BÍBLIA E PASTORAL
Gravataí – Janeiro de 2025
Padre Luciano Motti
O primeiro pecado - Revisitando um texto: Gn 3
No princípio, Deus criou o céu e a terra. E Deus viu que era bom.
E Deus disse: “Façamos o ser humano à nossa imagem e semelhança” (Gn 1,26). E
Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus ele os criou, homem e mulher
os criou. E Deus os abençoou e disse: “Sejam fecundos; cultivem a terra” (Gn 1,28). E
Deus viu tudo o que havia feito, e tudo era muito bom (Gn 1,31).
No tempo em que Deus fez a terra e o céu, modelou o ser humano com o pó do solo,
soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e a pessoa tornou-se um ser vivente (Gn 2,7).
Deus plantou um jardim em Éden e aí colocou o ser humano. Fez brotar do solo todas as
espécies de árvores agradáveis de ver e boas para comer, e no centro do jardim a árvore
da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2,8-9).
E Deus deu este mandamento ao ser humano: “Você pode comer de todas as árvores
do jardim. Só não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque, a
partir do dia em que dela comer, você estará caminhando para a morte” (Gn 2,16-17).
A serpente era a mais esperta das feras do campo que Deus havia feito. Ela disse à
mulher: “Então Deus disse: Vocês não podem comer de todas as árvores do jardim?” (Gn
3,1). A mulher respondeu à serpente: “Nós podemos comer do fruto das árvores do jardim.
Mas do fruto da árvore que está no centro do jardim, Deus disse: ‘Dele não comam, nele
não toquem, sob pena de morte”. A serpente disse: “Não, não morrerão! Mas Deus sabe
que, no dia em que comerem dessa fruta, seus olhos vão se abrir e vocês se tornarão como
deuses, conhecedores do bem e do mal”. A mulher viu que a árvore era boa para comer,
atraente aos olhos, uma árvore apetitosa para dar sabedoria. Apanhou a fruta e comeu. E
a ofereceu ao homem dela a seu lado, que também comeu. Então os olhos de ambos se
abriram, e perceberam que estavam nus. Entrelaçaram folhas de figueira e fizeram tangas
(Gn 3,2-7).
Depois, ouviram o ruído de Deus que passeava no jardim, à brisa do dia. O homem
e sua mulher se esconderam da presença de Deus, entre as árvores do jardim. Deus
chamou o homem: “Onde você está?” Ele respondeu: “Ouvi teus passos no jardim e tive
medo, porque estou nu e me escondi”. E Deus continuou: “E quem lhe mostrou que você
está nu? Será que comeu da árvore da qual lhe proibi comer?” O homem respondeu: “A
mulher que me deste por companheira, foi ela quem me deu a fruta, e eu comi.” Deus
disse à mulher: “O que foi que você fez?” A mulher respondeu: “A serpente me enganou,
e eu comi” (Gn 3,8-13).
1. O relato pertence à categoria dos mitos. Uma história se torna mito não porque
nunca aconteceu, mas porque sempre acontece de novo!
2. É uma história de origem, de fundação do sentido: do mundo (criação com a marca
de Deus), do ser humano (imagem e semelhança de Deus, cultivador do mundo),
da transgressão (qual é o ‘primeiro’ pecado?), da destinação de tudo o que existe
(ser jardim, belo e organizado, lugar de vida), do convívio entre os seres, do medo
do convívio, do sofrimento...
3. É um relato que se presta a equívocos de leitura: qual é o pecado dos primeiros
seres humanos? (Qual é o pecado de toda pessoa?) É ‘primeiro’ pecado
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(cronologia), ou fonte de todo pecado? Em que consiste esta ‘primeira’
desobediência? O que a serpente diz/declara tentadoramente e o que Deus declara?
Pode-se comer de todas as árvores ou não se pode comer? Qual a diferença entre
o que Deus diz, o que a serpente diz e o que a mulher diz?
4. Entendemos, usualmente, o ‘primeiro’ pecado como sendo desobediência a Deus,
ligado ao sexo (percebem-se nus!), ou orgulho e pretensão humanos diante de
Deus (querer ser como Deus), ou orgulho ferido de Deus (ameaça de que as
pessoas saibam tudo),... Será isto mesmo?
5. Uma leitura simples e atenta pode ajudar a esclarecer. Pode-se comer de tudo, mas
não comer tudo. Quem come tudo, intoxica-se! Quem come tudo, não deixa para
o outro! O convívio exige aceitação do outro, das diferenças e dos direitos; o
convívio exige capacidade de partilha. O grande drama das origens é o ‘viver
juntos’ – o que se confirma no relato sobre Caim e Abel; reconhecer que o outro,
um diferente, é igual a mim. E, quando me aproprio de tudo, cedo ao desejo de
dominação sobre o outro, desejo de eliminação do outro, trilho um caminho de
morte. Morte da relação, do outro e de mim mesmo.
6. O primeiro pecado, é pecado de convivência.
Pecado original: passos falsos que têm como consequência essencial a desumanização da
pessoa. Não trata do primeiro pecado, histórica ou cronologicamente falando, mas dos
passos falsos essenciais, fundamentais que estão na origem de todo pecado (cf. Rm 5,12-
21; 7,7-8; Tg 1,-14-15).
A interpretação tradicional segue mais ou menos este caminho:
Adão e Eva receberam de Deus todos os bens. Mas há, para eles, um interdito. Se o
transgredirem, a punição será a morte (Gn 2,16). Em poucas palavras, o ser humano
pode ser feliz, com a condição de respeitar a Deus e à sua lei, de não violar o domínio
reservado ao criador. Como diz a nota da Bíblia de Jerusalém, o “conhecimento é um
privilégio que Deus se reserva e que o homem o usurpará pelo pecado”. Esta nota
esclarecerá mais adiante que o conhecimento de que se fala é a “faculdade de decidir
por si só o que é bom ou mau e de agir de acordo com a decisão”, ou, em outras palavras,
é a autonomia moral. Esse ato de desobediência e de orgulho atrairá o castigo prometido.
O humano é expulso para longe da árvore da vida: deverá morrer no fim de uma vida
penosa. O criador soberano detém as chaves do bem e do mal, e o ser humano deve se
inclinar diante dele se quer ter a vida.
Esta interpretação é basicamente a ‘leitura’ que a serpente faz no relato. E a interpretação
da serpente se impôs de tal forma que acabou, em nossa cultura, por aderir ao relato. É
ela que sugere que Deus é superior ao homem pelo conhecimento do bem e do mal; é ela
que insinua que, se Deus se reserva a árvore do conhecer o bem e o mal, é porque não
deseja que o ser humano seja como ele, conhecedor de todas as realidades. Em nenhum
lugar a narrativa afirma tais coisas. Só a serpente faz que a mulher acredite que o
conhecimento é o atributo e posse de um Deus ciumento deste seu privilégio, que cumula
o humano de bens e o ameaça de morte para mantê-lo em sua inferioridade.
É necessário reler todo o relato. E levar a sério a lógica do próprio texto.
A proibição poderia ser um conselho de amigo?! Pensemos no Decálogo, outro conjunto
de mandamentos dados por Deus... Tudo é para você! (dom) Todo o jardim – este espaço
de convívio harmonioso entre diferentes – com todas as árvores, até a árvore da vida... E
Deus cerca este dom com um limite, cuja transposição poderá levar à morte. Você tem
tudo, mas se quiser abraçar tudo, comer tudo, possuir tudo só para você, vai morrer. Neste
sentido, Deus estaria procurando proteger o humano da morte que consiste em tudo
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açambarcar para si. Querer possuir tudo é se fechar para a relação. E justamente a relação
é que é vital. Como o dom, o limite será, portanto, para a vida, porque é abertura para a
relação.
Qual é a falta? Que caminho de morte é denunciado aqui? Que falta é essa que está na
origem de todas as faltas?
O erro está em crer no que diz a serpente, a saber, que Deus é superior ao homem
pelo conhecimento e que preza essa sua superioridade.
O erro está em ver no autor da vida um concorrente do ser humano e em se
comportar desde então como seu rival.
O erro está em não assumir os limites como chance de vida e de desenvolvimento,
como lugar de reconhecimento do outro e de sua diferença.
O erro está em querer açambarcar o que foi dado, em querer guardar para si, em
lugar de receber com reconhecimento e de estar pronto para reparti-lo.
A falta está em ceder ao medo de perder, de não ter tudo, ao medo de faltar. “Quem
quer salvar a sua vida, perdê-la-á... Que vantagem tem o homem de ganhar o
mundo inteiro, se ele se perde ou se arruína?” (Lc 9,24-25)
Positivamente, denunciando este mal, a narrativa de Gn traça um caminho de vida, de
humanização, de crescimento espiritual: trata-se da aceitação alegre da finitude e da
diferença como chance de relação, de recusa de se apropriar da vida recebida; e também
do reconhecimento e da partilha. E no que diz respeito à relação com Deus trata-se da
recusa de um Deus que faria de sua superioridade um apanágio, que não seria
radicalmente abertura à aliança, à reciprocidade autêntica no amor.