CONCAVIDADE
VINÍCIUS MORELLI CORTES
1. D EFINIÇÃO E PROPRIEDADES
Sejam I um intervalo aberto e f : I → R uma função. Dizemos que f tem concavidade para cima (ou f é convexa) em I
se para todos a, x, b ∈ I com a < x < b temos
f (b) − f (a) f (x) − f (a)
> .
b−a x −a
Geometricamente, isto significa que a seção do gráfico de f compreendida entre as retas x = a e x = b fica abaixo do
segmento de reta que liga os pontos (a, f (a)) e (b, f (b)).
( A ) f (x) = e x , −1 ≤ x ≤ 1
De forma análoga, dizemos que f tem concavidade para baixo (ou f é côncava) em I se para todos a, x, b ∈ I com
a < x < b temos
f (b) − f (a) f (x) − f (a)
< .
b−a x −a
( A ) f (x) = ln x, 12 ≤ x ≤ 2
Exercício 1. Sejam I um intervalo e f : I → R uma função. Mostre que f tem concavidade para baixo em I se, e somente
se, − f tem concavidade para cima em I .
1
2 VINÍCIUS MORELLI CORTES
Decorre do exercício anterior que os resultados que veremos aqui envolvendo concavidade para cima possuem versões
análogas para funções com concavidade para baixo.1 Por este motivo, vamos lidar apenas com funções com concavidade
para cima.
Exercício 2. Sejam I um intervalo e f : I → R uma função. Mostre que f tem concavidade para cima em I se, e somente
se, para todos x, y ∈ I com x 6= y e para todo t ∈ (0, 1) tem-se f (t y + (1 − t )x) < t f (y) + (1 − t ) f (x).2
O lema a seguir é bastante simples mas será muito útil mais adiante.
Lema 3. Sejam I um intervalo e f : I → R uma função. Então f tem concavidade para cima em I se, e somente se, para
todos a, x, b ∈ I com a < x < b temos
f (b) − f (a) f (b) − f (x)
< .
b−a b−x
Demonstração. Dados a, x, b ∈ I com a < x < b, notemos que
f (b) − f (a) f (x) − f (a) f (b) − f (a)
> ⇐⇒ (x − a) > f (x) − f (a)
b−a x −a b−a
f (b) − f (a)
⇐⇒ (x + b − b − a) > f (x) − f (a)
b−a
f (b) − f (a)
⇐⇒ f (b) − f (a) + (x − b) > f (x) − f (a)
b−a
f (b) − f (a)
⇐⇒ f (b) − f (x) > (b − x)
b−a
f (b) − f (x) f (b) − f (a)
⇐⇒ > ,
b−x b−a
como queríamos.
2. D IFERENCIABILIADE E CONCAVIDADE
As definições acima não exigem nenhum tipo de bom comportamento de f (nem mesmo continuidade). No caso de
funções deriváveis, a noção de concavidade pode ser traduzida em termos das retas tangentes ao gráfico de f .
Sejam I um intervalo aberto e f : I → R uma função derivável com concavidade para cima em I . Dado p ∈ I , é razoável
esperar que a reta tangente ao gráfico de f em (p, f (p)) fique abaixo do gráfico de f , exceto, é claro, no ponto de intersec-
ção (p, f (p)). Além disso, se a, b ∈ I , a < b, então o coeficiente angular da reta tangente ao gráfico de f em (a, f (a)) deve
ser menor do que o coeficiente angular da reta tangente ao gráfico de f em (b, f (b)), isto é, f 0 (a) < f 0 (b). (Veja as figuras
a seguir.)
O resultado a seguir resume estas observações.
Teorema 4. Sejam I um intervalo aberto e f : I → R uma função derivável. São equivalentes:
(i) f tem concavidade para cima em I ;
(ii) Para todos a, b ∈ I com a 6= b temos f (b) > f 0 (a)(b − a) + f (a);
(iii) f 0 é estritamente crescente em I .
Demonstração. (i ) =⇒ (i i ). Sejam a, b ∈ I com a 6= b. Seja c = a+b
2 .
Suponhamos primeiramente que a < b. Como f tem concavidade para cima em I e a < c < b, temos
f (b) − f (a) f (c) − f (a)
(1) > .
b−a c −a
Dado t ∈ (a, c), usando novamente a concavidade de f obtemos
f (c) − f (a) f (t ) − f (a)
> .
c −a t −a
Tomando o limite quando t → a + , resulta
f (c) − f (a)
(2) ≥ f 0 (a).
c −a
1Tentar enunciá-los é um bom exercício.
2A expressão t y + (1 − t )x, com t ∈ [0, 1], é chamada de combinação convexa de x e y. Interprete geometricamente.
CONCAVIDADE 3
( A ) Reta tangente a e x em x = 1 ( B ) Retas tangentes a e x em x = − 12 e x = 21
Decorre de (1) e de (2) que
f (b) − f (a)
> f 0 (a),
b−a
ou seja,
f (b) > f 0 (a)(b − a) + f (a).
Suponhamos, agora, que b < a. Aplicando o Lema 3 para b < c < a, obtemos
f (a) − f (c) f (a) − f (b)
(3) > .
a −c a −b
Dado t ∈ (c, a), usando novamente o Lema 3 para c < t < a,
f (t ) − f (a) f (a) − f (t ) f (a) − f (c)
= > .
t −a a−t a −c
Tomando o limite quando t → a + , resulta
f (a) − f (c)
(4) f 0 (a) ≥ .
a −c
Decorre de (3) e de (4) que
f (a) − f (b)
< f 0 (a),
a −b
ou seja,
f (b) > f 0 (a)(b − a) + f (a).
Isto prova (i i ).
(i i ) =⇒ (i i i ). Sejam a, b ∈ I com a < b. Por hipótese, temos
(5) f (b) > f 0 (a)(b − a) + f (a).
Trocando os papéis de a e de b e usando novamente (i i ), temos também
(6) f (a) > f 0 (b)(a − b) + f (b).
Somando (5) e (6) e dividindo por b − a > 0, obtemos
0 > f 0 (a) − f 0 (b) =⇒ f 0 (b) > f 0 (a).
Logo, f 0 é estritamente crescente em I .
4 VINÍCIUS MORELLI CORTES
(i i i ) =⇒ (i ). Fixemos a, b ∈ I com a < b. Consideremos a função g : I → R dada por
f (b) − f (a)
g (x) = f (x) − f (a) − (x − a).
b−a
Notemos que g é derivável em I e
f (b) − f (a)
g 0 (x) = f 0 (x) − , ∀x ∈ I .
b−a
Como f 0 é estritamente crescente em I , g 0 também é estritamente crescente em I . E, como g (a) = g (b) = 0, pelo Teorema
de Rolle existe (um único) c ∈ (a, b) satisfazendo g 0 (c) = 0. Concluímos, então, que g 0 (x) < 0, para todo x ∈ (a, c), e g 0 (y) > 0,
para todo y ∈ (c, b). Logo, g é estritamente decrescente em [a, c] e estritamente crescente em [c, b] e, portanto, g (x) < 0,
para todo x ∈ (a, b). Isto prova que f tem concavidade para cima em I .
3. P ONTOS DE INFLEXÃO E EXTREMOS LOCAIS
Suponha que p seja um ponto de inflexão de uma função f . Pode p ser um extremo local de f ? A princípio, sim.
Exemplo 5. Considere a função f : R → R dada por
(
x 2 , x ≤ 0,
f (x) = p
x, x > 0.
Note que f (0) = 0 e f (x) > 0 para todo x 6= 0, isto é, 0 é mínimo global de f . Além disso, f é contínua em R, derivável em
R \ {0} e
(
0 2x, x < 0,
f (x) = 1
p
2 x
, x > 0,
(
2, x < 0,
f 00 (x) =
− 4x1px , x > 0.
Desta forma, f tem concavidade para cima em (−∞, 0) e para baixo em (0, +∞), ou seja, 0 é ponto de inflexão.
Observe que a função f do exemplo anterior não é derivável no ponto x = 0. Assumindo que f seja derivável em p,
veremos a seguir que p não pode ser simultaneamente um ponto de inflexão e um extremo local de f .
Teorema 6. Sejam I um intervalo aberto e f : I → R uma função derivável.
(i) Se f tem concavidade para cima em um intervalo J da forma (p − δ, p) ou (p, p + δ) e p é um ponto crítico de f , então
f (x) > f (p) para todo x ∈ J ;
(ii) Se f tem concavidade para baixo em um intervalo J da forma (p − δ, p) ou (p, p + δ) e p é um ponto crítico de f , então
f (x) < f (p) para todo x ∈ J ;
(iii) Se p é um ponto de inflexão de f , então p não é ponto de máximo local nem ponto de mínimo local de f .
Demonstração. (i) Suponhamos primeiramente que f tenha concavidade para cima em um intervalo da forma (p, p + δ).
Pelo Teorema 4, f 0 é estritamente crescente em (p, p + δ). Afirmamos que f 0 (x) > f 0 (p) para todo x ∈ (p, p + δ). De fato,
fixemos x ∈ (p, p + δ) e sejam s, t ∈ (x, p) tais que p < s < t < x. Como f tem concavidade para cima em (p, p + δ), temos
f (x) − f (s) f (t ) − f (s)
> .
x −s t −s
Tomando o limite quando s → p + , obtemos
f (x) − f (p) f (t ) − f (p)
≥ .
x −p t −p
Agora, tomando o limite quando t → p + , resulta
f (x) − f (p)
≥ f 0 (p).
x −p
Pelo Teorema do Valor Médio, existe c ∈ (p, x) satisfazendo
f (x) − f (p)
= f 0 (c).
x −p
CONCAVIDADE 5
Como f 0 é estritamente crescente em (p, p + δ) e c < x, concluímos que
f (x) − f (p)
f 0 (x) > f 0 (c) = ≥ f 0 (p).
x −p
Isto prova a afirmação.
Finalmente, como p é ponto crítico de f , temos f 0 (x) > f 0 (p) = 0, para todo x ∈ (p, p + δ). Logo, f é estritamente
crescente em [p, p + δ) e, portanto, f (x) > f (p) para todo x ∈ (p, p + δ).
Suponhamos, agora, que f tenha concavidade para cima em um intervalo da forma (p − δ, p). Pelo Teorema 4, f 0
é estritamente crescente em (p − δ, p). Vamos mostrar, de forma análoga ao caso anterior, que f 0 (x) < f 0 (p) para todo
x ∈ (p − δ, p). Fixado x ∈ (p − δ, p), sejam s, t ∈ (p, x) tais que x < s < t < p. Como f tem concavidade para cima em
(p − δ, p+), pelo Lema 3 temos
f (t ) − f (x) f (t ) − f (s)
< .
t −x t −s
+
Tomando o limite quando t → p , obtemos
f (p) − f (x) f (p) − f (s) f (s) − f (p)
≤ = .
p −x p −s s−p
Agora, tomando o limite quando s → p + , resulta
f (p) − f (x)
≤ f 0 (p).
p −x
Pelo Teorema do Valor Médio, existe c ∈ (x, p) satisfazendo
f (p) − f (x)
= f 0 (c).
p −x
Como f 0 é estritamente crescente em (p − δ, p) e x < c, concluímos que
f (p) − f (x)
f 0 (x) < f 0 (c) = ≤ f 0 (p).
p −x
Isto prova a afirmação.
Finalmente, como p é ponto crítico de f , temos f 0 (x) > f 0 (p) = 0, para todo x ∈ (p − δ, p). Logo, f é estritamente
decrescente em (p − δ, p] e, portanto, f (x) > f (p) para todo x ∈ (p − δ, p).
(ii) Análogo ao item anterior.
(iii) Se p é um ponto de inflexão de f , então existe um número real r > 0 de modo que (p − r, p + r ) ⊂ (a, b) e f tem
concavidades opostas nos intervalos (p − r, p) e (p, p + r ). Se p não é ponto crítico de f , então p não pode ser máximo
local e nem mínimo local. Por outro lado, se p é ponto crítico de f , então para todo 0 < δ < r podemos aplicar os itens (i )
e (i i ) nos intervalos (p −δ, p) e (p, p +δ) para obter x, y ∈ (p −δ, p +δ) tais que f (x) < p < f (y). Logo, p não é máximo local
e nem mínimo local de f .