Risco e Prazer em Tempos de Sexo Farmacologicamente Seguro: Resumo
Risco e Prazer em Tempos de Sexo Farmacologicamente Seguro: Resumo
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I
Universidade Federal da Bahia. Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva. Salvador, BA, Brasil
II
Universidade do Estado da Bahia. Departamento de Ciências da Vida. Salvador, BA, Brasil
III
Universidade Federal da Bahia. Instituto de Psicologia. Salvador, BA, Brasil
IV
Universidade Federal da Bahia. Instituto de Saúde Coletiva. Salvador, BA, Brasil
V
Universidade Federal da Bahia. Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos. Salvador,
BA, Brasil
RESUMO
OBJETIVO: Neste artigo, discutimos como a profilaxia pré-exposição (PrEP) e a carga viral
indetectável=intransmissível (CVI=I) têm produzido reconfigurações nos contextos de
encontros afetivo-sexuais de jovens gays/ homens que fazem sexo com homens (HSH) vivendo
com HIV (JVHIV).
MÉTODOS: Conduzimos entrevistas em profundidade com nove JVHIV, de 18 a 29 anos,
oriundos de duas pesquisas realizadas em Salvador/Bahia, em 2019 e 2021. Focalizamos narrativas
sobre acontecimentos inéditos na prevenção e no tratamento do HIV/aids, que têm permitido
experiências de maior intimidade e segurança, mas também desafios e tensionamentos às
relações afetivo-sexuais.
RESULTADOS: Momentos distintos da experiência de viver com HIV revelam diferentes
Correspondência:
Filipe Mateus Duarte
narrativas dos JVHIV com relação às novas biotecnologias de PrEP e CVI. Preocupações em
Universidade Federal da Bahia. torno de uma possível transmissão do HIV ou da obrigação de revelar a sorologia ficam mais
Instituto de Saúde Coletiva destacadas entre jovens com o diagnóstico mais recente, enquanto aqueles com maior tempo
Rua Basílio da Gama, s/n
40.110-040 Salvador, BA, Brasil de sorologia se colocam de forma mais confortável e confiante frente às novas tecnologias
E-mail: filipemateusduarte@gmail. e seus efeitos significativos nos encontros sexuais, ainda que permaneçam controvérsias
com a respeito das consequências morais e comportamentais do uso delas. Alguns JVHIV
reatualizam preocupações e trazem relatos sobre a continuidade do estigma em relação às
Recebido: 13 nov. 2023
pessoas vivendo com HIV. Outros JVHIV enfatizam os benefícios dos avanços biomédicos, com
Aprovado: 28 fev. 2024
abertura para novas possibilidades interativas, inclusive sem uso da camisinha, sublinhando
Como citar: Duarte FM, a existência de outras práticas, saberes, dinâmicas e formas de negociação do risco/cuidado,
Brasil SA, Lima M, Vidal JS, com tensionamentos no campo da própria sexualidade.
Magno L, Dourado I, et al
Risk and pleasure in the era of CONCLUSÕES: Reiteramos a necessidade de retomada de políticas públicas no campo do HIV/
pharmacologically safe. Rev
Saude Publica. 2024;58 Supl 1:7s. aids para além das estratégias biomédicas, dando destaque às vulnerabilidades, à disseminação
[Link] de informações sobre as novas tecnologias de prevenção e tratamento do HIV, ao respeito à
8787.2024058005962
autonomia das pessoas em suas escolhas preventivas e ao desenvolvimento de estratégias de
Copyright: Este é um artigo de enfrentamento aos estigmas associados ao HIV/aids.
acesso aberto distribuído sob os
termos da Licença de Atribuição DESCRITORES: HIV. PrEP. Indetectável. Jovens. Biotecnologias.
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desde que o autor e a fonte
originais sejam creditados.
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INTRODUÇÃO
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período mais recente de vivência com a sorologia quanto aquele de maior tempo. Dessa
forma, a partir da perspectiva de JVHIV, daremos destaque tanto às mudanças quanto
às ambivalências e tensões que persistem nos encontros afetivo-sexuais, especialmente
desconfianças e controvérsias emergentes a partir da introdução das tecnologias
farmacológicas, como a PrEP e a CVI=I.
MÉTODOS
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Tomando como referência suas idades no momento da entrevista, sublinhamos que esses
jovens tinham entre 18 e 24 anos quando diagnosticados, evidenciando que se trata de
infecções ocorridas no início de suas experiências sexuais. Esse elemento apoia os dados
apresentados pelos Boletins Epidemiológicos dos últimos anos, que vêm demonstrando o
recrudescimento da epidemia no segmento etário juvenil e a necessidade de ampliação do
debate sobre as suscetibilidades socialmente configuradas, que produzem vulnerabilidades
ao HIV/aids, especialmente pela disponibilidade desigual de recursos para as pessoas se
protegerem e para produção de saúde/cuidado.
A pesquisa Sociabilidades Positivas foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa
(CEP) do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (ISC/UFBA)
(nº 1.684.862/2016). O estudo PrEP15-19 foi aprovado pelos CEP da Organização Mundial
da Saúde (Identificação: Fiotec-PrEP Adolescent study) e do ISC/UFBA (nº 3.224.384). As
entrevistas foram realizadas seguindo as diretrizes das resoluções 466/2012 e 510/2016,
do Conselho Nacional de Saúde, sobre ética na pesquisa em ciências humanas e sociais
em saúde.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
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Eu vejo muita gente que tem HIV/aids e diz que tá usando PrEP. Vejo isso em
aplicativos, conversas, grupos. Num grupo mesmo, disseram que alguém tinha aids e
ele falou que tomava PrEP e era negativo. Eu conversei com um menino que me falou
que era HIV+ indetectável; eu queria dar um vácuo, mas não podia, aí falei que era
negativo usando PrEP. (Bernardo, 27 anos)
Essa narrativa reitera como a experiência cotidiana da sorologia parece ainda estar em
descompasso em relação aos avanços fármaco-médicos ocorridos nos últimos anos da
epidemia. Ou seja, ainda que esses novos avanços possam borrar a fronteira entre “negativos”
e “positivos”, ou melhor, entre “ausência” e “presença” do vírus HIV25, considerando aqui a
categoria indetectável, há de se destacar a persistência do medo ou receio de ser associado
ao HIV/aids, com a consequente discriminação. Nesse sentido, para além da medicalização
e normalização do HIV26,27 como uma doença crônica e tratável, não se pode esquecer
dificuldades e dilemas que persistem neste momento histórico que Simões denomina
como “nova aids”28, resultante de exitosas intervenções biomédicas sobre sua realidade
clínica e epidemiológica.
Vale enfatizar que diferentes estudiosos/as do tema29,30,31 têm reiterado que, atualmente, há
uma ênfase em perspectivas individuais no enfrentamento à epidemia do HIV/aids, com o
relativo deslocamento da prevenção dos espaços comunitários/coletivos para o interior da
clínica médica, especialmente centradas no ato de medicar. Nessa direção, um conjunto de
novos saberes sobre o HIV e as novas tecnologias, como I=I e PrEP, não têm circulado para
além de nichos específicos, contribuindo para manter o caráter persistente do estigma.
Apesar disso, conforme é discutido neste artigo, há também mudanças importantes
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possibilitadas por essas novas biotecnologias. Nas seções que seguem, alguns desses
aspectos do viver com HIV e das relações afetivo-sexuais ganham diferentes contornos a
partir de distintas temporalidades.
Na primeira vez que eu fui fazer [sexo] depois do diagnóstico, eu fiquei com medo.
Mas tentei me tranquilizar, tentei não pensar. Teve alguns momentos que eu pensei
na questão do HIV e tudo mais, com medo de acontecer tanta coisa, da camisinha
estourar e acontecer isso ou aquilo. [...] Me sinto um pouco assim... eu só fico
analisando cada passo, porque qualquer coisa que a pessoa fizer pode acabar me
afetando e eu vou ter que acabar contando [que tenho HIV] pra pessoa, entendeu?.
(Caio, 18 anos)
No que diz respeito ao dilema da revelação sorológica – “ter que acabar contando” –,
Agostini et al.36 enfatizaram em seu trabalho como a administração da condição de
soropositividade apresenta desafios no contexto dos relacionamentos afetivo-sexuais,
incluindo a necessidade de estabelecer um vínculo de confiança antes que o tema da
sorologia seja abordado. Assim, a gestão do segredo desempenha um papel importante
nessas relações, sendo mantida como estratégia de proteção contra o estigma, a rejeição
afetiva e a discriminação. Os autores também discutem como alguns desses jovens
demonstram uma grande preocupação em evitar a transmissão e adotam estratégias de
prevenção, como o preservativo.
Ainda que tensões relacionadas ao envolvimento sexual não se limitem ao período inicial
de vivência da sorologia, as narrativas dos interlocutores do estudo PrEP15-19 – conforme
relatado acima, por Caio – enfatizam mais esse aspecto do que as narrativas dos jovens da
pesquisa S+. Sobre isso, a partir de uma perspectiva de construção de sentidos ao longo do
tempo, o estudo de Anjos37 observou que o choque inicial do diagnóstico, frequentemente,
progride para uma aceitação gradual dessa condição por JVHIV. O autor explorou como
a vivência com o HIV é permeada por um período inicial de ajustamento emocional
e dificuldades na revelação do status sorológico aos familiares e parceiros, devido à
preocupação de serem estigmatizados e excluídos. No entanto, destaca a resiliência e a
busca por uma vida significativa por parte desses jovens, apesar dos desafios, medos e
incertezas presentes na vivência com o HIV. Ele também enfatiza como a temporalidade
do diagnóstico, seja ela recente ou mais longa, cumpre papel significativo na forma como
JVHIV convivem com sua sorologia, se adaptam a essa condição de saúde e lidam com seus
encontros afetivo-sexuais.
Embora seja importante reconhecer que o estigma, o medo e a discriminação ainda sejam
obstáculos significativos, independentemente do tempo desde o diagnóstico, esses estudos
sinalizam que aqueles que vivem com HIV por um período mais longo, com frequência,
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têm uma melhor compreensão sobre sua condição de saúde, desenvolvem estratégias
de enfrentamento resilientes, aprendem a gerenciar aspectos práticos e emocionais
da sorologia e estabelecem um senso mais estável de identidade positiva em relação à
sua soropositividade.
Nossos interlocutores recém-diagnosticados e ainda no início do tratamento destacaram
histórias sobre como o envolvimento sexual pós-diagnóstico está rodeado por tensões,
que podem significar uma frequência maior de preocupações que antes do diagnóstico
pareciam menos pregnantes, como o uso do preservativo. Esses cuidados se relacionam
com os novos sentidos de risco ou “ameaça” para o outro que o diagnóstico de HIV passa a
mobilizar na vida desses jovens, a camisinha começa a ser vista como algo compulsório ou
mesmo como uma obrigação moral.
Eu uso camisinha pra tudo agora, camisinha pra tudo. Sem contar que... eu to tendo
muito mais cuidado. Mesmo com camisinha, eu acho bacana você aprofundar um
pouco mais antes de fazer qualquer coisa. Principalmente a parte de você usar
camisinha pra tudo, foi depois do projeto [PrEP15-19, no qual foi diagnosticado]. Isso
eu não fazia, não. (Ruan, 19 anos)
Hoje em dia eu sempre uso [preservativo], ele querendo ou não. Se não quiser, não
transo. Antes eu não tinha isso. Se quisesse, usava; se não quisesse, normal [não
usava]. (Eduardo, 19 anos)
Quando estávamos marcando [um encontro], ele deixou claro que a minha sorologia
não fazia diferença pra ele e que ele usava PrEP. [...] Acho que é a primeira vez que
eu transo sem camisinha, sem ficar muito preocupado com o outro. [...] Agora eu
estou tendo o prazer de transar com alguém que faz uso da PrEP e algumas vezes
transamos sem camisinha. Essa zona de conforto em relação à proteção faz a gente
desfrutar mais. (Caetano, 29 anos).
[...] Hoje em dia a gente faz mais sem camisinha do que antigamente. [...]. Agora que eu
estou indetectável, ele parou [de tomar PrEP]. Ele até descobriu uma forma diferente
de usar a PrEP, usa um dia, depois dois dias, depois mais dois. (Douglas, 27 anos).
Por meio desses fragmentos, enfatizamos aspectos que passam a marcar o contexto
atual do HIV/aids, ou seja, a referência às novas biotecnologias como elementos
que fazem a diferença na tomada de decisão no interior das relações afetivo-sexuais.
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Risco, prazer e sexo farmacologicamente seguro Duarte FM et al.
Eu acho a PrEP importante, mas eu acho que rolou uma banalização da ideia de
segurança depois da PrEP. A PrEP é importante, mas a camisinha é indispensável [...],
mas aí, algumas pessoas acham que, por estarem tomando a PrEP, estão protegidas
de tudo. Aí nos aplicativos de pegação você vê que as pessoas só se confiam na PrEP.
(Samuel, 22 anos).
Muita gente está confiando na PrEP, mas a PrEP não protege outras doenças. [...] É
que as vezes a pessoa, quando tá namorando, pode se sentir segura em fazer sexo
sem camisinha. Tem gente que é louca. Tem amigos meus que fazem sexo sem
camisinha quando estão namorando. Eu fico muito em aplicativo e vejo muita gente
querendo barebacking pra cima e pra baixo. As pessoas confiam muito numa pílula
que pode falhar, no caso, a PrEP. Eu já vi documentários de pessoas que tomavam
PrEP e mesmo assim pegaram HIV. [...] Se for uma pessoa desleixada, não dá certo.
(Bernardo, 27 anos)
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo, abordamos narrativas de JVHIV, dando destaque a alguns aspectos que
persistem na vivência soropositiva, principalmente no contexto das suas parcerias sexuais.
Embora tenhamos evidenciado conflitos morais que persistem em relação ao HIV, nossas
descobertas apontam para um cenário marcado pela reconfiguração das experiências afetivo-
sexuais de JVHIV pelas novas tecnologias farmacológicas de CVI=I e PrEP, que produzem
maior sentido de segurança e prazer. Por sua vez, a confiança na atuação dos medicamentos
ARV como uma barreira química à transmissão/infecção por HIV também levanta questões
sobre outros aspectos da prevenção, como acesso, equidade, cidadania e direito à saúde.
Certamente, novos estudos serão necessários para acompanhar possíveis mudanças nesse
cenário, considerando os momentos distintos do viver com HIV, outras trajetórias de vida e
novas tecnologias que venham a surgir. Neste artigo, por exemplo, preocupações em torno
de uma possível transmissão do HIV ou da obrigação de revelar a sorologia ficam mais
destacadas entre jovens com o diagnóstico mais recente, enquanto aqueles com maior
tempo de sorologia se colocam de forma mais confortável e confiante frente às novas
tecnologias e seus efeitos significativos nos encontros sexuais, na medida em que esses
medicamentos remodelam as experiências sobre si mesmos e na relação com os outros,
ainda que controvérsias insistam em se apresentar.
Nessa direção, destaca-se também a necessidade de retomada de políticas públicas no
campo do HIV/aids que articulem as evidências sobre novas tecnologias de prevenção
e tratamento às experiências de mobilização das quais as comunidades mais afetadas
pela epidemia são protagonistas. Essas políticas devem estar ancoradas no horizonte dos
direitos humanos e, por sua vez, ser culturalmente sensíveis, considerando as diferenças
geracionais, os distintos pertencimentos sociais e o respeito à autonomia das escolhas
preventivas e de cuidado. Além disso, devem desenvolver estratégias de redução de
vulnerabilidades a partir do enfrentamento de contextos materiais, culturais e políticos
de injustiça social e discriminação às pessoas e às comunidades afetadas pela epidemia29.
Finalmente, como Mol44 nos informa, o cuidado é múltiplo, pois se faz nas práticas,
com suas imprevisibilidades, diferentes relações e condições, podendo ocorrer novas
experimentações, com o objetivo de se produzir uma existência possível. No campo da
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Risco, prazer e sexo farmacologicamente seguro Duarte FM et al.
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Contribuição dos autores: Concepção e planejamento do estudo: FMD, LAVS. Coleta, análise e interpretação
de dados: FMD, SAB, JSV, LAVS. Preparação ou revisão do manuscrito: FMD, SAB, ML, JSV, LM, ID, LAVS.
Aprovação da versão final: FMD, SAB, ML, JSV, LM, ID, LAVS. Responsabilidade pública pelo conteúdo do
artigo: FMD, SAB, ML, JSV, LM, ID, LAVS.
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