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Reflexões de Elisa no Sargaço

Elisa, sentada na areia coberta de sargaço à beira do mar, reflete sobre suas inseguranças e medos em relação ao futuro e à vida. A dor que sente é resultado de pensamentos pesados, e ela se questiona sobre a morte e o que acontece após, imaginando se as almas se tornam estrelas ou sargaço. À medida que a noite avança, ela percebe que se sente estranhamente conectada ao sargaço, refletindo sobre sua própria existência e a rejeição que sente do mundo.

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Reflexões de Elisa no Sargaço

Elisa, sentada na areia coberta de sargaço à beira do mar, reflete sobre suas inseguranças e medos em relação ao futuro e à vida. A dor que sente é resultado de pensamentos pesados, e ela se questiona sobre a morte e o que acontece após, imaginando se as almas se tornam estrelas ou sargaço. À medida que a noite avança, ela percebe que se sente estranhamente conectada ao sargaço, refletindo sobre sua própria existência e a rejeição que sente do mundo.

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Sargaço

Eram 22 da noite e Elisa estava lá havia pelo menos duas horas,


estava sentada em frente ao mar, na orla de sua cidade, se alguém lhe
perguntasse, ela diria que estava pensando sobre o futuro, mas na
verdade, ela estava pensando se realmente haveria algum futuro dali
adiante.
Não fazia ideia do que estava fazendo com a própria vida, e nem
sequer o que os outros pensavam que ela estava fazendo, Elisa tinha
medo de algo, de si mesma? Dos outros? Do futuro ideal que talvez
nunca chegasse?
Talvez a reflexão tão longa fosse sobre isso: do quê e por que ela
sentia medo?
Elisa estava sentada na areia coberta por sargaço, na beira do mar;
um pouco longe havia um farol, que iluminava a água, e os feixes de luz
pareciam cardumes luminosos, nadando, saltando, seguindo adiante.
Seguir adiante era difícil.
Elisa estava sentada no sargaço, algas marinhas que não foram
devoradas pelos peixes e por isso não serviram, assim sendo expulsas
pelo mar, e condenadas a encalhar na areia, de modo de que servissem
apenas para serem tapete e assento para os caranguejos e as pessoas
que passavam por ali, assim como a própria Elisa.
“Sargaço, nome engraçado não é?” Elisa pensara.
E ficou ali olhando os peixes de luz que só existiam em sua singela e
destruída imaginação, imaginação essa que já havia sido usada tanto
para criar fugas, que acabou se desgastando, e com esse desgaste já
não havia mais fuga, não havia para onde correr, só restava sentar no
sargaço e imaginar peixes que sairiam da água e a carregariam para
outra dimensão, uma dimensão onde não precisasse olhar para o mar e
pensar.
Pensar doía, na verdade, desde o início daquele dia, Elisa sentia uma
dor de cabeça horrível, ela chegou a tomar pelo menos dois
comprimidos de remédio para dor, mas não funcionava; ela acabou
chegando à conclusão de que a dor era simplesmente o peso dos
pensamentos que ela carregava, e ela não conseguia achar um jeito de
descarregar aqueles pensamentos.
Que pensamentos eram aqueles? O que a incomodava tanto? O que
a assustava tanto? Ela esperava que as ondas lhe trouxessem uma
resposta. Por que ela mesma não conseguia encontrar tais respostas?
Ela já não conseguia sentir nada além da dúvida, uma dúvida
permanente, que quando era aliviada, era substituída por uma alegria
frágil, que se quebrava e virava um oco, um vazio, vazio esse que era
novamente preenchido pela dúvida.
Elisa sentia o vento bater em seu rosto, a noite era escura, tão escura
que nem o farol conseguia iluminar direito, o mar a noite parecia um
amontoado de nada. “Pra onde a gente vai quando a gente morre? Será
que é pro mar?”
O sargaço era macio e úmido, macio porque todos amolecem quando
são expulsos e rejeitados, e úmido porque era constantemente molhado
pelas ondas de água salgada que iam e viam. “Se os meus olhos ardem
com a água salgada, será que o sargaço também sente arder?”
Elisa naquela manhã tinha recebido a notícia de que alguém tinha
morrido, ela não lembrava quem, mas havia pensado nisso o dia todo, e
também pensava nisso enquanto olhava para os peixes que não
existiam. “Será que eu vou virar um feixe de luz?”
Não importava de fato quem havia morrido, porque quem morre
simplesmente deixa de existir, e se algo não existe, não importa. Elisa
pensava se era assim que as coisas deveriam ser.
Haviam poucas estrelas no céu naquela noite, restou só uma
constelação, uma constelação que todos viam mas ignoravam, talvez
porque aquela constelação fosse pequena ou insignificante demais ou
talvez porque ninguém lembrasse ao certo seu nome, ou talvez porque
as pessoas estivessem tão acostumadas a ver aquela constelação, que
parar e observá-la simplesmente não tinha sentido ou importância.
“Será que eu vou virar uma estrela?”
“Será que quem morreu hoje virou uma estrela?”
“Será que as estrelas descem e viram peixes de luz no mar que só eu
enxergo?”
Perguntas e perguntas rondavam a mente de Elisa, e sua mente
definitivamente já não era a mesma havia muito tempo, já não eram
mais 22 da noite e a razão de seu medo ainda não havia sido
descoberta.
O sargaço voltou à sua mente, talvez quando as pessoas morressem
virassem sargaço, porque o sargaço é rejeitado pelo mar, assim como
as pessoas são cuspidas pelo mundo, ela pensava cada vez mais em
como o sargaço era injustiçado. Elisa percebeu que se sentia
confortável no sargaço, a ponto de pensar que talvez ela mesma fosse
sargaço sem nunca ter notado, talvez ela estivesse a ponto de ser
cuspida pelo mundo, ou talvez já tivesse sido cuspida sem nem
perceber.
Os cardumes de luz brilhavam e brilhavam, e há muito tempo as 22
horas da noite já haviam ido direto para o espaço; chegou um momento
em que os peixes luminosos começaram a chegar cada vez mais perto,
e o sargaço se contorcia, assim como Elisa também se contorcia.
O brilho era ofuscante e Elisa flutuava, ao mesmo tempo em que a
constelação esquecida descia ao mar para assistir, o sargaço era
rejeitado porque esse era seu destino: ou ser devorado ou ser cuspido
para fora, por isso nascia e por isso estava lá, ajudando os peixes a
carregarem o sargaço humano.
“Você vai melhorar meu bem, não se preocupe”
E Elisa finalmente lembrava agora quem havia morrido.

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