1.
O Problema da Demarcação do Conhecimento Científico
A demarcação é a tentativa de estabelecer um critério que diferencie o conhecimento científico
de outras formas de conhecimento, como a religião, a metafísica ou a pseudociência. A
necessidade dessa distinção surge porque:
Queremos saber quais teorias são confiáveis e quais não são.
Precisamos evitar que crenças sem base científica sejam aceites como ciência.
Critérios Tradicionais para a Demarcação
Verificabilidade (Empirismo Lógico / Positivismo Lógico)
Uma teoria é científica se puder ser confirmada empiricamente.
Problema: nenhuma teoria pode ser verificada de forma absoluta, porque sempre há a
possibilidade de novas observações contradizerem a teoria.
Falsificabilidade (Popper)
Uma teoria é científica se for possível conceber um experimento que a refute.
Exemplo: A teoria de Einstein sobre a gravidade previa que a luz seria desviada pela
gravidade do Sol. Isso foi testado e confirmado em 1919. Se a observação tivesse dado
errado, a teoria seria falsificada.
Vantagem: ao invés de provar uma teoria como “verdadeira”, tentamos encontrar
falhas nela.
2. O Falsificacionismo de Popper
Popper propõe o falsificacionismo como critério para distinguir ciência de não-ciência.
Principais ideias:
A ciência avança por tentativa e erro, eliminando teorias falsas e aprimorando as que
resistem aos testes.
Quanto mais uma teoria faz previsões arriscadas, mais científica ela é (exemplo: a
Teoria da Relatividade previa efeitos específicos que poderiam ser testados).
Teorias que podem ser ajustadas para explicar qualquer coisa (exemplo: psicanálise,
astrologia) não são falsificáveis, logo não são científicas.
Exemplo de Falsificação:
A teoria “todos os cisnes são brancos” é testável porque basta encontrar um cisne
negro para refutá-la.
Por outro lado, uma teoria como “o mercado financeiro é imprevisível, mas qualquer
evento pode ser explicado depois que acontece” não é falsificável, pois sempre se
adapta.
3. O Problema da Indução
A indução é o método tradicional de inferência científica:
A partir de várias observações particulares, formulamos uma lei geral.
Exemplo: Observamos centenas de vezes que o Sol nasce todas as manhãs →
concluímos que o Sol nascerá sempre.
David Hume e a Crítica à Indução
Hume argumentou que não há justificação racional para a indução, porque:
O fato de algo ter acontecido no passado não garante que acontecerá no futuro.
Supor que o futuro será como o passado é apenas um hábito mental, não uma certeza
lógica.
Resposta de Popper: O Método Dedutivo de Testes
A ciência não avança por indução, mas por conjecturas e refutações.
Em vez de tentar provar que uma teoria é verdadeira, tentamos refutá-la.
Exemplo: Em vez de assumir que “todos os metais se dilatam com o calor” com base
em observações passadas, a ciência tenta encontrar um caso onde isso não acontece.
4. O Papel da Observação e da Experimentação
A ciência depende da observação e da experimentação, mas Popper argumenta que:
A observação nunca é neutra: vemos o mundo através de nossas teorias e expectativas.
Os experimentos devem ser concebidos para tentar refutar hipóteses, não para
confirmá-las.
Experimentos Científicos e sua Importância:
Um bom experimento deve tentar colocar a teoria à prova.
Exemplo: A teoria da Relatividade de Einstein previa que a luz das estrelas seria
desviada pela gravidade do Sol. Isso foi testado em 1919 durante um eclipse solar.
Verificação vs. Verificabilidade:
Verificação: tentativa de confirmar que uma teoria é verdadeira (problema: nunca é
possível confirmar com certeza).
Verificabilidade: possibilidade de uma teoria ser testada.
5. Corroboração vs. Verificação
Popper rejeita a ideia de que podemos verificar uma teoria. Em vez disso, ele introduz o
conceito de corroboração:
Uma teoria que resiste a vários testes é considerada mais confiável, mas nunca
“verdadeira” de forma definitiva.
Quanto mais testes arriscados ela passar, mais forte é sua corroboração.
Exemplo:
A mecânica de Newton parecia perfeita por séculos, até que algumas anomalias foram
descobertas e Einstein propôs a Teoria da Relatividade, que a substituiu.
6. Críticas à Teoria de Popper
Thomas Kuhn e a Estrutura das Revoluções Científicas
Kuhn critica Popper e argumenta que a ciência não progride apenas por falsificação, mas por
mudanças de paradigma.
Paradigma: conjunto de teorias e métodos aceites por uma comunidade científica.
A ciência normal opera dentro de um paradigma, e os cientistas tentam resolver
problemas sem questioná-lo.
Quando há muitas anomalias, ocorre uma crise e um novo paradigma pode substituir o
antigo.
Exemplo: a passagem da física newtoniana para a relativística.
Imre Lakatos e os Programas de Pesquisa
Lakatos concorda que falsificações isoladas não são suficientes para abandonar uma teoria. Ele
propõe que as ciências funcionam dentro de programas de pesquisa, que possuem:
Núcleo duro: ideias fundamentais que não são abandonadas facilmente.
Cinturão protetor: hipóteses auxiliares que podem ser ajustadas para proteger o
núcleo.
Exemplo:
A mecânica de Newton teve problemas para explicar a órbita de Urano. Em vez de
rejeitar a teoria, os cientistas propuseram a existência de Netuno, que foi descoberto
depois.
Críticas Gerais ao Falsificacionismo
As teorias científicas raramente são abandonadas imediatamente após uma
falsificação.
Nem sempre é claro o que deve ser falsificado: uma previsão errada pode indicar um
erro na teoria principal ou apenas em uma hipótese auxiliar.
O critério de Popper exclui muitas ciências humanas, que trabalham com hipóteses
complexas e dificilmente falsificáveis.