Capítulo 52
— Elaris —
Eu acordei com a luz da manhã entrando pelas frestas da janela. Por um
momento, fiquei ali, deitada, tentando me lembrar do sonho que tive.
Tudo que restava era uma sensação de calor e segurança, algo raro nos
últimos tempos.
Espreguicei-me lentamente e saí da cama, o chão de madeira rangendo
sob meus pés. Conforme desci as escadas, o som da vida cotidiana
começava a se fazer presente: pássaros cantando lá fora, o vento suave
balançando as árvores… e o silêncio estranho vindo da cozinha.
Quando entrei no cômodo, parei no batente da porta.
Davian estava lá, encostado na bancada, encarando o nada. Seus braços
cruzados e a expressão no rosto dele eram… diferentes. Ele parecia
perdido em pensamentos, algo que não era exatamente incomum, mas,
naquele momento, havia algo mais.
— Tá tudo bem? — perguntei, minha voz cortando o silêncio.
Ele se virou tão rápido que quase derrubou a caneca na bancada.
— Elaris! — Ele deu um passo pra trás, claramente surpreso.
Eu franzi a testa.
— Você tá bem? — perguntei de novo, agora mais curiosa do que
preocupada.
Por um instante, achei que tinha visto o rosto dele ficar vermelho, mas,
antes que eu pudesse ter certeza, ele limpou a garganta e desviou o olhar.
— Tô, tô sim. — Ele passou a mão pelos cabelos, claramente
desconfortável. — Só… pensando em umas coisas.
Minha curiosidade aumentou, mas eu decidi não pressionar.
— Certo… — murmurei, indo até a mesa.
Ele me seguiu com o olhar por um momento antes de mudar de assunto
completamente.
— Dormiu bem?
Olhei pra ele, surpresa pela pergunta.
— Sim… dormi. — Dei de ombros. — Por que a pergunta?
— Nada, só… fico aliviado. — Ele deu um sorriso rápido, mas seus olhos
ainda tinham aquela sombra de preocupação.
Eu cruzei os braços, levantando uma sobrancelha.
— Davian, o que tá acontecendo?
Ele suspirou, passando a mão pelo rosto antes de finalmente se sentar na
cadeira em frente à minha.
— Tá bem, eu vou te contar. — Ele respirou fundo, como se estivesse se
preparando para algo difícil. — Eu descobri algumas coisas sobre a
profecia… e sobre a sua família.
Minha curiosidade deu lugar a um nó no estômago.
— O que você descobriu?
Ele hesitou por um segundo, como se estivesse escolhendo as palavras
certas.
— A profecia nunca foi desmentida, Elaris. Tudo que a sua família disse…
era mentira.
Minhas mãos foram direto para a boca, abafando um pequeno som de
choque que escapou antes que eu pudesse evitar.
— Mentira? — murmurei, minha voz trêmula. — Mas… por quê?
Ele inclinou-se pra frente, apoiando os cotovelos na mesa, o rosto sério.
— A punição que a profecia menciona, sobre a destruição da sua família,
tem uma razão. — Ele fez uma pausa, os olhos encontrando os meus. —
Seus antepassados… mataram um avatar da deusa.
Minha cabeça começou a girar, e eu precisei me segurar na borda da
mesa pra não cair da cadeira.
— Um… avatar? — repeti, como se dizer em voz alta fosse tornar aquilo
menos absurdo. — Mas por quê? Por que alguém faria isso?
Davian balançou a cabeça, frustrado.