Wa syo’lukasa pebwe
Umwime wa pita
[Ele deixou sua pegada na pedra
Ele mesmo seguiu]
Provérbio Lamba, Zâmbia
Este ensaio pressupõe que a expressão máxima da
soberania reside, em grande medida, no poder e na
capacidade de ditar quem pode viver e quem deve
morrer. Por isso, matar ou deixar viver constituem os
limites da soberania, seus atributos fundamentais. Ser
soberano é exercer controle sobre a mortalidade e definir
a vida como a implantação e manifestação de poder.
Pode-se resumir nos termos acima o que Michel
Foucault entende por biopoder: aquele domínio da vida
sobre o qual o poder estabeleceu o controle.1 Mas sob
quais condições práticas se exerce o poder de matar,
deixar viver ou expor à morte? Quem é o sujeito dessa
lei? O que a implementação de tal direito nos diz sobre a
pessoa que é, portanto, condenada à morte e sobre a
relação que opõe essa pessoa a seu ou sua assassino/ a?
Essa noção de biopoder é suficiente para contabilizar as
formas contemporâneas em que o político, por meio da
guerra, da resistência ou da luta contra o terror, faz do
assassinato do inimigo seu objetivo primeiro e absoluto?
A guerra, afinal, é tanto um meio de alcançar a soberania
como uma forma de exercer o direito de matar. Se
POLÍTICA, O TRABALHO DA MORTE E O
consideramos a política uma forma de guerra, devemos
“DEVIR SUJEITO”
perguntar: que lugar é dado à vida, à morte e ao corpo
A fim de responder a essas perguntas, este ensaio
humano (em especial o corpo ferido ou massacrado)?
baseia-se no conceito de biopoder e explora sua relação
Como eles estão inscritos na ordem do poder?
com as noções de soberania (imperium) e estado de
exceção.2 Tal análise suscita uma série de perguntas
empíricas e filosóficas, que eu gostaria de examinar
brevemente. Como se sabe, o conceito de estado de
exceção tem sido frequentemente discutido em relação
ao nazismo, ao totalitarismo e aos campos de
concentração/ extermínio. Os campos da morte em
particular têm sido interpretados de diversas maneiras,
como a metáfora central para a violência soberana e
destrutiva e como o último sinal do poder absoluto do
negativo. Como diz Hannah Arendt: “Não há paralelos à
vida nos campos de concentração. O seu horror não pode
ser inteiramente alcançado pela imaginação justamente
por situar-se fora da vida e da morte”.3 Em razão de seus
ocupantes serem desprovidos de estatuto político e
reduzidos a seus corpos biológicos, o campo é, para
Giorgio Agamben, “o lugar no qual se realizou a mais
absoluta condicio inhumana que já se deu sobre a
terra”.4 Na estrutura político-jurídica do campo,
acrescenta, o estado de exceção deixa de ser uma
suspensão temporal do estado de direito. De acordo com
Agamben, ele adquire um arranjo espacial permanente,
que se mantém continuamente fora do estado normal da verdade do sujeito, e a política é o exercício da razão na
lei. esfera pública. O exercício da razão equivale ao exercício
O objetivo deste ensaio não é debater a singularidade da liberdade, um elemento-chave para a autonomia
do extermínio dos judeus ou tomá-lo como exemplo.5 individual. Nesse caso, o romance da soberania baseia-se
Inicio a partir da ideia de que a modernidade esteve na na crença de que o sujeito é o principal autor controlador
origem de vários conceitos de soberania – e, portanto, da do seu próprio significado. Soberania é, portanto,
biopolítica. Desconsiderando essa multiplicidade, a crítica definida como um duplo processo de “autoinstituição” e
política contemporânea infelizmente privilegiou as “autolimitação” (fixando em si os próprios limites para si
teorias normativas da democracia e tornou o conceito de mesmo). O exercício da soberania, por sua vez, consiste
razão um dos elementos mais importantes tanto do na capacidade da sociedade para a autocriação pelo
projeto de modernidade quanto do território da recurso às instituições inspirado por significações
soberania.6 A partir dessa perspectiva, a expressão específicas sociais e imaginárias.8
máxima da soberania é a produção de normas gerais por Essa leitura fortemente normativa da política de
um corpo (povo) composto por homens e mulheres livres soberania foi objeto de inúmeras críticas, que não
e iguais. Esses homens e mulheres são considerados revisitarei aqui.9 Minha preocupação é com aquelas
sujeitos completos, capazes de autoconhecimento, formas de soberania cujo projeto central não é a luta pela
autoconsciência e autorrepresentação. A política, autonomia, mas “a instrumentalização generalizada da
portanto, é definida duplamente: um projeto de existência humana e a destruição material de corpos
autonomia e a realização de acordo em uma coletividade humanos e populações”. Tais formas da soberania estão
mediante comunicação e reconhecimento. É isso, dizem- longe de ser um pedaço de insanidade prodigiosa ou
nos, que a diferencia da guerra.7 uma expressão de alguma ruptura entre os impulsos e
Em outras palavras, é com base em uma distinção interesses do corpo e da mente. De fato, tal como os
entre razão e desrazão (paixão, fantasia) que a crítica campos da morte, são elas que constituem o nomos do
contemporânea foi capaz de articular uma certa ideia de espaço político em que ainda vivemos. Além disso,
política, comunidade, sujeito – ou, mais experiências contemporâneas de destruição humana
fundamentalmente, do que abarca uma vida plena, de sugerem que é possível desenvolver uma leitura da
como alcançá-la e, nesse processo, tornar-se agente política, da soberania e do sujeito, diferente daquela que
plenamente moral. Nesse paradigma, a razão é a herdamos do discurso filosófico da modernidade. Em vez
de considerar a razão a verdade do sujeito, podemos mas aquela que pressupõe a morte e vive com isso. O
olhar para outras categorias fundadoras menos abstratas espírito só alcança sua verdade quando descobre em si o
e mais palpáveis, tais como a vida e a morte. desmembramento absoluto.10 A política é, portanto, a
Pertinente a um projeto como esse é a discussão de morte que vive uma vida humana. Essa também é a
Hegel sobre a relação entre a morte e o “devir sujeito”. A definição de conhecimento absoluto e soberania: arriscar
concepção da morte, para Hegel, está centrada em um a totalidade de uma vida.
conceito bipartido de negatividade. Primeiro, o ser Georges Bataille também oferece compreensões
humano nega a natureza (negação exteriorizada no seu críticas sobre como a morte estrutura a ideia de
esforço para reduzir a natureza a suas próprias soberania, política e sujeito. Bataille desloca a concepção
necessidades); e, em segundo lugar, ele ou ela de Hegel das ligações entre morte, soberania e sujeito de
transforma o elemento negado por meio de trabalho e pelo menos três maneiras. Primeiro, ele interpreta a
luta. Ao transformar a natureza, o ser humano cria um morte e a soberania como o paroxismo de troca e
mundo; mas no processo, ele ou ela fica exposto(a) a sua superabundância – ou, para usar sua própria
própria negatividade. Sob o paradigma hegeliano, a terminologia, “excesso”. Para Bataille, a vida é falha
morte humana é essencialmente voluntária. É o apenas quando a morte a toma como refém. A vida em si
resultado de riscos conscientemente assumidos pelo só existe em espasmos e no confronto com a morte.11
sujeito. De acordo com Hegel, nesses riscos o “animal” Ele argumenta que a morte é a putrefação da vida, o
que constitui o ser natural do indivíduo é derrotado. fedor que é, ao mesmo tempo, sua fonte e condição
Em outras palavras, o ser humano verdadeiramente repulsiva. Portanto, embora destrua o que era para ser,
“torna-se um sujeito” – ou seja, separado do animal – na apague o que supostamente continuaria a ser e reduza a
luta e no trabalho pelos quais ele ou ela enfrenta a morte nada o indivíduo, a morte não se limita ao puro
(entendida como a violência da negatividade). É por meio aniquilamento do ser. Pelo contrário, é essencialmente
desse confronto com a morte que ele ou ela é lançado(a) autoconsciência; além disso, é a forma mais luxuosa da
no movimento incessante da história. Tornar-se sujeito, vida, ou seja, de efusão e exuberância: um poder de
portanto, supõe sustentar o trabalho da morte. Sustentar proliferação. Ainda mais radicalmente, Bataille retira a
o trabalho da morte é precisamente como Hegel define a morte do horizonte da significação. Isso está em
vida do espírito. A vida do espírito, ele diz, não é aquela contraste com Hegel, para quem nada se encontra
vida que tem medo da morte e se poupa da destruição, definitivamente perdido na morte; de fato, a morte é
vista como detentora de grande significação, como um mundo da soberania, Bataille argumenta, “é o mundo no
meio para a verdade. qual o limite da morte foi abandonado. A morte está
Em segundo lugar, Bataille firmemente ancora a morte presente nele, sua presença define esse mundo de
no reino do dispêndio “absoluto” (a outra característica violência, mas, enquanto a morte está presente, está
da soberania), enquanto Hegel tenta manter a morte sempre lá apenas para ser negada, nunca para nada
dentro da economia do conhecimento absoluto e da além disso. O soberano”, conclui, “é ele quem é, como se
significação. A vida além da utilidade, diz Bataille, é o a morte não fosse... Não respeita os limites de identidade
domínio da soberania. Sendo esse o caso, a morte é o mais do que respeita os da morte, ou, ainda, esses
ponto no qual destruição, supressão e sacrifício limites são os mesmos; ele é a transgressão de todos
constituem um dispêndio tão irreversível e radical – e esses limites”. Uma vez que o domínio natural de
sem reservas – que já não podem ser determinados como proibições inclui a morte, entre outras (por exemplo,
negatividade. A morte é o próprio princípio do excesso – sexualidade, sujeira, excrementos), a soberania exige
uma “antieconomia”. Daí a metáfora do luxo e do que “a força para violar a proibição de matar, embora
“caráter luxuoso da morte”. verdadeira, estará sob condições que o costume define”.
Em terceiro lugar, Bataille estabelece uma correlação E, ao contrário da subordinação, sempre enraizada na
entre morte, soberania e sexualidade. A sexualidade está alegada necessidade de evitar a morte, a soberania
completamente associada à violência e à dissolução dos definitivamente demanda o risco de morte.13
limites de si e do corpo por meio de impulsos orgíacos e Ao tratar a soberania como a violação de proibições,
excrementais. Como tal, a sexualidade diz respeito a Bataille reabre a questão dos limites da política. Política,
duas formas principais de impulsos humanos polarizados nesse caso, não é o avanço de um movimento dialético
– excreção e apropriação –, bem como o regime dos da razão. A política só pode ser traçada como uma
tabus em torno deles.12 A verdade do sexo e seus transgressão em espiral, como aquela diferença que
atributos mortais residem na experiência da perda das desorienta a própria ideia do limite. Mais
fronteiras que separam realidade, acontecimentos e especificamente, a política é a diferença colocada em
objetos fantasiados. jogo pela violação de um tabu.14
Para Bataille, a soberania tem muitas configurações.
Mas, em última análise, é a recusa em aceitar os limites
a que o medo da morte teria submetido o sujeito. O
Que a “raça” (ou, na verdade, o “racismo”) tenha um
lugar proeminente na racionalidade própria do biopoder é
O BIOPODER E A RELAÇÃO DE INIMIZADE
inteiramente justificável. Afinal de contas, mais do que o
Após apresentar uma leitura da política como o trabalho pensamento de classe (a ideologia que define história
da morte, tratarei agora da soberania, expressa como uma luta econômica de classes), a raça foi a
predominantemente como o direito de matar. Em minha sombra sempre presente no pensamento e na prática
argumentação, relaciono a noção de biopoder de das políticas do Ocidente, especialmente quando se trata
Foucault a dois outros conceitos: o estado de exceção e o de imaginar a desumanidade de povos estrangeiros – ou
estado de sítio.15 Examino essas trajetórias pelas quais o a dominação a ser exercida sobre eles. Referindo-se
estado de exceção e a relação de inimizade tornaram-se tanto a essa presença atemporal como ao caráter
a base normativa do direito de matar. Em tais instâncias, espectral do mundo da raça como um todo, Arendt
o poder (e não necessariamente o poder estatal) localiza suas raízes na experiência demolidora da
continuamente se refere e apela à exceção, à alteridade e sugere que a política da raça, em última
emergência e a uma noção ficcional do inimigo. Ele análise, está relacionada com a política da morte.17 Com
também trabalha para produzir a mesma exceção, efeito, em termos foucaultianos, racismo é acima de tudo
emergência e inimigo ficcional. Em outras palavras, a uma tecnologia destinada a permitir o exercício do
questão é: qual é, nesses sistemas, a relação entre biopoder, “este velho direito soberano de matar”.18 Na
política e morte que só pode funcionar em um estado de economia do biopoder, a função do racismo é regular a
emergência? Na formulação de Foucault, o biopoder distribuição da morte e tornar possíveis as funções
parece funcionar mediante a divisão entre as pessoas assassinas do Estado. Segundo Foucault, essa é “a
que devem viver e as que devem morrer. Operando com condição para a aceitabilidade do fazer morrer”.19
base em uma divisão entre os vivos e os mortos, tal Foucault afirma claramente que o direito soberano de
poder se define em relação a um campo biológico – do matar (droit de glaive) e os mecanismos de biopoder
qual toma o controle e no qual se inscreve. Esse controle estão inscritos na forma em que funcionam todos os
pressupõe a distribuição da espécie humana em grupos, Estados modernos;20 de fato, eles podem ser vistos como
a subdivisão da população em subgrupos e o elementos constitutivos do poder do Estado na
estabelecimento de uma cesura biológica entre uns e modernidade. Segundo Foucault, o Estado nazista foi o
outros. Isso é o que Foucault rotula com o termo mais completo exemplo de um Estado exercendo o
(aparentemente familiar) “racismo”.16
direito de matar. Esse Estado, ele afirma, tornou a instrumental.21 De um ponto de vista antropológico, o
gestão, a proteção e o cultivo de vida coextensivos ao que essas críticas contestam implicitamente é uma
direito soberano de matar. Por uma extrapolação definição do político como relação bélica por excelência.
biológica do tema do inimigo político, organizando a Também desafiam a ideia de que, necessariamente, a
guerra contra os seus adversários e, ao mesmo tempo, racionalidade da vida passe pela morte do outro; ou que
expondo seus próprios cidadãos à guerra, o Estado nazi é a soberania consiste na vontade e capacidade de matar
visto como aquele que abriu caminho para uma a fim de viver.
tremenda consolidação do direito de matar, que A partir de uma perspectiva histórica, muitos analistas
culminou no projeto da “solução final”. Ao fazê-lo, afirmaram que as premissas materiais do extermínio
tornou-se o arquétipo de uma formação de poder que nazista podem ser encontradas no imperialismo colonial,
combinava as características de Estado racista, Estado por um lado, e, por outro, na serialização de mecanismos
assassino e Estado suicidário. técnicos para conduzir as pessoas à morte – mecanismos
Já se argumentou que a fusão completa de guerra e desenvolvidos entre a Revolução Industrial e a Primeira
política (racismo, homicídio e suicídio), até o ponto de se Guerra Mundial. Segundo Enzo Traverso, as câmaras de
tornarem indistinguíveis uns dos outros, é algo exclusivo gás e os fornos foram o ponto culminante de um longo
ao Estado nazista. A percepção da existência do Outro processo de desumanização e de industrialização da
como um atentado contra minha vida, como uma morte, sendo uma de suas características originais a de
ameaça mortal ou perigo absoluto, cuja eliminação articular a racionalidade instrumental e a racionalidade
biofísica reforçaria meu potencial de vida e segurança, é produtiva e administrativa do mundo ocidental moderno
este, penso eu, um dos muitos imaginários de soberania, (a fábrica, a burocracia, a prisão, o exército).
característico tanto da primeira quanto da última Mecanizada, a execução em série transformou-se em um
modernidade. O reconhecimento dessa percepção procedimento puramente técnico, impessoal, silencioso e
sustenta em larga medida várias das críticas mais rápido. Esse processo foi, em parte, facilitado pelos
tradicionais da modernidade, seja quando se dirigem ao estereótipos racistas e pelo florescimento de um racismo
niilismo e à proclamação da vontade de poder como a de classe que, ao traduzir os conflitos sociais do mundo
essência do ser, seja à reificação, entendida como o industrial em termos racistas, acabou comparando as
“devir-objeto” do ser humano; ou ainda à subordinação classes trabalhadoras e o “povo apátrida” do mundo
de tudo à lógica impessoal e ao reino da racionalidade industrial aos “selvagens” do mundo colonial.22
Na realidade, a ligação entre a modernidade e o terror a um componente quase necessária do político. Postula-
provem de várias fontes. Algumas são identificáveis nas se uma transparência absoluta entre o Estado e o povo.
práticas políticas do Antigo Regime. Nessa perspectiva, a “O povo” é gradualmente deslocado, enquanto categoria
tensão entre a paixão do público por sangue e as noções política, da realidade concreta à figura retórica. Como
de justiça e vingança é crucial. Foucault demonstra em David Bates mostrou, os teóricos do terror acreditam ser
Vigiar e punir como a execução do presumido regicida possível distinguir entre autênticas expressões da
Damiens durou horas, sobretudo para a satisfação da soberania e as ações do inimigo. Eles também acreditam
multidão.23 É bem conhecida a longa procissão dos que é possível distinguir entre o “erro” do cidadão e o
condenados pelas ruas antes da execução, o desfile de “crime” do contrarrevolucionário na esfera política.
partes do corpo – ritual que se tornou uma característica- Assim, o terror se converte numa forma de marcar a
padrão de violência popular – e a exibição de uma aberração no corpo político, e a política é lida tanto como
cabeça cortada numa estaca. Na França, o advento da a força móvel da razão quanto como a tentativa errática
guilhotina marca uma nova fase na “democratização” de criar um espaço em que o “erro” seria minimizado, a
dos meios de eliminação dos inimigos do Estado. Com verdade, reforçada, e o inimigo, eliminado.25
efeito, essa forma de execução que era até então Em última instância, o terror não está ligado
prerrogativa da nobreza é estendida a todos os cidadãos. exclusivamente à utópica crença no poder irrestrito da
Em um contexto em que a decapitação é vista como razão humana. Também está claramente relacionado a
menos humilhante do que o enforcamento, inovações várias narrativas sobre a dominação e a emancipação,
nas tecnologias de assassinato visam não só “civilizar” apoiadas majoritariamente em concepções sobre a
as maneiras de matar, mas também eliminar um grande verdade e o erro, o “real” e o simbólico herdados do
número de vítimas em um espaço relativamente curto de Iluminismo. Marx, por exemplo, confunde o trabalho (o
tempo. Ao mesmo tempo, uma nova sensibilidade ciclo interminável de produção e consumo necessário à
cultural emerge, na qual matar o inimigo do Estado é um manutenção da vida humana) com a obra (criação de
prolongamento do jogo. Aparecem formas de crueldade artefatos duráveis que se somam ao mundo das coisas).
mais íntimas, sinistras e lentas. O trabalho é concebido como o vetor de autocriação
Não obstante, em nenhum momento se manifestou tão histórica do gênero humano.
claramente a fusão da razão com o terror como durante Essa autocriação histórica da humanidade é em si uma
a Revolução Francesa.24 Nesse período, o terror é erigido espécie de conflito entre a vida e a morte, ou seja, um
conflito sobre os caminhos que levam à verdade da buscavam erradicar a pluralidade da condição humana.
História: a superação do capitalismo e da forma Com efeito, a superação das divisões de classe, o
mercadoria e das contradições associadas a ambas. De definhar do Estado e o florescimento de uma verdadeira
acordo com Marx, com o advento do comunismo e a vontade geral pressupõem uma visão da pluralidade
abolição das relações de troca as coisas aparecerão humana como principal obstáculo para a eventual
como elas realmente são; o “real” se apresentará tal realização de um telos da História predeterminado. Em
como ele é verdadeiramente, e a distinção entre sujeito e outras palavras, o sujeito da modernidade marxiano é,
objeto ou entre o ser e a consciência será superada.26 fundamentalmente, aquele que tenta provar sua
Todavia, fazendo com que a emancipação humana soberania pela encenação de uma luta até a morte.
dependa da supressão da produção de mercadoria, Marx Assim como ocorre com Hegel, a narrativa de dominação
atenua as distinções essenciais entre o campo cultural da e emancipação está aqui claramente associada a uma
liberdade construído pelo homem, o reino da narrativa sobre a verdade e a morte. Terror e morte
necessidade, determinado pela natureza, e o contingente tornam-se os meios de realizar o telos da história, que já
na história. é conhecido.
O compromisso com a eliminação da produção de Qualquer relato histórico do surgimento do terror
mercadoria e o sonho de acesso direto e sem moderno precisa tratar da escravidão, que pode ser
intermediação ao “real” – o cumprimento da chamada considerada uma das primeiras manifestações da
lógica da história e a fabricação da humanidade – tornam experimentação biopolítica. Em muitos aspectos, a
esses processos quase necessariamente violentos. Como própria estrutura do sistema de plantation e suas
o mostrou Stephen Louw, os pressupostos centrais do consequências manifesta a figura emblemática e
marxismo clássico não deixam escolha a não ser a paradoxal do estado de exceção.29 Aqui, essa figura é
“tentativa de introduzir o comunismo por decreto paradoxal por duas razões. Em primeiro lugar, no
administrativo, o que, na prática, significa que as contexto da plantation, a humanidade do escravo
relações sociais devem ser desmercantilizadas pela aparece como uma sombra personificada. De fato, a
força”.27 Historicamente, essas tentativas tomaram condição de escravo resulta de uma tripla perda: perda
formas como a militarização do trabalho, o de um “lar”, perda de direitos sobre seu corpo e perda de
desmoronamento da distinção entre Estado e sociedade estatuto político. Essa tripla perda equivale a uma
e o terror revolucionário.28 Pode-se considerar que dominação absoluta, uma alienação de nascença e uma
morte social (que é expulsão fora da humanidade). aspectos, é uma forma de morte-em-vida. Como sugere
Enquanto estrutura político-jurídica, a plantation é sem Susan Buck-Morss, a condição de escravo produz uma
dúvida um espaço em que o escravo pertence ao senhor. contradição entre a liberdade de propriedade e a
Não é uma comunidade porque, por definição, a liberdade da pessoa. Uma relação desigual é
comunidade implica o exercício do poder de fala e de estabelecida ao mesmo tempo em que é afirmada a
pensamento. Como diz Paul Gilroy, desigualdade do poder sobre a vida. Esse poder sobre a
vida do outro assume a forma de comércio: a
Os padrões extremos de comunicação definidos pela instituição da
humanidade de uma pessoa é dissolvida até o ponto em
escravidão da plantation ordenam que reconheçamos as ramificações
que se torna possível dizer que a vida do escravo é
antidiscursivas e extralinguísticas do poder em ação na formação dos atos
propriedade de seu senhor.34 Dado que a vida do escravo
de comunicação. Afinal de contas, não pode haver nenhuma reciprocidade
é como uma “coisa”, possuída por outra pessoa, sua
na plantation fora das possibilidades de rebelião e suicídio, evasão e
existência é a figura perfeita de uma sombra
queixa silenciosa, e certamente não há qualquer unidade gramatical da
personificada.
fala suscetível de ligar-se à razão comunicativa. Em muitos aspectos, os
Apesar do terror e da reclusão simbólica do escravo,
habitantes da plantation vivem de modo assíncrono.30
ele ou ela desenvolve pontos de vista diferentes sobre o
tempo, o trabalho e sobre si mesmo. Esse é o segundo
Como instrumento de trabalho, o escravo tem um preço.
elemento paradoxal do mundo da plantation como
Como propriedade, tem um valor. Seu trabalho responde
manifestação do estado de exceção. Tratado como se
a uma necessidade e é utilizado. O escravo, por
não existisse, exceto como mera ferramenta e
conseguinte, é mantido vivo, mas em “estado de injúria”,
instrumento de produção, o escravo, apesar disso, é
em um mundo espectral de horrores, crueldade e
capaz de extrair de quase qualquer objeto, instrumento,
profanidade intensos. O curso violento da vida de
linguagem ou gesto uma representação, e estilizá-la.
escravo se manifesta pela disposição de seu capataz em
Rompendo com sua condição de expatriado e com o puro
se comportar de forma cruel e descontrolada ou no
mundo das coisas, do qual ele ou ela nada mais é do que
espetáculo de sofrimentos imposto ao corpo do
um fragmento, o escravo é capaz de demonstrar as
escravo.31 Violência, aqui, torna-se um componente da
capacidades polimorfas das relações humanas por meio
etiqueta,32 como dar chicotadas ou tirar a vida do
da música e do próprio corpo, que supostamente
escravo: um capricho ou um ato de pura destruição
pertencia a um outro.35
visando incutir o terror.33 A vida do escravo, em muitos
Se as relações entre a vida e a morte, a política de darwinismo social, eugenia, teorias médico-legais sobre
crueldade e os símbolos do abuso tendem a se hereditariedade, degeneração e raça). Um traço persiste
embaralhar no sistema de plantation, é interessante evidente: no pensamento filosófico moderno assim como
notar que é nas colônias e sob o regime do apartheid que na prática e no imaginário político europeu, a colônia
surge uma forma peculiar de terror.36 A característica representa o lugar em que a soberania consiste
mais original dessa formação de terror é a concatenação fundamentalmente no exercício de um poder à margem
entre o biopoder, o estado de exceção e o estado de da lei (ab legibus solutus) e no qual a “paz” tende a
sítio. A raça é, mais uma vez, crucial para esse assumir o rosto de uma “guerra sem fim”.
encadeamento.37 De fato, é sobretudo nesses casos que Esse ponto de vista corresponde à definição de
a seleção das raças, a proibição dos casamentos mistos, soberania proposta por Carl Schmitt no início do século
a esterilização forçada e até mesmo o extermínio dos xx, nomeadamente, o poder de decidir sobre o estado de
povos vencidos foram testados pela primeira vez no exceção. Para avaliar adequadamente a eficácia da
mundo colonial. Aqui vemos a primeira síntese entre colônia como formação de terror, precisamos tomar um
massacre e burocracia, essa encarnação da racionalidade desvio pelo próprio imaginário europeu, quando coloca a
ocidental.38 Segundo Arendt, existe uma ligação entre o questão crucial da domesticação da guerra e da criação
nacional-socialismo e o imperialismo tradicional. A de uma ordem jurídica europeia (Jus publicum
conquista colonial revelou um potencial de violência até europaeum). Dois princípios-chave fundam essa ordem.
então desconhecido. O que se testemunha na Segunda O primeiro postulava a igualdade jurídica de todos os
Guerra Mundial é a extensão dos métodos anteriormente Estados. Essa igualdade se aplicava especialmente ao
reservados aos “selvagens” aos povos “civilizados” da “direito de fazer a guerra” (de tomar a vida). O direito de
Europa. fazer a guerra significava duas coisas. Por um lado,
No fim, pouco importa que as tecnologias que reconhecia-se que matar ou negociar a paz eram funções
culminaram no nazismo tenham sua origem na plantation proeminentes de qualquer Estado. Isso ia de par com o
ou na colônia, ou, pelo contrário – a tese foucaultiana –, reconhecimento de que nenhum Estado deveria exercer
que nazismo e stalinismo não tenham feito mais do que qualquer poder para além de suas fronteiras. Em troca, o
ampliar uma série de mecanismos que já existiam nas Estado não reconheceria nenhuma autoridade superior à
formações sociais e políticas da Europa ocidental sua dentro de suas fronteiras. Por outro lado, o Estado se
(subjugação do corpo, regulamentações médicas,
comprometeria a “civilizar” os modos de matar e atribuir distinção entre combatentes e não combatentes ou,
objetivos racionais ao próprio ato de matar. novamente, “inimigo” e “criminoso”.40 Assim, é
O segundo princípio está relacionado à territorialização impossível firmar a paz com eles. Em suma, as colônias
do Estado soberano, ou seja, à determinação de suas são zonas em que guerra e desordem, figuras internas e
fronteiras no contexto de uma ordem global externas da política, ficam lado a lado ou se alternam.
recentemente imposta. Nesse contexto, o Jus publicum Como tal, as colônias são o local por excelência em que
rapidamente assumiu a forma de uma distinção entre as os controles e as garantias de ordem judicial podem ser
regiões do mundo disponíveis para a apropriação suspensos – a zona em que a violência do estado de
colonial, de um lado, e, de outro, a Europa em si (onde o exceção supostamente opera a serviço da “civilização”.
Jus publicum devia perenizar a dominação).39 Essa O fato de que as colônias podem ser governadas na
distinção, como veremos, é crucial em termos de ausência absoluta de lei provém da negação racial de
avaliação da eficácia da colônia como instauradora de qualquer vínculo comum entre o conquistador e o nativo.
terror. Sob o Jus publicum, uma guerra legítima é, em Aos olhos do conquistador, “vida selvagem” é apenas
grande medida, uma guerra conduzida por um Estado outra forma de “vida animal”, uma experiência
contra outro ou, mais precisamente, uma guerra entre assustadora, algo radicalmente outro (alienígena), além
Estados “civilizados”. A centralidade do Estado no cálculo da imaginação ou da compreensão. Na verdade, de
da guerra deriva do fato de que o Estado é o modelo da acordo com Arendt, o que diferenciava os selvagens de
unidade política, um princípio de organização racional, a outros seres humanos era menos a cor de suas peles do
personificação da ideia universal e um símbolo de que o fato de que “se comportavam como parte da
moralidade. natureza, que a tratavam como senhor inconteste”.
No mesmo contexto, as colônias são semelhantes às Assim, a natureza continua a ser, com todo o seu
fronteiras. Elas são habitadas por “selvagens”. As esplendor, a única e todo-poderosa realidade.
colônias não são organizadas de forma estatal e não Comparados a ela, os selvagens pareciam fantasmas,
criaram um mundo humano. Seus exércitos não formam ilusões. Os selvagens são, por assim dizer, seres
uma entidade distinta, e suas guerras não são guerras humanos “naturais”, que carecem do caráter específico
entre exércitos regulares. Não implicam a mobilização de humano, da realidade especificamente humana, de tal
sujeitos soberanos (cidadãos) que se respeitam forma que, “quando os europeus os massacravam, de
mutuamente, mesmo que inimigos. Não estabelecem
certa forma não tinham consciência de cometerem um Hegel: seu caráter simultaneamente idealista e
crime”.41 aparentemente inumano.44
Por todas essas razões, o direito soberano de matar
não está sujeito a qualquer regra nas colônias. Lá, o
soberano pode matar a qualquer momento ou de
qualquer maneira. A guerra colonial não está sujeita a
normas legais e institucionais. Não é uma atividade
codificada legalmente. Em vez disso, o terror colonial se
entrelaça constantemente com um imaginário
colonialista, caracterizado por terras selvagens, morte e
ficções que criam o efeito de verdade.42 A paz não
constitui necessariamente a consequência natural de
uma guerra colonial. De fato, a distinção entre guerra e
paz não é pertinente. As guerras coloniais são
concebidas como a expressão de uma hostilidade
absoluta que coloca o conquistador face a um inimigo
absoluto.43 Todas as manifestações de guerra e
hostilidade marginalizadas pelo imaginário legal europeu
encontraram a ocasião para reemergir nas colônias. Aqui,
a ficção de uma distinção entre os “fins da guerra” e os
“meios de guerra” entra em colapso; assim como a
ficção de que a guerra funciona como um enfrentamento
submetido a regras, em oposição ao puro massacre sem
risco ou justificativa instrumental. Torna-se inútil,
portanto, tentar resolver um dos paradoxos intratáveis
da guerra, bem capturado por Alexandre Kojève em sua
reinterpretação de A fenomenologia do espírito, de
imaginários culturais. Esses imaginários deram sentido à
instituição de direitos diferentes, para diferentes
NECROPODER E OCUPAÇÃO COLONIAL NA
categorias de pessoas, para fins diferentes no interior de
MODERNIDADE TARDIA
um mesmo espaço; em resumo, o exercício da soberania.
Poderíamos pensar que as ideias desenvolvidas acima
O espaço era, portanto, a matéria-prima da soberania e
dizem respeito a um passado distante. No passado, com
da violência que ela carregava consigo. Soberania
efeito, guerras imperiais tiveram como objetivo destruir
significa ocupação, e ocupação significa relegar o
os poderes locais, instalando tropas e instituindo novos
colonizado a uma terceira zona, entre o estatuto de
modelos de controle militar sobre as populações civis.
sujeito e objeto.
Um grupo de auxiliares locais podia participar da gestão
Esse foi o caso do regime do apartheid na África do Sul.
dos territórios conquistados, anexados ao Império.
Aqui, o “distrito” constituía a forma estrutural e os
Dentro do Império, as populações vencidas obtinham um
bantustões (homelands) tornaram-se as reservas (bases
estatuto que consagrava sua espoliação. Em
rurais), por meio das quais o fluxo de mão de obra
configurações como essas, a violência constitui a forma
migrante poderia ser regulamentado e a urbanização
original do direito, e a exceção proporciona a estrutura
africana, mantida sob controle.46 Como Belinda Bozzoli
da soberania. Cada estágio do imperialismo também
demonstrou, o distrito era particularmente um lugar em
envolveu certas tecnologias-chave (canhoneira, quinino,
que “opressão e pobreza severas foram experimentadas
linhas de barcos a vapor, cabos do telégrafo submarino e
com base na raça e classe social”.47 Entidade
ferrovias coloniais).45
sociopolítica, cultural e econômica, o distrito foi uma
A “ocupação colonial” em si era uma questão de
instituição espacial peculiar, cientificamente planejada
apreensão, demarcação e afirmação do controle físico e
para fins de controle.48 O funcionamento dos bantustões
geográfico – inscrever sobre o terreno um novo conjunto
e distritos implicou duras restrições à produção dos
de relações sociais e espaciais. Essa inscrição de novas
negros para o mercado de áreas brancas, a
relações espaciais (“territorialização”) foi, enfim,
criminalização da residência negra em fazendas brancas
equivalente à produção de fronteiras e hierarquias, zonas
(exceto como servos a serviço dos brancos), o controle
e enclaves; a subversão dos regimes de propriedade
do fluxo urbano e, mais tarde, a negação da cidadania
existentes; a classificação das pessoas de acordo com
aos africanos.49
diferentes categorias; extração de recursos; e,
finalmente, a produção de uma ampla reserva de
Frantz Fanon descreve de maneira espantosa a reforçada pela ideia de que o Estado tem o direito divino
espacialização da ocupação colonial. Para ele, a de existir; e entra em competição com outra narrativa
ocupação colonial implica, acima de tudo, uma divisão do pelo mesmo espaço sagrado. Como ambos os discursos
espaço em compartimentos. Envolve a definição de são incompatíveis e suas populações estão entrelaçadas
limites e fronteiras internas, representadas por quartéis e de modo inextricável, qualquer demarcação de território
delegacias de polícia; está regulada pela linguagem da com base na identidade pura é quase impossível.
força pura, presença imediata e ação direta e frequente; Violência e soberania, nesse caso, reivindicam um
e isso se baseia no princípio da exclusividade recíproca.50 fundamento divino: a qualidade do povo é forjada pela
Todavia, o mais importante é o modo como o poder de adoração de uma divindade mítica, e a identidade
morte opera: nacional é imaginada como identidade contra o Outro,
contra outras divindades.52 História, geografia,
A cidade do colonizado [...] é um lugar de má fama, povoado por homens
cartografia e arqueologia supostamente apoiam essas
de má reputação. Lá eles nascem, pouco importa onde ou como; morrem
reivindicações, relacionando estreitamente identidade e
lá, não importa onde ou como. É um mundo sem espaço; os homens vivem
topografia. Em consequência, a violência colonial e a
uns sobre os outros. A cidade do colonizado é uma cidade com fome, fome
ocupação se apóiam no terror sagrado da verdade e da
de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é
exclusividade (expulsões em massa, reassentamento de
uma vila agachada, uma cidade ajoelhada.51
pessoas “apátridas” em campos de refugiados,
estabelecimento de novas colônias). Por trás do terror do
Nesse caso, a soberania é a capacidade de definir
sagrado, a exumação constante de ossadas
quem importa e quem não importa, quem é
desaparecidas; a permanente lembrança de um corpo
“descartável” e quem não é.
rasgado em mil pedaços e irreconhecível; os limites, ou
A ocupação colonial tardia difere em muitos aspectos
melhor, a impossibilidade de representação de um
da primeira ocupação moderna, particularmente em sua
“crime absoluto”, uma morte indizível: o terror do
combinação entre o disciplinar, a biopolítica e a
Holocausto.53
necropolítica. A forma mais bem-sucedida de necropoder
Para retornar à leitura espacial de Fanon da ocupação
é a ocupação colonial contemporânea da Palestina.
colonial, a ocupação da Faixa de Gaza apresenta três
Aqui, o Estado colonial tira sua pretensão fundamental
características principais ligadas ao funcionamento da
de soberania e legitimidade da autoridade de seu próprio
formação específica do terror, que chamei de
relato da história e da identidade. Essa narrativa é
“necropoder”54. A primeira é a dinâmica da exercício do poder”. No contexto da ocupação colonial
fragmentação territorial, o acesso proibido a certas zonas contemporânea, a vigilância está orientada tanto para o
e a expansão dos assentamentos. interior quanto para o exterior, o olho atua como arma e
O objetivo desse processo é duplo: impossibilitar vice-versa. De acordo com Weizman, em vez de criar
qualquer movimento e implementar a segregação à uma divisão conclusiva entre as duas nações por meio de
moda do Estado do apartheid. Assim, os territórios uma fronteira, “a peculiar organização do terreno que
ocupados são divididos em uma rede complexa de constitui a Faixa de Gaza criou múltiplas separações,
fronteiras internas e várias células isoladas. De acordo limites provisórios que se relacionam mediante vigilância
com Eyal Weizman, ao se afastar de uma divisão plana e controle”. Nessas circunstâncias, a ocupação colonial
do território e ao adotar o princípio da criação de limites não equivale apenas ao controle, à vigilância e à
tridimensionais no interior dele, a dispersão e a separação, mas também à reclusão. É uma “ocupação
segmentação redefinem claramente a relação entre fragmentada”, assemelhada ao urbanismo estilhaçado
soberania e espaço.55 que é característico do mundo contemporâneo (enclaves
Para Weizman, essas ações constituem “a política da periféricos e comunidades fechadas: gated
verticalidade”. A forma resultante da soberania pode ser communities).56
chamada de “soberania vertical”. Sob um regime de Do ponto de vista da infraestrutura, uma forma
soberania vertical, a ocupação colonial opera por uma fragmentária da ocupação colonial se caracteriza por
rede de pontes e túneis, em uma separação entre o uma rede de estradas de rápida circulação, pontes e
espaço aéreo e o terrestre. O próprio chão é dividido túneis que se entrecruzam na tentativa de manter o
entre a superfície e o subsolo. A ocupação colonial “princípio da exclusividade recíproca” de Fanon. De
também é ditada pela própria natureza do terreno e suas acordo com Weizman,
variações topográficas (colinas e vales, montanhas e
as estradas de rotas alternativas tentam separar as redes viárias
cursos d’água). Assim, o terreno elevado oferece
palestinas e israelenses, preferencialmente sem jamais permitir que elas
benefícios estratégicos não encontrados nos vales
se cruzem. Eles enfatizam, portanto, a sobreposição de duas geografias
(eficácia da vista, autoproteção, fortificações panópticas
distintas que habitam a mesma paisagem. Em pontos em que se cruzam
que permitem orientar o olhar para múltiplas direções).
as redes, é criada uma separação improvisada. Na maioria das vezes,
Weizman diz: “Assentamentos poderiam ser vistos como
passagens de terra são escavadas para permitir que os palestinos cruzem
dispositivos ópticos urbanos para a vigilância e o
sob as grandes autoestradas, nas quais vans e veículos militares terra, água e espaço aéreo. Um elemento crucial nessas
israelenses correm entre diferentes colônias.57 técnicas de inabilitação do inimigo é a da terra arrasada
(bulldozer): demolir casas e cidades; desenraizar as
Sob condições de soberania vertical e ocupação oliveiras; crivar de tiros tanques de água; bombardear e
colonial fragmentada, comunidades são separadas obstruir comunicações eletrônicas; escavar estradas;
segundo um eixo de ordenadas. Isso conduz a uma destruir transformadores de energia elétrica; arrasar
proliferação dos espaços de violência. Os campos de pistas de aeroporto; desabilitar os transmissores de rádio
batalha não estão localizados exclusivamente na e televisão; esmagar computadores; saquear símbolos
superfície da terra. Assim como o espaço aéreo, o culturais e político-burocráticos do Proto-Estado
subsolo também é transformado em zona de conflito. Palestino; saquear equipamentos médicos. Em outras
Não há continuidade entre a terra e o céu. Até mesmo os palavras, levar a cabo uma “guerra infraestrutural”.58
limites no espaço aéreo dividem-se entre as camadas Enquanto o helicóptero de combate Apache é usado para
inferiores e superiores. Em todo lugar, o simbolismo do patrulhar o ar e matar a partir dos céus, o trator blindado
topo (quem se encontra no topo) é reiterado. A ocupação bulldozer (Caterpillar D-9) é usado em terra como arma
dos céus adquire, portanto, uma importância crucial, já de guerra e intimidação. Em contraste com a ocupação
que a maior parte do policiamento é feito a partir do ar. colonial moderna, essas duas armas estabelecem a
Várias outras tecnologias são mobilizadas para esse superioridade de instrumentos de alta tecnologia do
efeito: sensores a bordo de veículos aéreos não terror da era contemporânea.59
tripulados (unmanned air vehicles), jatos de Como ilustra o caso palestino, a ocupação colonial
reconhecimento aéreo, prevenção usando aviões com contemporânea é um encadeamento de vários poderes:
sistema de alerta avançado (Hawkeye
planes), disciplinar, biopolítico e necropolítico. A combinação dos
helicópteros de assalto, um satélite de observação da três possibilita ao poder colonial a dominação absoluta
Terra, técnicas de holografia. Matar se torna um assunto sobre os habitantes do território ocupado. O “estado de
de alta precisão. sítio” em si é uma instituição militar. Ele permite uma
Tal precisão é combinada com as táticas de sítio modalidade de crime que não faz distinção entre o
medieval adaptada para a expansão da rede em campos inimigo interno e o externo. Populações inteiras são o
de refugiados urbanos. Uma sabotagem orquestrada e alvo do soberano. As vilas e cidades sitiadas são
sistemática da rede de infraestrutura social e urbana do cercadas e isoladas do mundo. A vida cotidiana é
inimigo complementa a apropriação dos recursos de
militarizada. É outorgada liberdade aos comandantes
militares locais para usar seus próprios critérios sobre
MÁQUINAS DE GUERRA E HETERONOMIA
quando e em quem atirar. O deslocamento entre células
territoriais requer autorizações formais. Instituições civis Após ter examinado o funcionamento do necropoder no
locais são sistematicamente destruídas. A população contexto da ocupação colonial contemporânea, gostaria
sitiada é privada de suas fontes de renda. Às execuções de tratar agora das guerras contemporâneas. Tais
a céu aberto somam-se matanças invisíveis. guerras pertencem a um novo momento e dificilmente
podem ser entendidas por meio de teorias anteriores de
“violência contratual” ou tipologias como guerra “justa” e
“injusta”, ou mesmo o instrumentalismo de Carl von
Clausewitz.60 Segundo Zygmunt Bauman, guerras da era
da globalização não incluem em seus objetivos
conquista, aquisição e gerência de um território.
Idealmente, são ataques-relâmpago.
O crescente abismo entre os meios de guerra de alta e
baixa tecnologia nunca foi tão evidente como na Guerra
do Golfo e na campanha de Kosovo. Em ambos os casos,
a doutrina da “força esmagadora ou decisiva”
(overwhelming or
decisive force) foi totalmente
implementada graçasa uma revolução militar-
tecnológica que multiplicou a capacidade de destruição
de forma jamais vista.61 A guerra aérea, ao relacionar
altitude, artilharia, visibilidade e inteligência, é
considerada aqui um bom exemplo. Durante a Guerra do
Golfo, o uso combinado de bombas inteligentes e
bombas revestidas com urânio empobrecido (du), armas
de alta tecnologia, sensores eletrônicos, mísseis guiados
a laser, bombas de fragmentação e asfixiantes,
tecnologias stealth, veículos aéreos não tripulados e
ciberinteligência paralisavam rapidamente quaisquer Sua superioridade sobre a população sedentária se deve à velocidade de
capacidades do inimigo. seu próprio movimento; sua capacidade de descer do nada sem aviso
Em Kosovo, a “degradação” das capacidades sérvias prévio e desaparecer novamente sem aviso, sua capacidade de viajar
tomou a forma de uma guerra infraestrutural que facilmente e não se incomodar com pertences como os que limitam a
destruiu pontes, ferrovias, rodovias, redes de mobilidade e o potencial de manobra dos povos sedentários.63
comunicação, armazéns e depósitos de petróleo, centrais
termoelétricas, centrais elétricas e instalações de Esta nova era é o da mobilidade global. Uma de suas
tratamento de água. Como se pode presumir, a execução principais características é que as operações militares e o
de tal estratégia militar, especialmente quando exercício do direito de matar já não constituem o
combinada com a imposição de sanções, resulta na monopólio exclusivo dos Estados, e o “exército regular”
falência do sistema de sobrevivência do inimigo. Os já não é o único meio de executar essas funções. A
danos persistentes à vida civil são particularmente afirmação de uma autoridade suprema em um
eloquentes. Por exemplo, a destruição do complexo determinado espaço político não se dá facilmente. Em
petroquímico Pancevo, nos arredores de Belgrado, vez disso, emerge um mosaico de direitos de governar
durante a campanha de Kosovo “deixou as proximidades incompletos e sobrepostos, disfarçados e emaranhados,
tão contaminadas com cloreto de vinilo, amônia, nos quais sobejam diferentes instâncias jurídicas de facto
mercúrio, nafta e dioxinas, que se recomendou o aborto geograficamente entrelaçadas, e nas quais abundam
às mulheres grávidas, da mesma forma que todas as fidelidades plurais, suseranias assimétricas e enclaves.64
mulheres locais foram aconselhadas a evitar a gravidez Nessa organização heterônima de direitos territoriais e
durante dois anos”.62 reivindicações, faz pouco sentido insistir na distinção
As guerras da época da globalização, assim, visam entre os campos políticos “interno” e “externo”,
forçar o inimigo à submissão, independentemente de separados por limites claramente demarcados.
consequências imediatas, efeitos secundários e “danos Tomemos o exemplo da África, onde a economia
colaterais” das ações militares. Nesse sentido, as guerras política do Estado mudou drasticamente ao longo do
contemporâneas são mais uma reminiscência das último quarto do século xx. Muitos Estados africanos já
estratégias de guerra dos nômades do que das guerras não podem reivindicar monopólio sobre a violência e
territoriais de “conquista-anexação” das nações sobre os meios de coerção dentro de seu território. Nem
sedentárias da modernidade. Nas palavras de Bauman, mesmo podem reivindicar monopólio sobre seus limites
territoriais. A própria coerção tornou-se produto do
mercado. A mão de obra militar é comprada e vendida Tropas regulares, por sua vez, podem prontamente se
num mercado em que a identidade dos fornecedores e apropriar de certas características de máquinas de
compradores não significa quase nada. Milícias urbanas, guerra.
exércitos privados, exércitos de senhores regionais, Uma máquina de guerra combina uma pluralidade de
segurança privada e exércitos de Estado proclamam, funções. Tem as características de uma organização
todos, o direito de exercer violência ou matar. Estados política e de uma empresa comercial. Opera mediante
vizinhos ou movimentos rebeldes arrendam exércitos a capturas e depredações e pode até mesmo cunhar seu
Estados pobres. Fornecedores de violência não próprio dinheiro. Para bancar a extração e exportação de
governamental disponibilizam dois recursos coercitivos recursos naturais localizados no território que controlam,
críticos: o trabalho e os minerais. Cada vez mais, a as máquinas de guerra forjam ligações diretas com redes
maioria dos exércitos é composta de soldados-cidadãos, transnacionais. Máquinas de guerra surgiram na África
crianças-soldados, mercenários e corsários.65 durante o último quarto do século xx em relação direta
Junto aos exércitos, tem emergido o que, seguindo com a erosão da capacidade do Estado pós-colonial de
Deleuze e Guattari, poderíamos referir como “máquinas construir os fundamentos econômicos da ordem e
de guerra”.66 Essas máquinas são constituídas por autoridade políticas. Essa capacidade envolve o aumento
segmentos de homens armados que se dividem ou se de receita, o comando e regulamentação do acesso aos
mesclam, dependendo da tarefa e das circunstâncias. recursos naturais dentro de um território bem definido.
Organizações difusas e polimorfas, as máquinas de Em meados da década de 1970, com o desgaste das
guerra se caracterizam por sua capacidade de habilidades do Estado em manter essa capacidade,
metamorfose. Sua relação com o espaço é móvel. emerge uma linha claramente definida entre
Algumas vezes, desfrutam de relações complexas com instabilidade monetária e fragmentação espacial. Na
formas estatais (da autonomia à incorporação). O Estado década de 1980, a experiência brutal da desvalorização
pode, por si mesmo, se transformar em uma máquina de monetária se torna cada vez mais frequente, com ciclos
guerra. Pode, ainda, se apropriar de uma máquina de de hiperinflação ocorrendo em vários países (o que
guerra ou ajudar a criar uma. As máquinas de guerra incluiu até mesmo a substituição repentina de uma
funcionam por empréstimo aos exércitos regulares, moeda). Durante as últimas décadas do século xx, a
enquanto incorporam novos elementos bem adaptados circulação monetária tem influenciado o Estado e a
ao princípio de segmentação e desterritorialização. sociedade pelo menos de duas formas diferentes.
Primeiro, temos visto uma escassez geral de liquidez e pressão da violência tende a conduzir à formação de
sua concentração gradual em determinados canais, cujo economias de milícia. Máquinas de guerra (nesse caso,
acesso está submetido a condições cada vez mais milícias ou movimentos rebeldes) tornam-se rapidamente
draconianas. Como resultado, o número de indivíduos mecanismos predadores extremamente organizados, que
dotados de meios materiais para controlar dependentes taxam os territórios e as populações que os ocupam e se
por meio da criação de dívidas diminuiu abruptamente. baseiam numa variedade de redes transnacionais e
Historicamente, capturar e fixar dependentes por meio diásporas que os proveem com apoio material e
de dívida tem sido sempre um aspecto central tanto da financeiro.
produção de pessoas como da constituição do vínculo Em correlação com a nova geografia de extração de
político.67 Tais obrigações foram cruciais para determinar recursos, assistimos ao surgimento de uma forma
o valor das pessoas e julgar seu valor e utilidade. Quando governamental sem precedentes, que consiste na
seu valor e utilidade não são demonstrados, podem ser “gestão das multitudes”. A extração e o saque dos
destituídas como escravos, peões ou clientes. recursos naturais pelas máquinas de guerra caminham
Segundo, o fluxo controlado e a demarcação dos de mãos dadas com tentativas brutais para imobilizar e
movimentos de capital em regiões das quais se extraem fixar espacialmente categorias inteiras de pessoas ou,
recursos específicos tornaram possível a formação de paradoxalmente, para soltá-las, forçando-as a se
“enclaves econômicos” e modificaram a antiga relação disseminar por grandes áreas que excedem as fronteiras
entre pessoas e coisas. A concentração de atividades de um Estado territorial. Enquanto categoria política, as
relacionadas à extração de recursos valiosos em torno populações são então decompostas entre rebeldes,
desses enclaves tem, por sua vez, convertido esses crianças-soldados, vítimas ou refugiados, civis
enclaves em espaços privilegiados de guerra e morte. A incapacitados por mutilação ou simplesmente
própria guerra é alimentada pelo crescimento das vendas massacrados ao modo dos sacríficios antigos; enquanto
dos produtos extraídos.68 Consequentemente, novas os “sobreviventes”, depois de um êxodo terrível, são
relações surgem entre a guerra, as máquinas de guerra e confinados a campos e zonas de exceção.70
a extração de recursos.69 Máquinas de guerra estão Essa forma de governabilidade difere do comando
implicadas na constituição de economias locais ou (commandement)71 colonial. As técnicas de policiamento
regionais altamente transnacionais. Na maioria dos e disciplina, além da escolha entre obediência e
lugares, o colapso das instituições políticas formais sob a simulação que caracterizou o potentado colonial e pós-
colonial, estão gradualmente sendo substituídas por uma rapidamente reduzidos à condição de simples
alternativa mais trágica, dado o seu extremismo. esqueletos. Sua morfologia doravante os inscreve no
Tecnologias de destruição tornaram-se mais táteis, mais registo de generalidade indiferenciada: simples relíquias
anatômicas e sensoriais, dentro de um contexto no qual de uma dor inexaurível, corporeidades vazias, sem
a escolha se dá entre a vida e a morte.72 Se o poder sentido, formas estranhas mergulhadas em estupor. No
ainda depende de um controle estreito sobre os corpos caso do genocídio de Ruanda – em que um grande
(ou de sua concentração em campos), as novas número de esqueletos foi preservado em estado visível,
tecnologias de destruição estão menos preocupadas com quando não exumados –, o surpreendente é a tensão
a inscrição de corpos em aparatos disciplinares do que entre a petrificação dos ossos, sua frieza (coolness)
em inscrevê-los, no momento oportuno, na ordem da estranha, por um lado, e por outro lado seu desejo
economia máxima, agora representada pelo “massacre”. persistente de produzir sentido, de significar algo.
Por sua vez, a generalização da insegurança aprofundou Nesses pedaços de ossada impassíveis, não parece
a distinção social entre aqueles que têm armas e os que haver nenhum vestígio de “ataraxia”: nada mais que a
não têm (“lei de distribuição de armas”). Cada vez mais, rejeição ilusória de uma morte que já ocorreu. Em outros
a guerra não ocorre entre exércitos de dois Estados casos, em que a amputação física substitui a morte
soberanos. Ela é travada por grupos armados que agem imediata, cortar os membros abre caminho para a
por trás da máscara do Estado contra os grupos armados implantação das técnicas de incisão, ablação e excisão
que não têm Estado, mas que controlam territórios que também têm os ossos como seu alvo. Os vestígios
bastante distintos; ambos os lados têm como seus dessa cirurgia demiúrgica persistem por um longo
principais alvos as populações civis desarmadas ou tempo, sob a forma de configurações humanas vivas,
organizadas como milícias. Em casos nos quais mas cuja integridade física foi substituída por pedaços,
dissidentes armados não tomaram completamente o fragmentos, dobras, até mesmo imensas feridas difíceis
poder do Estado, eles produzem partições territoriais, de fechar. Sua função é manter diante dos olhos da
alcançando o controle sobre regiões inteiras pelo modelo vítima – e das pessoas a seu redor – o espetáculo
feudal, especialmente onde existem depósitos mórbido do ocorrido.
minerais.73
As maneiras de matar não variam muito. No caso
particular dos massacres, corpos sem vida são
si gera uma série de questões. Qual a diferença
fundamental entre matar usando um helicóptero de
DE GESTO E DO METAL
mísseis, um tanque ou o próprio corpo? A distinção entre
Voltemos ao exemplo da Palestina, onde duas lógicas as armas utilizadas para aplicar a morte impede o
aparentemente irreconciliáveis se confrontam: a “lógica estabelecimento de um sistema de equivalência geral
do martírio” e a “lógica da sobrevivência”. Ao analisar entre o modo de matar e o modo de morrer?
essas duas lógicas, gostaria de lançar luz sobre os dois O “homem-bomba” não veste nenhum uniforme de
problemas gêmeos da morte e terror por um lado, do soldado e não exibe nenhuma arma. O candidato a mártir
terror e da liberdade por outro. persegue seus alvos; o inimigo é uma presa para quem
No confronto entre essas duas lógicas, o terror não se ele arma uma armadilha. A esse respeito é significativo o
encontra de um lado, e a morte de outro. Terror e morte local em que a emboscada é colocada: o ponto de
estão no coração de cada um. Como Elias Canetti nos ônibus, a cafeteria, a discoteca, o mercado, a guarita, a
lembra, o sobrevivente é aquele que, tendo percorrido o rua – em suma, os espaços da vida cotidiana.
caminho da morte, sabendo dos extermínios e A captura do corpo se soma ao local da emboscada. O
permanecendo entre os que caíram, ainda está vivo. Ou, candidato a mártir transforma seu corpo em máscara que
mais precisamente, o sobrevivente é aquele que, após esconde a arma que logo será detonada. Ao contrário do
lutar contra muitos inimigos, conseguiu não só escapar tanque ou míssil, que é claramente visível, a arma
com vida, como também matar seus agressores. Por isso, contida na forma do corpo é invisível. Assim,
em grande medida, o grau mais baixo da sobrevivência é dissimulada, faz parte do corpo. Está tão intimamente
matar. Canetti assinala que na lógica da sobrevivência ligada ao corpo que, no momento da detonação, aniquila
“cada homem é inimigo de todos os outros”. Mais seu portador e leva consigo outros corpos, quando não
radicalmente, o horror experimentado sob a visão da os reduz a pedaços. O corpo não esconde apenas uma
morte se transforma em satisfação quando ela ocorre arma. Ele é transformado em arma, não em sentido
com o outro. É a morte do outro, sua presença física metafórico, mas no sentido verdadeiramente balístico.
como um cadáver, que faz o sobrevivente se sentir único. Nesse caso, minha morte anda de mãos dadas com a
E cada inimigo morto faz aumentar o sentimento de morte do outro. Homicídio e suicídio são realizados no
segurança do sobrevivente.74 mesmo ato. E em larga medida, resistência e
A lógica do mártir procede por vias diferentes. Ela é autodestruição são sinônimos. Matar é, portanto, reduzir
caracterizada pela figura do “homem-bomba”, que já em
o outro e a si mesmo ao estatuto de pedaços de carne caso o corpo se torna o uniforme do mártir. Mas o corpo
inertes, dispersos e reunidos com dificuldade antes do como tal não é apenas um objeto de proteção contra o
enterro. Nesse caso, trata-se de uma guerra corpo a perigo e a morte. O corpo em si não tem poder nem
corpo. Matar requer a aproximação extrema com o corpo valor. O poder e o valor do corpo resultam de um
do inimigo. Para detonar a bomba, é preciso resolver a processo de abstração com base no desejo de
questão da distância, por meio do trabalho de eternidade. Nesse sentido, o mártir, tendo estabelecido
proximidade e dissimulação. um momento de supremacia em que o sujeito triunfa
Como interpretar essa forma de derramar sangue, na sobre sua própria mortalidade, pode se perceber como
qual a morte não é simplesmente “a minha própria”, mas tendo trabalhado sob o signo do futuro. Em outras
algo que vem acompanhado da morte do outro?75 Em palavras: na morte, o futuro é colapsado no presente.
que difere da morte infligida por um tanque ou um míssil, Em seu desejo de eternidade, o corpo sitiado passa por
num contexto em que o custo de minha sobrevivência é duas fases. Primeiro, ele é transformado em mera coisa,
calculado em termos de minha capacidade e matéria maleável. Depois, a maneira como é conduzido à
disponibilidade para matar alguém? Na lógica do morte – suicídio – lhe proporciona seu significado final. A
“mártir”, a vontade de morrer se funde com a vontade matéria que constitui o corpo é investida de propriedades
de levar o inimigo consigo, ou seja, eliminar a que não podem ser deduzidas a partir de seu caráter de
possibilidade de vida para todos. Essa lógica coisa, mas sim de um nomos transcendental, fora dele. O
aparentemente contraria a outra, que consiste em querer corpo sitiado se converte em uma peça de metal cuja
impor a morte aos demais, preservando a própria vida. função é, pelo sacrifício, trazer a vida eterna ao ser. O
Canetti descreve esse momento de sobrevivência como corpo se duplica e, na morte, literal e metaforicamente
um momento de poder. Nesse caso, o triunfo deriva escapa do estado de sítio e ocupação.
precisamente da possibilidade de estar lá quando os Como conclusão, explorarei a relação entre terror,
outros (nesse caso o inimigo) não estão mais. Tal é a liberdade e sacrifício. Martin Heidegger defende que o
lógica do heroísmo entendida classicamente: executar os “ser para a morte” é a condição decisiva de toda
demais, mantendo a própria morte à distância. liberdade humana verdadeira.76 Em outras palavras, se é
Na lógica do mártir, emerge uma nova semiose do livre para viver a própria vida somente quando se é livre
assassinato. Ela não se baseia necessariamente numa para morrer a própria morte. Enquanto Heidegger dá um
relação entre forma e matéria. Como já indiquei, nesse estatuto existencial ao “ser para a morte” e o considera
uma manifestação de liberdade, Bataille sugere que “o (sacrifício de si). O “autossacrificado” procede a fim de
sacrifício na realidade não revela nada”. Não é tomar posse de sua própria morte e de encará-la
simplesmente a manifestação absoluta da negatividade. firmemente. Esse poder pode derivar da convicção de
Também é uma comédia. Para Bataille, a morte revela o que a destruição do próprio corpo não afeta a
lado animal do ser humano, ao qual ele ainda se refere continuidade do ser. O ser é pensado como existindo fora
como o “ser natural” do sujeito. de nós. O autossacrifício equivale à remoção de uma
“Para sua autorrevelação final, é preciso morrer, mas proibição dupla: da autoimolação (suicídio) e do
ele terá que fazê-lo enquanto vivo – olhando a si mesmo assassinato. Todavia, diferentemente dos sacrifícios
ao deixar de existir”, acrescenta. Em outras palavras, o primitivos, não há nenhum animal para servir como um
ser humano tem de estar plenamente vivo no momento substituto da vítima. A morte atinge aqui o caráter de
de morrer, estar ciente de sua morte, para viver com o transgressão. Ao contrário da crucificação, não tem
sentimento de estar morrendo. A própria morte deve se nenhuma dimensão expiatória. Não se relaciona com os
tornar a consciência de si mesmo no momento em que paradigmas hegelianos de prestígio ou reconhecimento.
oblitera o ser consciente. Com efeito, uma pessoa morta não pode reconhecer o
assassino, que também está morto. Isso implica que a
Em certo sentido, isso é o que acontece (o que pelo menos está a ponto de
morte se manifesta aqui como pura aniquilação,
acontecer, ou o que ocorre de forma ilusória, fugaz) por meio de um
insignificância, excesso e escândalo?
subterfúgio no sacrifício. Nessa situação, o ser se identifica com o animal à
Se observarmos a partir da perspectiva da escravidão
beira da morte. Assim, ele morre, vendo-se morrer e ainda, em algum
ou da ocupação colonial, morte e liberdade estão
sentido, por meio de sua própria vontade, em harmonia com a arma de
irrevogavelmente entrelaçadas. Como já vimos, o terror é
sacrifício. Mas é uma comédia!
uma característica que define tanto os Estados
escravistas quanto os regimes coloniais contemporâneos.
E para Bataille, a comédia é mais ou menos o meio
Ambos os regimes são também instâncias e experiências
pelo qual o sujeito humano “voluntariamente engana a si
específicas de ausência de liberdade. Viver sob a
próprio”.77
ocupação contemporânea é experimentar uma condição
De que forma as noções de jogo e trapaça se
permanente de “viver na dor”: estruturas fortificadas,
relacionam ao “homem-bomba”? Não há dúvidas de que,
postos militares e bloqueios de estradas em todo lugar;
nesse caso, o sacrifício consiste na espetacular
construções que trazem à tona memórias dolorosas de
submissão de si à morte, no devir sua própria vítima
humilhação, interrogatórios e espancamentos; toques de natureza do que significa para o escravo ou o colonizado
recolher que aprisionam centenas de milhares de o fato de existir, essa mesma falta é também
pessoas em suas casas apertadas todas as noites do precisamente o modo pelo qual ele ou ela leva em conta
anoitecer ao amanhecer; soldados patrulhando as ruas sua própria mortalidade. Referindo-se à prática de
escuras, assustados pelas próprias sombras; crianças suicídio em massa ou individual por escravos
cegadas por balas de borracha; pais humilhados e encurralados pelos caçadores de escravos, Gilroy sugere
espancados na frente de suas famílias; soldados que a morte, nesse caso, pode ser representada como
urinando nas cercas, atirando nos tanques de água dos um ato deliberado, já que a morte é precisamente aquilo
telhados só por diversão, repetindo slogans ofensivos, pelo que e sobre o que tenho poder. Mas também é esse
batendo nas portas frágeis de lata para assustar as espaço em que a liberdade e a negação operam.
crianças, confiscando papéis ou despejando lixo no meio
de um bairro residencial; guardas de fronteira chutando
uma banca de legumes ou fechando fronteiras sem
motivo algum; ossos quebrados; tiroteios e fatalidades –
1. Michel Foucault, “Il Faut Défendre la Société”: Cours au Collège de France, 1975-1976. Paris:
um certo tipo de loucura.78 Seuil, 1997, pp. 213-234. Este ensaio se distancia das análises tradicionais sobre a soberania
encontrados na disciplina de Ciências Políticas e em sua subdisciplina, a de Relações
Em tais circunstâncias, o rigor da vida e as provações Internacionais. Em sua maioria, situam a soberania dentro dos limites do Estado-nação, das
instituições habilitadas pela autoridade do Estado ou em redes e instituições supranacionais. Ver,
(julgamento por morte) são marcados pelo excesso. O por exemplo, "Soberania no milênio", edição especial de Estudos políticos, 47, 1999. Minha
abordagem é baseada na crítica de Michel Foucault à noção de soberania e sua relação com a
que liga o terror, a morte e a liberdade é uma noção guerra e o biopoder em "Il faut défendre la société": Cours au Collège de France, 1975-1976. Paris:
Seuil, 1997: 37-55, 75-100, 125-148, 213-244. Ver ainda Giorgio Agamben. Homo sacer. Le pouvoir
“extática” da temporalidade e da política. O futuro, aqui, souverain et la vie nue. Paris: Seuil, 1997: 23-80.
2. Sobre o estado de exceção, ver Carl Schmitt, La Dictature. Paris: Seuil, 2000, pp. 210-228, 235-
pode ser autenticamente antecipado, mas não no 236, 250-251, 255-256; id., La Notion de politique. Théorie du partisan. Paris: Flammarion, 1992.
3. Hannah Arendt, Origens do totalitarismo, trad. Roberto Raposo. São Paulo: Companhia das
presente. O presente em si é apenas um momento de Letras, 2012, p. 589.
visão – visão da liberdade que ainda não chegou. A morte 4. Giorgio Agamben, Meios sem fim: Notas sobre a política, trad. bras. Davi Pessoa Carneiro. Belo
Horizonte: Autêntica, p. 41.
no presente é mediadora da redenção. Longe de ser um 5. Sobre esses debates, ver Saul Friedlander (org.), Probing the Limits of Representation: Nazism
and the “Final Solution”. Cambridge: Harvard University Press, 1992; e, mais recentemente,
encontro com um limite ou barreira, ela é experimentada Bertrand Ogilvie, “Comparer l’incomparable”. Multitudes, n. 7, 2001, pp. 130-166.
6. Ver James Bohman e William Rehg (orgs.), Deliberative Democracy: Essays on Reason and
como “uma libertação do terror e da servidão”.79 Como Politics. Cambridge: MIT Press, 1997; Jürgen Habermas, Between Facts and Norms. Cambridge: MIT
Press, 1996.
observa Gilroy, essa preferência pela morte diante da 7. James Schmidt (org.), What Is Enlightenment? Eighteenth-Century Answers and Twentieth-
Century Questions. Berkeley: University of California Press, 1996.
servidão contínua é um comentário sobre a natureza da 8. Cornelius Castoriadis, A instituição imaginária da sociedade, trad. bras. Guy Reynaud. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1982 e Figuras do pensável, trad. bras. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro:
liberdade em si (ou sua falta). Se essa falta é a própria Civilização Brasileira, 2004.
9. Ver, em particular, Paul Gilroy, O Atlântico negro, trad. bras. Cid Knipel Moreira. São Paulo: Ed. 29. Ver Saidiya V. Hartman, Scenes of Subjection: Terror, Slavery, and Self-Making in Nineteenth-
34, 2001, especialmente o cap. 2. Century America. Oxford: Oxford University Press, 1997; e Manuel Moreno Fraginals, The
10. G. W. F. Hegel, Fenomenologia do espírito, trad. Paulo Meneses, com a colaboração de Karl- Sugarmill: The Socioeconomic Complex of Sugar in Cuba, 1760-1860. Nova York: Monthly Review
Heinz Efken e José Nogueira Machado. Petrópolis/ Bragança Paulista: Vozes/ USF, 2002. Ver Press, 1976.
também a crítica por Alexandre Kojève, Introduction à la lecture de Hegel. Paris: Gallimard, 1947, 30. P. Gilroy, O Atlântico negro op. cit., p. 129.
especialmente o apêndice ii, “L’Idée de la mort dans la philosophie de Hegel”; e Georges Bataille, 31. Ver Frederick Douglass, Narrative of the Life of Frederick Douglass, an American Slave. Houston
Oeuvres complètes XII. Paris: Gallimard, 1988, especialmente “Hegel, la Mort et le sacrifice” (pp. A. Baker (org.). Nova York: Penguin, 1986.
326-348) e “Hegel, l’Homme et l’histoire” (pp. 349-369).
32. O termo “etiqueta” é usado aqui para designar as ligações entre graça e controle sociais. De
11. Ver Jean Baudrillard, “Death in Bataille”, in Fred Botting e Scott Wilson (orgs.), Bataille: A acordo com Norbert Elias (“The History of Manners”. The Civilizing Process v. 1, trad. Edmund
Critical Reader. Oxford: Blackwell, 1998, especialmente pp. 139-141. Jephcott. Nova York: Pantheon, 1978, cap. 2), os costumes encarnam o que é “considerado um
12. Georges Bataille, Visions of Excess: Selected Writings, 1927-1939, trad. A. Stoekl. Minneapolis: comportamento socialmente aceitável”, os “preceitos de conduta” e o quadro de “convívio”.
University of Minnesota Press, 1985, pp. 94-95. 33. “Quanto mais alto ela gritou, mais ele chicoteou; e onde o sangue correu mais rápido, aí ele
13. Fred Botting e Scott Wilson (orgs.), The Bataille Reader. Oxford: Blackwell, 1997, pp. 318-319. chicoteou mais demoradamente, diz Douglass sobre as chicotadas em sua tia pelo sr. Plummer. Ele
Ver também Georges Bataille, The Accursed Share: An Essay on General Economy, v. 1, iria chicoteá-la para fazê-la gritar e chicoteá-la para ela ficar quieta; e somente pararia de brandir
Consumption, trad. Robert Hurley. Nova York: Zone, 1988; e O erotismo, trad. bras. Fernando o couro coberto de sangue quando vencido pelo cansaço [...] Foi um espetáculo terrível”. Frederick
Scheibe. Belo Horizonte: Autêntica, 2013. Douglass, Narrative of the Life of Frederick Douglass op. cit., p. 51. Sobre o assassinato aleatório
14. Georges Bataille, The Accursed Share: An Essay on General Economy, v. 2, The History of de escravos, ver pp. 67-68.
Eroticism, v. 3, Sovereignty, trad. Robert Hurley. Nova York: Zone, 1993. 34. Susan Buck-Morss, “Hegel and Haiti”. Critical, n. 26, 2000, pp. 821-866 [Ed. bras.: Hegel e o
15. Sobre o estado de sítio, ver C. Schmitt, La Dictature, op. cit., cap. 6. Haiti, trad. Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2017].
16. Ver M. Foucault, “Il Faut Défendre la Société”, op. cit., pp. 57-74. 35. Roger D. Abrahams, Singing the Master: The Emergence of African American Culture in the
Plantation South. Nova York: Pantheon, 1992.
17. “A raça é, do ponto de vista político, não o começo da humanidade mas o seu fim [...] não o
nascimento natural do homem mas a sua morte antinatural.” H. Arendt, Origens do totalitarismo, 36. No que se segue, estou consciente do fato de que formas coloniais de soberania sempre foram
op. cit., p. 232. fragmentadas. Eram complexas, “menos preocupadas em legitimar sua própria presença e mais
excessivamente violentas que suas formas europeias”. De maneira significativa, “os Estados
18. Ver M. Foucault, “Il Faut Défendre la Société” op. cit., p. 214.
europeus nunca visaram governar territórios coloniais com a mesma uniformidade e intensidade
19. Id., ib., p. 228. como foi aplicada a suas próprias populações”. A. Mbembe, “Sovereignty as a form of
20. Id., ib., pp. 227-232. expenditure”. In: T. B. Hansen e Finn Stepputat (orgs.), Sovereign Bodies: Citizens, Migrants and
21. Ver Jürgen Habermas, O discurso filosófico da modernidade: Doze lições, trad. Luiz Sértgio States in the Postcolonial World. Princeton: Princeton University Press, 2002, pp. 148-168.
Repa e Rodnei Nascimento. São Paulo : Martins Fontes, 2000, especialmente cap. 3, 5 e 6. 37. Em The Racial State (Malden: Blackwell, 2002), David Theo Goldberg argumenta que, a partir
22. Enzo Traverso, La Violence nazie: Une généalogie européenne. Paris: La Fabrique Editions, do século xix, existem pelo menos duas tradições historicamente concorrentes da racionalização
2002. racial: o naturalismo (com base na declaração de inferioridade) e o historicismo (baseado na
reivindicação da “imaturidade” histórica – e, portanto, “educabilidade” – dos nativos). Em
23. Michel Foucault, Vigiar e punir: Nascimento da prisão, trad. Raquel Ramalhete. Petrópolis:
conversa privada (23 ago. 2002), o autor defende a ideia segundo a qual essas duas tradições
Vozes, 1987.
haviam desaparecido, porém de forma diferente, ao entrar em contato com as questões de
24. Ver Robert Wokler, “Contextualizing Hegel’s phenomenology of the French Revolution and the
soberania, os Estados de exceção e as formas de necropoder. Na sua opinião, necropoder pode
Terror”. Political Theory, n. 26, 1998, pp. 33-55.
assumir várias formas: o terror da morte real ou uma forma mais “benevolente”, cujo resultado é a
25. David W. Bates, Enlightenment Aberrations: Error and Revolution in France. Ithaca: Cornell destruição de uma cultura para “salvar o povo” de si mesmo.
University Press, 2002, cap. 6. 38. H. Arendt, Origens do totalitarismo op. cit., pp. 267-313.
26. Karl Marx, Capital: A Critique of Political Economy, v. 3. Londres: Lawrence & Wishart, 1984, p.
39. Etienne Balibar, “Prolégomènes à la souveraineté: la frontière, l’Etat, le peuple”. Les Temps
817. Ver também Capital..., v. 1, trad. Ben Fowkes. Harmondsworth: Penguin, 1986, p. 172 [Ed.
Modernes, n. 610, nov. 2000, pp. 54-55.
bras.: O capital, v. 3 e v. 1, trad. Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011 e 2017].
40. Eugene Victor Walter, Terror and Resistance: A Study of Political Violence with Case Studies of
27. Stephen Louw, “In the shadow of the pharaohs: The militarization of labour debate and Some Primitive African Communities. Oxford: Oxford University Press, 1969.
classical marxist theory”. Economy and Society, n. 29, 2000, p. 240.
41. H. Arendt, Origens do totalitarismo, op. cit., p. 277.
28. Sobre a militarização do trabalho e a transição para o comunismo, ver Nikolai Bukharin, The
42. Para uma interpretação potente desse processo, ver Michael Taussig, Shamanism, Colonialism,
Politics and Economics of the Transition Period, trad. Oliver Field. Londres: Routledge & Kegan Paul,
1979; e Leon Trotsky, Terrorismo e comunismo, trad. Lívio Xavier. Rio de Janeiro: Saga, 1969. Sobre
and the Wild Man: A Study in Terror and Healing. Chicago: University of Chicago Press, 1987.
o colapso da distinção entre Estado e sociedade, ver Karl Marx, A guerra civil na França, trad. bras. 43. Sobre o “inimigo”, ver a edição especial L’Ennemi de Raisons Politiques, n. 5, 2002.
Rubens Enderle. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011; e Vladimir Ilitch Lenin, Selected Works in 44. Alexandre Kojève, Introduction à la lecture de Hegel. Paris: Gallimard, 1980.
Three Volumes, v. 2. Moscou: Progress, 1977. Para uma crítica do “terror revolucionário”, ver 45. Ver Daniel R. Headrick, The Tools of Empire: Technology and European Imperialism in the
Maurice Merleau-Ponty, Humanismo e terror, trad. Naume Ladosky. Rio de Janeiro: Tempo Nineteenth Century. Nova York: Oxford University Press, 1981.
Brasileiro, 1968. Para um exemplo mais recente de “terror revolucionário”, ver Steve J. Stern (ed.).
46. Sobre o bantustões, ver G. G. Maasdorp e A. S. B. Humphreys (orgs.), From Shantytown to
Shining and Other Paths: War and Society in Peru, 1980-1995. Durham: Duke University Press,
Township: An Economic Study of African Poverty and Rehousing in a South African City. Cidade do
1998.
Cabo: Juta, 1975.
47. Belinda Bozzoli, “Why were the 1980s ‘millenarian’? Style, repertoire, space and authority in Estado ou não. Cf. Janice Thomson, Mercenaries, pirates, and sovereigns. Princeton: Princeton
South Africa’s black cities”. Journal of Historical Sociology, n. 13, 2000, p. 79. University Press, 1997.
48. Id., ib. 66. Gilles Deleuze e Felix Guattari, Capitalisme et schizophrénie. Paris: Editions de Minuit, 1980,
49. Ver Herman Giliomee (org.), Up Against the Fences: Poverty, Passes and Privileges in South pp. 434-527 [Mil platôs: Capitalismo e esquizofrenia, v. 5, trad. bras. Peter Pál Perbart e Janice
Africa. Cidade do Cabo: David Philip, 1985; Francis Wilson, Migrant Labour in South Africa. Caiafa. São Paulo: Ed. 34, 1997, pp. 7-95].
Joanesburgo: Christian Institute of Southern Africa, 1972. 67. Joseph C. Miller, Way of Death: Merchant Capitalism and the Angolan Slave Trade, 1730-1830.
50. Frantz Fanon, The Wretched of the Earth, trad. C. Farrington. Nova York: Grove Weidenfeld, Madison: University of Wisconsin Press, 1988, especialmente cap. 2 e 4.
1991, p. 39. 68. Ver Jakkie Cilliers e Christian Dietrich (orgs.). Angola’s War Economy: The Role of Oil and
51. Id. ibid., pp. 37-39. Diamonds. Pretória: Institute for Security Studies, 2000.
52. Ver Regina M. Schwartz, The Curse of Cain: The Violent Legacy of Monotheism. Chicago: 69. Ver, por exemplo, “Rapport du Groupe d’experts sur l’exploitation illégale des ressources
University of Chicago Press, 1997. naturelles et autres richesses de la République Démocratique du Congo”, relatório da Organização
das Nações Unidas n. 2/2001/357, submetido pela Secretaria Geral ao Conselho de Segurança, 12
53. Ver Lydia Flem, L’Art et la mémoire des camps: Représenter, exterminer. Jean-Luc Nancy (ed.).
abr. 2001. Ver também Richard Snyder, “Does lootable wealth breed disorder? States, regimes,
Paris: Seuil, 2001.
and the political economy of extraction”. Disponível em:
54. NE: Os textos de Weizman referidos por Mbembe foram escritos antes que Israel retirasse seus <[Link] gpapers/WPS/[Link]>.
soldados e assentamentos de dentro da Faixa de Gaza, em 2005. A lógica descrita, porém,
70. Ver Loren B. Landau, “The humanitarian hangover: Transnationalization of governmental
continua inteiramente vigente no tocante à Cisjordânia.
practice in Tanzania’s refugee-populated areas”. Refugee Survey Quarterly, 21, n. 1, 2002, pp.
55. Ver Eyal Weizman, The Politics of Verticality. Disponível em 260-299, pp. 281-287, especialmente.
<[Link] acesso em: 16 fev.
71. Sobre commandement, ver Achille Mbembe, On the Postcolony. Berkeley: University of
2018.
California Press, 2001, cap. 1-3.
56. Ver Stephen Graham e Simon Marvin, Splintering Urbanism: Networked Infrastructures,
72. Ver Leisel Talley, Paul B. Spiegel e Mona Girgis. “An investigation of increasing mortality among
Technological Mobility and the Urban Condition. Londres: Routledge, 2001.
Congolese refugees in Lugufu Camp, Tanzania, May-June 1999”. Journal of Refugee Studies, 14, n.
57. E. Weizman, The Politics of Verticality, op. cit. 4, 2001, pp. 412-427.
58. Ver Stephen Graham, “‘Clean Territory’: Urbicide in the West Bank”. Disponível em: < 73. Ver Tony Hodges, Angola: From Afro-Stalinism to Petro-Diamond Capitalism. Oxford: James
[Link] 16 fev. 2018. Currey, 2001, cap. 7; Stephen Ellis, The Mask of Anarchy: The Destruction of Liberia and the
59. Compare com a panóplia de novas bombas jogadas pelos Estados Unidos durante a Guerra do Religious Dimension of an African Civil War. Londres: Hurst & Company, 1999.
Golfo e a guerra no Kosovo, em geral destinadas a fazer chover cristais de grafite para desativar 74. Ver Elias Canetti, Massa e poder, trad. bras. Sério Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras,
estações de energia e redes de distribuição. Michael Ignatieff, Virtual War. Nova York: Metropolitan 1995, pp. 227-280.
Books, 2000.
75. Martin Heidegger, Être et temps. Paris: Gallimard, 1986, pp. 289-322 [Ed. bras.: Ser e tempo,
60. Ver Michael Walzer, Just and Unjust Wars: A Moral Argument with Historical Illustrations. Nova trad. Márcia de Sá Cavalcante Schuback. Petrópolis: Vozes, 2006].
York: Basic Books, 1977.
76. Id., ibid.
61. Benjamin Ederington e Michael J. Mazarr (orgs.), Turning Point: The Gulf War and U.S. Military
77. Georges Bataille, “Année 1955 – Hegel, la mort et le sacrifice”. Oeuvres Complètes, v. 12.
Strategy. Boulder: Westview, 1994.
Paris: Gallimard, 1988, p. 336.
62. Thomas W. Smith, “The new law of war: legitimizing hi-tech and infrastructural violence”.
78. Sobre o que antecede, ver Amira Hass, Drinking the Sea at Gaza: Days and Nights in a Land
International Studies Quarterly, v. 46, n. 3, 2002, p. 367. Sobre o Iraque, ver Geoffrey Leslie
under Siege. Nova York: Henry Holt, 1996.
Simons, The Scourging of Iraq: Sanctions, Law and Natural Justice. Nova York: St. Martin, 1998; ver
também Ahmed Shehabaldin e William M. Laughlin Jr., “Economic sanctions against Iraq: human 79. P. Gilroy, O Atlântico negro, op. cit., p. 140.
and economic costs”. International Journal of Human Rights, 3, n. 4, 2000, pp. 1-18.
63. Zygmunt Bauman, “Wars of the Globalization Era”. European Journal of Social Theory, v. 4, n.
1, 2001, p. 15. “Afastados como estão de seus ‘alvos’, correndo daqueles que golpeiam rápido
demais para testemunhar a devastação que causam e o sangue que derramam, os pilotos
convertidos em computadores quase nunca têm a chance de olhar suas vítimas no rosto e avaliar
a miséria humana que têm semeado.” “Militares profissionais do nosso tempo não veem
cadáveres nem ferimentos. Talvez, eles durmam bem; nenhuma pontada em suas consciências os
manterá acordados” (p. 27). Ver também “Penser la guerre aujourd’hui”. Cahiers de la Villa Gillet,
n. 16, 2002, pp. 75-152.
64. Achille Mbembe, “At the edge of the world: boundaries, territoriality, and sovereignty in Africa”.
Public Culture, n. 12, 2000, pp. 259-284.
65. Em direito internacional, “corsários” (privateers) são definidos como “navios de propriedade
privada que navegam sob uma comissão de guerra que capacita a pessoa a quem é concedido
continuar todas as formas de hostilidade permitidas em alto-mar pelos usos da guerra”. Uso o
termo aqui para designar formações armadas que atuam independentemente de qualquer
sociedade politicamente organizada, na busca de interesses privados, quer seja sob a máscara do
CONCLUSÃO
Neste ensaio, propus que as formas contemporâneas que
subjugam a vida ao poder da morte (necropolítica) Este ensaio é o resultado de conversas com Arjun
reconfiguram profundamente as relações entre Appadurai, Carol Breckenridge e Françoise Vergès.
resistência, sacrifício e terror. Tentei demonstrar que a Trechos foram apresentados em seminários e workshops
noção de biopoder é insuficiente para dar conta das em Evanston, Chicago, Nova York, New Haven e
formas contemporâneas de submissão da vida ao poder Joanesburgo. Críticas úteis foram fornecidas por Paul
da morte. Além disso, propus a noção de necropolítica e Gilroy, Dilip Yan Gaonkar, Beth Povinelli, Ben Lee, Charles
de necropoder para dar conta das várias maneiras pelas Taylor, Crawford Young, Abdoumaliq Simone, Luc
quais, em nosso mundo contemporâneo, as armas de Sindjoun, Souleymane Bachir Diagne, Carlos Forment,
fogo são dispostas com o objetivo de provocar a Ato Quayson, Ulrike Kistner, David Theo Goldberg e
destruição máxima de pessoas e criar “mundos de Deborah Posel. Comentários adicionais e ideias, bem
morte”, formas únicas e novas de existência social, nas como apoio crítico e incentivo foram oferecidos por
quais vastas populações são submetidas a condições de Rehana Ebr-Vally e Sarah Nuttall.
vida que lhes conferem o estatuto de “mortos-vivos”. O ensaio é dedicado a meu amigo falecido Tshikala
Sublinhei igualmente algumas das topografias recalcadas Kayembe Biaya.
de crueldade (plantation e colônia, em particular) e
sugeri que o necropoder embaralha as fronteiras entre Achille Mbembe
resistência e suicídio, sacrifício e redenção, mártir e
liberdade.
SOBRE O AUTOR Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
de acordo com ISBD
M479n Mbembe, Achille
Achille Mbembe é considerado um dos mais agudos Necropolítica: biopoder, soberania, estado de exceção, política da morte
/ Achille Mbembe ; traduzido por Renata Santini. - São Paulo : n-1 edições,
pensadores da atualidade. Leitor de Fanon e Foucault, 2018.
com notável erudição histórica, filosófica e literária, vira 80 p. ;
do avesso os consensos sobre a escravidão, a Tradução de: Necropolitics
descolonização e a negritude. É um dos poucos teóricos ISBN: 978-85-6694-350-4
que consegue pensar o contexto mundial contemporâneo
1. Ciências políticas. 2. Filosofia. 3. Antropologia. 4. Soberania. I.
a partir da provincialização da Europa. Santini, Renata. II. Título.
Nascido nos Camarões, é professor de História e
CDD 320
Ciencias Políticas na Universidade de Witwatersrand, em
2018-186 CDU 32
Joanesburgo, bem como na Duke University, nos Estados
Unidos. É autor, entre outros, de Crítica da razão negra,
Elaborado por Odilio Hilario Moreira Junior - CRB-8/9949
De la postcolonie, Sortir de la grande nuit e Politiques de
l´inimitié. Índice para catálogo sistemático
1. Ciência política 320
2. Ciência política 32