englobam todo o processo de comunicação, nas
mais diversas dimensões da interação social. Assim, o centro do enunciado estaria
situado no meio social, e a sua criação, em contrapartida, seria histórica. Para
Bakhtin (2003), a língua é construída no dia a dia pelo fenômeno da interação
verbal e é realizada por meio da enunciação e do enunciado.
Em função disso, cada esfera da atividade humana possui um número
variado de gêneros do discurso, que refletem as suas especificidades e fina-
lidades (BAKHTIN, 2003). Esses gêneros se distinguem por três dimensões:
conteúdo temático, estilo verbal e construção composicional. Essas dimensões
se fundem de forma indissociável e sem predomínio de uma sobre as outras,
compondo assim o gênero (COSTA, 2003).
Para Bakhtin (2003), gênero e enunciado possuem as mesmas propriedades,
apresentando cinco características constituintes que devem ser consideradas
a partir de sua essência. Eles são delimitados pela alternância dos sujeitos
falantes, possuem acabamento específico, são marcados pela intenção do
locutor, possuem relações intertextuais e um destinatário. São esses os fatores
que determinam cada gênero e a variedade praticamente infinita deles quando
associados à estrutura social da qual os interlocutores fazem parte.
Portanto, os gêneros são uma criação dos indivíduos pertencentes a uma esfera
de comunicação e compartilham objetivos comuns. Ou seja, a estrutura social
na qual os indivíduos estão inseridos é a verdadeira fonte criadora dos gêneros.
Mas onde os gêneros estão inseridos? Para entender isso, é necessário
reconhecer os conceitos de domínio e suporte. O domínio é a esfera discur-
siva em que gêneros textuais de determinada natureza podem ocorrer. Por
exemplo, em uma esfera jornalística, gêneros textuais como notícia e resenha
podem aparecer. Já na esfera jurídica, há a ocorrência de textos oriundos desse
domínio, como uma petição ou um contrato. No domínio acadêmico, por sua
vez, constam gêneros como o artigo científico e a resenha acadêmica. Note
Gêneros textuais e discursivos 3

que o gênero resenha aparece tanto no domínio acadêmico quanto no domínio


jornalístico, contudo, o gênero ganha traços diferentes em cada uma dessas
esferas. Desse modo, o conceito de domínio não se refere a um texto, mas a
um contexto que propicia o desenvolvimento de textos.
A noção de domínio, entretanto, está relacionada à noção de suporte,
que é, basicamente, o lugar onde o gênero ocorre. Por exemplo, se você tem
um blog de resenhas musicais, o seu blog é o suporte dos seus textos. Da
mesma forma, o periódico em que um artigo foi publicado é o seu suporte
(MARCUSCHI, 2002). O suporte, além de ser o lugar onde o texto aparece,
também contribui na tarefa de especificar para quem um texto se destina. Uma
notícia que aparece nas páginas policiais de um jornal certamente não tem uma
criança como público-alvo, assim como um periódico acadêmico da área da
medicina não tem em mente um professor de português como leitor ideal. Na
próxima seção, abordaremos o conceito de artigo científico especificamente.

Os artigos científicos
Os textos científicos são aqueles produzidos em contexto acadêmico. Subdividem-
-se em muitos gêneros: monografias, teses, dissertações, resenhas, fichamentos,
artigos científicos, etc. Aqui, você vai estudar mais a fundo o gênero artigo
científico. Essa modalidade discursiva é um estudo de extensão pequena, mas que
apresenta os resultados completos de uma pesquisa (MARCONI; LAKATOS,
2004) e trata de uma questão verdadeiramente científica. Os artigos científicos
são publicados, geralmente, em revistas ou periódicos científicos especializados.
Segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), o artigo é “[...]
parte de uma publicação com autoria declarada, que apresenta e discute ideias,
métodos, técnicas, processos e resultados nas diversas áreas do conhecimento
[...]” (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS, 2011, p. 2).
Ele possui o objetivo de divulgar resultados de “[...] pesquisas, ideias e debates
de uma maneira clara, concisa e fidedigna; servir de meio de comunicação e
intercâmbio de ideias entre cientistas da sua área de atuação e levar os resultados
do teste de uma hipótese, provar uma teoria [...]” (COSTA, 2003, p. 35).
Esse gênero surgiu por volta de 1665, ainda de forma embrionária, com a
publicação do primeiro periódico científico, The Philosophical Transactions of
the Royal Society. O gênero foi desenvolvido por meio de troca de cartas infor-
mativas entre os cientistas. As primeiras publicações eram escritas em primeira
pessoa e algumas possuíam até saudações, como nas cartas (SWALES, 1990).
Com o tempo, o gênero passou a ser reconfigurado, até chegar ao formato atual.
4 Gêneros textuais e discursivos

Segundo Marconi e Lakatos (2004, p. 198), o texto científico necessita


ser elaborado por meio de normas preestabelecidas de acordo com os fins
a que se destina. Além disso, os artigos científicos devem ser “[...] inéditos
ou originais e contribuírem não só para a ampliação de conhecimentos, mas
também servirem de modelo ou oferecem subsídios para outros trabalhos [...]”.
Assim, aos poucos, os gêneros de divulgação científica foram consolidando
suas convenções científicas. Passou a ser obrigatório o emprego de linguagem
objetiva, formal e concisa, bem como o uso de verbos na terceira pessoa do
singular, com acréscimo de “se”, ou na primeira pessoa do plural. Também é
exigido vocabulário técnico, evitando-se o uso de adjetivos desnecessários e
comentários pessoais. Atualmente, os artigos científicos podem abranger diver-
sos aspectos de uma pesquisa e oferecer soluções para questões controvertidas.
Segundo Silva, Pereira e Bueno (2014, p. 40), ao se analisar um artigo,
deve-se tem em mente sempre o seu contexto de produção. Para tanto, é
necessário considerar que o enunciador, também conhecido como autor, é o
especialista “[...] que domina o conhecimento sobre determinado assunto cuja
área de interesse é contemplada no periódico escolhido [...]”. Já os destinatários,
também conhecidos como “[...] leitores [...]”, “[...] são aqueles especialistas
formados ou em processo de formação (mestrandos e/ou doutorandos) que se
interessam pelo tema/assunto do texto [...]”.
Por sua vez, o lugar social é o “[...] meio acadêmico de onde surgem as
ideias para a produção do artigo [...]”; o objetivo da publicação é “[...] informar
o destinatário sobre uma pesquisa empírica em andamento ou concluída, no
intuito de convencê-lo sobre a relevância da análise e dos resultados [...]”; com
relação ao tempo e ao espaço, deve-se considerar “[...] quando foi escrito e onde
será publicado o texto a fim de atender às exigências das normas de publicação
da revista [...]” (SILVA; PEREIRA; BUENO, 2014, p. 40). Além disso, deve-
-se considerar que é comum o autor escrever o artigo científico alguns meses
antes da publicação e, após a análise dos avaliadores, fazer ajustes no texto.
Para a divulgação dos artigos científicos, duas partes merecem destaque:
o título e o resumo. Elas devem ser informativas e atraentes para que as
pessoas se interessem pela pesquisa. O resumo, em especial, necessita de um
cuidado maior. Afinal, se o título for atraente e o resumo for deficiente, o leitor
tende a abandonar a leitura do texto. Dessa forma, o resumo deve ser tratado
como uma peça essencial para a promoção da divulgação e a leitura do artigo
(PEREIRA, 2013). Em função disso, na seção a seguir, você vai conhecer as
características desse gênero, além de ver alguns exemplos práticos.
Gêneros textuais e discursivos 5

Leia o artigo de Silva, Pereira e Bueno (2014) “A elaboração de um artigo científico:


subsídios à apropriação desse gênero textual”, disponível no link a seguir.

[Link]

A estrutura dos resumos de artigos científicos


O resumo do artigo científico é a “[...] versão precisa, sintética e seletiva do
texto do documento, destacando os elementos de maior importância [...]”. Em
função disso, “[...] deve evidenciar os principais objetivos, métodos empregados,
resultados e conclusões, permitindo ao leitor decidir sobre a conveniência da
leitura do texto na íntegra [...]” (USP, 2019, documento on-line).
O resumo tem como principal objetivo fornecer uma visão geral da inves-
tigação. Logo, ele tem um papel muito importante, pois é o primeiro contato
do leitor com o artigo científico. Essa primeira impressão deve ser positiva. O
leitor deve confiar na escrita e identificar o papel e a importância da pesquisa e
dos resultados para a área em que se insere o estudo. A ideia é despertar nele a
vontade de ler o trabalho na íntegra. Caso ocorra o contrário e o leitor sinta que
o resumo não tem credibilidade ou não fique realmente motivado a ler o artigo,
a pesquisa certamente será ignorada e esquecida (SOUSA; DRIESSNACK;
FLÓRIA-SANTOS, 2006). Portanto, o resumo funciona como uma forma
de triagem que o leitor utiliza para a seleção dos artigos (PEREIRA, 2012).
O resumo é posicionado logo após o título e a indicação da autoria da obra.
Isso contribui para que o leitor consiga, de forma mais rápida, entender do que
se trata o artigo apenas lendo o seu início. Além disso, essa localização facilita
a indexação do artigo científico e a divulgação do trabalho (PEREIRA, 2012).
Os principais objetivos de se redigir o resumo do artigo científico são
(PEREIRA, 2012):

 apresentar uma síntese concisa do trabalho;


 destacar pontos relevantes ou inovadores da pesquisa;
 ajudar o leitor a decidir se prossegue ou não na leitura do artigo;
 auxiliar o leitor, em momento subsequente, a recordar as características
principais da pesquisa;
 facilitar a organização do plano para a redação da primeira minuta do texto.
6 Gêneros textuais e discursivos

Como você pode notar, o resumo possui inúmeros objetivos. Ele funciona
principalmente como uma forma de o leitor inspecionar a qualidade da pes-
quisa. Logo, o resumo deve transparecer a segurança e a solidez que o leitor
vai encontrar no trabalho.

O resumo do artigo científico surgiu com o intuito de facilitar a comunicação com o


leitor e solucionar as consequências do crescimento do número de publicações (o
leitor não conseguia mais acompanhar as pesquisas desenvolvidas em sua área). No
início, o resumo fazia parte do texto principal, localizava-se antes ou se misturava às
conclusões. Com o tempo, foi separado do corpo do texto e passou a ser inserido no
fim do artigo, como uma espécie de apêndice. Só em 1956 é que ele foi deslocado
para o início do texto, sendo essa prática adotada pela primeira vez pela Revista Médica
Americana (JAMA) (PEREIRA, 2012).

Recomendações gerais para a escrita do resumo


Segundo recomendações da Biblioteca Digital da Universidade de São Paulo
(USP, 2019), algumas informações são importantes e podem auxiliar o autor
na escrita do resumo do artigo científico. Em síntese, um resumo:

 deve começar com uma frase que traga informações essenciais ao


documento, evitando a repetição da mesma estrutura do título;
 deve incluir apenas os pontos essenciais do trabalho, ser claro e conciso,
evitando comentários e informações secundárias;
 deve ser redigido em apenas um parágrafo, com frases coerentes e
simples;
 não deve se caracterizar como um amontado de frases desconexas e
redundantes;
 não deve conter citações bibliográficas, tabelas, esquemas, quadros ou
qualquer informação do tipo;
 deve ser escrito, preferencialmente, na terceira pessoa do singular e
com o mesmo tempo verbal do início ao fim do texto.
Gêneros textuais e discursivos 7

Pereira (2013) ainda ressalta as seguintes informações:

 o resumo necessita ser autoexplicativo, ou seja, não deve ser necessária


a leitura do artigo na íntegra para que o leitor possa entender o resumo;
 não deve haver conflito de informações entre o resumo e o artigo
científico;
 o objetivo e a conclusão devem ser condizentes, isto é, não pode haver
desacordo entre esses dois pontos;
 antes de redigir um resumo, deve-se analisar as diretrizes do periódico
ou evento ao qual o artigo é destinado, pois algumas recomendações
costumam ser bastante específicas.

Na escrita de um resumo, você deve evitar (USP, 2019):


 frases negativas, adjetivos e advérbios;
 excesso de explicações e neologismos;
 informações ou afirmações que não façam parte do texto original;
 abreviaturas e siglas, que devem ser usadas apenas quando for realmente necessário
(coloque-as entre parênteses e precedidas do significado por extenso na primeira
vez em que aparecerem);
 expressões como “O presente trabalho trata...”, “Neste artigo, são discutidos...”,
“O documento conclui que...”.

Estrutura do resumo
Não há um consenso com relação à estruturação dos artigos científicos. Se-
gundo a ABNT NBR 6028:2003, o resumo deve apresentar objetivo, método,
resultados e conclusões. Essa estrutura vai ao encontro das ideias de Pereira
(2012). Já para outros autores (SOUSA; DRIESSNACK; FLÓRIA-SANTOS,
2006), o resumo deve ser composto por título, contexto, propósito, metodo-
logia, resultado, conclusão e palavras-chave. Essa é uma das estruturas mais
completas. Portanto, é a partir dela que será pautada a análise que você vai
acompanhar aqui. Afinal, por meio dessa estruturação mais completa, é pos-
sível atender às outras. A seguir, veja uma síntese de cada um dos elementos.
8 Gêneros textuais e discursivos

 Título: é composto por uma frase nominal que deve refletir o conteúdo
do artigo e informar ao leitor o escopo da pesquisa, bem como o seu
desenho e a sua meta. Além disso, não deve conter mais do que 12
palavras nem incluir jargões ou palavras não familiares.
 Propósito: analisa, de forma mais específica, questões da pesquisa,
incluindo os objetivos do estudo e a hipótese.
 Metodologia: aborda os métodos e identifica a natureza dos dados
analisados, deixando clara a forma como o trabalho foi conduzido. Essa
parte do resumo pode variar de acordo com o tipo de estudo.
 Resultados: são as respostas obtidas após a coleta de dados. Os resul-
tados são os pontos finais das questões analisadas e das hipóteses e
necessitam ser apresentados em uma sequência lógica.
 Conclusões: essa parte deve analisar o significado dos resultados e
refletir o uso potencial desses dados, a sua relevância e as suas im-
plicações. Deve-se dar ênfase aos novos e mais importantes aspectos
apresentados no estudo.

As formas de estruturação que você acabou de ver não são as únicas utilizadas
na escrita de um artigo científico. Pode haver variações concernentes não só às
normas dos periódicos e dos congressos, como também à própria modelagem
da pesquisa. Assim, um artigo de revisão bibliográfica, por exemplo, apresenta
uma estruturação focada mais na contextualização do tema e no propósito do
que nos resultados em si, pelo próprio delineamento desse tipo de pesquisa.

Elementos dos resumos de artigos acadêmicos


na área de Letras
Nesta seção, você vai ver alguns resumos de trabalhos publicados na área de
Letras. A ideia é que você atente à estruturação dos textos. Para começar,
observe o resumo a seguir (CARVALHO; SEABRA, 2012, p. 158):

Os nomes sagrados na toponímia mineira: estudo linguistico


e cultural
O presente artigo trata da relação existente entre léxico e cultura a partir
da proposta de um estudo do toponímico dos nomes de lugar de natu-
reza antropocultural relativos aos nomes sagrados de diferentes crenças
e suas variações diatópicas que motivaram a nomeação de acidentes
físicos (rio, lago, montanha, etc.) e acidentes humanos (vila, cidade, ponte,
Gêneros textuais e discursivos 9

etc.) em Minas Gerais. Orientado pelos princípios da ciência onomástica,


em especial pelo modelo teórico de Dick (1990), o estudo vincula-se ao
ATEMIG — Atlas Toponímico do Estado de Minas Gerais — projeto em
desenvolvimento, desde 2005, na FALE/UFMG.
Palavras-chave: onomástica; nome sagrado; toponímia; Minas Gerais.

O resumo que você acabou de ver, publicado em uma revista científica


da área, possui um pouco mais de 100 palavras, considerando-se o título e as
palavras-chave. Sua estruturação traz título, contexto, metodologia e palavras-
-chave. Além disso, o texto é redigido na terceira pessoa do singular (“trata”,
“vincula-se”, por exemplo). Ele apresenta frases concisas, afirmativas, sem
a utilização de adjetivações desnecessárias e com o predomínio da língua
padrão. Trata-se de uma pesquisa realizada a partir da consulta ao banco de
dados do Projeto ATEMIG e que teve outros desdobramentos a partir dessa
primeira publicação, o que justifica a sua pequena extensão.
Na sequência, veja um resumo maior, com quase 300 palavras (MENDES,
20175, p. 22), que apresenta estruturação mais próxima da proposta de Sousa,
Driessnack e Flória-Santos (2006).

A ausência e/ou presença de artigo definido diante de antro-


pônimos na fala dos moradores das cidades de abre campo e
matipó — um estudo sociolinguístico
Analisa-se aqui a variação sintática da presença ou ausência de artigo
definido diante de antropônimos na fala dos moradores das cidades de
Abre Campo e Matipó através de um estudo sociolinguístico. Este estudo
questiona por que duas localidades tão próximas possuem padrões diver-
gentes no que diz respeito à ausência ou à presença de artigo definido
diante de antropônimos e verifica se os falantes das distintas localidades
possuem percepção quanto ao fenômeno da ausência ou presença de
artigo definido no contexto de antropônimo. Avança-se um pouco mais
na pesquisa realizada em 2009, durante o mestrado; para tanto, analisou-se
a fala atual dos moradores da zona urbana bem como dados de língua
pretérita. Cumpre lembrar que a escolha destas duas localidades ocorreu
devido ao fato de as cidades exibirem padrão linguístico diferenciado
no que diz respeito ao uso do artigo definido diante de antropônimos:
apesar de serem vizinhas limítrofes, Abre Campo apresenta mais ausência
e Matipó mais presença de artigo definido no contexto de antropônimos.
Por serem localidades pequenas, esperou-se que o padrão de variação
comprovado em Mendes (2009), registrado na fala rural, também se
10 Gêneros textuais e discursivos

comprovasse na fala dos moradores da zona urbana; para tanto, nesta


nova pesquisa, realizaram-se entrevistas orais semiestruturadas com
os moradores da zona urbana. Concomitantemente, examinaram-se
atas, escrituras e testamentos das referidas cidades em três intervalos
de tempo datando de 1875 a 1950, com o intuito de levantar hipóteses
acerca da origem do padrão de cada localidade. Para tanto, adotam-se
os pressupostos teóricos de Bynon (1977) e Labov (1994), segundo os
quais a linguística história deve investigar e descrever como as mudanças
ocorrem ou como o sistema linguístico preserva uma estrutura.
Palavras-chave: artigo definido; antropônimo; Matipó; Abre Campo.

Observe, nesse segundo resumo, que há a apresentação do título e do propósito


da pesquisa, bem como a contextualização da obra, informando, inclusive, a
lacuna. A seguir, apresentam-se a metodologia, de forma sucinta, e os resultados.
Para a redação, foram utilizadas 303 palavras (incluindo o título e as palavras-
-chave) e verbos na terceira pessoa do singular — ora com sujeito indeterminado
(“analisa-se”, “avança-se”, “adotam-se”, “esperou-se”), ora com o sujeito expresso
(“questiona”, “verifica”, “ocorreu”). A voz verbal que predomina é a ativa.
A primeira frase é significativa e já traz o principal ponto de abordagem
da pesquisa. Como se trata de uma pesquisa que dá continuidade a uma in-
vestigação anterior, é feita a menção a essa investigação por meio de citação
indireta: Mendes (2009). Além disso, o autor cita os teóricos Bynon e Labov,
o que costuma ser evitado em determinadas áreas. Percebe-se, assim, nesse
segundo modelo, que o gênero resumo, como qualquer outro, não é engessado,
possibilitando aos autores a reorganização das partes do texto, desde que seja
estabelecida uma relação lógica entre elas.
O próximo resumo (GARCIA, 2017, p. 201), também publicado em revista
científica especializada da área, apresenta uma estruturação diferente da
anterior. Observe:

A aquisição da escrita e a escrita histórica: da compreensão


fonética-ortográfica do século XIX aos nossos dias
Por meio da coleta das variações apresentadas em documentos referentes
à cidade de Capivari, interior de São Paulo e localidade de pesquisa per-
tencente ao Projeto Caipira, foi realizado um estudo fonético-fonológico
das realizações de variantes da língua portuguesa, de modo a explicar
de maneira conceitual o motivo de os metaplasmos ainda participarem
do processo de articulação linguística. Por meio da documentação his-
tórica e dos registros de nossos dias, perceber-se-á que, mesmo diante
Gêneros textuais e discursivos 11

da alfabetização e letramento de seus falantes, as mesmas realizações já


observadas por Amaral (1920) e demais estudiosos da língua, como Bueno
(1967), continuam presentes em nossos tempos, o que demonstra que a
afirmação de Amaral de que a escolarização poderia pôr fim ao dialeto
caipira não é percebida ainda em nosso século. Desta maneira, o estudo
demonstra que a imposição da escrita, por mais efetiva que pareça, não
poderá eliminar ações naturais que são efetivadas pelo processo da fala,
que, por vezes, acaba incutindo diretamente na escrita; e a pesquisa
diacrônica reafirma essa percepção.
Palavras-chave: Diacronia. Dialeto caipira. Documentos novecentistas.
Variações linguísticas.

O resumo apresenta 192 palavras, verbos na voz ativa e conjugados na


terceira pessoa do singular, frases concisas e significativas organizadas em um
único parágrafo e, novamente, citações do marco teórico do estudo. O texto
apresenta início, meio e fim, apesar de não seguir a estruturação considerada
clássica para um resumo. Observa-se, nesse exemplo, a estruturação a seguir.

 Título: “A aquisição da escrita e a escrita histórica: da compreensão


fonética-ortográfica do século XIX aos nossos dias”.
 Metodologia de coleta de dados: “Por meio da coleta das variações
apresentadas em documentos referentes à cidade de Capivari, interior
de São Paulo e localidade de pesquisa pertencente ao Projeto Caipira,
foi realizado um estudo fonético-fonológico das realizações de variantes
da língua portuguesa [...]”.
 Objetivo: “[...] explicar de maneira conceitual o motivo de os meta-
plasmos ainda participarem do processo de articulação linguística”.
 Resultados: “Por meio da documentação histórica e dos registros de nossos
dias, perceber-se-á que, mesmo diante da alfabetização e letramento de seus
falantes, as mesmas realizações já observadas por Amaral (1920) e demais
estudiosos da língua, como Bueno (1967), continuam presentes em nossos
tempos, o que demonstra que a afirmação de Amaral de que a escolarização
poderia pôr fim ao dialeto caipira não é percebida ainda em nosso século”.
 Conclusão: “Desta maneira, o estudo demonstra que a imposição da
escrita, por mais efetiva que pareça, não poderá eliminar ações naturais
que são efetivadas pelo processo da fala, que, por vezes, acaba incutindo
diretamente na escrita; e a pesquisa diacrônica reafirma essa percepção”.
 Palavras-chave: “Diacronia. Dialeto caipira. Documentos novecentis-
tas. Variações linguísticas”.
12 Gêneros textuais e discursivos

Essa estruturação demonstra, mais uma vez, a flexibilidade do gênero


resumo de artigo científico na área de Letras, o que não ocorre em todas as
áreas. Portanto, apesar de o gênero ser comum a todas as áreas do conheci-
mento, ele não é engessado, podendo apresentar algumas especificidades e
características próprias de determinada área.
Apesar de o gênero não ser engessado, o autor iniciante deve realizar che-
cklists das principais partes do resumo para não se esquecer de informações
essenciais à compreensão da pesquisa. Além disso, recomenda-se não repetir
as mesmas estruturas sintáticas utilizadas no texto completo. Atente sempre
ao fato de que o resumo é independente do restante do texto, logo, ele deve
ser compreensível por si só. Ou seja, a ideia é que o leitor não precise recorrer
ao texto original para entender o resumo.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6028:2003. Informação e


documentação – Resumo – Apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2003.
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 14724:2011. Informação e
documentação – trabalhos acadêmicos – apresentação. Rio de Janeiro: ABNT, 2011.
BAKHTIN, M. Os gêneros do discurso. In: BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. 4. ed.
São Paulo: Martins Fontes, 2003. p. 261–306.
BRONCKART, J. P. Atividades de linguagem, textos e discursos: por um interacionismo
sócio-discursivo. São Paulo: PUC-SP, 1999.
CARVALHO, A. P. M. A.; SEABRA, M. C. T. C. Os nomes sagrados na toponímia mineira:
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Leituras recomendadas
LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. A. Técnicas de pesquisa. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2006.
MARCUSCHI, L. A. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONÍSIO, Â. et al.
Gêneros textuais e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2002.
14 Gêneros textuais e discursivos

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