início em 1970, quando ativistas gays invadiram o congresso anual da Associação
Psiquiátrica Americana, que ocorria em San Francisco. Eles protestavam de forma
veemente contra os trabalhos científicos ali apresentados que sustentavam o caráter
intrinsicamente patológico do comportamento homossexual. A manifestação teve grande
repercussão sobre a mídia e sobre a opinião pública da época, encorajando seus
participantes a continuarem sua luta de uma forma ainda mais ruidosa.
Tal forma de combate político continuou por vários anos, seguindo-se de contatos e
de reuniões formais com a APA, o que resultou na aceitação - em 1973 - do princípio de
que a homossexualidade não poderia ser considerada como patológica em si mesma. Surge,
então, a categoria de «Homossexualidade egodistônica» que agruparia os sujeitos que
vivem sua homossexualidade de forma conflitiva e que, eventualmente, gostariam de se ver
livres daquele comportamento.
O episódio da supressão da homossexualidade como categoria diagnóstica nos
DSM é bastante ilustrativo do vigor e da fragilidade da maneira estritamente pragmática de
se tratar dos fenômenos ligados ao sofrimento psíquico. Por um lado, assume-se que não há
instâncias transcendentes às quais recorrer para as tomadas de decisões no que diz respeito
ao sofrimento humano. Tais decisões quanto ao que uma determinada cultura considera ou
não como patológico em termos de comportamento constitui apenas um reflexo do estado
contemporâneo das discussões entre cientistas, clínicos e a sociedade sobre o tema
psicopatológico em questão. Por outro lado, as classificações supostamente científica
mostram sua grande vulnerabilidade face questões de poder, de interesses econômicos, de
formação de grupos de pressão e de influência da mídia8.
Além disso, deve-se ter em mente que todos esses eventos ocorriam
simultaneamente com importantes transformações no campo científico no que dizia respeito
ao tratamento do problema da confiabilidade dos diagnósticos em psiquiatria.
Em 1972, J. Feighner, E. Robins e S. Guze9 publicam um artigo decisivo para a
consolidação da nova abordagem do problema nosográfico dos transtornos mentais, no qual
os autores propõem um sistema totalmente operacional para a pesquisa em psiquiatria.
Esses eminentes representantes da Escola de Saint-Louis introduzem a noção de "critérios
de inclusão e de exclusão" operacionalmente definidos, a qual será retomada mais tarde
pelo DSM-III. Eles sugeriam que os critérios deveriam ser específicos, os mais explícitos
possíveis e organizados segundo princípios empiricamente estabelecidos.
As idéias desse grupo difundiram-se rapidamente nos Estados Unidos passando a
influenciar a constituição das novas classificações psiquiátricas, sobretudo aquelas
elaboradas com fins específicos de pesquisa tais como o Research Diagnostic Criteria
(RDC) e, na Inglaterra, o Present State Examination (PSE), ambas determinantes para o
progresso dos conhecimentos em psiquiatria.
Já sob o impulso dessas novas idéias, a nona edição da Classificação Internacional
de Doenças (CID-9), de 1978, incluía pela primeira vez em sua seção de transtornos
mentais, um glossário de termos com a definição dos diferentes sintomas e síndromes
psiquiátricos permitindo, assim, orientar o diagnóstico. A essência de sua ideologia
classificatória era claramente expressa em sua "Introdução": uma classificação deve ser
antes de tudo um "compromisso prático". O caráter pragmático desse procedimento
classificatório é, portanto, explicitamente assumido; trata-se de constituir um acordo
mínimo sobre as definições das categorias empregadas.
O surgimento do DSM-III, em 1980, marca a adoção oficial da abordagem
operacional na psiquiatria americana bem como a difusão internacional de seus princípios,
tornando-se uma espécie de via de convergência nosotáxica no plano mundial.
Os fundamentos racionais do DSM-III
Como mostra S. Ionescu10, o DSM-III dava-se por objetivo constituir um sistema