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Falsificacionismo de Popper e Cientificidade

Karl Popper propõe a falsificabilidade como critério de cientificidade, onde uma teoria é científica se pode ser testada e refutada. Ele argumenta que a indução não justifica teorias científicas, pois observações particulares não garantem conclusões universais. O método científico, segundo Popper, é um processo de conjecturas e refutações, onde o conhecimento avança a partir de problemas e tentativas de superá-los.

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Falsificacionismo de Popper e Cientificidade

Karl Popper propõe a falsificabilidade como critério de cientificidade, onde uma teoria é científica se pode ser testada e refutada. Ele argumenta que a indução não justifica teorias científicas, pois observações particulares não garantem conclusões universais. O método científico, segundo Popper, é um processo de conjecturas e refutações, onde o conhecimento avança a partir de problemas e tentativas de superá-los.

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KARL POPPER E O PROBLEMA DA JUSTIFICAÇÃO DAS HIPÓTESES: O

MÉTODO FALSIFICACIONISTA

TEXTO – CRITÉRIO DE CIENTIFICIDADE DE UMA TEORIA

- Qual é o critério de cientificidade de uma teoria?


- Popper: Nas minhas primeiras publicações propus como critério do carácter
científico (ou empírico porque em inglês o termo “ciência” denota a ciência
empírica) a falsificabilidade ou controlabilidade, isto é, a possibilidade de
submeter a teoria a controlo. Procurei mostrar que a controlabilidade
equivale à falsificabilidade. Uma teoria é controlável se existem ou podemos
conceber testes que possam refutá-la. Trata-se de algo semelhante ao
exame de um estudante. Um estudante é examinável se existem possíveis
perguntas que permitam testar se não sabe nada ou se sabe o suficiente
para passar no exame.
Falsificabilidade significa que uma teoria pode ser examinada e, no caso de
não passar no exame, ser declarada falsa. Mas isto não significa que essa
teoria seja de deitar para o caixote. Podemos, de facto, corrigir a nossa
teoria, modificá-la. E, por vezes, as correcções, mesmo limitadas, podem
fazer uma enorme diferença, pode acontecer que uma pequena correcção
reforce de tal modo a teoria que ela acabe por explicar muito mais do que
esperaríamos. O falsificacionismo pode conduzir, nos casos extremos, à
rejeição total de uma teoria e, noutros casos, pode conduzir a um
melhoramento extraordinário. Segundo a minha concepção, todos os testes
ou controlos científicos, os experimentos, são tentativas de refutação.
- Isso é verdade no que respeita a uma refutação conseguida. Mas e quando
não conseguimos refutar ou provar a falsidade de um teoria?
- Popper: Se o teste não refutar a teoria, só podemos dizer que a teoria
passou no exame. Não podemos dizer muito mais. Não tem grande
significado o facto de a teoria passar numa certa prova. Significa
simplesmente que nada nos obriga a abandonar a teoria e que, se até agora
não a tínhamos levado muito a sério, é altura de o fazer. Mas isto não nos
leva a muito. E muito menos a afirmar que a teoria seja verdadeira. O que
podemos dizer é que a teoria foi controlada sem ser refutada e nada mais.
Não podemos chamar “verificação” à passagem no exame ou teste a que a
teoria foi submetida. À letra, o termo verificação significa tornar verdadeira
uma teoria, “veri-ficar-la” (verificar vem do latim verum facere). Na realidade,
não podemos “fazer verdadeira” nenhuma teoria, nem mesmo mostrar que é
verdadeira. O único objectivo dos testes a que submetemos as teorias é o de
falsificá-las, não de verificá-las.”
(Entrevista de K. Popper à R.A.I., em 26 de Julho de 1989)

1. Resume as respostas, dadas por Popper, às duas perguntas do


entrevistador.
2. Sublinha duas passagens do texto que melhor exprimam essas
respostas.
3. “Na realidade, não podemos “fazer verdadeira” nenhuma teoria, nem
mesmo mostrar que é verdadeira.” Concordas? Justifica a tua
resposta.

TEXTO

De acordo com uma tese que tem bastante aceitação – e a que aqui nos
oporemos - as ciências empíricas podem caracterizar-se pelo facto de
empregarem os chamados “métodos indutivos”: segundo esta tese, a lógica
da investigação científica seria idêntica à lógica indutiva, ou seja à análise
lógica de tais métodos indutivos.
É vulgar chamar “indutiva” a uma inferência quando passa de
enunciados singulares (chamados, às vezes, enunciados “particulares”), tais
como descrições dos resultados de observações ou de experiências, para
enunciados universais, tais como hipóteses e teorias.
Ora bem, de um ponto de vista lógico, está longe de ser óbvio que a
inferência de enunciados universais a partir de enunciados particulares, por
mais elevado que seja o seu número, esteja por si mesma justificada; pois
qualquer conclusão a que cheguemos por esta via corre sempre o risco de
um dia se tornar falsa: assim, seja qual for o número de exemplares de
cisnes brancos que tenhamos observado, isso não justifica a conclusão de
que todos os cisnes sejam brancos.
A obra de Hume devia ter mostrado claramente que o princípio da
indução pode facilmente gerar incoerências que só poderemos evitar - se é
que podemos – com muita dificuldade. (…)
Acredito que a teoria – pelo menos alguma teoria ou expectativa
rudimentar – vem sempre primeiro; que precede sempre a observação; e que
o papel fundamental das observações e dos testes experimentais é mostrar
que algumas das nossas teorias são falsas e, assim, estimular-nos a produzir
outras melhores.
Consequentemente, afirmo que não partimos de observações, mas
sempre de problemas – de problemas práticos ou de uma teoria que caiu em
dificuldades. Uma vez que defrontemos um problema, podemos começar a
trabalhar nele. Podemos fazê-lo por meio de tentativas de duas espécies:
podemos prosseguir tentando primeiro supor ou conjecturar uma solução
para o nosso problema; e podemos depois tentar criticar a nossa suposição,
habitualmente fraca. Às vezes , uma suposição ou uma conjectura podem
suportar por certo tempo a nossa crítica e os nossos testes experimentais.
Mas, via de regra, logo descobrimos que as nossas conjecturas podem ser
refutadas ou que não resolvem o nosso problema ou que só o solucionam em
parte; e verificamos que mesmo as melhores soluções – aquelas capazes de
resistir à crítica mais severa das mentes mais brilhantes e engenhosas – logo
dão origem a novas dificuldades, a novos problemas. Assim, podemos dizer
que o crescimento do conhecimento avança de velhos problemas para novos
problemas, por meio de conjecturas e refutações.
Montagem e adaptação de textos de K. Popper, Conhecimento Objectivo e A Lógica da Descoberta
Científica,
in Luís Rodrigues, Filosofia 11º Ano, Plátano Editora, p. 256

1. Define inferência indutiva.


2. Resume a opinião de Popper acerca dos “métodos indutivos”.
3. Faz um esquema que ilustre a concepção popperiana do método científico.

KARL POPPER (1902-1996) E O PROBLEMA DA JUSTIFICAÇÃO DAS HIPÓTESES: O


MÉTODO FALSIFICACIONISTA - SÍNTESE
SUMÁRIO:
1. O problema da demarcação
2. Dois critérios de cientificidade
3. O critério da falsificabilidade
4. Graus de falsificabilidade
5. O método das conjecturas e refutações
6. O crescimento do conhecimento
7. A dissolução do problema da indução
8. Críticas ao falsificacionismo

1. O problema da demarcação

O que têm de especial as teorias científicas? Como podemos distingui-las das teorias que não
são científicas? Este é o problema da demarcação e constitui o ponto de partida da filosofia da ciência
de Popper.
Para solucionar este problema temos de encontrar um critério de cientificidade adequado, isto
é, precisamos de descobrir uma propriedade (ou um conjunto de propriedades) que nos permita
estabelecer uma fronteira entre a ciência empírica e as demais áreas teóricas. Uma das razões para
nos interessarmos por este problema é a de que muitas teorias que por vezes são apresentadas como
ciência não passam, na verdade, de pseudociência. A astrologia é um exemplo óbvio de pseudociência.

2. Dois critérios de cientificidade

Uma solução possível para o problema da demarcação é o critério da verificabilidade, de acordo


com o qual uma teoria é científica se, e apenas se, é verificável. Uma teoria científica é aquela que
pode ser comprovada pela experiência. Mas este critério não resolve satisfatoriamente o problema da
demarcação. Vimos que as teorias científicas incluem leis, isto é, proposições universais que visam
captar regularidade naturais. E proposições universais não podem ser comprovadas pela experiência.
Por isso, o critério da verificabilidade implica que as teorias que incluem leis não são científicas, o que
é absurdo, já que um dos grandes objectivos da ciência é a descoberta das leis da natureza.
Outra solução possível é o critério da confirmabilidade: uma teoria é científica se, e apenas se, é
confirmável. Uma teoria científica é aquela que pode ser confirmada (ou parcialmente verificada) pela
experiência. Pela observação podemos descobrir que provavelmente certas leis são verdadeiras.
Contudo, Popper aceita a conclusão céptica de Hume acerca da indução e, por isso, defende que
as leis científicas não podem ser confirmadas. Como nenhuma inferência indutiva é racionalmente
aceitável ou justificável, a observação de casos particulares nunca nos permite apoiar ou confirmar
minimamente uma lei científica. Dado que, segundo Popper, as leis científicas não são sequer
confirmáveis, o critério da confirmabilidade fracassa pela mesma razão anterior.
Resumindo, Popper rejeita tanto o critério da verificabilidade como o da confirmabilidade enquanto
respostas para o problema da demarcação. E rejeita-os porque pensa que estes critérios têm a
implicação absurda de que uma teoria científica não pode incluir proposições universais que visem
captar leis da natureza.

3. O critério da falsificabilidade

Se aquilo que demarca as teorias científicas das não científicas não é a possibilidade as
verificarmos ou confirmarmos empiricamente, que propriedade das teorias determinará a sua
cientificidade? O critério proposto por Popper é a falsificabilidade: uma teoria é científica se, e apenas
se, é falsificável. Ou, por outras palavras, uma teoria é científica se, e apenas se, pode ser refutada
(ou falsificada ou testada) pela experiência.
É fácil perceber que as leis científicas, como muitas outras proposições universais, são
falsificáveis. A observação de muitos corvos negros não prova indiscutivelmente que a hipótese de que
todos os corvos são negros é verdadeira, mas basta observar um único corvo de outra cor para refutar
esta hipótese, para estabelecer a sua falsidade. Ou seja, as leis científicas, como muitas outras
proposições universais, estão sujeitas a contra-exemplos.
Segundo Popper, então, aquilo que as teorias científicas têm de especial é o facto de estarem
sempre abertas à possibilidade de refutação. Uma teoria genuinamente científica é aquela que pode
ser testada pela experiência e que será refutada se os testes não lhe forem favoráveis.

4. Graus de falsificabilidade

As teorias são falsificáveis ou refutáveis em graus diversos. Popper pensa que é bom que uma
teoria científica seja falsificável num grau elevado. Para compreender esta ideia, precisamos da noção
de conteúdo empírico.
O conteúdo empírico de uma teoria (ou de uma proposição) é a informação que este nos dá
sobre o mundo que observamos. Consideremos a seguinte proposição: O cobre dilata quando é
aquecido ou não dilata quando é aquecido. Esta proposição não tem qualquer conteúdo empírico, ou
seja, nada nos diz sobre o mundo da experiência. E não é falsificável. Estas duas coisas estão
relacionadas: como a proposição nada diz sobre o mundo que observamos, não existe qualquer
observação ou experiência possível capaz de a refutar. Consideremos agora duas proposições com
conteúdo empírico:
Todo o cobre dilata quando é aquecido.
Todo o metal dilata quando é aquecido.
Além de terem conteúdo empírico, qualquer uma destas proposições é falsificável. Ambas seriam
refutadas se observássemos um pedaço de cobre que não dilatasse ao ser aquecido. Mas a segunda
proposição tem mais conteúdo empírico, é mais informativa do que a primeira. Por essa razão, tem um
grau de falsificabilidade mais elevado, isto é, corre maiores riscos de ser refutada pela experiência.. Por
exemplo, a observação de um pedaço de ferro que não dilatasse ao ser aquecido refutá-la-ia, mas não
refutaria a primeira proposição.
Chegamos assim à seguinte conclusão: Quanto mais elevado é o grau de falsificabilidade de
uma teoria, maior é o seu conteúdo empírico. Ou seja, quanto maiores são os riscos que uma teoria
corre de ser refutada pela observação, mais informativa ela é. Ora, é desejável que uma teoria
científica nos dê muita informação sobre o mundo da experiência. Por isso, é também desejável que
uma teoria seja falsificável num grau elevado.
Resumindo: As teorias que não são falsificáveis nada dizem sobre o mundo que observamos e,
portanto, não são científicas, pois uma teoria científica tem de nos dar alguma informação empírica. E
as boas teorias científicas, além de serem falsificáveis, são-no num grau elevado, pois isso significa
que são ricas em conteúdo empírico, que contêm informação vasta e rigorosa sobre o mundo da
experiência.

5. O método das conjecturas e refutações

Para além de propor uma solução para o problema da demarcação, Popper sugere uma
perspectiva falsificacionista do método científico: Para tornar claro o contraste com o indutivismo,
podemos resumir esta perspectiva em três teses fundamentais:
1. Os problemas são o ponto de partida da investigação científica.
2. As teorias são elaboradas mediante um processo de criação de conjecturas.
3. Depois de a teoria ter sido elaborada, importa fazer o seguinte:
a) Tentar refutá-la ou falsificá-la.
b) Identificar os problemas novos que ela cria.
A tese 1 significa que o cientista não é alguém que começa por registar laboriosamente as suas
observações, tentando libertar-se de todas as suposições teóricas enquanto observa o mundo. Popper
insiste na impossibilidade da observação pura. Quando um investigador observa o mundo, fá-lo de um
modo selectivo, pois só lhe interessa observar aquilo que é relevante para resolver os problemas que
motivam a sua investigação. Assim, a investigação científica parte de problemas. E aquilo que um
cientista vê como um problema depende frequentemente das teorias que ele já aceita ou que são
aceites na sua época.
De modo a resolver o problema ou problemas que lhe interessam, o cientista propõe uma teoria. A
tese 2 diz-nos que a concepção de uma teoria científica, tal como a criação de uma obre de arte, não
obedece a uma “lógica” determinada. Uma teoria científica pode ter sido inspirada por um sonho, por
uma associação de ideias inesperada, pela descoberta de um facto intrigante ou por outra coisa
qualquer. As teorias surgem assim como meras conjecturas, isto é, como hipóteses sugestivas.
Popper defende que as boas teorias científicas são conjecturas ousadas, pois têm um grau elevado
de falsificabilidade, o que significa que se expõem a um grande risco de serem refutadas. Mas não
basta propor hipóteses ousadas para fazer avançar a ciência. A tese 3 diz-nos que depois é preciso
testar essas hipóteses, isto é, pô-las à prova para ver se resistem às tentativas que fazemos para as
refutar. Para testar uma hipótese ou teoria é preciso deduzir previsões empíricas a partir dela e
confrontá-las com a observação. Se as previsões se revelarem incorrectas, a teoria será refutada e
será preciso procurar uma resposta melhor para resolver o problema. E se as previsões forem
correctas? Nesse caso, diz Popper, tudo o que podemos dizer é que, até ao momento, a teoria não foi
refutada, pelo que talvez seja verdadeira. Não podemos dizer que ela foi confirmada pela experiência,
já que, como vimos, Popper pensa que as hipóteses científicas não admitem qualquer verificação ou
confirmação empírica.
Popper usa o termo corroboração para se referir ao sucesso das teorias. Uma teoria que superou
todas as tentativas de refutação está corroborada pela experiência. Isto significa que ela teve um bom
desempenho no passado, mas que nada podemos dizer sobre o seu futuro.
Uma teoria científica é uma resposta a certos problemas. Mas ela própria suscita novos problemas,
geralmente mais profundos, os quais requerem novas conjecturas e novas tentativas de refutação. A
ciência vai assim progredindo indefinidamente.

6. O crescimento do conhecimento

Embora defenda que as teorias científicas são aquelas que podem ser falsificadas pela
experiência, Popper sustenta que o objectivo da ciência é encontrar teorias verdadeiras. Não existe
aqui qualquer contradição. Para encontrar teorias verdadeiras, temos de eliminar gradualmente os
erros e a melhor forma de fazer isso é submeter as teorias disponíveis a testes que visem refutá-las. Se
não formos críticos em relação às teorias aceites em cada período, se não as sujeitarmos a tentativas
de refutação, não conseguiremos descobrir os erros que provavelmente estas encerram.
Consequentemente, não conseguiremos encontrar teorias científicas melhores, que estejam mais
próximas da verdade.
Esta é, então, a perspectiva de Popper sobre o crescimento ou progresso do conhecimento
científico: A ciência progride em direcção à verdade por tentativa e erro , ou seja, pela proposta de
teorias conjecturais e pela eliminação das teorias que são refutadas. Embora nunca possamos estar
certos de ter encontrado uma teoria verdadeira, a experiência permite-nos descobrir que certas teorias
são falsas. Rejeitando as teorias falsas, vamo-nos aproximando cada vez mais de uma imagem
objectivamente verdadeira do mundo.

7. A dissolução do problema da indução

Popper aceita o argumento céptico de Hume acerca da indução. Por isso, não pretende solucionar
o problema da indução tal como costuma ser entendido, ou seja, não tem o objectivo de mostrar que as
inferências indutivas afinal são justificáveis.
Assim, quando Popper diz ter solucionado o problema da indução, aquilo que quer dizer é que
dissolveu este problema, ou seja, que mostrou que a injustificabilidade da indução não constitui um
embaraço para a ciência. A posição de Popper sobre o problema da indução é a seguinte: A indução é
injustificável, mas isso não põe em causa a credibilidade ou a racionalidade da ciência, pois o
raciocínio indutivo não desempenha qualquer papel na investigação científica. Por um lado, a indução
não é necessária para conceber teorias científicas, pois estas são fruto da criatividade intelectual. Por
outro lado, a indução não é necessária para avaliar teorias científicas. A avaliação de teorias científicas
consiste essencialmente em tentativas de refutação, e para tentar refutar uma teoria basta recorrer ao
raciocínio dedutivo, já que é por dedução que se inferem as previsões empíricas que, depois, são
confrontadas com a observação.

8. Críticas ao falsificacionismo

1. Crítica de Thomas Khun: O falsificacionismo distorce a natureza da actividade científica. De


acordo com esta crítica, a maior parte da actividade científica não consiste em tentativas de refutação
das teorias aceites. De um modo geral, os cientistas desenvolvem a sua investigação com o objectivo
de confirmar ou de consolidar as teorias fundamentais da sua área, e não as consideram refutadas logo
que algumas das suas previsões empíricas fracassam.
2. O falsificacionismo torna irracional a nossa confiança nas teorias científicas. Se as teorias
científicas não estiverem confirmadas pela observação, não é racional confiar nelas. Por exemplo, se
não tivermos razões muito fortes para acreditar que as teorias físicas actuais são verdadeiras, não é
racional presumir que as pontes, os aviões ou os computadores que construímos em conformidade
com elas se comportarão mais ou menos como esperamos. Ora, Popper diz-nos que as teorias
científicas, mesmo quando foram testadas com sucesso, nunca passam de meras conjecturas, já que
nunca são minimamente confirmadas pela observação. Tudo o que podemos dizer é que ainda não
foram refutadas. Assim, nunca temos quaisquer razões para acreditar que as teorias científicas são
verdadeiras. Portanto, parece que confiar nelas em muito do que fazemos todos os dias é irracional.
Por exemplo, se tudo o que pudermos dizer acerca da fiabilidade dos aviões é que eles foram
construídos de acordo com teorias que ainda não foram refutadas, dificilmente será razoável andar de
avião. (Pedro Galvão – Preparação para o exame nacional de filosofia – 11º ano, Porto Editora, pp.
86-90)
3. Por outro lado, fica o problema: O falsificacionismo não será um cepticismo?

KARL POPPER (1902-1996) E O PROBLEMA DA JUSTIFICAÇÃO DAS HIPÓTESES: O MÉTODO


FALSIFICACIONISTA - SÍNTESE

“Quando testamos uma hipótese, o que pretendemos? Tentamos mostrar que é verdadeira? E,
se é esse o nosso objectivo, será possível realizá-lo? Não nos devemos limitar a tentar refutá-la e ver
se resiste à tentativa de a falsificar (de a declarar falsa)?
Segundo K. Popper, as hipóteses são enunciados universais e como tal não podem ser
verificadas. Isso exigiria que se observassem todos os casos particulares passados, presentes e
futuros, o que é impossível. Não podemos, mediante a observação e a experimentação, mostrar que as
nossas hipóteses são verdadeiras. A única coisa que, segundo Popper, podem os cientistas fazer é
mostrar ou que são falsas ou que ainda não foi provada a sua falsidade (muito diferente de dizer que
são ou ainda são verdadeiras).
Se pensares com atenção, podes perceber que a verificação não é um procedimento
logicamente correcto. Com efeito, nenhuma lei lógica autoriza que a verdade do consequente seja a
garantia da verdade do antecedente. Para Popper, quem pensa que a comprovação das
consequências que deduzimos da hipótese implica a comprovação da hipótese está a cometer a
falácia da afirmação do consequente:
Sendo T a teoria e C as consequências deduzidas de T, a ideia de verificação parece cumprir o
seguinte raciocínio falacioso:
Se T, então C.
Ora C.
Logo, T.
Assim sendo, a atitude a adoptar perante uma hipótese ou teoria científica é esta: perguntar
“Pode ser refutada?” e não “Pode ser verificada?”. A estratégia da confirmação ou da verificação é
substituída pela estratégia da refutação. Assim, a “constrastação” de uma hipótese consiste em
submetê-la a testes cujo objectivo é refutá-la. E se não for refutada, se resistir à tentativa de a refutar
ou “falsificar”? Não diremos, segundo Popper, que foi provada, mas sim “corroborada”. Corroborar
uma hipótese significa dizer isto: não conseguimos refutá-la (mostrar que é falsa), pelo que podemos
aceitá-la provisoriamente (pode, no futuro, ser refutada).
Para Popper, os cientistas devem contentar-se em não ver as suas hipóteses refutadas e não
em vê-las verificadas ou provadas. Com efeito, como o critério de verificação não tem validade lógica,
basta um facto contrário para refutar uma hipótese, mas nenhum número de factos favoráveis é
suficiente para a confirmar. O que caracteriza as hipóteses científicas é a sua refutabilidade ou
“falsificabilidade”: nenhuma hipótese científica é irrefutável, mais tarde ou mais cedo pode ser
declarada falsa.
O princípio da falsificabilidade ou refutabilidade tem importantes implicações filosóficas:
1. Altera relação da ciência com a verdade.
As teorias científicas deixam de ser consideradas verdadeiras e só podem ser consideradas
“aceitáveis” ou “verosímeis”, aproximações progressivas à verdade. A verdade é um ideal inalcançável
de que as teorias científicas são versões aproximadas. A ciência progride por ensaios e erros, por
“conjecturas e refutações”. Contra a atitude dogmática que procura verificar as teorias , Popper propõe
um “racionalismo crítico” que procura refutá-las submetendo-as a testes incessantes.

Nunca podemos afirmar que uma teoria é verdadeira. Só podemos dizer que ainda não mostrámos que
é falsa. Devemos considerar todas as leis e teorias científicas como conjecturas que sobrevivem
enquanto resistem aos testes destinados a refutá-las.

2. Permite distinguir teorias científicas de teorias não científicas.


A refutabilidade é um critério de demarcação entre ciência e não ciência. Uma teoria é científica se
e só se for refutável ou falsificável. Uma teoria falsificável é uma teoria que podemos descobrir que é
falsa, mas não é necessariamente uma teoria falsa. Trata-se de uma teoria de que se deduzem
consequências ou predições testáveis, isto é, passíveis de serem confrontadas com os factos. Se estas
predições se revelarem incompatíveis com os factos, a teoria diz-se falsificada, ou seja, o teste a que
foi submetida mostrou que é falsa.
O marxismo (a teoria de Marx) e a psicanálise (criação de Freud) são, para Popper, exemplos de
teorias não científicas. Apesar da sua grande amplitude explicativa, são teorias que recusam o risco de
se tornarem falsas. Como? Interpretam os factos em contradição com a teoria, transformando-os em
confirmações dela mesma. São teorias que aparentemente se salvam negando o seu estatuto
científico.
(Luís Rodrigues – Filosofia 11º Ano)

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