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Psicopatologia e Psicanálise Pós-DSM

O documento discute a crise da psicopatologia após o surgimento do DSM-III em 1980, questionando sua relevância e o impacto nas práticas psiquiátricas. Aborda a necessidade de reavaliar o papel da psicopatologia e da psicanálise em um contexto dominado por classificações operacionais. O texto busca realizar uma aproximação crítica sobre as novas exigências enfrentadas pela psicanálise no debate contemporâneo sobre o sofrimento psíquico.

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Psicopatologia e Psicanálise Pós-DSM

O documento discute a crise da psicopatologia após o surgimento do DSM-III em 1980, questionando sua relevância e o impacto nas práticas psiquiátricas. Aborda a necessidade de reavaliar o papel da psicopatologia e da psicanálise em um contexto dominado por classificações operacionais. O texto busca realizar uma aproximação crítica sobre as novas exigências enfrentadas pela psicanálise no debate contemporâneo sobre o sofrimento psíquico.

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grandes leis gerais sobre o sofrimento humano.

Essas são exatamente as dimensões que


surgem em primeiro plano quando se passa do plano abstrato das definições operacionais
para o campo concreto das práticas clínico-terapêuticas. Dessa forma, a psicanálise tem
uma contribuição decisiva a dar à psicopatologia, no sentido de auxiliá-la a reencontrar sua
vocação de disciplina clínica.

Proposições iniciais
1 - O surgimento do DSM-III, em 1980, transforma completamente a face da psiquiatria e
as relações desta com a psicopatologia.
2 - A psicopatologia, ciência que garante a sustentação epistemológica do campo
psiquiátrico, entra em crise com o surgimento das classificações operacionais, pois passa a
ser vista como relativamente irrelevante para o avanço dos conhecimentos positivos sobre
os doravante chamados "transtornos mentais" ,
3 - As seguintes questões passam a ser decisivas no estabelecimento da especificidade e da
atualidade da psicopatologia:
- Teria o DSM constituído uma superação da psicopatologia, no sentido da
Aufhebung, da dialética hegeliana? Teria o DSM transformado a psicopatologia em uma
disciplina obsoleta, em uma espécie de língua morta?
- Que preço pagará a psiquiatria pelo abandono de sua perspectiva especificamente
psicopatológica? Que preço pagarão os psiquiatras? Os pacientes? A própria cultura?
- Qual o sentido contemporâneo do termo «psicopatologia» após a mudança de
perspectivas imposta pelo DSM? Como conceber o campo e o objeto da psicopatologia
após o advento dos sistemas operacionais? O que deverá ser um projeto de psicopatologia
pós-DSM?
- Finalmente, coloca-se a questão do papel da psicanálise no contexto
contemporâneo da psicopatologia. Como situar a pertinência do discurso psicanalítico sobre
o sofrimento psíquico nesses tempos dominados pelo DSM?
Essas são as questões de que nos ocuparemos. Evidentemente, o presente trabalho
não tem a pretensão de resolvê-las. De forma bem mais modesta, busca-se apenas realizar
uma aproximação crítica do panorama contemporâneo da psicopatologia, situando as novas
exigências colocadas à psicanálise nesse debate.
Introdução
Em psiquiatria, o termo «psicopatologia» refere-se, antes de mais nada, a uma
disciplina que já desfrutou de grande prestígio em tempos não muito remotos. Conjunto de
saberes lentamente elaborados sobretudo a partir do final do século XVIII, ela é herdeira de
uma prestigiosa tradição médica. Enquanto ciência descritiva, classificatória e explicativa
das doenças mentais, a psicopatologia constituía a pedra angular do conhecimento
psiquiátrico. Do ponto de vista epistemológico, era a psicopatologia quem deveria garantir
a cientificidade dos procedimentos psiquiátricos. Da perspectiva institucional, era à
psicopatologia que os psiquiatras recorriam para sustentar a especificidade de sua atividade
face aos demais campos que tratam do comportamento humano.
Apesar desse papel referencial, o avanço dos sistemas classificatórios operacionais
na clínica e na pesquisa psiquiátricas modificou profundamente o papel da psicopatologia
em relação às ciências que se ocupam do sofrimento psíquico.
A partir da década de sessenta, fortemente contestada em sua legitimidade
epistemológica, a psiquiatria passou a enfrentar dificuldades para se fazer reconhecer como
disciplina médica de pleno direito. É bem verdade que a revolução kraepeliniana já havia
fundado uma nosografia psiquiátrica coerente e que a publicação da Allgemaine
Psychopathologie de Karl Jaspers, em 1913, já havia fornecido à psiquiatria a delimitação
dos fundamentos de sua racionalidade.
Contudo, tanto do ponto de vista da consistência de suas categorias diagnósticas,

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