de classificação repousando apenas sobre dados diretamente observáveis, sem recorrer a
concepções teóricas pré-estabelecidas, salvo nos casos em que a pertinência clínica dessas
teorias já houvesse sido objetivamente confirmada. Sua meta principal era a de evitar os
impasses e as incompatibilidades entre as múltiplas abordagens psicopatológicas, sobretudo
no plano das supostas etiologias.
Paul Bercherie11 assinala que um dos grandes problemas da psiquiatria sempre foi
o da determinação precisa da natureza dos transtornos mentais. Trata-se, aqui, não mais do
estabelecimento de categorias confiáveis, mas da própria «validade» dessas categorias. O
conceito de «validade», em nosologia, refere-se à capacidade de uma entidade diagnóstica
em expressar de forma pertinente um determinado processo patológico. O "ateorismo"
proclamado por esse tipo de classificação responde, antes de tudo, à necessidade de se
contornar essa espinhosa questão de uma forma pragmática, deixando-se de lado as
"querelas de escola". A escolha do termo "Transtorno" (disorder) para designar a maior
parte das categorias diagnósticas do DSM-III e sucedâneos exemplifica bem esse esforço. A
designação disorder não confere nenhuma especificidade ao quadro clínico que ela nomeia,
mas preenche uma função que pode-se chamar "retórica", necessária ao bom
funcionamento do sistema: não se trata de conceber uma "doença", no sentido médico do
termo, segundo o qual uma etiologia orgânica explicaria as alterações observadas. Busca-se
idealmente tratar apenas dos problemas nosográficos privilegiando-se a descrição mais
objetiva possível dos quadros, deixando-se de lado os questionamentos etiológicos e dos
supostos mecanismos patogênicos.
A introdução da noção de «Transtorno» («disorder») no lugar de «Doença» ou de
«Doença Mental» tem importantes repercussões teóricas e práticas, embora a extensão
dessa mudança não tenha ainda sido suficientemente analisada pelos críticos dos sistemas
operacionais. Do ponto de vista histórico, sabe-se que quando da instalação dos trabalhos
para a revisão do DSM-II (que daria origem ao DSM-III), o Conselho de Administração da
American Psychiatric Association (APA) recomendou a formação de uma Task Force
responsável por definir a «doença mental» e o que é um «psiquiatra»12. Na verdade, esse
grupo não desempenhou qualquer papel relevante na constituição do novo Manual, embora
a definição de «doença mental» acabasse sendo um dos temas mais polêmicos dos debates.
O fato de se deixar de lado o termo médico de «doença» implica uma atitude de
prudência em relação ao estado atual de conhecimentos sobre o padecimento psíquico.
Falar em «doença» incorreria no risco de inscrever muito precocemente esses fenômenos na
ordem de racionalidade médico-biológica, o que suscitaria, no plano político, a mais
violenta oposição para as disciplinas não-biológicas no campo da psicopatologia.
Mas, para além das considerações de conveniência política, o termo «disorder»
insiste sobre o caráter operacional e pragmático do próprio sistema classificatório. Não se
trata em nenhuma hipótese de construir uma nosologia, mas tão-somente uma classificação
racional de síndromes psiquiátricas, baseada em dados já suficientemente estabelecidos do
ponto de vista empírico-experimental e passível de permitir um acordo mínimo no plano da
confiabilidade do diagnóstico.
A classificação operacional visa, dessa forma, permitir que a ciência empírica
avance sem ser obstruída por discussões de caráter doutrinário ou essencialista, tais como o
da natureza do sofrimento mental, a relação entre mente-cérebro e as relações entre a
doença mental e a existência humana. O termo «disorder» permite, assim, a construção de
um instrumento pragmático de diagnóstico e sem que se tenha que deliberar sobre a
natureza do padecer psíquico.
Isso implica uma radical mudança de postura face ao estatuto das teorias
psicopatológicas. Na abordagem pragmática, as entidades diagnósticas são convencionais e
sua pertinência depende dos resultados práticos que delas se possa obter. Não há qualquer
necessidade de que suas categorias arbitrariamente expressem uma realidade ontológica,