História da Primeira Sociedade Bíblica
História da Primeira Sociedade Bíblica
RESUMO
Levar a Palavra de Deus pelo mundo sempre fez parte da missão da igreja. Essa tarefa se tornou
ainda mais eficaz e exitosa a partir da fundação da primeira Sociedade Bíblica na Inglaterra,
em 1804. O presente artigo pretende descrever um pouco dessa história, relatando os eventos
que precederam o surgimento desta organização e os próprios fatos históricos que marcaram
seu surgimento e determinaram os rumos de sua missão de levar a Bíblia a todas as pessoas
possíveis. A opção metodológica se fundamenta em revisão de literatura. Espera-se que as
reflexões aqui apresentadas possam contribuir com uma melhor compreensão da história Bíblia
e da relevância de sua difusão por meio das Sociedades Bíblicas.
ABSTRACT
Taking the Word of God to the world has always been part of church's mission. This task
became even more effective and successful after the foundation of the first Bible Society in
England, in 1804. The present article intends to describe a little of this history, reporting the
events that preceded the emergence of this organization and the very historical facts that marked
its emergence and determined the course of its mission of bringing the Bible to all possible
people. The methodological option is based on literature review. It is hoped that the reflections
presented here can contribute to a better understanding of Bible history and the relevance of its
dissemination through Bible Societies.
INTRODUÇÃO
Discorrer sobre o trabalho das Sociedades Bíblicas na difusão das Escrituras constitui um
significativo desafio. São mais de 200 anos de história em quase todos os países do mundo. Há
muita história; há muito detalhe. Estabelecer o recorte, portanto, é algo necessário e desafiador.
1
Acyr de Gerone Junior graduou-se em Teologia pelo Seminário Teológico Betânia, de Curitiba e pela Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Possui MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas
(FGV) e MBA em Propaganda, Marketing e Comunicação Integrada pela Universidade Estácio de Sá (UNIESA).
É pós-graduado em Projetos Sociais no Terceiro Setor pela Faculdade Teológica Batista do Paraná́ (FTBP) e em
Ciências da Religião pela Faculdade Entre Rios (FAERPI). Mestre em Educação pela Universidade Federal do
Pará (UFPA) e doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
Atualmente está realizando estágio de pós-doc na Universidade Metodista de São Paulo (UMESP). É Secretário
Regional da Sociedade Bíblica do Brasil, professor, palestrante e autor de livros e artigos sobre Teologia, Missão,
Religião, Terceiro Setor, Gestão e Educação. É pastor da Igreja Missionaria Evangélica Maranata do Rio de Janeiro
e membro titular da Academia Evangélica de Letras do Brasil.
Ainda assim, neste breve trabalho, especificamente, espera-se que seja possível apresentar os
principais aspectos que permeiam a temática.
O presente artigo pretende descrever um pouco dessa história, relatando os eventos que
precederam o surgimento desta organização e os próprios fatos históricos que marcaram seu
surgimento e determinaram os rumos de sua missão de levar a Bíblia a todas as pessoas
possíveis. Espera-se que as reflexões aqui apresentadas possam contribuir com uma melhor
compreensão da história Bíblia e da relevância de sua difusão por meio das Sociedades Bíblicas.
A opção metodológica se fundamenta em revisão de literatura. Para tanto, o trabalho de
Roger Steer, Good News for the World, 200 years of making the Bible heard: the story of Bible
Society (“Boas-novas para o mundo, 200 anos fazendo a Bíblia ser ouvida: a história da
Sociedade Bíblica”) e as obras de Giraldi, relacionadas nas referências bibliográficas,
constituirão os referenciais teóricos fundamentais nessa trajetória histórica. Obviamente,
entretanto, tal escolha não constitui um limite em relação ao uso de outros referenciais sobre o
mesmo fato, como se perceberá nessa caminhada.
2
TEIXEIRA, Paulo. Traduções da Bíblia: história, princípios e influência. In: ZIMMER, Rudi (org.). Manual do
Seminário de Ciências Bíblicas. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2008, p. 49.
3
LEPPIN, Volker. Teologia da Idade Mérdia tardia. In: KAUFMANN, Thomas [et al.] (orgs.). História ecumênica
da Igreja 2: da alta Idade Média até o início da Idade Moderna. São Paulo: Loyola; Paulus; São Leopoldo: Sinodal,
2014,p. 189.
4
LORTZ, Joseph. Historia de La Iglesia: em la perspectiva de la historia del pensamiento. Edad moderna y
contemporanea. Vol. II. Madrid: Ediciones Cristandad, 1965. p. 527 (tradução do autor)
perspectiva que, lendo a Palavra de Deus, ele percebeu certas diferenças em relação ao ensino
que alguns líderes da época faziam e o que as Escrituras diziam. Criando uma certa agitação,
ele começou a pregar, ensinar e escrever sobre isso.
Em suas pregações e escritos, não poucas vezes, Wycliffe teceu críticas ao papado. Em
certa ocasião, por exemplo, ele censurou duramente a disputa existente entre dois papas da
época, Urbano e Clemente. Em outro argumentou enfaticamente que “o papa não era a voz de
Deus na terra, essa voz era a Bíblia”5 e, por assim ser, a Bíblia “deveria normatizar todos os
âmbitos de vida na Igreja e no mundo”6. Seus escritos normalmente destacam tal pressuposto.
Entre outras, tais fatos podem ser percebidos nas obras De sufficientia legis Christi
(prelúdio para a obra Opus Evangelicum) e De veritate Sacre Scripturae. Na primeira, Wycliffe
defendia que as Escrituras eram suficientes para governar o mundo, sem a intervenção da igreja.
Na segunda, ao defender a Bíblia como a Palavra revelada, Wycliffe defendeu que ela deveria
ser soberana e superior a qualquer interpretação realizada pelos clérigos7. Sua pregação,
“encontrou um grande eco em todos os estratos da população, mesmo entre a nobreza e no
tribunal”8. Diante de tais fatos, alguns consideram que ele preparou o caminho da Reforma um
século antes.
A relação de Wycliffe com as Escrituras não se limitou às leituras, pregações ou críticas.
Ele agiu com insistência para que se desenvolvesse uma tradução da Palavra de Deus em sua
própria língua, a fim de substituir a versão latina que somente os cultos e o clero podiam ler.
Para ele, “como as doutrinas da fé estão nas Escrituras, os cristãos deveriam ter as Escrituras
em uma língua que pudessem compreender completamente”9. Assim, Wycliffe difundiu a
primeira tradução da Bíblia na língua inglesa.
Acredita-se que ele não tenha concluído a tradução, tendo traduzido pelo menos o Novo
Testamento, terminando-o em 138210. Por ser uma tradução literal do latim, não resultou em
fácil leitura e compreensão. Por isso, alguns anos depois da sua morte, foi realizada uma revisão
que ficou mais fácil de ser lida. Assim como já tinha acontecido em séculos anteriores em outras
5
MILLER, Stephen; HUBER, Robert. A Bíblia e sua história: O surgimento e o impacto da Bíblia. Barueri:
Sociedade Bíblica do Brasil, 2006 p.
6
LEPPIN, loc. cit.
7
Veja: WYCLIF’S, John. De veritate Scrae Scripturae. Londres: The Wiclif Society by Trubner & Co, 1905,
passim; WYCLIF’S, John. Opus Evangelicum. Londres: The Wiclif Society by Trubner & Co, 1895, cap. XXVII-
XXIX.
8
LORTZ, [Link], p. 528 (tradução do autor)
9
MILLER, HUBER, [Link], p. 154.
10
CAIRNS, Earle Edwin. O cristianismo através dos séculos: uma história da igreja cristã. São Paulo: Vida Nova,
2008, p. 226.
nações, a Bíblia de Wycliffe ajudou a unir a língua inglesa, pois até aquele momento existiam
três dialetos na Inglaterra.
Wycliffe também inspirou e depois comissionou alguns de seus seguidores, chamados de
lolardos, a se tornarem ministros viajantes que tinham a missão de “ler a Bíblia e ensiná-la ao
povo por toda a Inglaterra”11. O papa promulgou cinco bulas ordenando sua prisão. Ele chegou
a ser convocado em Roma. A Igreja da Inglaterra o julgou três vezes, mas ele nunca foi
condenado em vida. Entretanto, 43 anos depois de sua morte (em 1428), a Igreja ordenou que
seus ossos fossem retirados do túmulo, queimados até virar cinza e jogados num rio12. O legado
de John Wycliffe para a difusão das Escrituras foi tão significativo que até hoje existe uma
organização chamada Tradutores de Wycliffe. Eles realizam inúmeros projetos de tradução da
Bíblia pelo mundo inteiro.
Por sua vez, também não há como falar da difusão das Escrituras na Inglaterra – e agora
já no período da Reforma – sem fazer referência a William Tyndale (1484-1536), um sacerdote
inglês que tinha anseio de traduzir as Escrituras para a sua língua. Para cumprir esse desejo,
Tyndale enfrentou muitas dificuldades. Mesmo pedindo autorização ao bispo para realizar sua
tradução, teve seu pedido negado, visto que o momento não era propício: a Reforma estava em
plena ascensão pela Europa.
Usando o texto de Erasmo e fora dos domínios da Inglaterra, por medo de ser morto,
Tyndale concluiu a sua tradução do Novo Testamento. Mesmo sob muitas dificuldades e
perseguições, fez com que “6.000 cópias fossem contrabandeadas para a Inglaterra em barris
de farinha e em peças de tecido”13. Porém, quando descobertas, as Escrituras foram queimadas.
Tyndale morreu com idade próxima aos 40 anos, condenado como herege por ter traduzido a
Bíblia e pensar como Lutero. Após a sua morte, Bíblias que tinham sido traduzidas, por sua
influência ou até mesmo com sua participação, foram distribuídas por toda a Inglaterra, tanto
para o povo como para as paróquias, com a aprovação do rei.
Entre algumas versões da Bíblias que surgiram naquele tempo pós-Reforma, o grande
destaque é a reconhecida versão King James (1611) que, já no final do século XVII, “havia se
tornado a Bíblia do povo de fala inglesa”14. De fato, essa versão se popularizou, e até hoje, com
as devidas revisões, é utilizada por muitas pessoas e igrejas de fala inglesa. É por isso que,
conforme ressaltou Steer, o povo da Grã-Bretanha sempre considerou a Bíblia King James uma
11
CAIRNS, [Link]., p. 227.
12
Cf. TEIXEIRA, Paulo. Traduções da Bíblia: história, princípios e influência. In: ZIMMER, Rudi (Org.). Manual
do Seminário de Ciências Bíblicas, p. 49.
13
MILLER, HUBER. [Link]., p. 170.
14
Ibid., p. 178.
herança verdadeiramente impagável. E foi justamente a partir dessa percepção que, no passado,
“a Inglaterra se tornou o povo do Livro”15, ou seja, o povo da Bíblia.
Quando se discorre sobre a Reforma na Inglaterra, destaca-se o fato de que, ainda que
doutrinariamente a Reforma Inglesa não tenha seguido os mesmos princípios da Reforma de
Lutero, Zuínglio e Calvino, ela tem significativa importância na história. Essa importância se
estabeleceu justamente a partir de três aspectos principais. O primeiro é o impulso missionário
protestante, que, a partir da Inglaterra, alcançou muitas nações. O segundo é o movimento de
reavivamento que se originou nas igrejas protestantes da região. E, consequentemente, porque
foi também a partir deste movimento que a difusão das Escrituras foi percebida como algo para
além da simples distribuição, ela foi apreendida sob a perspectiva de uma missão que a igreja
tinha a cumprir no mundo16.
Deste modo, os cristãos ingleses entenderam a importância de juntos cuidarem e
trabalharem pela causa da Bíblia e pela causa missionária. Este não foi o trabalho isolado de
uma ou outra igreja; antes, foi um trabalho estabelecido sob um esforço conjunto, surgido a
partir dos diversos movimentos oriundos do protestantismo inglês, tais quais o puritanismo, o
avivamentismo, o metodismo, o presbiterianismo, o congregacionalismo, dentre outros. E
assim, como já se tem advertido, o movimento das Sociedades Bíblicas surgiu e se espalhou
pelo mundo.
15
STEER, Roger. The story of Bible Society. Oxford, UK; Grand Rapids, Michigan: Monarch Books, 2004., p.
35 (tradução do autor).
16
DREHER, Martin Norberto. Bíblia: suas leituras e interpretações na História do Cristianismo. São Leopoldo:
CEBI e Sinodal, 2006, pp. 146-147.
17
Organizações paraeclesiásticas podem ser compreendidas como organizações que atuam de forma paralela às
denominações. Algumas podem estar vinculadas à alguma denominação, outras podem ser totalmente
independentes. Podem ser organizações de missão, de ação social, de estudo teológico, de incentivo à cultura etc.
Elas têm por objetivo o apoio ao trabalho que faz parte da missão cristã, mas que, por vezes, não é realizado pelas
igrejas pelos mais variados motivos.
Algumas eram confessionais, outras representavam simplesmente a união, o esforço e o
desejo de cristãos individuais de contribuir com a pregação do evangelho. Foi, por assim dizer,
um movimento em que “os evangélicos deram as mãos [...] para estabelecerem uma rede de
sociedades voluntárias”18. Reyli, Gonzaléz e Orlandi19 citam algumas dessas sociedades
missionárias, surgidas a partir do esforço missionário protestante que emergiu no período:
Society for the Propagation of the Gospel in New England (1649);
Society for Promoting Christian Knowledge (1698);
Society for the Propagation of the Gospel in Foreign Parts (1701);
Society in Scotland for Propagating Christian Knowledge (1709);
Particular Baptist Society for Propagating the Gospel among the Heaven (1792);
London Missionary Society (1795);
Church Missionary Society (1799);
Sociedade de Tratados Religiosos (1799).
Dessa maneira, com o objetivo de propagar a fé evangélica inicialmente no Novo Mundo
e, posteriormente, a todos os povos (como, por exemplo, no Sul do Pacífico), as missões
protestantes, por meio dessas sociedades e, depois, das agências missionárias, conseguiram
avançar e estabelecer uma unidade entre os diferentes grupos ou segmentos denominacionais,
fundamentados sob uma mesma missão, isto é, levar a Palavra de Deus a todos os povos.
Segundo González e Orlandi20, essas missões, de forma geral, tinham como fundamento
de sua ação, a pregação do evangelho, o estabelecimento de escolas e igrejas e a tradução da
Bíblia para a língua nativa. Como se percebe, a difusão da Escrituras, por meio de uma tradução
para a língua vernácula, sempre esteve entre os principais objetivos de qualquer missão
protestante. Foi exatamente isso que John Eliot fez em 1646, quando iniciou sua missão entre
os moicanos na Nova Inglaterra e, da mesma forma, William Carey21, quando, em 1793, foi
para a Índia a fim de, conforme seu relato, obedecer ao chamado missionário que tinha recebido.
Ambos pregaram, ensinaram e traduziram a Bíblia para os povos que eram alvo de sua missão22.
Aliás, para Carey, o trabalho de tradução da Bíblia foi a sua prioridade.
18
REILY, Duncan. A história documental do protestantismo no Brasil. São Paulo: ASTE, 2003, p. 28.
19
Cf. REILY, Duncan. Op. cit., passim; GONZALEZ, Justo; ORLANDI, Carlos Cardoza. História do movimento
missionário, pp. 214-215, 236.
20
GONZALEZ, Justo; ORLANDI, Carlos Cardoza. História do movimento missionário, passim.
21
Sob a ótica do movimento missionário protestante, foi William Carey que, “em fins do século XVIII, deu início
à grande era das missões evangélicas entre os pagãos” (LÉONARD, Émile-Guillaume. O protestantismo brasileiro.
São Paulo: ASTE, 2002, p. 92).
22
Cf. GONZALEZ, Justo; ORLANDI, Carlos Cardoza. Op. cit., pp. 234-243.
Desse modo, a Bíblia, que já era o livro principal da fé protestante, se tornou, igualmente,
o livro por proeminência da expansão missionária evangélica. Evidenciando essa realidade,
sabe-se, por exemplo, que, até o dia de sua morte, Carey, junto com sua equipe, “havia traduzido
a Bíblia, ou porções dela, para pelo menos 35 idiomas e dialetos da Índia”23. Junto a Carey
estavam outros missionários e ajudadores. Dois deles eram William Ward, especialista na área
de impressão e Joshua Marshman, especialista na área de linguística, que trabalharam com
Carey até o final de sua vida. Eles ficaram conhecidos como "O Trio de Serampore".
Foi, portanto, sob essa perspectiva que o despertar missionário, surgido em muitos países
cristãos protestantes, contribuiu para que se “organizassem várias sociedades missionárias,
assim como outras sociedades para a distribuição de bíblias e literatura cristã”24.
23
GONZALEZ, Justo; ORLANDI, Carlos Cardoza. História do movimento missionário, p. 238. Constam como
fruto do trabalho de tradução de Carey e seus missionários apoiadores, pelo menos, seis Bíblias completas e vinte
e três Novos Testamentos traduzidos. Para outras línguas, apenas porções bíblicas foram traduzidas por Carey ou
por sua equipe.
24
Ibid., p. 247.
Sociedades Bíblicas. Trata-se de uma história que aconteceu há muito tempo: a história de Mary
Jones.
A história da busca de Mary Jones por uma Bíblia constitui, por assim dizer, o relato
fundante da primeira Sociedade Bíblica. De forma geral, pode-se entender o relato fundante
como um elemento que constitui, na filosofia, na história ou na religião, a explicação sobre a
origem de um rito, de um movimento, de um grupo, de uma fé, de uma localidade, de um
processo social etc.25 Trata-se, portanto, de uma narrativa de origem.
No caso das Sociedades Bíblicas, a história de Mary Jones é o relato fundante da
organização e constitui, como uma narrativa de origem, um vínculo importante e necessário
com o passado, mas que, na atualidade, encontra formas atualizadas para se manifestar, sob os
mesmos valores e ideais que a conceberam. Portanto, ainda que um ou outro detalhe tenha
adquirido um caráter literário ou lendário, essa obra descreve “uma história verdadeira.
Aconteceu há mais de 200 anos. Fala sobre Mary Jones, uma menina cujo desejo de ter uma
Bíblia inspirou o movimento das Sociedades Bíblicas”26.
A narrativa que se seguirá pelos próximos parágrafos se encontra principalmente em três
obras: A Bíblia de Mary Jones: o início do movimento das Sociedades Bíblicas27, publicada
pela Sociedade Bíblica do Brasil; Good News for the World, 200 years of making
the Bible heard: the story of Bible Society, de Roger Steer, e A Bíblia no Brasil Império: como
um livro proibido durante o Brasil colônia tornou-se umas das obras mais lidas nos tempos do
Império, de Luiz Antonio Giraldi.
Mary Jones era uma menina que nasceu por volta de 1785 e vivia com os seus pais numa
casa simples, no vilarejo de Llanfihangel, no País de Gales. Seu pai, Jacob Jones, era tecelão e
sua mãe, a senhora Jones, cuidava das tarefas de casa. Como se percebe, uma rotina comum e
de muito trabalho para qualquer família daquela época. Steer lembra, porém, que “a vida se
tornou ainda mais difícil para mãe e filha quando, em março de 1789, alguns meses depois de
Mary completar quatro anos, Jacob morreu”28. Certamente, esse fato trouxe sérias dificuldades
para o sustento da família, que já era pobre.
Como uma típica família cristã, aos domingos, Mary, já com seus cinco ou seis anos, se
dirigia à capela do vilarejo. Seguindo a liturgia de um culto protestante, ela cantava os hinos e
25
Cf. BRILLANTE, Carlo. Myth and history: the historical interpretation of myth. In: EDMUNDS, Lowell.
Approaches to Greek Myth. Baltimore, Maryland, USA: Johns Hopkins University Press, 1990, passim.
26
SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. A Bíblia de Mary Jones: o início do movimento das Sociedades Bíblicas.
Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009, p. 2.
27
SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. [Link].,[Link].
28
STEER, [Link]., p. 40 (tradução do autor).
se alegrava, mas tinha dificuldades para entender as palavras do sermão. Mesmo assim, Mary
sentia um carinho especial pelo livro que o pastor carregava: a Bíblia Sagrada. Ela assim o
conhecia porque era dessa forma que o pastor designava o livro quando o pegava para ler. Steer
se refere a esse homem como um pregador chamado William Hugh, pastor e pregador
metodista29. Acredita-se que nas suas visitas aos lares, ao orar, ler e pregar sobre a Bíblia, “Mary
Jones ouviu e passou a amar as histórias de Jesus”30.
Também muito comum para aquele período histórico era o fato de que Mary Jones não
sabia ler. Entretanto, quando Mary completou dez anos, foi matriculada na escola que chegou
ao vilarejo, a poucos quilômetros de sua casa. Como decorrência da integração entre fé e
educação, instigada a partir da Reforma Protestante, Steer lembra que, naquele tempo, várias
“escolas foram estabelecidas ao Norte do País de Gales”31. Nesse ínterim, a Bíblia era o livro
de instrução em muitas escolas localizadas nas regiões influenciadas pelo protestantismo, pois
por meio da Bíblia, muitos aprendiam a ler. O método de ensino era aplicado a crianças, jovens
e adultos que eram ensinados inicialmente nos rudimentos da fé cristã, para depois também
aprenderem a escrever. As escolas fundadas nesse período “ajudaram a fazer dos galeses um
dos primeiros povos alfabetizados do mundo moderno”32.
A história registra que em pouco tempo Mary tornou-se uma boa aluna e, em certa
ocasião, chegou a ser chamada para ler, em voz alta, uma passagem da Bíblia Sagrada para os
seus colegas de classe. Aliás, como bem lembra Steer, naquela época, era bem comum crianças
aprenderem a recitar trechos de todos os livros da Bíblia. Numa fazenda não muito longe da
casa de Mary, a cerca de três quilômetros, vivia a família Evans. Certo dia, a senhora Evans,
que sabia do amor de Mary pelo Livro Sagrado, convidou-a para ir à sua casa para conhecer um
pouco mais de perto a Bíblia da família, e, assim, treinar a sua leitura bíblica. A história descreve
que, com todo cuidado, Mary virava lentamente algumas páginas e logo mergulhava em suas
histórias. Essa cena se repetiu por um tempo, até que Mary percebeu como seria bom “se ela
tivesse a sua própria Bíblia”33.
Entretanto, como já constatado anteriormente, naquele tempo, era muito difícil conseguir
uma Bíblia, pois ela era um livro muito raro de ser encontrado. Tal realidade, porém, não
constituiu um impedimento para Mary. Por seu contato e apreço em relação às Escrituras, ela
29
Steer lembra que um número crescente de pregadores metodistas circulou pelo País de Gales naquele período.
Foi, de fato, o período do grande avivamento de John Wesley, em que muitos pregadores metodistas se espalharam
pregando a mensagem das Escrituras.
30
STEER. op. cit., p. 42 (tradução do autor).
31
Ibid., p. 43 (tradução do autor).
32
Ibid., p. 44 (tradução do autor).
33
Ibid., p. 46 (tradução do autor).
estava decidida: ela queria ter a sua própria Bíblia. Para tanto, Mary começou a trabalhar de
forma intensa a fim de guardar cada centavo que ganhava. Sua rotina, a partir de então, era,
durante a semana, estudar e trabalhar (na fazenda, com a venda de meias, fazendo tricô,
remendando roupas, carregando água do poço até a casa de pessoas que precisavam etc.); aos
sábados, ir à casa da senhora Evans para ler a Bíblia, e, aos domingos, participar do culto.
Numa dessas viagens para ler a Bíblia, numa manhã de tempestade, Mary Jones avistou
na estrada um homem que vinha em sua direção montado num cavalo. Este homem perguntou
para onde Mary estava indo debaixo de tanta chuva e vento. Depois de Mary responder ao
cavaleiro o motivo de sua caminhada, ele se apresentou como Thomas Charles, um pastor e
distribuidor de Bíblias. Contou ainda que vivia em Bala, a 42 quilômetros dali, e que aguardava
uma encomenda de Bíblias que deveria vir de Londres. Sendo assim, ele poderia ajudá-la a
realizar seu desejo brevemente. Steer lembra que a maior dificuldade que Thomas Charles
encontrou, sendo um pastor e vendedor de Bíblias, foi justamente a escassez de Bíblias em
galês.
Em 1800, entretanto, ajudado por alguns cristãos, ele conseguiu cerca de 700 cópias da
Bíblia em galês por intermédio da Society for Promoting Christian Knowledge (SPCK). Steer
lembra que Thomas Charles levava a sério sua missão de difundir as Escrituras, mesmo com os
enormes perigos e desafios que tal missão apresentava. Numa dessas viagens de distribuição de
Bíblias, ele quase perdeu o polegar da mão esquerda, que ficou congelado pelo frio. Mesmo
enfrentando uma dor dilacerante por onze meses, Thomas Charles continuou seu trabalho.
Firmada na esperança dada por Thomas Charles, e após ter passado aproximadamente
seis anos trabalhando arduamente, Mary conseguiu juntar o suficiente (“17 shillings” 34) para
comprar um exemplar do Livro Sagrado. Seu novo desafio, entretanto, era percorrer longos
quarenta e dois quilômetros até o único lugar onde era possível comprar Bíblias naquela região
do País de Gales, isto é, a cidade de Bala, na casa de Thomas Charles. A cidade, hoje
denominada de Bale, se encontra ao Norte do País de Gales.
Em busca de seu sonho, já com quinze ou dezesseis anos, no verão de 1800, Mary seguiu
viagem para adquirir sua Bíblia. A narrativa descreve vários detalhes dessa viagem. Para alguns
que até hoje contam essa história, Mary seguiu a pé, descalça, atravessando vales e ribeirões.
Obviamente que, pelo cansaço, chegou a duvidar que alcançaria o seu objetivo. Mas, já ao
anoitecer, quando enxergou as luzes da cidade de Bala ao longe, seu coração disparou de
34
STEER, [Link], p. 47
alegria. Já em Bala, Mary percorreu algumas casas, batendo de porta em porta, à procura do
pastor Thomas Charles.
Porém, nesse ponto da história, há uma divergência nos relatos. A obra A Bíblia de Mary
Jones: o início do movimento das Sociedades Bíblicas descreve que, na casa do pastor, Mary
contou toda a sua história e Thomas ouviu cada palavra, mas, ao final, lamentou ao afirmar que
a única Bíblia em galês que possuía já estava reservada para outra pessoa. Segundo a história,
neste momento, a esperança de Mary deu lugar à decepção. Sensibilizado, porém, com toda a
situação de Mary Jones, o pastor lembrou que o outro comprador também falava outros idiomas
e decidiu repassar aquela única Bíblia em galês para Mary.
Já Steer conta que, ao chegar em Bala, ela buscou informações sobre como chegar à casa
do Sr. Thomas. Ao bater à porta, ela recebeu a notícia de que as Bíblias ainda não haviam
chegado. Chorando, Mary disse que não saberia onde poderia se hospedar, sendo, então,
imediatamente acolhida pelo pastor, que permitiu que ela ficasse com sua empregada. Dois dias
depois, as Bíblias chegaram, e pelo preço de uma, Charles permitiu que Mary levasse três.
Independentemente de tais desarmonias, ambos descrevem que, quando retornou para sua
casa, umas das primeiras ações de Mary foi ler a Bíblia, que agora era da sua família e que
estava em sua própria língua. Steer ainda acrescenta que das três Bíblias, a de uso pessoal de
Mary está exposta, como parte da coleção da Sociedade Bíblica, na Biblioteca da Universidade
de Londres, e uma outra está na Biblioteca Nacional do País de Gales, em Aberystwyth. Não
se sabe o que aconteceu com a terceira; acredita-se que tenha ficado com seu filho, Ioan, que
pode ter levado a Bíblia para a América quando para lá emigrou.
Mary Jones leu toda a Bíblia quatro vezes enquanto viveu. Ela também decorou grandes
porções das Escrituras, o que foi de grande utilidade após a perda de sua visão, visto que, no
final da vida, já sem enxergar, ela só pôde contar com a ajuda de outras pessoas que liam a
Bíblia para ela. Não obstante sua pobreza, Mary Jones trabalhou criando abelhas, o que a
ajudava a complementar sua renda, para que assim pudesse se sustentar e também ofertar à sua
igreja e à Sociedade Bíblica. Sem dúvida, Mary, por sua história e exemplo, serve de grande
inspiração para aqueles que trabalham em prol da causa da Bíblia.
Steer destaca que em 16 de dezembro de 1864, muito fraca, Mary celebrou seu 80º
aniversário. Quinze dias depois, em 29 de dezembro, rodeada por alguns amigos, ela morreu
em sua própria cama, na pequena aldeia de Gwyddelfynydd, ao norte de Bryncrug, no País de
Gales. A Bíblia recebida de Thomas Charles, que Mary manteve para seu uso pessoal durante
toda a vida, estava em sua mesa de cabeceira. Em sua sepultura há uma lápide erguida por
aqueles que desejavam preservar sua memória e legado. Mary marcou a história da difusão da
Bíblia e, por isso, se tornou uma das mulheres galesas mais conhecidas, tanto no País de Gales
como em outros países, quando se discorre sobre a história da Bíblia.
Em muitas igrejas, a história de Mary Jones é sistematicamente contada como uma
inspiração de amor e dedicação à Palavra de Deus. Nesse sentido, Steer destaca que, fora a
Bíblia, o livro da história de Mary Jones é uma das obras com maior publicação e sucesso entre
todas as obras editadas pelas Sociedades Bíblicas. A história foi publicada pela primeira vez
em 1882 e já foi traduzida para mais de 40 idiomas. Além disso, a história foi contada não
apenas em livros, mas também em peças, musicais, fitas, gráficos de flanelógrafos, na Internet
etc. Como já citado anteriormente, no Brasil, a obra recebeu o título A Bíblia de Mary Jones: o
início do movimento das Sociedades Bíblicas35 e é publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil.
De fato, foi assim que Mary Jones se tornou parte de uma história que dura até os dias de
hoje. Foi esse o relato fundante das Sociedades Bíblicas e são estes os mesmos valores que
constituem o fundamento da missão das Sociedades Bíblicas, isto é, levar a Bíblia a todos, numa
linguagem que possam entender e a um preço que possam pagar.
35
SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. A Bíblia de Mary Jones: o início do movimento das Sociedades Bíblicas.
Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.p.23
Bíblia era apenas um aspecto de seus objetivos. Era necessário, portanto, encontrar uma solução
definitiva para a falta de Bíblias naquela região.
Steer36 ressalta que, certa manhã, enquanto pensava no País de Gales e nos milhares de
pobres que não podiam pagar por uma Bíblia, Thomas Charles teve a seguinte ideia: por que
não estabelecer uma Sociedade Bíblica em Londres, da mesma forma como existiam outras
organizações/sociedades com ações de evangelização especificas? Motivado por tal ideia, ele
fez contato com pessoas de influência na região, entre os quais cristãos, empresários, líderes
etc. Pouco tempo depois, o pastor Thomas se reuniu com essas pessoas, das mais diferentes
igrejas, para que juntos pudessem discutir dois assuntos: a necessidade de um suprimento
regular de Bíblias para o País de Gales e a criação de uma sociedade responsável por essa
produção. Nesse ínterim, diante do alvoroço causado pelo discurso de Charles, pôde-se ouvir
Joseph Hughes dizer: “Certamente uma Sociedade deve ser formada para tal propósito, e se for
pelo País de Gales, por que não também para o Reino [Grã-Bretanha] e para mundo?”37
Steer comenta que existem dúvidas se a história de Mary Jones foi contada nesse
encontro. Segundo relatos históricos, o próprio Thomas Charles disse a Mary e a um professor
chamado Lewis Williams que a história da menina serviu muito bem na reunião ocorrida em
Londres em 1802. Pelo menos, o que se sabe é que a história de uma menina que queria ter uma
Bíblia já era bem conhecida no início da Sociedade Bíblica. Independentemente de a história
ter sido contada ou não, importa, de fato, que aqueles que se reuniram com Charles começaram
a definir quais seriam as estratégias da organização. Dentre os objetivos preparados por Hughes
para o desenvolvimento da nova Sociedade destacaram-se os seguintes38:
Providenciar um panorama sistemático da necessidade das Escrituras no mundo inteiro;
Coletar e administrar fundos para a causa da Bíblia com todo o esforço possível;
Encorajar cristãos de diversas denominações a trabalharem juntos pela mesma causa.
Aliás, Hughes ressaltou que a Sociedade seria um canal para que todos os cristãos,
independentemente de suas diferenças denominacionais e teológicas, pudessem, como um só
corpo, contribuir pela causa da Bíblia. Algumas reuniões aconteceram entre 1803 e 1804, e
Thomas Charles se fez presente em todas elas. Além do nome da fraternidade — definido como
The British and Foreign Bible Society —, ficou decidido que se faria uma convocação pública
por meio de uma circular intitulada “A importância da distribuição longínqua da Bíblia”39. Nela,
36
STEER, [Link]., p. 35 (tradução do autor).
37
Ibid., p. 54 (tradução do autor)
38
Ibid., p. 57 (tradução do autor).
39
Ibid., p. 59 (tradução do autor).
além de se apresentar o nome da nova sociedade, alguns objetivos foram definidos. Entre eles,
destacam-se40:
Promover a circulação das Escrituras em algumas das principais línguas vivas;
Estabelecer uma prioridade na distribuição das Escrituras. Isso se deu da seguinte forma:
em primeiro lugar, distribuir no Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda e no continente
europeu. Depois, em regiões remotas, dependendo das condições financeiras e da
urgência que alguns casos particulares poderiam requerer;
Comprometer todos os envolvidos a unicamente apresentar as Escrituras, o “volume
inspirado”, para que tão somente se divulgasse a verdade.
Principalmente em relação a esse último ponto, um princípio importante para o trabalho
das Sociedades Bíblicas ficou estabelecido já em sua gênese: essa nova organização não deveria
entrar em questões doutrinárias controversas das igrejas; antes, deveria ser um veículo para as
contribuições de caridade de toda a cristandade. Estabeleceu-se, assim, mais um propósito
norteador, por meio do qual os cristãos eram convidados a contribuir para uma causa nobre e
que era comum a todos, isto é, a causa da Bíblia.
De acordo com Steer, a reunião para apresentação da nova Sociedade foi realizada no
dia 7 de março de 1804, no centro de Londres, na rua Bishopsgate, número 123. Sob a condução
de Granville Sharp, alguns membros do comitê discursaram para mais de 300 pessoas, dentre
as quais, personagens importantes da Grã-Bretanha, líderes e representantes de várias igrejas
cristãs. Após o discurso em que foram relatados os objetivos da organização, as resoluções
propostas foram acatadas, e o comitê oficial, formado por membros voluntários de diversas
igrejas cristãs, foi eleito. Na ocasião, a primeira oferta para a causa da Bíblia foi levantada, e a
contribuição “dos presentes somou £700, equivalente a £30.000 atualmente”41.
Imediatamente, a Sociedade Bíblica ganhou o apoio da Igreja oficial da Inglaterra e de
outras igrejas da região, firmando-se como “a primeira organização inteiramente
interdenominacional a ser formada com o objetivo de distribuir a Bíblia no mundo inteiro, onde
quer que a Bíblia fosse solicitada ou dela houvesse necessidade” 42. A unidade de propósito
ficou tão evidenciada que “nada além da harmonia máxima foi ouvida”43, conforme destaca
Steer, ao lembrar sobre o que se comentava entre os diversos participantes do encontro.
40
STEER, [Link]., p. 60 (tradução do autor).
41
Ibid., p. 66 (tradução do autor).
42
HAHN, Carl Joseph. História do culto protestante no Brasil. São Paulo: ASTE, 2011, p. 275.
43
STEER. [Link]., p. 54 (tradução do autor)
A ideia de distribuir as Escrituras não era nova. Esse também tinha sido um dos objetivos
da Society for Promoting Christian Knowledge, desde 1698 e da Society for the Propagation of
the Gospel in Foreign Parts, desde 1701. Como fruto do movimento pietista, Carl Hildebrand
von Canstein também já tinha criado, em 1710, o Cansteinische Bibelantalt (Instituto Bíblico
Canstein), com a missão de produzir e distribuir a Bíblia com baixo custo na Alemanha,
utilizando, inclusive, a tradução de Lutero44. Portanto, como bem lembram Miller e Huber,
“organizações anteriores haviam preparado o caminho”45 para as Sociedades Bíblicas. A
novidade, entretanto, foi a natureza interdenominacional, o entusiasmo e a mentalidade única
de se difundir as Escrituras e alcançar o mundo inteiro, em várias línguas e sem notas ou
comentários46.
O primeiro parágrafo do estatuto que regulamenta e estabelece o principal objetivo da
Sociedade Bíblica afirma, justamente, a necessidade de “encorajar uma circulação mais ampla
das Escrituras sem nota ou comentário”47. Como se percebe, há uma ênfase na afirmação “sem
notas e comentários”. Essa era, de fato, uma preocupação naquele contexto histórico. As notas
e os comentários representavam, direta ou indiretamente, a doutrina ou a interpretação que cada
segmento cristão poderia ter a respeito da Bíblia. No passado, a Bíblia King James, de 1611,
tinha ganhado credibilidade justamente porque, não tendo notas ou comentários, conseguiu
agradar as pessoas que pensavam de forma diferente no contexto diverso que a igreja da
Inglaterra no século XVII se encontrava.
Miller e Huber ajudam a entender a situação quando lembram que na época coexistiam
principalmente duas Bíblias: a Bíblia dos bispos, que era supostamente tendenciosa para o lado
da igreja oficial da Inglaterra (que, segundo os puritanos, era católica demais), e a Bíblia de
Genebra, que, para o rei Tiago (“king James”) era supostamente tendenciosa para o lado
protestante. Tiago, aliás, não gostava da Bíblia de Genebra justamente porque ela “não
demonstrava o suficiente respeito pelos reis”48. Portanto, para que a causa da Bíblia avançasse
sem controvérsias denominacionais, importava que o conteúdo bíblico se limitasse
simplesmente ao texto sagrado.
Nessa perspectiva, todos os presentes na reunião de fundação da British and Foreign
Bible Society entenderam que esse objetivo deveria prevalecer; ou seja, a missão de levar a
44
Cf. SCHNEIDER, Hans. O pietismo. In: KAUFMANN, Thomas et al (orgs.). História ecumênica da Igreja 2, p.
533.
45
MILLER, HUBER, [Link]., p. 202.
46
Cf. HOLMGREN. Laton E. Sociedades Bíblicas. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, pp. 1270-1272.
47
STEER. op. cit., p. 80 (tradução do autor).
48
MILLER, HUBER. [Link]., p. 178.
Bíblia a todos estava acima dos dogmas particulares de cada confissão. Pode-se dizer, portanto,
que a BFBS surgiu como resultado do esforço conjunto dos cristãos, que, colocando em
segundo plano suas diferenças doutrinárias, entenderam que levar a Palavra de Deus ao mundo
constituía a missão por excelência.
De acordo com Steer, a isenção e a neutralidade sobre questões teológicas, mesmo com
as reconhecidas diferenças entre as denominações de seus participantes, garantiu um bom
suporte e um rápido crescimento para as Sociedade Bíblicas. Em 1804, data de fundação, apenas
70 línguas tinham partes da Bíblia traduzidas, sendo a maioria línguas da Europa e do
Mediterrâneo, e apenas uma na África e duas do Extremo Oriente. Para esta lista, que cresceu
com muita dificuldade desde a Reforma, as Sociedades Bíblicas contribuíram com a tradução
das Escrituras para, aproximadamente, 800 novas línguas no curso dos 150 anos subsequentes
à sua fundação.
Mais precisamente, até o início do século XXI, cerca de 2.500 línguas receberam a
tradução de alguma porção das Escrituras por meio do esforço conjunto das diversas Sociedades
Bíblicas espalhadas pelo mundo. Os dados mais recentes, referentes ao ano ao início do ano de
2022, indicam que 3.524 línguas do mundo contêm uma tradução das Escrituras, ou, pelo
menos, parte dela, como Novo Testamento, porção ou seleção para mais de 7 bilhões de
pessoas49.
Um significativo exemplo dessa contribuição histórica na tradução da Bíblia se
evidenciou no apoio que as Sociedades Bíblicas deram ao trabalho missionário de William
Carey e sua equipe na Índia. Além do suporte financeiro que em alguns momentos a BFBS deu
a ele e a seus associados de missão, o grande destaque se deu no apoio concedido ao trabalho
de tradução bíblica que eles realizaram para cerca de 35 línguas e dialetos indianos, em quarenta
anos dedicados à missão. E mais: eles não se limitaram à Índia. Steer destaca que em 2003
soube-se que “o trabalho bíblico em Bangladesh tem uma rica herança que remonta ao trabalho
de Carey”50, pois ele não só foi o responsável pela tradução da Bíblia Bangla, que ainda é usada
depois de dois séculos, como também criou o primeiro dicionário Bangla e a sua gramática. A
história registra que três dias antes de morrer, já com 73 anos, Carey precisou ser carregado por
causa de uma extrema exaustão provocada por sua dedicação à missão. Na ocasião se constatou
49
Cf. Bound by love: Annual Report 2020. Disponível em: [Link]
Acesso em 22 mai. 2022.
50
STEER. [Link]., p. 96 (tradução do autor).
que “as folhas revisadas do último idioma em que ele havia traduzido as Escrituras estavam
[ainda] sobre a sua mesa”51.
Obviamente, logo após a fundação da primeira Sociedade Bíblica, em 1804, muitas outras
sociedades congêneres surgiram, inspiradas e influenciadas pelo trabalho da BFBS. Steer
lembra que a maioria delas se desenvolveu na Europa e na Ásia, como, por exemplo, a
Sociedade Bíblica Finlandesa, criada em 1812, a Sociedade Bíblica Russa, criada em 1813, e a
Sociedade Bíblica da Holanda, em 1814. Giraldi acrescenta à lista as Sociedades Bíblicas
surgidas na Alemanha, na Suíça, na Suécia e na França52. Assim como já tinha ocorrido com a
BFBS, algumas dessas novas Sociedades Bíblicas, diante das necessidades do mundo, não
limitaram suas ações em seus países, unicamente. Elas difundiram a Bíblia por várias regiões,
sob a mesma missão de levar a Bíblia a todos.
Dentre todas as Sociedades Bíblicas que começaram a surgir, uma de relevada
importância na história da difusão das Escrituras foi a American Bible Society (ABS). Tal
relevância se aplica inclusive ao Brasil. O surgimento da Sociedade Bíblia Americana se deu
por meio da fusão de várias outras sociedades auxiliares que coexistiam em diversas regiões
dos EUA e já trabalhavam na difusão das Escrituras, sob o modelo e o apoio da BFBS. O ano
que marca o início da ABS é 181653. Na ocasião, dezesseis delegados compareceram à
convenção, representando trinta e uma Sociedades Bíblicas auxiliares para que, a partir daquele
momento, se unissem na realização do trabalho bíblico na América. Desde sua fundação, a ABS
tem uma constituição modelada nos regulamentos e objetivos da BFBS e, por meio dela, muitos
países tiveram um impulso na difusão das Escrituras, principalmente na América Latina.
Na história desses mais de duzentos anos, muitas outras Sociedades Bíblicas surgiram,
cresceram e se desenvolveram, imbuídas da mesma missão. Entre todas, porém, as Sociedades
Bíblicas Britânica e Estrangeira, Americana e Holandesa foram as que tiveram o maior sentido
de missão, ou seja, elas não se limitaram aos seus respectivos países; antes, ajudaram a difundir
as Escrituras nos lugares mais remotos do mundo, conforme destacam Dreher e Holmgren54. O
Brasil, inclusive, foi significativamente contemplado por todas elas, principalmente pela BFBS
e pela ABS. Atualmente, no site que reúne a fraternidade mundial das Sociedades Bíblicas,
51
STEER. [Link]., p. 97 (tradução do autor).
52
Cf. GIRALDI, Luiz Antonio. A Bíblia no Brasil Império, p. 77.
53
Cf. HOLMGREN. Laton E. Sociedades Bíblicas. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, pp. 1271.
54
Cf. HOLMGREN. Laton E. Sociedades Bíblicas. Dicionário Enciclopédico da Bíblia, pp. 1270-1272; DREHER,
Martin Norberto. Bíblia: suas leituras e interpretações na História do Cristianismo, 176-181.
consta a existência de 149 Sociedades Bíblicas, as quais atuam em mais de 200 países, com a
missão de levar a Bíblia para todas as pessoas55.
O Brasil também colheu os frutos do surgimento desse movimento de Sociedades
Bíblicas. Com a abertura dos portos às nações amigas por D. João VI, missionários e colportores
enviados pelas Sociedades Bíblicas da Inglaterra e dos Estados Unidos vieram ao Brasil para
pregar o evangelho e distribuir Bíblias. Eles fizeram isso por mais de 100 anos até que, em
1948, repassaram o trabalho aos brasileiros, criando, então, a Sociedade Bíblica do Brasil.
Como se constata, esse trabalho avançou e fez com o que o Brasil se tornasse um dos países
mais importantes no trabalho bíblico no mundo.
É importante ressaltar que esse trabalho só foi possível porque ele sempre ocorreu em
parceria com as igrejas. Nesse sentido, a missão das Sociedades Bíblicas é bem clara, ao firmar
que a razão pela qual elas existem é “servir as igrejas em todo o mundo compartilhando a
Palavra de Deus”56. Por assim ser, as Sociedades Bíblicas reconhecem e valorizam
“as igrejas como os principais agentes da missão de Deus no mundo”57. Desde sua origem,
portanto, a igreja em missão é a razão da existência das Sociedades Bíblicas. Por isso, como
ficou bem definido em sua gênese, as Sociedades Bíblicas não discutem doutrinas, dogmas ou
teologia com qualquer igreja que seja. Antes, elas procuram servir todas as igrejas cristãs, em
sua missão de levar a Palavra de Deus ao mundo.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Entre o final do século XVIII e início do século XIX, a importância das Escrituras estava
sendo resgatada sob a mesma relevância defendida anteriormente pelos reformadores,
entendendo-se, assim, que era importante que as Escrituras Sagradas alcançassem não somente
algumas poucas igrejas dos grandes centros do mundo da época, principalmente na Europa. Era
fundamental que a mensagem cristã e, por conseguinte, as Escrituras fossem difundidas por
todo mundo. Iniciava-se, assim, o movimento missionário de igrejas protestantes que, entre
outros aspectos, tinha como missão primordial levar a mensagem da Bíblia a todas as pessoas,
em todo o mundo.
55
Cf. UBS – United Bible Societies. About us. Desenvolvido pela UBS, 2022. Apresenta a história da organização,
sua missão, visão, valores e parceiros e membros quem compõem a fraternidade. Disponível em:
[Link] (tradução do autor). Acesso em 22 mai. 2022.
56
Ibid. (tradução do autor).
57
Cf. UBS – United Bible Societies. About us. Desenvolvido pela UBS, 2022. Apresenta a história da organização,
sua missão, visão, valores e parceiros e membros quem compõem a fraternidade. Disponível em:
[Link] (tradução do autor). Acesso em 22 mai. 2022.
Foi a partir desse contexto que várias igrejas cristãs de origem protestante, entenderam
que era importante criar uma organização que se preocupasse única e exclusivamente em levar
a Bíblia a todos, numa linguagem que pudessem entender e a um preço que pudessem pagar.
Em sua gênese, o movimento já estabelecia suas bases: traduzir, publicar e difundir as Escrituras
seria o paradigma que nortearia o trabalho bíblico. Assim surgiu a primeira Sociedade Bíblica
na Inglaterra em 1804 e, a partir dela, muitas outras surgiriam imbuídas da mesma missão. Sob
a estratégia de levar as Escrituras Sagradas à todas as pessoas, muitos lugares do mundo
receberam agentes ou colportores das Sociedades Bíblicas que tinham a missão de propagar a
Bíblia. Entre eles, o Brasil também foi alvo dessa missão.
Constata-se a importância do surgimento do movimento das Sociedades Bíblicas. Por
meio do serviço prestado à igreja em missão, as Sociedades Bíblicas espalharam Bíblias pelo
mundo e não há dúvida de que propagar a Palavra de Deus é fundamental para o crescimento e
a edificação da igreja. Além disso, desenvolver traduções também foi (e tem sido) um
diferencial nesse trabalho. Afinal, não é fácil desenvolver traduções para a maioria das línguas
faladas no mundo e, por isso mesmo, o desafio ainda é grande e há muito o que fazer.
Diante de um contexto em que se buscou a união na realização da missão, o surgimento
de Sociedades Bíblicas, com uma missão estabelecida em torno da Bíblia, contribuiu para a
aproximação e a unidade da missão sob uma base comum, isto é, a Sagrada Escritura. Sendo
assim, apesar das diferenças confessionais e denominacionais que, muitas vezes, separam as
igrejas, a unidade em torno da Bíblia e a sua mensagem tem contribuído para que as igrejas
continuem realizando sua missão pelo mundo.
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