concreta, tal como uma suposta «doença» subjacente, pois desde o início o procedimento
diagnóstico operacional assume o caráter parcial do recorte aplicado aos fatos brutos,
determinando previamente e de forma explícita o que é pertinente ou não para se construir a
categoria.
O preço a ser pago por tal tomada de posição é precisamente o da renúncia a se
pronunciar quanto à natureza dos distúrbios mentais. Tendo sido metodologicamente
deixado de lado o problema fundamental da validade das categorias, deve-se assumir que a
teoria sobre o psicopatológico só poderá obtida a partir de uma reflexão que reúna os dados
empíricos em um corpo conceitual coerente e apropriado à especificidade do sofrimento
humano.
Daí decorre um dos maiores impasses com os quais se defronta a psiquiatria
contemporânea. Tendo relegado a psicopatologia a um segundo plano, a psiquiatria
encontra-se relativamente despreparada para enfrentar as questões de fundo sobre o
sofrimento mental, bem como do estatuto dos modelos decorrentes das diversas formas de
abordagem desse que é seu objeto clínico e de pesquisa.
Como vimos, o empirismo embutido nos pressupostos das classificações
operacionais exclui de antemão do debate todas as disciplinas que tratam dos fenômenos
psicopatológicos, a partir de metodologias não-experimentais. Assim, qualquer tentativa de
se explicitar a constituição do mundo de um sujeito psicótico (tal como desenvolvida pela
análise existencial, de Tellenbach, por exemplo) ou de descrever a experiência temporal
vivida por alguém em uma crise melancólica (a partir da fenomenologia, tal como fez
Minkowiski) ou de se abordar um fenômeno psicopatológico pelo pólo da subjetividade
(como proposto pela psicanálise) tornam-se inviáveis no espaço teórico-metodológico das
classificações operacionais. Isso não significa necessariamente que aquelas perspectivas
psicopatológicas tenham perdido a pertinência, nem que tenham sido superadas com
vantagens pelo método empírico-operacional. Elas tão-somente ficaram excluídas a priori
do debate aceito como científico. Para aquelas abordagens, uma classificação do tipo
operacional baseada na descrição estandartizada de conjuntos regulares de sintomas
objetiváveis simplesmente não faz sentido, pois não se presta ao particular recorte que elas
emprestam ao objeto psicopatológico.
De fato, cada disciplina que se ocupa do sofrimento psíquico produz modelos
específicos de psicopatologia, coerentes no interior do referencial teórico em que se
inscrevem e respondendo a certos problemas pertinentes à clínica. Para inúmeras dessas
disciplinas, o avanço no campo da confiabilidade das categorias diagnósticas é insuficiente
ou inútil no sentido de aumentar seu poder explicativo no campo psicopatológico. Dessa
forma, é necessário que cada modelo psicopatológico possa ser interpelado e aperfeiçoado
no interior dos princípios psicopatológicos que lhes dão consistência e pela exposição à
crítica de outros modelos teóricos e aos fatos clínicos. Toda a tentativa de absolutização de
um discurso visando dar conta de forma hegemônica do sofrimento humano é
extremamente perigosa e deve despertar imediatamente a oposição e a crítica mais severas.
É nesse sentido que a proposta de abordagem dos fenômenos psicopatológicos
sustentada pelo DSM-III tem sido qualificada de «neo-kraepeliniana», uma vez que
procurava tratar dos fatos clínicos com objetividade, descrevendo-os de forma clara,
agrupando-os segundo suas apresentaçõe mais constantes e, idealmente, sem se recorrer a
hipóteses implícitas que não tivessem sido experimentalmente validadas. Seria a descrição
objetiva e clinicamente pertinente quem deveria fundamentar a classificação das entidades
diagnósticas.
O DSM-III introduzia, assim, princípios explícitos e formalmente delimitados para
o estabelecimento de suas categorias diagnósticas e de suas classificações. Critérios de
inclusão e de exclusão decidiriam sobre o diagnóstico definitivo a atribuir ao caso. Tais
critérios deveriam ser previamente validados do ponto de vista empírico, sendo testados em