REVISTA PÓS-ESCRITO | ISSN: 1808-0154 | nº 4, ago./dez., Rio de Janeiro, 2011, p.
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APOSTOLADO, DIACONIA E MISSÃO DE MULHERES NAS ORIGENS DO
CRISTIANISMO: REVER TRADIÇÕES PARA EMPODERAR E PROMOVER
CIDADANIA PLENA
Ivoni Richter Reimer 1
Resumo: Levantamento e abordagem de textos do Novo Testamento a respeito do
discipulado de mulheres em suas várias expressões e lideranças eclesiais, ministeriais e
sociais. Análise das funções de mulheres e homens em Rm 16,1-16. Referenciais
lingüístico-hermenêuticos para análise de detalhes. Apresentação da história interpretativa
dos textos analisados. Elaboração da análise de conteúdo e implicações históricas e
político-eclesiais.
Palavras-chave: mulheres, cristianismos originários, movimento de Jesus, Rm 16,
ministérios.
Abstrat: Survey and approach to the New Testament texts about the discipleship of women
in its various expressionsand Church leaders, ministers and socials. Analysis of functions
women and menfrom 16.1 to 16 inthe Book of Romans. Referring to linguistic-
hermeneutical analysis for details. Presenting an interpretative history of the texts analyzed.
Preparation of theanalysis content and implications of historical, political and ecclesiastical.
Kewords: Women, Primitive Christianities,Jesus Movement, Rm 16, [Link],
cristianismos originários, movimento de Jesus, Rm 16, ministérios.
1
Doutora em Teologia/Filosofia pela Universidade de Kassel (Alemanha), professora na PUC Goiás, docente
efetiva do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião e em História, bolsista de Produtividade em
Pesquisa do CNPq, coordenadora do Núcleo de Pesquisa e Estudos da Religião (NPER – PUC Goiás). Pós-
doutoranda no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas na Universidade Federal
de Santa Catarina.
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A salvação por graça e a fé questiona discursos bíblico-teológicos misóginos
Diferente do conceito de salvação para mulheres por meio do parir filhos, da
fidelidade casta, obediência e subordinação ao marido etc., pregada por meio de tradições
pastorais posteriores reflexas também em 1Tim 2,9-15, a salvação de mulheres no
movimento de Jesus e nos cristianismos originários de matiz paulina judaica aberta às
etnicidades foi obra realizada pela práxis libertadora de Jesus de Nazaré, o Cristo,
concedida de maneira igual e gratuita para homens e mulheres, crianças e pessoas adultas,
doentes e sãs, pobres e melhor situadas, prostitutas e publicanos por meio da fé.
A resposta a esta salvação por graça e fé era o seguimento a Jesus que se manifestava
na vida cotidiana de diversas maneiras em diversos espaços: na casa, no trabalho, na vida
social, na igreja, de modo a promover e a viver transformação de relações que aprisionavam
e dominavam para construir relações de paz e justiça para todas as pessoas envolvidas nas
mesmas e inclusive para além delas como forma de testemunho.
Jesus chama para seguimento e discipulado
Uma das formas desse seguimento era justamente o chamado de Jesus a que essas
pessoas abandonassem tudo, bens e propriedades, família e relações dominadoras
anteriores, a fim de que estivessem livres para o amor a serviço do Reino de Deus. Trata-se
do movimento profético itinerante de Jesus que agregava e congregava também muitas
mulheres (Lc 8,1-3) que em Jesus encontraram outra forma de viver sua vida no contexto
patriarcal do Império Romano e de culturas religiosas patriarcais. Neste movimento de
renovação intrajudaico, elas eram consideradas iguais, discípulas, libertas, agraciadas pelo
amor de Deus e que largavam suas antigas formas de vida para se colocar no seguimento a
Jesus.
Seguimento é aqui entendido como resultado da experiência libertadora
experimentada junto a Jesus e sua palavra proclamada no período pós-pascal, testemunhado
em muitos textos do Novo Testamento, caracterizado pelo termo grego akolouthein /
“seguir”, “acompanhar”. Trata-se de se colocar como aprendizes nas „pegadas‟ do mestre e
buscar a coerência na práxis libertadora pessoal e comunitário-social.
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Diaconia: uma expressão de seguimento discipular
Este seguimento era expresso de forma multiforme em discipulado e diaconia,
sempre como testemunho de fé e de vida nova. Mulheres e homens de todas as idades,
classes e etnicidades que vivenciavam a libertação em Jesus, o Cristo, e aceitavam os
desafios e as dificuldades do seguimento discipular, abandonavam seu „antigo‟ modo de
vida para viver como „novas criaturas‟ (Rm 6,4) em novas relações que iam construindo,
revendo e refazendo. Exemplo disso pode ser Tecla 2, bem como Pedro e o próprio Paulo,
apóstolos.
Um exemplo de discipulado de mulheres encontramos em Atos 9, na narrativa acerca
da discípula (mathétria) Tabita: ela responde ao amor de Deus por meio da organização de
um grupo de mulheres viúvas, com as quais convive e trabalha. 3 Em sua casa, em Jope, no
litoral mediterrâneo palestino, constroem-se novas relações com mulheres desqualificadas
socialmente e que adquirem novo status ontológico e social: elas são consideradas „santas‟,
isto é, adquirem uma cidadania plena no sentido teológico, porque são salvas/santificadas
pela práxis libertadora de Jesus, o Cristo, testemunhada por Tabita, e por isso não mais
podem ser escravizadas ou desprezadas por ninguém (Gl 5,1-2), o que se manifesta
plenamente também nas relações sociais, porque elas estão „junto com‟ Tabita, isto é, não
lhe estão subordinadas nem dela simplesmente recebem „assistência social‟, mas estão
irmanadas pela fé e pelas „obras das mãos‟ (tecidos e roupas) que realizavam
conjuntamente. Este é um dos tantos modelos de igreja que se reúne em casas, na qual se
vive comunhão material e espiritual, a exemplo de At 2 e 4. O discipulado de Tabita se
manifesta como diaconia que realiza por meio do testemunho da Palavra e por meio do
testemunho das mãos: a diaconia é trabalho junto e em favor de alguém que precisa
vivenciar amor, acolhida, esperança, solidariedade que se manifestam como vestimenta,
comida, cuidados, acolhida, etc. (Mt 25,31-46).
Um exemplo desta diaconia de mulheres, realizada em seguimento discipular a Jesus,
temos narrado também em Lc 8,1-3: Maria de Magdala, liberta de todas as formas de
2
Veja os Atos de Paulo e de Tecla; informações a respeito em Ivoni Richter Reimer (2000).
3
A respeito de Tabita e pesquisas feitas, veja material em meu livro Vida de Mulheres (1995).
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opressão e dominação, segue a Jesus, juntamente com Suzana, Joana e muitas outras
mulheres, que tudo abandonaram para segui-lo. Acompanharam Jesus desde os inícios, na
Galiléia, até o final na cruz em Jerusalém e o novo recomeço como testemunhas de sua
morte e ressurreição (Mc 15,40-16,11)4, na função de “apóstolas dos apóstolos” (Mt 28,7;
Lc 24,8-10; 20,18). Delas se diz que, nesse seguimento, serviam a Jesus (veja também Mt
27,55-56 par.); o termo grego utilizado para a designação deste serviço, desta diaconia é
diakonein/ diakonia. No caso de Lc 8,3, devido a uma expressão complementar ao verbo
principal, o texto comumente é traduzido por “... e elas o serviam com seus bens”. Esta é
uma forma de reduzir o trabalho diaconal de mulheres a questões financeiras, pecuniárias,
matérias, de assistência. Contudo, uma melhor tradução da expressão grega pode ser
oferecida como “... e elas o serviam de acordo com suas possibilidades”, o que remete
tanto a potenciais intelectivos, psicológicos, espirituais e materiais. Nesse sentido, diaconia
readquire seu status e sentido original de conjunto de ações que implicam „trabalho de
Mesa‟ no esforço de aliviar situações de sofrimentos e „trabalho da Palavra‟ no anúncio
testemunhal-intelectivo, no ensino e no acompanhamento espiritual (veja At 7).
Diversidade e conflitos
Eram, portanto, muitas as formas como mulheres se colocavam no discipulado e
seguimento a Jesus. Nos evangelhos não há narrativas que as colocam dentro da casa, no
casamento e na procriação e cuidado de filhos, como o fazem tradições do corpus paulinum
de segunda e terceira gerações (cartas dêutero-paulinas e pastorais). Neste contexto, é
importante lembrar que os evangelhos são escritos nesse mesmo período e demonstram,
portanto, a heterogeneidade e polifonia das recepções e transmissões acerca do movimento
de Jesus, testemunhado nos evangelhos, e que os Atos dos Apóstolos e as cartas refletem
experiências espirituais e organizacionais das primeiras comunidades em torno
principalmente do apóstolo Paulo e de tradições cristãs-judaicas em Jerusalém, por
exemplo.
4
Estamos publicando, pela editora Paulinas, uma Introdução e Comentário ao Evangelho Marcos, que deverá
ser lançado ainda em 2011.
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Para destacar a importância e cidadania plena de mulheres no movimento de Jesus e
em comunidades da década de 50 que eram influenciadas por Paulo de uma ou outra forma,
mesmo que indiretamente por meio de seus pares, abordaremos brevemente textos que
testemunham acerca da presença e função de mulheres no evento da cruz e ressurreição de
Jesus e em comunidades originárias, no caso, em Roma. Trataremos de textos evangélicos
que tratam da presença e atuação de mulheres no evento da cruz e ressurreição de Jesus, por
um lado, e de Rm 16,1-16, por outro. Veremos que estes textos, de origens e matizes
diferentes, refletem situações e relações semelhantes no que diz respeito à cidadania plena
de mulheres nesses contextos, no que se refere à sua função teológico-eclesial.
Adentrando textos pelas vias de resgate e reconstrução da história de mulheres
Na busca pelo resgate e reconstrução da presença e participação de mulheres no
movimento de Jesus e nos cristianismos originários de matiz paulina, muito caminho já foi
andado nos últimos 30 anos. Elisabeth Schüssler Fiorenza, uma das pioneiras na
hermenêutica bíblica feminista, afirmava que as mulheres são mencionadas no Novo
Testamento principalmente em duas situações específicas: quando elas apresentam uma
exceção ou um problema (SCHÜSSLER FIORENZA, 1992). A partir daí tem-se inúmeros
estudos e pesquisas, também de teólogas biblistas no Brasil, que buscam resgatar tanto a
presença e participação de mulheres nos cristianismos originários, quanto também
compreender os processos de exclusão de mulheres desta mesma participação. 5
Os textos do Novo Testamento são testemunho de fé de pessoas que experimentaram
a libertação junto a Jesus de Nazaré, professo como Messias de Deus. Estes textos se nos
apresentam também como fonte de pesquisa e investigação a respeito de como as pessoas
viviam naquele tempo, o que criam e como organizavam suas vidas em meio a contextos de
guerra e perseguição como o era o Império Romano. Assim, eles também podem oferecer
subsídios a respeito da vida de mulheres no século I d.C. A partir deles, podemos dizer que
- para a época em questão, quando mulheres praticamente estão ausentes nos escritos
contemporâneos do Novo Testamento - são muitas as mulheres mencionadas com nome;
5
Para quem quiser uma visão panorâmica, Monique Alexandre (1990, p. 522-530) apresenta um resumo desta
participação e exclusão, a partir de textos do Novo Testamento.
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maiores ainda são as passagens que as mencionam sem nome. E outras tantas, nas quais
elas aparecem de forma implícita, em meio a grupos e multidões, como no caso da
„multiplicação dos pães e peixes‟ (Mt 14,21).
Nessa perspectiva, o quadro que se apresenta mostra que mulheres fazem parte da
multidão, estão ativas na rua, nas casas, na sinagoga e no templo. São esposas, mães, viúvas
e celibatárias. São mulheres judias, gregas, egípcias, asiáticas, macedônias... São artesãs,
comerciantes; confeccionam perfumes, roupas, tendas; são profetisas, diáconas,
missionárias, discípulas, apóstolas; são divindades femininas, hereges, santas e prostitutas...
Enfim, por meio de textos do Novo Testamento, temos uma ampla exposição das
multifacetárias situações e condições de vida de mulheres daquele tempo. Nem tudo,
porém, é harmonia...
De acordo com Monique Alexandre (1990, p. 512), os textos do Novo Testamento
demonstram que há um conflito profundo entre dois modelos de participação de mulheres
nos cristianismos originários: um que rompe com paradigmas socioculturais e religiosos de
dependência, subordinação e desqualificação de mulheres e outro que se adapta, reformula
e talvez até aprofunde estes paradigmas (Gl 3,28; 1 Tim 2,11-15). Este conflito apontaria
para um processo gradativo de institucionalização da igreja e simultânea exclusão de
mulheres do exercício das funções eclesiásticas. Monique Alexandre compartilha, assim, da
mesma visão de Elisabeth Schüssler Fiorenza e outras teólogas feministas. Também eu
concordo com esta percepção e análise, percebo, contudo, que as relações se fazem e se
apresentam mais complexas, que a rede de conflitos ultrapassa esses dois modelos, o que
pode ser percebido nas próprias narrativas acerca da cruz e ressurreição de Jesus, no que se
refere ao testemunho e anúncio do ocorrido.
Percepções de textos e testemunhos
Na nossa percepção, os evangelhos, narrando sobre o movimento de Jesus, não são o
relato do que aconteceu, mas são memórias selecionadas, refletidas e organizadas acerca
daquilo que nele se vivenciou. Nesse sentido, eles refiguram não apenas imaginariamente
aquele passado propondo-se como a “verdade do ocorrido” (PESAVENTO, 2004, p. 50),
mas contemplam e refletem também problemas atuais nas comunidades, querendo intervir
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nos rumos dos acontecimentos: interpretam o presente, relendo o passado. Por isso é que
falamos que, na análise dos evangelhos, analisa-se simultaneamente dois momentos
distintos: o do movimento de Jesus e o da (re)organização de distintos grupos e
comunidades que dão seguimento e marcam rupturas com aquele movimento.
A base constitutiva da identidade cristã é a confissão de que Jesus de Nazaré é o
Messias de Deus, que viveu colocando sinais do Reino de Deus, foi julgado e condenado
por causa e por meio da acusação “rei dos judeus” (crime majestático da jurisdição
romana), morreu na cruz e ressuscitou dentre os mortos. Cruz e ressurreição tornam-se
marcas representativas da identidade cristã. O que garantiu isto foram o testemunho e o
anúncio apostólicos. Apóstola é uma pessoa escolhida e incumbida de realizar uma ordem
expressa de quem a escolheu. Quem são, então, testemunhas e apóstolos da ressurreição de
Jesus?
Mulheres testemunhas, visionárias, apóstolas de Jesus
De acordo com o relato dos evangelhos, também apócrifos, mulheres e homens viram
o (anjo do) Cristo ressuscitado.6 A experiência visionária, dentro do imaginário religioso
judaico e judeu-cristão, é uma poderosa força construtora de legitimidade e autoridade
proféticas e apostólicas, manifestando-se após o evento fundante da ressurreição também
nas práticas litúrgicas das comunidades. 7 O fenômeno visionário é característica religiosa,
cuja manifestação é ver Deus ou seu anjo face a face (Nm 12,8; Gn 46,2): Deus apareceu a
6
Uma análise sinótica mais acurada evidencia algumas „suturas‟ em memórias retrabalhadas. Veja, por
exemplo, Mt 28,17 na comparação com Mc 16,7: há uma redução de “lá vós vereis”, que inclui as mulheres,
para o número dos Onze que viram Jesus na Galiléia.
7
Sobre a importância do fenômeno visionário enquanto processo fundamental para o desenvolvimento da
memória de Jesus de Nazaré que se torna o Cristo, veja Nogueira, 2005, p. 14-16. O artigo, no entanto, enfoca
mais a literatura apocalíptica.
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Abraão, Isaque, Jacó e Moisés. No Novo Testamento, este fenômeno se concentra em
Jesus, o Cristo, ou em anjos, a iniciar pelos relatos da ressurreição, que “ressaltam
especialmente que o Cristo ressurreto é visível” e que este encontro leva “à fé, à dedicação,
ao testemunho e ao envio” (DAHN, 2000, p. 2597). Trata-se da revelação do Cristo e de
seu reconhecimento por quem vivencia o fenômeno visionário.
A perícope de Mc 16,1-8 pertence ao gênero literário chamado „angelofania‟, e
apresenta uma aparição de anjo nos moldes do Antigo Testamento (GNILKA, 1989, p. 339-
340). Sua função seria, aqui, historicizar um acontecimento apocalíptico. Observando as
narrativas da ressurreição de Jesus, percebemos que as narrativas sinóticas entrecruzam
informações sobre a visão das mulheres: elas vêem anjos e elas também vêem o Senhor
ressurreto! Na história da teologia, porém, tentou-se minimizar a aparição e a visão dos
anjos em relação à visão do ressurreto, porque este teria aparecido somente aos apóstolos...
Por causa da história interpretativa destas perícopes, devemos destacar dois problemas
neste processo histórico-efeitual da interpretação: a) a exclusão das mulheres, às quais o
anjo e o ressurreto aparecem e falam, da experiência visionária que deve acontecer na
Galiléia: “ali vós O vereis!” (Mc 16,7; Mt 28,7); b) a relativização da angelofania, o que, no
mínimo, é desconcertante e certamente conduz a erros interpretativos. Não é possível
contrapor a aparição do anjo à aparição do Cristo ressurreto, visto que o(s) anjo(s) sempre
aparece(m) na função de angelus interpres, e estão diretamente vinculados a quem
representam (BULTMANN apud DREWERMANN, 1990, p. 693).
Vários estudiosos já afirmaram que esta experiência visionária em relação ao
ressurreto está impregnada pela legitimação da autoridade apostólica, mas explicitamente
reduziram esta legitimação aos apóstolos Pedro/Cefas e Paulo (KREMER, 1992, p. 1291-
1292). Em momento algum Dahn e Kremer, por exemplo, mencionam as mulheres, muito
menos a sua outorgada autoridade, oriunda da visão e do envio! Também comentaristas
excluem mulheres da experiência visionária que deverá acontecer na Galiléia (Mc 16,7):
“Os discípulos e Pedro são realmente testemunhas da ressurreição de Jesus, que vêem o
ressurreto e que devem anunciá-lo” (GNILKA, 1989, p. 343, minha tradução e meu grifo).
Assim, a „concorrência apostólica‟ não se dá apenas entre Maria Madalena e Pedro
(nos textos canônicos e apócrifos), mas também entre Maria Madalena e Paulo, que se
autodenomina „apóstolo‟, mas silencia em relação ao apostolado de Maria Madalena, de
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Joana, Maria de Tiago... Comparando-se 1Cor 15,3-8 com as narrativas evangélicas da
ressurreição, pode-se perceber que a tradição paulina tem um forte objetivo dogmático-
apologético (DREWERMANN, 1990, p. 690), e por isto também teve primazia na tradição
interpretativa e doutrinária da Igreja. Como vimos, esta concorrência em torno da primazia
apostólica já se fazia presente nos textos bíblicos. A diferença é que, então, as distintas
tradições ainda sobreviviam paralelamente (SCHÜSSLER FIORENZA, 1992, p. 380),
enquanto que no decorrer da história eclesiástica, as tradições petrina e paulina
sobrepujaram as tradições do apostolado de Maria Madalena, Salomé, Maria de Tiago,
Joana... O resultado deste processo foi a lenta, gradativa e incisiva exclusão das mulheres
do apostolado e conseqüentemente também de ministérios eclesiais e pastorais ordenados, o
que perdura até hoje em algumas igrejas do e no mundo inteiro.
Mulheres missionárias, diáconas e apóstolas na Igreja: Rm 16,1-16
Mesmo que não possamos distinguir, em nível textual, tão perfeitamente o que
pertencia ao movimento de Jesus, o que era sua continuidade ou apresentava rupturas,
vamos aqui considerar o texto a ser analisado como parte da continuidade deste movimento.
Os motivos para tal são, no mínimo, dois: a) por causa da proximidade temporal entre a
carta e o movimento de Jesus e b) por causa da preservação da memória acerca da
participação igualitária de mulheres neste movimento e sua (re)organização no período pós-
pascal.
A primeira constatação que aqui faço, com base nos inúmeros trabalhos realizados na
academia e nas pastorais, é que este texto está alijado da memória e da leitura da maioria
das pessoas, especificamente mulheres: não é conhecido, não é ensinado nas catequeses,
nem anunciado publicamente nas igrejas. Com isto, silencia-se uma herança magnífica de
nossa tradição.
A carta de Paulo, apóstolo, dirigida à comunidade cristã em Roma, por volta do ano
56-57, foi formulada de maneira acurada em termos textuais e de conteúdo. Como a última
carta autêntica escrita pelo apóstolo, ela apresenta a justificação pela graça e a teologia da
cruz de maneira bem elaborada, de modo a sustentar até hoje teologias e doutrinas que
tomam a obra salvífica de Deus por graça e fé como suas bases vitais. Por ser esta carta tão
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importante é que seu final, escrito de forma tão pessoal e amorosa, chama-me especial
atenção. Como também em outras cartas, Paulo menciona nomes de homens e mulheres
que, como ele, atuam em comunidades. Aqui, contudo, encontramos uma lista enorme de
nomes e isto exatamente no contexto do „coração do Império‟, a capital Roma. Significa,
em primeira observação, que a mensagem cristã está adentrando, via trabalho missionário
itinerante, não apenas os mais distantes rincões, como no interior da Ásia Menor, mas
também a própria capital romana por meio de organização de igrejas que se reuniam em
casas.
Uma das objeções que se faz para argumentar que este final de carta não seria original
é que se apresenta, aqui, uma lista de 27 nomes de pessoas que estão em Roma. Como seria
isto possível, se Paulo nunca esteve em Roma? Se a missão em Roma foi engendrada por
pessoas como Priscila e Áquila (At 18,2).8 Estudos permitem dizer que Paulo, estando em
muitos lugares do Império Romano por causa de seu trabalho missionário, encontrou e
conheceu muitas pessoas que viviam em Roma, mas que, devido a seu trabalho e
subsistência, colocavam-se a caminho de maneira itinerante para vender suas mercadorias
e, nesse trabalho, a exemplo do casal acima mencionado, também faziam o trabalho de
evangelização onde passavam, retornando muitas vezes para Roma. Assim, Paulo pode
saudar várias pessoas que estão em Roma, mas que ele provavelmente encontrou em outros
lugares por causa de seus trabalhos de subsistência e missão, como o dele inclusive.
Retornadas a sua casa em Roma, estas pessoas são agora saudadas por Paulo, que tem como
um dos objetivos na escrita desta carta, visitar esta cidade-capital e continuar viagem
missionária a Espanha, algo, contudo, que não se realiza devido ao martírio do apóstolo, em
Roma.
Consideramos Rm 16,1-16 parte integrante da carta, especificamente uma „carta-
apêndice‟ de recomendação para Febe, a quem, ao que tudo indica, Paulo confiou sua carta
para ser entregue à comunidade cristã em Roma. Assim, para nosso estudo e análise,
partimos do texto final como ele se apresenta no cânone; é este texto que fez história,
interferiu e interveio na vida de milhares de pessoas. Por isso mesmo é relevante resgatar
também esta parte, normalmente desprezada, como parte do todo. Aqui encontramos
concretamente sujeitos e agentes que fazem parte dos conteúdos escritos na carta! Trata-se
8
Veja maiores detalhes em meu livro Vida de Mulheres (1995).
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de homens e mulheres que fizeram missão, colocaram suas vidas em perigo, construíram
comunidades, organizaram grupos, deram sua vida, seu trabalho, suor e fadiga para
desenvolver, com ou sem Paulo, os carismas recebidos de Deus.
No final desta importante carta encontram-se elementos de relações pessoas e
pastorais de Paulo apóstolo: ele expressa seu amor pessoal para com homens, fala de seus
sofrimentos e do apoio solidário recebido durante toda a elaboração e realização de seu
trabalho teológico-pastoral, bem como durante as perseguições e prisões. A nosso ver, isto
é tão importante quanto o próprio conteúdo da justificação por fé e graça ou como todas as
questões éticas que resultam deste centro teológico. A participação destas pessoas faz parte
desta obra apostólico-missionária.
Com isto, resgatamos a importância das saudações, nomeações e destaques para a
obra de companheiras e companheiros de Paulo no trabalho missionário. Isto faz parte da
história da Igreja, da memória da obra missionária nos princípios. Com este resgate, destaco
também a importância da perspectiva econômica dos ministérios eclesiais, no sentido de
perceber a dinâmica que orientava a administração de dons e bens na organização da casa,
da igreja, dos grupos cristãos.
No texto, Paulo menciona três grupos:
a) Ele saúda nominalmente 27 pessoas, dentre as quais oito nomeadas
são mulheres: Febe, Priscila, Maria, Júnia, Trifena, Trifosa, Pérside, Júlia;
b) Ele menciona explicitamente duas mulheres anônimas ligadas a
alguém de referência: a mãe de Rufo (considerada também sua própria mãe) e a
irmã de Nereu;
c) Ele destaca um grupo maior que se reúne em torno de lideranças: a
igreja que reúne na casa de Priscila e Áquila, na casa de Aristóbulo, na casa de
Narciso, de Asíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas e Hermas, de Filólogo, Júlia,
Nereu e sua irmã e Olimpas.
Este texto, portanto, oferece informações acerca de um grande número de pessoas e
comunidades que se organizavam na capital do Império Romano, em meados da década de
50. Trata-se de comunidades/grupos que se reuniam em casas de homens e mulheres
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líderes, o que se apresenta como um dado significativo para a reconstrução da história das
origens de comunidades cristãs em Roma. 9
Dos dados obtidos destacamos a organização descentralizada dessas igrejas que se
reuniam em casas („igrejas domésticas‟) que não se dava apenas em relação a uma única
instância decisória e organizativa, mas também em relação à própria organização interna:
nessas igrejas não havia uma estrutura hierárquico-patriarcal ou quiriarcal; lideradas por
homens e mulheres, deixavam-se orientar por princípios de co-participação, hoje diríamos
democráticos, não vigentes e quistos naquele contexto sociocultural. 10 Pelo que consta, não
apenas as igrejas lideradas por mulheres, mas também aquelas lideradas por homens não
correspondiam aos ideais de governo político-organizacional e econômico da sociedade
patriarcal-patrimonial romana, onde, legitimado pela ideologia dominante, o homem-
proprietário é o chefe e os demais membros a ele estão subordinados. Em Rm 16,15, [Link].,
menciona-se um segundo grupo de lideranças mistas, com 3 homens e 2 mulheres, o que
pode indicar para uma co-liderança e trabalho conjunto não-subalternos na organização e
administração da Igreja.
Vejamos um pouco da análise dos conceitos por meio de uma identificação de
funções pelas quais homens e mulheres são aqui saudados e listados.
Vimos, acima, que a maioria mencionada é homem. Do total das 29 pessoas
individualmente mencionadas, 19 são homens e 10 são mulheres, sendo que todos os
homens têm nome, ao passo que duas mulheres são anônimas. Ao lado deste dado
quantitativo, a observação e a relação das funções pelas quais as pessoas são mencionadas
testemunham a favor das mulheres. Vejamos:
Somente 3 homens são mencionados com sua função: Áquila é “cooperador” de
Paulo/missionário, Andrônico é “apóstolo” e Urbano também é “cooperador” de
Paulo/missionário. Para os demais homens destaca-se a relação de amor existente entre eles
e o apóstolo, sua conversão e sua participação em igrejas que se reúnem em casas.
9
Junto com este dado nos foi transmitida a informação de um teólogo anônimo do século IV, Ambrosiastro,
que ressalta o ambiente judaico(-cristão) em Roma, a difusão do evangelho anteriormente a Paulo e a
descentralização da organização das comunidades cristãs. Maiores informações, veja Bruce (2003, p. 369,
notas 1-3).
10
Veja as regras e a cultura hierárquica social, econômica e cultural no „jeito romano‟ de governar a casa, em
Ivoni Richter Reimer (2006), onde o simples fato de pensar em mulheres organizando e em posição de
liderança causava sensação de caos.
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Quanto às mulheres, somente duas são mencionadas anônimamente em relações
afetivas (mãe/irmã) e Júlia encontra-se no conjunto de um grupo eclesial. As demais são
mencionadas junto com suas funções eclesiais/ministeriais e políticas específicas, que
aprofundaremos a seguir: Febe é diácona e prostátis; Priscila é “cooperadora” de
Paulo/missionária e líder de igreja que se reúne em sua casa; Maria, Trifena, Trifosa e
Pérside são missionárias; Júnia é “apóstola”. A seguir, adentramos um pouco na análise
dessas funções.
a) Trabalho de cooperação missionária. No texto, Priscila, Áquila e Urbano
recebem a menção de que “cooperam com” Paulo. O termo grego é o mesmo para os três:
synergoi que remete ao sentido de trabalho conjunto “trabalhar junto com”. O termo não
indica para trabalho subalterno ou escravo, mas afirma a participação. Podemos entender,
pois, que Priscila, Áquila e Urbano trabalharam com o apóstolo Paulo, lado a lado, ombro a
ombro, de igual para igual. Este seu trabalho conjunto é especificado com o complemento
“em Cristo”, referindo-se explicitamente ao trabalho missionário-evangelístico.
Destacamos, aqui, um elemento significativo para este trabalho no sentido pedagógico e
econômico: cada qual trabalhava em algum lugar, em alguma cidade, e as pessoas
itinerantes que também missionavam juntavam-se àquelas que já trabalhavam no local.
Assim Paulo fez em relação a Prisc(il)a e Áquila, em Corinto e em Éfeso (At 18). Neste
trabalho cooperativo, destaque especial Paulo dá ao casal por terem, em alguma situação
perigosa no contexto político-militar do Império, arriscado suas cabeças para salvar a vida
do apóstolo.11
b) Trabalho cansativo no Senhor. Este grupo só de mulheres (Maria, Trifena,
Trifosa, Pérside) é caracterizado pelo verbo kopiao “se cansar/afadigar” por causa de muito
trabalho. A especificação “no Senhor” indica para trabalho eclesial. Este termo é usado
pelo apóstolo Paulo para caracterizar o seu próprio trabalho missionário, que é exaustivo,
estressante e árduo (1Cor 4,12; 15,10; 16,16; 1Ts 5,12; Gl 4,11; Fp 2,16). Trata-se de
trabalho missionário realizado por estas mulheres especificamente e que o fazem assim
como o próprio apóstolo o fazia; trata-se de trabalho de anúncio colocado em benefício da
comunidade, sem exploração, mas com base em trabalho de subsistência que conseguiam
11
Sobre prisões, perseguições e torturas do apóstolo Paulo, veja At 16,15ss; 17,1-9; Ivoni Richter Reimer
(1995).
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trabalhando em manufaturas, artesanato, a exemplo do apóstolo. Não se tornavam uma
carga para grupos e comunidades, mas atuavam “no Senhor” para anúncio da Palavra de
libertação, graça e fé.
c) Trabalho apostólico. Andrônico e Júnia recebem destaque especial de Paulo
apóstolo, dizendo serem seu companheiro e sua companheira de prisão. Isto indica para a
experiência de prisão conjunta dos três, o que indubitavelmente estava ligado ao trabalho
apostólico. Aqui Paulo menciona um apóstolo e uma apóstola que, em algum momento,
trabalharam junto com ele. Explicitamente ele diz que ambos, Andrônico e Júnia, em seu
apostolado, gozavam de grande prestígio por parte de outros apóstolos. Numa linda figura
de linguagem, Paulo diz que ele e ela “nasceram em Cristo”, isto é, se converteram à fé
cristã, antes dele. É possível que tivessem tido uma experiência reveladora parecida com a
de Paulo e que, como ele, trabalhavam antes e independentemente dele nesse apostolado.
Como ele, foram enviado/a pelo Cristo ressurreto a anunciar a Boa Nova em todos os
lugares por onde passavam. Portanto, o apóstolo Paulo nos fornece um dado que mostra
não apenas que existiam outros apóstolos/as além dos Doze e além de Paulo, mas que
também havia mulheres apóstolas, sendo que as primeiras, sem dúvida, eram Maria
Madalena e o grupo de mulheres como visto acima. Júnia é apóstola lembrada pelo
apóstolo Paulo, pois naquela época ela se encontrava em Roma. Ele demonstra respeito e
consideração para com seu companheiro e sua companheira de apostolado. A economia
deste apostolado consiste em sua organização colegiada, democrática e não hierárquico-
competitiva.
d) Trabalho de diaconia e asilo político-social. Paulo menciona e caracteriza Febe
como diácona (diáconos “que serve”) e a vincula ao trabalho realizado em Cencréia, que é
cidade-porto de Corinto. Ali, havia muita pobreza, muita gente peregrina, doentes,
prostitutas, excluídas. Em seu trabalho, como o depreendemos do texto e de outras
passagens bíblicas (veja Mt 25; Lc 10; Mc 10,43-43), ela acolhia e dava abrigo a pessoas
que chegavam a este porto, e deve ter feito isto também em relação a Paulo em alguma de
suas viagens a Corinto. É isto que o apóstolo expressa com o termo prostátis que pode ser
traduzido por “protetora/protegeu”, no sentido de oferecer asilo a quem corre perigo (d)e
perseguição por parte de autoridades político-militares. Significa a função de Febe implica
também responsabilidade político-social: ela responde, diante das autoridades, pelas
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pessoas que hospeda e protege em sua casa. Prostátis também significa “estar à frente” de
um trabalho no sentido político-organizacional, caracterizando pessoas que presidem um
grupo, uma associação profissional, uma igreja. Por causa deste seu significativo e
relevante trabalho eclesial e sociopolítico, ela é chamada de “irmã” e “santa”: ela faz parte
do grupo de pessoas que crêem em Jesus Cristo, são santificadas para servir ao Reino de
Deus. Parece que sua responsabilidade não se restringe à Cencréia/Corinto, mas se estende
também em sua viagem a Roma; leva a carta de Paulo apóstolo e por isto Paulo a
recomenda apostolicamente ao cuidado que a Igreja em Roma deve ter para com ela, a fim
de que a acolham e a apóiem em tudo o que ela precisar para realizar seu trabalho eclesial e
sociopolítico também em Roma.
Algumas considerações e implicações dos achados analisados
Nesta breve e rápida abordagem e seleção de tanto material herdado (e
desconhecido), vimos o significado que o movimento de Jesus e a Igreja em suas origens
davam ao seguimento e ao discipulado, neles manifestando-se expressões „ministeriais‟
como diaconia, apostolado, missão, evangelização.
Destacamos, para os textos evangélicos da cruz e ressurreição de Jesus, o
protagonismo da presença e participação de mulheres desde os inícios até o novo recomeço,
no que elas se destacavam como seguidoras, diáconas, apóstolas, discípulas de Jesus. Em
Rm 16,1-6 tecemos uma abordagem e análise da menção de homens e mulheres e sua
função eclesial. Nisto, percebemos e constatamos que as mulheres são bem mais
mencionadas por causa de sua função eclesial/ministerial do que os homens que muitas
vezes são mencionados por causa da relação afetiva e como participantes de igrejas que se
reúnem em casas.
Em termos de conteúdo e pedagogia ministerial em comunidades nas origens, Paulo
compartilha conosco o fato de que mulheres e homens participavam indistintamente da
organização, administração e liderança eclesial e ocupavam funções que hoje chamamos de
ministeriais (diaconia, apostolado, missão). Eram líderes de comunidade, realizavam com
responsabilidade a vocação e o chamado recebidos no trabalho do Reino de Deus.
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A maioria destes sujeitos e agentes eclesiais/ministeriais era gente empobrecida,
trabalhadora que, tendo vivenciado libertação, passam a exercer seu ministério de acordo e
a partir do compromisso e da gratuidade do amor. Gente humilde, habitante de ruas
portuárias, artesã e manufatureira torna-se sujeito da mudança, da organização de
comunidades cristãs, da itinerância profético-apostólica pelas estradas e portos do Império
Romano, a fim de contribuir na construção de outras relações possíveis e necessárias que se
haviam manifesto em Jesus de Nazaré, o Cristo.
Esta é parte de uma herança que recebemos de grupos de comunidades que
transmitiram, selecionaram e organizaram materiais acerca das experiências testemunhadas
no movimento de Jesus. Também Paulo apóstolo nos transmitiu parte deste legado. Partes
de nossa herança ainda são desconhecidas, menosprezadas e até silenciadas ou
invisibilizadas. Contudo, é necessário buscar, resgatar, preservar e viver, trabalhar criativa e
responsavelmente. Cuidar deste „tesouro em vasos de barro‟ e anunciar que mulheres e
homens são chamados para exercer ministérios diaconal, pastoral, missionário e de
apostolado faz parte das tarefas que envolvem formação integral e libertadora. Tudo isto é
diaconia, é serviço e doação; é responsabilidade. Trata-se de organizar a vida em meio a
estruturas e sistemas que desestabilizam e praticamente impedem relações humanas
igualitárias, justas, autônomas e responsáveis entre pessoas. Este serviço é desafio para
cada qual individualmente e também para as instituições que se fazem representantes da
economia divina.
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