ARREPENDIMENTO
Eugene Peterson
As pessoas submersas numa cultura apinhada de mentiras e malícia sentem-se como se
estivessem afundando nela: não podem acreditar em nada do que ouvem, nem confiar
em ninguém que encontram. Esse descontentamento com o mundo como ele é será o
preparo para viajar no caminho do discipulado cristão. O descontentamento, acoplado
a uma ânsia por paz e verdade, pode colocar-nos num caminho peregrino de inteireza
em Deus.
Uma pessoa precisa estar totalmente aborrecida com o modo em que estão as coisas
para encontrar a motivação para partir no caminho cristão. Enquanto pensarmos que a
próxima eleição poderá eliminar o crime e estabelecer a justiça ou que um novo avanço
cientifico poderá salvar o meio ambiente, ou outro aumento de salário pode nos dar o
empurrãozinho para sair da ansiedade para uma vida tranquila, não é provável que nos
arrisquemos nas árduas incertezas da vida de fé. O indivíduo tem que estar farto com os
modos do mundo antes que ele ou ela adquira um apetite pelo inundo da graça.
O Salmo 120 é o cântico da pessoa assim, doente com as mentiras e mutilada pelo ódio,
uma pessoa encolhida de dor a respeito do que se passa no inundo. Mas não é um mero
berro, e uma dor que penetra junto com o desespero e estimula um novo começo —
uma viagem a Deus que se torna uma vida de paz. Os quinze Cânticos de Subida
descrevem elementos comuns a todos aqueles que se comprometem a viajar no
caminho cristão. Este, o primeiro deles, e a aguilhoada que os impulsiona a começar.
Não é uma canção linda nada nela e impressionantemente melancólico ou liricamente
feliz. E dura. E dissonante. Mas faz começar as coisas.
Mentiras sem erro
Estou em apuros é a frase inicial. A última palavra é guerra. Não é um cântico feliz, mas
é um cântico franco e necessário.
Os homens estão alinhados um contra o outro. As mulheres altercam violentamente
entre si. Somos ensinados a disputar desde o ventre. O mundo está inquieto, sempre
louco por uma briga. Ninguém parece saber como viver com relacionamentos saudáveis.
Persistimos em transformar cada comunidade numa seita, cada empreendimento numa
guerra. Reconhecemos, em momentos fugidios, que fomos criados para algo diferente
e melhor — "Sou todo pela paz" — mas não há confirmação dessa percepção no nosso
ambiente, nenhum incentivo para isso na nossa experiência. "Sou todo pela paz, mas no
minuto em que eu lhes digo isso, eles vão a guerra! ”
A angustia que começa e conclui o cântico é o acordar doloroso para a realidade que
não pode mais ser evitada de que mentiram para nos. O mundo, na realidade, não é
como foi representado para nós. As coisas não estão bem como estão, e em nada
melhoram. Contaram-nos a mentira desde que nós podemos lembrar: os seres humanos
são basicamente bons e agradáveis. Todo mundo nasceu igual e inocente e
autossuficiente. O mundo é um lugar agradável, harmonioso. Nascemos livres. Se
carregamos cadeias agora, é culpa de alguém, e nós podemos corrigir isso apenas com
um pouquinho mais de inteligência ou de esforço ou de tempo.
Como conseguimos continuar a crer nisso depois de tantos séculos de evidência ao
contrário é o que é difícil compreender, mas nada que fazemos e nada que outra pessoa
nos faz parecer desencantar-nos do feitiço da mentira. Continuamos a esperar que as
coisas melhorem de alguma maneira. E quando não melhoram, choramingamos como
crianças mal-acostumadas que não conseguem o que querem. Acumulamos
ressentimento que se armazena em ira e irrompe em violência. Convencidos pela
mentira que o que estamos vivenciando não é natural, que é uma exceção, nós
inventamos modos de escapar da influência do que outras pessoas nos fazem saindo de
férias com tanta frequência quanto possível. Quando as férias terminam, voltamos
novamente ao fluxo das coisas, nossa ingenuidade renovada de que tudo vai acabar bem
somente para sermos mais uma vez surpreendidos, machucados, aturdidos quando não
acaba. A mentira ("tudo está bem") encobre e perpetua o mal profundo, disfarça a
violência, a guerra, a voracidade.
A conscientização cristã começa com o reconhecimento dolorido de que aquilo que nos
presumimos ser a verdade é realmente uma mentira. A oração é imediata: "Livra-me
dos mentirosos, Deus! Sorriem tão docemente, mas mentem a não mais poder". Salva-
me das mentiras dos anunciantes que afirmam saber o que eu preciso e o que desejo,
das mentiras dos que oferecem entretenimento, que prometem um caminho barato
para a alegria, das mentiras dos políticos que fingem instruir-me sobre o poder e a
moralidade, das mentiras dos psicólogos que oferecem moldar meu comportamento e
meus princípios morais para que eu viva uma vida longa, com felicidade e sucesso, das
mentiras dos beatos que "curam superficialmente as feridas deste povo", das mentiras
dos moralistas que fingem promover-me a posição de capitão do meu destino, das
mentiras de pastores que "se livram do mandamento de Deus para você não ser
incomodado ao seguir as modas religiosas!" (Mc 7.8). Salva-me da pessoa que me conta
sobre a vida e omite Cristo, que é sabia quanto aos caminhos do mundo e ignora o mover
do Espirito.
As mentiras são impecáveis. Elas não contêm erros. Não há distorções ou dados
falsificados. Mas elas são mentiras assim mesmo, porque elas alegam contar-nos quem
somos e omitem tudo sobre a nossa origem em Deus e nosso destino em Deus. Falam-
nos sobre o mundo sem nos contar que Deus o fez. Falam-nos sobre nosso corpo sem
dizer-nos que ele e templo do Espirito Santo. Instruem-nos em amor sem contar-nos
sobre o Deus que nos ama e que se deu por nos.
Relâmpagos iluminando as encruzilhadas
A palavra Deus ocorre apenas duas vezes neste salmo, mas é a chave do todo. Deus,
uma vez admitido na consciência, enche todo o horizonte. Deus, revelado na sua obra
criativa e redentora, expõe a luz todas as mentiras. No momento em que a palavra Deus
é pronunciada, a mentira agigantada do mundo é exposta — vemos a verdade. A
verdade a meu respeito é que Deus me fez e ele me ama. A verdade sobre aqueles que
se sentam ao meu lado é que Deus os fez e Deus os ama, e portanto cada um é meu
próximo. A verdade sobre o mundo é que Deus o governa e o mantém. A verdade sobre
o que está errado com o mundo é que eu e o próximo sentado ao meu lado pecamos ao
recusar deixar Deus ser por nós, sobre nós e em nos. A verdade Sobre o que está no
centro de nossa vida e de nossa história é que Jesus Cristo foi crucificado na cruz por
nossos pecados e levantado do túmulo para nossa salvação e que nós podemos
participar em vida nova a medida que cremos nele, aceitamos sua misericórdia,
respondemos ao seu amor, atendemos aos seus mandamentos.
John Baillie escreveu: "Estou certo que o trecho da estrada que mais precisa ser
iluminado é o ponto em que ela se bifurca". O Deus do salmista é um relampejar de raio
que ilumina justamente esse tipo de bifurcação. O Salmo 120 é a decisão de escolher
um caminho em oposição a outro. É o ponto crucial que marca a transição de uma
nostalgia sonhadora para uma vida melhora uma peregrinação dura de discipulado em
fé, a mudança de reclamar sobre como as coisas estão más e ir atrás de todas as coisas
boas.
Essa decisão é falada e cantada em todos os continentes e todas as línguas. A decisão
foi tomada em todo tipo de vida em cada século na longa história da humanidade. A
decisão é quietamente (e as vezes não tão quietamente) anunciada de milhares de
púlpitos cristãos em todo o mundo a cada domingo. A decisão é testemunhada por
milhões, em lares, fabricas, escolas, empresas, escritórios e campos todos os dias de
cada semana. As pessoas que tomam a decisão e se deleitam com ela são as pessoas
chamadas cristãs.
Um Não que é um Sim
O primeiro passo em direção a Deus é um passo de distanciamento das mentiras do
mundo. É uma renúncia as mentiras que nos foram contadas sobre nós mesmos e nossos
próximos e nosso universo. "Estou fadado a viver em Meseque, amaldiçoado com um
lar em Quedar. Minha vida inteira vivida acampando entre vizinhos briguentos".
Meseque e Quedar são nomes de lugares: Meseque uma tribo longínqua, a milhares de
quilômetros da Palestina no sul da Rússia; Quedar uma tribo beduína conhecida como
não civilizada e rude, ao longo das fronteiras de Israel. Representam os estranhos e
hostis. Parafraseando, a exclamação: "Eu vivo no meio de valentões e selvagens; este
mundo não é meu lar, e eu quero sair daqui".
A palavra bíblica usual que descreve o não que dizemos as mentiras do mundo e o sim
que dizemos a verdade de Deus é arrependimento. É sempre e em toda parte a primeira
palavra da vida cristã. A pregação de João Batista era "Arrependam-se, porque está
próximo o reino dos céus" (Mt 3.2). A primeira pregação de Jesus foi a mesma:
"Arrependam-se, porque está próximo o reino dos céus" (Mt 4.17). Pedro concluiu seu
primeiro sermão com "Arrependam-se, e sejam batizados" (At 2.38). No último livro da
Bíblia a mensagem a sétima igreja e "sejam zelosos e arrependam-se" (Ap 3.19).
O arrependimento não é uma emoção. Não é ficar triste pelos próprios pecados. É uma
decisão. É decidir que você errou ao supor que conseguiria gerir sua própria vida e ser
seu próprio deus; é decidir que você errou ao pensar que você possuía, ou poderia
conseguir, a força, a educação e o treinamento para se arranjar sozinho; é decidir que
lhe contaram uma porção de mentiras sobre você mesmo e seus vizinhos e seu mundo.
É decidir que Deus em Jesus Cristo está lhe dizendo a verdade. O arrependimento é a
percepção de que aquilo que Deus quer de você e que você quer de Deus não será
alcançado se continuar a fazer as mesmas coisas de sempre, a pensar os mesmos
pensamentos de sempre. Arrependimento é uma decisão de seguir Jesus Cristo e tornar-
se peregrino dele no caminho da paz.
Arrependimento é a mais pratica de todas as palavras e o mais prático de todos os atos.
É um tipo de palavra concreta. Põe a pessoa em contato com a realidade que Deus cria.
Elie Wiesel, referindo-se as histórias do Hasidim, diz que nos contos de autoria de Israel
de Rizhim um motivo aparece repetidamente: Um viajante perde o caminho na floresta;
é escuro e ele teme. O perigo esconde-se atrás de cada arvore. Uma tempestade quebra
o silêncio. O tolo olha para o relâmpago, o sábio para a estrada que ali está — iluminada
— a sua frente.
Sempre que dizemos não a um modo de vida a que há muito nos acostumamos, há dor.
Mas quando o modo de vida é realmente um caminho de morte, um caminho de guerra,
quanto mais depressa o abandonamos, melhor. Há uma condição que por vezes se
desenvolve em nosso corpo chamada aderências — partes de nossos órgãos internos
aderem a outras partes. Essa irregularidade tem de ser corrigida por procedimento
cirúrgico — uma intervenção decisória. O procedimento fere, mas os resultados são
sadios. Como a Bíblia de Jerusalém coloca nos versículos 3,4: "Como ele [Deus] repagará
o juramento falso? / de uma língua desleal/ Com flechas endurecidas de guerra/ sobre
carvão em rubra brasa viva!" A sentença seca de Emily Dickinson é uma epígrafe:
"Renúncia — a virtude lancinante! ”.
As flechas de Deus são juízos lançados para provocar o arrependimento. A dor do juízo
evocado contra malfeitores poderia desviá-los de seus modos enganosos e violentos
para se unirem ao nosso peregrino no caminho da paz. Qualquer ferimento que nos
ponha no caminho da paz, libertando-nos para buscar, em Cristo, a vida eterna vale a
pena. É a ação que segue a percepção de que a História não é um beco sem saída, a
culpa não é um abismo. É a descoberta de que há sempre um caminho que leva para
fora da aflição — um caminho que começa no arrependimento, ou no voltar-se para
Deus. Onde quer que encontremos o povo de Deus vivendo em aflição, há sempre
alguém que fornece essa palavra carregada de esperança, mostrando a realidade de um
dia diferente: "Naquele dia, haverá uma estrada do Egito até a Assíria, os assírios terão
livre acesso ao Egito, e os egípcios, a Assíria. Não mais rivais, adorarão juntos os egípcios
com os assírios" (Is 19.23). Tudo o que Israel conhecia da Assíria era a guerra — a visão
os mostra em adoração. O arrependimento é o agente catalítico para a mudança. O
desanimo é transformado naquilo que um profeta posterior descreveria como
evangelho.
Toda a história de Israel é acionada por dois atos desse tipo de rejeição do mundo, que
libertaram o povo para uma afirmação de Deus, "a rejeição da Mesopotâmia nos dias de
Abraão e a rejeição do Egito nos dias de Moisés". Toda a sabedoria e a forca do mundo
antigo estavam na Mesopotâmia e no Egito. Mas Israel disse não a eles. A despeito do
prestigio, da grandeza alardeada e inconteste, havia algo fundamentalmente
discrepante e falso nessas culturas: "Eu sou inteiramente pela paz; mas no momento em
que eu lhes digo isso, eles lá vão a guerra!" O poder mesopotâmico e a sabedoria egípcia
eram forca e inteligência divorciadas de Deus, usadas para os fins errados e produzindo
todos os resultados errados.
As interpretações modernas da Historia são variações das mentiras dos mesopotâmicos
e dos egípcios em que, como o descreve Abraham Heschel, "o homem reina supremo,
com as forças da natureza como seus únicos adversários possíveis. O homem está só,
livre e fortalecendo-se. Deus ou não existe ou não se interessa. É a iniciativa humana
que faz a história, e é principalmente pela forca que as constelações mudam. O homem
pode alcançar sua própria salvação". Então Israel disse não e tornou-se um povo
peregrino, escolhendo um caminho de paz e justiça através de campos de batalha da
mentira e da violência, encontrando um caminho para Deus através do labirinto do
pecado.
Sabemos que Israel, ao dizer aquele não, não voltou miraculosamente para o Éden e
viveu em inocência primitiva, nem habitou misticamente numa cidade celestial e viveu
em êxtase sobrenatural. Trabalharam, divertiram-se, sofreram e pecaram no mundo
como todos os demais homens fizeram, e como os cristãos ainda fazem. Mas agora
estavam indo para algum lugar — iam para Deus. A verdade de Deus explicava a vida
deles, a graça de Deus preenchia a vida deles, o perdão de Deus renovava a vida deles,
o amor de Deus abençoava a vida deles. O não os soltava para uma liberdade que era
diversa e gloriosa. O juízo de Deus invocado contra os povos de Meseque e Quedar foi,
realmente, um convite em palavras duras para que se arrependessem e um pedido para
que se unissem na jornada.
Entre as páginas mais fascinantes da história americana há aquelas que contam as
histórias dos imigrantes que chegaram a costa do continente no século 19. Milhares e
mais milhares de pessoas, cujas vidas na Europa haviam se tornado ruins e pobres,
perseguidas e infelizes, saíram de lá. Tinham ouvido falar de um lugar onde se podia
fazer um novo começo. Tinham relatos de uma terra em que o ambiente era um desafio
em vez de uma opressão. As histórias continuam a ser contadas em muitas famílias,
conservando viva a memória do acontecimento que transformou em americano quem
era alemão, ou italiano ou escocês.
Meu avô saiu da Noruega há cem anos no meio de uma fome. Sua esposa e dez filhos
ficaram para trás até que ele pudesse retornar para buscá-los. Ele chegou em
Petersburgo e trabalhou nas usinas siderúrgicas por dois anos até ter dinheiro suficiente
para voltar e trazer a família. Quando veio com ela não ficou em Petersburgo, embora
essa cidade tivesse servido bem a seus objetivos da primeira vez; prosseguiu viagem
para Montana, arriscando-se numa terra nova, procurando um lugar melhor.
Em todas essas histórias de imigrantes há uma mistura de fuga e aventura: a fuga de
uma situação infeliz, a aventura de uma situação de vida bem melhor, de estar livre para
novas coisas, aberto ao crescimento e a criatividade. Todo cristão tem alguma variação
sobre esse tema de imigrante para contar.
"Estou fadado a viver em Meseque, amaldiçoado com um lar em Quedar. Minha vida
inteira vivida acampando entre vizinhos briguentos." Mas não temos que viver mais lá.
Arrependimento, a primeira palavra na imigração cristã, nos coloca no caminho para a
viagem na luz. É uma rejeição que também é uma aceitação, uma partida que se
desenvolve numa chegada, um não ao mundo que é um sim para Deus.