RESUMO FIDES ET RATIO
INTRODUÇÃO:
Fé e Razão = “duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a
contemplação da verdade.” O desejo de conhecer a verdade, leva também à verdade plena
sobre si mesmo. Esse desejo é colocado por Deus no coração humano.
“Autoconsciência pessoal: quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo,
tanto mais conhece a si mesmo na sua unicidade” e torna-se capaz de ponderar o sentido
das coisas e de sua própria existência.
Desde os tempos mais antigos a homem se questiona quanto a sua existência. É a
resposta dessas perguntas fundamentais (Quem sou eu? De onde venho e para onde vou?
Por que existe o mal? O que há depois dessa vida?) que demonstrará a orientação de sua
existência.
A Igreja deve participar desse esforço de toda a humanidade para alcançar a
verdade. Sempre ciente, contudo, que “cada verdade alcançada é apenas mais uma etapa
ruma àquela verdade plena que há de manifestar-se na última revelação de Deus.
A Filosofia é colocar a questão do sentido da vida e esboçar a resposta. É uma das
tarefas mais nobres da humanidade.
Embora a variedade de povos e culturas, todos contém uma essência de uma
sabedoria natural, ou seja, bases filosóficas de conhecimento que auxiliam até hoje a
organizar a vida social, por exemplo.
Esses conhecimentos fundamentais nascem da maravilha que suscita no homem a
contemplação da criação. Sem esse espanto o homem fica repetitivo, nunca descobrirá
novos conhecimentos e torna-se incapaz de uma existência verdadeiramente pessoal.
Esses conhecimentos são tão importantes que “cada sistema filosófico deve
reconhecer a prioridade do pensar filosófico de que teve origem e ao qual deve
coerentemente servir.
Núcleo do pensamento filosófico que permeiam ao longo dos tempos: conceitos
como não-contradição, finalidade, causalidade, capacidade de conhecer a Deus, o bem e
outras normas morais que são aceitas por todos.
Isso indica que, além da corrente contemporânea de pensamento, há um conjunto
de conceitos que formam uma espécie de patrimônio espiritual da humanidade. Uma
filosofia implícita que está em todo ser humano.
Por isso, a Igreja vê na filosofia “o caminho para conhecer verdades fundamentais
relativas à existência humana.
O perigo, contudo, está na razão se curvar em si mesma e tornar-se incapaz de se
levantar, olhar para o alto e ousar atingir a verdade do ser. A filosofia moderna, por
exemplo, apoia-se mais na limitação e condicionalismos humanos do que na sua
capacidade de conhecer a verdade.
“A legítima pluralidade de posições cedeu o lugar a um pluralismo indefinido”, a
uma desconfiança de verdade. Coloca-se todas as doutrinas de modo igual, mesmo sendo
diversas e até contraditórias entre si. Assim, tudo fica reduzido a mera opinião.
Contenta-se com verdades parciais e provisórias. Não há a ousadia de perguntas
radicais sobre o sentido e o fundamento último da vida humana, pessoal e social. Ou seja,
não se tem mais esperança de que a filosofia trará respostas definitivas a essas questões.
Esse é o primeiro motivo da encíclica. O segundo é o fato de que algumas verdades
fundamentais da doutrina católica que, no contexto atual, correm o risco de serem
deformadas ou negadas.
Dessa forma, concentra-se a discussão no tema da verdade e sobre o seu
fundamento em relação a fé. É grande responsabilidade da filosofia formar o pensamento
e a cultura por meio do apelo perene à busca da verdade, ela deve recuperar sua vocação
originária.
CAPÍTULO 1 – A REVELAÇÃO DA SABEDORIA DE DEUS
1 – Jesus o revelador do Pai
A Igreja é depositária de uma mensagem: Contém um conhecimento que não
provém de uma reflexão sua, “mas de ter acolhido na fé a palavra de Deus.”
Deus, livre e gratuitamente, vem ao encontro da humanidade para a salvar. Assim,
Deus se faz conhecer: esse conhecimento que o homem pode adquirir leva a plenitude do
que a mente é capaz de compreender do sentido da vida.
Concílio Vaticano I: Havia uma visão racionalista que diminuía o papel da fé. Por
isso, esse concílio reafirma que, embora haja uma via natural de chegar ao Criador pela
razão humana, existe o conhecimento da fé. Esse conhecimento existe, pois Deus se
revelou a humanidade.
“A verdade alcançada pela via da reflexão filosófica e a verdade da Revelação não
se confundem, nem uma torna a outra supérflua.”
“A fé fundamenta-se no testemunho de Deus e conta com a ajuda sobrenatural da
graça, pertence efetivamente a uma ordem de conhecimento diversa da do conhecimento
filosófico.” Uma é iluminada pelo intelecto e a outra é iluminada e guiada pelo Espírito.
A verdade profunda a respeito de Deus e dos homens é revelada em Cristo, que é
mediador e a plenitude dessa revelação. “A verdade que Deus confiou ao homem a respeito
de si mesmo e da sua vida insere-se, portanto, no tempo e na história.” Dessa forma, o
tempo e a história tornam-se lugares onde podemos constatar a ação de Deus em favor da
humanidade. “O Eterno entra no tempo, o Tudo se esconde no fragmento, Deus assume o
rosto do homem.”
Nisso, a revelação de Cristo permiti a todos, o acesso ao Pai. “O mistério do homem
se esclarece verdadeiramente só no mistério do Verbo encarnado.” Diante disso que o
homem consegue encontrar respostadas questões como a dor, o sofrimento do inocente e
a morte. Tudo encontra sentido a luz da paixão, morte e ressureição de Cristo.
2 – A razão perante o mistério
A Revelação permanece um mistério, devido a nossa compreensão limitada.
Somente a fé nos permite adentrar o mistério.
A fé é uma resposta de obediência e assentimento a Deus. Deve-se submeter sua
vontade e inteligência a Deus quando Ele se revela. Deve ser um ato livre que se concretiza
nessa ação de assentimento. É a forma mais plena de liberdade, pois não há verdadeira
liberdade que vá contra Deus.
“Em resumo, o conhecimento da fé não anula o mistério; torna-o apenas mais
evidente e apresenta-o como um fato essencial para a vida do homem.”
“A Revelação coloca dentro da história um ponto de referência de que o homem
não pode prescindir, se quiser chegar a compreender o mistério da sua existência; mas,
por outro lado, esse conhecimento apela constantemente para o mistério de Deus que a
mente não consegue abarcar, mas apenas receber e acolher na fé.”
“ó Senhor, Vós não sois apenas algo acerca do qual não se pode pensar nada maior,
mas sois maior de tudo o que se possa pensar.” Santo Anselmo.
Relação entre verdade e liberdade: “Enquanto verdade suprema, ao mesmo tempo
que se respeita a autonomia da criatura e a sua liberdade, obriga-a a abrir-se à
transcendência.”
“A verdade que a Revelação nos dá a conhecer não é fruto maduro ou o ponto
culminante dum pensamento elaborado pela razão. Pelo contrário, aquela apresenta-se
com a característica da gratuidade, obriga a pensá-la, e pede para ser acolhida, como
expressão de amor.”
O fim último da existência pessoal é objeto de estudo quer da filosofia, quer da
teologia.
CAPÍTULO 2 – CREDO UT INTELLEGAM
1 – “A sabedoria sabe e compreende todas as coisas” (Sb 9,11)
A Sagrada escritura apresenta o homem sábio como aquele que ama e busca a
verdade. O desejo de conhecer é comum a todos os homens, fiés e não-fiés.
“O caráter peculiar do texto bíblico reside na convicção de que existe uma unidade
profunda e indivisível entre o conhecimento da razão e o da fé.” Assim, não é possível
conhecer profundamente o mundo e os fatos sem ao mesmo tempo professar a fé em Deus
que neles atua.”
“O homem, pela luza da razão, pode reconhecer a sal estrada, mas percorrê-la de
maneira decidia, sem obstáculos e até ao fim, ele só consegue se, de animo reto, integrar a
sua pesquisa no horizonte da fé.”
“Não há motivos para existir concorrência entre a razão e a fé: uma implica a
outra.”
Regras fundamentais para a razão: 1) O conhecimento do homem não permite
descanso. 2) ter consciência de que essa busca não é fruto de conquista pessoal. 3) Ter
“temor de Deus”, reconhecer que há uma transcendência superior que governa o mundo.
Sem essas regras fundamentais, especialmente a terceira, o que se alcança pode ser
verdade, mas só adquire pleno significado se o seu conteúdo for situado num horizonte
mais amplo, o da fé.
Ou seja, pela razão o homem alcança a verdade, mas junto com a fé ele conhece o
sentido profundo de tudo.
2 – “Adquire a sabedoria, adquire a inteligência”
“Apoiando-se em Deus, o fiel permanece, em toda a parte e sempre, inclinado para
o que é belo, bom e verdadeiro.”
Capacidade metafísica do homem: por meio da criação o homem pode chegar ao
conhecimento de Deus. Ele faz intuir à razão o seu “poder” e a sua “divindade”. A partir
disso, o homem consegue ultrapassar sua capacidade natural de conhecimento indo em
direção a Deus.
Devido ao pecado original, o homem perdeu a facilidade desse acesso a Deus
criador (a origem de tudo) e escolheu colocar-se em absoluta autonomia. O homem não
era capaz de discernir entre o que era bem e o que era mal (árvore do bem e do mal) e
apelavam a um princípio superior. A cegueira do orgulho fez com que eles prescindissem
de Deus. Isso causou trauma à razão humana e seu caminho para a verdade plena.
Conflito entre a “sabedoria do mundo” e a sabedoria de Deus revelado em Jesus
Cristo. Qualquer tentativa de reduzir o plano salvífico do Pai a mera lógica humana está
destinada a falência diante da morte de Cristo na cruz.
“O homem não consegue compreender como pode a morte ser fonte de vida e de
amor, mas Deus, para revelar o mistério do seu desígnio salvador, escolheu precisamente
o que a razão considera “loucura” e “escândalo”’.
“A razão não pode esgotar o mistério de amor que a Cruz representa, mas a Cruz
pode dar à razão a resposta última que esta procura.”
CAPÍTULO III – INTELLEGO UT CREDAM
1 – Caminhar à procura da verdade
Em todo homem é semeado um desejo e nostalgia de Deus. Meu coração só
descansa em Ti Senhor. O homem expressa esse desejo íntimo nas artes, músicas e
filosofia.
“Todos os homens desejam saber, e o objeto próprio desse desejo é a verdade.”
“O homem é o único ser que é capaz não só de saber, mas também de saber que
sabe, e por isso se interessa pela verdade daquilo que vê.”
A liberdade encontra-se na procura por valores que sejam verdadeiros e, em
consequência, podem aperfeiçoar a pessoa realizando sua natureza. Esses valores o
homem conhece quando ele se abre para a transcendência.
Conhece-se a verdade diante do questionamento sobre o sentido da vida. Depois
certeza de existirmos, a primeira verdade certa que temos é inevitabilidade da morte.
Diante dessa realidade, “procura-se uma explicação definitiva, um valor supremo,
para além do qual não existam, nem possam existir, ulteriores perguntas ou apelos.”
2 - Os diferentes rostos da verdade do homem
Definição do homem: “aquele que procura a verdade.”
“A sede de verdade está tão radicada no coração do homem que, se tivesse de
prescindir dela, a sua existência ficaria comprometida.”
Formas de verdade: 1) as que recebem confirmação da experiencia (pesquisa
científica/ vida cotidiana); 2) especulação do intelecto (caráter filosófico); 3) respostas
que diversas religiões oferecem às questões últimas (verdades religiosas).
É natural que o homem questione as verdades que lhes foi ensinada por sua
cultura e criação, isso mostra um sinal de maturidade, mesmo que ele chegue a uma
conclusão que o traga de volta a essas mesmas verdades. Contudo, não há como se
questionar tudo que nos é “imposto”, não como questionar toda nova pesquisa científica.
Assim, “o homem que busca a verdade é também aquele que vive em crenças.”
Essa crença é uma confiança interpessoal: o homem confia na verdade que o outro
lhe manifesta. Exemplo: o testemunho dos mártires, “descobre-se neles a evidência dum
amor que não precisa de longas demonstrações para ser convincente, porque fala daquilo
que cada um, no mais fundo de si mesmo, já sente como verdadeiro e que há tanto tempo
procurava.” Um mártir provoca em nós uma profunda confiança.
A busca do homem pela verdade vai além de verdades parciais, científicas ou para
suas decisões pessoais; essa busca do homem aponta para uma verdade suprema. Essa
verdade, contudo, não se alcança somente por via racional, mas também exige um
abandono confiante a outras pessoas que possam garantir essa autêntica verdade.
Portanto, percebe-se que o homem se encontra num caminho de busca da verdade
e busca duma pessoa em quem poder confiar. Diante disso, o cristianismo apresentar a
resposta última em Jesus Cristo, que é a Verdade.
“O Deus que fundamenta e garante o caráter inteligível e racional da ordem natural
das coisas, sobre o qual os cientistas se apoiam confiadamente, é o mesmo que se revela
como Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.”
CAPÍTULO IV – A RELAÇÃO ENTRE A FÉ E A RAZÃO
1 – As etapas significativas do encontro entre fé e a razão
“O cristianismo tinha anunciado, desde as suas origens, a igualdade de todos os
homens diante de Deus.” “Se o acesso à verdade é um bem que permite chegar a Deus,
todos devem estar em condições de poder percorrer essa estrada.”
A filosofia grega não vem agregar algo a verdade cristã, mas é a defesa da fé.
Os Padres da Igreja acolheram a razão na sua plena abertura ao absoluto e, nela,
enxertaram a riqueza vinda da Revelação. Foi um encontro entre criatura e Criador.
Harmonia entre fé e razão: “a fé requer que o seu objeto seja compreendido com a
ajuda da razão; por sua vez a razão, no apogeu da sua indagação, admite como necessário
aquilo que a fé apresenta.”
2 – A novidade perene do pensamento de santo Tomás de Aquino
“Como a graça supõe a natureza e leva-a a perfeição, assim também a fé supõe e
aperfeiçoa a razão.”
Sapiência vem do Espírito Santo para o conhecimento das coisas divinas. Em
adição: Filosofia (capacidade do intelecto) e Teologia (examina os conteúdos da fé).
Santo Tomás se destaca por manter sempre no horizonte a verdade universal,
objetiva e transcendente.
3 – O drama da separação da fé e da razão
Formas de humanismo ateu que apontavam a fé como prejudicial ao uso da razão.
A visão positivista na ciência destruiu qualquer visão de mundo metafísica.
A crise do racionalismo resultou no niilismo (não há como alcançar a verdade, tudo
é fugaz e provisório, a existência é só experiencia de sensações).
Alterou-se a função da filosofia de buscar a verdade e o sentido da vida para uma
“razão instrumental” de áreas do saber humano.
Os filósofos abandonaram a busca da verdade por si mesma, assumiram somente
uma certeza subjetiva ou utilidade prática. Em consequência, desaparece a verdadeira
dignidade da razão, que era conhecer a verdade e buscar o absoluto.
Assim, começa uma progressiva separação entre fé e razão filosófica que deve ser
recuperada o quanto antes.
CAPÍTULO V – INTERVENÇÕES DO MAGISTÉRIO EM MATÉRIA FILOSÓFICA
1 – O discernimento do Magistério como diaconia da verdade
“A Igreja não propõe uma filosofia própria”, nem segue uma corrente específica,
pois ela deve sempre deixar a filosofia aberta à verdade, em qualquer forma que ela se
apresente.
“Ao Magistério compete, antes de mais nada, indicar os pressupostos e as
conclusões filosóficas que são incompatíveis com a verdade revelada.”
“A Igreja tem o dever de indicar aquilo que pode existir, num sistema filosófico,
incompatível com a sua fé.” Tem o dever de defender aquilo que ela guarda.
Solução para esses ataques à filosofia: não perder a paixão pela verdade última,
nem o anseio de pesquisa, unidos à audácia de descobrir novos percursos. É a fé que incita
a razão.
2 – Solicitude da Igreja pela Filosofia
O Magistério também dá um caminho para uma renovação do pensamento
filosófico: Papa Leão XIII recomendava a recuperar o pensamento de Santo Tomás,
distinguir fé e razão, mas também as unir.
Além disso, diversos documentos dos últimos concílios da Igreja apresentam
diversos temas para serem explorados pela filosofia com o auxílio da fé.
Muitos dos documentos, inclusive, ressaltam a importante do uso da filosofia para
a propagação da fé e anuncio do Evangelho.
CAPÍTULO VI – INTERAÇÃO DA TEOLOGIA COM A FILOSOFIA
1 – A ciência da fé e as exigências da razão filosófica
A Palavra de Deus destina-se a todo homem, de qualquer época e lugar da terra.
Assim, como o homem é um ser filosófico, a teologia deve recorrer às filosofias que vão
surgindo ao longo da história.
A teologia é a ciência da fé. Possui duas metodologias: auditus fidei – contém os
conteúdos da Revelação (Sagrada Escritura, Tradição e Magistério vivo da Igreja); e
intellectus fidei – responder às exigências próprias do pensamento por reflexão
especulativa. Em ambas as metodologias, a filosofia pode colaborar.
Intellectus fidei: interpretar as coisas do mundo que contém uma inteligibilidade,
assim reconhece uma estrutura lógica que organiza a doutrina da Igreja.
Teologia dogmática: deve articular e expressar o mistério da fé em expressões
conceituais, formuladas de modo crítico e universalmente acessíveis. Ela pressupõe essa
filosofia do homem, do mundo e do próprio ser, fundada na verdade objetiva.
Teologia fundamental: deve mostrar a compatibilidade intrínseca entre fé e a sua
necessidade de se explicitar por meio de uma razão capaz de plena liberdade.
Assim, a fé, apesar de não se basear na razão, não pode existir sem ela. Enquanto a
razão é fortificada na fé que amplia seus horizontes e lhe confere um sentido.
Teologia moral: deve recorrer a visão filosófica correta para ter princípios gerais
de uma decisão ética.
O teólogo deve sempre usar de outros meios do conhecimento que, alcançando a
verdade, poderá sustentar e defender a fé.
A universalidade da mensagem da Igreja faz com que ela leve a fé a uma
diversidade de culturas, essa diversidade pode ser benéfica para apresentar e olhar para a
fé sob perspectivas e culturas diferentes.
“Cada cultura traz gravada em si mesma e deixa transparecer a tensão para uma
plenitude.” “A cultura contém sem si própria a possibilidade de acolher a revelação
divina.”
O Evangelho não é contrário a uma ou outra cultura, ou obrigada assumir formas
extrínsecas que lhes são estranhas. O Evangelho é a real libertação de toda desordem do
pecado e um chamado à verdade plena.
A Igreja deve aderir a elementos das diversas culturas que são compatíveis com a
fé para obter um enriquecimento do pensamento cristão. Para deve-se seguir critérios: 1)
universalidade do espírito humano em todas as culturas; 2) não rejeitar o que a Igreja já
tem da inculturação greco-latina; 3) não permitir que a nova cultura encontrada se feche
em si e não aceite outros pensamentos nela e na Igreja.
A relação com a Palavra de Deus também proporciona horizontes inesperados que
enriquece a filosofia. Grandes pensadores da história como os Padres da Igreja fizeram
essa conexão entre escritura e filosofia.
2. Diferentes estádios da filosofia
1) Filosofia independente da revelação evangélica: pensamentos antes da vinda de
Cristo. Filosofia movida somente pela força da razão. No fundo, é algo bom, pois pelo
menos implicitamente permanece aberto ao sobrenatural. A filosofia “separada”, proposta
por pensadores modernos, já é ilegítima, pois rejeita qualquer contribuição a verdade da
revelação divina.
2) Filosofia cristã: significa abraçar todos os importantes avanços do pensamento
filosófico que não seriam alcançados sem a contribuição da fé cristã.
Aspectos da fé cristã:
a) Aspecto subjetivo: purificação da razão pela fé. Virtude a humildade que conduz a
filosofia.
b) Aspecto objetivo: a Revelação apresenta verdades que nunca seriam descobertas
pela razão. A noção de que existe a verdade e o racional para além do que seria
tentado a parar, impulsionou a filosofia ocidental a alcançar novos limites.
3) A teologia chama em causa a filosofia: das verdades da fé, derivam determinadas
exigências que a filosofia deve respeitar, quando entra em relação com a teologia.
- “a revelação cristã torna-se o verdadeiro ponto de enlace e confronto entre o
pensar filosófico e o teológico. Ambos os pensamentos devem se deixar guiar pela
autoridade da verdade.
CAPÍTULO VII – EXIGÊNCIAS E TAREFAS ATUAIS
1 – As exigências irrenunciáveis da palavra de Deus
Propostas filosóficas da Sagrada escritura: a realidade que experimentamos não é
o absoluto, nem se autogerou. Só Deus é o Absoluto. Discute também, o problema do mal
moral e apresenta o mistério do Verbo encarnado (natureza humana e a natureza divina).
O mundo atual está em uma “crise de sentido”, tudo é dado científicos e dados a
serem processados. Isso desemboca em um ceticismo e indiferença, além de um niilismo.
“Para estar em consonância com a palavra de Deus é necessário, antes de mais, que
a filosofia volte a encontrar a sua dimensão sapiencial de procura do sentido último da
vida.”
Essa busca de sentido último toca na religiosidade constitutiva de cada pessoa.
Para responder, como filósofos, as exigências da palavra de Deus sobre o
pensamento humano: deve haver uma “coerente continuidade com aquela grande
tradição” que se estenderá até “englobar as conquistas fundamentais do pensamento
moderno e contemporâneo”. É esse enraizamento na tradição que permite exprimir um
pensamento original. “Poder-se-ia mesmo dizer que somos nós que pertencemos à
tradição.”
Teses que causam confusões e perigos à filosofia que busca o sentido do
ser: ecletismo, historicismo, cientificismo, pragmatismo e, por fim, o niilismo.
A maior ferida que essas teses deixaram na sociedade foi a mentalidade de
que o homem, graças as conquistas cientificas e tecnológicas, pode por si mesmo garantir
o domínio total de seu destino.
2 – Tarefas atuais da teologia
A primeira obrigação da teologia é compreender a kenosi de Deus, ou seja, porque
parece insustentável, à mente humana, que o sofrimento e a morte possam exprimir o
amor que se dá sem pedir nada em troca.
As respostas estão na palavra de Deus, cujo relatos contém significados para além
de acontecimentos históricos. Ela não se destina apenas a um povo ou só um épocas.
“A verdade nunca pode estar limitada a um tempo, nem a uma cultura; é conhecida
na história, mas supera a própria história.”
A história do pensamento mostra que certos conceitos básicos mantem seu valor
universal (verdade que exprimem), através do da evolução e da variedade das culturas.
Intellectus fidei: compreensão da verdade revelada. Requer uma filosofia do ser que
permita à teologia dogmática realizar suas funções.
Verdade no campo da moral: dever da catequese de transformar a doutrina da
Igreja na sua integridade a fim de formar a pessoa.
CONCLUSÃO
“Igreja continua profundamente convencida de que fé e razão se ajudam
mutuamente.”
“Teologia tem de recuperar sua relação com a filosofia, assim como a filosofia deve
recuperar sua relação com a teologia.”
Tarefa urgente: “levar os homens à descoberta da sua capacidade de conhecer a
verdade e do seu anseio pelo sentido último e definitivo da existência.”
“O homem contemporâneo chegará a reconhecer que será tanto mais homem
quanto mais se abrir a Cristo.”
Como a filosofia é um espelho onde se reflete a cultura dos povos, ela torna-se um
instrumento fundamental para a nova evangelização. Que procura evangelizar a cultura.