quanto de sua eficácia terapêutica, a psiquiatria ainda estava longe de dar provas de solidez
científica. Nesse contexto, o problema da concordância entre os diagnósticos propostos por
diferentes psiquiatras a um mesmo caso ocupava um lugar central, pois mesmo em relação
à definição das categorias mais comuns da prática quotidiana, o desacordo era a regra.
Tome-se, por exemplo, o famoso estudo conduzido por Wing & Nixon2 na década
de setenta sob os auspícios da Organização Mundial da Saúde, que demonstrou não haver
um mínimo consenso no plano internacional sequer para o diagnóstico da esquizofrenia,
doença paradigmática do campo psiquiátrico. Um outro célebre trabalho realizado por
Kendell e cols.3, em 1971, revelou que quando se comparavam os critérios ingleses e norte-
americanos para diagnosticar essa patologia, os segundos usavam uma concepção muito
mais ampla que os europeus, de modo que os dados clínicos e epidemiológicos dos dois
países não podiam ser comparados. Tal estado de coisas fazia pesar as maiores
desconfianças sobre as bases científicas da psiquiatria, o que assumia uma relevância ainda
maior pelo fato de que as dimensões éticas, institucionais e jurídicas dessa especialidade
estavam sob o ataque da opinião pública da época, francamente favorável às teses da
antipsiquiatria.
A psicopatologia constituía, assim, o próprio terreno sobre o qual se desenrolavam
os combates quanto à legitimidade da psiquiatria e o palco das discussões mais intensas
sobre as possibilidades de sobrevivência daquela especialidade. Disciplina situada em uma
vasta encruzilhada de orientações teóricas4, a psicopatologia sempre se pautou pelos
debates teóricos acalorados e pela «confusão de línguas»5. As definições dadas por clínicos
e pesquisadores provindos de horizontes epistemológicos diferentes tendiam, naturalmente,
a recortar seus objetos teórico-clínicos segundo os pressupostos próprios de cada disciplina,
deixando, assim, grande margem à confusão terminológica e à incompreensão mútuas.
Aquilo que, por exemplo, um neurocientista entendia por «depressão» ou por «ansiedade»
poderia distanciar-se radicalmente da compreensão psicanalítica ou analítico-existencial
dos mesmos termos.
Dessa forma, aparecia como urgente o estabelecimento de uma linguagem
unificada que permitisse um mínimo de entendimento entre os diferentes ramos do
conhecimento que se encontravam nesse campo tão heterogêneo chamado
«psicopatologia».
O surgimento do DSM-III, em 1980, constituiu nesse contexto um marco e um
divisor de águas na história da psiquiatria. Propondo-se com um sistema classificatório
ateórico e operacional das grandes síndromes psíquicas, aquele Manual viria a modificar
profundamente a concepção não apenas da pesquisa, mas da própria prática psiquiátrica
Doravante, a psiquiatria disporia de um sistema de diagnósticos preciso do ponto de vista
descritivo-terminológico e passível de servir de substrato para a pesquisa empírico-
experimental. Os diagnósticos passariam a ser considerados como meros instrumentos
convencionais, dispensando qualquer referente ontológico objetivo. A psiquiatria, do ponto
de vista lógico, podia finalmente dispensar a incômoda noção de «doença mental».
Deve-se notar que a busca de unificação terminológica em psiquiatria não é um
fenômeno recente. O próprio principio classificatório, que concebe aristotelicamente que
qualquer disciplina científica deve estar fundada na descrição precisa dos fenômenos de que
se ocupa e no agrupamento sistematizado das entidades formalmente delimitadas (espécies)
segundo suas semelhanças e diferenças constantes (gênero), esteve presente desde os
primórdios da constituição do campo psiquiátrico.
É importante lembrar, por exemplo, que a revolução introduzida por Pinel e que
acabou por constituir a psiquiatria como especialidade médica independente, não se
restringiu à famosa libertação dos loucos das correntes que os prendiam como alienados da
sociedade, mas, sobretudo, ela inaugurou uma forma de abordagem sistemática de
descrição e classificação dos fenômenos ligados à alienação mental.