Manual de introdução
às técnicas de pesquisa
qualitativa em Ciência Política
Organizadores
Rafael Cardoso Sampaio
Carolina de Paula
Brasília
2024
Governo Federal
Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI)
Ministra Esther Dweck
Fundação Escola Naiconal de Administração Pública (Enap)
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Comissão Editorial: Alexandre de Ávila Gomide, Regina Luna Santos
de Souza, Larissa Nacif Fonseca, Pedro Masson Sesconetto Souza e
Rafael Rocha Viana
Pareceristas: Alexandre de Ávila Gomide, Regina Luna Santos de
Souza, Ciro Campos Christo Fernandes, Carolina da Cunha Rocha,
Lucas Moura Vieira, Márcia Knop e Vanessa Gubert
Revisão e edição: Carolina da Cunha Rocha.
Projeto gráfico, editoração eletrônica e capa: Lorena Rosa Correia
A Fundação Escola Nacional de Administração Pública (Enap) é uma escola de governo vinculada ao Ministério da Gestão e
da Inovação em Serviços Públicos (MGI). Tem como principal atribuição a formação e o desenvolvimento permanente dos
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dos serviços prestados pelo Estado aos cidadãos. Para tanto, desenvolve pesquisa aplicada e ações de inovação voltadas à
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Sediada em Brasília (DF), a Enap é uma escola de governo de abrangência nacional e suas ações incidem sobre o conjunto
de todos os servidores públicos, em cada uma das esferas de governo.
Ficha catalográfica elaborada pela equipe da Biblioteca Graciliano Ramos da Enap
_______________________________________________
S1921g Sampaio, Rafael Cardoso
Manual de introdução ás técnicas de pesquisa qualitativa
em ciência política / Rafael Cardoso Sampaio e Carolina
de Paula. -- Brasília: Enap, 2024.
472 p. : il.
Inclui bibliografia
ISBN: 978-65-87791-45-6
1. Ciência Política. 2. Pesquisa qualitativa. 3. Análise
Temática. 4. Método qualitativo. I. Título. II. Paula, Carolina de.
CDD 320.072
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Enap, 2024
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
SUMÁRIO
PREFÁCIO
Gabriela Lotta 8
APRESENTAÇÃO 10
INTRODUÇÃO
Olhando para os “velhos” (e muitas vezes esquecidos)
métodos qualitativos na área de Ciência Política
sem se esquecer dos “novos” de vista
Rafael Cardoso Sampaio e Carolina de Paula 16
01 Pesquisa qualitativa em políticas públicas: entendendo os
problemas públicos para desenhar melhores ações públicas
Regina Luna Santos de Souza e Julia Maurmann Ximenes 42
SEÇÃO I – MÉTODOS DE COLETA DE DADOS
02 Entrevistas em profundidade em Ciência
Política
Natasha Bachini, Rafael Cardoso Sampaio e Ester Athanásio 63
03 Grupos focais em Ciência Política
Carolina de Paula, Bruno Washington Nichols,
Gabriel Bento Leite Ferreira e Pedro Lenhagui Bergamaschi 109
SEÇÃO II – ABORDAGENS METODOLÓGICAS
04 Estudo de caso em Ciência Política: teoria e aplicação
Vitor Eduardo Veras de Sandes-Freitas e John dos Santos Freitas 134
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
05 A etnografia como abordagem metodológica
nos estudos em Ciência Política
Michelle Fernandez, Natália Guimarães
e Marta Pontes de Campos 169
06 Etnografia online em Ciência Política
Victor Piaia, Sabrina Almeida e Eurico Matos 196
SEÇÃO III – MÉTODOS DE ANÁLISE DADOS
07 Análise Temática em Ciência Política
Daniela Drummond, Paulo Roberto Neves Costa
e Júlia Gonçalves 223
08 Análise de Conteúdo qualitativa em Ciência Política
Rafael Cardoso Sampaio, Paula de Oliveira Portela,
Pedro Henrique Chaves de Azevedo Beff de Araújo,
Tiago Borges e Murilo Brum Alison 255
09 Análise Textual e abordagens qualitativas em
Ciência Política: práticas combinadas e aproximações
possíveis
Lucy Oliveira e Eduardo Pagnan Vieira 289
SEÇÃO IV – OUTROS ASPECTOS DE PESQUISA
QUALITATIVA
10 Introdução aos softwares de Análise de Dados
Qualitativos em Ciência Política
Mariana Arcos Lorencetti e Douglas Henrique
Novelli 318
11 Questões científicas para a análise qualitativa em
Ciência Política: transparência metodológica, replicação,
validação dos dados e validade
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Vítor Eduardo Veras de Sandes-Freitas
e Vitor Vasquez 347
12 Ética e pesquisas qualitativas em Ciência Política
Rayza Sarmento e Rafael Adílio dos Santos 376
SEÇÃO V – OS NOVOS MÉTODOS QUALITATIVOS DA CP
13 Process Tracing: uma introdução ao uso do
rastreamento de processos em Ciência Política
Patrícia Sene de Almeida, Tainá R. Serafim
e Enzo Lenine 397
14 Uma introdução a Análise Qualitativa
Comparada (QCA) em Ciência Política
Acácio Vasconcelos Telechi, Maiane Bittencourt
e Thiago Silame 419
Conclusão – Pesquisa qualitativa em um mundo
de inteligência artificial
Rafael Cardoso Sampaio e Carolina de Paula 451
Colaboradoras e colaboradores 462
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
PREFÁCIO
“Só a especialização estrita permitirá que o trabalhador científico
experimente (...) a satisfação de dizer a si mesmo que, desta vez,
consegui algo que permanecerá. A obra verdadeiramente definitiva e
importante é sempre obra de um especialista”.
Max Weber, Ciência como Vocação.
Esta frase de Max Weber no livro Ciência como Vocação ressalta a importância
de o cientista se especializar em seu ofício para produzir uma ciência verda-
deiramente contributiva. A especialização do cientista implica aprender, assi-
milar e aplicar adequadamente métodos científicos pertinentes às questões de
pesquisa e à teoria com a qual busca contribuir. O presente manual desem-
penha um papel crucial nesse processo de especialização do fazer científico.
Nos últimos anos, testemunhamos um notável crescimento dos es-
tudos qualitativos na ciência política, tanto no Brasil quanto no mundo.
Esse aumento tem sido impulsionado pela necessidade de abordar novas
questões de pesquisa e explorar campos previamente pouco investigados,
como o estudo de políticas públicas, comportamento nas redes, relação en-
tre atores políticos e sociais, movimentos sociais, entre outros. Além dis-
so, observamos um expressivo avanço nas abordagens interdisciplinares na
Ciência Política, com um diálogo frutífero entre disciplinas como Sociologia
e Antropologia.
Apesar desse crescimento inegável, os estudos qualitativos ainda re-
presentam uma parcela minoritária no campo da Ciência Política, refletin-
do uma forte tendência quantitativista, em grande medida influenciada pela
tradição estadunidense. Como evidenciado pelos autores do livro, essa in-
clinação se reflete na escassa oferta de cursos de métodos qualitativos nos
programas de graduação e pós-graduação em Ciência Política no país.
Assim, há um vasto território a ser explorado, tanto no desenvol-
vimento de novas pesquisas qualitativas quanto na formação de cientistas
políticos para a aplicação rigorosa de métodos qualitativos. Neste contexto,
8
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
celebro a publicação deste manual, uma valiosa contribuição para preencher
essa lacuna. Sua linguagem acessível e abordagem didática conduzem o lei-
tor por uma jornada esclarecedora no universo dos métodos qualitativos,
proporcionando uma compreensão das peculiaridades de cada abordagem,
suas vantagens e desvantagens, bem como suas aplicações.
Este manual destaca-se ao oferecer uma ferramenta indispensável
para aqueles que buscam aprofundar-se na pesquisa qualitativa com o de-
vido rigor metodológico. Abrangendo métodos tradicionais (como entre-
vistas, grupos focais e etnografia) e explorando técnicas contemporâneas
(como etnografia on-line, process tracing, análise temática, de conteúdo e
textual), o livro não apenas explica esses métodos e técnicas, mas também
aborda questões éticas na pesquisa qualitativa em Ciência Política e trazem
reflexões profundas ao leitor.
Cada capítulo guia o leitor por uma visão geral do campo, inspiran-
do reflexões sobre como conduzir pesquisas utilizando diferentes métodos
e combinando-os para responder, com rigor metodológico, a questões de
pesquisa ainda pouco exploradas na Ciência Política brasileira. Saúdo e ce-
lebro, portanto, a publicação deste manual, na esperança de que inspire no-
vas gerações de pesquisadores especializados em métodos qualitativos na
Ciência Política, perpetuando, assim, a busca por uma ciência significativa,
como preconizava Max Weber.
Gabriela Lotta
Professora de Administração Pública e
Governo da Fundação Getulio Vargas (FGV)
9
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
APRESENTAÇÃO
Este manual começou a ser pensado na oferta de uma disciplina de métodos
qualitativos no Programa de Pós-graduação em Ciência Política (PPGCP) da
Universidade do Paraná (UFPR) em 2021. Inicialmente, os objetivos eram
simples. Em lugar dos habituais artigos finais de disciplina, um dos organi-
zadores deste livro sugeriu a uma dupla de discentes que fizesse um rascu-
nho de um capítulo metodológico. Este capítulo seria então desenvolvido
pelo professor da disciplina, objetivando a publicação de um e-book bastante
inicial para técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política. Já à época,
notava-se que havia pouco material disponível sobre métodos qualitativos e
mesmo poucos ou nenhum sobre determinadas técnicas, a exemplo de aná-
lises temáticas, grupos focais e etnografia política. Tal iniciativa se repetiu
em uma segunda disciplina optativa, também sobre pesquisa qualitativa na
área. Não obstante, uma série de intempéries atrasou de maneira determi-
nante o projeto, a exemplo da pandemia de covid-19 e as eleições de 2022.
Ao longo desse período, ao revisar artigos a respeito da área de
Ciência Política no Brasil, notou-se que o problema era mais substantivo
que o avaliado inicialmente. Não havia, de fato, nem um único material a
respeito de métodos qualitativos para a área que não estivesse focado ape-
nas nas técnicas mais conectadas à lógica de geração de inferências causais,
conforme sugerido por King, Keohane e Verba em Designing social inquiry:
Scientific inference in qualitative research. Assim, nós, os organizadores, decidi-
mos que não bastaria um e-book introdutório, mas que precisaríamos de algo
mais robusto, mais similar a um handbook de técnicas qualitativas pensadas
para a Ciência Política. Nesse sentido, nos preocupamos menos com a apre-
sentação do desenho de pesquisa, dos fundamentos e da lógica da pesquisa
qualitativa, questões já fartamente disponíveis em manuais gerais de méto-
dos qualitativos presentes no Brasil, e nos focamos nas técnicas e aborda-
gens de coleta e de análise de dados qualitativos.
A partir de então, diferentes professores e professoras de todo o país
foram acionados com o seguinte objetivo: escrever um capítulo na forma
10
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de um pequeno manual que de fato tentasse mostrar um passo a passo de
como aplicar aquela técnica de coleta ou de análise de dados e apresentasse
um foco em objetos e temáticas da Ciência Política. O objetivo era intro-
duzir os novos pesquisadores e pesquisadoras - sejam eles de graduação ou
pós-graduação - na abordagem qualitativa, de modo que ao ler tais capítu-
los, eles já estivessem munidos de um manual de instruções de como apli-
car tal método, assim como tivessem referências de pesquisas em que já fo-
ram aplicados os métodos em questão.
Não satisfeitos, os organizadores lançaram desafios extras. Todos
os capítulos deveriam trazer reflexões sobre: 1) questões éticas pertinentes
à técnica em questão; 2) questões que reforçam o rigor no método; 3) de-
bates sobre a possibilidade da pesquisa ser apoiada pelo uso de softwares ou
linguagens de programação, como R e Python; e, especialmente, 4) sobre
a possibilidade de serem realizadas online e 5) apresentação de exemplos de
aplicação na Ciência Política brasileira ou internacional.
No primeiro desafio, vários capítulos abordam a questão ética das
pesquisas e como muitas vezes ela entra em conflito com a transparência
metodológica, notadamente no resguardo às falas proferidas pelos sujeitos
de pesquisa, evidenciando que não é um debate tão simples como a visão
da Ciência Política estadunidense parece crer e defender. Deliberamos por
haver um capítulo específico para discutir tanto essas questões de manei-
ra ampla, quanto também para ser uma espécie de guia para enfrentar os
desafios na hora da submissão de projetos para comitês de ética no Brasil.
Em termos do segundo desafio, assumimos a perspectiva que uma
pesquisa qualitativa dentro da Ciência Política deve possuir o rigor presente
na área, tendo preocupação direta não apenas com o instrumental, ao exem-
plo dos softwares, mas também em cuidados a respeito de validação, replica-
bilidade, confiabilidade e transparência dos métodos, incluindo, assim, um
capítulo totalmente dedicado a esse debate. Também confirmamos nosso
desejo de não rechaçar os “novos” métodos qualitativos, ao apresentar ca-
pítulos sobre as duas principais técnicas de tal perspectiva, nomeadamente
process tracing e qualitative comparative analysis. Neste sentido, já na elaboração
do projeto, optamos por não incluir tantas técnicas no viés interpretativista
11
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
da Ciência Política, como a análise de discurso. Não se trata de considerá-
-las menos científicas, mas de reconhecer que a base de validação das téc-
nicas parte de perspectivas diferentes.
Já no tange ao terceiro desafio, cada capítulo preocupou-se em even-
tualmente citar ou explicitar o uso de softwares para o apoio da coleta ou da
análise de dados qualitativos, mas também optamos por um capítulo fo-
cado especificamente nos softwares CAQDAs de análise de dados qualitati-
vos. No mesmo sentido, reconhecemos que a pesquisa qualitativa pode fa-
zer bom uso de análises textuais automatizadas, na lógica de tratar o texto
como dado, pela sua própria natureza de gerar e lidar com grandes quanti-
dades de conteúdos verbais, visuais e, especialmente, textuais.
O quarto e maior desafio esteve em pedir a todos os autores e a to-
das as autoras que incluíssem alguma menção de como aplicar a técnica em
questão de forma online. Evidentemente, isso fez mais sentido para determi-
nadas técnicas que para outras, porém houve um esforço geral de se pensar
e oferecer reflexões e literatura para tais aplicações. Em um caso específico,
nós decidimos que a versão offline e online da técnica deveriam ser apresenta-
das em capítulos separados. Afinal, a etnografia, com seu foco na política,
é bastante distinta da etnografia digital (ou netnografia!). Então, como am-
bas ainda receberam pouca atenção na área, optou-se por capítulos distin-
tos. Fica claro então, que desde o início do projeto, nosso objetivo era jus-
tamente que o manual não fosse lançado e já houvesse um sentimento de
ser anacrônico, ultrapassado.
Por fim, o último desafio era que cada capítulo deveria apresentar
uma seção com exemplos de aplicação da técnica na Ciência Política. Além
de, claro, servirem como outras literaturas de referências para nossos leito-
res, também era nosso objetivo desnaturalizar essa visão da área como pre-
dominantemente quantitativista, na qual há pouco espaço para abordagens
mais qualitativas (ver introdução).
Assim, houve um grande esforço coletivo de todos os autores e
autoras em dar respostas efetivas a tais desafios, enquanto também tenta-
vam apresentar as técnicas da maneira mais introdutória e didática possí-
vel. É importante lembrar que se trata de um manual introdutório e que os
12
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
leitores devem sempre buscar materiais complementares para se aprofun-
dar em cada técnica ou abordagem de pesquisa. Entretanto, reforçamos os
agradecimentos a todos os autores e autoras que se dispuseram a enfren-
tar esse desafio, mesmo se tratando de um momento de dificuldade após a
pandemia de covid-19.
Cada capítulo foi pensado para ser lido de forma independente, as-
sim como o leitor e leitora que se aventurarem por todo o manual notarão
como seus conhecimentos ficarão mais completos ao notar as conexões e
mesmo as divergências existentes entre as técnicas e abordagens de coleta
e de análise de dados qualitativos. O livro está dividido em quatro seções,
além da Introdução, Conclusão e do Capítulo 1, Pesquisa qualitativa em po-
líticas públicas: entendendo os problemas públicos para desenhar melhores ações públi-
cas, autoria de Regina Luna Santos de Souza e Júlia Maurmann Ximenes.
Na SEÇÃO I – MÉTODOS DE COLETA DE DADOS, o
Capítulo 2, Entrevistas em profundidade em Ciência Política, de Natasha Bachini,
Rafael Cardoso Sampaio e Ester Athanásio, mostra que apesar de ser am-
plamente referenciada e utilizada na área, a técnica de entrevista em pro-
fundidade ainda carece de discussões específicas. Na mesma direção, ou-
tra técnica “clássica” do campo qualitativo, os grupos focais, são o tema
do Capítulo 3, Grupos focais em Ciência Política, de Carolina de Paula, Bruno
Nichols, Gabriel Bento Leite Ferreira e Pedro Lenhagui Bergamaschi. Os
autores mostram que o uso da técnica na Ciência Política aumentou na úl-
tima década, mas ainda é pouco explorado, mesmo nos Estados Unidos,
país com forte tradição comportamentalista.
Abrindo a SEÇÃO II – ABORDAGENS METODOLÓGICAS,
o Capítulo 4, Estudo de caso em Ciência Política: teoria e aplicação, de Vítor
Eduardo Veras de Sandes-Freitas e John dos Santos Freitas, afirma que o
estudo de caso se trata de um desenho de pesquisa amplamente utilizado
na Ciência Política, devido ao tipo de problema que a disciplina tende a en-
frentar, os problemas fortemente contextuais e com grande influência da
agência humana. Já o Capítulo 5, A etnografia como abordagem metodológica nos
estudos em Ciência Política, de Michelle Fernandez, Natália Guimarães e Marta
Pontes de Campos, argumenta que apesar do aumento no uso da etnografia
13
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
nas ciências sociais, a política, assim como seus principais atores, como bu-
rocratas, políticos e ativistas, continuam sendo pouco explorados pela cor-
rente principal da etnografia. Para fechar a seção, o Capítulo 6, Etnografia
online em Ciência Política, de Victor Piaia, Sabrina Almeida e Eurico Matos
não delimita fronteiras ou competições com a Antropologia. O foco é es-
sencialmente pragmático, o que é importante considerar para realizar exer-
cícios etnográficos online voltados para os objetos da área.
Na SEÇÃO III – MÉTODOS DE ANÁLISE DADOS, o
Capítulo 7, Análise Qualitativa Temática em Ciência Política, de Daniela
Drummond, Paulo Roberto Neves Costa e Júlia Gonçalves, revela que a
análise temática é muito usada no campo da Psicologia e, embora não seja
um método específico, mas sim uma ferramenta aplicável em diversos mé-
todos para a qual não existe uma única maneira de utilizá-la, é fundamen-
tal seguir algumas diretrizes. O Capítulo 8, Análise de Conteúdo qualitativa em
Ciência Política, de Rafael Cardoso Sampaio, Paula de Oliveira Portela, Pedro
Henrique Chaves de Azevedo Beff Araújo, Tiago Borges e Murilo Brum
Alison, oferece um resumo sobre a aplicação científica da análise de con-
teúdo no contexto qualitativo. Essa técnica é uma das principais aborda-
gens para a análise de dados qualitativos na pesquisa brasileira, mas há pou-
ca discussão sobre a aplicação específica no campo. Para fechar a seção, o
Capítulo 9, Análise Textual e abordagens qualitativas em Ciência Política:
práticas combinadas e aproximações possíveis, de Lucy Oliveira e Eduardo
Pagnan Vieira, propõe refletir e identificar possíveis caminhos de
convergência entre as téc-nicas de análise e tratamento textual
computacional (CATA) e as metodo-logias qualitativas.
Na SEÇÃO IV – OUTROS ASPECTOS DA PESQUISA
QUALITATIVA, o Capítulo 10, Introdução aos softwares de Análise de Dados
Qualitativos em Ciência Política, os autores Mariana Arcos Lorencetti e Douglas
Henrique Novelli mostram as aplicações e possibilidades dos softwares de
Análise de Dados Qualitativos, popularmente chamados de CAQDAS. Dois
capítulos do livro discutem aspectos urgentes e contemporâneos da dis-
ciplina. O Capítulo 11, Questões científicas para a análise qualitativa em Ciência
Política: transparência metodológica, replicação, validação dos dados e validade, de Vítor
14
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Eduardo Veras de Sandes-Freitas e Vitor Vasquez, retoma pontos elenca-
dos na Introdução e acrescenta os procedimentos que dão nome ao capí-
tulo. Por fim, no Capítulo 12, Ética e pesquisas qualitativas em Ciência Política,
Rayza Sarmento e Rafael Adílio dos Santos apresentam de forma sucin-
ta como se desenvolveu a discussão sobre ética nas Ciências Humanas, a
adaptação desse debate no contexto nacional, a formação dos Comitês de
Ética em Pesquisa (CEPs) e os protocolos atuais de avaliação que regulam
as pesquisas envolvendo seres humanos.
A SEÇÃO V – OS NOVOS MÉTODOS QUALITATIVOS DA
CP, conta com dois textos. O Capítulo 13, Process Tracing: uma introdução ao
uso do rastreamento de processos em Ciência Política, de Patrícia Sene de Almeida,
Tainá R. Serafim e Enzo Lenine, discutem como o process tracing (ou rastrea-
mento de processos) emerge enquanto uma abordagem para explicar, de ma-
neira causal, como e por que um fenômeno se conecta a outro. Fechando o
conjunto de 14 capítulos, em Uma introdução a Análise Qualitativa Comparada
(QCA) em Ciência Política, os autores Acácio Vasconcelos Telechi, Maiane
Bittencourt e Thiago Silame mostram que o método visa propor uma abor-
dagem adequada para a análise de um número intermediário de casos, com
o objetivo de fazer inferências descritivas e causais.
Todo esse esforço coletivo resultou neste manual que buscou ser
amplo em termos de técnicas, sejam elas as tradicionais da abordagem qua-
litativa sejam aquelas apresentadas na lógica KKV. Assim, muitas vezes os
capítulos têm sobreposição e isso era esperado, afinal aspectos analíticos,
éticos e de desenho de pesquisa (seleção de participantes ou formação de
amostras, transparência e replicação) são problemas comuns a todas as téc-
nicas qualitativas.
Esperamos que gostem. Boa leitura!
Rafael Cardoso Sampaio
Carolina de Paula
15
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
INTRODUÇÃO
Olhando para os “velhos” (e muitas vezes
esquecidos) métodos qualitativos na área de
Ciência Política sem perder os “novos” de vista
Rafael Cardoso Sampaio
Carolina de Paula
Fundada numa perspectiva da estatística inferencial e dos métodos
quantitativos, a proposta de KKV defende uma ciência social que
necessita destes aportes metodológicos para lidar com a complexidade
do mundo e, principalmente, para evidenciar relações de causalidade
Lenine, Mörschbächer, 2020, p. 128
16
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Este manual parte de um pressuposto de que a Ciência Política brasileira
foi fortemente inspirada por sua contraparte estadunidense.1 Esta, por sua
vez, passou por uma revolução comportamentalista na primeira metade do
século XX, no qual a academia norte-americana rompeu com um modelo
mais descritivo, qualitativo e filosófico de análise de fenômenos políticos
(Feres Jr., 2000; Limongi, Almeida, Freitas, 2016; Lenine, Mörschbächer,
2020) e as abordagens quantitativas, baseadas em modelos formais estatís-
ticos, passaram a ser dominantes na área. “O desenvolvimento dos surveys e
testes estatísticos produziu uma onda de pesquisas na academia da nascen-
te Ciência Política nos Estados Unidos da América, influenciando poste-
riormente as academias europeias, latino-americanas, asiáticas e africanas”.
(Lenine e Mörschbächer, 2020, p. 126). Colocando, segundo os autores, mé-
todos interpretativos e descritivos em segundo plano, assim como esforços
de teorização política:
Esta abordagem metodológica e os modelos estatísticos acabaram por
predominar nos principais canais de divulgação de pesquisas na Ciência
Política norte-americana, determinando uma rota preferencial para a pro-
dução de conhecimento na disciplina (Lenine, Mörschbächer, 2020, p. 127).
Assim, inspirada nessa matriz mais institucionalista e metodológica
que vigorava na academia dos Estados Unidos, a Ciência Política no Brasil
buscou se estabelecer se distanciando de explicações mais sociológicas e
econômicas (Avritzer, 2016; Limongi, Almeida, Freitas, 2016; Leite, Feres
Jr., 2021). Dentre outras variáveis, alguns estudos destacam a importância
que a Fundação Ford teve para a consolidação de duas escolas tradicionais
no país, nomeadamente o antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio
de Janeiro (IUPERJ) (atualmente IESP-UERJ) e a Universidade Federal de
Minas Gerais (UFMG) (Forjaz, 1997; Keinert, Silva, 2010), ao facilitar que
professores realizassem o doutorado nos Estados Unidos e replicassem o
estilo e método2 em nosso território.3 A autonomia da área, dentre outras
1. Isso não significa desprezar a importância de outras escolas, como a francesa, ou mesmo da influência positiva da Flacso e
outras entidades, como relatado por Reis (2016).
2. “Vale observar, de passagem, que a primeira geração de cientistas políticos treinados nos Estados Unidos foi fortemente
influenciada pelo estrutural-funcionalismo e sua ênfase na atitude política” (Limongi, Almeida, Freitas, 2016, p. 66).
3. Novamente, segundo Reis (2016), havia um paradoxo em tais financiamentos da Fundação Ford no Brasil, pois havia de fato
uma percepção de ser uma imposição “imperialista” de tais metodologias, entretanto, ao mesmo tempo, a instituição teve papel
17
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
questões, se formou ao diferenciar a Ciência Política de outras ciências so-
ciais e mesmo humanas (Avritzer, 2016; Leite, Feres Jr. 2021; Marenco, 2016;
Reis, 2016). Assim, se construiu um campo com métodos capazes de ex-
plicar a conexão entre determinados elementos, especialmente na lógica de
inferências causais, em outras palavras, “tratava o esforço científico como
um processo próximo ao de uma empiria a das ciências exatas” (Lenine;
Mörschbächer, 2020, p. 127).
Sem nenhuma intenção de narrar a história da área no Brasil, já rea-
lizada de maneira competente anteriormente (Amorim Neto, Santos, 2015;
Avritzer, 2016; Candido, 2024; Lamounier, 1982, Lessa, 2010; Limongi,
Almeida, Freitas, 2016; Marenco, 2016; Oliveira et al., 2021; Reis, 2016),4 as-
sumiremos essa premissa: a Ciência política brasileira foi fortemente influen-
ciada e inspirada na estadunidense. Assim, apesar dos encontros com resis-
tências e dissidências de várias formas ao longo dessa jornada, afirmamos
que esse é um campo enraizado em uma base metodológica sólida, notada-
mente de natureza quantitativa (Lenine, Mörschbächer, 2020).5
Tendo isso em vista, duas publicações são importantes para enten-
der o contexto no qual este manual foi elaborado. Em primeiro lugar, em
1994, Gary King, Robert O. Keohane e Sidney Verba lançam Designing Social
Inquiry: scientific inference in qualitative research (conhecido simplesmente como
KKV). O manual teve grande impacto sobre a Ciência Política norte-ame-
ricana e consequentemente sobre diversos outros países. Os autores fazem
um verdadeiro tratado sobre a importância de desenhos de pesquisa con-
sistentes, em especial a necessidade de técnicas de pesquisas capazes de evi-
denciar a causalidade entre as variáveis. De modo mais detido, para nossos
interesses, os autores afirmam que métodos quantitativos e métodos qua-
litativos, na verdade, se diferem apenas em termos de estilos e, na prática,
métodos qualitativos também podem gerar inferências causais sob uma ló-
gica de estatística inferencial. Para tanto, os autores destacaram o uso de
ativo em combater o regime militar no Brasil.
4. Vale a pena destacar o estudo de Cândido (2024) que busca destacar o papel das mulheres na formação e história da Ciência
Política no Brasil, fatos frequentemente ignorados pelas revisões da área, incluindo, em certa medida, a realizada neste capítulo.
Futuras abordagens poderiam inclusive verificar se tal apagamento dos métodos qualitativos também não ocorreu em tais
resgates históricos.
5. Na visão de Avritzer (2016), a ciência política brasileira adotou inicialmente métodos mais quantitativos, mas que teria evoluído
na fase intermediária (985-2004) para um pluralismo metodológico. Não discordamos da afirmação, porém defendemos que
isso não se reflete nas principais discussões metodológicas da área, que ainda se enxerga como essencialmente quantitativista.
18
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
técnicas mais recentes, process tracing e qualitative comparative analysis (QCA),
como meios para dados qualitativos gerarem inferências causais robustas.
A segunda publicação, que tem um impacto para nossa discussão,
já em contexto nacional, é o artigo O calcanhar metodológico da Ciência Política
no Brasil de Gláucio Soares (2005). No texto, Soares argumenta de manei-
ra veemente que as Ciências Sociais, em geral, tiveram uma hostilidade em
relação aos métodos quantitativos e à estatística, porém que este lugar não
foi ocupado por métodos qualitativos rigorosos, e sim por uma ausência
de métodos e de rigor:
O desconhecimento dos métodos qualitativos mais rigorosos tam-
bém é característico daqueles que se definem como “qualitativos”
simplesmente por oposição a “quantitativos”. No entanto, “quali-
tativos” eles não são, porque não usam métodos qualitativos. São
apenas não-quantitativos ou anti-quantitativos (Soares, 2005, p. 1).
Ao exemplo das discussões amplamente promovidas por Fábio
Wanderley Reis (1996), ele atribuiu grande parte do problema à precarieda-
de de ensino de técnicas de pesquisa e de métodos quantitativos nos prin-
cipais programas da área (ver também Cano, 2012). Soares afirmava que
as Ciências Sociais, no geral, e a Ciência Política, em específico, formavam
maus profissionais, incapacitados em contribuir para a solução de questões
nacionais relevantes. Além disso, a falta de treinamento metodológico ade-
quado era uma das causas de nossos pesquisadores não conseguirem publi-
car em periódicos internacionais de alto impacto.
O texto causou grande impacto na área, seja pelos seus fortes argu-
mentos, seja pela ausência de dados nos argumentos levantados. Uma pri-
meira resposta ao texto veio através da pesquisa de Oliveira e Nicolau (2012),
que analisaram as disciplinas ofertadas no IUPERJ (1969) e na Universidade
de São Paulo (USP) (1974), em quatro décadas. Nesses 40 anos, foram ofer-
tadas 1113 disciplinas nos dois programas, uma média de aproximadamen-
te 28 disciplinas por ano. Em disciplinas metodológicas, os autores identifi-
caram 119 cursos que privilegiaram o ensino de estatística (50% da oferta),
ensino de disciplinas de metodologia e desenho de pesquisa (14%) e com
19
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
10%, apareceu o ensino de métodos não-quantitativos. Já as disciplinas so-
bre epistemologia das ciências sociais representavam 5% do total. Para eles,
é questionável que haja um volume alto de cursos de métodos estatísticos
sem o ensino da finalidade de tais métodos. Os autores concluem que:
o processo de formação dos estudantes de Ciência Política mostra que
os estudantes não são expostos às diversas orientações metodológicas.
Estes resultados aproximam-se daqueles encontrados por pesquisado-
res que estudaram os programas de pós-graduação em outros países, so-
bretudo nos Estados Unidos. Como vimos na primeira seção, nesse país
também não existe uma formação sistemática em métodos e metodolo-
gia de pesquisa. Quando existem disciplinas de métodos, elas ensinam,
exclusivamente, métodos estatísticos, ficando preteridos os métodos não
quantitativos, sobretudo os qualitativos (Nicolau, Oliveira, 2012, p. 19).
Em um segundo esforço, Nicolau Oliveira (2012) analisaram 858
artigos de cientistas políticos publicados em cinco das principais revistas de
ciências sociais do Brasil (BPSR; Dados; Novos Estudos, Opinião Pública
e RBCS), entre os anos de 1966 e 2013. Para nossos interesses, destacamos
que os autores classificaram os artigos em três tipos: não empírica, empíri-
ca e análise histórico-descritiva.6 Nas primeiras décadas avaliadas, predomi-
navam os artigos não empíricos ou baseados em análises histórico-descriti-
vas, o que se inverte a partir da década de 1990. Na década de 2010, perto
de 70% das publicações são identificadas como empíricas. Analisando os
artigos, afirmam que a maior parte dos métodos empregados são estatísti-
cos. Ainda que se trate de estatísticas descritivas, como frequências simples
e porcentagens, os autores detectam usos mais sofisticados a partir dos anos
2000. Observam que a análise de conteúdo e as tipologias também estão
presentes, em menor número. Modelos formais e técnicas de história oral
aparecem como residuais na avaliação dos autores.
Outra resposta ao texto de Soares (2005) pode ser vista na pesqui-
sa de Barberia, Godoy e Barboza (2014), que estudaram os currículos de
6. “Classificamos como análise histórico-descritiva os artigos cujo objetivo é descrever eventos e organizações, mas que não
utilizam métodos de coleta e análise de dados” (Oliveira, Nicolau, 2012, p. 11). Em texto posterior, Nicolau e Oliveira (2017)
incluem o periódico Lua Nova e atualizam os dados até o ano de 2015, mas os resultados gerais são similares.
20
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
programas de pós-graduação em Ciência Política entre 1998 e 2012. As au-
toras evidenciam que há uma carência de cadeiras inovadoras e diferencia-
das, como Álgebra, Econometria e métodos para análise de dados categó-
ricos, além de baixa oferta de tópicos avançados e disciplinas focadas em
análises de dados e modelos para variáveis dependentes. Há um notável
desequilíbrio na oferta de disciplinas, com uma predominância de técnicas
quantitativas em detrimento de qualitativas, apesar da ampla aplicação da-
quelas na produção científica.
Ainda, a pesquisa aponta que os cursos mais antigos, predominante-
mente localizados no Sudeste do país, são os que disponibilizam disciplinas
focadas em modelos formais e técnicas qualitativas. Esse fenômeno é ex-
plicado por um processo endógeno de institucionalização, onde programas
acadêmicos, inicialmente com poucos docentes, alunos e com um currículo
restrito, evoluem ao longo do tempo para se tornarem mais institucionali-
zados e diversificados. Corroborando a hipótese de endogenia, programas
maiores e mais institucionalizados possuem um maior número de docen-
tes com formação diversificada, proporcionando uma gama de disciplinas
variadas, enquanto programas menores tendem a oferecer uma formação
“básica”, com foco em disciplinas quantitativas.
Já o trabalho de Neiva (2015) levantou o uso de dados e métodos
quantitativos em 22 revistas brasileiras de ciências sociais no período de
1997 a 2012. O autor avaliou que o uso de estatística avançada aumentou
de 3,3% em 1997 para 7,6% em 2012. Para ele, ainda que haja crescimen-
to, o “quadro geral permanece o mesmo: as ciências sociais no país conti-
nuam primordialmente não quantitativas” (Neiva, 2015, p. 71).
Mais recentemente, o estudo de Figueiredo (2021) avaliou 3.409
resumos de artigos publicados em seis importantes periódicos nacionais em
Ciência Política entre 1993 e 2019. Os autores demonstram que houve cres-
cimento de palavras que remetem a algum tipo de inferência causal e que
o número de palavras relacionadas a metodologia (quantitativa ou qualita-
tiva) cresceu sistematicamente ao longo dos anos e o ritmo de crescimen-
to das duas abordagens é semelhante, entretanto apontou que na aborda-
gem qualitativa ainda está essencialmente restrita à utilização de entrevistas.
21
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Na mesma direção, a pesquisa de Leite e Feres Jr. (2021), baseada
em 567 artigos presentes em 23 periódicos nacionais A1, A2 e B1 listados
no Qualis da área de Ciência Política e Relações Internacionais da Capes,
demonstra um cenário dividido. Por um lado, 27,6% são baseados apenas
em evidências bibliográficas, mas por outro a estatística é usada em 38,6%
da produção. “Considerando-se trabalhos com evidências híbridas, a pro-
porção de utilização de metodologias quantitativas chega a 38,8%” e, além
disso, “metade da produção trabalha com argumentos causais e 40,9% têm
propósito nomotético” (Leite, Feres Jr., 2021, p. 23). Destacamos ainda
que 32,7% dos trabalhos são de natureza qualitativa e, segundo os autores,
“não apresentam qualquer preocupação em discutir método” (Leite, Feres
Jr., 2021, p. 23). Finalmente, reforçando o argumento do ethos quantitativo
da área, os autores concluem que “os periódicos que aderem a um padrão
de cientificidade ortodoxa mais claramente são os mais identificados com
a Ciência Política” (Leite e Feres Jr., 2021, p. 25).
Sainz, Silva, Codato (2024) analisaram os títulos, resumos e pala-
vras-chave de 1.849 trabalhos de conclusão na Ciência Política, defendi-
dos entre 2013 e 2020. Em termos metodológicos, os autores concluem que
se pode categorizar teses e dissertações em dois domínios distintos, porém
conectados: o empírico, vinculado à coleta de “dados”; e o teórico, ligado
à “interpretação”. A seleção de verbos comumente usados em cada domí-
nio ilustra tal diferenciação. No âmbito empírico, verbos como “identifi-
car”, “analisar” e “explicar” são frequentemente empregados, enquanto no
contexto teórico, “examinar”, “compreender” e “interpretar” são os ter-
mos mais prevalentes. Relativamente às metodologias de pesquisa, os estu-
dos de caso parecem ser os mais recorrentes, contudo, mais investigações
são necessárias para confirmar essa observação. Outros achados também
indicam a presença de comunidades qualitativas.
Com base nessa revisão narrativa de artigos sobre a área no país,
sem pretensão de ser exaustiva, podemos tirar algumas conclusões. Houve
avanços na oferta de disciplinas e treinamento metodológico, notadamen-
te em técnicas quantitativas e também no uso e apresentação de técnicas de
pesquisa nos artigos científicos, especialmente no que tange revistas mais
22
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
identificadas com o ethos da Ciência Política. Outro destaque é que, apesar
do ethos quantitativo, diversos estudos mostram que há razoável volume de
estudos qualitativos na Ciência Política e nas Ciências Sociais como um todo.
Há indicativos de melhorias sistemáticas em várias searas, especialmente em
termos da discussão e aplicação de métodos quantitativos na área.
Todavia, argumentamos, parece que uma parte importante da críti-
ca realizada por Soares (2005) tem sido ignorada. Soares não apenas deno-
tou que havia pouco treinamento e uso de métodos quantitativos. Boa parte
do seu texto se centra na questão da falta de rigor dos métodos qualitativos.
Para ele, muitos trabalhos ditos qualitativos são, apenas, trabalhos não-quan-
titativos, esquecendo-se que há métodos qualitativos rigorosos e confundin-
do ensaísmo com trabalhos que usam métodos qualitativos. Nesta seara, ele
acredita que os métodos qualitativos são usados geralmente pela tradição
em certas áreas, como Antropologia e Sociologia, e que o grupo que usa e
efetivamente discute os métodos qualitativos são uma minoria nas Ciências
Sociais (Soares, 2005, p. 32).
Quase 20 anos após a publicação, não vemos indicações claras de
que a situação tenha mudado no eixo qualitativo. Em suma, tanto o treina-
mento metodológico quanto a discussão epistemológica não têm sido rea-
lizados na área de maneira adequada no que tange a pesquisa qualitativa.7
Em avaliações similares, Amorim Neto e Santos (2015) afirmam que hou-
ve a consolidação do uso sistemático e sofisticado de métodos estatísticos
enquanto se confirma a escassa aplicação bem fundamentada de métodos
qualitativos. Já Szwako, Dowbor e Pereira (2022) afirmam que o problema
apontado por Soares (2005) da falta de treinamento metodológico adequa-
do persiste, incluindo uma grande dificuldade de conectar a teoria aos mé-
todos empregados, o que denota uma necessidade de melhoria geral em
questões metodológicas nas Ciências Sociais. Entretanto, os autores ressal-
tam a seguinte questão:
o conjunto dos métodos e técnicas de cunho qualitativo, parece-nos, merecem
maior atenção. Apesar da existência de vasta literatura internacional sobre
7. Seria necessária uma pesquisa aplicada para comprovar, porém a impressão é que mesmo as principais escolas de treinamento
metodológico no Brasil, a saber o MQ da UFMG e a Escola de verão de métodos da USP, também priorizam nitidamente técnicas
quantitativas, sendo que geralmente a parte qualitativa é mais voltada para process tracing, QCA e métodos mistos.
23
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
reflexões metodológicas a respeito dos dilemas e desafios de operacionaliza-
ção dos mais diversos métodos propriamente qualitativos, sua mobilização
é, em boa parte de nossas Ciências Sociais, tratada como se eles fossem me-
ramente intuitivos ou, às vezes, uma questão de gosto. Isso se expressa, por
exemplo, na corriqueira ausência de seção dedicada a eles em artigos basea-
dos em abordagens qualitativas ou, ainda, no recurso pouco reflexivo à téc-
nica das entrevistas semiestruturadas (Szwako, Dowbor, Pereira, 2022, p. 17).
A pesquisa realizada pelos dois autores e outros colegas de diferentes
universidades (Sampaio et al., 2024)8 buscou evidenciar isso. Inicialmente, o
estudo verificou 43 revistas indexadas na SciELO, incluindo as mais iden-
tificadas ao ethos da Ciência Política e outras em áreas de fronteira, como
estudos urbanos, Ciências Sociais, Comunicação, Direito, História, Políticas
Públicas, Relações Internacionais e Saúde, além de revistas ligadas a temá-
ticas específicas, como gênero e raça. Posteriormente, além dos trabalhos
que avaliam somente as pesquisas presentes na SciELO, a pesquisa também
verificou 33 revistas que não estão presentes na Scielo, mas que são iden-
tificadas como revistas da área ou de áreas próximas. Para garantir que os
artigos de fato tratassem sobre o uso de métodos qualitativos em Ciência
Política, os pesquisadores elaboraram dicionários de pesquisa tanto para as
principais técnicas qualitativas quanto para um conjunto de identificadores
de temáticas e objetos do campo.
Na SciELO, foram coletadas 55.829 entradas nos 42 periódicos,
sendo que 24.050 estão relacionadas à pesquisa qualitativa, equivalente a
43,49% do total. Após aplicar o filtro, para excluir editoriais e resenhas, fica-
ram 23.213 entradas. Por sua vez, ao aplicar o filtro do dicionário de ciência
política no texto, restaram 19.803 referências. Na sequência, foi aplicado o
dicionário qualitativo nos títulos, restando 736 artigos. Após leitura manual
dos títulos e resumos, os pesquisadores concluíram que 190 artigos buscam
discutir os métodos qualitativos. Desses, 13 mencionam Ciência Política no
título ou resumo.
Nas revistas não indexadas pela SciELO foram capturadas 1.267
8. Aproveitamos para agradecer aos professores Leonardo Nascimento (UFBA) que ajudou na coleta de dados da Scielo e ao
professor Denisson Silva (UFPE) que fez a seleção automatizada de textos para este estudo.
24
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
referências. Após a verificação do dicionário qualitativo em título e resu-
mos, resultaram 239 entradas. Após a leitura qualitativa de título e resumo,
os pesquisadores concluíram que 45 artigos abordam em maior ou menor
medida os métodos qualitativos.
Os números, além de assustadores, reafirmam os achados anterio-
res de Lenine e Mörschbächer (2020) e Leite, Feres Jr. (2021): existe uma
clara hierarquia do conhecimento na Ciência Política brasileira que repro-
duz a mesma lógica existente na norte-americana, que privilegia abordagens
quantitativas, incluindo nos periódicos de mais impacto no país e “faz com
que os debates atuais centrem-se especificamente nos seus efeitos nos siste-
mas de incentivos e constrangimentos na academia” (Lenine, Mörschbächer,
2020, p. 136). Assim, “o risco, afinal, é de um cientificismo e de um ‘me-
todologismo’ exagerado, operando contra a concepções mais inclusivas de
cientificidade na Ciência Política” (Leite, Feres Jr., 2021, p. 44).
É ainda mais preocupante quando vemos que o debate é significati-
vamente inferior nas revistas presentes na SciELO9, portanto, aquelas que
têm mais visibilidade, impacto e, claro, o reconhecimento pelos pares. O
conjunto de pesquisas aqui acionadas indica que os pesquisadores e as pes-
quisadoras “qualitativistas” necessitam mandar suas reflexões para revistas
com menor visibilidade, impacto e Qualis Capes, e que consequentemen-
te tem nota inferior (ou nula) para a sua avaliação pessoal e para a avaliação
de seu programa de pós-graduação. Forma-se, portanto, um círculo vicioso,
que dificulta o debate sobre métodos qualitativos com necessária atenção.
As diferentes pesquisas parecem indicar que o mesmo acontece em temas
considerados fora do mainstream, como gênero, raça, comunicação políti-
ca, movimentos sociais, dentre outros.10, ou ainda:
é natural que uma tradição foque ou reconstrua a fração do real mais ade-
quada a ela, mas tem-se um problema quando, em um contexto de afirma-
ção disciplinar, em particular como ciência, essas tradições acabem sen-
do confundidas com a cientificidade em si, de forma unívoca. A existência
9. Também o estudo de Tavares e Oliveira (2016) ao estudar as principais revistas A1 e A2 da área conclui que a visão de poder
fartamente mais apresentada nesses periódicos é aquela de corrente neoinstitucionalista, especialmente em sua versão da escolha
racional, mais afeita a métodos quantitativos.
10. A título de exemplo, podemos citar os estudos de Cândido, Feres Jr, Campos (2020) e Cândido (2024) que demonstram severas
desigualdades na Ciência Política brasileira, notadamente em termos de gênero e raça.
25
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
eficaz de uma ortodoxia faz com que os trabalhos que não empregam
seu arranjo teórico, seus métodos – e seus objetos e temas – sejam toma-
dos, na prática, como “menos científicos” ou mesmo “não científicos”.
Isto constitui um claro pré-julgando do seu valor heurístico que restrin-
ge as possibilidades científicas no campo (Leite, Feres Jr., 2021, p. 43).
Dito de outra forma, o campo da Ciência Política no Brasil não con-
seguiu iniciar um debate vibrante sobre métodos qualitativos, apresentando
sérias dificuldades para incorporá-los ao núcleo da disciplina. Não menos
importante, quando realiza tais debates metodológicos e epistemológicos, a
área se concentra especialmente sobre os “novos” métodos qualitativos e a
busca por inferências causais, mesmo quando se trata de métodos mistos.11
Nesse sentido, vale retomar a questão de KKV. Apesar de sua ine-
gável influência, houve também discussões e mesmo apontamentos em ou-
tras direções (Ercan, Vromen, 2023; Mcnabb, 2015; Schram, Caterino, 2005).
Consoante Perissinotto e Nunes (2023, p. 10), a obra Rethinking social inquiry,
coletânea organizada por Brady e Collier (2010), seria um dos principais es-
forços nesse sentido, uma vez que os autores não questionavam a produção
de inferências causais e descritivas ancoradas em dados e desenhos de pes-
quisa sólidos, porém pelas “especificidades e vantagens próprias dos méto-
dos qualitativos, [eles] não poderiam ser simplesmente ser julgados a par-
tir do quantitative template que KKV lhes impõem” (Perissinotto, Nunes,
2023, p. 10, grifos dos autores).
Resumidamente, Perissinotto e Nunes (2023) destacam algumas
dessas especificidades e vantagens levantadas por Brady e Collier (2010).
Segundo os autores, é incomum que as avaliações qualitativas se baseiem
em coleções de bancos de dados, pois visam a observar processos causais,
geralmente ligados a evidências resultantes de contextos históricos comple-
xos e seus mecanismos:
11. Um exemplo emblemático são as diferentes aproximações a respeito do uso de estudos de caso na Ciência Política (uma abor-
dagem de destaque na área segundo Sainz, Silva, Codato, 2022), que passam a ser notadamente úteis, quando geram inferências
causais (Sátyro, D’Albuquerque, 2020; Machado, 2021; Maia, Maia, 2022; Rezende, 2011, 2022). Como esse texto reitera múltiplas
vezes, não se trata de criticar a possibilidade de estudos de caso ou de outras técnicas de gerarem inferências causais (ver o exemplo
de Gomes Neto, Albuquerque, Silva, 2024 que tratam dos dois tipos), mas concordamos com Leite e Feres Jr. que essa defesa
excessiva da necessidade de gerá-las “acaba transformando causalidade em uma premissa assimilada e confundida com a técnica
que se está empregando – um emprego que eventualmente assume ares de militância” (2021, p. 44).
26
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Nesse sentido, não importaria tanto a quantidade de evidências, mas sim
sua qualidade. Esse tipo de evidência pressupõe um profundo conheci-
mento do contexto histórico e social em que o evento que se pretende
explicar ocorre, algo que nem sempre (na verdade, quase nunca) acom-
panha as pesquisas conduzidas por pesquisadores que aderem exclusi-
vamente aos métodos quantitativos (Perissinotto, Nunes, 2023, p.11).
Em segundo lugar, é importante notar que a pesquisa qualitativa
apresenta uma limitada capacidade de aleatorização dos casos investigados,
sendo sua preferência direcionada para a seleção criteriosa de casos estra-
tegicamente relevantes que se alinham com a teoria adotada pelo pesquisa-
dor. Nesse sentido, a teoria desempenha um papel central na orientação da
escolha dos casos, uma vez que a pesquisa qualitativa visa a explanação de
resultados específicos em contextos particulares, em contraposição à for-
mulação de generalizações abstratas da pesquisa quantitativa. Além disso,
os estudos com amostras reduzidas (N pequenos) possibilitam uma análise
minuciosa dos casos em estudo, reconhecendo a intenção de desenvolver
generalizações de natureza universal e viabilizando a rigorosa avaliação de
teorias preexistentes (Perissinotto, Nunes, 2023; Gomes Neto, Albuquerque,
Silva, 2024; ver também Brady, Collier, 2010).
Em terceiro lugar, é fundamental destacar a existência de estraté-
gias analíticas capazes de substancialmente elevar o rigor das investigações
com amostras reduzidas, bem como aumentar a confiabilidade das inferên-
cias causais por elas realizadas. A adoção de um delineamento de pesquisa
comparativa, particularmente quando incorpora grupos de controle (ou seja,
casos negativos), pode ampliar consideravelmente a capacidade de formu-
lar proposições causais. Isso viabiliza, no mínimo, a identificação e/ou ex-
clusão de causas necessárias e suficientes. Enquanto a pesquisa de natureza
quantitativa frequentemente resulta em dados que comumente são catego-
rizados como “evidências de correlações estatísticas”, os estudos de caráter
qualitativo enriquecem o campo das evidências ao proporcionarem refle-
xões e descobertas sobre os mecanismos causais fundamentados em pro-
cessos (Brady, Collier, 2010; Perissinotto, Nunes, 2023).
27
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Portanto, o objetivo deste capítulo - ou mesmo deste manual - não
é negar que os métodos qualitativos sirvam também para fazer inferências
causais, o que se reforça pelo manual apresentar capítulos de process tracing e
QCA. Entretanto, se algo em torno de 40% das pesquisas presentes na área
são qualitativas, um grande e importante debate está sendo ignorado. Não
é preciso rechaçar os métodos qualitativos pensados para gerar inferências
causais, porém há outras discussões acontecendo no mundo da pesquisa
qualitativa que não se restringem a isso. Enquanto pesquisas quantitativas
vivem uma crise da replicabilidade (Arel-Bundock, 2022),12 métodos quali-
tativos vivem especialmente o desafio de aumentar o rigor das aplicações e
a transparência dos procedimentos (Moravcsik, 2010; 2014), enquanto pre-
cisam manter a flexibilidade natural de sua metodologia (Boas, 2023), ainda
atentando-se para as questões éticas envolvidas (Mcnabb, 2015). Incluindo
nessa seara as preocupações genuínas ao método, como validação de dados,
triangulação, saturação de amostra e de análise, entre tantas outras.
Diferentemente do caso norte-americano, que precisou de um mo-
vimento como a Perestroika (Monroe, 2005; Gunnell, 2015) para denotar a
importância do uso de outros métodos, a ciência política brasileira já faz um
uso abundante de métodos qualitativos. Entretanto, muitas vezes, as avalia-
ções da área são realizadas por pesquisadores quantitativistas ou sob a égi-
de de tal método. Se estamos usando modelos estatísticos mais sofistica-
dos, isso seria um indicador inquestionável da área estar evoluindo e ficando
mais “científica”. Ou nas palavras de Leite e Feres Júnior (2021) “há ‘me-
lhoras’ na situação da disciplina, o que, para eles, traduz-se em uma maior
adoção da concepção ortodoxa de cientificidade pelos praticantes da Ciência
Política brasileira” (Leite, Feres Jr., 2021, p. 20).
Esse aumento de rigor nas aplicações qualitativas deve vir das dis-
cussões epistemológicas e metodológicas, porém invariavelmente também
carece de materiais acadêmicos nativos dedicados ao ensino de suas técni-
cas. Desde a publicação do texto, “a utilização de métodos qualitativos na
Ciência Política e no Marketing Político”, de Luciana Veiga e Sônia Maria
12. Não é o objetivo deste texto, mas várias reflexões acerca dos métodos quantitativos reconhecem que frequentemente os
modelos se tornam mais sofisticados estatisticamente, mas que haveria um uso injustificado, tolo, formal e acrítico dessas técnicas
(Leite e Feres Júnior, 2021; Reis, 2016), que, consoante Cervi, “não raras vezes transforma a ferramenta estatística, que deveria
servir como forma de acesso à realidade social, em finalidade última da pesquisa empírica” (2009, p. 125).
28
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Guedes Gondim, em 2001, são poucos os artigos, capítulos e, especialmen-
te, manuais dedicados à temática na área.
Muita coisa mudou nesses últimos 20 anos, obviamente, os textos
precisam de atualizações. Vimos o crescimento exponencial na velocidade
de processamento, na capacidade de armazenagem e desenvolvimento de
softwares que permitem ler, codificar e classificar grandes quantidades de in-
formações. Sempre haverá espaço (e necessidade) para questões e respos-
tas inalcançáveis pelo campo quantitativo. Frequentemente isso não vai
demandar a construção de desenhos de pesquisas que gerem inferências cau-
sais (Ercan, Vromen, 2023; McNabb, 2015; Schram, Caterino, 2005), mes-
mo observando-se as vantagens apontadas por Perissinotto, Nunes (2023)
e Rezende (2011).
Consoante Ercan e Vromen (2023), os métodos qualitativos de-
sempenham um papel crucial na pesquisa em ciência política, uma vez que
se concentram na compreensão das significações subjacentes a intenções,
ações, objetos e fenômenos. Os pesquisadores que optam por abordagens
qualitativas podem obter informações relevantes sobre o significado que
as pessoas atribuem às suas ações em contextos específicos. Além disso,
a explicação e a compreensão do comportamento social e político huma-
no não podem ser desvinculadas do contexto. Nesse sentido, o pesquisa-
dor qualitativo se esforça para transmitir uma imagem completa, muitas ve-
zes referida como “descrição densa”, por meio de análises aprofundadas
de estudos de caso ou comparações de “pequeno-N”, respondendo a per-
guntas de pesquisa descritivas que começam com “o quê” (Gomes Neto,
Albuquerque, Silva, 2024).
Além disso, por meio dos métodos qualitativos, os pesquisadores
também podem abordar questões explicativas relacionadas ao “porquê” e
ao “como”. O entendimento dos processos, instituições e atores dentro e
fora dos governos constitui a base da investigação política. Isso pode incluir
questionamentos sobre como as decisões coletivas são tomadas, quais fon-
tes de legitimidade são invocadas e como a democracia e alternativas à de-
mocracia,13 como o autoritarismo, são conceituadas e praticadas. Portanto,
13. Segundo Leite e Feres Jr., “a atenção à democracia vai dando lugar à atenção às instituições democráticas estabelecidas.
Ignorando fatores exógenos e sua historicidade, incorre-se em um “oficialismo ontológico, que insula e justifica as instituições
29
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
os métodos qualitativos desempenham um papel essencial na construção de
um quadro abrangente e enriquecedor para a pesquisa em ciência política,
permitindo uma compreensão mais profunda e contextualizada dos fenôme-
nos políticos (Ercan, Vromen, 2023; ver também Leite, Feres Júnior, 2021).
As oportunidades de pesquisa e exploração são virtualmente ilimita-
das. Batista e Domingos (2017) demonstram isso de maneira muito prática
para o campo do monitoramento e análise de políticas públicas. As autoras
denotam a importância das técnicas qualitativas de observação, entrevista
e grupo focal. Denotam quatro questões que justificam sua importância:
1) parte da perspectiva dos atores para reconstruir a política; 2) identi-
fica impactos diferenciados sobre diferentes grupos e indivíduos; 3)
analisa dimensões não diretamente quantificáveis do impacto das po-
líticas; 4) explica por que em algumas situações as políticas atingem os
seus objetivos e em outras não (Batista, Domingos, 2017, p. 14-15)
Tais princípios são válidos para pensar nas diversas subáreas da
Ciência Política. Por exemplo, a pesquisa de comunicação política no Brasil
se baseava, inicialmente, no Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral e co-
merciais (spots) de televisão (Figueiredo et al., 1997) e, posteriormente, nos
estudos de websites e redes sociais online para compreender as estratégias
das campanhas eleitorais via análises de conteúdo quantitativas, análises de
redes e estatística descritiva (Aldé, Chagas e Santos, 2013). Recentemente,
outros aspectos da comunicação política ganharam espaço, por exemplo, os
estudos sobre os profissionais de campanha (Ituassu et al., 2023; Marques,
Carneiro, 2018) ancorados em entrevistas em profundidade. Na mesma dire-
ção qualitativa, na área de comportamento eleitoral, Borba, Veiga e Martins
(2018) fizeram uso de grupos focais para compreender a recepção da pro-
paganda negativa nas eleições presidenciais de 2014. Já sobre a decisão do
voto parlamentar, Paula e Nicolau (2018) usaram a técnica dos grupos fo-
cais para estudar as percepções dos eleitores cariocas sobre a campanha de
deputados federais e estaduais e conforme a revisão realizada por Sarmento,
Massuchin e Mendonça (2021), esta subárea apresenta bastante riqueza de
democráticas estabelecidas” (2021, p. 40).
30
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
abordagens quantitativas e qualitativas.
Da mesma forma, desde as jornadas de 2013, o Brasil passou por
uma série de conflitos políticos tanto no âmbito político formal quanto no
âmbito social, incluindo (mas não se restringindo a operação Lava Jato, ma-
nifestações contra e a favor do impeachment de Dilma Rousseff, a ascen-
são da extrema direita e de novas formas de populismo, as eleições de Jair
Bolsonaro desafiando os principais modelos da área, o conflito institucional
enquanto forma de governar (e o desafio ao modelo original de presiden-
cialismo de coalizão), a destruição de formas de participação institucional,
o descaso com o meio ambiente e, claro, o definhamento da esfera pública,
fortemente influenciada por plataformas de redes sociais e seus algoritmos,
que facilitou a proliferação de discurso de ódio, desinformação e negacio-
nismo científico, notadamente no período da maior pandemia vivenciada
pela humanidade no último século. Sendo que tudo isso, entre outras coi-
sas, reforçou a polarização política do país, demandando que pesquisado-
res e pesquisadoras usassem métodos quantitativos, qualitativos e digitais
em suas análises (e.g. Gohn, 2019; Limongi, 2023; Lynch, Cassimiro, 2022;
Mendonça, Sarmento, 2023; Nobre, 2023; Nicolau, 2020; Oliveira, 20189;
Pinheiro-Machado, Feixo, 2019; Tatagiba, Almeida, Lavalle, Silva, 2022).
Notadamente, as eleições presidenciais brasileiras de 2018 e 2022
deram outras demonstrações das limitações de surveys tradicionais para os
analistas do comportamento eleitoral. Como explicar o voto na extrema di-
reita somente por variáveis tradicionais do campo, como percentuais e mo-
delos estatísticos de avaliação do governo e economia? É outro caso em
que as pesquisas qualitativas, como grupos focais, entrevistas em profundi-
dade, etnografias e netnografias, foram capazes de lançar luz sobre diver-
sos fatores que nos ajudam a compreender atores, comportamentos e ins-
tituições (Solano, Rocha, 2019; Cesarino, 2020; Piaia, Alves, 2020; Paula,
Feres Jr., 2021).
Em que pese os esforços recentes da área em apresentar e discu-
tir metodologias (Bolognesi et al., 2022; Szwako, Dowbor, Pereira, 2022;
Emmendoerfer, Gomes 2023; Maia, 2023; Perissinotto, Nunes, 2023), ain-
da existe uma lacuna sobre a aplicação de técnicas qualitativas pensadas para
31
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
os problemas da Ciência Política,14 especialmente sobre os “velhos” méto-
dos, como entrevistas em profundidade, grupos focais, etnografia e técnicas
de análise qualitativa. Simultaneamente, isso não significa que essas diferen-
tes técnicas e abordagens de pesquisa não possam ser enriquecidas com os
métodos digitais (Rogers, 2013), que já se apresentam de forma considerá-
vel nas teses e dissertações da área (Sainz, Silva, Codato, 2022).
Em um mundo cada vez mais digital, inundado por dados de todas
as naturezas, e vivenciando mudanças substanciais nas relações de trabalho,
nos regimes democráticos e políticos, dentre outras várias e rápidas trans-
formações das sociedades contemporâneas, a demanda por avaliações mais
robustas e mais holísticas dos fenômenos contemporâneos torna-se grada-
tivamente maior. Haverá demanda crescente por pesquisadores capazes de
dominar e explicar os dados, qualitativos e quantitativos. Concordamos com
a vasta literatura que aponta que a disputa entre quanti e quali está mais que
superada (Cano, 2012; Cervi, 2009; Soares, 2005).
O momento é para evoluirmos juntos enquanto campo de pesqui-
sa e na geração de conhecimento, porém é preciso sair do discurso e par-
tir para a prática. Nossa premissa é justamente reconhecer a existência e
importância da pesquisa qualitativa na Ciência Política brasileira, fornecen-
do subsídios para aplicações mais sofisticadas e rigorosas de tais técnicas,
além de uma efetiva aplicação de métodos mistos (Batista, Domingos, 2017;
Paranhos et al., 2016; Silva, 2015).
Desta maneira, este manual está longe de ser o fim de qualquer de-
bate.
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41
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
01
Pesquisa qualitativa em políticas públicas:
entendendo os problemas públicos para
desenhar melhores ações públicas
Regina Luna Santos de Souza
Julia Maurmann Ximenes
42
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
O objetivo desta coletânea é prover a lacuna na Ciência Política de material
acadêmico sobre o ensino e técnicas envolvendo Metodologia Qualitativa,
diante da influência positivista na área, com vistas a eliminar o predomínio
desse viés na coleta e interpretação dos dados para alcançar a cientificida-
de (Pires, 2008; Fischer, 2016; Mota, 2021).
Nosso argumento neste capítulo é o de que a pesquisa qualitati-
va em Ciência Política, partindo da experiência com pesquisas em políti-
cas públicas, é tão essencial quanto realizar pesquisas quantitativas deven-
do, na maior parte das vezes, serem balanceadas para melhor compreensão
do objeto analisado.
De fato, a pesquisa qualitativa não se resume ao uso de determina-
das técnicas, mas exige do pesquisador o desenvolvimento de capacidades
para fazer a imersão no objeto e compreender sua natureza para além do
que as hard sciences ensinam e treinar o olhar do pesquisador para detectar
as nuances não observadas por aquele meio do fenômeno a ser estudado.
Dessa forma, construir a pergunta de pesquisa (“o que quero estudar?”) é o
primeiro e o mais essencial passo para o processo do desenho da pesquisa
– e só se constroem boas e viáveis perguntas de pesquisa após reflexão so-
bre a realidade observada e muita discussão entre pares, visando a construir
uma visão compartilhada do problema. Neste sentido, o presente capítulo
buscará demonstrar como a abordagem qualitativa pode ser um importan-
te aliado no desenho da pesquisa desde o processo de ensino-aprendizagem
de disciplinas de Metodologia.
A premissa é de que a metodologia qualitativa demanda uma pers-
pectiva de desenho colaborativo da pesquisa, ensejando um espaço de idea-
ção e cocriação que se concentra no “que” se quer estudar, “por que é im-
portante estudar tal fenômeno” para na sequência tratar do “como” se
constrói a pesquisa para, só depois, tratar do tipo de dado a ser coletado,
sua forma de tratamento e como construir as evidências necessárias a par-
tir desses dados (Pires, 2008). Trata-se de buscar compreender o objeto de
estudo – a ação pública – em seus elementos distintivos: a problematiza-
ção das questões públicas; os processos; as instituições; e os atores dentro
43
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
e fora dos governos, contextualizando os fenômenos políticos. A perspec-
tiva do processo de política pública a partir da observação que quem está
trabalhando dentro do sistema (Wu et al., 2014).
Para tanto, o presente capítulo abordará a aplicabilidade da metodo-
logia qualitativa a partir da experiência docente das autoras nos Programas
de Pós-Graduação Stricto Sensu Profissional em uma Escola de Governo: a
Escola Nacional de Administração Pública (Enap). Os programas em que as
autoras atuam têm como principal linha de pesquisa a política pública, seja
do ponto de vista do “Estado em Ação”, seja do ponto de vista de cons-
trução de elementos para o monitoramento e a avaliação das ações públi-
cas. A escolha pela experiência de um programa profissional se justifica pela
conexão entre o “pesquisar”, o “fazer docente” e a intervenção no campo
profissional do corpo discente (por definição, em atuação efetiva e estável
na Administração Pública).
Apesar das controvérsias sobre a criação de Mestrados e Doutorados
Profissionais no Brasil ter se concentrado na diferença entre estes e os pro-
gramas acadêmicos, o momento atual implica discutir, também, possibili-
dades de incentivo à pesquisa (Barata, 2020; Fischer, 2005).
No âmbito de um programa profissional, no caso em específico da
Enap, este incentivo decorre de uma disciplina com desenho atrelado à de-
finição do problema público de pesquisa do corpo discente. De modo ge-
ral, o objetivo principal dos candidatos ao programa é capacitar-se teórica e
metodologicamente para melhor compreender os problemas públicos so-
bre os quais atuam e, dessa forma, propor formas mais efetivas de desenho
de ações públicas voltadas para suas áreas de atuação.
Para atender a esse objetivo, a questão inicial é: Como conduzir a pes-
quisa aplicada e qualitativa nos programas profissionais da área de Ciência
Política e Relações Internacionais? Para responder esta pergunta, apresen-
taremos inicialmente o perfil dos programas profissionais, incluindo a atua-
ção docente. Em seguida, tratamos das peculiaridades da área dos progra-
mas em Ciência Política e Relações Internacionais, com foco na subárea de
Políticas Públicas, salientando o perfil multidisciplinar dos cursos. Por fim, a
experiência docente no programa da Enap, com foco no desenho qualitativo
44
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
das pesquisas do corpo discente.
O olhar sobre a prática docente é conduzido utilizando os atores
envolvidos (corpo docente e discente) nos contextos profissionais, nos in-
teresses envolvidos, e na influência multidisciplinar no campo de pesqui-
sa em análise.
1. O papel docente no desenho da pesquisa qualitativa
O Mestrado/Doutorado Profissional (MP/DP) no Brasil está em
expansão, mas ainda imerso em debates sobre as práticas pedagógicas e
o formato de pesquisa que os diferenciam dos mestrados e doutorados
acadêmicos.
A Portaria Normativa Capes nº 60, de 20 de março de 2019, define
como objetivos dos cursos de mestrado e doutorado profissionais a capa-
citação de profissionais qualificados para “práticas avançadas, inovadoras
transformadoras dos processos de trabalho” além de transferir conhecimen-
to para a sociedade de forma a atender às demandas sociais e econômicas.
As habilidades e competências dos discentes devem estar conec-
tadas à intervenção em sua prática profissional, contribuindo ainda para a
agregação de conhecimentos que impulsionem a produtividade em empre-
sas, organizações públicas e privadas (Brasil, 2019).
Nesta linha, o conhecimento construído no MP/DP é aplicado,
fundamentado em pesquisa conectada a situações reais, gerando reflexões
sobre a pertinência e possibilidade de contribuição para a área profissio-
nal em questão:
Os programas profissionais que tem como alunos, efetivamente, pes-
soas que já estão na prática profissional e que portanto, sentem a neces-
sidade de melhorar sua formação para fazer face aos problemas que o
próprio trabalho apresenta cotidianamente, permitem diferenciar as tur-
mas em relação a sua motivação, engajamento e capacidade de incorpora-
ção de conhecimentos e métodos que ganham sentido quando trabalhados
tendo como objeto os problemas práticos, daquelas dos cursos acadêmi-
cos constituídas majoritariamente por alunos recém-egressos dos cursos
de graduação, sem qualquer experiência profissional (Barata, 2020, p. 32).
45
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
No mestrado e doutorado acadêmico não há necessariamente a exi-
gência de conexão entre o conhecimento construído e sua possível aplica-
ção profissional.1 Esta percepção exige novas posturas por parte dos docen-
tes ao atuar em programas profissionais, que precisam acomodar sua prática
no sentido de que estejam vinculadas à realidade laboral dos discentes. Tal
situação o se aplica aos resultados das pesquisas efetuadas – os trabalhos
de conclusão de curso não precisam se resumir a dissertações e teses estri-
tamente teóricas, podendo incluir trabalhos técnicos de diversas naturezas
(relatórios técnicos, projetos de intervenção, notas técnicas, protótipos ou
propostas de atos normativos, entre outros).
Contudo, além da diversidade de produtos intelectuais a serem apre-
sentados como resultado da pesquisa realizada pelos discentes, a contribui-
ção dos programas profissionais está no processo formativo, que transfor-
ma o discente/trabalhador/burocrata em pesquisador: ao enfrentar uma
inquietação da sua prática cotidiana, com um olhar teórico e metodológico
de cunho científico, o discente estará se capacitando para enfrentar os de-
safios profissionais e assim atender aos objetivos dos programas nos ter-
mos da Portaria mencionada anteriormente.2
O desafio, então, passa a ser superar a perspectiva acadêmica e a
discussão essencialmente teórica sobre a comprovação das hipóteses e se
preocupar mais com a formação para o desenvolvimento da pesquisa pro-
priamente dita, com ênfase no desenho da pesquisa, visando a um “melhor
preparo profissional, na experiência adquirida, no treinamento objetivo”
(Rôças; Moreira; Pereira, 2018, p. 68)
O objetivo do discente em um MP/DP não é a elaboração teórica
1. Fischer aponta algumas questões sobre a relação entre cursos acadêmicos e profissionais, inclusive na área de Ciências Sociais
Aplicadas: “Os cursos acadêmicos não valorizam a prática profissional vivida como experiência real devido a muitos fatores. Uma
das causas apontadas é a distância que os acadêmicos colocam entre a pesquisa produzida nas academias e os fenômenos do mundo
do trabalho, bem como o descolamento entre as práticas acadêmicas das práticas profissionais desses professores. A prevalência da
pesquisa e a valorização da produção bibliográfica em total detrimento da tecnológica ou técnica forja um perfil docente (e discente)
que começa na seleção de mestres e estudantes e vai até as exigências de trabalho final. As linhas de pesquisa e a conseqüente
produção de professores e alunos é, essencialmente, bibliográfica. A produção técnica, ou seja, a produção com impacto social
tangível (avaliação nos processos de patenteamento e aferição de propriedade intelectual) entre outros indicadores de impacto
social possíveis, é ainda incipiente, especialmente, nas áreas de Ciências Sociais Aplicadas” (Fischer, 2005, p. 28, grifo nosso).
2. Apesar de a análise ser sobre mestrado e doutorado profissional na área do ensino, acompanhamos a leitura de Rôças, Moreira
e Pereira: “Essa ideia se alinha a uma defesa constante que vimos fazendo em nossos estudos (MOREIRA et al., 2017) de que o
principal produto de um curso de MP não é o PE [Produto Educacional] em si, mas sim o processo de transformação do mestrando
durante a elaboração do PE. O mestrando, autor do PE, envolve-se no processo de identificação do problema (de ordem prática),
com base em referencial teórico-metodológico consistente e coerente, reflete, propõe encaminhamentos / soluções para abordar
o problema identificado, aplica e testa o PE, retomando criticamente a primeira versão para compor a versão final que acompanha
o texto dissertativo. Ressaltamos que, nesse percurso, o professor-mestrando pode realizar esse trajeto a todo e qualquer momento
e não exclusivamente para obter sua titulação, ou seja, o PE tem sido o meio utilizado para atingir esse objetivo” (2018, p. 67).
46
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
sobre um problema da sua área, mas enquadrar um problema da sua rea-
lidade profissional e prospectar melhores formas de enfrentá-lo, na busca
pelo fortalecimento no exercício profissional. 3A proposta demanda uma
revisitação sobre a própria prática docente:
...o professor-pesquisador passa por um processo formador com refle-
xões sobre suas práticas, destacando desafios para a pesquisa, estudando
outras pesquisas e, finalmente, construindo respostas ao desafio que ori-
ginou o estudo. Assim, na perspectiva do mestrado profissional, interes-
sa analisar os desafios da prática, compreendê-los e avançar em aspectos
teóricos, confluindo na elaboração de propostas- projetos de ação/produ-
tos educacionais que resultem em mudanças na própria prática e no de-
senvolvimento do profissional (Zaidan, Ferreira, Kawasaki, 2018, p. 92)
Esta prática é o fio condutor do processo de ensino-aprendizagem
e de desenho das pesquisas e do produto/trabalho de conclusão apresen-
tado no mestrado/doutorado profissional.4
Em linha com essa característica do processo de pesquisa, lembra-
mos que Fischer (2005) salienta que os princípios de flexibilização, orga-
nicidade, inovação e aplicabilidade devem orientar a construção dos pro-
gramas. Estes princípios estão conectados a ideia de “pesquisa-ação”, que
Thiollent define como:
A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é
concebida e realizada em estreita associação com urna ação ou com a re-
solução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os par-
ticipantes representativos da situação ou do problema estão envol-
vidos de modo cooperativo ou participativo (Thiollent, 1986, p. 14).
3. “As questões que advêm da prática e da sala de aula, apresentadas como objetos de pesquisa dos professores-pesquisadores,
trazem uma realidade que se vive hoje nas escolas, que precisam ser equacionadas, sendo este um papel da Universidade. Ou seja,
quando um programa de pós-graduação se abre aos docentes, não há como não considerar os desafios que os profissionais da
educação vivem no dia a dia. Muitos já constroem alternativas na prática, mas não tiveram oportunidade de reflexão, sistematização
e elaboração sobre elas. Outras vezes, a questão demanda experimentação e elaboração teórica que fazem com que o problema seja
equacionado, o que não ocorre espontaneamente. Tais práticas e estudos veem ampliar a compreensão de questões da docência,
fortalecendo a formação docente no campo educacional (Zaidan, Ferreira, Kawasaski, 2018, p. 101)
4. “O trabalho de conclusão do mestrado profissional configura-se como dissertação que demonstre domínio do objeto de estudo,
além da investigação aplicada à solução de problemas que possa ter impacto no sistema a que se dirige. Deve conter a descrição e
discussão dos resultados, conclusões e recomendações de aplicações práticas e serem ancoradas em um referencial teórico. O seu
conteúdo pode incluir, por exemplo, resultados de estudos de casos, desenvolvimentos e descrição de metodologias, tecnologias
e softwares, patentes que decorrem de pesquisas aplicadas” (Fischer, 2005, p. 28).
47
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Portanto, o objeto da pesquisa-ação é a situação social e os proble-
mas de diferentes naturezas encontrados, buscando resolver ou esclarecer
os problemas, pressupondo participação ativa dos pesquisadores. A aborda-
gem da pesquisa-ação tem uma perspectiva sociológica5 que enfatiza a atua-
ção dos atores, do contexto e das instituições, abordagem próxima à análi-
se das políticas públicas:
Na Pesquisa-Ação, os participantes desempenham um papel ativo no equa-
cionamento dos problemas encontrados, no acompanhamento e na ava-
liação das ações desencadeadas em função dos problemas. Ao pesquisa-
dor compete a organização da investigação em torno da concepção, do
desenrolar e da avaliação de uma ação planejada (Chisté, 2016, p. 796).
Assim, os discentes não são encorajados a usar ferramentas geren-
ciais ou a buscar soluções fáceis para os problemas públicos apresentados,
mas estão:
Inseridos em processos críticos de aprendizagem, em que arrogariam o papel
de facilitadores do diálogo; de produtores de argumentos e de evidências que
embasam o debate público; de conselheiros, capazes de distinguir a boa da má
construção discursiva: o papel de verdadeiros atores políticos em ação, con-
formadores de uma multiatorialidade (Boullosa; Peres; Bessa, 2014, p. 325).
Além disso, os discentes são instigados a treinar o olhar para ler a
realidade que querem mudar, entender o contexto social mais amplo e com-
preender a complexidade e a inter-relação do problema público que que-
rem estudar com outros fenômenos sociais. Dessa forma, procuram ler o
problema a partir das normas sociais (formais ou informais, instituições ou
convenções) que regem as relações entre os atores e a própria compreen-
são do problema público que querem enfrentar, ressignificando-o a partir
da interação social e da narrativa dos atores a respeito dele. Essa nova leitu-
ra mais aprofundada do problema público vai enriquecer a percepção posi-
tivista, adicionando novas camadas de significados às evidências coletadas e
5. Do ponto de vista sociológico, a proposta de pesquisa-ação dá ênfase à análise das diferentes formas de ação. Os aspectos estru-
turais da realidade social não podem ficar desconhecidos, a ação só se manifesta num conjunto de relações sociais estruturalmente
determinadas. Para analisar a estrutura social, outros enfoques, de caráter mais abrangente, são necessários (Thiollent, 1986, p. 9).
48
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
jogam luz à imbricada e delicada teia social sobre a qual o problema se situa.
Isso implica compreender a investigação narrativa não como uma
técnica, mas como um quadro de referência metodológico que analisa as his-
tórias humanas de experimentação, no dizer de Webster e Merlova (2006).
Esse quadro de referência garante aos pesquisadores uma riqueza de possi-
bilidades para investigar as formas pelas quais as pessoas envolvidas expe-
rienciam o mundo, a partir de suas narrativas/histórias.
Ainda segundo esses autores,
As narrativas descrevem a experiência, os esforços e as realizações humanas
desde os tempos mais antigos. As narrativas registram a experiência huma-
na pela construção e reconstrução das histórias pessoais; essa abordagem
é adequada para lidar com as questões da complexidade social e da auto-
-referenciação cultural e humana por causa de sua capacidade de registrar
e recontar os eventos que têm forte influência sobre nós. Tais questões de-
sempenham um papel significativo em muitas áreas da atividade humana.
[De fato], as pessoas constroem o sentido de suas vidas de acordo com
as narrativas disponíveis para elas. As histórias são constantemente rees-
truturadas à luz de novos eventos, porque as histórias não existem no vá-
cuo, mas são moldadas pelas experiências pessoais e pelas narrativas co-
munitárias. A narrativa permite aos pesquisadores apresentar a experiência
de forma holística em toda sua complexidade e riqueza. A narrativa ilus-
tra a noção temporal da experiência, reconhecendo que a compreensão in-
dividual das pessoas e dos eventos muda (Webster;Mertova, 2007, p. 2-3).
Este é um dos pressupostos para a proposta da pesquisa e da cons-
trução de uma disciplina de prática de pesquisa aplicada na pós-graduação
stricto sensu da Enap e que está alinhado, ainda, ao próprio caráter multi-
disciplinar da governança e das políticas públicas.
2. O campo multidisciplinar e complexo das políticas públicas
No campo específico do presente capítulo, o MP/DP permite a ar-
ticulação entre o campo acadêmico e o profissional, isto porque “a gestão
pública está na interseção entre teoria e prática” (Peters; Pierre, 2010, p. 26),
expressa nas políticas públicas, além do cruzamento de diversas disciplinas
49
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
acadêmicas como ciência política, economia, sociologia, psicologia, direito
e outros.
Neste sentido, a pesquisa no MP/DP da ENAP não visa a formar
um pesquisador profissional, mas que o profissional da ação pública apren-
da a fazer pesquisa que contribua para a compreensão das suas práticas pro-
fissionais, especialmente se referindo a objetos complexos e interdiscipli-
nares como são os das políticas públicas, que envolvem inúmeras variáveis,
atores, instituições/convenções, interesses e poder.
No Brasil, a autonomia da disciplina e a agenda de pesquisa só se
consolidaram com o processo de pós-democratização e os desafios com a
reconstrução de um Estado Democrático de Direito. Neste sentido, a área
de políticas públicas:
é, mais que uma disciplina, um campo multidisciplinar, com diálo-
go, por exemplo, com a Ciência Política, a Administração Pública,
a Economia, a Sociologia, a Psicologia Social e o Direito. Longe de
ser apenas uma “técnica”, é um campo de reflexão a respeito de como
a interação social constrói e ressignifica os problemas públicos, es-
tando muito mais próxima do chamado “Campo de Públicas” (Pires;
Vainer; Fonseca, Discussão Google Campo de Públicas, 2012) 6.
Esse caráter multidisciplinar está presente nos dois grandes temas
do programa de MP/DP: a governança e as políticas públicas, que descre-
vemos a seguir.
Em uma compreensão analítica mais ampla sobre a abordagem de
governança, é importante mencionar a ideia da governança democrática.
De acordo com Filgueiras, “a governança democrática reúne três elementos
que importam para a constituição da gestão pública: (1) as capacidades esta-
tais para implementação e coordenação; (2) os mecanismos de transparên-
cia e accountability; (3) os mecanismos de participação política” (2018. p.80).
6. “´Campo de Públicas´ é uma expressão que vem sendo utilizada, há pouco mais de uma década, no Brasil, por coordenadores,
professores, alunos e egressos de cursos de graduação em Administração Pública, Gestão Pública, Políticas Públicas, Gestão
de Políticas Públicas e Gestão Social. Refere-se ao campo multidisciplinar de formação acadêmica, científica e profissional de
nível superior, assim como da pesquisa científica, comprometido com o aperfeiçoamento democrático e republicano. Tem como
objetivo formar profissionais, gerar conhecimentos, desenvolver e difundir metodologias e técnicas, propor inovações sociais e
promover processos que contribuam para o aperfeiçoamento da esfera pública, qualificação e melhoria da ação governamental e
intensificação e ampliação das formas de participação democrática da sociedade civil na condução dos assuntos públicos. Com-
preende tanto as ações de governo quanto as de outros agentes públicos não governamentais - sobretudo as organizações da
sociedade civil.” (Pires, Valdemir; Vainer, Carlos; Fonseca, Sérgio Azevedo. Grupo de Discussão Google Campo de Públicas, 2012).
50
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Especialmente em relação a este último ponto é que ressaltamos a
importância da governança relacional no trato das políticas públicas, com o
envolvimento dos principais atores sociais, econômicos e políticos. Diante
da complexidade das relações entre Estado e Sociedade, a governança é um
instrumento de compreensão da realidade, dos atores e instituições envol-
vidos, de construção de estratégias e arranjos institucionais.
Tal conceito também foi capturado por alas mais positivistas da
Administração Pública e, num exercício de simplificação (“domesticação” da
questão, até) para que as organizações que integram os governos pudessem
incorporá-lo em seus processos administrativos do dia-a-dia, houve o esfor-
ço de descrevê-lo em termos mais próximos do campo da Administração
de Empresas, com ênfase na conformidade aos padrões. Assim, confor-
me dispõe o Decreto no 9.203, de 22 de novembro de 2017, governança
pública é definido como o “conjunto de mecanismos de liderança, estraté-
gia e controle postos em prática para avaliar, direcionar e monitorar a ges-
tão, com vistas à condução de políticas públicas e à prestação de serviços
de interesse da sociedade”7.
Além da governança, outro conceito integrante da linha de pesqui-
sa do programa de MP/DP da ENAP é a política pública, com forte pre-
sença de abordagem multidisciplinar e qualitativa dos objetos de pesquisa.
Com estes desenvolvimentos enviesados, a pesquisa qualitati-
va em políticas públicas tem uma estreia tardia, é verdade, mas poten-
te. Ela começa como resposta à necessidade de se obter uma com-
preensão mais profunda e significativa das políticas públicas como
fenômenos sociais, culturais e humanos, que não poderiam ser facilmen-
te capturados por meio de medidas numéricas (Boullosa, 2023, p. 149).
O programa busca a capacidade administrativa e analítica para a
compreensão dos problemas públicos e o desenho de experimentos para
testar os limites e identificar a teia de inter-relacionamento dos atores para
a formulação, implementação e avaliação de políticas públicas, de modo a
fornecer aprendizados institucionais mais amplos para as políticas públicas
7. É preciso ressaltar que o posicionamento das autoras é crítico a essa instrumentalização do conceito de governança, o que se
reflete no desenho das disciplinas de Práticas de Pesquisa Aplicada, abordado mais adiante.
51
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
implementadas pelo Estado Brasileiro.
A natureza aplicada e menos abstrata dos objetivos do programa e a
conexão com “problemas públicos” demonstra o perfil profissional e a ne-
cessidade de construção de estratégias docentes para a orientação dos alu-
nos nas pesquisas. O aluno-profissional busca uma mudança de atitudes, de
práticas, condicionadas a problemas da realidade (Thiollent, 1986; Chisté,
2016; Hetkowski, 2016).
O problema público de pesquisa é construído a partir de novas gra-
máticas: problemas concretos, cada vez mais complexos, como as crescen-
tes desigualdades que caracterizam a sociedade brasileira (questões sociais
e interseccionalidade), as crescentes demandas de participação, de transver-
salidade, a dinâmica e a atuação dos atores políticos, os conflitos, alianças
e negociações (Boullosa, Peres, Bessa, 2021; Secchi, 2023; Marques; 2013).
Esta é a perspectiva da pesquisa-ação mencionada anteriormente,
uma pesquisa aplicada que se se conecta perfeitamente ao objeto de pro-
grama do MP/DP da Enap, como apresenta Hetkowski (2016) ao analisar
mestrados profissionais na educação:
Desta forma, entendemos que a Pesquisa Aplicada, provoca a refle-
xão sobre as questões abordadas, suscita o surgimento do “novo”, in-
tervém, cientificamente, no contexto estudado e estimula o pes-
quisador suplantar a dimensão discursiva e epistêmica, ampliando
as possibilidades de propor e atuar, junto a um coletivo, na bus-
ca de soluções reais para problemas reais (Hetkowski, 2016, p. 22).
A pesquisa-ação e a pesquisa-aplicada demandam o entrelaçamento
entre o pesquisador-profissional e a intervenção no objeto de pesquisa que
é fruto da problematização da realidade profissional em questão.
3. A prática de pesquisa aplicada na Enap
A disciplina Prática de Pesquisa Aplicada (PPA) do Programa de
Mestrado da Enap é também conhecida como “ateliê” de pesquisa, ou seja,
uma disciplina em que os alunos irão efetivamente experimentar o proces-
so de desenho de pesquisa, compreendendo profundamente o problema
52
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
público sob análise, em uma perspectiva colaborativa, construtivista, dia-
lógica e crítica.
Conforme apontado anteriormente, isso quer dizer que a preocu-
pação se desloca da comprovação teórica da hipótese, comum em projetos
acadêmicos8, para o COMO responder à pergunta de pesquisa que conse-
guiu elaborar após se aprofundar na realidade, seguindo o caminho meto-
dológico descrito no item 2 deste capítulo, que conduza a respostas a partir
de propostas delimitadas de acordo com a temática do aluno prevista para
o seu mestrado, e considerando também o escopo temporal mais curto da
disciplina.
Assim, a disciplina de PPA demanda do docente uma postura de
orientador, mais do que professor – há conteúdo acadêmico, mas a propos-
ta é de que o professor oriente os trabalhos dos alunos no sentido meto-
dológico, guiando a construção de uma pesquisa no decorrer da realização
da disciplina. Neste sentido, os planos de ensino foram construídos a par-
tir de escolhas docentes, mas o decorrer do curso foi “re”construído con-
siderando a discussão dos temas e projetos discentes.9
Os principais elementos da proposta são: o processo colaborati-
vo e iterativo para se chegar a uma pergunta de pesquisa factível e viável
de ser respondida no período da disciplina (e que possa ser escalada para
a pesquisa que redundará na redação do trabalho de conclusão de curso);
os objetivos da pesquisa, que devem ser analisados sob múltiplos aspectos;
a construção de um “produto” a partir do contexto do problema que ori-
ginou a inquietação de pesquisa; a proposta e a realização de uma “expe-
rimentação” (um plano de ação para a coleta de dados e eventual impacto
na prática), e por fim, “vivenciar e refletir sobre o processo formativo que
8. Rôças et al.l apresentam uma crítica sobre o caráter acadêmico da produção na área da Educação para diferenciar do programa
profissional: “Além disso, há dissertações e teses que têm pouco impacto na literatura das áreas de conhecimento, ou seja, não
são convertidas em artigos ou similares, não contribuindo para o conhecimento trilhado em uma determinada área (sobretudo
ao se insistir nos textos monográficos longos, recheados de citações “lego” e “muleta”, que poderiam ser sintetizados para de-
monstrar mais facilmente a coerência entre o problema e os resultados de pesquisa). Há ainda que se levar em conta a aridez de
interlocução com a sociedade de forma mais ampla e irrestrita, se tornando quase uma leitura para iniciados em uma linguagem
esotérica. Nesse sentido, o impacto de uma dissertação/tese não é sempre o mesmo na comunidade, e se existem as que não “se
expõe” à área por meio de outras instâncias de veiculação da pesquisa, isso não é suficiente para deixarmos de oferecer formação
em pós-graduação” (2018, p. 68).
9. “Tal situação vem exigindo da orientação o que podemos considerar como uma maior objetividade na revisão bibliográfica, pois
tanto o tempo dos mestrados tem sido insuficiente para uma revisão abrangente, quanto a exigência de elaboração de um produto
impõe prioridades. Desse modo, a orientação deve buscar e indicar teorias focadas no tema central da pesquisa, tendo como
finalidade oferecer pontos de apoio para análises. Tal entendimento pode favorecer uma ampliação de conhecimentos de forma
mais pragmática e objetiva. Acreditamos, contudo, que tal orientação favorece a dissertação como resultado em um texto-relatório
da pesquisa realizada, destacando-se o seu resultado no formato de projeto de ação” (Zaidan; Ferreira; Kawasaki, 2018, p. 92).
53
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
as ações favorecem, como o processo de investigação em si como meio de
crescimento e maior conscientização” do profissional (Zaidan, Ferreira,
Kawasaski, 2018, p. 100).
Duas práticas serão relatadas aqui e que acompanharam esta pers-
pectiva: PPA em Direito e Políticas Públicas e a PPA em Coordenação de
Políticas Públicas.
A variável jurídica é componente essencial nas políticas públicas e
este é o pressuposto da primeira prática aqui apresentada, a de Direito e
Políticas Públicas. Nas aulas iniciais as possibilidades de mapeamento ana-
lítico sobre a variável jurídica nas políticas públicas foram discutidas, ul-
trapassando a perspectiva meramente formal ou normativa. Isto porque o
Direito é interpretado e reapropriado pelos atores envolvidos no ciclo das
políticas públicas, podendo ser utilizado como estratégia de legitimação, para
dar voz a demandas, como instrumento para alcançar e justificar determi-
nados objetivos (Coutinho, 2013)
O objetivo apresentado para os alunos durante o curso foi de ma-
pear e analisar o papel do Direito no ciclo das políticas públicas, pesquisando
sobre o uso do Direito e o impacto (ou a ausência) nos arranjos institucio-
nais, nas capacidades estatais e na atuação dos diferentes atores envolvidos.
Os discentes foram instigados a procurar a mobilização de recursos jurídi-
cos e seus efeitos sobre as relações de poder no processo das políticas pú-
blicas (Delpeuch, Vigour, 2021; Dubois, 2021; Clune, 1993).
Em duplas ou individualmente, todos deveriam buscar uma polí-
tica pública e a correspondente variável jurídica que seria objeto de análi-
se, construindo um relatório técnico-científico que apresentasse o proces-
so metodológico de análise utilizado.
Assim, a elaboração do relatório técnico-científico foi uma experiên-
cia para cada discente ter a oportunidade de realizar uma micro-pesquisa do
objeto mais amplo do seu mestrado. O objetivo na disciplina era que cada
discente tivesse a oportunidade de mergulhar no seu tema de pesquisa do
mestrado, tendo em vista a proximidade da defesa de qualificação, ao reali-
zar tanto um recorte analítico do tema, como também um exercício de pes-
quisa aplicada. Esta experiência permite ainda que os discentes percebessem:
54
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
...as interligações complexas e inesperadas que existem e surgem entre os
problemas públicos. Para lidar com essas questões de forma adequada, eles
precisam definir instituições e práticas que conduzam a responder às com-
plexidades dos problemas que enfrentam e ajustá-las (Wu et al., 2014, p. 139).
Os trabalhos apresentados demonstraram o percurso metodológico
utilizado considerando as áreas temáticas dos docentes responsáveis como
fio condutor. O objetivo era que os discentes aplicassem, de forma orien-
tada durante o curto período da disciplina (30 horas/aula), a pesquisa-ação.
A docente apresentou um referencial teórico, mas o principal foi o acom-
panhamento sobre o percurso metodológico das pesquisas dos discentes,
demonstrando uma típica pesquisa-ação qualitativa.
Em outro caminho, a PPA em Coordenação de Políticas Públicas
objetiva possibilitar maior autonomia dos discentes que, sob orientação dos
professores da disciplina, protagonizam as experiências de ensino-aprendi-
zagem, no formato de Sala de Aula Invertida e de pesquisa de campo.
Para alcançar tal objetivo, está estruturada em dois eixos principais.
O primeiro deles é o de formação básica, com aulas de posicionamento mi-
nistradas pelos professores, com a apresentação das duas ideias-força que
conduzem a discussão:
a) a abordagem dos wicked problems (Rittel, Webber, 1972; Peters,
Tarpey, 2019; Kolko, 2018, entre outros) para compreensão da natureza im-
bricada e complexa dos problemas de políticas públicas, em contraposição
às correntes mais positivistas e “gerenciais”. Enquanto as últimas enfatizam
a técnica sobre a compreensão e propõem “retalhar” o problema seguindo
determinados tutoriais em “caixas de ferramentas”, até chegar na unidade
que, alegadamente, poderia gerar uma pergunta de pesquisa passível de ser
respondida pelo método científico e que, em tese, preservaria em boa par-
te a identidade do problema maior – a resposta encontrada para explicar o
comportamento da parte, assim, explicaria o todo.
Em vez disso, a abordagem dos wicked problems, seguindo a tradição
do planejamento urbano, reconhece a impossibilidade de compreender o
problema público a partir de um único ponto de vista, uma narrativa, uma
55
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
experiência ou uma abordagem teórica. Não se propõe a buscar “soluções”
definitivas para os problemas públicos, mas a aprofundar a compreensão do
problema, para melhor enunciar a pergunta de pesquisa.
Para isso, o pesquisador inicia a aproximação ao problema fazendo
imersão na realidade local, para perceber as diversas nuances que adquire,
de acordo com as narrativas dos atores envolvidos no problema, das abor-
dagens teóricas do campo do conhecimento que o analisa e de como a or-
ganização pública em que os discentes atuam percebe e define o problema,
a partir do seu mandato e missões a cumprir; e
b) o conceito de coordenação governamental ou de políticas públi-
cas (com ênfase nos arranjos institucionais, na importância dos instrumen-
tos de políticas e das formas de coordenação).
Seja qual for a definição que se escolha para o que seja uma política
pública ou mesmo utilizando a definição de ação pública para ser mais com-
preensiva, ou qualquer outro que seja o foco sobre o qual o olhar do pes-
quisador repousará (em uma ou em várias das dimensões que as compõem),
seguindo Souza (2018, p. 15), “sua coordenação fará parte do seu desenho,
tanto sobre como atores serão coordenados no momento da decisão, quan-
to sobre como a política será coordenada no momento da implementação”.
Ainda seguindo Souza (2018, p. 15),
(...) Definições e identificação das dimensões, mesmo que prelimi-
nares, que impactam as políticas públicas, constituem uma aborda-
gem inicial para o entendimento da sua complexidade. Trata-se, portan-
to, de um quadro de referência abrangente. A coordenação de políticas
se insere em um nível intermediário de análise dentro das diversas fa-
ses que compõem uma política pública. Esse nível, no entanto, é con-
dicionado tanto pelas definições como pela identificação das dimen-
sões que influenciam os processos decisórios sobre políticas públicas.
As dificuldades de coordenação e até mesmo de coerência nas políticas go-
vernamentais é um problema reconhecido pela literatura. Como nos lem-
bra Peters (2004), os cidadãos e a comunidade de negócios precisam ir de
agência a agência para ter acesso aos benefícios aos quais têm direito. Além
do mais, muitos programas governamentais são contraditórios e outros
56
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
podem ter lacunas que deixam de prover serviços aos quais os cidadãos
têm direito. Peters (2004) e Bouckaert e outros (2010) creditam às falhas
de coordenação parte dessas dificuldades. De forma mais direta, Pressman
e Wildavsky (1984, p. 133), em estudo seminal, afirmaram que as críticas
mais comuns às políticas federais dos EUA são de falta de coordenação.
Indo mais além, eles também afirmaram que todas as sugestões para refor-
mar as políticas públicas têm um mantra: precisamos de mais coordenação.
O segundo eixo é constituído por um conjunto de temáticas dispo-
níveis para aprofundamento teórico durante a realização da disciplina. A es-
colha da temática por parte dos discentes implica:
i) ministrar, em grupo, uma Exposição Dialogada dos conteúdos (que
requer previamente alguma orientação dos professores em termos de esco-
lha de textos básicos e recorte de objeto a ser analisado). No entanto, é du-
rante a apresentação, com a interação com os demais colegas, que o apren-
dizado se concretiza, em linha com o pressuposto metodológico enunciado
no início deste capítulo; e
ii) desenvolver relatório técnico, individualmente ou em grupo, com
pesquisa empírica. Nesse relatório, ademais de utilizarem o método e as
abordagens teóricas sugeridas pelos professores, os discentes são encora-
jados a ressignificar sua prática profissional, trazendo para o trabalho suas
reflexões sobre os problemas públicos com que lidam no dia-a-dia, as inte-
rações entre os atores mais relevantes, os conflitos de poder, a disputa de
interesses e o interesse público.
As temáticas/abordagens teóricas sugeridas pelos professores são:
a) Governança, capacidades estatais e coordenação governamental
– interseções analíticas;
b) Coordenação de centro de governo e presidência;
c) Federalismo e coordenação intergovernamental vertical e
horizontal;
d) Comunicação pública como instrumento de coordenação (de)
política; ou
e) Coordenação em políticas públicas específicas (meio ambiente,
57
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
saneamento básico, segurança, entre outras).
De forma semelhante às experiências das PPA em Direito e Política
Pública, os relatórios técnicos construídos pelos discentes nas PPA em
Coordenação de Políticas Públicas demonstraram o percurso metodoló-
gico utilizado, considerando as áreas temáticas sugeridas e como, a partir
desses olhares, foi possível enquadrar os seus problemas de pesquisa. Em
comum, relatam-se o crescimento do discente como pesquisador, o desen-
volvimento do senso crítico e de um olhar mais curioso a respeito de como
o problema sempre foi enquadrado em sua prática profissional, desvendan-
do outras possibilidades de desenho de intervenções na realidade.
Considerações finais
A pesquisa aplicada no programa de Mestrado e Doutorado
Profissional exige um processo de reflexão sobre a prática profissional
do corpo discente e um novo posicionamento dos professores, que pre-
cisam sistematizar as situações de ensino de maneira mais reflexiva, com
maior significado para os alunos, especialmente conectados a Metodologias
Qualitativas.
Na disciplina de Prática de Pesquisa Aplicada da Enap o discente é
orientado a refletir sobre suas práticas, com forte engajamento do sujeito-
-pesquisador na possível intervenção na sua realidade, imerso nos conflitos e
interesses de atores envolvidos no objeto de pesquisa analisado.
A pesquisa no MP/DP exige uma mudança de atitude, de práticas,
de situações e de condições em função do objeto pesquisado. O maior de-
safio tem sido a imersão no campo de pesquisa-trabalho, despertando preo-
cupação com o rigor teórico-metodológico, provocando recorrência aos
incômodos que resultam na pergunta de pesquisa (o problema público) re-
lacionada à sua prática cotidiana. (Rôças; Moreira; Pereira, 2018).
O “ateliê” deve se constituir em uma experiência de pesquisa que va-
loriza a prática profissional do gestor público, para que compreenda melhor
58
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
sua própria prática e trajetória profissional, se mostrando mais capaz de re-
flexões e construção de alternativas para os complexos problemas públicos.
E diante da complexidade, a metodologia qualitativa é a que permite a com-
preensão mais robusta e aprofundada no por que e no como os problemas
podem ser objeto de pesquisa.
Esse novo formato de fazer pesquisa qualitativa no programa de
Mestrado e Doutorado Profissional demanda um “fazer docente” diferen-
ciado mencionado anteriormente: um enfrentamento da realidade
profissio-nal dos discentes, um posicionamento sobre o papel de
orientador não ape-nas no trabalho final, mas na condução de trabalhos
em sala de aula como é o caso da disciplina de Prática de Pesquisa
Aplicada na Enap.
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62
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
02
Entrevistas em profundidade em Ciência Política
Natasha Bachini
Rafael Cardoso Sampaio
Ester Athanásio
63
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
O pesquisador pergunta e o sujeito responde a respeito de determinado as-
sunto. É aparentemente simples a dinâmica de uma das técnicas de pesqui-
sa qualitativa mais antiga e conhecida: a entrevista. A partir desta “conver-
sa orientada”, marcada pela oralidade, é possível detalhar e aprofundar o
conhecimento sobre fenômenos diversos, como percepções conjunturais,
comportamentos e processos políticos, além de reconstituir fatos históri-
cos. Contudo, a seleção de entrevistados, a elaboração do roteiro e a con-
dução das perguntas requerem cuidado e rigor protocolar para evitar pro-
blemas éticos e riscos inerentes ao caráter subjetivo da técnica.
Embora seja uma das técnicas de obtenção de dados qualitativos
mais referenciada na literatura de métodos qualitativos, e de também ser
bastante utilizada na Ciência Política, chama-nos atenção como foram pou-
cas as iniciativas de tratar de suas especificidades nesta área (Rocha, 2021;
Veiga, Gondim, 2001).
Este capítulo tem como objetivo contribuir para o preenchimen-
to de tal lacuna e apresentar as funcionalidades da técnica de entrevista em
profundidade. Focaremos em sua aplicação semiestruturada1 e faremos re-
comendações para sua aplicação, de forma a minimizar os riscos mencio-
nados e aproveitar o potencial de obtenção de dados qualitativos de forma
satisfatória e metodologicamente transparente.
1. O que é e para que serve
No quadro das técnicas de pesquisa qualitativa, a entrevista em pro-
fundidade é classificada como método de estudo das interações cotidianas
(Alonso, 2016) a partir de uma conversa. Consiste em um encontro entre
duas pessoas, no qual uma delas busca informações sobre um tema por meio
de um diálogo de caráter profissional (Ercan, Vromen, 2023).
O procedimento é amplamente utilizado em áreas como sociolo-
gia, história, antropologia e psicologia, tanto para coleta de dados, quanto
para apoio no diagnóstico ou no tratamento de um problema social (Flick,
1. Entrevistas qualitativas podem assumir muitas formas e nomenclaturas, como narrativas, biográficas, de histórias de vida e
histórias orais, dentre outras (Ângelo, 2017; Cunha, 2014; Flick, 2009). O objetivo do capítulo não é tratar sobre essas formas
específicas, mas apresentar um conjunto de preocupações e técnicas basilares para entrevistas qualitativas na área.
64
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
2009). Contudo, “cientistas políticos (as) possuem poucas referências me-
todológicas sobre o uso de entrevistas na disciplina” (Rocha, 2021, p.2).
A realização de entrevistas é indicada para obtenção, recuperação
e registro de “experiências de vida guardadas na memória das pessoas”, e
é aplicada a personalidades fundamentais para o processo de investigação
(Lima, 2016, p. 27). São apropriadas quando se tem como objetivo descre-
ver de forma detalhada um meio social, observar valores, opiniões, tendên-
cias de comportamento e motivações. É possível usar seus resultados tan-
to para desenvolver um referencial conceitual para pesquisas subsequentes,
quanto para testar conceitos (Flick, 2009; Rocha, 2021). Por isso, pode ser
acionada em diferentes etapas da pesquisa, assim como servir de instrumen-
to complementar a outro método, compondo bem triangulações.
Dessa maneira, a entrevista pode ser uma metodologia oportuna para
a realização de pesquisas em diferentes linhas da Ciência Política, como de-
mocracia, participação política, comportamento político, comportamento
eleitoral, opinião pública, ideologias, políticas públicas e movimentos so-
ciais (Veiga, Gondim, 2001). A partir da entrevista, é possível identificar e
compreender melhor os valores, percepções, avaliações, motivações e de-
mandas que orientam os atores políticos, seja os institucionalizados ou os
próprios cidadãos, e que dinamizam as relações políticas em um determi-
nado contexto social.
Entre as possíveis aplicações da metodologia para o campo, desta-
camos que as entrevistas podem ser importantes aliadas e estão sendo cada
vez mais empregadas na observação: i) da percepção dos cidadãos sobre as
instituições (Moisés, Meneguello, 2013); ii) das mudanças no clima de opi-
nião (Veiga, Santos, 2008); iii) das motivações para a participação política e
a ação coletiva (Bachini, 2021); iv) das demandas por e avaliação de políticas
públicas (Batista, Domingos, 2017); v) das inclinações e posicionamentos do
eleitorado (Veiga, Gondim, 2001); vi) da adesão à ideologia (Rocha, 2021b);
vii) das dinâmicas políticas intra e extra partidária (Meza, Tatagiba, 2016).
Com relação à amostra, a técnica não persegue o critério de repre-
sentatividade numérica. A centralidade do método está na relevância da
fonte em relação ao objeto pesquisado. Assim, alguns poucos entrevistados
65
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
podem ser suficientes para prover as informações sobre um determinado
objeto de pesquisa. É o caso das pesquisas biográficas, quando é possível
entrevistar o biografado e pessoas diretamente relacionadas a sua trajetória,
por exemplo. Daí outra característica usual da técnica é a seleção dos parti-
cipantes de forma intencional e não aleatória:
A realização de entrevistas em pesquisas qualitativas também está longe de
ser tarefa simples. É preciso selecionar entrevistados a partir de critérios de-
vidamente explicitados, como estratos sociais, funções e categorias. O foco
de investigação, na pesquisa qualitativa, não será a distribuição de opiniões
conforme gêneros ou faixas etárias, mas sim os temas abordados e a estrutura
argumentativa das respostas. A partir daí, caracteriza-se a variedade de repre-
sentações até que a inclusão de novos estratos sociais/funções não acrescen-
te nada significativo – a chamada saturação. Nem pensar em usar percentuais
para representar respostas: em pesquisa qualitativa, não estamos preocupados
com amostras representativas, como nos critérios estatísticos das abordagens
quantitativas. Ainda assim, devemos delimitar o universo pesquisado de for-
ma coerente, a fim de obter resultados válidos (Kischinhevsky, 2016, p.291)
A entrevista em profundidade pode ser estruturada (com sequência
de perguntas padronizada), semiestruturada (com roteiro organizado, mas
flexível a interferências espontâneas que resultem da interação) ou não es-
truturada (aberta). Na primeira alternativa, há um roteiro previamente es-
tabelecido e as perguntas são pré-determinadas e respeitadas, similar ao sur-
vey. Esse tipo de questionário é oportuno para a realização de comparações.
No caso da entrevista não estruturada, o pesquisador tem um roteiro geral
de conteúdo, mas atua com total liberdade, elaborando perguntas de acordo
com a situação e o desenvolvimento da conversa. Há ainda a opção inter-
mediária, a semiestruturada, na qual o entrevistador segue um roteiro como
guia, mas o documento está aberto para mudanças de percurso, acréscimos
e supressões, assim como questões adicionais e baseadas no contexto da en-
trevista (Duarte, 2004; Flick, 2009; Taquette, Borges, 2020). O modelo se-
miestruturado caracteriza-se por uma mescla entre estrutura e flexibilidade,
e costuma ser o mais utilizado na Ciência Política (Ercan, Vromen, 2023).
66
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
A flexibilidade que caracteriza a entrevista semiestruturada é decor-
rente da interação entre o pesquisador e o entrevistado, elemento central
deste procedimento de coleta. Esta interação deve ser nutrida com natura-
lidade, aproveitando falas espontâneas e o entrosamento típico da conversa
verbal, de modo que o entrevistado se sinta totalmente à vontade e disposto
para desenvolver suas percepções sobre o assunto. Pressupõe-se que o diá-
logo esteja acima do rigor da sequência das perguntas ou da forma como
foram elaboradas. É preferível que o pesquisador aproveite oportunidades,
elabore e reelabore questões, do que faça o mero cumprimento protocolar
de perguntas decoradas, que podem até ficar descontextualizadas e vazias
ao longo da entrevista.
Entre as maiores vantagens oferecidas pela entrevista está sua natu-
reza versátil (Alonso, 2016). Por serem conduzidas, prioritariamente, de for-
ma oral, as entrevistas podem ser aplicadas a todas as classes sociais, não de-
mandando qualquer letramento. São também mais maleáveis que os surveys,
uma vez que o entrevistador pode repetir ou esclarecer perguntas e concei-
tos, a fim de garantir que o entrevistado tenha compreendido a pergunta.
O formato de interação permite ainda observar aspectos periféricos
às perguntas e respostas verbais, como postura, expressões, gestos, pausas,
tom de voz etc. As entrevistas consideram não apenas o que o entrevista-
do diz, mas como diz. Deste modo, as entrevistas muitas vezes permitem a
obtenção de dados que não se encontram em fontes documentais e que se-
jam relevantes e significativos:
A sua principal vantagem está na riqueza das informações que podem
ser coletadas, pelas palavras e interpretações dos entrevistados aos estí-
mulos que lhes foram dados, assim como a possibilidade de registrar a
sua reação não verbal. Além disso, a entrevista proporciona ao investiga-
dor a oportunidade de explorar ao máximo as suas questões e dirimir dú-
vidas, devido ao fato de se tratar de uma interação flexível e personali-
zada. Muitas vezes permite esclarecer situações ou acessar informações
que não seriam perceptíveis apenas pela observação (Lima, 2016, p. 39).
A técnica também possui limitações e, entre as maiores preocupações
67
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
e críticas, estão os riscos da subjetividade que ameaça o protocolo científi-
co (Cunha, 2014; Alonso, 2016). A busca pela objetividade científica torna-
-se mais desafiadora diante da técnica de entrevista, já que a interação hu-
mana entre pesquisador e entrevistado pode se traduzir em interpretações
subjetivas ou até mesmo induzir as informações obtidas.
Em partes, esse problema pode ser minimizado com a adesão de
protocolos de organização, condução e sistematização da aplicação do mé-
todo que, “muitas vezes, é utilizado de forma menos rigorosa do que seria
desejável” (Duarte, 2004, p.213) ou “nem sempre com a qualidade e rigidez
de critérios satisfatórios para o enriquecimento de uma pesquisa” (Britto Jr.,
Feres Jr., 2011, p. 237). Essa constatação induz à conclusão equivocada de
que “essa técnica de coleta de dados seria mais simples ou menos relevan-
te que as demais” (Venturini, 2022, p. 71).
Para além das dificuldades em assegurar a confiabilidade do méto-
do de obtenção de informações, há, ainda, a possibilidade de dificuldade
de expressão e comunicação de ambas as partes, e problemas não espera-
dos, como barulhos e intervenções externas no ambiente. Por um lado, a
incompreensão do informante a respeito do significado das perguntas, da
pesquisa, pode levar a falsas interpretações e respostas imprecisas (Silva et
al., 2006). Por outro, como dissemos, pode acontecer de o entrevistado ser
influenciado, consciente ou inconscientemente, pelo questionador pelas mais
diversas razões: pelo seu aspecto físico, suas atitudes, ideias, opiniões etc.
Em muitos casos os entrevistados podem tentar criar empatia ou
dar respostas consideradas por eles adequadas ao que o entrevis-
tador supostamente espera. Superar esse obstáculo, que pode ge-
rar respostas evasivas ou inadequadas, é o principal desafio do uso
da entrevista em pesquisas das Ciências Sociais (Lima, 2016, p. 27).
Além disso, é possível ocorrer algum tipo de constrangimento oriun-
do da diferença de classes entre entrevistador e entrevistado. Em contextos
de grande distanciamento, a circunstância de uma entrevista pode estabelecer
um cenário assimétrico: “em geral, as entrevistas com atores sociais das clas-
ses altas são marcadas por uma relação de dominação do entrevistado sobre
68
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
o entrevistador” (Barros, 2011, p. 129). Mas também pode ocorrer o inver-
so, do entrevistado se sentir inferior ou intimidado pelo entrevistador (ver
discussão abaixo sobre entrevistas com elites). A linguagem, a postura cor-
poral e até mesmo o código de vestimenta podem evidenciar essa assimetria.
Neste tipo de situação, também é preciso prever barreiras em rela-
ção à disposição do entrevistado em dar as informações necessárias. Há ca-
sos em que a fonte acaba retendo alguns dados importantes, receando que
sua identidade seja revelada, ou que sua segurança seja ameaçada. Ou ainda
cenários em que o entrevistado domina a técnica de entrevista e molda sua
fala àquilo que supõe ser o mais adequado a ser dito (Pereira, Neves, 2013;
Alonso, 2016). Dados externos à pesquisa podem contribuir para mitiga-
ção desses danos:
(...) há de se reconhecer os limites do método da entrevista para, por
exemplo, não cair num voluntarismo que limita a análise ao indivíduo e
às suas motivações. Confrontar a narrativa do entrevistado com dados es-
tatísticos, documentos de arquivo e, num sentido mais largo, com a es-
trutura na qual ele está inserido é uma operação essencial para dar con-
ta do embate entre o voluntarismo e a estrutura (Barros, 2011, p. 128).
Nas seções seguintes serão detalhados os procedimentos recomen-
dados para preparação, aplicação e análise de entrevistas. Nesses tópicos,
dissertaremos com maior profundidade sobre os riscos inerentes à técnica
e as melhores práticas para minimizá-los.
1.1 Breve origem da aplicação científica da técnica
A literatura registra menções a respeito da realização de entrevistas
desde o século XVII. Já o seu uso como ferramenta para coleta, organiza-
ção e publicização de informações acompanha a institucionalização da ciên-
cia e a modernização da prática jornalística (Roberts, 2020), a partir do sé-
culo XIX, o que levou à sua adoção por diferentes áreas do conhecimento,
cujas metodologias de análise empírica viviam sua fase embrionária (Britto
Jr., Feres Jr., 2011).
A Psicologia foi uma das primeiras ciências a utilizar entrevistas
69
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
como método de investigação. Autores renomados como Piaget, Janet, Freud
e Jung são conhecidos por desenvolverem pesquisas de grande escopo com
a aplicação de entrevistas; e foram os pesquisadores do campo da Psicologia
Social estadunidense que colaboraram para consolidar o uso da técnica en-
quanto método de coleta científica em meados do século XX.
No âmbito das Ciências Sociais, a adoção da técnica se deu por di-
ferentes disciplinas ao mesmo tempo, também ao longo do século XX. Na
Sociologia, a realização de entrevistas é frequentemente associada aos es-
tudos da Escola de Chicago, embora essa tenha empregado o método em
sua variação curta, estruturada e com objetivos quantitativos (os surveys). A
introdução do método como qualitativo, semiestrurado e em profundidade
costuma ser atribuída a Glaser e Strauss (1967), a partir da proposição da
Grounded Theory (Roberts, 2020). Na Antropologia, as entrevistas em pro-
fundidade passaram a ser incorporadas por diversos estudos etnográficos,
mas com formato mais aberto. Por essa razão, a Antropologia se tornou
conhecida pela tradição de atribuir valor ao processo de aprendizagem por
meio da escuta e transcrição de histórias compartilhadas. Já a adoção das
entrevistas pela Ciência Política é um pouco posterior, assim como a insti-
tucionalização da disciplina em si, apesar de, já em 1937, Lazarsfeld ressal-
tar as vantagens de entrevistas para identificar tendência e efeitos para pes-
quisa de comunicação política (Sanglard et al., 2022). Acompanha, por um
lado, o desenvolvimento de linhas vinculadas à História, como a do estudo
de lideranças e partidos políticos, e, por outro, o campo dos estudos sobre
comportamento eleitoral, a partir do aprimoramento das pesquisas de opi-
nião e do avanço do marketing político (Veiga, Gondim, 2001).
Na próxima seção, abordamos as etapas para aplicação desta téc-
nica e alguns cuidados que o pesquisador precisa ter para assegurar maior
êxito em sua execução.
2. Aplicação
A entrevista é concebida desde a sua definição enquanto um dos ins-
trumentos de pesquisa. O pesquisador deve ter clareza dos seus objetivos,
quais questões pretende esmiuçar a partir do método e a quem pretende
70
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
aplicá-lo. Deste modo, a aplicação da metodologia passa por três momen-
tos: a seleção dos respondentes, a elaboração do questionário e a execução
da entrevista em si.
2.1. Preparação
2.1.1 Seleção de participantes
A definição da amostra de respondentes deve ser orientada pelos
objetivos da pesquisa e respaldada pela revisão da literatura. Cabe ao pes-
quisador se perguntar: quem e quantas pessoas eu preciso entrevistar para
compreender melhor a questão colocada em minha pesquisa?
Tendo em vista as principais questões e objetos estudados pela
Ciência Política, são frequentes seis formas de composição de amostras
para entrevistas em profundidade: i) aleatória; ii) amostras intencionais; iii)
participantes voluntários; iv) por bola de neve; v) por casos raros e negati-
vos; vi) de especialistas.
Como dissemos, pesquisas que adotam entrevistas em profundi-
dade não costumam ter pretensões representativas, até porque, realizar o
procedimento em grandes amostras tende a ser financeiramente inviável.
Muitas vezes, a literatura sugere que as entrevistas sejam realizadas e, logo
em seguida, analisadas, para que se possa avaliar o alcance do ponto de sa-
turação. Nessa perspectiva, deve-se continuar fazendo novas entrevistas en-
quanto surgirem novas informações e temáticas (Flick, 2009; Guest, Bunce,
Johnson, 2006; Hennink, Kaiser, Marconi, 2017).
Entretanto, há controvérsias sobre o uso da saturação para amos-
tragem qualitativa (Minayo, 2017) e sua definição é desafiadora para jovens
pesquisadores. Em geral, estudos que se utilizam de entrevistas observam
entre um e 50 casos (Sampieri et al., 2013), apesar de na área ser recomenda-
da a realização entre 15 a 25 entrevistas por pesquisador envolvido (Gaskell,
2002; Hennink, Kaiser, Marconi, 2017). Outros estudos sugerem que se
houver variação o suficiente nos entrevistados, algo entre 6 a 8 entrevistas
podem ser suficientes para uma pesquisa mais exploratória (Guest, Bunce,
Johnson, 2006; Hennink, Kaiser, Marconi, 2017).
Em casos mais específicos e raros, quando as pesquisas têm ambições
71
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de generalização, utiliza-se amostras aleatórias, que são representativas da po-
pulação estudada (Sanglard et al., 2022; Venturini, 2022), como, por exemplo,
quando se deseja estudar um grupo mais limitado, como servidores públi-
cos de determinado órgão, diretores sindicais, assessores de legisladores etc.
Em determinadas situações, as entrevistas são realizadas após a apli-
cação de algum outro método, como a observação participante ou a análi-
se de redes, e têm como direcionamento um grupo específico, na tentativa
de compreender suas motivações e peculiaridades. Nestes casos, os respon-
dentes são selecionados por possuírem características específicas de inte-
resse da pesquisa, como determinada posição ou afiliação política, partici-
pação em evento de protesto, entre outros. Nestas amostras intencionais,
o número de respondentes costuma ser definido pelo ponto de saturação
do conhecimento, ou seja, quando, a partir do método, não se obtém mais
novas informações (Meza, Tatagiba, 2016; Bachini, 2021; Venturini, 2022).
Outra possibilidade de seleção de respondentes nestes casos é por
participantes voluntários. O pesquisador pode enviar um comunicado para
os membros da organização, ou anunciar a pesquisa em grupo ou platafor-
ma de rede social de determinado movimento político, por exemplo, e es-
perar que os seus integrantes se voluntariem a participar do procedimen-
to. É muito utilizada também nesse tipo de pesquisa a técnica bola de neve
(snowball), na qual um participante com dada característica indica outro.
Esse tipo de amostra pode ser útil para pesquisar grupos de difícil acesso
(Flick, 2009; Sampieri et al., 2013), contudo, tende a gerar resultados envie-
sados, uma vez que os participantes tendem a indicar pessoas próximas e
com perspectivas similares. Por esta razão, procura-se garantir algum tipo
de diversidade na amostra, como gênero, raça, local (de nascimento ou re-
sidência), posição ou corrente política, ainda que não seja proporcional se
considerada a população estudada, mas que permita inferências um pouco
mais amplas. Essa estratégia pode ser usada para incluir ainda casos raros
e negativos. Por exemplo: em um estudo sobre confiança no processo elei-
toral e motivações do eleitorado, pode ser interessante incluir na amostra
aqueles que não votaram nas últimas eleições, para compreender as razões
de sua negativa (Mahoney, Goertz 2004; Venturini, 2022).
72
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Em estudos biográficos ou historiográficos acerca de um ator polí-
tico, seleciona-se o próprio ator e o maior número de pessoas a ele relacio-
nadas naquele contexto de análise. Lógica semelhante é adotada em estudos
sobre instituições e organizações, selecionando-se as principais lideranças
destas no recorte efetuado, como, por exemplo, em um estudo sobre partidos
políticos ou sobre a atuação de uma bancada no Congresso. Documentos
institucionais e históricos, como relatórios, projetos de lei, estatutos, pau-
tas de reunião e matérias jornalísticas podem ajudar na seleção dos melho-
res respondentes (Duarte, 2004; Sampieri et al., 2013).
A despeito do critério de definição da amostra, o contato com os res-
pondentes pode ser feito de diferentes maneiras: pessoalmente; por corres-
pondência escrita; telefone; e-mail; mídias sociais ou mensageiros online (o
contato por esses últimos meios têm sido o mais frequente na última déca-
da). A escolha pelo meio de comunicação está intrinsecamente relacionada
ao perfil do entrevistado. Para chegar a autoridades políticas, por exemplo,
costuma-se primeiro enviar uma comunicação formal por escrito (carta ou
e-mail), com documentos comprobatórios da pesquisa, e agendar com seus
assessores. Já no caso de militantes políticos ou cidadãos comuns, meios mais
convencionais, como mídias sociais e mensageiros, tendem a ser suficientes.
Alguns perfis são menos propensos a conceder entrevistas ou di-
fíceis de acessar, como indivíduos das classes mais altas ou de regiões lon-
gínquas. Por essa razão, algumas pesquisas, sobretudo as do marketing po-
lítico ou de mercado, oferecem uma gratificação em dinheiro ou em forma
de presente, para incentivar a participação e como forma de agradecimen-
to. Esse valor ou presente varia de acordo com os recursos do projeto e o
grau de dificuldade para recrutar o participante para o experimento. Há ca-
sos em que é paga também uma ajuda de custo para deslocamento e ali-
mentação. Estas possibilidades e detalhes são informadas no primeiro con-
tato com o possível entrevistado e também devem estar previstas no termo
de consentimento.
Neste primeiro contato, é importante o pesquisador abordar o po-
tencial entrevistado sempre de modo educado e respeitoso, e preparar um
texto breve de apresentação da pesquisa, para situá-lo sobre o procedimento,
73
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
assim como estar completamente disposto a responder suas perguntas. Uma
indagação que surge com frequência, por exemplo, é sobre o porquê de te-
rem sido selecionados para a pesquisa, o que será feito com suas respostas
e se ele precisa se identificar. O pesquisador deve estar preparado para res-
ponder a questões dessa natureza.
2.1.2 Elaboração do roteiro
Após o exercício de revisão bibliográfica do objeto da pesquisa e de
estudos anteriores sobre ele que se utilizem de entrevistas, assim como da
definição da amostra de entrevistados, o pesquisador deve elaborar as per-
guntas e um roteiro para a entrevista, considerando tanto as informações
que deseja obter, quanto a sequência adequada para questioná-las.
O roteiro usualmente é estruturado a partir da combinação de duas
lógicas: a abordagem de funil e a de blocos temáticos. Costuma-se iniciar
o questionário com perguntas gerais e sem cunho valorativo, como as de
perfil do entrevistado (perguntas “quebra-gelo”) (Duarte, 2004; Flick, 2009;
Taquette, Borges, 2020), aproximando-se gradualmente do tema de interesse,
até que o entrevistado se sinta mais à vontade para responder espontanea-
mente e tratar de questões complexas e sensíveis. Essa estratégia é conhe-
cida como abordagem de funil (Sampieri et al., 2013; Lima, 2016; Venturini,
2022). Tal cuidado é fundamental para evitar qualquer desconforto aos res-
pondentes que possa inviabilizar ou prejudicar o procedimento. Já a estru-
turação do questionário a partir de blocos temáticos, tem como objetivo
captar informações mais detalhadas do entrevistado acerca de determina-
dos assuntos. Cumpridas essas etapas, a entrevista, comumente, é encerra-
da com comentários e agradecimentos finais.
A literatura sobre a metodologia de entrevistas nas Ciências Sociais
registra algumas tipologias de perguntas. Podemos sintetizá-las a partir da-
quela apresentada por Mertens (2005), que elenca seis tipos de perguntas:
i) as de opinião: “O que você pensa sobre isso?”; ii) as de expressão de sen-
timentos: “Como você se sente em relação a tal questão?”; iii) de conheci-
mentos: “Quais são os candidatos desta eleição?”; iv) sensitivas: “Como foi
sua experiência com essa música?”; v) de antecedentes: “De quantos eventos
74
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de protesto você participou?”; vi) de simulação: “Imagine que você é o pre-
sidente. Qual o principal problema que você teria a enfrentar?”. A esta lista,
podemos acrescentar o tipo vii) perguntas de oposição: “quais são as prin-
cipais diferenças entre os candidatos da esquerda e da direita para você?”,
muito úteis para observar as nuances de diferenciação dos fenômenos por
parte dos entrevistados.
Verifica-se que os diferentes tipos de perguntas se aproximam com
relação ao seu caráter. Todas são atravessadas por elementos subjetivos
(opiniões, sentimentos, valores), contribuindo para a observação, a partir
de diferentes ângulos, da experiência sócio-política dos sujeitos. Sendo as-
sim, convém combiná-las e agrupá-las em blocos temáticos (por exemplo:
avaliação da conjuntura, qualidade de vida, posições políticas, avaliação de
políticas públicas por área, funcionamento das instituições, pertinência da
participação), que favorecem o aprofundamento, por parte do entrevista-
do, sobre diferentes assuntos e, para o pesquisador, observar como estes se
relacionam entre si, assim como compreender melhor seus sentimentos e
comportamentos políticos.
Além disso, é fundamental a criação de um ambiente propício de
respostas. Esta tarefa passa pelo desenvolvimento de empatia e confiança
entre entrevistador e entrevistado, que se inicia na estruturação do questio-
nário (Sampieri et al., 2013). O primeiro passo para a construção deste am-
biente é o estudo do perfil do entrevistado ideal concomitante à revisão da
bibliografia sobre o fenômeno. O entrevistador que conhece bem o seu ob-
jeto e o perfil do seu público-alvo, se adapta à linguagem do entrevistado e
elabora perguntas que buscam dialogar com sua subjetividade, deixando-o
mais confortável para tratar dos temas de interesse da pesquisa.
Nesse sentido, sugere-se a inserção de perguntas nos questionários
que, muitas vezes, não são substantivas e diretas, mas estimulam o entrevis-
tado a desenvolver mais sobre determinada questão (Duarte, 2004; Taquette,
Borges, 2020; Sanglard et al., 2022). Ao mesmo tempo, é importante estar
em sintonia com o estilo de comunicação adotado pelo entrevistado, deven-
do-se evitar termos estrangeiros, técnicos ou vícios de linguagem não do-
minados pelo interlocutor (Venturini, 2022). O uso de termos de natureza
75
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
teórica ou jargões profissionais, por exemplo, podem intimidar a fonte.
Como o maior ganho da metodologia da entrevista é o aprofunda-
mento e seus detalhes, outro cuidado a ser tomado é evitar juntar duas ou
mais perguntas de uma só vez. Este comportamento pode causar confu-
são e perda na qualidade da resposta. As perguntas precisam ser abertas,
sem induzir a resposta, nem as limitar a respostas que se esgotem em afir-
mações ou negações. É preferível indagar “Como”, “Por que” e “O que”, a
elaborar conclusões precipitadas que induzem o entrevistado a confirmar a
informação ou, no máximo, refutá-la, sem explorar detalhes tão ricos a in-
vestigações de natureza qualitativa. Em suma, respostas que se fecham em
“sim” e “não” empobrecem a qualidade das informações buscadas (Duarte,
2004; Gaskell, 2002; Roberts, 2020).
2.1.3 Termo de consentimento
No anexo 1, disponibilizamos o questionário aplicado nas entre-
vistas em profundidade decorrentes da pesquisa de pós-doutorado de uma
das autoras sobre a difusão e recepção do discurso político pelas mídias so-
ciais. O questionário foi utilizado em entrevistas em profundidade realiza-
das com os seguidores das páginas públicas no Facebook de atores políti-
cos, individuais e coletivos.
Antes de iniciar a entrevista, deve-se retomar brevemente com o en-
trevistado os objetivos gerais da pesquisa, explicar como será feito o pro-
cedimento, e deixar aberta a oportunidade de esclarecimentos, questiona-
mentos e interrupção a qualquer momento. Nesta introdução também é
importante informar ao entrevistado que a conversa será gravada e realçar
a autorização do procedimento, prezando pela transparência do processo.
Estes protocolos são uma segurança tanto para o entrevistado, que tende
a se sentir mais acolhido e protegido, como para o pesquisador, que garan-
te a possibilidade de uso dos dados da pesquisa de forma ética e diminui as
chances de eventuais questionamentos jurídicos.
Neste âmbito, é de suma importância a elaboração de um termo
de consentimento. Neste devem constar o título e uma breve apresenta-
ção da pesquisa, o grupo de pesquisa e/ou instituição que a conduzem, a
76
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
identificação do pesquisador que realizará o procedimento, no que esse con-
siste e quanto tempo durará, os direitos do entrevistado (de acordo com as
diretrizes para pesquisa com seres humanos), como serão usados os dados
e outras informações relevantes. Neste mesmo documento deve ser ofer-
tada a possibilidade de resguardo do anonimato do entrevistado, se assim
desejar. No anexo 2, inspirados no documento usado pelos pesquisadores
do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-
USP) em suas pesquisas, apresentamos um modelo de termo de consenti-
mento, que deve ser apresentado ao entrevistado e por ele assinado antes
do início da entrevista.
2.1.4 Aplicação do teste piloto
Antes de realizar a entrevista com os respondentes selecionados, é
recomendado que se faça pelo menos uma aplicação teste do questionário,
para que o entrevistador tenha uma ideia do funcionamento e da eficiência
da sequência de perguntas e do tempo de resposta, também muitas vezes
chamado de teste ou estudo “piloto” (Taquette, Borges, 2020). Na realida-
de, esse será um exercício constante, que demandará sensibilidade e jogo de
cintura do pesquisador. A cada entrevista, irá se aprimorando o questioná-
rio e adaptando-se a cadência e a ordem das perguntas a partir da interação
com os entrevistados, que podem antecipar algumas questões, assim como
pular ou relacionar outras (Sanglard et al., 2022).
Para o teste, se possível, busque um entrevistado com característi-
cas similares ao público-alvo na pesquisa. Essa escolha contribui para a an-
tecipação de problemas, dilemas e constrangimentos, assim como tende a
ajudar a pensar em estratégias de abordagem, sobretudo quando se trata de
assuntos delicados ou embaraçosos. O teste também é uma oportunidade
para o entrevistador se assegurar sobre o funcionamento dos equipamen-
tos escolhidos, se ambientar à dinâmica dos softwares, quando for o caso, e,
principalmente, ensaiar sua postura de interação, tentando minimizar a ma-
nifestação de suas reações às respostas, de modo a não as influenciar. Tais
testes são essenciais para evitar a perda de uma eventual entrevista e para
que haja a chance de melhorar o questionário antes de sua efetiva aplicação.
77
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
2.1.5 Questões práticas de preparação
Selecionados os participantes, elaborado o questionário e o termo
de consentimento livre e esclarecido, fazemos algumas recomendações de
ordem prática aos entrevistadores. Com a aproximação da data da entrevis-
ta, convém que o entrevistador confirme a presença do candidato, com, ao
menos, dois dias de antecedência, de modo a evitar esquecimentos e via-
gens perdidas, principalmente quando se trata de respondentes especialis-
tas ou de elite, que costumam ter agendas disputadas.
As entrevistas em profundidade podem ser realizadas presencialmen-
te ou por videoconferência, a partir de programas como o Zoom, Teams
e o Google Meet, que permitem gravá-las. Esta opção tem sido usada com
cada vez mais frequência e debatemos a respeito no tópico abaixo.
Por outro lado, a realização da entrevista de forma presencial permi-
te a maximização da interação com o entrevistado, permitindo-lhe observar
seus gestos, expressões faciais, vestimentas, trato com outras pessoas, perten-
ces, etc., dados que podem ser muito relevantes para pesquisa (Lima, 2016).
Aumenta-se esses ganhos se o local escolhido para a entrevista for
a residência ou ambiente de trabalho do entrevistado (Bachini, 2021), opor-
tunizando que o pesquisador entre em contato com o seu universo, observe
o sujeito em seu meio. A esse respeito, sugere-se que o entrevistado indique
o lugar que prefere participar do procedimento, feita a ressalva que seja em
um lugar silencioso e no qual ele se sinta confortável para falar, sem inter-
rupções e interferências externas, que podem atrapalhar o desenvolvimen-
to da entrevista e a qualidade da gravação.
Recomenda-se ainda que, no dia da entrevista, o pesquisador leve
consigo, além do questionário e do termo de consentimento, um gravador
de voz, um caderno e uma caneta, para anotações, e um relógio, para contro-
le do tempo. Carregue sempre mais de uma cópia do termo, baterias para o
gravador e um celular com aplicativo de gravação de voz instalado, por pre-
caução a qualquer imprevisto. Deve-se lembrar que os microfones de celu-
lares frequentemente são de baixa qualidade e o seu uso pode evidenciar al-
gum “amadorismo”, então prefira sempre gravadores digitais profissionais.
78
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
O caderno deve servir para tomar notas breves do procedimento, de modo
a não constranger ou intimidar o entrevistado, que não deve se sentir ex-
cessivamente analisado. Reflexões mais aprofundadas devem ser feitas in-
dividualmente pelo pesquisador, após a entrevista.
A depender do tipo da pesquisa e dos formatos aventados para a
publicização dos seus resultados, pesquisadores também as gravam em for-
ma de vídeo, como fez o Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC-FGV)
em sua atualização do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro,2 e o Núcleo de
Estudos em Arte, Mídia e Política da Pontifícia Universidade Católica de
São Paulo (NEAMP – PUC/SP), em sua pesquisa sobre as lideranças po-
líticas brasileiras.3 Para isso, é necessária também uma autorização não só
para captar, mas também para utilizar as imagens. Deve-se também avaliar
sobre a necessidade de tal gravação, uma vez que ela pode inibir de forma
mais significativa os entrevistados.
2.2 Condução
No dia da entrevista, o pesquisador deve chegar com antecedência
ao local marcado e tomar algumas notas do seu entorno, se possível. Ao en-
contrar com o entrevistado, recomenda-se que o entrevistador se apresen-
te, recapitule brevemente os objetivos da pesquisa, peça que ele leia e assi-
ne o termo de consentimento e faça um rápido teste com o gravador, a fim
de se certificar do seu bom funcionamento.
O uso do gravador garante que haja plena concentração no momen-
to da entrevista e posterior decupagem/transcrição do material. É também
uma segurança ética, que registra e comprova o teor da conversa. Para seu
uso, contudo, é preciso solicitar a autorização do participante. Usualmente,
os participantes se sentem incomodados pelo gravador no início, mas ao lon-
go da entrevista passam a ignorá-lo (Duarte, 2004; Taquette, Borges, 2020).
Em alguns casos, é possível que as fontes optem pelo anonimato -
desde que cabível à pesquisa. Além disso, há situações em que o entrevistado
opta pela não gravação, parcial ou total, por questões de segurança ou para
2. Disponível em: <[Link] acesso em 21 de novembro de 2024
3. Disponível em: <[Link] acesso em 21 de novembro de 2024.
79
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
fazer revelações mais sensíveis. Essas decisões devem estar documentadas,
preferencialmente, por escrito e assinadas em Termos de Consentimento.
Iniciada a entrevista, o entrevistador indica o dia, horário e local
da entrevista, assim como cria uma identificação para a entrevista (como o
nome do entrevistado ou um pseudônimo, a depender do combinado en-
tre as partes).
No decorrer do procedimento, o pesquisador deve estar atento ao
controle do tempo para impedir que as perguntas mais importantes não se-
jam adiadas para o fim e arrisquem ficar de fora da entrevista. Em geral, as
entrevistas duram entre uma e duas horas. Mais tempo do que isso, pode
se tornar cansativo tanto para o entrevistador quanto para o entrevistado,
trazendo prejuízos às informações fornecidas. Se for necessário mais tem-
po do que isso, recomenda-se dar continuidade em uma nova data (Rocha,
2021; Venturini, 2022).
De igual modo, é preciso fazer uma escuta ativa, dar atenção a cada
resposta, demonstrando interesse nas informações trazidas pelo participante
e permitindo que ele desenvolva seus pontos com a maior liberdade possí-
vel (Gaskell, 2002; Taquette, Borges, 2020; Venturini, 2022). Caso ele se es-
tenda excessivamente ou desvie o foco da pergunta, deve-se interrompê-lo
de forma adequada e respeitosa e tentar voltar ao foco da questão (Duarte,
2004; Szymanski et al., 2010).
É importante relembrar que entrevista semiestruturada é um meio
termo entre estrutura e flexibilidade. Logo, aplicar o mesmo roteiro para to-
das as entrevistas realizadas na pesquisa (especialmente para facilitar a análi-
se e comparabilidade das respostas), não significa que não haja espaço para
perguntas que podem surgir de acordo com as falas do entrevistado. Essas
perguntas podem basicamente solicitar esclarecimentos ou aprofundamen-
tos na entrevista (em inglês são chamadas de follow up questions). Elas bus-
cam justamente elucidar pontos que possam não ter ficado claro ou mesmo
permitir que algo seja mais abordado por se tratar de questão importante
para a pesquisa. Em certos casos, podem surgir dados relevantes e não pre-
sentes em outras entrevistas e isso não é um problema, mas sim uma van-
tagem para os resultados finais (Sanglard et al., 2022; Szymanski et al., 2010).
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Em entrevistas em profundidade, são comuns momentos nos quais
o entrevistado se emociona ao recuperar algum episódio ou se aprofundar
em algum tema importante para ele. Talvez, nesses momentos, o entrevis-
tado peça para interromper a gravação. O entrevistador deve estar prepara-
do para lidar com eles, demonstrando empatia e compreensão ao entrevista-
do. Imprevistos também podem ocorrer, exigindo capacidade de adaptação
e reorganização do pesquisador (Taquette, Borges, 2020). Deve-se tomar
bastante cuidado nesses momentos para não romper a barreira entre em-
patia e criar uma situação em que o excesso de intimidade comprometa o
papel do pesquisador na condução da entrevista.
Ao final, pergunte se o entrevistado tem algo a acrescentar ou al-
guma dúvida. Informações preciosas, que não estavam previstas no roteiro
de perguntas, podem surgir daí.4 Caso não, agradeça, encerre, avise-o que o
gravador está sendo desligado e explique novamente como serão trabalha-
dos os dados. Quando a pesquisa envolve gratificação pela participação pre-
viamente combinada, essa costuma ser feita ao final da entrevista.
2.3 Relatório
Como já dito, muitas vezes não é possível tomar muitas notas duran-
te a realização da entrevista, pois isso pode chamar indevidamente a atenção
do participante e aumentar a sensação de estar sendo analisado ou mesmo
julgado por seu relato. Então, é bastante recomendável que o pesquisador
imediatamente após a entrevista faça um pequeno relatório fazendo uma es-
pécie de pré-análise de entrevista, destacando os pontos principais da mes-
ma, notadamente em termos de confirmação de ideias e hipóteses, similari-
dades e diferenças para pesquisas anteriores (se não for a inicial), eventuais
surpresas ou pontos únicos (Flick, 2009; Gaskell, 2002; Taquette, Borges,
2020). Tais relatórios (também chamados de memorandos em métodos qua-
litativos) serão extremamente úteis para a análise geral das entrevistas poste-
riormente e podem inclusive ser passados para eventuais softwares de análise
qualitativas, que sempre têm campos para esse tipo de anotações.
4. Por experiência dos autores, em casos raros o entrevistado pode desejar inclusive expressar coisas sem ser gravado (off the record).
Neste caso, o pesquisador deve ouvir o entrevistado com a mesma atenção e responsividade. Ao final do relato não gravado,
deve-se questionar se tais informações podem ou não ser usadas na pesquisa. Em caso negativo, isso deve no máximo ajudar o
pesquisador a compreender o fenômeno em estudo.
81
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
3. Análise
A análise da entrevista em profundidade compreende o debruçamen-
to sobre uma série de materiais resultantes do procedimento: as anotações,
a escuta da gravação e a transcrição da entrevista propriamente. Em parti-
cular, essa última tarefa costuma ser a mais trabalhosa e custosa, de modo
que deve estar prevista no desenho e no orçamento da pesquisa. Trata-se de
um trabalho braçal que engloba a decupagem das falas para posterior análi-
se, uma tarefa que costuma ser demorada. Embora esse trabalho possa ser
terceirizado, recomenda-se que a transcrição seja feita pelo próprio pesqui-
sador, que tende a reconhecer mais facilmente o sentido das pausas e mu-
danças de entonação do entrevistado (Belei et al., 2008).
A transcrição da entrevista é fundamental para uma análise mais
aprofundada das informações prestadas pelo entrevistado. Ela pode ser feita
de forma integral ou parcial, a depender dos objetivos da pesquisa, da me-
todologia definida para sua análise e do tempo que o pesquisador dispõe
para essa tarefa. Contudo, recomenda-se que ela seja feita da forma mais fi-
dedigna e detalhada possível, incluindo pausas, risadas, mudanças de tom
etc (Della Porta, 2014).
Acompanhados do diálogo com a literatura ou ainda de dados oriun-
dos de outras técnicas de coleta, os trechos das entrevistas são um importan-
te recurso a ser mobilizado para respaldar teorias, questioná-las, assim como
na defesa de seus argumentos pelo pesquisador (Rocha, 2021). Atualmente,
existem diversos aplicativos que transcrevem arquivos de áudio de forma
automatizada e verossímil, alguns, inclusive, fazendo uso de inteligência ar-
tificial. Não há problemas em fazer uso de tais aplicativos, porém tais trans-
crições automatizadas precisam ser revisadas e corrigidas adequadamente
pelo pesquisador, afinal, podem surgir erros e as ferramentas não conse-
guem traduzir sentimentos humanos. Logo, essas ferramentas servem prio-
ritariamente para facilitar o trabalho braçal da transcrição e devem ser usa-
das de forma criteriosa.
Há várias metodologias para analisar entrevistas. O enfoque da aná-
lise depende muito da pergunta da pesquisa (Duarte, 2004; Rocha, 2021).
82
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Em determinadas pesquisas, a atuação ou opinião dos entrevistados é con-
siderada de forma individual ou agregada, para se entender a constituição
de um ator coletivo ou de um processo mais amplo, como um movimen-
to político ou fenômeno, por exemplo. As unidades de análise também são
definidas a partir desses propósitos, podendo ser estabelecidas previamente
(na elaboração do questionário, quando se trata de entrevistas estruturadas
ou semiestruturadas) ou a partir da análise dos dados em si (mais comum
em entrevistas abertas), mas o mais frequente é a combinação desses esfor-
ços (Sampieri et al. 2013; Taquette, Borges, 2020; Bachini 2021).
Por exemplo, em entrevistas com atores políticos, institucionaliza-
dos ou não, pode-se analisar a adesão a determinadas práticas e repertó-
rios, suas motivações, disputas que enfrentam no âmbito da opinião públi-
ca, dentro de suas organizações (partidos, movimentos sociais, ONGS etc.)
ou mesmo no campo institucional (bancadas parlamentares, proposição de
projetos de lei, composição de governos, disputas de agendas com a opo-
sição etc.). Embora tenha-se alguma ideia de seus comportamentos a par-
tir da revisão da literatura e dos critérios de seleção dos respondentes, po-
dem surgir novas informações das entrevistas que sejam significativas para
que sejam incorporadas como códigos de análise.
As metodologias mais adotadas no campo da Ciência Política para
análise das entrevistas costumam ser: i) a análise historiográfica, na qual a
entrevista serve como documento informativo a respeito da história de um
ator, instituição ou processo político, e que tende a ter um caráter mais des-
critivo (Chaia, 1992); ii) análise temática, que tem uma lógica indutiva de
codificação e criação de temas com base nos próprios dados (Flick, 2009,
ver também capítulo 07); III) a análise de conteúdo, que geralmente aplica
uma lógica mais dedutiva, na qual você cria categorias e busca respondê-
-las olhando para o conteúdo (Sampaio, Lycarião, 2021, ver também capítu-
lo 08); iv) a análise de discurso, que também é um campo bastante diverso
e busca observar os argumentos e enquadramentos presentes na narrativa
do sujeito, os atores e discursos com os quais compete, e como eles se rela-
cionam entre si e com o contexto no qual se inserem (Bachini, 2021; Flick,
2009); e iv) análise textual automatizada, que busca fazer análises léxicas a
83
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
partir dos textos gerados pelas entrevistas (Izumi, Moreira, 2018; ver tam-
bém capítulo 09), dentre outras. Cabe lembrar que é possível também utili-
zar as metodologias de forma combinada.
Quadro 1. Resumo das etapas para realização de uma entrevista
Passo a passo
Preparação Revisão bibliográfica
Definição da amostra
Elaboração do questionário
Redação do termo de consentimento
Submissão do termo, pesquisa e demais documentos ao
Comitê de Ética
Teste do questionário (piloto)
Seleção dos entrevistados
Confirmação dos participantes
Organização do material para a entrevista
Encontrar com o entrevistado (presencial ou
Condução virtualmente)
Prestar esclarecimentos sobre a pesquisa
Pedir a assinatura do termo de consentimento
Iniciar a gravação e a entrevista
Encerrar o procedimento e dar a gratificação (se for o
caso)
Análise Redigir primeiras impressões (relatório) após a entrevista
Transcrever a entrevista
Revisar transcrição (principalmente quando feita por
outrem ou software)
Analisar os dados de acordo com a metodologia adotada
Adequar a análise ao formato de publicação aventado
(dissertação, tese, artigo, etc)
Fonte: elaborado pelos próprios autores.
3.1 Uso de softwares
É cada vez mais frequente o uso de softwares para análise dos textos
oriundos da transcrição das entrevistas e sua codificação, especialmente os
chamados computer assisted qualitative data analysis software (CAQDAS). Eles
84
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
podem ajudar o pesquisador a ganhar tempo, ter uma visão mais abrangen-
te dos dados coletados e fazer inferências relacionais mais complexas (in-
clusive entre as entrevistas). No geral, também são recomendados por ga-
nhos em termos de transparência, replicabilidade e credibilidade da análise.
Os softwares CAQDAS mais utilizados atualmente são NVivo,
MAXQDA, [Link] e WEBQDA, mas também existem algumas op-
ções gratuitas como o Dedoose, Freeqda e Rqda. Para mais informações
sobre esses softwares de análise e sua importância para análise de dados qua-
litativos, ver o capítulo 10. Em termos de análise textual automatizada, no
Brasil, certamente o mais usado é o pacote Iramuteq para R. Porém, como
detalhado no capítulo 09, há muitas opções de análise textual automática
sob a lógica de text as data (Izumi, Moreira, 2018).
4. Questões éticas específicas à técnica
A realização de entrevistas em profundidade exige alguns cuidados
éticos fundamentais. Como o seu conteúdo consiste em relatos que envol-
vem e comprometem as pessoas entrevistadas, visto que estas expõem ali
parte de suas vidas e vivências com outras pessoas, é preciso, antes de qual-
quer coisa, do seu consentimento para uso científico (Sanglard et al., 2022;
Venturini, 2022).
Esta discussão vem ganhando cada vez mais espaço dentro das
Ciências Sociais, nas quais as universidades e demais organizações de pes-
quisa a ela vinculadas vêm criando seus Comitês de Ética, aos quais as pes-
quisas da área são submetidas à aprovação (Szymaski et al., 2010; Taquette,
Borges, 2020) para mais sobre isso ver, o capítulo 12). Autorizadas as pes-
quisas pelos comitês, o próximo passo, como dissemos, é obter o consen-
timento do próprio entrevistado, que deve ser totalmente esclarecido sobre
os objetivos da pesquisa e como serão usados os seus dados. Este, geral-
mente, é obtido por meio do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido,
por escrito ou online (caso a entrevista seja executada nesse formato), con-
tudo, em casos de pessoas analfabetas, por exemplo, é possível obtê-lo tam-
bém de forma oral, mediante anuência prévia dos comitês.
No caso das pesquisas no âmbito da Ciência Política, é muito
85
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
valorizado que sejam tomadas diversas medidas para aumentar a transpa-
rência, replicabilidade e credibilidade da pesquisa, uma demanda que cres-
ceu fortemente nos últimos anos (Figueiredo Filho et al., 2019; Moravcsik,
2014). Nestas situações, tornar disponível o roteiro da entrevista, o termo
de consentimento e, eventualmente, o banco de dados codificado, é desejá-
vel (ver capítulo 11). Contudo, o compartilhamento da transcrição das en-
trevistas em si é tópico ainda mais sensível e em debate, devendo seguir,
rigorosamente, as orientações estabelecidas no termo de consentimento as-
sinado pelo entrevistado.
Comumente os potenciais entrevistados, por se tratarem de figuras
públicas, autorizam (e até gostam) que suas falas tenham visibilidade. Porém,
em casos como os de militantes, perseguidos políticos e pessoas em situa-
ção de risco, como combatentes, exilados, refugiados ou pessoas envolvidas
em conflito com organizações criminosas ou disputas locais, é imprescindí-
vel, por uma questão de segurança, o anonimato, e, sobretudo nessas con-
dições, o uso dos dados deve ser não apenas consentido, mas especificado,
pelo entrevistado. Nesses casos, é recomendável também o uso de codino-
mes em todas as etapas do processo, para minimizar riscos ao entrevistado
e ao próprio entrevistador.
Somente quando o contexto for seguro, e tomados os devidos cui-
dados em termos de anonimizar os dados (nomes, endereços, contatos etc.),
para garantir um armazenamento seguro e limitado para usos apenas acadê-
micos (preferencialmente com um pedido formal de outro grupo que dese-
ja ver os dados), as transcrições podem ser disponibilizadas. Isso deve estar
incluso no termo de consentimento, estar explícito para os entrevistados e
constar na submissão conselho de ética (Aguinis, Solarino, 2019). Em qual-
quer caso que haja evidências significativas de que a identificação possa ser
prejudicial aos entrevistados, as transcrições e banco de dados não devem
ser publicizadas, garantindo o sigilo em nome do resguardo dessas pessoas.
Como já foi mencionado, e merece ser repetido, é de suma impor-
tância que o entrevistado se sinta acolhido pelo entrevistador, que deve zelar
por sua privacidade, segurança e dignidade também no decorrer do proce-
dimento, e ter empatia e respeito em eventuais situações de vulnerabilidade,
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
sensibilidade e desconforto, visto que as entrevistas, muitas vezes, podem
passar por questões de foro íntimo.
5. Possibilidades e desafios para realização online
Com a difusão das tecnologias de comunicação e informação, os
pesquisadores qualitativos começaram gradualmente a experimentar ou-
tras formas de contatar e mesmo entrevistar indivíduos de forma remota,
processo bastante acelerado pelo distanciamento social imposto pela pan-
demia de covid-19, entre 2020 e 2022 (Lobe et al., 2022).
Entrevistas online são mais ou menos recomendadas, podendo ser
adequadas ou não de acordo com a situação e objetivos de pesquisa. Na
prática, há vantagens e desvantagens de fazer as entrevistas online, como
tentaremos resumir nesta seção, assim como algumas questões específicas.
As entrevistas online apresentam uma óbvia vantagem em termos
de comodidade. Elas não dependem do deslocamento do pesquisador e do
entrevistado para algum lugar, sendo, portanto, mais fáceis de serem agen-
dadas de acordo com as necessidades dos participantes. Também eliminam
possíveis gastos com viagens e deslocamento maiores para a pesquisa, ao
mesmo tempo que aumentam exponencialmente a possibilidade de entre-
vistar qualquer indivíduo em praticamente qualquer localização, erodindo
os limites tradicionais das barreiras geográficas. Além disso, facilitam a gra-
vação e transcrição das entrevistas (Hanna, Mwale, 2019; Lacono, Symonds,
Brown, 2016; Lobe et al., 2022).
Do ponto de vista do participante, uma vantagem é o maior contro-
le sobre o procedimento. Se numa situação presencial, é mais difícil e cons-
trangedor interromper a entrevista, na versão online o poder do entrevis-
tado é muito maior, que, no limite, pode simplesmente fechar o aplicativo
pelo qual está concedendo a entrevista sem nenhum prejuízo. Para alguns
pesquisadores, como Lacono, Symonds e Brown (2016), alguns entrevista-
dos podem se sentir mais à vontade para fazer a entrevista de sua casa ou
local seguro, o que pode ser importante para tratar determinadas temáti-
cas ou participantes mais tímidos e introvertidos. Inclusive, é possível fazer
entrevistas online sem o uso do vídeo, se isso a tornar mais cômoda para
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
o entrevistado.
As desvantagens também são inúmeras, assim como questões as-
sociadas. A primeira delas está na eventual dificuldade de conseguir que as
pessoas assinem os termos de consentimento por esquecimento ou falta de
literacia digital. Contudo, as desvantagens geralmente mais destacadas estão
relacionadas à maior dificuldade de se construir confiança e conexão com
entrevistado, o que tende a reduzir a qualidade e o tempo das entrevistas.
Nas vídeochamadas, o foco se detém apenas nos rostos do entre-
vistador e entrevistados, reduzindo as pistas corporais e não verbais. A co-
municação digital também é mais travada, e dificulta que haja um fluxo mais
natural da conversação, uma vez que se espera algum sinal para poder falar.
Nessa esteira, problemas corriqueiros da conexão da internet, por exemplo,
podem ser bastantes disruptivos para momentos mais emocionais e podem
até mesmo destruir uma entrevista inteira.
Da mesma forma, assim como a internet facilita chegar a determi-
nados públicos, as desigualdades digitais podem impedir que determinados
indivíduos sejam entrevistados ou sequer considerados. A falta de acesso
e mesmo de conhecimento de como usar tais tecnologias podem ser for-
tes empecilhos e enviesar a seleção de participantes e os resultados (Hanna,
Mwale, 2019; Lacono, Symonds, Brown, 2016; Lobe et al., 2022).
Outros tópicos apresentados como vantagens também podem ter
o sentido oposto, a depender da situação. Por exemplo: muitos entrevista-
dos podem não se sentir à vontade para abrir suas casas para pesquisado-
res, ainda que de forma remota (podem inclusive exibir objetos de suas ca-
sas que não gostariam e depois pedirem para a entrevista não ser utilizada);
assuntos muito sensíveis podem não funcionar para uma conversa à dis-
tância; assim como, se o tópico não for considerado interessante pelo en-
trevistado, ele pode perder o foco com mais facilidade; e o controle do en-
trevistado em encerrar a ligação pode levar a perda de entrevistas (Lacono,
Symonds, Brown, 2016; Lobe et al., 2022).
Finalmente, as entrevistas online (e eventualmente suas transcri-
ções) tendem a ficar hospedadas em servidores online que geralmente es-
tão conectados às ferramentas utilizadas para a chamada e a gravação da
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
entrevista. Então, os cuidados com os dados e a privacidade dos entrevista-
dos devem ser redobrados (Hanna, Mwale, 2019; Lacono, Symonds, Brown,
2016; Lobe et al., 2022).
6. Aplicações em Ciência Política
As possibilidades de aplicação da técnica de entrevistas no campo da
Ciência Política são tão amplas quanto a diversidade de objetos investigados
pela área. Neste tópico final, recuperamos essas funcionalidades e aprofun-
damos as particularidades que podem ser encontradas a depender do obje-
to, da área de pesquisa e, sobretudo, dos sujeitos entrevistados.
A lista de fenômenos que podem ser investigados a partir da técni-
ca de entrevistas é extensa. O procedimento é indicado para obtenção, re-
cuperação e registro de vivências e percepções de atores importantes para a
pesquisa (Lima, 2016, p. 27). Por isso, se confirma como método adequado
a diferentes linhas da Ciência Política, desde estudos dedicados à democra-
cia, passando por participação política, comportamento político, compor-
tamento eleitoral, opinião pública, ideologias, políticas públicas e movimen-
tos sociais. Ao entrevistar pessoas, é possível que o pesquisador identifique
valores, avaliações, motivações e demandas que orientam os mais diversos
atores políticos, institucionalizados ou não: elites, movimentos sociais e,
mesmo, os próprios cidadãos.
Pesquisadores podem fazer perguntas a ativistas, lideranças sindi-
cais, atores da política institucional, partidária, jornalistas, atores econômi-
cos, lideranças comunitárias, eleitores, cidadãos, perpassando tanto o ciclo
eleitoral, quanto o mandato; do ciclo de políticas públicas à avaliação qua-
litativa do impacto de sua implementação.
Certamente, uma seara que interessa à Ciência Política é a entrevista
com diversos tipos de elites (Aguinis, Solarino, 2019; Harvey, 2011; Mikecz,
2012), compreendendo elites como indivíduos que ocupam cargos conecta-
dos a diversas formas de poder (para mais, ver Perissinoto, Codato, 2015).
Neste aspecto, a atuação em inúmeros cargos pode interessar aos pesqui-
sadores da área, como:
1. Elites políticas tradicionais, vulgo políticos profissionais com
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
cargos, elites partidárias, indivíduos dos primeiros escalões de governos
(Ângelo, 2017);
2. Assessores e cargos comissionados tradicionais atrelados a esses
(Pereira, 2020);
3. Elites burocráticas, indivíduos que ocupam cargos de segundo
escalão e fazem a ponte entre a burocracia de rua e a elite política (Lotta et
al., 2023);
4. Elites de agências e órgãos com grande impacto político des-
de agências multilaterais, como ONU, Banco Mundial, Unesco a órgãos
de destaque nacional, como Banco Central, BNDES, IBGE etc. (Codato,
Albuquerque, 2023);
5. Elites econômicas com relevância política (Costa, Stöberl, 2016;
Barros, 2011);
6. Elites do Judiciário, algo vital com a crescente judicialização da
política e politização do Judiciário (Almeida, 2010; Mongelós, 2013);
7. Elites da sociedade civil, líderes sindicais, de movimentos sociais,
organizações não governamentais e coletivos (Vanunuchi, 2020; Bachini,
2021; Venturini, 2022);
8. Elites midiáticas, como editores e jornalistas políticos de grandes
jornais (Athanásio, 2017; Pereira, Neves, 2013);
9. Elites religiosas, dado o crescimento acentuado de bancadas evan-
gélicas e da Bíblia (Trevisan, 2013);
10. Candidatos, assessores e outros atores que compõem a campa-
nha eleitoral (Ituassu et al., 2022; Panke, 2016; Marques; Carneiro, 2018);
entre outras.
Cada um desses grupos apresenta uma série de características e par-
ticularidades que tendem a influenciar no desenho da pesquisa envolvendo
entrevistas qualitativas. Não é nosso objetivo aqui detalhar cada uma delas,
mas, de modo geral, a literatura sobre as entrevistas com elites apresenta al-
guns consensos, como o fato de serem grupos de difícil acesso e de difícil
construção de um cenário de confiança, colaboração e empatia. Recomenda-
se o uso alternado de roteiros de perguntas estruturadas (fechadas) e abertas,
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
estratégias ativas de manter os entrevistados interessados na pesquisa e na
entrevista em si, fazer entrevistas mais curtas (em torno de 45 minutos), e
estar bastante flexível em termos de horário, meio ou local para a realização
da entrevista. Contudo, há evidências de melhores entrevistas em locais pú-
blicos (adequados em termos de movimento e barulho), pois retiram as elites
de seu local de trabalho e do sugestionamento a respostas oficiais. O tempo
e a insistência necessários para esse acesso tendem a ser significativamente
superiores aos de outros tipos de entrevistados (Harvey, 2011). É preciso
considerar ainda que, para acessar essas elites, o pesquisador terá de dispor
de bom trânsito de contatos estratégicos, como os assessores, que possibi-
litem o diálogo com pessoas habituadas a uma agenda disputada, além de
ambientes de poder que naturalmente restringem o diálogo.
A condução das entrevistas também tende a ter uma dinâmica dife-
rente, pois elites estão frequentemente acostumadas a falar e não ser contra-
riadas. Isso pode levar a longas respostas que fogem dos pontos principais
ou mais espinhosos das questões, assumindo uma certa lógica de que esta-
ria fazendo um favor ao pesquisador. O próprio pesquisador pode se sentir
constrangido e inibido a fazer perguntas delicadas e valiosas à investigação
(Barros, 2011). O papel do pesquisador é manter um difícil equilíbrio entre
manter os entrevistados em uma situação confortável, mas não se colocar
num papel subalterno, reafirmando se necessário o seu papel e reconheci-
mento como professor, pesquisador. Boa parte de membros das elites não
se intimidam com as gravações, mas em comparação a outros entrevista-
dos, podem ser mais reticentes em tratar de certos assuntos durante a gra-
vação e optar por mais falas off the record (Mikecz, 2012).
Não obstante, como foi evidenciado ao longo do capítulo, as entre-
vistas em Ciência Política também podem se aplicar a indivíduos que não
sejam de elites. Por exemplo, Camila Rocha (2021) foi capaz de observar
um cenário complexo de como diversas agendas ultraliberais e conserva-
doras foram se unindo para formar o cenário da eleição de Bolsonaro no
Brasil, apoiada em pesquisa de campo e entrevistas qualitativas. Por sua vez,
nas eleições de 2018 e 2022, os surveys tinham dificuldade de analisar o elei-
tor bolsonarista, incluindo conseguir saber sua intenção de voto. Ao usar
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
entrevistas qualitativas com bolsonaristas, Ester Solano (2019) foi capaz de
aumentar significativamente a nossa compreensão sobre o fenômeno.
No recorte da propaganda e do marketing eleitoral, os investigado-
res podem recorrer a relatos de candidatos, de profissionais de campanha,
de eleitores e de atores da justiça eleitoral para avaliar o impacto persuasi-
vo da propaganda eleitoral na formação da opinião pública. Os entrevista-
dos variam a depender dos objetivos da investigação:
As entrevistas em profundidade podem ser realizadas com formadores de opi-
nião ou com os cidadãos comuns. No primeiro caso, intelectuais, jornalistas,
professores, líderes de classe e empresários são entrevistados com o objetivo
de mapear o quadro da disputa eleitoral. No segundo caso, os pesquisados são
eleitores comuns, e o objetivo é o de identificar as estruturas cognitivas que as
pessoas possuem e utilizam na decisão do voto (Veiga, Gondim, 2001, p.5).
Pela mesma razão, as entrevistas podem ser determinantes no caso
de objetos cujo fenômeno não produz registros públicos ou documentais
- como é próprio de relações entre pessoas e/ou instituições, como, por
exemplo, quando se tem o objetivo de compreender as relações traçadas
entre o núcleo político e o núcleo de comunicação de uma campanha elei-
toral (Marques, Carneiro, 2018). Em situações em que há conflito - de inte-
resses, percepções ou narrativas -, como na dinâmica interna de movimen-
tos e partidos políticos, a entrevista também se torna valiosa na busca por
elementos que estão ocultos, mas que incidem - e muitas vezes determinam
- o objeto da Ciência Política que está sendo pesquisado.
Com esses objetivos, Ituassu e colegas (2022) entrevistaram 28 pro-
fissionais de campanha eleitoral no Brasil, tratando especificamente do bra-
ço digital das campanhas políticas. Os autores denotam como foi possível
aprofundar várias questões das campanhas online em termos de estratégias.
Soma-se aos exemplos, o inventário de Panke (2016) sobre o perfil das mu-
lheres que atuam na política. Depois de entrevistar uma centena de pessoas
envolvidas em campanhas eleitorais de 15 países diferentes, a pesquisado-
ra desenvolveu três categorias de análise das candidatas que disputaram a
presidência da República brasileira e de outros países da América Latina.
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Os movimentos sociais também podem ser pesquisados por meio
de entrevistas, que auxiliam no objetivo de captar as estratégias e motiva-
ções coletivas e podem ser utilizadas em combinação com outros métodos
qualitativos:
No caso das pesquisas com movimentos sociais, as entrevistas têm sido uti-
lizadas para o entendimento de microdinâmicas de comprometimento, de
modo a compreender visões e expectativas individuais e coletivas que pos-
sam influenciar a possibilidade de ação coletiva, analisar estratégias de recru-
tamento, bem como a biografia dos participantes dos movimentos. O méto-
do também pode ser orientado para compreender como os movimentos se
mobilizam, combinando entrevistas com observação participante para en-
tender a formação das bases de grupos de protesto (Venturini, 2022, p.74).
Adota esse tipo de triangulação a pesquisa de Bachini (2021), que
se estabelece na fronteira entre a Sociologia e a Ciência Política ao observar
as reconfigurações das identidades coletivas no Brasil contemporâneo. Em
sua análise, a autora reuniu dados oriundos da análise conjuntural, de pu-
blicações da imprensa e no Facebook, e realizou entrevistas semiestrutura-
das com militantes de movimentos sociais de esquerda e direita que parti-
ciparam dos mais importantes protestos observados entre 2013 e 2016 no
Rio de Janeiro e em São Paulo. O desenho da pesquisa propiciou, entre ou-
tras coisas, um olhar mais abrangente sobre o processo político, a compa-
ração e as relações dos/entre os discursos dos diferentes atores políticos
que dinamizaram o ativismo e a política brasileira na última década, e ob-
servar como estes colaboram e são influenciados pelo processo de descen-
tramento identitário, aprofundado particularmente por dois processos or-
ganizadores, a ação ciber-orientada e o enquadramento anti-institucional,
elementos estes centrais para a compreensão da disputa política que se es-
tabeleceu e seus desdobramentos institucionais.
Por fim, cabe discorrer brevemente sobre os estudos que se utilizam
de entrevistas para a concepção e avaliação de políticas públicas. Lotta et al.
(2018) entrevistaram burocratas de médio escalão para compreender melhor
o processo de implementação de políticas públicas de assistência social no
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
município de São Paulo e como as relações entre eles o facilitam ou dificul-
tam. Já Batista e Domingos (2017) sugerem a adoção complementar de gru-
pos focais e entrevistas para que se avalie o impacto das políticas na qualida-
de de vida das pessoas, como fizeram Patton (2002), em sua pesquisa sobre
os efeitos da escolarização de jovens e adultos, e Hunter e Sugiyama (2014)
em sua pesquisa sobre o Programa Bolsa Família. Dados como a possibili-
dade de leitura de bulas de remédios por ex-analfabetos reduzir a ingestão
errônea de medicamentos, e a recuperação da dignidade por pessoas que
antes não tinham renda, não são mensuráveis pelos métodos quantitativos,
mas de suma importância para entender o alcance de tais políticas públicas
e seus desdobramentos no campo eleitoral, do recall ao accountability.
Considerações finais
Neste capítulo, nos dedicamos a mostrar as características e funcio-
nalidades das entrevistas em profundidade enquanto técnica de pesquisa,
com enfoque em suas possíveis aplicações nos estudos da Ciência Política.
Orientamos sobre as diferentes etapas da realização deste procedimento,
passando pela preparação, condução, execução e análise dos dados, assim
como abordamos suas vantagens e desvantagens, diferentes formas, ques-
tões subjetivas e éticas que o perpassam. Buscamos também revisar as prin-
cipais pesquisas da área, sobretudo no Brasil, que se utilizam de entrevistas,
explorando os tipos de dados e resultados que podem render.
A despeito do nosso esforço de detalhamento e síntese, como todo
trabalho de explanação metodológica mais geral, sempre ficam questões a
serem esmiuçadas, a depender do objeto escolhido e da condução da pes-
quisa em si. Contudo, esperamos que nosso texto inspire criativamente os
colegas a pensarem na incorporação de entrevistas em suas pesquisas, e con-
tribua para o aprimoramento da técnica e o aumento do rigor metodológi-
co em seu emprego no campo.
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SZWAKO, José; DOWBOR, Monika; PEREIRA, Matheus Mazzilli. Métodos
em movimento. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2022.
ANEXO 1 - Modelo de questionário para entrevista em profundidade
Breve recapitulação sobre a pesquisa, sua condução e solicitação de assinatura de
termo de consentimento do uso dos dados.
Identificação do entrevistado/a:
Nome: [lembre o participante que não será divulgado posteriormente]
Idade:
Cidade de residência:
Bairro/região: [se for importante para a pesquisa]
Profissão:
Classe/faixa de renda: “Em qual classe econômica você acha que se situa?”
[Caso a resposta não seja clara ou precisa, tente dar exemplos de como o IBGE
considera tal classificação em termos de salários mínimos].
Cor/raça: “O IBGE classifica as pessoas como preto, pardo, branco, indígena e
amarelo. Com qual você mais se identifica/em qual você se encaixaria?”
Religião: “Caso você tenha alguma, qual a sua religião?”.
[Se precisar, indicar as classificações do IBGE, Catolicismo, Protestantismo,
Espiritismo, Religiões afro-brasileiras, Outras religiões, Sem religião (ou agnóstico)].
Posição política: “Como você se considera em termos de política, como direita,
centro ou esquerda?”
É filiado a alguma ONG, coletivo, movimento social ou partido político?
102
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
1. Bloco de perguntas sobre consumo de informações e mídias sociais:
Você poderia nos falar um pouco sobre como você se informa sobre novidades
e notícias no dia a dia?
Follow-up: O que te leva a usar esse meio e não outro?
[Caso não tenha sido mencionado na resposta inicial] Muitas pessoas dizem se in-
formar pelas redes sociais, como Facebook, Instagram e Whatsapp. Como você
usa as redes sociais no seu cotidiano?
Follow up: Conte um pouco sobre como você usa as mídias sociais para se infor-
mar e/ou discutir sobre política?
Você estava falando sobre esse uso das redes sociais para saber mais sobre política
se informar. Sobre esse assunto, você julga mais confiáveis as informações recebi-
das pela internet ou aquelas da imprensa tradicional, como TV e Rádio?
Follow up: conte mais da razão para acreditar nisso.
Você poderia nos dar exemplos da sua família e amigos?
Muito tem se falado sobre fake news tanto nas redes quanto na imprensa. O que
você entende que seja fake news?
Follow up: Pode nos dar exemplos dessas fake news?
Pode nos falar um pouco sobre a percepção da quantidade de fake news que você
(ou familiares) recebem e como isso afeta sua vida?
2. Bloco de perguntas sobre política e governo:
Como você avalia a situação do país nos últimos quatro anos?
Follow up: Quais são os principais problemas do país hoje?
E quais as soluções, em sua visão, para eles?
Como você avalia a atuação dos prefeitos e governadores ao longo desse período?
103
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Follow up: Dê exemplos de sua cidade ou estado para essa determinada avaliação.
E na mesma lógica que você falava agora, como você avalia o governo federal nos
últimos anos?
Follow up: Dê exemplos de como o governo foi bom ou ruim na sua vida.
Então, considerando o que você acabou de falar, quais foram os principais erros
e os principais acertos dos governantes?
Você apresentou vários exemplos interessantes de como a política influencia a nos-
sa vida. E temos vivido esse clima de polarização, de fla-flu eleitoral. Mas quería-
mos te ouvir sobre o que você acha da democracia?
Follow up: No seu entendimento, a democracia é um bom regime de governo?
As instituições democráticas funcionam? Por quê?
Qual é a sua opinião sobre os partidos políticos? E os movimentos sociais?
3. Bloco de perguntas sobre economia:
Em sua opinião, qual deve ser o papel do Estado na economia?
Follow up: Ele deve ser máximo/ provedor ou mínimo/ facilitador?
Então, dentro disso gostaríamos de ouvir o seu pensamento sobre a necessidade
ou não do pagamento de impostos?
Follow up: Você acha que os impostos retornam positivamente para a sua vida?
Você mencionou alguns aspectos positivos/negativos sobre os impostos e men-
cionou antes sobre o papel do Estado na economia, então estamos curiosos em
saber a sua opinião sobre as privatizações.
4. Bloco de perguntas sobre segurança:
Agora, queríamos ouvir um pouco mais sobre o lugar onde você vive. Fale um
pouco sobre a segurança e proteção no seu bairro/região.
104
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Follow up: Você se sente seguro no lugar onde vive?
E você mencionou determinado problema ou questão [citar] na sua fala anterior,
como você avalia a criminalidade e as política de segurança pública na sua região?
Follow up: Percepção sobre sensação de segurança pessoal e de familiares. Presença
ou não da polícia, guarda e atuação delas.
E diante do que você acabou de nos contar, o que poderia ser diferente em sua
opinião?
Follow up: Você é a favor da posse/ porte de armas?
Além da polícia, temos as chamadas milícias. Fale um pouco sobre o que pensa
sobre elas.
5. Bloco de perguntas sobre direitos humanos:
Agora, queríamos tratar um pouco sobre a nossa sociedade. Como você avalia
que as pessoas tratam os diferentes grupos, como homens, mulheres e a popula-
ção LGBTQIA+?
Follow up: Mas você acha que eles são tratados igualmente? Fale nos mais sobre
isso.
Dê exemplos.
E quanto a negros, brancos e pardos, você acha que existe diferença de tratamento?
Dê exemplos.
Você mencionou várias coisas interessantes, então você considera que a nossa so-
ciedade é machista? E Racista? [Aqui a pergunta gera resposta sim/não, mas nos
parece que direciona naturalmente uma explicação]
Certo e dentro do que você acabou de dizer, queríamos saber o que você enten-
de como direitos humanos.
Follow up: É favorável ou contrário a eles?
E qual a sua opinião sobre os direitos das minorias, como mulheres, negros,
LGBTQIA+?
Follow up: Qual seria a diferença entre direitos das minorias dos direitos humanos?
105
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Finalmente, para concluir essa nossa conversa sobre a sociedade religiosa, qual a
sua opinião sobre a diversidade religiosa?
Follow up: Religiões de matriz africana devem ser permitidas ou perseguidas?
O Estado deve ser laico?
Considerações finais
Você gostaria de fazer algum comentário sobre as perguntas realizadas ou acrescen-
tar algum ponto que não foi abordado na entrevista? Agradecemos sua participação.
ANEXO 2 - Modelo de Termo de Consentimento Livre e Esclarecido
Você está sendo convidado(a) a participar da pesquisa “_____________”, rea-
lizada pelos pesquisadores do _______________________financiada pelo
_____________________________. Nosso objetivo, nesse momento, é obser-
var _________________________________.
Para essa etapa da pesquisa, adotaremos o método das entrevistas individuais se-
miestruturadas. Essas entrevistas serão registradas por meio de anotações escri-
tas pela pesquisadora e de gravação de voz. As entrevistas poderão durar entre 1h
e 1 hora e 30 minutos na média. O local de realização das entrevistas será acor-
dado com os(as) participantes, da maneira que for mais conveniente ao(a) parti-
cipante da pesquisa.
Para participar desta pesquisa, você deverá autorizar e assinar este termo de con-
sentimento livre e esclarecido. Você não terá nenhum custo, nem receberá qualquer
vantagem financeira [revisar se a pesquisa for financiada]. Você será esclarecido(a)
em qualquer aspecto e poderá retirar o consentimento ou interromper a sua par-
ticipação a qualquer momento. A sua participação é voluntária e a recusa em par-
ticipar não acarretará qualquer penalização. A pesquisadora tratará a sua identida-
de com padrões profissionais de sigilo. Você não será identificado(a) em nenhum
veículo público (meios impressos e/ou verbais).
Os riscos envolvidos na participação da pesquisa consistem em riscos mínimos,
pois se trata de um estudo no campo da Ciência Política. Mesmo assim, ao ser so-
licitado(a) a relatar suas experiências de vida e trabalho, o(a) participante pode se
lembrar de acontecimentos que lhe causem certo desconforto. Nesse sentido, você
106
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
pode se recusar a falar sobre os assuntos de que não quiser. O tópico guia para a
realização das entrevistas individuais foi elaborado de modo cuidadoso, para redu-
zir as chances de causar desconforto aos participantes com as perguntas.
A produção do conhecimento por meio desse estudo poderá contribuir para a pro-
posição e aprimoramento de políticas públicas relacionadas à segurança cidadã e
ao aprimoramento da democracia. Dessa forma, os(as) participantes e a socieda-
de, em geral, serão beneficiados.
Os resultados estarão à sua disposição quando finalizada. Este termo de consenti-
mento encontra-se impresso em duas vias originais: sendo que uma será arquiva-
da pela pesquisadora responsável, e a outra será fornecida a você.
A pesquisadora tratará a sua identidade com padrões profissionais de sigilo, atenden-
do a legislação brasileira (Resolução Nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde),
utilizando as informações somente para fins acadêmicos e científicos.
Em caso de dúvidas sobre a pesquisa ou para relatar algum problema, você pode
contatar a pesquisadora _______________no telefone __________ e-mail:
_______________.
Diante disso, assine abaixo a declaração abaixo se concordar com todos os escla-
recimentos dados.
Eu, __________________________________________________ fui informa-
do(a) dos objetivos da presente pesquisa, de maneira clara e detalhada e esclare-
ci minhas dúvidas. Sei que a qualquer momento poderei solicitar novas informa-
ções, e posso modificar minha decisão de participar se assim o desejar. Declaro que
concordo em participar dessa pesquisa. Autorizo a divulgação dos resultados do
estudo, incluindo as informações prestadas por mim, em eventos e artigos cientí-
ficos. Recebi o termo de consentimento e me foi dada a oportunidade de ler e de
esclarecer as minhas dúvidas.
São Paulo [insira sua cidade], ____ de ___________de 20___.
107
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
___________________________________
Participante da pesquisa
Na qualidade de pesquisadora do projeto “_____________________” e condu-
tora da entrevista, eu, ________________, declaro ter cumprido as exigências dos
itens IV.3 e IV.4, da Resolução CNS 466/12, a qual estabelece diretrizes e normas
regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos.
___________________________________
Assinatura da pesquisadora
108
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
03
Grupos focais em Ciência Política
Carolina de Paula
Bruno Washington Nichols
Gabriel Bento Leite Ferreira
Pedro Lenhagui Bergamaschi
109
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
Os grupos focais, também conhecidos como grupos de discussão, estão in-
seridos na abordagem qualitativa e são, numa definição geral, a técnica de
pesquisa onde os participantes conversam entre si, e não apenas respon-
dem às inquietações do moderador/condutor do grupo. Em grupos focais
são levantados e aprofundados pontos sobre um dado assunto, em que o
objetivo final não é atingir o consenso, mas capturar a diversidade de opi-
niões e ângulos sobre uma questão previamente elaborada. Essa questão
original poderá sofrer o impacto e a influência dos participantes, passan-
do muitas vezes por reformulações e originando outro conjunto de ques-
tões. Um grupo pode ser o pontapé inicial de uma pesquisa maior, ou en-
tão o encerramento dela.
Há quem classifique os grupos focais em modalidades, dada sua fi-
nalidade distinta. Não há consenso sobre um esquema classificatório para
isso, o mais popular e clássico deriva de Morgan (1997), em que o autor
segmenta em três tipos: 1) grupos autorreferentes são aqueles que formam
a base central de dados da pesquisa; 2) grupos como um processo comple-
mentar de outras técnicas quantitativas, que serviriam de ponto de partida
para a elaboração de um survey, por exemplo; e 3) grupos como parte de
um quadro multimétodos qualitativo, que seriam uma combinação de téc-
nicas, tais como entrevistas em profundidade e observação participante.
A origem do grupo focal remete às pesquisas realizadas na
Universidade de Colúmbia (EUA) na década de 1940, nas quais Paul
Lazarsfeld e Robert Merton buscavam avaliar o impacto do rádio junto à
sua audiência, no contexto da Segunda Guerra Mundial (Merton, Kendall,
1946; Merton, 1987). No cenário acadêmico, essas técnicas foram negligen-
ciadas em sua origem, sendo rapidamente cooptadas por profissionais do
marketing e da publicidade, muitas vezes com suspeito rigor procedimental.1
Foi no âmbito das pesquisas envolvendo a área de saúde, mais particular-
mente no campo da psicologia social, que a técnica começa a marcar presen-
ça nas discussões acadêmicas, isso nos anos 1980. Com um recorte socio-
lógico acentuado em que havia uma mescla da discussão de temas clínicos
1. No seriado televisado Mad Man, exibido pela AMC nos EUA, há exemplos interessantes do uso da técnica pelas agências de
publicidade nesse contexto histórico pós-guerra.
110
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
e sociais, como, por exemplo, a discussão da saúde das mulheres marcada
por elementos morais de construção da identidade (Barbour, 2009:28).
No Brasil, seguiu-se mais ou menos o caminho descrito pela literatura
internacional. Veremos adiante que o uso da técnica na Ciência Política cres-
ceu na última década, mas ainda é incipiente, mesmo nos Estados Unidos,
que possui forte tradição comportamentalista (Boas, 2023). Na área da pes-
quisa aplicada de opinião e mercado tem-se utilizado há décadas, com bas-
tante intensidade, os grupos focais, seja para pesquisas que intencionam
avaliar produtos e capturar a opinião dos consumidores – produtos da in-
dústria alimentícia, de serviços, saú de, automotiva e até mesmo de entrete-
nimento – ou para pesquisas de opiniões sobre o comportamento político
dos cidadãos durante campanhas eleitorais, bem como na avaliação de po-
líticas públicas federais, estaduais e municipais.
1. O que é um grupo focal?
Grupo focal é uma técnica cujo objetivo é reunir opiniões, atitu-
des e crenças acerca de determinado tópico. São formados por um conjun-
to pequeno de indivíduos que proporcionam um ambiente controlado no
qual a discussão é conduzida por um moderador. Com o auxílio de um ro-
teiro mais ou menos pré-estabelecido (chamado também de semiestrutu-
rado), o moderador guia a conversa e recolhe dados úteis que podem ser a
chave para o desenvolvimento de novos produtos, melhoramento de ser-
viços existentes ou formulação de estratégias de marketing. Para a pesqui-
sa acadêmica são úteis para a geração de hipóteses e aprofundamento de
temáticas difíceis de serem exploradas através de seu “primo” quantitativo,
os surveys. São ideais para o desenvolvimento de pesquisas com temas sen-
síveis que exigem a confiança do entrevistado no pesquisador.
A expressão que resume a finalidade de um grupo focal é a busca
de percepções. Esse objetivo é alcançado por meio de discussões interati-
vas em um ambiente especialmente criado, assemelhando-se a um labora-
tório de conversação, onde pessoas desconhecidas, mas com características
sociais, demográficas e atitudinais específicas, participam de conversas mo-
deradas. O propósito central de um grupo focal é explorar as percepções,
111
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
ideias e opiniões das pessoas sobre um tema específico. Para isso, é essen-
cial criar um roteiro de perguntas bem elaborado que mantenha o foco no
tópico central da pesquisa (Paula, Loiola, 2023).
A especificidade dos grupos focais na captura das opiniões consis-
te em conseguir explorar perguntas do tipo “por que não?” e variantes das
perguntas a fim de produzir o melhor resultado em termos das respostas
buscadas. Em temáticas comportamentais e na área da comunicação polí-
tica, por exemplo, é uma técnica poderosa para avaliar discursos, argumen-
tos e estratégias narrativas.
Originalmente, a concepção clássica de grupo focal é conduzida
com participantes que não têm relações prévias. Isso é feito para minimi-
zar influências externas que possam distorcer as discussões. Devido à fal-
ta de familiaridade entre os participantes, há uma tendência a uma maior
abertura na expressão de opiniões, o que deve ser promovido pelo mode-
rador desde o início (Almeida, 2016). Contudo, há recentemente algumas
derivações da técnica, por exemplo, os chamados “minigrupos focais etno-
gráficos” conduzidos por Solano e Rocha em pesquisas sobre os eleitores
conservadores no Brasil. Vale atentar que não se trata da mesma aplicação
rigorosa que será descrita na próxima seção, já que a finalidade das autoras
é distinta.
2. Aplicação2
As críticas acadêmicas dirigidas aos grupos focais sãs várias e decor-
rem geralmente de uma rivalidade pouco frutífera com pesquisadores adep-
tos de métodos quantitativos. Grupos focais são dotados de um elemen-
to subjetivo, quando plenamente aplicado não é correto afirmar que existe
observação livre e ausência de sistematicidade. A transparência de cada eta-
pa, em particular o recrutamento dos participantes, protegem a pesquisa e
o pesquisador da criação de vieses (Boas, 2023).
Assim como na execução dos surveys, o desenho de pesquisa quali-
tativa com grupos focais exige uma série de procedimentos. Os elementa-
res são nove:
2. Parte dessa seção foi desenvolvida anteriormente em Paula e Loiola (2023).
112
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
1) Definição do tema central da pesquisa;
2) Desenvolvimento do roteiro de moderação,
a partir do tema central;
3) Definição da amostra estratégica de grupos de
participantes, geralmente a partir de variáveis
sociodemográficas de filtro;
4) Elaboração do questionário de recrutamento
dos participantes;
5) Recrutamento dos participantes;
6) Realização dos grupos;
7) Degravação do material coletado;
8) Análise de resultados; e
9) Apresentação da pesquisa.
O roteiro é peça fundamental do sucesso de um grupo focal. Se
mais de uma pessoa conduzir grupos em um projeto o seu papel ganha im-
portância ainda maior. Apresenta um aspecto maleável se comparado aos
questionários estruturados de pesquisas quantitativas, porém, alguns passos
podem facilitar certa unidade, criando uma linha mestra. A ideia é pensar
no roteiro como o fio condutor da pesquisa, partindo de temas leves para
os mais densos. O roteiro tem questões mais centrais e outras secundárias,
mas todas devem convergir para o problema central da pesquisa. É funda-
mental a clareza do assunto investigado e das questões a serem pesquisa-
das. O grupo focal conduz os participantes a emitir suas opiniões por meio
de uma interação discursiva. Essa é a principal diferença em relação a uma
entrevista em profundidade individual, por exemplo. Conforme já dito, o
grupo seria um “laboratório” de uma dinâmica social. Assim, para a con-
versa fluir de maneira confortável são necessárias questões iniciais de en-
gajamento para criar um ambiente favorável à conversação e gerar disposi-
ção nos participantes para aderirem positivamente à discussão. Isso ajudará
a gerar confiança entre os participantes.
Ao redigir o roteiro não se deve transformar o mesmo em um ques-
tionário, afinal o propósito do grupo focal é aprofundar temas e capturar
113
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
detalhes que um survey não suscitaria. Logo, perguntas que tenham como
resposta “sim” ou “não” exigem um cuidado redobrado do moderador, para
que não se tornem vazias no momento da análise. Isso vale para as pergun-
tas do tipo votação e ranking de favoritos, muito comum em pesquisas elei-
torais e testes de narrativas de campanha. Não existe significância estatísti-
ca alguma, servem apenas para sintetizar visões. O quadro abaixo resume
alguns passos para a montagem de um roteiro eficiente:
Quadro 1 - Síntese para a montagem de roteiro
Define seu roteiro em blocos Agrupe as questões por blocos, isso facilitará na
hora de analisar os dados e oferecerá um ritmo ao
grupo. Não mude de assunto bruscamente.
Evite perguntas começando Ainda que seja tentador – já que os porquês
em “por que?” compõem elemento central de uma pesquisa –
não cabe ao participante interpretar as percepções
e experiências que irá compartilhar no grupo, isso
é papel do analista.
Não transforme seu roteiro O propósito do grupo focal é aprofundar temas
num questionário e capturar detalhes que um survey não suscitaria,
logo, perguntas que tenham como resposta
“sim” ou “não” exige um cuidado redobrado do
moderador, para que não se tornem vazias no
momento da análise.
Cuidado com o tamanho do Um grupo focal varia entre 1h30 e 2h, lembre-
roteiro se disso na hora de planejar as questões. Defina
um tempo máximo para cada bloco, às vezes os
participantes se engajam muito em um tópico.
Faça perguntas delicadas que Às vezes o assunto é muito íntimo, ou mesmo
possam ser respondidas com constrangedor, fica mais fácil se as perguntas
exemplos alheios forem feitas de modo que exemplos de terceiros
possam servir como respostas.
Não explore somente as Quando um grupo fica receoso ou em dúvida
certezas e convicções sobre um tema não deixe de explorar um pouco
mais o tópico, a dificuldade da interação e
verbalização pode ser um problema importante,
apenas não antecipado da pesquisa.
Fonte: elaborado pelos próprios autores.
114
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Além de um bom roteiro, a amostra estratégica é fundamental para
atingir os objetivos da pesquisa qualitativa. Diferentemente dos surveys, cabe
ao pesquisador escolher o perfil de participante que deseja explorar, por isso
não se trata de uma amostra probabilística, mas sim intencional. Em cam-
panhas eleitorais tende-se a privilegiar os eleitores indecisos, que potencial-
mente precisam ser conquistados. Vale deixar claro que a escolha do perfil
não significa dizer que o pesquisador selecionará a seu bel-prazer os parti-
cipantes, muito pelo contrário, um recrutamento – termo utilizado para o
processo de seleção dos integrantes dos grupos – é uma etapa extremamen-
te criteriosa, com predefinições (ou filtros) rigorosas.
Já mencionamos que a finalidade de um grupo são as percepções
e/ou experiências dos participantes, logo, a amostra estratégica precisa ser
desenhada de tal modo que permita estabelecer de antemão critérios para
análise do perfil que interessa à pesquisa. A unidade de análise será o gru-
po em seu conjunto e interações, não o indivíduo. Grupos devem ser ho-
mogêneos em termos de contexto de vida, não de atitudes (Morgan, 1998).
O número de participantes em cada grupo irá depender da nature-
za da pesquisa, não existe uma regra. Em pesquisas na área de marketing os
grupos tendem a ser maiores (de 8 a 12), já que a ideia geralmente não con-
siste em aprofundar temas. Pesquisas acadêmicas de Ciências Sociais po-
dem exigir um cuidado e aprofundamento maior, sendo recomendável efe-
tuar grupos menores em alguns casos (4 a 8).
Em institutos de pesquisa de opinião costuma-se terceirizar
o recrutamento, ou seja, são contratadas empresas específicas em localizar
e convidar os participantes para os grupos. Por isso é fundamental o pes-
quisador definir um questionário de filtro (de modelo estruturado e padro-
nizado), para que sejam recrutadas pessoas com o perfil pré-definido para
o grupo.3 Em pesquisas de opinião pública (em especial sobre política) cos-
tuma-se inserir no questionário de filtro uma pergunta que exclua pessoas
que trabalhem com pesquisas de mercado, publicidade e órgãos públicos.
Também vale a pena inserir uma pergunta que exclua pessoas extremamen-
te tímidas.
3. Anexo 1.
115
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Porém, para pesquisas acadêmicas em que geralmente os recursos
financeiros são escassos é possível elaborar o chamado “recrutamento bola
de neve”. Ele também é efetuado quando a natureza do problema é mui-
to específica, sendo a indicação de pessoas conhecidas parte fundamental
para recrutar participantes. São cinco etapas:
1) É inicialmente feito um esforço para identificar algumas pessoas
com o perfil desejado, por meio de contatos dos próprios membros do gru-
po de pesquisadores;
2) Depois, essas pessoas passam pelo questionário de recrutamen-
to para confirmação de seu encaixe no perfil buscado;
3) As pessoas aprovadas são instadas a indicar potenciais partici-
pantes com
características similares;
4) Esses novos indicados são submetidos do questionário de
recrutamento;
5) Esse ciclo se repete até o preenchimento de todas as “vagas” do
desenho da pesquisa.
Em pesquisas de mercado e opinião pública todos os participantes
recebem um incentivo (em dinheiro) para participar da pesquisa, afinal tra-
ta-se de um processo que dura entre 1h30 e 2h. Em outras pesquisas pode-
-se oferecer um presente ou algo do tipo. No momento do grupo é geral-
mente oferecido um lanche para criar um clima amistoso e gerar empatia
nos participantes.
O papel do moderador (ou facilitador) contribui muito para o su-
cesso de um grupo. É recomendável que este tenha domínio do assunto
da pesquisa. O moderador deve estabelecer relação com os participantes,
manter ativa a discussão e motivar os respondentes a trazerem à tona suas
opiniões mais reservadas. Além disso, o moderador pode desempenhar um
papel central na análise e interpretação dos dados. Portanto, ele deve ter ha-
bilidade, experiência e conhecimento do tópico em discussão e deve enten-
der a natureza da dinâmica do grupo (Malhotra, 2006, p.158). Vimos que o
roteiro é peça central na execução de grupos focais, contudo este não precisa
116
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
ser seguido como um manual passo a passo. É preciso alterar a ordem ou
fazer concessões quando notar que o roteiro está dificultando a interação
entre os participantes, um bom moderador sabe ser flexível. Ele não busca
o protagonismo, é necessário mais ouvir do que falar. Muitas vezes emer-
gem nos grupos temas muito delicados e íntimos, cabe ao moderador mos-
trar-se compreensivo, mas ao mesmo tempo, não deixar o grupo desviar o
foco da pesquisa. Vejamos abaixo algumas tarefas do moderador:
Quadro 2 – Tarefas do moderador
Apresentar o objetivo Cabe ao moderador explicar aos participantes o que é
do grupo e a técnica um grupo focal, explicando brevemente o procedimento.
do GF Uma auto apresentação ajuda a gerar confiança.
Pedir aos participantes Pedir que cada um fale seu nome, onde trabalha, se tem
que se apresentem filhos ou não (quebra gelo). O bate papo inicial ajuda a
construir intimidade e a relaxar os participantes.
Explique a importância É preciso deixar claro que o moderador não é um
de todos participarem entrevistador que têm respostas corretas, que todos
podem colocar novas questões, e que o diálogo entre os
participantes é importante. Lembrar sempre o grupo que
toda opinião é bem-vinda.
Conduzir o grupo para O moderador precisa ficar atento para frases soltas e
que o raciocínio seja genéricas, às vezes é necessário insistir em um ponto para
completo que o participante complete o pensamento.
Despertar confiança e O moderador precisa mostrar-se amigável e instigar os
motivação no grupo participantes mais calados a participarem da conversa,
nem todos reagem do mesmo modo em grupo. Ficar
sempre atento se alguém está muito calado e dirigir uma
pergunta específica para ele.
Realizar sínteses e Mesmo que não faça o relatório da pesquisa, o moderador
relatos breves precisará sintetizar com clareza os principais pontos
do grupo, checando as passagens com os participantes
no momento. Capacidade de sintetização rápida é
fundamental.
Fonte: elaborado pelos próprios autores.
117
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
2.1. Aplicação: formato presencial
Tradicionalmente as pesquisas de mercado e de opinião pública fei-
tas em capitais, e cidades medianas, utilizam salas específicas dotadas de “es-
pelho falso” (one-way mirror), em que há outra saleta de observação, serve
para os clientes que queiram acompanhar o grupo ou para anotadores au-
xiliares. Geralmente contam com sistema de transmissão online e gravação
do conteúdo, facilitando o processo de transcrição.
Figura 1 – Exemplo de sala de espelho
Fonte: Shutterstock
Ambos os setores são divididos por um espelho horizontal – daí o
nome “sala de espelho”. Nessa sala, os participantes não conseguem enxer-
gar o que há por detrás desse espelho. Por outro lado, os profissionais que
estão atrás desse espelho conseguem observar normalmente o que se passa
durante a dinâmica. A utilidade desse espelho é fazer com que os respon-
dentes não se sintam desconfortáveis com olhares de pessoas externas à
dinâmica ao longo da realização do grupo. Não raro, é permitido o conta-
to entre os profissionais com a moderação da dinâmica. Esse contato pode
ocorrer por diversos motivos, dentre eles estão: solicitar a realização de uma
nova pergunta, reforçar determinado ponto ao longo da reunião e, até mes-
mo, lembrar a moderação de abordar um tema específico.
Os grupos focais presenciais também podem ser realizados em sa-
las comuns, tornando necessária a organização de equipamentos básicos
118
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
como microfone, notebook para gravação, projetor/televisão, gravador de
voz. Vale destacar a necessidade de uma boa conexão à internet para que
seja possível transmitir a dinâmica para que os demais pesquisadores-ana-
listas possam acompanhá-la remotamente.
2.2. Aplicação: formato online
Existem outros formatos de captura de dados além do método pre-
sencial. Uma consequência do isolamento social causado pela pandemia de
COVID-19, que afetou o mundo de modo mais severo nos anos de 2020 e
2021, foi o uso ampliado das pesquisas remotas. Assim, aplicativos de video-
conferência substituíram as salas com “espelho falso”. Tal como menciona-
do no caso dos surveys, há vantagens e desvantagens na escolha de cada for-
ma de aplicação. As vantagens do formato online envolvem a forte redução
de custo da pesquisa, a possibilidade de reunir em um mesmo grupo pes-
soas de localidades distintas e principalmente a redução do estranhamento
dos participantes em um ambiente artificial como as salas de espelho, sen-
do mais confortável participar diretamente do sofá de casa.
Do ponto de vista técnico, também há atualizações benéficas.
Primeiramente porque a virtualização dispensa a necessidade de instalação
de câmeras e microfones em espaços físicos. De igual modo, os pesquisa-
dores ganham mais tempo ao não precisarem se preocupar com o estado
da gravação audiovisual da dinâmica.
Já sob o ângulo dos procedimentos, talvez a principal vantagem seja
a de que todos os envolvidos, do respondente ao pesquisador participam a
partir do conforto de suas casas. Isso tende a tornar os participantes mais
confortáveis à medida que inexiste o contato presencial; otimiza o conta-
to da equipe com a moderação, algo que pode ser feito por chats internos
na plataforma onde a transmissão da dinâmica ocorre; facilita a lembrança
dos nomes dos respondentes, vez que esses nomes aparecem junto à ima-
gem dos participantes da transmissão.
Em resumo, os benefícios dos grupos virtuais estão calcados na oti-
mização de tempo e recursos, além da possibilidade de expansão do leque
regional de participantes. Embora a virtualização seja uma atualização do
119
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
método, isto não significa dizer que não há falhas ou aspectos a serem me-
lhorados. Fatores como a queda de conexão, intermitência do sinal de inter-
net, má qualidade do microfone e/ou câmera dos participantes são alguns
dos aspectos prejudiciais inerentes ao online. Do ponto de vista social, como
cada pessoa está participando do grupo a partir de sua cidade, pode ocorrer
de que os ambientes de alguns respondentes não sejam adequados para a
prática dos grupos por conter muito barulho ou interferência de familiares
ou outras pessoas de seu convívio. É certo que o caráter dos aplicativos de
videoconferência exige que os participantes tenham acesso à internet e al-
guma familiaridade sobre o funcionamento deles, excluindo potencialmen-
te pessoas de renda mais baixa e escolaridade. Porém, a experiência da pri-
meira autora nas campanhas de 2020 e 2022 mostra que a rede de apoio/
familiares mais jovens, largamente aptos ao uso dos aplicativos na vida so-
cial, auxilia os participantes com pouca intimidade às ferramentas digitais.
A compra de dados de internet para os celulares dos participantes também
é um elemento inclusivo de pessoas de renda baixa. Centenas de pessoas
de classe C e D foram entrevistadas com o máximo de rendimento a partir
dessas ações coordenadas
O quadro abaixo traz os principais pontos fortes e fracos no que
concerne à realização de grupos focais em ambientes virtuais:
Quadro 3 – Pontos fortes e fracos dos grupos online
Fortes Fracos
Menor custo financeiro Requer boa qualidade da internet dos
envolvidos
Não há necessidade de aluguel de Requer conhecimento técnico mínimo dos
espaços físicos respondentes
Maior liberdade geográfica Local dos respondentes pode ser ruidoso
Possibilidade de participação com Requer boa qualidade de equipamentos de
celular (popular no Brasil) áudio dos respondentes
Maior controle da moderação Requer boa qualidade de equipamentos de
sobre os microfones e câmeras dos vídeo dos respondentes
respondentes
Respondentes podem se sentir mais Respondentes podem se distrair com maior
confortáveis facilidade
Fonte: elaborado pelos próprios autores.
120
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Assim como as salas de espelho de espaços presenciais, as platafor-
mas dedicadas para a realização de sessões virtuais de grupos focais também
possuem a funcionalidade de “esconder” os profissionais que participam da
sessão, como os pesquisadores-analistas. No mercado atual há diversas op-
ções para a realização de transmissões em vídeo, mas há consideravelmente
menos opções brasileiras de transmissões dedicadas a grupos focais, como
é o caso de QuestionPro e TVLink.
Figura 2 – Exemplos de sites de grupos focais
Fonte: QuestionPro4 e TVLink5
Internacionalmente há mais opções de sites, como Collabito,6 Aha,7
FocusGroupIt,8 Remesh,9 dentre outros. A falta de tradução direta ao por-
tuguês pode ser um empecilho para a realização da pesquisa no Brasil a par-
tir dessas ferramentas. A depender do propósito e dos recursos disponíveis,
ferramentas globalmente conhecidas de transmissões online podem ser utili-
zadas, como é o caso do Google Meet,10 Microsoft Teams11 e Zoom:12 esses
serviços possuem versões gratuitas, mas suas versões premium contam com
recursos mais interessantes em relação à disponibilização de maior quanti-
dade de tempo para as transmissões.
É certo que “o olho no olho” favorecido em eventos presenciais ain-
da tem seu valor na aplicação da técnica, especialmente em temáticas sensí-
veis. Contudo, ao lado das vantagens elencadas em grupos remotos parece
4. [Link] <acesso em: 24 de novembro de 2024>.
5. [Link] <acesso em: 24 de novembro de 2024>.
6. [Link] <acesso em: 24 de novembro de 2024>.
7. [Link] <acesso em: 24 de novembro de 2024>.
8. [Link] <acesso em: 24 de novembro de 2024>.
9. [Link] <acesso em: 24 de novembro de 2024>.
10. [Link] <acesso em: 24 de novembro de 2024>.
11. [Link] <acesso em: 24 de novembro de 2024>.
12. [Link] <acesso em: 24 de novembro de 2024>.
121
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
pouco provável que as pesquisas presenciais retomem o protagonismo.
2.3 Aplicação: formato híbrido síncrono e assíncrono
Uma inovação de pesquisa na campanha eleitoral de 2022 foi desen-
volvida por um grupo de pesquisadores do Laboratório de Estudos de Mídia
e Esfera Pública do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade
Estadual do Rio de Janeiro (LEMPEP, IESP-UERJ).
O Painel On-line de Monitoramento de Tendências (Pomt) foi ba-
seado em uma metodologia inovadora para monitorar, de modo dinâmi-
co, o comportamento do eleitorado e suas clivagens no que se refere a te-
mas, preferências, valores, recepção de notícias, etc. O painel foi realizado
por meio de grupos focais de operação contínua no WhatsApp, com parti-
cipantes selecionados e um moderador profissional.
Assim como na metodologia presencial e online de grupos focais,
os grupos contínuos no WhatsApp do Pomt permitem que o moderador
estimule o aprofundamento de temas sensíveis e difíceis de serem explora-
dos por meio de pesquisas quantitativas, ou mesmo pela aplicação de ques-
tionários estruturados.
A principal vantagem do Pomt é a agilidade. O monitoramento con-
tínuo fornece resultados diária ou semanalmente sobre diferentes aspectos
que demandam agilidade em uma campanha eleitoral, como seguimento de
debates em tempo real, teste de discursos e de peças publicitárias. Em lu-
gar de fazer pesquisas unitárias, possibilita o monitoramento contínuo da
campanha como se fosse um tracking, porém qualitativo de opinião pública,
o que seria muito dispendioso se fosse feito com grupos focais tradicionais.
O Pomt tem um custo bem menor em relação aos grupos focais pre-
senciais ou mesmo on-line, chegando a ser quatro vezes mais ágil e econô-
mico. Em média, o custo de uma rodada de grupos focais equivale a qua-
tro rodadas semanais de monitoramento no Pomt. Além de acomodar um
número de participantes maior do que grupos focais síncronos, presenciais
ou on-line, permitindo, assim, maior diversidade de opiniões e dinamismo
nas conversas.
Os grupos do Pomt não requerem que os participantes reservem
122
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
uma, duas ou mais horas para tomar parte da discussão, pois podem fazer
isso durante sua rotina diária, aproveitando curtos intervalos de tempo, por
meio de uma ferramenta que já lhes é costumeira, o WhatsApp. Ao aco-
modar a pesquisa às circunstâncias e às comodidades da vida de cada um,
o Pomt ajuda a diminuir a artificialidade da situação de pesquisa e, portanto,
a produzir resultados mais próximos das interações reais que os participan-
tes têm na vida cotidiana. São híbridos, ou seja, combinam interações sín-
cronas e assíncronas. Alguns assuntos recebem atenção imediata dos parti-
cipantes conectados, mas podem também ser comentados posteriormente
por quem não pode ou não quis participar no momento. Essa liberdade é
inexistente nos grupos focais tradicionais, que são presos à sincronia da con-
dução dos temas por parte do mediador.
O caráter assíncrono da ferramenta, possibilitado pela dinâmica da
comunicação no WhatsApp, permite respostas mais refletidas por parte dos
participantes, o que é adequado para a área eleitoral, dado que o voto é tam-
bém uma decisão que demanda reflexão. Por sua natureza temporal contí-
nua, grupos focais do Pomt são propícios para criar situações deliberativas,
nas quais as pessoas se sentem compelidas a elaborar suas razões com base
nas razões dadas por outros participantes do grupo.
A aplicação acadêmica no âmbito da Ciência Política está em fun-
cionamento e se chama Monitor da Extrema Direita, um painel desenvolvido
para pesquisar especificamente os eleitores bolsonaristas (Paula, Feres Jr.,
Manginelli, 2023).
3. Análise e uso de softwares na técnica
Não há um único modelo de análise para os grupos focais. A decisão
está conectada aos objetivos e escolhas teóricas do pesquisador. Em pesqui-
sas de opinião e mercado, por exemplo, é feita uma análise descritiva (Paula,
2023). É possível também usar a análise de discurso ou de conteúdo (Yin,
2016). Costuma-se indicar a pertinência de uma descrição densa, ou seja, que
exponha a riqueza do que se passou nos grupos, enfatizando a forma que
isso envolve as interações e estratégias entre as pessoas (Yin, 2016). Como
quase toda “escola qualitativa” parte-se da ideia de que a interpretação do
123
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
analista é isenta de pré-julgamentos, já que o mundo a ser analisado é visto
pelos olhos do entrevistado/grupo (Geertz, 2008).
Desse modo, o uso de softwares na etapa de análise será um meio
para facilitar a organização do material da pesquisa, chamada de “codifica-
ção”. Codificar é estruturar o texto e notas da pesquisa, ou seja, codificar
em pesquisa qualitativa não é o mesmo que na pesquisa quantitativa, não é
um resumo ou padronização, mas a organização dos dados. Existem diver-
sas expressões para isso, algumas sinônimas outras complementares: temas,
categorias, índices (Babour, 2009).
A categorização incluirá elementos analíticos e teóricos, oferecen-
do sentido para as falas. Pode-se gerar uma codificação prévia definida pela
literatura do tema da pesquisa, “codificação baseada em conceito” ou ini-
ciar a codificação sem nada pré-elaborado, partindo dos dados, a “codifica-
ção aberta” (Babour, 2009).
Assim, tal como na aplicação de outras técnicas qualitativas, atual-
mente os principais softwares disponíveis no mercado são três, o ATLAS.
ti, [Link] e NVIVO. Essencialmente auxiliam a análise nos seguintes
procedimentos:
• Importar textos no formato txt, pdf, docx e rtf;
• Criar listas de códigos, inclusive com hierarquias;
• Analisar o texto codificado no contexto dos documentos originais;
• Redigir memorandos que tenham sido codificados por meio de
links;
• Realizar buscas léxicas e buscas cruzando atributos e códigos;
• Gerar relatórios relacionando códigos;
• Utilizar ferramentas lexicométricas;
• Gerar gráficos de frequência, nuvens de palavras e redes de ter-
mos e códigos.
A ausência de um software não prejudicará a qualidade da análise, ela
somente tornará o processo mais demorado. Desse modo, o uso de tabe-
las no Excel poderá ser feito, cruzando os códigos nas colunas e os grupos
nas linhas. É recomendável abusar do uso e tipo das tabelas: de atributos,
124
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
comparação pelo atributo desejado; e cronológica, painel com a série tem-
poral comparando mesmos pontos (quando há diversas rodadas de grupos
focais).
4. Questões éticas
Em capítulo específico será possível consultar dicas para adotar uma
pesquisa qualitativa ética. Antes de iniciar o grupo focal, recomenda-se que
os participantes leiam e assinem o uso do Termo de Consentimento Livre
Esclarecido. Após a realização do grupo focal, os dados da reunião ficam
armazenados pelos profissionais que conduziram a dinâmica. No caso dos
grupos online, pode existir a possibilidade de a plataforma escolhida reali-
zar a gravação. Ao fim da dinâmica, inicia-se a etapa de análise e processa-
mento dos dados. Como em qualquer pesquisa, essa etapa deve prezar pela
correção científica e pelo cuidado com os dados. Isso implica pelo zelo dos
analistas-pesquisadores com fatores como a anonimização dos responden-
tes, isto é, a retirada de nomes para impedir com que uma pessoa possa ter
a sua opinião ligada a ela, tal qual observado pela Lei Geral de Proteção de
Dados. Em resumo, os pesquisadores devem ter em mente que suas análises
podem ter ampla circulação e, diante deste fato, a anonimização é uma for-
ma de não expor informações de pessoas que colaboraram com a pesquisa.
A ética também é um pilar pelo qual os pesquisadores devem se
guiar, isto significa que os dados não podem ser alterados de forma a mo-
dificar o real teor das mensagens obtidas, tampouco enviesados a fim de
ocultar ou amenizar as opiniões. De igual modo, os materiais audiovisuais
geralmente são restritos a pessoas autorizadas, e não são publicados. As in-
formações obtidas, processadas e analisadas podem ser apresentadas de vá-
rias maneiras, como em forma texto, imagens e dados compilados em grá-
ficos, tabelas e quadros, quando cabível. A comparabilidade também é uma
boa opção para mostrar eventuais divergências entre grupos sobre um pon-
to específico. Em geral, o campo para interpretação, processamento e aná-
lise de dados de grupos focais é amplo e cabe aos pesquisadores a escolha
sobre qual a melhor estratégia a ser adotada.
125
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
5. Os grupos focais e a Ciência Política
Um dos usos mais frequentes da pesquisa com grupos focais acon-
tece em períodos de campanhas eleitorais, na linha da disciplina chamada
“comportamento eleitoral” (Paula, 2023). Por se tratar de uma área do co-
nhecimento que envolve, entre outros temas, a percepção dos eleitores sobre
diferentes problemas em períodos de eleição, seu uso profissional e acadê-
mico fornece pistas sobre a eficácia ou não de diferentes estratégias adota-
das por candidatos.
Não raro, o uso do grupo focal pode ser combinado com outras
pesquisas, como os surveys de opinião pública e análises de monitoramento
de redes sociais. Deste modo, a combinação de diferentes estratégias tende
a fornecer caminhos mais sólidos para os pesquisadores. Evidentemente, a
combinação de vários métodos de pesquisa reflete em maior esforço mul-
tidisciplinar, mais profissionais contratados e, claro, maior quantidade de
recursos – tanto financeiro como temporal. Devido a esse custo mais ele-
vado, este tipo de prática é usualmente realizado por pesquisas com alto
financiamento.
Boas (2023) argumento que a última década trouxe a expansão da
técnica na Ciência Política. Ele faz um levantamento sobre o uso de gru-
pos focais em pesquisas publicadas nas revistas American Journal of Political
Science e Journal of Politics, de 2013–2022. Ele identificou 36 artigos, um au-
mento considerável ao identificado por Cyr (2016) na década anterior, so-
mente 4 artigos. No Brasil ainda há poucos trabalhos publicados usando ex-
clusivamente grupos focais, mas percebe-se uma tendência de crescimento,
em especial na linha de “comportamento eleitoral” e “avaliação de políticas
públicas” na adoção da técnica em desenhos multimétodos.
No primeiro caso, na linha de comportamento eleitoral, Paula e
Nicolau (2017) estudaram a relação entre os eleitores e os deputados fe-
derais na cidade do Rio de Janeiro. Para além de explorar quais fatores são
importantes no voto para deputado, o objetivo dos grupos focais foi co-
nhecer as atitudes e opiniões dos eleitores a respeito de diversas dimen-
sões da atividade parlamentar. A inspiração da pesquisa veio do artigo Fast
thinking: Implications for democratic politics, escrito por três cientistas políticos
126
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
ingleses (Stoker; Hay; Barr, 2016). Neste último trabalho, eles usam gru-
pos focais para analisar a visão que os cidadãos britânicos têm da política,
segundo a premissas cognitivas apresentada pelas pesquisas do psicólogo
Daniel Kahneman (2011). A fonte dos dados de Paula e Nicolau (2017) foi
o resultado de quatro grupos com eleitores de renda média (de três a cinco
salários). Num primeiro momento (o fast thinking), que antecedeu a discus-
são coletiva mediada pelo facilitador no grupo, capturaram as percepções
latentes dos eleitores em relação à política e ao universo dos deputados fe-
derais. O segundo momento explorou a dimensão do slow thinking, em que
a reflexão e do diálogo estão presentes. Um roteiro de questões semiestru-
turadas foi utilizado.
Ainda na linha de comportamento eleitoral, Borba et al. (2014) ava-
liaram como a estratégia da então candidata à reeleição Dilma Rousseff
(PT) em descreditar seus adversários durante a campanha afetou as taxas de
aprovação e rejeição destes durante a campanha eleitoral. Através de quatro
grupos focais, compostos por pessoas das classes C e B, os autores consta-
taram que a estratégia afetou diretamente eleitores indecisos. Um aspecto
interessante deste trabalho está no uso de ferramentas mistas para a cons-
trução do desenho de pesquisa. Através de surveys e técnicas de análise de
conteúdo — que é objeto de outro capítulo deste livro — as pesquisadoras
puderam se aproximar do fenômeno social como base do restante do estu-
do. As percepções coletadas nos grupos focais, aliado a outras fontes rela-
tivas à campanha eleitoral de 2014, sugerem que o uso de propaganda ne-
gativas contra adversários pode favorecer um candidato que esteja com sua
popularidade abalada.
Já no campo de “avaliação e políticas públicas”, Batista e Domingos
(2017) mostra que a adoção da pesquisa multimétodos, incluindo grupos
focais, tem se tornado frequente. Hunter e Sugiyama (2014) estudaram o
Programa Bolsa Família no Nordeste a partir de onze grupos focais, envol-
vendo beneficiários e gestores. Preocupadas em identificar nos grupos in-
dícios oriundos do conceito de “cidadania” os resultados sugerem que o
Bolsa família favoreceu a dignidade, aspecto chave no conceito. O Bolsa
Família costuma receber avaliações dessa natureza metodológica oriundas de
127
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
instituições de pesquisa aplicadas como o Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (IPEA) e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social,
Família e Combate à Fome (MDS).
Existe ainda diversas linhas de pesquisa na Ciência Política para que
os grupos focais sejam adotados como ferramenta metodológica, principal
ou secundária. O principal desafio da técnica consiste em apresentar cada
etapa e procedimento adotado de modo transparente. Assim, a apresentação
da documentação da pesquisa, tal como o roteiro de moderação e o ques-
tionário de filtro dos participantes, são práticas altamente recomendadas.
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2016.
Anexos
ANEXO 1: Exemplo de Questionário de Recrutamento
A pesquisa realizada a partir desse questionário é a de Paula Nicolau (2017). Vale
ressaltar que as perguntas-filtro (e eventuais cortes de perfis) são formuladas sem-
pre a partir das decisões oriundas da amostra estratégica e do objetivo final de
cada pesquisa.
Nome completo: ____________
__________________________
_________
Sexo:______________________
__________________________
________
Bairro que mora: ____________
__________________________
_________
Cidade que mora: ____________
__________________________
________
Todos os grupos serão mistos quanto ao sexo do participante.
“Bom dia/Boa tarde. Somos pesquisadores da UERJ e estamos fazendo uma
130
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
pesquisa de opinião e gostaríamos de convidá-lo para participar de um grupo de
discussão. Vamos convidar algumas pessoas para um bate papo. Você poderia res-
ponder algumas perguntas?”
1. Sim 2.Não (ENCERRE)
Gostaria de agradecer e dizer que esses dados serão tratados mantendo-se o sigi-
lo absoluto em relação às respostas dadas pelos respondentes.
PF.1 Qual a sua idade?
(ANOTE)____
PF2. Você ou alguma pessoa em sua casa trabalha em algum destes ramos de
atividade?
1. SIM 2. NÃO
ATIVIDADE (ENCERRE) (PROSSIGA)
*Pesquisa de mercado
*Publicidade/jornal/rádio/
televisão
*Instituições da prefeitura/gov.
Est/[Link]
PF3. Agora das seguintes, gostaria que você escolhesse a quem mais se aplica a
você (SE 2 OU 3 ENCERRE)
1. Gosto de conversar com meus amigos por PROSSIGA
telefone ou pessoalmente
2. Não gosto quando tenho que explicar coisas ENCERRE
em detalhes para meus amigos/colegas. Prefiro
guardar minha opinião
3. Meus colegas dizem que eu deveria falar mais e ENCERRE
manifestar minhas opiniões e sentimentos
131
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
PF4. Você é eleitor no estado do Rio de Janeiro E votou em 2014?
1. Sim (PROSSIGA) 2. Não (ENCERRE)
PF5. Como você classifica o seu interesse por política?
1. Tenho pouco interesse por política (PROSSIGA- cota grupos 1 e 2)
2. Tenho razoável interesse por política (ENCERRE)
3. Tenho muito interesse por política (PROSSIGA – cota grupos 3 e 4)
PF6. Na eleição para deputado federal em 2014, você lembra o nome do candi-
dato que votou?
1. Não, não lembro (PROSSIGA – cota grupos 1 e 2)
2. Sim, eu lembro (PROSSIGA – cota grupos 3 e 4)
(ANOTE) o nome do candidato:_________________________
3. Eu anulei o voto/votei em branco para deputado federal (ENCERRE)
PF7. Agora vou ler algumas faixas de renda e gostaria que você me dissesse qual de-
las representa sua renda familiar mensal, isto é, a soma da renda de todas as pessoas
que moram no domicílio, inclusive você. Sua renda mensal neste último mês foi?
1. Acima de R$ 18.740,00 (+ de 20 SM) ENCERRE
2. De R$ 14.055,00 a R$ 18.740,00 (+ 15 a 20 SM) ENCERRE
3. De R$ 6.559,00 a R$ 14.055,00 (+ de 7 a 15 SM) ENCERRE
4. De R$ 4.685,00 a R$ 6.559,00 (+ de 5 a 7 SM) ENCERRE
5. De R$ 2.811,00 a R$ 4.686,00 (+ de 3 a 5 SM) PROSSIGA
6. De R$ 1.874,00 a R$ 2.811,00 (+ de 2 a 3 SM) PROSSIGA
7. De R$ 937,00 a R$ 1.874,00 (+ de 1 a 2 SM) ENCERRE
8. Até R$ 937,00 (até 1 SM) ENCERRE
PF8. Quantas pessoas compõe esta renda familiar mensal? (ANOTE)_______
PF9. Até que ano da escola você estudou?
1. Analfabeto/fundamental incompleto (ENCERRE)
2. Fundamental completo/ensino médio incompleto (PROSSIGA)
3. Ensino médio completo/ superior incompleto (PROSSIGA)
132
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
4. Superior completo (PROSSIGA) ANOTE o curso:
5. Pós-graduação (PROSSIGA)
PF10. Qual o seu estado civil?
1. Solteiro 2. Casado/mora junto 3. Viúvo 4. Divorciado/Separado
133
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
04
Estudo de caso em Ciência Política: teoria e aplicação1
Vítor Eduardo Veras de Sandes-Freitas
John dos Santos Freitas
1. Este capítulo de livro foi escrito a partir de um artigo publicado por um dos autores, com a seguinte referência: Sandes-Freitas,
V. E. V. de. Qual o Lugar do Caso nas Ciências Sociais? Conexão Política, v. 4, n. 2, p. 67–82, 2015. A versão apresentada para
este livro possui muitas modificações e atualizações em relação àquela publicada anteriormente. O periódico autorizou o uso do
artigo pelo autor para tal fim.
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
Ao longo das últimas décadas no Brasil, ampliou-se a preocupação com os
debates metodológicos e, consequentemente, com o rigor das pesquisas rea-
lizadas. Com isso, houve uma grande expansão dos estudos de caráter quan-
titativo e do uso de modelos formais testados a partir de técnicas de análi-
se estatística. Mais recentemente, os pesquisadores têm se preocupado com
o rigor metodológico também em pesquisas qualitativas realizadas na área.
Com isso, começou-se a avançar nos debates em torno do rigor de
pesquisas que se aprofundam em um ou poucos casos, os chamados “estu-
dos de caso” ou “de casos”, dada a afinidade que esse tipo de estudo pos-
sui com os métodos qualitativos. Além disso, sabe-se que é possível utilizar
técnicas de análise estatística em estudos de caso, devido a possibilidade de
se trabalhar com um número elevado de observações intracaso. Ou seja, os
pesquisadores podem lançar mão de métodos qualitativos, como usualmen-
te realizado, e de métodos quantitativos, visando realizar o estudo de caso.
O estudo de caso é um desenho de pesquisa amplamente utiliza-
do na Ciência Política, devido ao tipo de problema que a disciplina se de-
para: fortemente contextuais e com grande influência da agência humana.
A construção de teorias que explicam os fenômenos depende de estudos
em profundidade dos casos, como forma de se tentar compreender a fun-
do os mecanismos causais.
Desenhos de pesquisa focados nos casos buscam dar conta da com-
plexidade do comportamento social, já que, nesta abordagem, tem-se em vis-
ta preservar a textura e os detalhes dos casos individuais. O estudo de caso,
assim, é uma proposta metodológica destinada a realização de uma análi-
se em profundidade de uma única unidade – um fenômeno espacialmente
e temporalmente limitado – observado em um único ponto ou período no
tempo. O objetivo desse tipo de estudo é elucidar as características de uma
ampla classe de fenômenos similares (a população dos casos). Assim sendo,
devido à complexidade metodológica da realização de tais tipos de pesqui-
sas, a preocupação e questionamento dos pesquisadores preocupados com
o rigor metodológico em estudos de caso tem sido: como garantir que os
achados desse tipo de estudo sejam válidos?
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Assim, este capítulo tem como objetivo apresentar a discussão sobre
diferentes perspectivas sobre o estudo de caso nas Ciências Sociais, em es-
pecífico na Ciência Política. Primeiramente, apresentamos uma rápida con-
ceituação de casos e estudo de caso. Em seguida, discutimos a preocupação
de analisar a concepção positivista sobre o uso de estudos de caso, que ten-
ta replicar o rigor dos modelos das ciências denominadas duras, geralmen-
te identificadas nas Ciências Naturais. Posteriormente, discutiremos os cin-
co equívocos sobre o estudo de caso apresentados por Bent Flyvbjerg. Em
seguida, apresentamos alguns delineamentos a respeito da seleção e análise
de estudos de caso. Por último, apresentamos alguns pontos de discussão
sobre validação de dados e conduta ética nas pesquisas de estudo de caso,
bem como sobre a tendência recente do uso de process-tracing na Ciência
Política brasileira.
1. Definições e estruturas conceituais
Uma das dificuldades na produção de conhecimento com fenôme-
nos dinâmicos é a definição da estrutura conceitual que acompanha a inter-
pretação destes fenômenos. Os fenômenos sociais e políticos se encaixam
nesse perfil tendo em vista que o fluxo de poder entre indivíduos, grupos,
comunidades e sociedades possui alta fluidez. Em um estudo de caso, esse
aspecto não é diferente, assumir o estudo de caso como arcabouço meto-
dológico para entender fenômenos sociais e políticos, implica necessaria-
mente definir o que é um caso e o que estudo de caso.
Na Ciência Política são considerados clássicos estudos de caso Who
Governs? de Robert Dahl, Essence of Decision de Graham T. Allison e States
and Social Revolutions de Theda Skocpol.1 Os dois primeiros referem-se a es-
tudos que têm apenas um caso como objeto de pesquisa. O trabalho de
Allison, por exemplo, tem uma duração temporal de 13 dias; já o último
trabalho, de Skocpol, é um estudo de com um número pequeno de casos,
com três casos no núcleo de suas análises e mais alguns de fundo para efei-
to comparativo. Todos estes trabalhos foram desenvolvidos nas décadas
de 1960 e 1970. De lá até cá muita coisa mudou do ponto de vista teórico,
1. Para aprofundar mais sobre Estudo de Caso e estas obras, consultar Blatter e Haveland (2012).
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
epistemológico e metodológico.
No campo metodológico, John Gerring (2019) define em duas eta-
pas a estrutura conceitual para estudos de caso. Primeiro, define caso, depois
estudo de caso. De forma geral, caso representa um que fenômeno que é
delimitado no espaço e no tempo. Essa representação no espaço e no tem-
po pode assumir várias formas, nas palavras do autor:
Casos podem ser compostos de estado ou entidades com forma de es-
tados (e.g. impérios estado-nação, regiões, municipalidades), organi-
zações (e.g. firmas, organizações não governamentais, partidos po-
líticos, escolas), grupos sociais (definidos por, e.g. etnicidade, raça,
idade, classe, gênero ou sexualidade), eventos (e.g. crise política estran-
geira, revolução, transição democrática, ponto de decisão [decision-point]),
ou indivíduos (e.g., uma biografia, história de caso) (Gerring, 2019, p. 68).
Enquanto a definição de estudo de caso para o mesmo autor é:
Um estudo de caso é um estudo intensivo de um caso singular ou de um pe-
queno número de casos que se baseia em dados e promessas de elucidar uma
população maior de casos. “Estudo de caso” e “estudo de C-pequeno” são
usados sinonimamente, uma vez que o pequeno número de casos define o gê-
nero conhecido como pesquisa de estudo de caso [...] (Gerring, 2019, p. 69).
O que se percebe na definição de estudo de caso é que deve-se levar
em conta que esse tipo de abordagem é altamente focada; que se o número
de casos de uma análise aumenta a profundidade e o foco deve diminuir; o
fator causal é observacional, isto é, o fator causal não pode ser intencional-
mente manipulado (não experimental); as evidências empregadas no estu-
do de caso são, presumidamente, variadas e múltiplas; e o objetivo do estu-
do de caso é parcialmente explicar os casos em investigação e, se possível,
elucidar uma classe maior de casos (Gerring, 2019).
De forma complementar e sumário, Blatter e Haverland apresen-
tam a definição de estudos de caso a partir de quatro características que são
geralmente encontradas nos desenhos de estudo de caso:
Para nós, a pesquisa de estudo de caso é definida como uma abordagem
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de pesquisa não experimental que difere dos estudos de grande por-
te nas quatro características a seguir: 1. um pequeno número de casos;
2. grande número de observações empíricas por caso; 3. uma enorme di-
versidade de observações empíricas para cada caso; e 4. uma reflexão in-
tensiva sobre a relação entre observações empíricas concretas e concei-
tos teóricos abstratos (Blatter e Haverland, 2012, p. 19, tradução nossa).
Apresentar os pontos positivos de um estudo de caso para a produ-
ção de conhecimento em Ciência Política vai além de afirmar que esse tipo
de análise é uma observação aprofundada de um de fenômeno social e/ou
político. George e Bennett apontam quatro vantagens do uso de estudos
de caso na Ciência Política:
Os estudos de caso são geralmente fortes precisamente onde os métodos esta-
tísticos e os modelos formais são fracos. Identificamos quatro fortes vantagens
dos métodos de caso que os tornam valiosos no teste de hipóteses e particular-
mente úteis para o desenvolvimento de teorias (George; Bennett, 2005, p. 19).
Quadro 1 – Vantagens do uso de estudos de caso
Vantagem Descrição
O seu potencial para alcançar uma
Validade Conceitual
elevada validade conceptual.
Os seus procedimentos rigorosos
Derivação de Novas Hipóteses
para promover novas hipóteses.
O seu valor como um meio útil para
examinar de perto o papel hipotético
Exploração de Mecanismos Causais
dos mecanismos causais no contexto
de casos individuais.
Modelagem e Avaliação de Relações Sua capacidade de lidar com a
Causais Complexas complexidade causal.
Fonte: George; Bennett, 2005, p. 19.
Em suma, o estudo de caso é análise de um ou poucos fenômenos
sociais e políticos, podendo ser expandido para grandes números de caso, o
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
que será explorado mais adiante. Geralmente, operacionalizado a partir de
instrumentos de análise qualitativa, embora tanto o uso de análises quanti-
tativas seja possível e/ou a combinação de análises qualitativas e quantita-
tivas. Este tipo de estudo pode ser utilizado para descrever fenômenos em
profundidade, testar hipóteses e, na medida do possível, formular teorias. A
depender do problema de pesquisa apresentado, o estudo de caso será mo-
bilizado e combinado ou não com outros desenhos de pesquisa.
Ou como define sábia e resumidamente Earl Babbie:
estudo de caso [é] o exame aprofundado de um único caso de algum fenô-
meno social, como uma aldeia, uma família ou uma gangue juvenil. O méto-
do de caso estendido [é] uma técnica desenvolvida por Michael Burawoy na
qual observações de estudos de caso são usadas para descobrir falhas e, então,
melhorar as teorias sociais existentes (Babbie, 2021, p. 305, tradução nossa).
Em outras palavras, a definição de estudo de caso que se adequa na
sua pesquisa é a que melhor responde ao seu problema de pesquisa, contato
que leve em conta o rigor dos procedimentos teóricos e empíricos da cons-
trução epistemológica e metodológica da Ciência Política desde a coleta de
dados, passando pelo análise e finalizando com a divulgação dos resultados.
2. Do caso para os casos: estudos de caso como ponto de partida
A pesquisa científica, numa ótica positivista, impõe à ciência a tare-
fa de construir conhecimentos válidos a partir de métodos e técnicas, pos-
sibilitando, assim, a generalização de seus achados. O objetivo da ciência,
nessa concepção, é agregar conhecimento válido, refutando teorias que não
dão conta dos objetos em análise. A meta das pesquisas acadêmicas, assim,
seria a busca por inferências através de métodos científicos, tendo em vis-
ta a objetividade e a relevância dos achados. Nessa concepção, as Ciências
Sociais devem ter como objetivo a alcançar inferências válidas, buscando a
construção de teorias que deem conta de compreender os fenômenos so-
ciais e políticos.
Nesse sentido, a pesquisa científica na área de Ciências Sociais deve
possuir quatro características básicas, segundo King, Keohane e Verba (1994,
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
p. 7-9): (1) a meta é a inferência; (2) os procedimentos são públicos; (3) as
conclusões são incertas; (4) e o conteúdo é o método. Uma pesquisa deve
ir além das divergências existentes entre as formas metodológicas adota-
das, que são centradas muito mais no estilo do que na essência. Deve bus-
car também o compartilhamento dos métodos de pesquisa, para serem en-
sinados, compartilhados e aprimorados pela comunidade científica. Deve-se
partir do pressuposto que uma pesquisa pode ser falha, pois o conhecimen-
to sobre o mundo pelo pesquisador é limitado e a incerteza é um elemen-
to presente quando se busca fazer inferências. Por fim, a pesquisa científi-
ca, por ter adquirido uma série de métodos e regras de se fazer inferências,
depende destas para a sua validade.
Observa-se que a busca de conhecimentos válidos deve levar a sis-
tematização do desenho de pesquisa apropriado para a consecução do em-
preendimento científico. Um dos problemas básicos na constituição do
desenho de pesquisa na área de Ciências Sociais decorre da ausência de pa-
radigmas unificados que parece limitar a realização de descrições ordenadas
e causais do mundo. Dessa forma, uma ampla classe de tópicos descritivos e
intrinsecamente importante, considerando qualquer efeito causal que possa
existir (Gerring, 2009, p. 106). Nessa perspectiva, é necessário compreen-
der como funciona um dado fenômeno antes de perguntar o que o causa.
Assim, essa perspectiva compreende que um estudo de caso pode ser um
ponto de partida para melhorar a teoria que discute um determinado tema,
contribuindo para futuras análises com mais casos, desde que seja discipli-
nado e rigoroso quanto a busca de inferências, de modo a analisar um tópi-
co significante do mundo real, tendo em vista contribuir com uma literatu-
ra específica da área (King; Keohane; Verba, 1994, p. 18-19).
A vertente positivista entende que um estudo de caso tem seu uso
justificado, quando a literatura é insuficiente para explicar a totalidade do
fenômeno a ser estudado. O foco no caso, dessa forma, pode levar a des-
coberta de importantes insights, corrigindo as conclusões alcançadas em es-
tudos cross-case. A percepção de possíveis causas para o surgimento do fe-
nômeno geral, a partir do estudo de caso, pode contribuir decisivamente
para o aprimoramento de uma literatura específica. Enquanto pesquisas de
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
C-grande selecionava algumas variáveis de fenômeno para serem analisa-
das, as pesquisas de C-único/C-pequeno exploraria profundamente todas
as variáveis de um só objeto.
No entanto, apesar da importância de pesquisas que focam em ape-
nas um caso, a vertente positivista entende que existem limites metodológi-
cos desse tipo de estudo, principalmente quanto à perda de amplitude e ao
poder de generalização do estudo de caso. King, Keohane e Verba (1994) fa-
vorecem a realização de estudos cientificamente rigorosos, ampliando a ca-
pacidade de se construir teorias que melhor abarquem o mundo real. Nessa
ótica, estudos de caso reduzem a possibilidade de se fazer generalizações,
devido à quantidade reduzida de casos e do viés de seleção. Nessa perspec-
tiva, esse tipo de estudo seria apenas um ponto de partida para estudos que
envolvem uma amostra mais significativa de casos (cross-case).
Essa vertente, então, defende que os estudos de caso são um meio
de se realizar pesquisas que envolvem mais casos, ampliando a validade de
seus achados. Nesse tipo de estudo, segundo Daniel Little (1991, p. 29-
30), o pesquisador examina o contexto e a história de um evento em deta-
lhe, procurando levantar um conjunto de hipóteses causais sobre seu cur-
so. Devem-se descobrir as circunstâncias na história do evento que sejam
relevantes para a sua ocorrência, afastando aquelas que se mostrem irrele-
vantes para a análise em questão. Para se alcançar esse objetivo, faz-se ne-
cessário traçar a narrativa histórica, cujo propósito é estabelecer as séries
de eventos que conduzam as causas aos efeitos. Dessa forma, o estudo de
caso pode elucidar os mecanismos causais de determinados eventos histó-
ricos (Little, 1991, p. 29-30).
Segundo Little, para identificar os mecanismos causais em estudos
de caso, deve-se empregar uma das duas formas de inferência. A primeira
seria pautada na dedução, na qual se estabelece as conexões causais entre os
fatores sociais baseados sobre uma teoria já estabelecida sobre os proces-
sos subjacentes. A segunda seria uma abordagem indutiva, na qual se bus-
caria verificar quais seriam os processos causais do fenômeno estudado.
Contudo, essa última forma de abordagem dependerá, em última instância,
de análises de caráter comparativo para verificar se de fato existe associação
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
regular entre os tipos de eventos. Isso é explicado pois só se pode avaliar
o efeito causal no fenômeno se o pesquisador puder estimar o comporta-
mento de outras unidades.
A construção de causalidade baseada no estudo de caso, de acor-
do com Little, requer o conhecimento aguçado sobre a sequência de even-
tos dentro dos amplos processos históricos e de hipóteses teóricas ou in-
dutivas sobre vários tipos de causas dos eventos sociais. Nessa concepção,
para que se realize um estudo de caso bem-sucedido deve-se envolver o co-
nhecimento de uma sequência de eventos e processos sociais que depen-
dem da identificação de relações causais particulares entre circunstâncias
e eventos históricos. Para o autor, a descoberta de uma conexão causal re-
quer mais que o conhecimento da sucessão temporal entre os eventos, pois
se deve partir, antes de tudo, de uma base teórica e indutiva para a afirma-
ção de que uma dada circunstância histórica afeta a ocorrência e o caráter
de uma circunstância subsequente. A partir de um estudo de caso, é possí-
vel, portanto, estabelecer hipóteses sobre as condições que causam o even-
to estudado, já que é da natureza desse tipo de estudo a análise intensiva do
caso e a elucidação de seus mecanismos causais.
O estudo de caso, para os positivistas, aparece como meio para se
compreender a relação entre variáveis, tentando perceber quais são os meca-
nismos causais de um dado fenômeno, ou seja, as causas de um dado evento
em análise. O grande problema encontrado nesse tipo de perspectiva sobre
os estudos de caso e que a construção de modelos sobre a realidade, redu-
zindo-a e buscando a generalização de seus achados leva a simplificação do
mundo real. Compreender os estudos de caso apenas como ponto de par-
tida, conforme Little e os demais metodólogos dessa tradição, leva a limi-
tação da própria análise do caso. Nem sempre a realidade é passível de ra-
cionalização a ponto de se desenhar uma relação clara entre as variáveis. As
narrativas colaboram na melhor compreensão da dinâmica do mundo real,
mas a extração dos mecanismos causais torna-se, muitas vezes, uma sim-
plificação que nem sempre e útil para o melhor entendimento dos contex-
tos sociais e políticos.
Nessa perspectiva sobre os estudos de caso, entende-se que a seleção
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
deve ser feita com base na representatividade da unidade diante da popula-
ção, permitindo que as observações e descrições do caso em análise tornem
possível inferir sobre a dinâmica dos casos não analisados. No momento
subsequente a escolha dos casos, pode-se se realizar três tipos de estudos. O
primeiro tipo é o que examina uma variação em uma única unidade ao lon-
go do tempo (diacrônica), preservando, assim, a unidade primaria de aná-
lise. O segundo e o terceiro tipos analisam os casos a partir da observação
de suas subunidades, sendo o segundo tipo uma análise num mesmo pon-
to no tempo, ou seja, sem variação no tempo (sincrônica), e o terceiro uma
análise diacrônica e sincrônica, isto é, procura combinar a variação tempo-
ral com a variação dentro do caso (Gerring, 2004, p. 343).
Algumas ambiguidades surgem a partir da classificação tipológica dos
estudos de caso. Primeiramente, muitos desenhos de pesquisa acabam por
assumir os três tipos tratados, devido aos casos existentes dentro da unida-
de de análise, que geralmente são múltiplos e ambíguos. Além disso, pode
haver a existência de unidades formais e informais no estudo de caso, ou
seja, há as unidades que são estudadas intensamente – formais – e aquelas
que são adjacentes e periféricas na análise e podem aparecer independente-
mente do controle do pesquisador – informais. Outra ambiguidade ocorre
quando uma pesquisa combina uma análise de uma simples unidade e atra-
vés das unidades. Mais uma ambiguidade está no fato de que os estudos de
caso possuem uma dupla função: além de serem estudos propriamente di-
tos, eles são, também, estudos de caso. Como estudo, a população é restrita à
unidade sob investigação; como estudo de caso, a população inclui unidades
adjacentes. Por fim, as inferências perseguidas pelo estudo de caso podem
ser ilustrativas e falseadas, já que a natureza deste tipo de pesquisa é lançar
luz ao fenômeno geral a partir da análise do caso (Gerring, 2004, p. 352).
Dessa forma, a perspectiva positivista tem em vista a necessidade de
se constituir modelos analíticos a partir de estudos de caso, tentativa esta que,
em geral, tende a limitar a potencialidade desse tipo de abordagem. Isso in-
clui, por consequência, a necessidade de se racionalizar a seleção dos casos,
tendo em vista a maior representatividade deste diante da população dos
casos, porém a dificuldade se encontra na própria natureza dos contextos,
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
que são dificilmente delimitados e compreendidos a priori. A incorporação
de modelos das ciências duras leva as pesquisas nas Ciências Sociais, e par-
ticularmente o campo da Ciência Política, a encontrar problemas quanto à
substancialidade dos achados encontrados, pois essas priorizam a simplifi-
cação numérica da realidade.
Dentro da perspectiva positivista, considera-se que os estudos de
caso possuem duas virtudes básicas. Primeiramente, esse tipo de estudo
pretende analisar uma única unidade em grande profundidade, podendo
constituir uma pesquisa original na área. Além disso, essa abordagem pode
contribuir para a análise de outros casos, através da compreensão do meca-
nismo causal das variáveis da unidade analisada. Para isso, um bom estudo
de caso deve contar com algumas características básicas: a busca por infe-
rências descritivas e, por consequência, a geração de hipóteses; o estabele-
cimento de mecanismos causais; a formulação de proposições que visem
a profundidade e não a amplitude da análise; a validade interna; e, por fim,
uma estratégia de pesquisa exploratória focada em apenas uma única uni-
dade (Gerring, 2004, p. 2007).
O estudo de caso tem o objetivo de ser informativo quanto a unida-
de que está propondo analisar. Para isso, esse tipo de abordagem busca ne-
cessariamente fazer inferências descritivas sobre o caso. Ao fazer uma des-
crição, o pesquisador deve ter em mente a população dos casos possíveis,
pois só se pode definir algo conhecendo o que a unidade pode não ser. Um
estudo descritivo deve partir, portanto, de proposições comparativas, ten-
do em vista um ponto de referência através das unidades, mesmo que essas
comparações ocorram de modo indireto ou implícito, como, por exemplo,
em estudos de caso único. Assim, a perspectiva positivista entende que o
pesquisador, ao realizar um estudo de caso, deve buscar a finalidade científica
de categorização e classificação do mundo aos moldes do pensamento car-
tesiano. A descrição, nessa perspectiva, seria uma forma de se compreender
o fenômeno e seus mecanismos causais e não um meio de se realizar uma
análise contextual em si, levando-se em conta a dinâmica própria do caso.
Um dos problemas da descrição apontados por essa vertente é que,
geralmente, há mais de uma resposta plausível para a pergunta: “o que é
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
isso?” Isso decorre do fato de a descrição ser interpretativa, ao contrário da
natureza das pesquisas que utilizam a inferência causal. Ou seja, uma des-
crição nunca será exaustiva, pois muitos aspectos deixarão de ser considera-
dos ao se inferir sobre a unidade analisada (Gerring, 2009, p. 166). Assim, o
escopo da proposição elaborada deve ter a profundidade devida, de forma
a compreender melhor um caso. Em contrapartida, a proposição não pode
ser ampla, devido aos limites das inferências num estudo de caso. Como
destaca Gerring: “a evidência deve ser comensurável com o escopo da pro-
posição” (2004, p. 347, tradução nossa). Assim, segundo essa perspectiva,
considera-se que em estudos de caso a amplitude das inferências é limitada.
Percebe-se, então, que a perspectiva positivista impõe ao estudo de
caso uma importância fundamental no levantamento de insights e hipóteses
sobre o funcionamento de processos sociais e políticos, possibilitando, as-
sim, uma contribuição teórica decisiva para futuros estudos na área. Com
isso, os autores abordados, consideram que um estudo de caso pode auxi-
liar fortemente a consecução de estudos cross-case. Um estudo de caso, por-
tanto, pode colaborar com hipóteses gerais para outros casos na medida em
que fornece explicações para casos particulares. Dessa forma, o estudo de
caso tem, simultaneamente, tanto a preocupação com o caso em si quanto
com um amplo conjunto de casos.
Partindo dessa ótica, os estudos cross-case devem partir dos estudos
de caso, assim como os estudos de caso devem ser conduzidos pelas evi-
dências dos estudos cross-case. Os pesquisadores que se apoiam em estudos
de caso devem mostrar em que medida as evidências encontradas represen-
tam a população geral dos casos (Gerring, 2007). Dessa forma, estudos de
caso revelam como uma proposição pode ser operacionalizada através de
outros casos e como suas conclusões podem ser utilizadas por estudos en-
tre os casos. Isso dependerá, porém, da significância da unidade de análise
escolhida diante da totalidade de unidades possíveis. Nessa perspectiva po-
sitivista, estudos de caso são orientados para a construção de proposições
que podem dar conta de compreender outras realidades.
O estudo de caso, portanto, tem sempre em vista explorar um fenô-
meno a partir da análise de uma unidade. Esse tipo de análise é fundamental
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
para as Ciências Sociais, pois pode ser capaz de clarificar categorias empíri-
cas em conjunção com o refinamento de conceitos. Nesse sentido, estudos
de caso podem contribuir decisivamente para a estrutura teórica dos estu-
dos ao elucidar as diferentes combinações que podem provocar um mesmo
resultado ou ao identificar casos que não se conformam aos padrões cau-
sais comuns (Ragin, 2004, p. 126). Estudos de caso, no entanto, são impor-
tantes não apenas por ser ponto de partida para estudos cross-case, mas por
buscar a compreensão da especificidade e particularidades de um contex-
to. Com isso, torna-se possível a construção de narrativas que melhor dão
conta de compreender a dinâmica dos espaços sociais e políticos.
Numa perspectiva alternativa, não positivista, a busca seria pela aná-
lise interpretativa que vise a construção de narrativas detalhadas sobre casos,
procurando entender os valores que estão imersos nas dinâmicas e nos pro-
cessos em análise. Dessa forma, os estudos de casos devem se focar nas po-
tencialidades do caso e não, necessariamente, em construir modelos causais
que tentem dar conta de outros casos. Assim, na próxima seção deste arti-
go, discorre-se sobre o caráter contextual da análise dos casos nas Ciências
Sociais, contrapondo-se a perspectiva positivista abordada.
3. Em busca da compreensão das particularidades dos contextos a
partir de estudos de caso
Em contraposição às concepções que tentam transpor os modelos
das ciências duras para compreender fenômenos sociais, Flyvbjerg (2001;
2004) entende que os estudos na área de Ciências Sociais devem acrescer
em suas análises o contexto. Como afirma o autor, as ciências duras, ao bus-
car generalizações e o estabelecimento de leis, constroem um conhecimen-
to independente do contexto (context-independent), ou seja, não necessitam
do conhecimento contextual para compreender os fenômenos em análise
ou pelo menos pretendem este objetivo. Já nas Ciências Sociais, o conheci-
mento é produzido a partir do conhecimento contextual (context-dependent),
devido à natureza do objeto de estudo da área, que implica a impossibilida-
de de previsão e, consequentemente, de estabelecimento de leis.
O estudo da atividade humana, portanto, demanda pela compreensão
146
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
das particularidades, podendo fornecer informações confiáveis para a análi-
se de aspectos mais amplos. Assim, em contraposição a perspectiva positi-
vista nas Ciências Sociais, Flyvbjerg assevera que “é um equívoco ver o es-
tudo de caso como um método piloto para ser usado apenas para preparar
pesquisas mais amplas, testando hipóteses sistemáticas e construindo teo-
rias” (2001, p. 66). Porém, o autor afirma que o estudo de caso pode ser uti-
lizado nas fases preliminares de uma investigação para gerar hipóteses. O
autor, assim, busca desconstruir a visão convencional de que um estudo de
caso tem pouca utilidade para a compreensão de fenômenos mais amplos,
o que não implica que do mesmo surjam conclusões que levem a constru-
ção de modelos analíticos fechados.
Flyvbjerg (2001; 2004) aponta cinco equívocos ou implicações
sobre a natureza do método de estudo de caso advindos das concepções
metodológicas convencionais: (1) o conhecimento teórico ou geral (inde-
pendente do contexto) é mais valioso que o conhecimento concreto e prá-
tico (dependente do contexto); (2) não se pode generalizar baseando-se em
um só caso, e assim o estudo de caso não pode contribuir para o desenvol-
vimento científico; (3) o estudo de caso é mais útil para gerar hipóteses (na
primeira fase do processo completo da investigação), enquanto outros mé-
todos são mais adequados para a comprovação de hipóteses e a construção
de teoria; (4) o estudo de caso contém um viés em direção a verificação, ou
seja, uma tendência em confirmar as noções preconcebidas do investiga-
dor; (5) muitas vezes é difícil desenvolver proposições e teorias gerais com
base em estudos de caso específicos.
Quanto ao primeiro equívoco, entende-se que o estudo de caso
produz o tipo de conhecimento dependente do contexto que torna possí-
vel mover do mais baixo para o mais alto nível do processo de aprendiza-
gem. Além disso, estudos sobre a atividade humana somente são possíveis
com a busca do conhecimento dependente do contexto, que exclui a pos-
sibilidade da construção de uma teoria sistêmica. Assim, o conhecimento
dependente do contexto e da experiência e central na atividade acadêmi-
ca (Flyvbjerg, 2001, p. 71). Nesse sentido, sua aproximação com as situa-
ções do mundo real e da grande riqueza de detalhes que esses possibilitam
147
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
alcançar são importantes em dois aspectos para o desenvolvimento das pes-
quisas em Ciências Sociais:
Primeiro, é importante para o desenvolvimento de uma visão matizada da
realidade, incluída a visão de que a conduta humana não se pode enten-
der simplesmente como atos regidos por umas regras que encontramos
nos níveis mais baixos do processo de aprendizagem e em grande parte da
teoria. Segundo, os casos são importantes para os próprios processos de
aprendizagem do pesquisador no desenvolvimento das técnicas necessárias
para se fazer uma boa investigação (Flyvbjerg, 2004, p. 38, tradução nossa).
As Ciências Sociais já têm demonstrado a necessidade de se focar
nos casos, devido à dificuldade de se construir teorias gerais e preditivas, in-
dependentes do contexto. Assim, é necessária a construção de um conheci-
mento dependente do contexto, ou seja, prático e concreto. Assim, contra-
pondo-se à perspectiva positivista, enuncia Flyvbjerg que: “não se podem
encontrar teorias preditivas nem universais no estudo dos assuntos huma-
nos. Portanto, o conhecimento concreto dependente do contexto e mais
valioso que a busca vai de teorias preditivas e universais” (2004, p. 39, tra-
dução nossa).
O segundo equívoco é quanto ao poder de generalização dos acha-
dos dos estudos de caso. Estudos como de Darwin, Marx e Freud tiveram
forte ênfase nos casos. O que importa é a escolha e a seleção das unidades
a serem analisadas, pois pode-se acrescentar em muito para o poder de ge-
neralização do estudo. Contudo, isso não quer dizer que esse tipo de abor-
dagem seja sempre apropriado. Isso dependerá do problema que se está es-
tudando e de suas circunstâncias (Flyvbjerg, 2001, p. 75). Estudos de caso
têm servido, sobretudo, para identificar “cisnes negros”, pois uma única ob-
servação pode levar a mudança dos paradigmas, melhorando, assim, a cons-
trução teórica dos eventos em análise. Assim, o estudo de caso tem grande
utilidade na generalização de proposições teóricas, não sendo preciso am-
pliar o escopo dos casos para melhorar a amplitude das conclusões da pes-
quisa. Dessa forma, Flyvbjerg afirma que o estudo de caso:
[...] pode ser crucial para o desenvolvimento científico através da generalização
148
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
como complemento ou alternativa para outros métodos. Mas a generalização for-
mal está sobrevalorizada como fonte de desenvolvimento científico, enquanto
“a força do exemplo” está subestimada (Flyvbjerg, 2004, p. 44, tradução nossa).
O terceiro equívoco apresentado pelo autor enfoca os limites do
estudo de caso quanto a comprovação de hipóteses e a geração de teorias.
Isso está diretamente ligado à questão da seleção do caso a ser analisado.
Utilizando a argumentação já apresentada por Ragin (1992), o autor afirma
que a capacidade de generalização dos estudos de caso pode aumentar por
meio da seleção estratégica do caso. Uma das formas de se realizar a sele-
ção é pela escolha de um caso crítico, que tem o propósito de obter infor-
mação que permita inferência e deduções lógicas, levando a construção de
generalizações. Esse pode ser definido como tendo importância estratégica
em relação ao problema geral. Segundo Flyvbjerg (2001; 2004), a identifi-
cação desses casos não leva em conta um princípio metodológico universal.
O que o autor recomenda é que se busquem casos “mais prováveis” (uti-
lizados para falsificar proposições) e “menos prováveis” (utilizados para a
realização de testes de verificação). Estudos que se baseiam nesses tipos de
caso têm a capacidade de construir teorias que melhor dão conta da reali-
dade social e política.
Um exemplo de estudo clássico das Ciências Sociais em que foi fei-
ta a escolha de um caso crítico é a da obra Sociologia dos Partidos Políticos de
Robert Michels, publicada em 1901. Este autor estudou o funcionamento
do Partido Social-Democrata Alemão, cujas inferências foram suficientes
para que fosse repensada a teoria sobre organizações partidárias. A partir da
análise empreendida, Michels observou que a organização partidária se tor-
na um instrumento de cristalização e alargamento do poder das lideranças
partidárias sobre os outros indivíduos que compõem o partido. O Partido
Social-Democrata Alemão, cuja dinâmica organizacional deveria funcio-
nar sob a lógica democrática, tende a se hierarquizar e se burocratizar, le-
vando ao surgimento de uma oligarquia. Constata o autor que, assim como
todas as organizações, a existência de lideranças e, consequentemente, da
hierarquização e inerente a todas as formas de vida social. A esse processo
149
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
universal, Michels (1982) denominou “lei de ferro da oligarquia”, que ex-
plicaria o fato de que toda organização, através do processo de burocrati-
zação, se oligarquizaria.
A massa, ao se organizar em forma de um partido, criaria um corpo
burocrático que seria responsável pelo funcionamento da organização par-
tidária. Esta, em consequência disso, deixa de agir espontaneamente para
agir como organização partidária, estabelecendo hierarquias e regras, criando
segmentações de acordo com a posição política de cada ator dentro do par-
tido. Um pequeno comitê passa a dirigir a base do partido. Portanto, o pro-
cesso de burocratização levaria, inevitavelmente, ao surgimento de uma elite
partidária que ditaria os rumos da organização (Michels, 1982, p. 235-236).
As conclusões da obra de Michels (1982) foram construídas a par-
tir de inferências obtidas da análise de um caso, possibilitando a constru-
ção de uma grande generalização. O caso crítico escolhido pelo autor foi a
do “menos provável”, e assim foi possível a construção de uma teoria que
melhor desse conta das organizações como um todo. Nesse sentido, pode-
-se afirmar que a partir de um caso é possível a construção de novas teo-
rias que melhor dissertam sobre um fenômeno mais amplo, mas, para isso,
é válido explorar as potencialidades do caso verificando como se orientam
os indivíduos em cada contexto em análise.
O quarto equívoco sobre os estudos de caso é quanto ao viés de ve-
rificação do método, o que colocaria em risco o valor científico desse tipo
de estudo. Essa concepção se baseia na tendência que pesquisadores têm
em confirmar suas proposições. Contudo, esse problema pode ocorrer não
apenas em estudos de caso, mas em qualquer tipo de método, dependendo
da forma como serão selecionados os casos. Assim, dependendo do modo
como for procedido o estudo de caso, poder-se-á colaborar com a falsifica-
ção de proposições. Desse modo, como afirma Flyvbjerg: “é a falsificação,
não a verificação, o que caracteriza o estudo de casos. E mais, a questão da
subjetividade e o viés de verificação afetam todos os métodos, não só o es-
tudo de caso e outros métodos qualitativos” (2004, p. 51, tradução nossa).
Por fim, o último equívoco abordado por Fyvbjerg é que se costu-
ma considerar a construção de narrativas nos estudos de caso como uma
150
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
desvantagem para a consecução de conhecimento válido cientificamente.
Para o autor, na verdade, boas narrativas podem dar conta das complexida-
des e das contradições do mundo real. A natureza contextual dos estudos
de caso é fundamental para a elucidação das intrincadas questões que sur-
gem no contexto, possibilitando a construção de teorias mais robustas, con-
tribuindo para o desenvolvimento cumulativo do conhecimento (Flyvbjerg,
2001, p. 86).
Portanto, o foco em um número reduzido de casos permite que o
pesquisador na área de Ciências Sociais realize pesquisas mais densas so-
bre o fenômeno em análise, possibilitando a construção de teorias que me-
lhor dão conta da realidade. Desenhos de pesquisa voltados para o contex-
to podem levar a aproximação do diálogo entre teoria e empiria. Enfim, é
essencial se ter em mente que a busca não é pela redução do conhecimen-
to em proposições gerais, como defende a perspectiva positivista, mas, an-
tes de tudo, busca-se a compreensão das dinâmicas sociais e políticas pre-
sentes no mundo real e, para isso, faz-se necessária a realização de estudos
de caso que explorem a forma particular como os atores interagem dentro
de cada contexto.
4. A seleção e análises em estudos de caso
A escolha do estudo de caso é geralmente classificada como subje-
tiva e contextualizada. Contudo, há a possibilidade de apresentar critérios
gerais que podem ser atribuídos a todo e qualquer caso quando confronta-
do com um problema de pesquisa. Gerring (2019) sintetiza esses critérios
gerais de estudos de caso em cinco: importância intrínseca, independência
do caso, evidência intracaso, logística e representatividade. Há também a
definição de características gerais e generalizantes para dar parâmetros aos
casos escolhidos (ver Quadro 2):
151
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Quadro 2 – Objetivos Gerais para Seleção de Casos segundo John Gerring
Objetivos/Estratégias Critérios
Importância Intrínseca Importância teórica e prática.
Independência de Caso X e Y não afetados por valores
para outras casos2.
Evidências Intracaso Compatibilidade da evidência
baseada em caso.
Logística Acessibilidade da evidência para
um caso.
Representatividade Generalizabilidade
Fonte: Gerring, 2019, p. 83.
Sobre a primeira característica do Quadro 2, importância intrínse-
ca dos casos, pode-se apontar eventos com alta relevância social e política
como é caso de guerras, revoluções, golpes de Estado que são obviamen-
te importantes em si; mas pode-se apontar importância em escala menor
como uma relevância para grupos ou organizações sociais, por exemplo. A
segunda característica é a independência dos casos, ou seja, o caso deve ser
delimitado de forma clara que dentro dele mesmo sejam identificadas cau-
sas e consequências. Ou seja, um caso não pode ter influência significati-
va de outros casos, exceto se o estudo de caso for cross-case (Gerring, 2019).
A terceira característica, evidência intracaso, trata da capacidade que
um caso tem de ter para fornecer dados suficientes para uma pesquisa e que
estes dados sejam acessíveis. Considera-se de pouco valor um caso em caso
em que as evidências são escassas, pouco confiáveis ou sem possibilidade
acesso. A evidência intracaso é um produto em parte do caso e em parte
dos atributos pessoais do pesquisador (Por exemplo, competências linguís-
ticas e familiaridade prévia com a região, período ou tópico.) A quarta ca-
racterística é o fator logístico que aponta para conveniência de acesso às
evidências de um caso. Como quinta característica tem-se a representativi-
dade, isto é, os achados do caso devem extrapolar o caso em si e represen-
tativos para uma população maior que o caso (Gerring, 2019).
Há várias tipologias que indicam propostas para a seleção de casos
2. Notas: X = fator causal de interesse teórico. Y = resultado de interesse.
152
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
em pesquisas com desenhos de estudo de caso. O modo mais basilar e co-
mum de fazer está seleção tem como ponto de partida a classificação se o
estudo de caso pretende elaborar inferências descritivas ou inferências cau-
sais. Quando o objetivo é descritivo, o estudo pode descrever estudos típi-
cos com um caso e estudos diversos com mais de um caso. Nos estudos que
pretendem inferências causais podem ser de três tipos de acordo com a sua
função: exploratório, estimativo ou diagnóstico (Gerring, 2019). Vejamos
o Quadro 3 com tipologia organizada:
Quadro 3 – Classificação de Tipos de Estudos de Caso
Tipo de Estudo de Caso Nº de Casos
I - DESCRITIVOS
1. Típico Um ou Mais
2. Diverso Dois ou Mais
II - CAUSAIS
1. Exploratórios
i. Extremos Um ou Mais
ii. Índice Um ou Mais
iii. Anômalo Um ou Mais
iv. Mais-Similar3 Dois ou Mais
v. Mais-Diferente Dois ou Mais
vi. Diverso Dois ou Mais
2. Estimativo
i. Longitudinal Um ou Mais
ii. Mais-Similar Dois ou Mais
3. Diagnóstico
i. Influente Um ou Mais
ii. Caminho Um ou Mais
iii. Mais-Similar Dois ou Mais
Fonte: Gerring, 2019, p. 83.
Nas pesquisas de estudo de caso, há forte relação entre a seleção do
caso e análise do caso. Uma combinação pode ser feita a partir da decisão
de analisar os casos de modo transversal, longitudinal ou intracaso com a
possibilidade de análises qualitativas e/ou quantitativas.
Brevemente, um estudo de caso utiliza a variação transversal de um modo
3. Aqui se faz referência a um texto basilar de John Stuart Mill que tem impacto ainda nos dias de hoje em análises metodológicas na Ciência
Política.
153
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
qualitativo, uma vez que o número de casos é muito limitado. (Esses po-
dem ser casos que são formalmente definidos ou podem ser casos an-
cilares.) Ele também utiliza evidências longitudinais, que podem ser
analisadas qualitativa ou quantitativamente (uma série temporal). E uti-
liza evidências intracaso, que podem também ser analisadas qualitati-
va ou quantitativamente. Em suma, o estudo de caso utiliza evidências
nos três níveis e geralmente combina observações qualitativas e quan-
titativas – exceto para a análise de caso transversal, que deve ser quali-
tativa em virtude da pequena amostra de casos (Gerring, 2019, p. 180).
Quadro 4 – Relação do Modo de Análise e Tratamento de Dados
Transversal Longitudinal Intracaso
Qualitativa Sim Sim Sim
Quantitativa Não Sim Sim
Fonte: Gerring, 2019, p. 180.
A análise de caso transversal é um modelo de análise que indica a
necessidade de mais de um caso, geralmente, busca-se aplicar os modelos
mentais de comparação de Mill4 conhecidos como método da semelhan-
ça e método da diferença. No método da semelhança, os casos seleciona-
dos possuem o mesmo fenômeno que pretende ser explicado, mas diferem
nos outros aspectos, enquanto o método da diferença, os casos escolhidos
são similares em tudo, com exceção do fenômeno que pretende ser descri-
to ou explicado. Segundo Gerring: “A análise do caso transversal é exigida
por alguns métodos de seleção de caso, i.e., aqueles que assumem um for-
mato mais-similar ou mais-diferente. Aqui, a variação entre casos estuda-
dos fornece evidências essenciais e explícitas para obtenção de inferências
causais” (2019, p. 181).
O estudo de caso também pode ser longitudinal, isto é, um caso ou
alguns casos que é estendido e analisado em unidades de tempo diferentes.
A linha do tempo em que as análises são feitas e as unidades de tempo tem
escalas diferentes. Há estudos que caso que pode levar em consideração
4. Para aprofundar sobre o tema, consultar o texto A system of logic de John Stuart Mill.
154
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
séculos de história em um estudo, ou pode durar dias, como foi é o estu-
do sobre os mísseis de Cuba que durou 13 dias. “Qualquer que seja o pe-
ríodo escolhido, existe geralmente variação ao longo do tempo junto a di-
mensões-chave – X (o fator, ou fatores, causal), Y (o efeito) ou D (o fator,
ou fatores, descritivos)” (Gerring, 2019, p. 182).
Há ainda a possibilidade de decupar um caso em várias observa-
ções. Este é um estudo de caso denominado de intracaso. Nessa situação a
unidade de análise do caso pode variar o bastante para produzir um grande
número de novos casos. Por exemplo, um caso que a observação seja a es-
cala do Estado-Nação e que pode ser observado também a partir da varia-
ção dos municípios que no caso do Brasil são 5.568 unidades de observa-
ção. “Qualquer unidade pode ser decomposta, e evidências extraídas de cada
uma dessas subunidades tendem a fornecer informações vitais para o argu-
mento principal, dirigido ao nível do caso básico” (Gerring, 2019, p. 182)
A possibilidade de combinação de estudos de caso com estudos de
N-Grande tem se tornado mais comum e pode trazer ganhos analíticos para
a pesquisa. Estes estudos conhecidos como multimétodos pode ocorrer com
a aplicação do estudo de caso antes ou depois do estudo com C-Grande ou
pode ocorrer simultaneamente. De acordo a ordem da aplicação, quando
o estudo de caso é aplicado antes, tem um uma função seminal e objetiva
identificar variáveis e hipóteses relevantes que serão testadas em estudos de
N-Grande posteriormente. Quando o estudo de caso vem depois do estu-
do de N-Grande, o estudo de caso ocorre de modo suplementar para apro-
fundar a análise em alguns tópicos explorados pela pesquisa de N-Grande.
As duas estratégias também podem ser aplicadas ao mesmo tempo.
A análise do estudo de caso pode ser feito de modo quantitativo ou
qualitativo. De modo que Gerring define como análise quantitativa “qual-
quer análise formal baseada em observações matriciais. Uma observação
matricial é o tipo convencional, representado como uma linha em um con-
junto de dados retangular [...]” (Gerring, 2019, 195). Enquanto, “a análise
qualitativa se refere a uma análise informal de observações não compará-
veis. Observações não comparáveis não podem ser arranjadas em formato
matricial por que são exemplos de coisas diferentes, extraídas de populações
155
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
diferentes” (Gerring, 2019, p. 195)
A análise quantitativa pode ser utilizada de três formas diferentes
dentro de estudos de caso. O primeiro deles é como ferramenta para sele-
cionar casos dentro de uma população de N-grande. O segundo modo é
combinando o estudo de caso com outras técnicas eminentemente quan-
titativas, desta forma, o pesquisador terá um estudo multimétodo que irá
combinar análises qualitativas e quantitativas. O terceiro modo é a utiliza-
ção de análise quantitativa em estudos intracaso em que o N se torna gran-
de o suficiente que justifique o uso destas técnicas. O uso de análise quan-
titativa em estudos de caso é incipiente e pouco explorado.
A análise qualitativa é amplamente utilizada nos estudos de caso,
inclusive, na maioria das pesquisas em Ciência Política, o estudo de caso
é apontado como sinônimo de análise qualitativa. As fontes nas quais os
pesquisadores irão coletar seus dados é um ponto que merece observação
mais aprofundada. Podem-se cinco tipos de fontes predominantes nos es-
tudos de caso: etnografia; entrevista; sondagem; fontes primárias; e fontes
secundárias (Gerring, 2019). Cada uma dessas fontes fornece dados singu-
lares para o pesquisador e o uso de cada uma delas ou de algumas em con-
junto vai depender dos objetivos da pesquisa.
Importa também apontar a necessidade de cuidar da qualidade das
fontes em que os dados são coletados. A qualidade ocorre quando as seguin-
tes considerações são levadas em conta ao definir uma fonte de dados em es-
tudos de casos: relevância; proximidade; autenticidade; validade; diversidade.
Quadro 5 – Cuidados Acerca da Escolha das Fontes de Dados em Estudo de Caso
Relevância A fonte expressa a questão de interesse teórico.
A fonte está em uma posição de saber o que você quer
Proximidade
saber. Está próxima à ação.
A fonte não é falsa ou adulterada, ou está sob influência
Autenticidade
de alguém outro.
Validade A fonte não é enviesada e afeta a questão teórica.
Tem diferentes pontos de vista, interesses e métodos de
Diversidade
coleta.
Fonte: Gerring, 2019, p. 212-213.
156
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Estudos com C-pequeno demandam cuidado com o uso das fon-
tes. Conforme o Quadro 5, as estratégias passam por uma seleção
criteriosa das fontes, a partir de critérios claros de relevância e de
proximidade com a questão de pesquisa, bem como de autenticidade
(confiabilidade da fon-te utilizada), validade (que garante que as
inferências a serem realizadas es-tão assentadas em fatos da realidade) e
diversidade (o que permite verificar e testar os achados da pesquisa).
Além disso, o uso das fontes e, posteriormente, processo de organi-
zação e categorização deve incluir estratégias de transparência, de validação
dos dados (qualitativos e/quantitativos) e de replicabilidade, caso seja
pos-sível, diante dos limites éticos que podem existir na sua produção e
disponi-bilização. Essas boas práticas, realizadas no processo da seleção
das fontes, da coleta das informações, de produção das evidências e dos
dados quali-tativos e, posteriormente, da publicização dos resultados são
fundamentais para a produção de inferências válidas.
Para isso, é preciso reduzir o viés no processo de coleta e
produção de dados, bem como reconhecer a influência da teoria
escolhida na análi-se empírica. Isso torna a escolha e a análise das fontes
dependentes da teo-ria, levando a uma reflexão de que é fundamental ao
pesquisador explicitar, claramente, as razões da escolha de uma teoria em
detrimento de outras. A escolha deve ser pautada na possibilidade de se
responder adequadamente à pergunta de pesquisa.
Por fim, no processo de análise, uma estratégia recomendada para
a construção de argumentos causais, sobretudo em estudos de caso ou
com-parados histórico-comparativos é o uso do raciocínio contrafactual
(Kogut, 2010), pois permite fortalecer os argumentos que explicam as
razões de de-terminados fenômenos terem acontecido em um
determinado sentido, ain-da que, logicamente, poderia ter se desenrolado
de outras formas. Essas es-tratégias relacionadas a boas práticas
acadêmicas permitem garantir que os achados do estudo de caso sejam
válidos internamente e que, de alguma forma, possam levar a
compreensões mais aprofundadas sobre o fenôme-no em análise, o que
garantiria, em tese, maior possibilidade de se produzir validade externa.
157
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
5. Validação, questões éticas e novas tendências dos estudos de casos
As pesquisas em Ciência Política têm se preocupado cada vez
mais em questões como transparência, replicabilidade e boas práticas
científicas. Esta seção vai tratar de alguns apontamentos a respeito de
práticas de vali-dação, também sobre princípios e protocolos éticos sobre
a atividade cien-tífica em ciência política e, por fim, uma indicação de
tendências para estu-dos de caso no Brasil.
5.1. Considerações sobre a validação
Uma das preocupações na realização de estudos de caso tem
sido em garantir validade e confiabilidade aos achados de pesquisa. A
validade visa garantir o reconhecimento e aceitação do trabalho dentro do
ambien-te acadêmico em termos de credibilidade das inferências
encontradas e a confiabilidade busca assegurar que, uma vez repetidos os
mesmos procedi-mentos, os resultados encontrados serão os mesmos.
Dados os desafios da realização de estudos de caso, a busca por
va-lidação e confiabilidade nesse tipo de pesquisa é um desafio ainda
maior, devido aos aspectos contextuais e contingentes dos fenômenos em
análise. Em relação a esse processo duplo, destacamos, especificamente, a
validade do constructo, pois garante que as medidas operacionais sejam
adequadas e relacionadas diretamente ao processo de conceitualização
(Yin, 2001).5
Quando se propõe a realização de um estudo de caso, entende-se
que existem aspectos particularidades que necessitam de uma análise mais
detida, logo os conceitos devem ser ajustados considerando o caso em aná-
lise. Isso permitirá a produção de medidas operacionais ajustadas. Para tan-
to, conforme Yin (2001), é preciso utilizar fontes múltiplas de evidências, o
encadeamento de evidências e estratégias de validação dos dados, como por
meio de informantes-chave. Em pesquisas em que há entrevistas em profun-
didade ou observação direta, a participação dos informantes-chave na or-
ganização das evidências e da análise, propriamente dita, permite que os ci-
clos de revisão sejam “uma oportunidade para iniciar um diálogo proveitoso
5. Yin (2001) também destaca a validade interna e externa, já bem exploradas e conhecidas. Portanto, considerando a finalidade
deste tópico do capítulo, focaremos na validade de constructo, que permite que os dados sejam válidos para a análise.
158
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
sobre as várias facetas do caso” (Yin, 2001, p. 179). Esse tipo de validação
de constructo permite que a seleção de evidências e a análise sejam reali-
zadas em conformidade com a realidade, limitando imprecisões do pesqui-
sador. Isso amplia a capacidade do estudo de alcançar a validade interna.
Para isso, é preciso adotar procedimentos para validação dos dados
qualitativos, como forma de que a pesquisa seja, de alguma forma, replicá-
vel, considerando as características e possibilidades do estudo qualitativo.
Assim, a partir do debate de Yin (2001), é fundamental que se utilize múlti-
plas fontes para coleta de evidências, que se busque criar alguma forma de
organização delas (como elaboração de protocolos e de bancos de dados)
e que haja algum sequenciamento ou cadeia de evidências.
Quando práticas de validação (procedimentos e protocolos transpa-
rentes) são implantadas na pesquisa, maior a confiabilidade dos resultados
alcançados, pois a comunidade acadêmica se certifica de que foram adota-
das boas práticas de pesquisa. Yin fornece uma estrutura básica de um pro-
tocolo de pesquisa a ser seguido de modo a possibilitar transparência e re-
plicabilidade em estudos de caso:
Um protocolo de estudo de caso é um documento formal que captura todo
o conjunto de procedimentos envolvidos na coleta de dados para um es-
tudo de caso. Um protocolo completo incluirá o seguinte: (a) os procedi-
mentos para contatar informantes-chave e organizar o trabalho de cam-
po; (b) linguagem explícita e lembretes para implementar e fazer cumprir
as regras de proteção de seres humanos; (c) uma linha detalhada de per-
guntas ou uma agenda mental a ser abordada durante a coleta de dados,
incluindo sugestões sobre as fontes de dados relevantes; e (d) um esbo-
ço preliminar para o relatório final do estudo de caso (Yin, 2010, p. 84).
O desafio para os estudos de caso no processo de validação dos da-
dos é garantir que as escolhas teóricas e metodológicas sejam detalhadas
e publicizadas, garantindo que a comunidade acadêmica possa conhecer
os procedimentos e intencionalidades do pesquisador, bem como permita
compreender como os casos foram estudados a fundo, se existem outras
possibilidades para responder às mesmas perguntas e, quem sabe, realizar
159
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
outras, aprofundando o conhecimento científico sobre o problema de pes-
quisa abordado.
5.2 Considerações sobre as questões éticas
Na busca por se imprimir mais rigor aos estudos de casos, um con-
junto de observações que deve ser considerado nesta discussão é quanto às
questões éticas na pesquisa e no estudo de caso de forma específica. Ética é
um conceito polissémico. Chamamos atenção, neste texto, para duas possi-
bilidades de estruturas conceituais deste termo. A primeira é a definição de
ética como campo de pesquisa da filosofia que também é chamada de filo-
sofia moral. A segunda é a ética como um conjunto de normas de conduta
construídas em um determinado espaço social em um determinado perío-
do (Abbagnano, 2015). Esta segunda possibilidade, mais comum em orga-
nizações de pesquisa, é a que será explorada daqui em diante.
A comunidade científica é uma organização humana, logo, faz parte
da constituição dessa organização os padrões de conduta de seus membros.
Esses padrões podem ser formais ou informais, contudo, a formalização de
regras através de manuais de conduta em pesquisa e a constituição de comi-
tês de ética em pesquisa tornam visíveis e aplicáveis as regras de uma deter-
minada comunidade científica. Em outras palavras, um manual de conduta
ética e um comitê de ética em pesquisa irão determinar e/ou regular as ati-
vidades humanas relacionadas aos humanos ou informações relacionadas
a estes na produção de conhecimento científico. Em suma, a ética para os
fundadores gregos é a ciência da conduta.
Para um desenho de pesquisa que aponte como estudo de caso o
caminho para a produção de conhecimento científico também deve-se ter
normas que conduzam a ação de seus pesquisadores. Estas regras circun-
dam espaços organizacionais mais amplos que abarque as ciências humanas,
as ciências sociais, a ciência política, as pesquisas qualitativas e as técnicas
de pesquisa qualitativa como o uso de suas fontes dados de dados (entre-
vistas, observações participativas, documentos sigilosos etc). Algumas re-
gras gerais podem ser apontadas como segue:
As regras básicas de conduta são agrupadas e rotuladas de diversas
160
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
maneiras, mas abrangem estas sete questões: (1) Não prejudicar os par-
ticipantes. (2) Manter sua privacidade. (3) Traga-lhes os benefícios dispo-
níveis. (4) Informe-os sobre a pesquisa. (5) Envolva-os apenas voluntaria-
mente. (6) Garantir investigação de boa qualidade. (7) Seja honesto com
os dados e relatórios (deRoche; deRoche, 2010, p. 337, tradução nossa).
Nesse sentido, o guia de conduta ética da APSA apresenta aspectos
que são importantes na conduta do pesquisador na área de Ciência Política.
A Guide to Professional Ethics in Political Science editado pela American Political
Science Association (APSA) em 2022 é fruto de uma discussão constante de
práticas de pesquisa da comunidade científica de Ciência Política. A primei-
ra parte deste texto apresenta princípios gerais relacionados a pesquisas em
seres humanos, os pontos abordados são: poder, consentimento, decepção,
danos/traumas, confidencialidade, impacto, leis/regulamentos/revisão pros-
pectiva e responsabilidade compartilhada (APSA, 2022).
O guia da APSA é importante por considerar a complexidade do
tema, pois questões éticas, perspectivas e prioridades podem variar de acor-
do com as abordagens metodológicas e desenhos de pesquisa. Pesquisadores
que utilizam survey ou pesquisa etnográfica lidam com diferentes questões
éticas, ainda que, em comum, sempre é importante considerar como garan-
tir que a pesquisa seja conduzida eticamente, sem prejuízo da ciência e tam-
bém dos envolvidos na pesquisa.
Nesse sentido, o guia aponta para diversos princípios gerais que de-
vem ser seguidos pelos pesquisadores em Ciência Política. Conforme o guia
supracitado, destacamos que o pesquisador deve se orientar pelos seguintes
princípios gerais: (1) respeitar a autonomia e o bem-estar dos participantes
da pesquisa; (2) responsabilizar-se individualmente na reflexão das questões
éticas da pesquisa (não terceirizar a responsabilidade); (3) considerar a di-
ferença de poder entre o pesquisador e o pesquisado na realização da pes-
quisa; (4) obter o consentimento dos participantes; (5) evitar a prática do
engano junto aos participantes; (6) proteger os participantes de traumas e
danos decorrentes da pesquisa; (7) manter a confidencialidade dos partici-
pantes, garantindo que o anonimato; (8) não comprometer a integridade dos
161
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
processos políticos para fins da pesquisa, sem o consentimento dos parti-
cipantes; (9) estar ciente das leis e dos regulamentos relevantes que regem
a realização da pesquisa.
Em relação à diretrizes individuais, o guia tem as seguintes orienta-
ções éticas: (1) integridade dos estudos realizados; (2) transparência dos estu-
dos para fins de avaliação por parte da comunidade acadêmica; (3) segurança
e proteção dos sujeitos envolvidos na pesquisa; e (4) direitos de uso de da-
dos coletados e gerados pelos pesquisadores. Estudos de caso são propícios
a dilemas éticos, devido à proximidade entre o pesquisador e o fenômeno
em análise, incluindo aos sujeitos de pesquisa, incluindo informantes-chave,
documentos, dados e demais fontes e evidências a serem coletadas e pro-
duzidas. Logo, diretrizes éticas gerais e individuais devem servir como uma
bússola para a condução de pesquisas íntegras e válidas academicamente.
No Brasil, a resolução nº 510 de 7 de abril de 2016, estabeleceu “as
normas aplicáveis a pesquisas em Ciências Humanas e Sociais cujos proce-
dimentos metodológicos envolvam a utilização de dados diretamente ob-
tidos como participantes ou de informações identificáveis ou que possam
acarretar riscos maiores do que os existentes na vida cotidiana”. Nesta re-
solução, além da definição das pesquisas que devem ser cadastradas junto
ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), também estabelece uma série de
princípios éticos norteadores das pesquisas na área de Ciências Humanas e
Sociais, portanto, incluindo a Ciência Política. Em linhas gerais, deve-se ga-
rantir a autonomia e a liberdade de todos os participantes, bem como a de-
fesa dos direitos humanos, o respeito aos valores culturais, morais, sociais
e religiosos, a garantia do assentimento e o consentimento dos participan-
tes, da confidencialidade das informações dos participantes, bem como sua
proteção e segurança.
Não é possível, assim, realizar estudos de casos em profundidade
transbordando os limites éticos. Logo, o limite da elaboração do desenho
da pesquisa, da coleta, da produção e da análise das evidências, bem como
da divulgação das pesquisas devem ser, fundamentalmente, dois: o meto-
dológico e o ético.
162
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
5.3 Novas tendências dos estudos de caso no Brasil
A Ciência Política brasileira tem se preocupado, cada vez mais, em
ampliar o rigor de suas pesquisas acadêmicas. Nesse sentido, os estudos de
casos, que, muitas vezes, são acusados de permitir “apenas uma descrição”
da realidade ou de tratar “somente do particular”, foram ganhando mais
espaço na disciplina, sobretudo com incrementos metodológicos. A busca
por estudos de casos se deve à capacidade desses estudos de liderarem com
a equifinalidade dos fenômenos políticos e com os mecanismos causais dos
processos em análise, com afirma Rezende (2011).
Como sabemos, não existem leis na Ciência Política, por isso, as teo-
rias e os métodos de análise devem se adequar aos casos, como forma de se
compreender como “diferentes processos causais podem produzir resulta-
dos similares”, pois os fenômenos políticos “são sensíveis ao contexto, aos
agentes, às instituições, aos processos históricos, e à agência (humana ou
não-humana)” (Rezende, 2011, p. 318). Do momento em que o autor re-
flete sobre a necessidade de imprimirmos mais rigor aos estudos de casos,
como forma de garantir mais validade às nossas pesquisas, até hoje (mais
de 10 anos depois), muita coisa mudou. Avançou-se muito no debate e na
implementação de práticas de validação de dados qualitativos e de transpa-
rência na área. São mais recorrentes o uso de estratégias de sistematização
das evidências, do teste delas e, também, de sua análise.
Mais recentemente, uma das estratégias mais utilizadas com vistas a
garantir mais validade aos estudos de caso é o process-tracing (PT). Por meio
dele, podemos encontrar inferências sólidas em pesquisas que se focam em
mecanismos causais em estudos de caso em profundidade, conforme Beach
e Pedersen . Os autores ainda afirmam que há uma particularidade no uso
da abordagem: o PT “busca fazer inferências dentro do caso sobre a pre-
sença/ausência de mecanismos causais em estudos de caso único, enquan-
to a maioria dos métodos small-n buscam inferências cross-case sobre relações
causais” (Beach e Pedersen, 2013, p. 4).
Assim sendo, o objetivo é que o desenho da pesquisa do estudo de
caso seja adequado a responder questões relativas ao caso em si (within-case).
Para tanto, busca-se analisar os processos de forma sistemática, conforme as
163
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
evidências encontradas sobre os eventos e as sequências temporais. Dessa
forma, conforme os autores, os casos não são apresentados de forma nar-
rativa, como convencionalmente são realizados os estudos de caso.
No Brasil, o process-tracing tem ganhado projeção somente em anos
recentes, diante da difusão da abordagem por meio de cursos ofertados no
país, como através da IPSA-USP Summer School que ocorre todos os anos
na Universidade de São Paulo (USP) desde 2010 e outros cursos, minicur-
sos e produções recentes realizados na área.
Em uma busca realizada utilizando o descritor “process tracing” no
Catálogo de Teses e Dissertações da Capes, encontrou-se um total de 44
teses e 37 dissertações na área de Ciência Política e Relações Internacionais
no período de 2013 a 2022. Conforme o gráfico 1, observa-se que o cresci-
mento de pesquisas de mestrado e de doutorado que utilizam essa estraté-
gia de pesquisa se deu, sobretudo, a partir de 2019, o que indica que o seu
uso ainda é recente no campo da Ciência Política brasileira.
Gráfico 1 - Dissertações de Mestrado e Teses de Doutorado defendidas por ano
na área de Ciência Política e Relações Internacionais com uso de process-tracing
(2013-2022)
Fonte: Catálogo de Teses e Dissertações da [Link]ível em: [Link]
[Link]/catalogo-teses. Acesso em: 05/nov/2023. Obs: O levantamento foi realizado em 05 de novembro de
2023 e foram encontradas 44 dissertações e 37 teses utilizando o descritor “process tracing”.
A expansão recente das pesquisas que utilizam process-tracing
164
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
coincide também com a publicação de diversos textos didáticos sobre a es-
tratégia, incluindo o livro gratuito disponibilizado pela Escola Nacional de
Administração Pública (Enap), escrito por Cunha e Araújo (2018). Como
extrapola os objetivos deste capítulo, não nos deteremos nos subtipos de
process-tracing e nem na sua operacionalização em estudos de caso. Como
afirma Figueiredo et al. (2021), a Ciência Política brasileira tem se preocu-
pado, cada vez mais, com métodos e isso repercute na forma como as pes-
quisas são divulgadas em periódicos acadêmicos, com uso mais recorrente
de métodos quantitativos e qualitativos, incluindo aqueles que dizem respei-
to, especificamente, a realização de estudos de caso, como do process-tracing.
Considerações finais
A discussão proposta no capítulo trouxe diversas reflexões sobre
os estudos de caso. Antes de tudo, tivemos a preocupação de conceituá-lo
e situá-lo dentro do campo das Ciências Sociais e, mais particularmente, da
Ciência Política. Posteriormente, discutimos as diferentes concepções a res-
peito desse tipo de desenho de pesquisa, uma mais positivista e outra mais
interpretativista. Antes de realizar uma leitura dual do estudo de caso, é im-
portante saber que é preciso compreendê-lo dentro do seu contexto, abrin-
do-se às particularidades que o caso pode conter, suas dinâmicas, contin-
gências e agentes. No entanto, isso não é uma licença para realizar estudos
sem objetividade científica e rigor metodológico.
Estudos de casos, pela complexidade e necessidade de aprofunda-
mento, necessitam a definição clara da pergunta de pesquisa, da(s) teoria(s),
da escolha do(s) caso(s), das fontes, dos métodos e técnicas de análise. Isso
permitiria aos estudos de caso melhorar sua capacidade de responder ques-
tões acadêmicas relevantes, influenciando na produção de teorias mais ade-
quadas para a explicação dos fenômenos políticos.
Esperamos, com este capítulo, permitir reflexões e o desenvolvimen-
to de pesquisas com foco em casos, considerando seus limites e possibili-
dades para a produção de novos conhecimentos, teorias e explicações. Para
tanto, é preciso um esforço da comunidade acadêmica de reconhecer, pri-
meiro, que um estudo de caso tem tanta relevância quanto um estudo com
165
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
C-grande, possibilitando maior aceitação dos grandes periódicos a tais ti-
pos de estudos e, consequentemente, difusão do conhecimento das pesqui-
sas que se propõem a utilizar tal tipo de desenho de pesquisa.
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
05
A etnografia como abordagem metodológica nos
estudos em Ciência Política
Michelle Fernandez
Natália Guimarães
Marta Pontes de Campos
169
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
Analisar percepções e experiências em profundidade é um dos objetivos
fundamentais da metodologia qualitativa de pesquisa nas Ciências Sociais
(Weber, 1978). Inserida nesse bojo, está a etnografia. Ela tem capacidade
de detalhar dinâmicas sociopolíticas ao colocar no microscópio as dinâmi-
cas político-sociais, fazendo com que novas dimensões da realidade possam
ser observadas (Longo; Zacka, 2019).
A etnografia é uma abordagem de pesquisa associada a uma prática
do trabalho de campo que supõe a imersão do/a pesquisador/a no contex-
to investigado e, portanto, uma convivência com o grupo social a ele relati-
vo (Rocha; Eckert, 2008). Pode-se dizer ainda que a etnografia tem a função
de descrever um grupo humano – suas instituições, seus comportamentos
interpessoais, suas produções materiais e suas crenças (Agrossino, 2009). É
uma abordagem de investigação científica desenvolvida pela antropologia,
caracterizada por longos períodos de observação e que implica em:
Preocupar-se com uma análise holística ou dialética da cultura; introdu-
zir os atores sociais com uma participação ativa e dinâmica e modificado-
ra das estruturas sociais e preocupar-se em revelar as relações e interações
significativas de modo a desenvolver a reflexividade sobre a ação de pesqui-
sar, tanto pelo pesquisador quanto pelo pesquisado (Mattos, 2011, p. 49).
O fazer etnográfico foi inicialmente disseminado pelos estudos do
antropólogo Bronislaw Malinowski, responsável por várias pesquisas des-
se tipo no início do século XX, entre elas, a etnografia realizada nas Ilhas
Trobriand, cujo relato de campo resultou no livro Argonautas do Pacífico
Ocidental (1922). A importância da obra de Malinowski (1922) não está ape-
nas nas suas descobertas, a descrição de suas técnicas etnográficas serviu de
parâmetro para pesquisas na área, contribuindo para seu desenvolvimento.
A partir dessa contextualização, poderia se esperar que a etnografia
figurasse entre os caminhos de pesquisa preferidos dos cientistas e sociólo-
gos políticos, na medida em que está equipada de maneira única para olhar
minuciosamente para os fundamentos das instituições políticas e seus con-
juntos de práticas, assim como é idealmente adequada para explicar porque
170
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
os atores políticos se comportam como se comportam e para identificar as
causas, processos e resultados relativos à vida política.
No entanto, apesar do uso crescente da etnografia nas ciências so-
ciais, a política e seus principais protagonistas, como burocratas, políticos e
ativistas, permanecem sendo pouco estudados pelo mainstream da etnogra-
fia. Tanto a política rotineira quanto a contenciosa estão longe do topo da
agenda da etnografia contemporânea. Do mesmo modo, a etnografia não
é comumente usada pelos cientistas políticos e sociólogos políticos que fa-
zem dos surveys, dados secundários, modelos formais e abordagens estatís-
ticas suas ferramentas metodológicas padrão (Joseph; Auyero, 2007).
Argumentamos que apesar da dificuldade de articular tradições da
Antropologia e da Ciência Política, pode ser bastante útil aos estudos refe-
rentes às temáticas políticas um diálogo mais profícuo entre estas tradições
de pesquisa social, posto que isso valoriza o rendimento de análises que
pressupõem maior complexidade da vida social, não deixando de lado a di-
mensão da subjetividade, tanto na antropologia quanto na Ciência Política.
É o aprofundamento dessa discussão que pretendemos trazer neste capítulo.
Tradicionalmente, a Antropologia dedicava-se ao estudo das popu-
lações indígenas, se mantendo à margem das macroquestões sociais e polí-
ticas – diferentemente da Sociologia e da Ciência Política. Mas, a partir da
década de 1970, a disciplina passou a ser considerada por alguns segmentos
das ciências humanas, como uma via de acesso privilegiada para o enten-
dimento das mudanças sociais, políticas e culturais que estavam ocorrendo
no período. A partir desta perspectiva, ferramentas de análise antropológi-
ca, notadamente a etnografia, passaram a ser utilizadas para a realização de
estudos políticos (Magnani, 2009).
Um dos exemplos mais notórios disso é Home style: house members in
their districts, de Richard Fenno (1978), no qual o autor faz uma densa des-
crição de seu objeto de estudo e combina elementos do behaviorismo e da
escolha racional para apresentar uma análise de como os deputados eleitos
percebem seus eleitores. Estudos como este contribuem para fazer avançar
na Ciência Política a compreensão de que, além de uma estrutura macro e
abstrata, o Estado também representa uma série de instituições micro com
171
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
as quais os cidadãos interagem de maneira direta e imediata. Nessa esfera
micro, os Estados definiriam certas subjetividades e identidades somente
possíveis de serem captadas por análises mais aprofundadas.
Portanto, o que há de comum entre os estudos que se utilizam da
etnografia para analisar questões políticas é o foco que procuram dar aos
significados produzidos, vivenciados e negociados pelos sujeitos das análi-
ses. Isto é, ao fazer uso dos procedimentos metodológicos de imersão no
cotidiano do contexto analisado, o/a pesquisador/a tem a possibilidade de
compreender fenômenos políticos a partir dos pontos de vista dos que de-
les participam, construindo assim, múltiplos significados para tais fenôme-
nos. Como, por exemplo, o fenômeno das ocupações de escolas públicas
no ano de 2015 que foi abordado com técnicas etnográficas em diversas lo-
calizações, produzindo estudos inéditos sobre estudantes do ensino médio,
estudos 1que não seriam possíveis em outra situação.
A etnografia política, portanto, permite que se estudem os símbolos,
ações, eventos, identidades, instituições e processos políticos em seus con-
textos de relações semânticas. Os/As pesquisadores/as têm as condições
de compreender seu objeto de estudo como parte de um contexto mais am-
plo, considerando os aspectos relacionais e simbólicos que lhe são inerentes.
Diante do apresentado, o presente capítulo tem como objetivo dis-
cutir o papel da abordagem etnográfica na Ciência Política. Para isso, es-
truturamos o texto em cinco partes além desta introdução e da conclusão:
a primeira faz uma leitura do papel da etnografia nos estudos qualitativos;
a segunda trata da prática etnográfica em si, apresentando as ferramentas
importantes para a pesquisa etnográfica; a terceira aborda, com exemplos,
o uso da etnografia na ciência política; a seção seguinte introduz o tema da
netnografia, ou a realização de etnografia on-line; e, por fim, a quinta parte
traz um debate sobre questões éticas da abordagem etnográfica.
1. Metodologia qualitativa e abordagem etnográfica
O surgimento da metodologia qualitativa deve-se à necessidade
de analisar em profundidade as percepções e experiências humanas nas
1. Corsino e Zan (2017) verificaram que a experiência da ocupação contribuiu para a reflexão dos jovens sobre Democracia
dentro das escolas.
172
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
sociedades. Através de métodos que proporcionam mais proximidade com
o objeto de pesquisa, a metodologia qualitativa permite a realização de um
estudo detalhado do ente pesquisado.2
O aparecimento dos qualitativistas, ou seja, dos pesquisadores adep-
tos da pesquisa baseada na metodologia qualitativa, está atribuído a Max
Weber. Esta vertente de pesquisa centra-se no estudo da ação social em
detrimento da estatística, instrumento de análise da pesquisa quantitativa,
como única ferramenta analítica. De acordo com Weber: “podemos ir além
da mera demonstração de relações funcionais e uniformidades. Podemos
alcançar (…) o significado subjetivo da ação dos indivíduos” (1978, p. 15).
Assim, a metodologia qualitativa questiona a objetividade e propõe o enten-
dimento das subjetividades de acordo com as diferentes perspectivas dos
fatos, seus significados e percepções (Mayoux, 2006, p. 118). Esta vertente
metodológica é empregada de maneira adequada nas pesquisas cujo objeti-
vo principal é explorar as experiências subjetivas das pessoas e o significa-
do agregado a estas experiências (Devine, 2002, p. 199). Assim,
Compreender subjetivamente uma ação implica entender os mo-
tivos que levam à pessoa a atuar de maneira determinada prestan-
do atenção ao contexto no qual a ação acontece. Se a ênfase está pos-
ta na ação, as técnicas de pesquisa utilizadas irão variar. Se optará por
técnicas mais interpretativas (como a hermenêutica), pelo contato di-
reto com o objeto de estudo (como a observação participante), pela re-
copilação de grande quantidade de informação sobre o fenômeno estu-
dado para observá-lo desde diferentes ângulos. (Coller, 2005, p. 19-20).
Na pesquisa qualitativa é muito comum a combinação de diferen-
tes métodos de análise. Este trabalho de combinação possibilita um maior
e melhor entendimento do fenômeno analisado. A integração de diversos
métodos é chamada de pluralismo metodológico (Coller, 2005). Sob a pers-
pectiva da pesquisa qualitativa, o método de pesquisa através do estudo de
caso faz com que seja mais fácil a combinação de diferentes métodos.
2. O termo “metodologia” refere-se à perspectiva sobre a natureza da realidade (ontologia) e do conhecimento (epistemologia)
que fundamentam os métodos. Por sua vez, o termo “método” diz respeito à forma como os dados são coletados e analisados
(Fernandez et al., 2023, p. 13).
173
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Assim, “um caso é um objeto de estudo com fronteiras mais ou
menos claras que se analisa no seu contexto e que se considera relevan-
te seja para comprovar, ilustrar ou construir uma teoria ou parte dela, seja
por seu valor intrínseco” (Coller, 2005, p. 29). O principal objetivo do es-
tudo de caso é facilitar o entendimento de fenômenos sociais complexos
permitindo ao pesquisador capturar características significativas dos even-
tos da vida real (Yin, 2003). O acesso ao campo para a construção do es-
tudo de caso é fundamental. Neste tipo de pesquisa qualitativa, a influên-
cia dos princípios etnográficos está fortemente presente (Lombard, 2009).
Para Hammersley e Atkinson:
A etnografia é um método de pesquisa social (…). O etnógra-
fo (…) participa, abertamente ou de maneira encoberta da vida coti-
diana de pessoas durante um tempo relativamente extenso, vendo o
que ocorre, escutando o que é dito, perguntando coisas; ou seja, re-
colhendo todos os tipos de dados acessíveis para poder esclarecer so-
bre temas que ele escolheu estudar (Hammersley; Atkinson, 1994, p. 15).
De modo que, pelas características apresentadas, a etnografia tem a
capacidade de desvendar o lugar como uma construção espacial, social, cultu-
ral e política, temas chaves que demandam pesquisa (Lombard, 2009, p. 151).
Kuschnir (2005) argumenta que o/a investigador/a leva para o cam-
po um conjunto de dados acumulados ao longo de sua trajetória e somen-
te com sensibilidade e experiência é possível aprofundar sua capacidade de
compreensão do seu objeto de estudo, percebendo que naturalizou certos
significados das práticas sociais e políticas e ignorou outros. Dirá ainda que
essas mudanças também ocorrem no sentido contrário: as pessoas que com-
põem o universo analisado também transformam seu modo de lidar com
o/a pesquisador/a e com o seu trabalho. Dessa forma, em lugar de per-
seguir uma neutralidade impossível, o/a pesquisador/a deve refletir sobre
as posições e identidades a ele conferidas ao longo do trabalho de campo.
Sendo este um dos elementos centrais para revelar a natureza da relação
entre os envolvidos, na medida em que durante o trabalho de campo, pes-
quisador/a e pesquisados passam por um processo de socialização intenso,
174
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
que vai redefinindo as identidades de um em relação ao outro.
Ao longo desse processo interativo, o/a pesquisador/a deve inter-
pretar os significados dos momentos, acontecimentos e arranjos sociais com
os quais se deparou e descrevê-los nos seus próprios termos, num exercí-
cio de apreender essa lógica e incorporá-la de acordo com os padrões de
seu próprio aparato intelectual e até mesmo de seu sistema de valores e per-
cepções (Magnani, 2009). Isso envolve registros, classificações, correlações
e comparações que serão retomados pelos/as etnógrafos/as em forma de
escrita, através do uso de conceitos teóricos e metodológicos do seu cam-
po disciplinar e não dos sujeitos analisados. A sistematização desses pro-
cessos gera lógicas inteligíveis que, por sua vez, produzem conhecimento
sobre a situação pesquisada e sobre as dinâmicas sociais a ela relativas e as-
sim se redefinem os contornos das teorias antropológicas e sociais (Rocha;
Eckert, 2008). Dito de outro modo:
A etnografia é uma forma de operar em que o pesquisador entra em conta-
to com o universo dos pesquisados e compartilha seu horizonte, não para
permanecer lá ou mesmo para atestar a lógica de sua visão de mundo, mas
para, seguindo-os até onde seja possível, numa verdadeira relação de troca,
comparar suas próprias teorias com as deles e assim tentar sair com um mo-
delo novo de entendimento ou, ao menos, com uma pista nova, não previs-
ta anteriormente. Esse é um insight, uma forma de aproximação própria da
abordagem etnográfica que produz um conhecimento diferente do obtido
por intermédio da aplicação de outros métodos (Magnani, 2009, p. 135).
Notoriamente a etnografia está preocupada com a peculiaridade,
a especificidade do contexto analisado, buscando submeter conceitos pré-
-estabelecidos a contextos diferentes, examinando, então, a adequação de
tais conceitos. Seu objetivo mais geral é procurar visões alternativas da uni-
versalidade dos conceitos sociológicos e políticos, buscando encontrar, na
pesquisa in loco, “resíduos” não explicados pelas teorias postas. Assim, o
progresso da técnica pode ser útil para transformação e ressignificação de
conceitos (Peirano, 1995).
Com relação a essa discussão, Peirano (1995) dirá que a etnografia
175
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
abriga estilos muito diferentes a depender do contexto da pesquisa, mo-
mento sócio-histórico em que está inserida, orientação teórica, personali-
dade do/a pesquisador/a e ethos do pesquisado. E se esse pode ser o ele-
mento distintivo que justifique seu uso, oferece também o perigo de, não
respeitado o equilíbrio sutil entre teoria e prática, resvalar numa situação na
qual existam tantas etnografias, quanto sejam seus/suas pesquisadores/as.
O que Peirano (1995), no entanto, argumenta é que o fazer etnográ-
fico deve ter como horizonte não descrever o curioso, o exótico ou diferen-
te, mas sim, utilizar as observações do particular para gerar conhecimento
passíveis de serem universalizados. A busca por análises das especificidades
dos casos concretos e a conexão desses achados com o caráter universalista
de sua manifestação permite um refinamento dos objetos de estudo e dos
conceitos que a etnografia busca discutir. Dessa maneira, não se incorre-
ria nos estereótipos a respeito de seu empirismo esvaziado de rigor cientí-
fico. Ainda nesse sentido Pires, Lotta e Torres Junior (2018) postulam que
a descrição fina das práticas individuais nas situações de interação deve ser
colocada em perspectiva mais ampla, pensada de modo conectado com as
relações sociais e políticas na qual está inserida.
Assim como qualquer opção metodológica, são necessários rigor e
parcimônia ao se adotar um desenho de pesquisa etnográfico. A realização
de uma etnografia implica uma série de técnicas e cuidados relativos à for-
ma de aproximação e de entrada no campo; às relações entre pesquisadores
e pesquisados; ao formato de construção da narrativa; às possíveis consta-
tações feitas; e ao engajamento no debate teórico.
2. A prática etnográfica
Marcada pelo estudo de campo junto a grupos sociais em seu am-
biente de vida real, por um tempo suficiente para que se revelem rotinas
guiadas por rituais ou normas (ocultas ou não) de interações sociais, a et-
nografia é realizada a partir da observação direta de falas, atitudes, conver-
sas formais ou informais, manuseio de objetos, comportamentos e conse-
quente registro dessas observações em cadernos de campo, assim como em
imagem e/ou áudio (fotografias, vídeos e registros sonoros).
176
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
A pesquisa de campo é sua principal característica, ou seja, o/a ob-
servador/a conduz a pesquisa no local onde o fenômeno acontece sem ne-
nhum controle sobre comportamentos ou acontecimentos. A observação
(participante ou não) em campo, ferramenta fundamental da técnica etno-
gráfica, amplia a chance de se revelarem variações, paradoxos ou ambigui-
dades nos comportamentos e permite também compreender conceitos abs-
tratos que dão significado às ações dos atores do grupo.
A fim de complementar os dados coletados durante a observação,
o pesquisador pode utilizar técnicas de entrevista para aprofundar ques-
tões que se tornam relevantes ao longo da pesquisa de campo e coletar ar-
quivos como atas de reunião, registros de eventos ou diários pessoais. No
aspecto temporal, a duração do trabalho de campo dependerá do fenôme-
no que se observa, podendo levar até um ano ou mais para que a coleta de
dados seja suficiente.
2.1 Preparação
O/A pesquisador/a que vai a campo coletar dados utilizando téc-
nicas etnográficas tem como seu principal instrumento de trabalho ele/a
próprio/a, portanto, antes de iniciar o campo, a preparação deve ser foca-
da nele/a. Para se inserir no universo que pretende analisar são necessárias
“saídas exploratórias” para o campo que devem ser guiadas pelo olhar aten-
to ao contexto no qual se imerge.
O processo de entrada em campo depende do consentimento dos
indivíduos, agrupamentos e/ou instituições a serem investigados. Somente a
partir dele a pesquisadora pode estar presente com regularidade, participando
das rotinas do grupo social estudado (Rocha; Eckert, 2008). Paulatinamente
se estabelecerá o vínculo entre observador/a e as pessoas do grupo obser-
vado. É necessário identificar pessoas-chave dentro do grupo a ser analisa-
do para que atuem como guia e facilitem a construção do referido vínculo.
Conquistada a confiança, é hora de explicar o que se está fazendo ali: ex-
por o objetivo da pesquisa, como ela será realizada (como se dará a obser-
vação) e apresentar as pessoas envolvidas no processo.
2.1.1 Seleção do campo de pesquisa e participantes
177
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Na etnografia, antes de se selecionar participantes, seleciona-se os
espaços onde esteja ocorrendo, ou que seja mais provável de ocorrer, o fe-
nômeno social que se pretende observar. A escolha do campo deve consi-
derar a melhor visibilidade possível daquilo que se está investigando, a pos-
sibilidade de comparação com outros estudos, acessibilidade física com o
mínimo de obstáculos (segurança, locomoção e alimentação), o conforto
da comunidade com a presença do observador e a facilidade de estabelecer
vínculos. É importante explorar várias possibilidades de campo de pesqui-
sa para encontrar aquele em que os fenômenos e as categorias conceituais
que se pretendem explorar possam realmente ser observadas.
2.1.2 Roteiro e tópico guia
Antes da confecção do roteiro que norteia a observação, é necessá-
rio que o desenho de pesquisa esteja bem delineado. Definir claramente o
problema que está sendo pesquisado e os conceitos teóricos para aborda-
gem à questão de pesquisa vão melhor direcionar a observação.
O roteiro é construído com base em categorias conceituais orien-
tadas pelas bases teóricas e com foco nos objetivos da pesquisa. O mesmo
roteiro deve ser reavaliado ao longo da pesquisa de campo a fim de obter o
melhor aproveitamento das observações. Correção e validação são realiza-
das constantemente nesse processo. Uma das caraterísticas da etnografia é
manter-se aberta para a coleta de dados não estruturados, isto é, dados que
possam parecer relevantes ao pesquisador apesar de não pertencerem ao
conjunto de categorias conceituais formulado previamente. O olhar bem
treinado e preparado para pesquisa de campo evitará dados supérfluos para
o estudo e ampliará o potencial de descobertas, reafirmando a vocação da
etnografia de revelar aspectos encobertos por camadas mais visíveis.
Para orientar um roteiro mínimo de observação apresenta-se a se-
guir nove dimensões pelas quais as situações sociais podem ser descritas
(Flick, 2009, p. 209):
1) Espaço: o local, ou locais físicos
2) Ator: as pessoas envolvidas
3) Ato: ações individuais realizadas pelas pessoas (ator)
178
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
4) Atividade: conjunto de atos
5) Evento: conjunto de atividades executadas pelo grupo de pessoas
6) Tempo: sequência das ações ao longo do tempo
7) Objeto: as coisas físicas utilizadas durante as ações
8) Objetivo: direcionamento da ação, o que se pretende alcançar
9) Sentimento: emoções sentidas e manifestadas
2.2 Realização do trabalho de campo
A curiosidade inicial da entrada em campo deve ser substituída por
indagações relativas à construção da realidade investigada. Esse processo
é permeado por aspectos comparativos que nascem da inserção do/a pes-
quisador/a no compromisso de refletir sobre a vida social e da sua dispo-
sição para experimentar a intersubjetividade, sabendo que ele/a próprio/a
passa a ser objeto de observação. A interação, portanto, é condição da pes-
quisa etnográfica.
Investigadoras/es levam para o campo um conjunto de conhecimen-
to acumulado ao longo de sua trajetória e somente com sensibilidade e ex-
periência é possível aprofundar sua capacidade de compreensão do seu ob-
jeto de estudo, percebendo que naturalizam certos significados das práticas
sociais e políticas e ignoram outros. Essas mudanças também ocorrem no
sentido contrário: as pessoas que compõem o universo analisado também
transformam seu modo de lidar com as/os pesquisadoras/es e com o seu
trabalho (Kuschnir, 2005).
A inserção no contexto social aproxima cada vez mais o/a pesqui-
sador/a dos grupos sociais que constituem seu universo de pesquisa, o que
a permite tecer uma comunicação densa orientada pelos objetivos da in-
vestigação. Na medida que essa presença se prolonga, a comunicação vai
se aprofundando e se tornando mais complexa levando ao reconhecimen-
to e compreensão dos sotaques, das gírias, dos significados dos gestos, das
performances e das etiquetas próprias ao grupo que revelam suas orienta-
ções simbólicas e traduzem seus sistemas de valores (Rocha; Eckert, 2008).
Na fase de coleta de dados, o/a etnógrafo/a tenta conhecer o objeto
de estudo da melhor forma possível, principalmente passando um período
179
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
significativo de tempo exposto a este objeto. Nesta fase o/a pesquisador/a
tem a oportunidade de conhecer em profundidade o objeto de pesquisa. A
exposição continuada possibilita uma relação “íntima” entre pesquisador/a
e objeto, fazendo com que características subterrâneas possam ser observa-
das e contribuam para a análise.
Para tornar cognoscível a experiência de campo, é necessário regis-
trar os achados através de notas, diários ou relatos das experiências obser-
vadas ou escutadas no cotidiano da investigação. O principal domínio des-
se instrumento é constituir-se como espaço em que se registra a maioria
dos materiais etnográficos, sendo a base documental central de muitas et-
nografias. Isso faz do diário de campo uma base sólida de registro do dia a
dia de um universo populacional, independente da sua dimensão. Essa se-
ria a sua força enquanto material empírico; nele é possível encontrar, obje-
tivamente, o modo como são construídas as intersubjetividades nos terre-
nos etnográficos (Cachado, 2021).
Para além disso, o diário de campo é um importante espaço para
o/a pesquisador/a refletir sobre os dilemas éticos com os quais se depara,
os cansaços e entusiasmos no campo. Enquanto espaço de reflexão, contém
ainda a possibilidade de registrar avanços e recuos, o acesso a cada vez mais
camadas de percepção sobre a realidade social em estudo. Do ponto de vis-
ta epistemológico, a análise do diário de campo pode ainda levar a melho-
rar perguntas de pesquisa, a tecer conclusões e a gerar melhores hipóteses.
2.3 A análise dos dados coletados
A análise dos dados coletados (diário de campo, arquivos, conteú-
do de entrevistas) por uma etnografia política não foca nos indivíduos, ela
busca respostas para os comportamentos do grupo de pessoas que foi ob-
servado. Os dados são trabalhados utilizando técnicas de análise qualitativa
de forma a obter interpretação objetivas. Dito de outro modo, a etnogra-
fia contém dados primários, passíveis de serem sistematizados a partir de
uma indexação do diário de campo. A indexação de um diário permite ve-
rificar as situações recorrentes, as situações singulares e as situações ines-
peradas, mas significativas. Isso leva à identificação de mais situações para
180
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
determinadas categorias e menos para outras; e é essa descoberta, de for-
ma surpreendente ou não, que contém notas conclusivas e/ou novas hipó-
teses de trabalho (Cachado, 2021).
Peirano (2008) dirá que há três pontos essenciais para uma boa etno-
grafia: 1) a habilidade de considerar a comunicação no “contexto da situa-
ção”; 2) a difícil transformação do que foi vivido no campo para a lingua-
gem referencial escrita; 3) e a possibilidade de identificar e analisar a eficácia
social das ações das pessoas. O trabalho de campo se caracteriza pelo diálo-
go vivo e é seguido pela escrita etnográfica que tem como objetivo comu-
nicar ao leitor (e convencê-lo) de sua experiência e sua interpretação. Esse
processo exige ultrapassar a compreensão do senso comum sobre os usos
e o papel da linguagem, pois é através dela que etnografia e teoria se com-
binam. É necessário, portanto, levar em consideração: os papéis de quem
fala, de quem ouve, da audiência etc.; os atributos sociais das pessoas envol-
vidas; o tempo, o lugar e a ocasião da comunicação; o objetivo da fala, en-
tre outros fatores. O comportamento social em geral comunica fatos etno-
gráficos no contexto dos eventos partilhados. A autora reflete:
Qual o desafio do etnógrafo, então? Realizada a pesquisa, ele não pode ape-
nas repetir o que ouviu – até citações precisam de contextualização. Ele pre-
cisa interpretar, traduzir, elaborar o diálogo que esteve presente na pesqui-
sa de campo. O antropólogo precisa transformar a indexicalidade que está
presente na comunicação em texto referencial. É preciso colocar em pa-
lavras sequenciais, em frases consecutivas, parágrafos, capítulos, o que foi
ação. Aqui, talvez esteja um dos maiores desafios da etnografia e, certamen-
te, não há receitas preestabelecidas de como fazê-lo (Peirano, 2008, p. 9).
Neste sentido, um dos principais métodos a serem aplicados é a aná-
lise de conteúdo que sistematiza a interpretação de dados de tal forma que
seja possível interpretar os dados com o objetivo se responder à pergun-
ta de pesquisa que norteou a coleta de dados. A análise de conteúdo3 pode
ser definida como um conjunto de técnicas de análise das comunicações e
funciona segundo procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do
3. Para entender melhor sobre Análise de Conteúdo, recomendamos a leitura do capítulo sobre Análise de Conteúdo neste Manual.
181
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
conteúdo das mensagens, atuando como uma ferramenta para desvelar a
informação contida nas mesmas. Em outras palavras, a técnica busca apu-
rar descrições de conteúdo muito aproximativas e subjetivas, para pôr em
evidência, com algum grau de objetividade, a natureza e as forças relativas
dos estímulos a que o sujeito é submetido (Bardin, 1977).
No conjunto das técnicas da análise de conteúdo, a análise por ca-
tegorias ou análise categorial é a mais tradicional. Funciona por operações
de desmembramento do conteúdo em unidades categóricas segundo rea-
grupamentos analógicos. As regras para a realização da análise devem se-
guir os processos de fragmentação e classificação do conteúdo. Assim, as
categorias são classes que reúnem um grupo de elementos sob um título ge-
nérico; esses agrupamentos são feitos de acordo com as características co-
muns destes elementos.
Essa classificação passa pelas etapas de: 1) leitura do material cole-
tado; 2) codificação para formulação de categorias (indexação) com base no
referencial teórico, nas indicações trazidas pela leitura geral e nos elemen-
tos relevantes trazidos pelos próprios interlocutores da pesquisa; 3) estabe-
lecimento de categorias que se diferenciam, tematicamente, nas unidades
de registro (passagem de dados brutos para dados organizados); 4) agrupa-
mento das unidades de registro em categorias comuns; 5) e inferência e in-
terpretação, respaldadas no referencial teórico (Silva; Fossá, 2015).
Os diários de pesquisa, onde o/a etnógrafo/a anota suas observa-
ções podem também resultar em relatórios com histórias contadas de for-
ma isenta e realista, acompanhadas de análises fundamentadas em teorias
ou contadas em formato literário.
É importante salientar que a etnografia política não permite gene-
ralizações sem maiores controvérsias, já que seus significados são construí-
dos enraizados em contextos particulares (Cuevas; Paredes, 2012). Contudo,
ela pode trazer importantes elementos para iluminar problemáticas cujos
métodos tradicionais e a própria teoria não deram conta. Além disso, usar
a etnografia para pensar políticas públicas pode levar à reflexão continuada
sobre técnicas, conceitos e paradigmas de análise e interpretação no âmbi-
to das ciências sociais.
182
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
3. O uso da etnografia na Ciência Política
Algumas mudanças vêm sendo experimentadas na busca de apro-
ximar as tradições epistemológicas, teóricas e metodológicas das Ciências
Sociais e trabalhos importantes da Ciência Política têm utilizado a etnogra-
fia como ferramenta de análise de fenômenos políticos. Até a década de
1970, a Antropologia focava-se em populações indígenas e comunidades
específicas, sendo vista como distante das grandes questões sociais e polí-
ticas (Magnani, 2008). A partir desse período, passou a etnografia ser con-
siderada uma ferramenta importante para entender mudanças sociais, polí-
ticas e culturais.
Nos estudos políticos, o comportamento dos eleitores é uma das
áreas em que a etnografia tem sido utilizada. Um exemplo disso é o traba-
lho de Fenno (1978), que acompanhou a rotina de congressistas america-
nos e relacionou o cotidiano desses congressistas com a opinião de eleito-
res sobre eles. Outro exemplo nessa área são os trabalhos de Auyero (2001;
2005), O autor tem utilizado a etnografia para analisar as práticas clientelis-
tas e seus sentidos na Argentina, assim como para entender a disputa pelos
recursos simbólicos e materiais em contextos de crise. Mais recentemente
Cesarino (2019) aborda o fenômeno do bolsonarismo, com técnicas de et-
nografia digital (ou netnografia), que será discutida em maior profundidade
adiante, e observa a construção identitária de grupos de apoio a Bolsonaro
no Whatsapp. Kalil (2018) observa manifestações de grupos bolsonaris-
tas na rua e nas redes sociais e faz entrevistas que indicam diferentes per-
fis de apoio.
A etnografia política também tem sido aplicada nos estudos de po-
líticas públicas, principalmente na fase de implementação, quando a pon-
ta extrema da burocracia, conhecida como burocracia de nível de rua, en-
tra em contato com os atores diretamente atingidos ou beneficiados pela
política pública. Dentre os exemplos está Lotta (2010), que em sua tese de
doutorado usa a etnografia para analisar o impacto da atuação dos buro-
cratas de nível de rua no Programa Saúde da Família. Auyero (2011) também
pode ser mencionado, ao analisar em Pacientes do Estado, a implementação
183
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de políticas através de um estudo etnográfico com usuários de serviços pú-
blicos. Gussi, Thé e Pereira (2014), por sua vez, utilizam-se da etnografia
para avaliar programas de microcrédito do Banco do Nordeste no Ceará, visan-
do apreender as representações, visões de mundo e perspectivas dos ato-
res envolvidos no programa; argumentam que é necessária uma descrição
densa para interpretar os diferentes significados do conceito de “desenvol-
vimento” nos dois programas analisados.
Mais recentemente, Teixeira, Lobo e Abreu (2019) organizaram a
coletânea Etnografias das instituições, práticas de poder e dinâmicas estatais, na qual
pesquisadores/as fazem uso da etnografia para analisar as instituições do
Estado, do mercado e as burocracias. A coletânea trata da possibilidade de
agenciamento da vida, dos corpos e das populações por meio de agentes,
agências difusas e documentos estatais; da produção cotidiana e extraordi-
nária das instâncias administrativas e do imaginário social sobre o Estado;
e das relações entre as agências estatais, empreendedores de grandes proje-
tos e as comunidades atingidas por grandes obras.
Em Implementando desigualdades: reprodução de desigualdades na implemen-
tação de políticas públicas (Pires, 2019), alguns autores utilizam a etnografia
em suas análises: Geng (2019) analisa a implementação da política Gestão
Integrada de Recursos Hídricos (GIRH), no Peru, à luz do histórico das relações
entre as comunidades, o Estado e a mina; Milanezi e Silva (2019) investi-
gam como a prática do silêncio perante a focalização da saúde pública na
população negra, observada em Unidades Básicas de Saúde (UBS), no Rio
de Janeiro, se constrói cotidianamente na burocracia da referida política; e
Penna (2019) se debruça sobre a burocracia da instituição responsável pela
reforma agrária no Brasil, o Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (INCRA), entendendo-a como elemento chave para a compreen-
são da implementação de tais políticas.
Guimarães (2023) em sua tese de doutorado investiga a reprodu-
ção de desigualdades de raça, classe e gênero no cotidiano da implementa-
ção das políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres a partir
do estudo de caso da 1ª Delegacia de Atendimento Especializado à Mulher
(DEAM) de Pernambuco.
184
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Tais análises colocam em evidência a necessidade de pensar cada vez
mais sobre as práticas relacionais que vinculam as formas cotidianas de ope-
ração do Estado com a vida dos cidadãos. São essas práticas que dão for-
ma concreta ao que de outra maneira seria uma abstração (Auyero, 2012).
Encontros diários com as burocracias estatais são um ingrediente central
na construção rotineira do Estado e no ordenamento, formação e trans-
formação das relações entre os diferentes atores. O Estado é, por um lado,
uma estrutura macro, algo abstrato, e por outro lado, uma série de institui-
ções micro com as quais as pessoas interagem de maneira direta e imedia-
ta. Nessa esfera micro, o Estado definiria certas subjetividades e identida-
des somente possíveis de serem captadas por análises mais aprofundadas.
Portanto, o que há de comum entre esses estudos é o foco que pro-
curam dar aos significados produzidos, vivenciados e negociados pelos su-
jeitos das análises. Isto é, ao fazer uso dos procedimentos metodológicos
de imersão no cotidiano do contexto analisado, o/a pesquisador/a tem a
possibilidade de compreender fenômenos políticos a partir dos pontos de
vista dos que deles participam, construindo assim múltiplos significados
para tais fenômenos. Assim, a etnografia política permite que se estudem
os símbolos, ações, eventos, identidades, instituições e processos políticos
em seus contextos de relações semânticas. Os/as pesquisadores/as têm as
condições de compreender seu objeto de estudo como parte de um contex-
to mais amplo, considerando os aspectos relacionais e simbólicos que lhe
são inerentes (Cuevas; Paredes, 2012).
Com o potencial de revelar dinâmicas de funcionamento do poder
e da política inacessíveis por meio de outros métodos, a pesquisa etnográfi-
ca tem ajudado a explorar importantes questões, ao exigir o reconhecimen-
to de que as respostas dos atores a situações sociais objetivas não ocorrem
em um estágio único, sem a intervenção de componentes subjetivos. Ao
contrário do que supõe a teoria da escolha racional, comumente utilizada
para analisar o Estado, as respostas se dão através de orientações mediadas
por considerações subjetivas que os atores fazem das situações (Kuschnir;
Carneiro, 1999).
Nesse sentido, a etnografia pode ser especialmente útil quando se
185
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
procura investigar temas sensíveis, como expressões do racismo, do patriar-
cado e das desigualdades de classe (e a intersecção entre eles) nas práticas e
ações estatais, pois mesmo outras técnicas qualitativas, como as entrevistas,
são limitadas com relação a apreensão desses fenômenos, uma vez que são
temas sobre os quais dificilmente as pessoas falarão abertamente, mas que
uma presença constante da/o pesquisador/a no campo pode ajudar a revelar
quando em diálogo com o contexto social mais amplo (Guimarães, 2023).
Um aspecto interessante no caso do trabalho etnográfico na área
política é que o/a pesquisador/a está permanentemente envolvido/a com
relações de poder entre os participantes da rede social. Por isso, é preciso
estar atento à possibilidade de manipulação das informações – não para re-
jeitá-la, mas principalmente para utilizá-las como material etnográfico, que
ajuda a entender os significados e motivações do universo estudado. Na aná-
lise política, entender estas relações “obscuras” é fundamental para ter uma
noção nítida dos processos estudados.
4. Netnografia: possibilidades e desafios para realização da etnogra-
fia online
A adaptação de procedimentos etnográficos para a observação de
grupos no meio digital já acontece há algum tempo. A necessidade de se
abordar o mundo on-line em pesquisas de diversas áreas, levou ao desen-
volvimento de técnicas da pesquisa ambientadas na Internet, entre elas a
etnografia digital ou netnografia. Segundo Kozinets (2014), a netnografia
é uma forma especializada de etnografia adaptada a contingências específi-
cas dos mundos sociais mediados por computadores.
As etapas para a realização da netnografia não diferem daquelas da
etnografia clássica: definição de objetivos; preparação (planejamento); entra-
da no campo (grupo on-line); coleta de dados; análise dos dados; e relatório
com os resultados. No ambiente digital também é possível lançar mão de
ferramentas (softwares) para capturar dados automaticamente do grupo que
está sendo observado (imagens, arquivos de som, discussões etc.), ficando
com o observador a tarefa de anotar aquilo que não é aparente.
Entretanto, Hine (2015) alerta que a subjetividade das ações e reações
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
e as interações não aparentes não são possíveis de capturar. Por exemplo,
quando nos deparamos com uma briga na rede social X (antigo Twitter)
não temos certeza se alguns seguidores estão vendo a briga e compreen-
dendo-a da mesma forma que outras pessoas.
A netnografia vem ganhando relevância em estudos de várias áreas.
Nesse sentido, vem ganhando um debate próprio, que transcende os limites
da etnografia, ainda que esteja relacionada com essa. Por esse motivo, tere-
mos nesta publicação um capítulo dedicado especificamente a este debate.
5. Questões éticas da abordagem etnográfica
À medida que a pesquisa etnográfica foi se desenvolvendo, impor-
tantes debates de ordem ético-moral surgiram. Esses debates são relativos
a questões como:a dissimulação de pesquisadores em relação à sua profis-
são, seus objetivos, suas intenções com a pesquisa etc.; à relação entre pes-
quisadores e objeto/sujeito de pesquisa; ao etnocentrismo e ao colonialis-
mo adotados pelos investigadores na análise dos achados e na produção de
conhecimento; à tensão entre conhecer e intervir na realidade; entre outras
(Guimarães, 2023).
Desde suas origens, a prática da etnografia levou ao enfrentamen-
to de situações extremamente complexas. No entanto, quando a etnografia
passou a ser utilizada para investigar fenômenos das sociedades nas quais
os próprios pesquisadores estão inseridos, houve um aprofundamento das
questões ético-morais no delineamento da relação entre pesquisadores e as
pessoas e/ou grupos sociais investigados (Rocha; Eckert, 2008).
Um dos debates engendrados pela prática da etnografia no mundo
pós-colonial diz respeito ao papel dos pesquisadores e das ciências sociais
no âmbito dos direitos humanos e dos direitos sexuais no mundo contem-
porâneo. Para Rocha e Eckert (2008), se antes o ato de participar que inte-
gra a etnografia não trazia consigo o engajamento da pessoa pesquisadora
nas mudanças das formas de ser da cultura nativa, hoje, aqueles que ado-
tam o método etnográfico não podem ignorar que o próprio trabalho de
campo provoca nele intervenções, a ponto de ser um fator de transforma-
ção da cultura do nativo.
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Assim, em lugar de perseguir uma neutralidade impossível, a pes-
soa pesquisadora deve refletir sobre as posições e identidades a ela conferi-
das ao longo do trabalho de campo. Sendo este um dos elementos centrais
para revelar a natureza da relação entre os envolvidos, na medida em que,
durante o trabalho de campo, a pessoa pesquisadora e as pessoas pesquisa-
das passam por um processo de socialização intenso, que vai redefinindo as
identidades de uma em relação às outras (Kuschnir, 2005).
Nesse sentido, o diário de campo pode ser um importante aliado na
medida em que pode ser usado como espaço para o/a pesquisador/a re-
fletir sobre os dilemas éticos com os quais se depara sendo, portanto, uma
ferramenta para avaliação de sua própria conduta em campo, seus deslizes
e acertos junto às pessoas e/ou grupos pesquisados, numa constante vigi-
lância epistemológica e, porque não dizer, ética. Essas reflexões devem fa-
zer ser explicitadas no momento da análise dos dados devido ao potencial
que têm de engendrarem importantes questões teóricas, metodológicas e
epistemológicas.
Um último comentário diz respeito ao anonimato das pessoas do
grupo que deve ser negociado em particular e respeitado ao longo do pro-
cesso, inclusive de divulgação. Transportando para o ambiente digital, a
questão ética que se coloca refere-se principalmente a revelar o objetivo de
participação do grupo e então obter a permissão para realizar a observa-
ção e a pesquisa.
Considerações finais
Diante do discutido, pode-se dizer que a pesquisa etnográfica con-
siste no estudo do Outro, tendo como objetivo conhecer em profundidade
esse Outro e suas atividades. Esse processo deve ser sempre orientado por
questões conceituais aprendidas no estudo das teorias sociais, de modo que
é necessário superar as “armadilhas” das generalizações de primeira vista ba-
seadas no senso comum e recorrer às ideias científicas para ordenar as des-
cobertas em uma lógica capaz de produzir conhecimento intelectual sobre
o observado, sobre a situação pesquisada, sobre as dinâmicas sociais inves-
tigadas (Rocha; Eckert, 2008).
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Esta descoberta sobre o Outro é uma relação dialética que requer
uma sistemática reciprocidade cognitiva entre pesquisadores/as e os sujei-
tos pesquisados. Assim, é preciso sensibilidade para penetrar nas espessas
camadas dos motivos e intenções que moldam as interações humanas, indo
além da noção ingênua de que a realidade é compreensível em uma atitude
individual. Isto implica estar atenta/o às “regularidades e variações de prá-
ticas e atitudes, reconhecer as diversidades e singularidades dos fenômenos
sociais para além das suas formas institucionais e definições oficializadas
por discursos legitimados por estruturas de poder” (Rocha; Eckert, 2008,
p. 4). A descrição fina das práticas individuais nas situações de interação
deve ser colocada em perspectiva mais ampla, pensada de modo conectado
com as relações sociais e políticas na qual está inserida (Lotta et al., 2018).
Não é raro que a análise dos dados possa resultar em algumas in-
formações inesperadas ou achados inéditos. Neste caso, é importante que
haja avaliação dentro do seu contexto e confronto com outras informações
para que haja segurança de sua validade. Isso porque a etnografia se debru-
ça sobre o peculiar e o específico a fim de submeter conceitos preestabele-
cidos a contextos diferentes, examinando sua adequação. Seu objetivo mais
geral, portanto, é buscar visões alternativas da universalidade dos conceitos
sociológicos e políticos; é encontrar “resíduos” não explicados pelas teo-
rias postas. Assim, o fazer etnográfico deve ter como horizonte não descre-
ver o curioso, o exótico, mas utilizar as observações do particular para gerar
conhecimentos passíveis de serem universalizados. Isso permite um refina-
mento dos objetos de estudo e dos conceitos que a etnografia busca discutir.
Diante das questões apresentadas, uma das formas mais populares
para se buscar confirmações em pesquisas qualitativas é a técnica de trian-
gulação, ou seja, a combinação de diversos métodos na investigação de um
determinado fenômeno tendo por finalidade dirimir as fragilidades encontra-
das em projetos que empregam um único método. Para os autores, a trian-
gulação reduziria o risco de viés nas conclusões obtidas e minimizaria as li-
mitações próprias de um único método, levando assim a conclusões mais
críveis. Sugerem, portanto, que a combinação de métodos e materiais em-
píricos diversos, bem como a participação de vários investigadores num só
189
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
estudo acrescentam rigor, amplitude, complexidade, riqueza e profundida-
de às investigações. Assim, a etnografia configura uma ferramenta útil para
ser utilizada neste tipo de estratégia metodológica, a fim de dar robustez às
pesquisas realizadas.
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
06
Etnografia online em Ciência Política
Victor Piaia
Sabrina Almeida
Eurico Matos
196
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
Falar sobre etnografias é, de partida, entrar em um terreno espinhoso e de
disputas acirradas. Este texto, no entanto, triplica o desafio, mergulhando
não somente no aspecto digital dessa metodologia, mas também pensan-
do a partir do campo da Ciência Política. Nesse processo, parece inevitável
que algumas fronteiras e delimitações sejam flexibilizadas e adaptadas, seja
pelos desafios que a tripla condição nos impõe, seja pelo próprio uso que
cientistas políticos ou etnógrafos da política fazem da metodologia.
A necessidade de se avançar na reflexão sobre o uso de etnografias
digitais no campo da Ciência Política pode ser sintetizada no desenrolar de
dois fenômenos principais. O primeiro é o processo de midiatização, que
entrelaça a sociabilidade online e offline e torna ambientes digitais em es-
paços inescapáveis para a pesquisa etnográfica – em função da sua impor-
tância para a construção de sentidos e significados para indivíduos e gru-
pos sociais. Conforme aponta a cientista social Claudia Ferraz:
Atualmente, a etnografia das mídias digitais movimenta-se sob novas direções
atualizadas, viabilizando o estudo da mídia digital. (...) Portanto, se introduzi-
ram novas plataformas e dispositivos que levaram a um alargamento da neces-
sidade de compreensão da cultura dos algoritmos como novas fontes de dados,
relações comunicacionais tecnológicas e interação social (Ferraz, 2019, p. 66).
Já o segundo ponto está relacionado às transformações que o pro-
cesso de midiatização engendra na forma como o poder é distribuído, legi-
timado e disputado nas sociedades contemporâneas (Mazzoleni, 2008, por
exemplo). Essas mudanças estão na raiz das principais questões de pesqui-
sa da Ciência Política contemporânea, expressando-se não somente na eco-
nomia política ou na disputa entre elites, mas também nas formas de expe-
rimentação e percepção política de cidadãos comuns.
A proposta deste texto não é delimitar fronteiras, competir com a
Antropologia ou entrar nas polêmicas de definição, fronteiras e nomen-
claturas.1 Nosso objetivo é prioritariamente pragmático: o que precisamos
1. Ao longo do texto, o leitor vai notar a utilização de diferentes nomenclaturas para o método. Isso se deve às disputas do próprio
campo, que se mobiliza em torno de termos como etnografia online, etnografia virtual, etnografia digital, netnografia, entre outros.
Em geral, o uso do virtual é criticado por pressupor algo que não é exatamente real – problema que não se encontra nos termos
online e digital. Já a netnografia tende a ser mais utilizada em estudos de marketing e administração. Por economia de espaço e
197
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
levar em consideração para realizar exercícios etnográficos online para ob-
jetos da Ciência Política? Como tornar esse exercício frutífero e rigoroso?
1. O que é e para que serve
A etnografia digital está sendo cada vez mais incorporada às pesqui-
sas que visam analisar fenômenos e objetos da Ciência Política que se mani-
festam em ambientes digitais. Há ao menos três perspectivas complementa-
res que podem ser identificadas na aplicação de técnicas de etnografia digital.
Em primeiro lugar, o domínio digital pode ser visto como um campo
para o desenvolvimento de estudos de caráter etnográfico. Trata-se da com-
preensão do chamado “ciberespaço” como lócus de pesquisa ou como um
contexto em que ações humanas se entrelaçavam às especificidades da na-
tureza do campo de pesquisa (Rifiotis, 2016). São estudos dedicados à com-
preensão das lógicas de sociabilidade política que se estabelecem em comuni-
dades on-line específicas, sejam elas em plataformas abertas de comunicação
digital, tais como Facebook e Twitter, ou mesmo em espaços digitais mais
fechados, como grupos fechados em aplicativos de mensagens instantâneas
como WhatsApp e Telegram. Essa perspectiva, portanto, compreende a es-
fera de sociabilidade mediada pelas tecnologias digitais enquanto um terri-
tório de pesquisa ou como uma ambiência para trocas simbólicas e práticas
culturais. O digital configura-se, portanto, como novos espaços de manifes-
tação das relações de poder que se estabelecem mediante a interação entre
sujeitos que compartilham um mesmo contexto comunicacional. Cabe ao
etnógrafo ou à etnógrafa identificar, a partir das múltiplas linguagens espe-
cíficas do digital, a circulação de crenças, valores e preferências entre par-
ticipantes envolvidos nas esferas plataformizadas de comunicação digital.
Uma segunda perspectiva trata-se de uma ênfase no digital não ape-
nas como ambiência, mas também como objeto de interesse que transfor-
ma de maneira significativa as relações mediadas por estes espaços. Trata-
se de estudos de etnografias no e sobre as transformações dos sujeitos a
partir da mediação do digital. O próprio espaço digital enquanto parte de
pelo escopo prático, não faremos distinções entre essas diferentes nomenclaturas ao longo do texto. Para um aprofundamento
dessa questão, sugerimos a leitura do texto Etnografia virtual, netnografia ou apenas etnografia? Implicações dos conceitos, da professora
Beatriz Polivanov (2013).
198
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
um objeto de estudo etnográfico, ou seja, investigações que buscam discu-
tir os impactos das tecnicidades das plataformas digitais nas interações so-
ciais e políticas em que os sujeitos se engajam. O efeito dos algoritmos no
crescimento da polarização política, o fenômeno da deplataformização, a
formação de comunidades por afinidades políticas e o desenvolvimento de
estratégias de ação coletiva a partir da apropriação de grupos de interes-
se das tecnicidades específicas das plataformas digitais, são alguns temas
de interesse que partem dessa perspectiva. Nick Seaver propõe um exercí-
cio de pensar em algoritmos não “na” cultura mas “como” cultura, ou seja,
como “sistemas sociotécnicos heterogéneos e difusos” que devem ser en-
tendidos “não como objetos estáveis com os quais interagimos a partir de
muitas perspectivas, mas como as múltiplas consequências de uma varieda-
de de práticas humanas:
Podemos chamar isso de posição dos algoritmos como cultura: os algorit-
mos não são pedras técnicas em um fluxo cultural, mas são mais como água.
Assim como outros aspectos da cultura, os algoritmos são executados por
práticas que não levam em conta uma forte distinção entre preocupações téc-
nicas e não técnicas, mas as misturam. Nessa visão, os algoritmos não são ob-
jetos técnicos singulares que entram em muitas interações culturais diferentes,
mas são objetos instáveis, culturalmente promulgados pelas práticas que as
pessoas usam para se envolver com eles (Seaver, 2017, p. 5, tradução nossa).
Seaver propõe uma diferenciação com outros conceitos associa-
dos à relação entre cultura e algoritmos. Primeiro, não trata da noção de
“cultura algorítmica” (Striphas, 2015), que observa algoritmos como força
transformadora exógena à cultura que molda fluxos de consumo de con-
teúdos culturais. Nesse sentido, algoritmos de recomendação seriam eles
próprios exemplo de mediação cultural dos algoritmos (Hallinan, Striphas,
2016; Cohn, 2019), mas não se observam suas lógicas algorítmicas elas pró-
prias como cultura. Outra diferenciação conceitual importante diz respeito
à percepção de “algoritmos se tornando cultura”, conforme discutida por
Gillespie (2016), ou seja, algoritmos como objetos de debate na esfera pú-
blico e algo que pressupões ações estratégicas de diferentes atores sociais na
199
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
gestão de comunicação nestes ambientes. Para Seaver, “os algoritmos são
culturais não porque funcionam em coisas como filmes ou música, ou por-
que se tornam objetos de preocupação popular, mas porque são compos-
tos de práticas humanas coletivas” (2017, p. 5), sendo eles múltiplos, como
a cultura, porque são cultura.
Angèle Christin (2020) propõe três estratégias para o que chama de
“etnografia algoritmica”. Primeiro, etnógrafos interessados nos objetos e
fenômenos digitais devem reconhecer e considerar que a construção, cir-
culação e recepção de sistemas algorítmicos estão inseridas em uma rede
que emerge das associações que envolve estruturas institucionais, intera-
ções sociais, representações simbólicas, dinâmicas, normas organizacionais
e processos culturais. Uma segunda estratégia para a etnografia algorítmi-
ca, apontada por Christin (2020), diz respeito a um olhar analítico para a
mediação das plataformas digitais a partir da comparação entre as mesmas.
Influenciada pela etnografia comparativa, esta estratégia envolve o esforço
de identificação de semelhanças e diferenças entre as múltiplas plataformas
e ambiências digitais, de modo a identificar as especificidades de cada ins-
trumento digital utilizado pelos sujeitos para estabelecer relações sociais. A
terceira e última estratégia é nomeada pela autora de triangulação algorít-
mica e refere-se à adoção combinada entre múltiplos métodos de pesquisa,
ângulos e materiais no estudo do mesmo fenômeno – o que se associa di-
retamente à última perspectiva. Em terceiro lugar, a etnografia digital pode
ser compreendida como o uso de um conjunto de ferramentas computa-
cionais para apoiar estudos etnográficos, sejam eles tradicionais ou basea-
dos na análise de sociabilidade política mediada por plataformas digitais.
Nesta perspectiva, a etnografia digital se insere no conjunto dos
chamados “métodos digitais” e envolve o emprego de recursos e tecnolo-
gias digitais em diferentes etapas de uma pesquisa etnográfica, seja na co-
leta, na sistematização, na análise de dados ou na apresentação dos resulta-
dos. A etnografia digital, portanto, refere-se também à adoção de softwares
ou hardwares como instrumentos metodológicos sem os quais o estudo et-
nográfico de um determinado fenômeno, objeto ou comunidade online se-
ria difícil ou mesmo impossível. Trata-se, assim, da aplicação de técnicas
200
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
computacionais na coleta e organização de grandes quantidades de dados,
na identificação de padrões e tendências e no desenvolvimento de visuali-
zações que permitem a compreensão de práticas e os comportamentos so-
ciais de sujeitos políticos que interagem em ambientes digitais.
Cabe destacar que, mais do que excludentes entre si, tais perspecti-
vas operam de forma complementar no desenvolvimento de pesquisas et-
nográficas. Se parte significativa dos fenômenos políticos passa a ser me-
diada pelas plataformas de mídias sociais, compreender e considerar seu
funcionamento configura-se como etapa fundamental para o desenvolvi-
mento de estudos etnográficos. De modo complementar, o uso de técnicas
computacionais como suporte para a observação de comunidades políti-
cas em ambientes digitais evidencia as potencialidades do emprego de mé-
todos mistos para a compreensão das dinâmicas sociais e culturais que se
formam mediante trocas e interações online.
1.1. Breve origem da aplicação científica da técnica
O debate sobre definições e aplicações de etnografias em ambien-
tes digitais vêm se desenvolvendo enquanto campo ao menos desde a vi-
rada dos anos 2000, com destaque para a publicação dos livros Virtual
Ethnography, da autora Cristine Hine (2000) e The Internet: An Ethnographic
Approach, de Daniel Miller e Don Slater (2001). Essas obras apresentam a
relevância do método etnográfico para o estudo dos ambientes digitais, ar-
gumentando que apesar de a observação nesses espaços implicar em refor-
mulações dos pressupostos das etnografias clássicas, a técnica seria funda-
mental para compreensão das interações, comunidades e construções de
sentido no/a partir do digital.
A afirmação da técnica etnográfica em ambientes digitais, no en-
tanto, não se restringiu somente à sua aplicação tradicional, mas também a
partir das disputas em relação às suas nomenclaturas entre os praticantes e
defensores da abordagem. Denominações como etnografia virtual (Hine,
2000) ou netnografia (Kozinets, 2014) pressupõem a necessidade de uma di-
ferenciação em relação ao método etnográfico tradicional e entram em dis-
cordância com abordagens como a de Fragoso, Amaral e Recuero (2011),
201
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
que argumentam não haver tamanha distinção entre “as práticas e valores
sociais construídos dentro e fora do ambiente da internet” (Poliavnov, 2013,
p. 68). Neste texto utilizaremos o termo etnografias online ou digitais, sem
entrar nos detalhes das diferentes perspectivas etimológicas.
A literatura em português hoje já conta com diversos artigos que ten-
sionam diferentes aspectos do fazer etnográfico em ambientes digitais. Entre
eles destacam-se artigos de: Sá (2002 e 2005); Rocha e Montardo (2005);
Braga (2006); Amaral, Natal e Viana (2008); Lewgoy (2009); Poliavnov (2013);
Ramos e Freitas (2017); Leitão e Gomes (2018); Gonçalves (2021); Ramos e
Alfenas (2023); além do já citado livro de Fragoso, Amaral e Recuero (2011).
Em relação à Ciência Política, no entanto, ainda há uma lacuna importante.
2. Aplicação
Um dos pilares de toda pesquisa etnográfica é a definição de um es-
paço ou um lugar de observação. O digital, no entanto, apresenta uma série
de desafios e transformações a essa pré-condição, complexificando – ou até
mesmo negando – essa definição. Parece extenuado pensar as formas tradi-
cionais de incursão e uso do método etnográfico apartado dos fenômenos
atravessados pelo digital, isto porque hoje raramente se pensam comunida-
des e grupos, que outrora delimitavam seus espaços de troca a circunscri-
ções específicas, fora de espaços de trocas digitais – vide, de maneira mais
explícita, grupos de WhatsApp/Telegram, grupos e páginas no Facebook,
comunidades do Reddit, ou, de modo tácito, outras maneiras de aglutinação
e compartilhamento de afinidades, crenças, linguagem, muitas vezes forja-
das e mantidas a partir das condições de uso de plataformas digitais. Em
sua natureza substancial, o método etnográfico pressupõe a existência de
dada comunidade em dado espaço, e a pesquisa etnográfica ocorre a par-
tir da imersão naquele sistema de crenças, cultura e signos compartilhados.
Um primeiro ponto de observação se refere à própria delimitação
das fronteiras entre online e offline nos objetos observados. Por exemplo,
apesar da crescente importância dos espaços digitais para expressão e cons-
trução da disputa política, o Estado segue como lócus fundamental da ação
e do confronto político contemporâneo. Ou seja, para boa parte dos objetos
202
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de etnografias digitais, as interações online permitem apenas observação par-
cial de sua atuação cotidiana. Essa característica não é necessariamente um
problema, mas deixa evidente a importância de o pesquisador(a): 1) calibrar
as questões a serem desenvolvidas na pesquisa, refletindo criticamente so-
bre conclusões construídas a partir da imersão em um campo online; e 2)
cotejar as observações coletadas online com referenciais que vão além dos
ambientes digitais, buscando uma visão mais holística dos pontos de orien-
tação e interação entre os indivíduos e grupos no espaço de observação.
Esse cuidado não se restringe às fronteiras entre online e offline,
apresentando-se, também, dentro do próprio ambiente digital. As infraes-
truturas sociotécnicas nas quais ocorrem as interações em ambientes digi-
tais não são isoladas e se influenciam e auto referenciam em fluxo constante.
A observação de um grupo de WhatsApp, por exemplo, leva em conside-
ração não somente a dinâmica específica das relações intersubjetivas no es-
paço observado, mas também suas conexões com outros ambientes digi-
tais, que invadem de modo pervasivo tanto na forma de compartilhamento
entre plataformas, quanto como referenciais para as elaborações dos indi-
víduos inscritos no espaço de observação. Tanto nas tensões entre online e
offline, quanto na porosidade e influência entre diferentes espaços de inte-
ração digitais, o cerne da preocupação do pesquisador deve se referir à am-
plitude de suas questões de pesquisa, achados e conclusões.
Um modelo interessante para pensarmos as aplicações de etno-
grafias digitais na Ciência Política pode ser encontrado no artigo Political
Netnography: a method for studying power and ideology in social media, de Dino
Villegas (2020). Em diálogo com o conceito de netnografia, tal qual desen-
volvido por Kozinets (2006), o autor chileno se apropria da tipologia pro-
posta por Baiocchi e Connor (2008) para refletir sobre a inserção etnográfi-
ca de objetos da Ciência Política em ambientes digitais. A proposta se divide
em três grandes categorias de estudos:
1) As etnografias de atores políticos e instituições: em que os etnó-
grafos se voltam para atores políticos tradicionais (como partidos, movimen-
tos sociais, elites e governos) e instituições (como o Congresso, Assembleias
Legislativas, entre outras).
203
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
2) As etnografias dos encontros de cidadãos com o Estado ou com
instituições políticas: em que o foco recai sobre as reações de cidadãos às
interações com a política e instituições formais.
3) As etnografias sobre a experiência política vivida: em que trata
das formas e expressões de sociabilidade política entre indivíduos no am-
biente online.
Essa pluralidade de objetos, somada às diferentes dinâmicas obser-
vadas em cada plataforma ou ambiente digital criam uma grande variedade
de possibilidades de exercícios etnográficos. Nesta seção, vamos apresen-
tar os procedimentos para a realização de um tipo de etnografia, qual seja,
a que ocorre em espaços delimitados online, como grupos de WhatsApp,
Telegram e Facebook.2
2.1. Preparação
2.1.1 Seleção e entrada no ambiente de imersão etnográfica
Uma vez identificado o grupo a ser observado, o investigador pre-
cisa identificar em que ambiente digital pode encontrar as interações que
servirão de base para a elaboração da pesquisa. As plataformas de mídias
sociais, aplicativos de mensageria móveis são ambientes ricos para a obser-
vação de interações de determinados grupos, mas também é possível pen-
sar em pesquisas em ambientes mais relacionados à Web 1.0, como comen-
tários em blogs ou fóruns.
O acesso a esses espaços depende do grau de privacidade e políti-
cas de uso proporcionados por cada plataforma e mobilizado pelos admi-
nistradores. Grupos de Facebook, por exemplo, podem ser abertos a qual-
quer convidado, privados ou até mesmo abertos mediante a resposta de um
questionário. Para encontrá-los, é possível a utilização de palavras-chave na
aba de busca da própria plataforma. Essa busca, no entanto, dificilmente
levará a camadas mais profundas do grupo que deseja observar. Ela pode
ser usada, portanto, como uma etapa da pesquisa, adensando uma primeira
2. Essa, no entanto, não é a única forma de realizar etnografias online, como, por exemplo, a pesquisa de Bernardes (2023), que
se apoia nas publicações online de uma lista de parlamentares.
204
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
inserção exploratória sobre o grupo a ser observado.3
Em aplicativos que não possuem ferramentas de busca interna, como
o WhatsApp, dependem de buscas para links de acesso em outras plata-
formas. Usualmente utiliza-se um prefixo de URL, como “[Link].
com/”, seguido de uma palavra-chave, com um termo associado ao grupo
observado. Esse prefixo, obviamente, se modifica de acordo com a platafor-
ma ou aplicativo de mensagem desejado e deve ser alterado para que se efe-
tivamente encontre os grupos procurados. É comum, também, o comparti-
lhamento de links cross-plataforma, ou seja, mesmo que se queira realizar uma
pesquisa no WhatsApp, a investigação deve contemplar outros ambientes.
Ainda tendo o WhatsApp como referência, é comum a circulação
de links e convites dentro dos próprios grupos. Essa estratégia é interes-
sante para se lograr a imersão em ambientes cada vez mais internos e sig-
nificativos para o grupo observado.
Após a definição de um grupo de observação, a exploração inicial
e a entrada nos espaços digitais de interação, o pesquisador(a) deve selecio-
nar, enfim, que grupo e em que ambiente digital irá realizar a etnografia.
Considerando apenas o digital como espaço de observação etno-
gráfica, o pesquisador(a) deve levar três pontos principais em considera-
ção. Em primeiro lugar, tomar conhecimento das funcionalidades e dinâmi-
cas sociais estabelecidas dentro do espaço selecionado. O ambiente digital
de observação não é um coadjuvante em relação à ação dos indivíduos na
rede, pelo contrário, ele condiciona e induz os diversos usos e comporta-
mentos. Um grupo no WhatsApp possui funcionalidades muito distintas
do que um grupo no Facebook, por exemplo. A uniformização ou a pres-
suposição de neutralidade do ambiente, pode comprometer significativa-
mente a observação e os achados.
Em seguida, o pesquisador(a) deve estar atento e acompanhar pos-
síveis transformações nas funcionalidades e recursos disponíveis para os
participantes. Conforme apontam Ramos e Freitas (2017) os ambientes di-
gitais são marcados por uma espacialidade feita de informações e em cons-
tante reforço e recriação. A relação etnográfica se constrói, portanto, sobre
3. Em ambientes digitais, grupos dificilmente se concentram em apenas uma plataforma. É interessante, portanto, a exploração
de links e convites para espaços de interação desses grupos em outras plataformas.
205
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
bases móveis e, até certo grau, instáveis. Um exemplo radical dessa relação
é a possibilidade da exclusão ou banimento sumário de espaços de obser-
vação como grupos de WhatsApp, tópicos de fóruns ou grupos e páginas
de Facebook. Essa instabilidade, no entanto, não se restringe a essas expres-
sões mais radicais, também sendo afetada por mudanças repentinas nas fun-
cionalidades de plataformas – que implicam em novas formas de interação,
disputa hierárquica e construções simbólicas nos espaços de observação.
Finalmente, é preciso um olhar crítico em relação à própria deli-
mitação do espaço de observação. Nos exemplos deste artigo, falamos so-
bre grupos cuja delimitação é feita pela própria plataforma. Essa fronteira
pode induzir ao automatismo de supor comunidades e sentidos compar-
tilhados pela simples presença em um espaço digital específico, por exem-
plo, como um grupo de Telegram. Essa reflexão, porém, deve vir da ob-
servação imersiva do pesquisador(a) e não de uma delimitação tecnológica
a priori. Instiga-se, no entanto, que o exercício etnográfico não reifique os
espaços e as relações como previamente estabelecidas, destacando o papel
reflexivo e intersubjetivo dos resultados e achados da pesquisa (Markham;
Baym, 2009).
2.1.2 Roteiro, tópico guia, diários
Diferente de etnografias tradicionais, em que a coleta de informa-
ções se dá por meio da interação entre o pesquisador(a) e o campo, com
suporte dos cadernos de campo e registros audiovisuais e materiais produ-
zidos ao longo do processo. As etnografias digitais, por sua vez, ocorrem
no contexto das interações mediadas, ou seja, interações que, por definição,
geram rastros ou registros digitais (Zuboff, 1981). Ou seja, em etnografias
em ambientes digitais, o pesquisador(a) pode reunir um conjunto de dados
extraídos diretamente do campo, sem sua mediação.
Essa característica não implica em um grau superior desses dados,
mas, sem dúvida, enriquece o conjunto coletado, que se soma tanto ao ca-
derno de campo, quanto às interações diretamente estabelecidas pelo pesqui-
sador(a) dentro desse ambiente – e que também apresentam registro textual.
Apesar dessa característica, é muito importante que o pesquisador(a)
206
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
mantenha um caderno de campo de atualização diária, não somente para
fins de memória e organização dos achados e reflexões, mas também para
registrar suas próprias impressões ao longo do processo. Essas impressões
são importantes para dar complexidade ao manuscrito etnográfico, pois re-
forçam o caráter processual da imersão e das conclusões sobre a observação.
2.1.3 Questões práticas de preparação
Para a pesquisa em ambientes digitais, é imprescindível uma estru-
tura tecnológica mínima. Mesmo em pesquisas em aplicativos móveis, reco-
menda-se um computador para a melhor operação dos aplicativos (em sua
versão web). Ainda em relação à pesquisa em aplicativos móveis, recomen-
da-se a compra de um chip exclusivo para a entrada em grupos, evitando a
utilização do contato pessoal do pesquisador.
Outra preocupação importante é o armazenamento do material co-
letado. Ele pode ser realizado em um cartão de memória, no próprio com-
putador ou em um serviço de nuvem. O armazenamento em nuvem garante
a segurança em caso de perda ou quebra dos hardwares, mas é importan-
te atentar para o armazenamento de conteúdos sensíveis ou perigosos (ile-
gais/criminosos) que por ventura possam circular nos espaços observados.
Isso porque o armazenamento desse tipo de material em nuvem pode in-
fringir a política de uso desses serviços e ocasionar a exclusão sumária do
material coletado.
2.2 Condução
Uma área relevante a aplicação de etnografias digitais se relaciona à
postura do pesquisador(a). O método etnográfico presume observação ex-
tensiva por parte do pesquisador(a), muitas vezes enquanto agente, ou seja,
a/o pesquisador(a) desempenha papel tanto de ator como de observador
(Wedeen, 2013). No caso específico da pesquisa em ambientes digitais, há
uma série de restrições à proximidade com membros de dada comunidade
A forma como se constrói confiança e, em algum grau, aceitação e perten-
cimento, é muito distinta da forma como se dá uma observação participan-
te aos moldes e desígnios da etnografia clássica. A existência de lurkers ou
207
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
observador oculto – pesquisadores que integram as comunidades que ob-
serva, mas não são ativos nas suas atividades, se resignando a estar na es-
preita dos acontecimentos –, por exemplo, se torna muito mais regra que
exceção nesses círculos íntimos de trocas e interações digitais.
A pesquisa encoberta amplia de modo muito significativo as possibi-
lidades de observação e permite que investigadores adentrem espaços pos-
sivelmente hostis à observação etnográfica. Essa técnica tem sido utilizada
em estudos sobre grupos radicalizados, especialmente ligados à extrema-
-direita – que, entre outras questões, nutre um posicionamento refratário à
pesquisa social. A imersão em ambientes digitais como grupos em aplicati-
vos móveis e fóruns possibilita a observação de interações e sociabilidades
marcadamente intra-comunitárias, permitindo coleta privilegiada e detalha-
da de informações sobre o grupo observado (Chagas, Modesto, Magalhães,
2020; Mont’alverne, Mitozo, 2019; Piaia; Alves, 2020).
A pesquisa encoberta, no entanto, não deve ser tomada de modo
acrítico. Ainda que alguns ambientes sejam de difícil acesso por parte do
pesquisador(a), uma breve mirada para história da etnografia nos mostra
trabalhos de campo de altíssimo risco ou complexidade. Ou seja, a cons-
trução de relação é parte do exercício etnográfico, de modo que seu aban-
dono ou rejeição também implicaria na perda de qualidade das pesquisas.
Outro ponto relevante está no fato de que a postura lurker não so-
mente abre portas para a observação, mas também pode ser um impediti-
vo para o acesso a determinados espaços. A Ciência Política, por exemplo,
tem nos partidos e atores políticos um dos lócus principais de investigação
e é pouco crível que um pesquisador consiga acessar um espaço restrito de
interação virtual desses grupos sem ser percebido.
Por fim, um desenho de pesquisa não intervencionista opera em um
grau de profundidade distinto de inserções que mobilizam a participação
ativa do etnógrafo, pois não permite a troca entre observador e observados.
Esse tipo de interação permite explorar com mais profundidade os senti-
dos atribuídos pelos indivíduos, bem como instigar a aparição de nuances
mais específicas em relação às ações no ambiente observado.
208
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
3. Análise e validação dos dados
A análise do material etnográfico deve ser realizada no curso do
processo de imersão. Trata-se de um exercício simultâneo de envolvimen-
to, descoberta e reflexão que, muitas vezes, gera produtos completamen-
te diferentes do esperado (Uriarte, 2012). Diferente de outras metodolo-
gias, em que se costuma aguardar o final da coleta de dados para a análise,
em etnografias, o exercício reflexivo e a consulta aos materiais coletados ao
longo do processo promove ajustes, insights e novos olhares que tendem a
enriquecer a observação sobre o objeto/sujeito. Entre esses materiais, de-
ve-se levar em consideração não somente os registros das interações tex-
tuais e trocas de conteúdos audiovisuais, mas também os próprios cader-
nos de campo anotados ao longo do processo.
Conforme apontado no início do texto, apesar de a observação se
concentrar fundamentalmente em espaços digitais, é importante que se ob-
serve o contexto político mais amplo, incluindo os ambientes offline. Os
espaços digitais não se isolam do mundo e boa parte das interações ocorri-
das nesses locais farão referência a eventos, pessoas e fatos ocorridos fora
do espaço de observação. Ou seja, a imersão no ambiente digital descolada
de um acompanhamento cerrado do contexto político e social offline leva
ao risco de omissões e lacunas interpretativas fundamentais.
A possibilidade de armazenamento das interações em formato tex-
tual ainda é convidativa para a aplicação de outros métodos qualitativos e
quantitativos, como análises de conteúdo, de discurso, de redes, além de mé-
tricas estatísticas de ocorrência de termos, interações etc. Amplia-se, assim,
as possibilidades de abordagens multi-métodos – desde que adequadas às
questões emergentes no curso da imersão do pesquisador(a).
Por fim, o armazenamento dos registros digitais de observação tam-
bém é importante para fins de validação dos dados, ampliando as refe-
rências e informações para que o próprio ou outros pesquisadores reava-
liem as conclusões e achados a partir do conjunto original de observação.
Adicionalmente, a disponibilização pública dos registros, assim como dos
cadernos de campo e o próprio estudo etnográfico, corroboram para a con-
sistência da pesquisa frente ao campo de estudos da Ciência Política.
209
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
4. Questões éticas
Há inúmeros desafios para uma definição estrita das similaridades,
limitações e características distintivas que separam o método etnográfico do
método etnográfico digital. No que se refere aos desafios éticos, porém, as
questões se somam, devendo ser levado em consideração ponderações de
ambas as técnicas e dos seus meios específicos de aplicação.
Cabe ressaltar que o desenvolvimento tecnológico acelerado e suas
incorporações diversas e imprevisíveis em diferentes esferas da sociabilida-
de torna impossível a formulação de um documento canônico e duradouro
sobre requisitos éticos de pesquisa. Porém, as tentativas mais interessantes
buscam fugir do modelo de checklist, indicando diretrizes gerais que devem
ser avaliadas de acordo com a lógica de cada rede. Nessa perspectiva, a pes-
quisa que tem sido frequentemente enquadrada como netnografia ou etno-
grafia digital, deve ser alicerçada a partir de parâmetros éticos, inovadores
e atualizados (Barbosa, Milan, 2019; Franzke et al., 2020; Piaia et al., 2022;
Chagas, Da-Costa, 2023). Segundo a resolução do Conselho Nacional de
Saúde nº 196/96, que estabelece as normas regulamentadoras de pesquisas
envolvendo seres humanos, as exigências éticas da pesquisa científica de-
vem estar em consonância com: I) o consentimento livre e esclarecido dos
indivíduos envolvidos na pesquisa; II) ponderação entre riscos e benefícios,
minimizando ou, se possível, eliminando os danos e riscos, maximizando o
benefício individuais e/ou coletivos; III) relevância social da pesquisa, cen-
tralizando seu cunho sócio-humanitário.
A já citada possibilidade de pesquisas encobertas suscita um con-
junto de questionamentos sobre procedimentos éticos como o consenti-
mento livre e informado de participação em pesquisa, que consiste basica-
mente no detalhamento concedido pelo pesquisador(a) ao participante da
pesquisa sobre os direitos, procedimentos, riscos e benefícios associados à
escolha de participar. No que diz respeito aos ambientes online e suas con-
figurações inconstantes, se torna labora e complexa a realização de um de-
senho que garanta o consentimento generalizado e estável dos membros
de uma dada comunidade.
A definição dos espaços de observação determina o grau de
210
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
expectativa de privacidade por parte dos indivíduos que o compõem. As
etnografias digitais podem ser inscritas tanto em grupos online de asso-
ciações de bairro no Facebook ou debate político no Telegram (com mi-
lhares de membros), quanto em grupos menores, como por exemplo, no
WhatsApp. A definição desses espaços é fundamental para as possibilida-
des de pesquisa encoberta. Por exemplo, ao se inserir em ambientes de inte-
ração mais fechados, focados em conversas interpessoais, o pesquisador(a)
pode optar por uma postura mais encoberta ou uma estratégia mais aber-
ta, revelando seu papel, porém podendo incorrer na mudança de compor-
tamento por parte dos observados ou até mesmo na sua remoção daquele
grupo. Este conflito parece plausível sob a condição do online e do offli-
ne, no entanto as estratégias de aproximação e as possibilidades de intera-
ção com os membros e lideranças dos grupos apresentam desafios especí-
ficos para cada caso.
A chamada “pesquisa encoberta” definida como um tipo de observa-
ção “conduzida sem que os participantes sejam informados sobre objetivos
e procedimentos do estudo, e sem que seu consentimento seja obtido pre-
viamente ou durante a realização da pesquisa” (Brasil, 2016). A Resolução
nº 510, de 7 de abril de 2016, determina ainda que a aplicação deste tipo de
abordagem está condicionada à aprovação da pesquisa no Comitê de Ética
em Pesquisa das instituições, que o pesquisador(a) precisa se comprometer
em garantir a confidencialidade dos dados, buscando, sempre que factível,
o consentimento dos participantes posteriormente.
Outro ponto diz respeito à exposição, privacidade e tratamento de
dados dos observados. Manuais sobre ética em pesquisa em plataformas de
mídias sociais indicam que a identidade dos observados deve ser mantida
em sigilo (Townsend; Wallace, 2016). No caso de pesquisas em ambientes
digitais – e sua natureza de gerar registros das interações, é importante tam-
bém estender essa proteção a outros tipos de dados sensíveis ou pessoais
mencionados nos grupos observados. Ainda nesse sentido, um aspecto re-
levante na perspectiva do digital está relacionado ao armazenamento de da-
dos confidenciais dos participantes, principalmente sob as legislações es-
pecíficas que regulam o tratamento de dados pessoais por meio da LGPD
211
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
(Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais) e do Marco Civil da Internet.
Os meios técnicos de extração e anonimização dos dados se tornam ainda
mais relevantes face aos requisitos de proteção de dados sensíveis expres-
sos na LGPD. A LGPD se dedica à proteção de dados e define, no artigo
12, que os dados anonimizados não recebem a proteção conferida aos da-
dos pessoais e sensíveis. Com isso, é dispensado consentimento do titular
para que o dado seja colhido e tratado, o que permite que sejam objeto de
pesquisa. O mesmo artigo acrescenta a ressalva de que os meios técnicos de
anonimização não podem ser facilmente reversíveis, de modo que as técni-
cas utilizadas devem contar com alto grau de segurança, sob risco de res-
ponsabilização futura dos pesquisadores envolvidos.
Finalmente, mas não menos importante, o pesquisador(a) precisa
ponderar o desenho da pesquisa em relação aos riscos que corre ao realizá-
-la. A ênfase na proteção dos indivíduos e interações observadas não pode
diminuir a preocupação com o próprio pesquisador, que principalmente, ao
adentrar grupos radicalizados deve sopesar sua exposição, sob risco de rea-
ções que não somente impeçam a pesquisa, mas também escalem para in-
convenientes que extrapolam a vida acadêmica.
5. Aplicações em Ciência Política
Na Ciência Política a busca por padrões de cientificidade e produ-
ção de inferências norteou debates que frequentemente sobrelevavam um
tratamento metodológico em detrimento de um outro. Ainda que se tra-
te de um debate superado na disciplina, há efeitos na produção do cam-
po que exibe uma orientação empírica quantitativa forte (Guerra; Almeida,
2019). A pesquisa social em sua amplitude, porém, tem compromisso com
a produção de inferências válidas, embasamento teórico e rigor metodo-
lógico, e esta premissa independe de abordagem quantitativa ou qualitati-
va (Sátyro; Reis, 2014).
Enquanto áreas do conhecimento, a tradição da Ciência Política tem
exibido aproximação com padrões e generalizações, a Antropologia, por seu
turno, desenvolve explicações com a compreensão mais particular dos fenô-
menos (Reis, 1996). No entanto, é interessante observar as transformações
212
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
dos sujeitos e do próprio fato social a partir da mediação do digital como
objetos de análise, que requerem uma investigação mais aprofundada do
ponto de vista qualitativo. Cesarino (2022) defende que a mediação e as con-
dições estruturais das novas mídias aceleram os processos de mudanças so-
ciais, a autora também defende a Antropologia como campo profícuo na
reconexão de nexos conceituais em contextos colapsados, além da função
integrativa entre os campos da cultura, da linguagem, da materialidade téc-
nica e da cognição “encorporada” (embodied), para ela, dimensões que deli-
mitam o sentido do digital.
Nesta perspectiva, o campo tem refletido as práticas sociais imersas
em redes online como uma manifestação da cultura, e enquanto um dado do
dinamismo social (Hine, 2015; Ferraz, 2019). Refletir e reelaborar entendi-
mentos sobre os atores e as práticas sociais mediadas, porém, é uma realida-
de que atravessa todo o campo da Ciência Social. Ao se olhar para o campo
que se dedica aos estudos de internet e política propriamente, Sampaio et al.
(2016) identificou o método etnográfico entre as principais técnicas empí-
ricas mobilizadas na produção de pesquisadores brasileiros.
Ferraz (2019) discute a extrapolação e adequação metodológica da
etnografia digital enquanto possibilidade para outros campos do conheci-
mento. Para a autora, as tecnologias de comunicação e os direcionamentos
da política se encontram imbricados, ambos carregam e resultam em finali-
dades sócio-políticas. Logo, antes de simbolizar um rompimento com a tradi-
ção metodológica etnográfica, a etnografia digital possibilita a compreensão
dos fenômenos sociais do modo mais condizente com “as culturas intoxica-
das pelas tecnologias nas relações sociais e materiais” (Ferraz, 2019, p. 48).
Seguindo a definição proposta por Villegas (2020), explicada ante-
riormente, entre os trabalhos que podem ser enquadrados no primeiro tipo,
há uma forte presença de abordagens que utilizam a etnografia online den-
tro de um desenho multi-método ou em combinação com etnografias tra-
dicionais. Grau (2016), por exemplo, ao se dedicar às relações e práticas de
comunidades LGBT na Espanha, identificou nos espaços digitais um meio
propício para a construção do sentimento de pertencimento a estas co-
munidades. O autor mesclou trabalho de campo etnográfico tradicional à
213
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
etnografia digital, e constata que não apenas os instrumentos de observação
se complementam e se sobrepõem, mas que a própria atuação dos mem-
bros da comunidade é transversal, isto é, constitutiva das dinâmicas exerci-
das nos espaços físicos bem como das práticas digitais. Privilegiando a etno-
grafia tradicional vale destacar, também, o trabalho de Aragão (2023), que
analisa as interações do “bloco parlamentar bolsonarista” e utiliza elemen-
tos da comunicação online, bem como a exploração de sessões por meio
da transmissão do YouTube para compor seu estudo.
Ainda sobre instituições políticas na fronteira do online e offline, é
interessante notar a tese de Nunez (2020), que realiza uma inserção etno-
gráfica tradicional, registros digitais e entrevistas semiestruturadas para ana-
lisar a produção em torno do site Portal Senado Notícias.
Há, no entanto, pesquisas que operam exclusivamente a partir de
registros online. É o caso, dos trabalhos de Bernardes (2023), que analisa
a construção de identidade política pelas presidentas de comissões perma-
nentes da Câmara dos Deputados no Brasil em 2021, a partir das estraté-
gias discursivas de comunicação adotadas no Twitter, combinando análise
etnográficas e discursivas. Bernardes integra o projeto Ethnographies of par-
liaments, politicians and people, e apresenta ampla produção sobre parla-
mentares a partir de um ponto de vista qualitativo.
Em relação à atuação de movimento sociais, os trabalhos de Claudia
Ferraz (2020), que realiza uma etnografia encoberta a partir de páginas fe-
ministas no Facebook, e Monalisa da Silva (2019), que se debruça sobre a
Rede de Ciberativistas Negras-CE, são exemplos sobre como a abordagem
etnográfica em ambientes digitais podem ser férteis para a compreensão dos
sentidos e das disputas relacionadas à socialização política e à organização
de movimentos sociais no contexto digital.
Já em relação à prática política de ativistas, Antônio Teixeira de
Barros (2023), apresenta um interessante estudo etnográfico que acompa-
nha a atuação de militantes no Facebook, identificando como esses atores
constroem narrativas sobre si e dão sentido à militância em ambientes onli-
ne e offline. O complemento com entrevistas em profundidade com os mi-
litantes mais ativos enriquece a observação realizada nos ambientes online.
214
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Em relação às plataformas, ainda há um terreno vasto de explora-
ção do método quando se leva em conta os grupos e trocas que se dão nos
aplicativos móveis, e mais especificamente nos aplicativos de mensageria,
esta condição, inclusive, evidencia o enfraquecimento das fronteiras entre
as manifestações online e offline (Ferraz, 2019).
Por fim, a forma de organização e produção de sentido de militan-
tes bolsonaristas no WhatsApp se constituiu como um terreno fecundo e
urgente para a compreensão das transformações políticas contemporâneas.
O trabalho de Cesarino (2019) é exemplar nesse tipo de abordagem, com a
análise de grupos bolsonaristas acessados a partir de setembro de 2018, du-
rante a campanha para as eleições presidenciais no Brasil. Somado a isso, e
investigando especificamente as estratégias de campanha empregadas nes-
ses espaços, o trabalho de Piaia e Alves (2020) equilibra análises quantita-
tivas e qualitativas sobre os sentidos produzidos na campanha presidencial
de 2018. No mesmo sentido, a tese de Gonçalves (2023) busca compreen-
der, a partir de grupos de WhatsApp bolsonaristas, como produziu-se a po-
lítica do medo, a urgência da guerra e o imaginário autoritário da extrema-
-direita brasileira nos últimos anos.
Considerações finais
Este capítulo se dividiu em cinco partes principais. Na primeira, bus-
camos introduzir a literatura sobre etnografias digitais para cientistas polí-
ticos, visando ampliar os possíveis horizontes de observação de pesquisas
futuras, bem como adensar as análises a partir de reflexões produzidas no
âmbito dos métodos digitais. Em seguida, refletimos sobre os passos neces-
sários e os pontos de atenção que os pesquisadores devem levar em consi-
deração para aplicar a técnica, refletindo sobre a escolha do espaço digital
a ser observado; os materiais necessários; e as práticas a serem adotadas ao
longo da pesquisa, como a decisão por uma pesquisa encoberta ou não. A
terceira seção focou em elementos relacionados à análise a partir da imer-
são e também de aspectos ligados à validação dos dados coletados. As ques-
tões éticas foram abordadas no quarto tópico, reproduzindo os tensiona-
mentos que emergem a partir das questões abordadas na seção anterior. A
215
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
última seção buscou elencar algumas chaves analíticas e pesquisa que vêm
sendo desenvolvidas no âmbito da etnografia digital de objetos políticos.
Chama a atenção a flexibilidade com que autores da Ciência Política
realizam seus exercícios etnográficos, com adaptações nos pressupostos do
método, relações online e offline, bem como a partir da soma com abor-
dagens complementares. Outro ponto que se destaca é a baixa presença de
cientistas políticos – na definição disciplinar – nesse tipo de metodologia.
Apesar da relação entre Ciência Política e etnografias ser bem estabelecida,
os principais estudos sobre etnografia digital ainda são realizados por au-
tores de outras áreas como a antropologia, a sociologia e a comunicação.
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222
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
07
Análise Temática em Ciência Política1
Daniela Drummond
Paulo Roberto Neves Costa
Júlia Gonçalves
“A análise temática atualmente não tem nenhum reconhecimento especial
como método analítico; argumentamos que isso decorre do próprio fato
de que ela é pouco demarcada e reivindicada, mas amplamente utilizada”.
Braun; Clarke, 2006, p. 97.2
1. Este estudo foi financiado pela FAPERJ – Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro,
Processo SEI-260003/014821/202.
2. A tradução de todas as expressões, citações e extratos retirados de artigos em língua estrangeira utilizados neste capítulo são
de nossa responsabilidade.
223
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
Este capítulo visa apresentar a Análise Temática (AT) para quem preten-
de utilizar abordagens qualitativas na área de Ciência Política. Isso se deve ao
fato de que a AT é um interessante, particular e ao mesmo tempo prático
jeito de tratar deste tipo de abordagem. Assim, vamos priorizar as formas
deste método no enfrentamento dos desafios de proceder com qualidade e
eficiência a construção de explicações e, quando possível, estabelecer rela-
ções de causalidade, e não simplesmente enunciar seus méritos, vantagens
ou particularidades.
Primeiramente, a investigação qualitativa é uma forma de interpre-
tar a realidade através de uma abordagem interpretativa e naturalística do
mundo. Isto significa que os investigadores qualitativos estudam os objetos
em seus ambientes naturais, buscando dar sentido ou interpretar os fenô-
menos em termos dos significados que as pessoas lhes atribuem (Denzin;
Licoln, 2005, p. 3 apud Godoy; Brustein, 2020). Esse tipo de investigação
coleta materiais empíricos obtidos a partir de observações, entrevistas, rela-
tos de experiências pessoais, conversas informais, histórias de vida, artefa-
tos, produções culturais, textos históricos e visuais (Godoy; Brustein, 2020).
É fundamental ressaltar que, por ser interpretativa, a pesquisa quali-
tativa visa produzir explicações mais do que descrições, ou seja, deve-se in-
terpretar os dados dentro do contexto proposto, e não somente descrevê-los.
Dentre as vantagens da análise qualitativa estão: flexibilidade; cria-
tividade; profundidade; e a possibilidade de “deixar os atores falarem”. Já o
diferencial da pesquisa qualitativa é que não há uma regra ou um consenso
sobre qual o melhor caminho a seguir, esse caminho será escolhido e traça-
do pelo pesquisador. Mas, é comum a dificuldade em sistematizar com ri-
gor científico o material disponível.
Os objetivos deste capítulo vão ao encontro das proposições e dos
cuidados indicados por Virginia Braun e Victoria Clarke (2006) para tratar
da AT: combinar a “demarcação”, a caracterização, a precisão e o rigor me-
todológico no uso deste método sem perder suas vantagens, em especial
sua “flexibilidade”. Como veremos adiante, uma de suas vantagens é que ela
“pode ser aplicada em uma série de abordagens teóricas e epistemológicas”
224
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
(Braun; Clarke, 2006, 78).
A AT é um método de análise qualitativa ainda não muito conhe-
cido em algumas áreas como a Ciência Política, mas muito utilizado na
Psicologia. Virginia Braun e Victoria Clarke (2006), perceberam a falta de
um “passo a passo” que explicasse como fazer esse tipo de análise. Assim,
no artigo Using Thematic Analysis In Psychology, descreveram o que é a análise
temática, sua teoria, sua aplicação e a sua forma de avaliação e a compara-
ram com outras formas de análises qualitativas, fornecendo diretrizes para
conduzir esse tipo de análise de forma mais rigorosa. O objetivo do pre-
sente capítulo é apresentar como funciona a AT, principalmente no campo
das Ciências Sociais, em especial na Ciência Política:
A análise temática deve ser vista como um método fundamental para a
análise qualitativa. Ela é o primeiro método de análise que os pesquisado-
res devem aprender, pois fornece habilidades que serão úteis para condu-
zir muitas outras formas de análise qualitativa (Braun; Clarke, 2006, p.4).
Tornar este método acessível passa necessariamente pela adoção
de cuidados e pelo desenvolvimento de capacidades específicas relativas às
particularidades deste método, de um lado, na forma como se apresentam
os fundamentos de uma pesquisa científica, ou seja, a questão ou o proble-
ma de pesquisa, os pressupostos teóricos, o objeto e os objetivos, e de ou-
tro, na importância que assumem as próprias experiências que ocorrem ao
longo da sua utilização. Neste sentido, Braun e Clarke fazem uma ressal-
va importante:
Como a análise temática é um método flexível, você também precisa ser cla-
ro e explícito sobre o que está fazendo, e o que você diz que está fazendo
precisa corresponder ao que você realmente faz (Braun; Clarke, 2006, p.96).
Para guiar a nossa análise, selecionamos alguns dos desafios acima
mencionados a partir dos ganhos que a AT traz para o seu enfrentamento e
superação. Deixamos claro que não se trata de proposições estanques, dis-
tintas e separadas, mas sim uma estratégia de exposição dos elementos que
entendemos essenciais tanto para o enfrentamento desses desafios, quanto
225
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
para uma estruturação geral de uma pesquisa, o que é fundamental para o
seu sucesso.
Sem hierarquia de importância, em primeiro lugar, vamos tratar dos
desafios e das características da AT a partir dos seguintes aspectos:
• Subjetividade, compreensão e interpretação: sobre a forma de tra-
tar a apresentar os fundamentos da pesquisa (teoria, metodologia e objeti-
vos) e os ganhos em termos de qualidade da interpretação e da compreensão;
• Contexto e contextualização na produção e análise dos dados;
• Flexibilidade: a realização de ajustes na teoria, nas questões, na me-
todologia e nos objetivos ao longo da pesquisa.
Em seu trabalho, Braun e Clarke apresentam um “guia passo a pas-
so”, além de uma cheklist com os critérios para a realização de uma boa AT
e uma lista das suas principais vantagens. Dada a própria característica des-
te método e os objetivos deste capítulo, entendemos que é mais interessan-
te aproveitar estas indicações práticas nos itens que serão apresentados a
seguir, o que não dispensa a consideração dos detalhes da argumentação
exposta no próprio texto das autoras. Entretanto, como forma de auxiliar
o processo de pesquisa, vamos reproduzir as passagens em que as autoras
condensam os principais procedimentos e cuidados do passo-a-passo para a
realização da AT.
Concordamos com a proposição de Boyatzis (1998) de que, embora
a análise temática não seja um método específico, mas uma ferramenta para
ser usada em métodos variados, e que não há uma forma única de aplicá-la,
é importante seguirmos algumas diretrizes. A seguir, pretendemos explicar
o que é e como fazê-la. Ao realizar a AT, o pesquisador poderá realizar es-
colhas ativas, mas é importante deixar claro que cientistas sociais e políticos
precisam ser claros ao justificar as escolhas que estão fazendo e o porquê,
e explicando como fizeram tal análise, mostrando o caminho que percorre-
ram para obter determinados resultados e conclusões.
A seguir, após uma breve apresentação da AT, trataremos das suas
contribuições em relação aos desafios acima mencionados, e que remetem
aos motivos da adoção deste método, e elencaremos indicações práticas de
226
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
como realizar a AT. Por fim, faremos nossas considerações finais.
1.1. Breve origem da aplicação científica da técnica
A análise temática é um método para identificar padrões - que são os
temas – dentro dos dados. É uma forma de organizar e descrever os conjun-
tos de dados. Entretanto, na maioria das vezes vai muito além disso e inter-
preta os vários aspectos da pesquisa (Boyatziz, 1998). Ainda que conside-
rem que não há consenso em relação ao que é e como fazer a AT, Braun e
Clarke (2006) entendem que:
A análise temática é um método para identificar, analisar e rela-
tar padrões (temas) nos dados. Ela organiza e descreve minima-
mente seu conjunto de dados em detalhes (ricos). Entretanto,
frequentemente vai além disso e interpreta vários aspectos do tó-
pico da pesquisa (Boyatzis, 1998) (Braun; Clarke, 2006, p. 78-79).
As autoras descrevem a AT como um método que “envolve a bus-
ca através de um conjunto de dados, seja uma série de entrevistas ou grupos
focais, ou uma variedade de textos, para encontrar padrões repetidos de sig-
nificado” (Braun; Clarke, 2006, p. 86).
Assim, considerando que, quando se trata de um método científico,
o mais importante não é produzir definições fechadas e consensuais, mas
sim apresentar, de um determinado ponto de vista, um conjunto de ideias
que indiquem as orientações gerais deste método, seus objetivos, suas ca-
racterísticas e seus fundamentos e de como ele pode ser usado, uma di-
mensão fundamental da AT é a do entendimento sobre o que são os temas
e seu papel na pesquisa. Neste sentido, mais uma vez, as autoras são preci-
sas quando afirmam que:
Um tema capta algo importante sobre os dados em relação à pergunta
da pesquisa e representa algum nível de resposta padronizada ou signi-
ficado dentro do conjunto de dados e (...) não depende necessariamen-
te de medidas quantificáveis, mas sim do fato de ele captar algo impor-
tante em relação à questão geral da pesquisa (Braun; Clarke, 2006, p. 82).
227
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Daí a importância do que elas identificam como “prevalência” en-
quanto critério, e não propriamente como método de operacionalização ou
de quantificação, pois o importante é que o dado seja encontrado de for-
ma relevante, interessante e coerente com os objetivos da pesquisa (Braun;
Clarke, 2006, 82).
Assim, podemos entender que não se trata de produzir informações ou
um certo volume delas, por mais verdadeiras, comprováveis e frequentes que
sejam, no material empírico, mas sim de produzir argumentos, cuja articulação,
e não meramente a quantificação, a sobreposição ou a agregação, compo-
rão uma argumentação, ou seja, produzirão um arranjo harmônico, coerente
e substantivo de dados, informações e inferências pertinentes, úteis e rela-
cionados com os objetivos da pesquisa e que sustentarão suas conclusões.1
Enfim, o fundamental é a clareza da argumentação e o ganho que esta
estratégia implica na definição dos procedimentos e na construção dos resul-
tados e conclusões.2 Neste sentido, Braun e Clarke nos alertam que as per-
guntas não podem ser usadas como temas sem que haja de fato uma análi-
se, ou seja, não se pode deixar que os dados falem por si ou que quem os lê
tire suas próprias conclusões. Esta é uma das “armadilhas” sobre as quais
as autoras nos alertam, ou seja, deixar de produzir uma “narrativa analítica”
que destaque, articule e dê sentido aos achados (Braun;Clarke, 2006, p. 94).
Como ressaltam Braun e Clarke, a definição do que seriam os temas
e os subtemas deve ter a flexibilidade peculiar à AT, mas isso é sempre de res-
ponsabilidade de quem realiza a pesquisa (2006, p. 82). Apesar dessa flexibi-
lidade, vale ressaltar que, para que haja uma seleção de qualidade dos aspec-
tos temáticos importantes de uma pesquisa é necessário que o pesquisador
domine o assunto, ou seja, saiba quais as teorias e os aspectos relevantes
da área existem, por isso, em qualquer pesquisa, devemos iniciar pela revi-
são bibliográfica, lendo e se inteirando o máximo possível sobre o assunto
a ser analisado. Assim, deve-se escolher o enquadramento teórico que será
utilizado. Voltaremos a esta questão mais adiante.
Por fim, no final de seu artigo, Braun e Clarke trazem uma questão
1. Veremos mais adiante como as autoras utilizam a expressão “argument”, grafado em itálico, quando vão se referir à produção
do relatório de pesquisa (Braun; Clarke, 2006, 93).
2. Nowell et al. (2017, 11) também comentam sobre a forma como a AT orienta o processo de produção dos argumentos e da
argumentação.
228
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
que deve ser colocada e tratada desde já: o que a análise interpretativa de
fato implica. A partir desta questão, as autoras apresentam algumas suges-
tões. Em primeiro lugar, usar exemplos da AT, em especial das experiên-
cias que se aproximam da forma como se pretende utilizá-la. Em segundo
lugar, considerar o fato de que não é possível separar a condição de mem-
bro ou parte da sociedade e analista de fenômenos sociais, em geral reve-
lando alguns de seus aspectos não reconhecidos. Em terceiro lugar, quem
faz a análise deve “ir além da ‘superfície’ dos dados, mesmo para uma aná-
lise de nível ‘semântico’” (Braun; Clarke, 2006, p. 84. Por fim, a necessidade
não apenas de definir temas, mas de construir um “mapa temático” (Braun;
Clarke, 2006, p. 93-94).
Essas questões serão tratadas ao longo deste capítulo, mas entende-
mos que algo já pode ser dito em relação a estas proposições. Como a ques-
tão da objetividade no conhecimento científico se coloca de forma parti-
cular quando se trata de análises qualitativas e como tal assunto extrapola
totalmente os objetivos e as pretensões deste capítulo, vamos nos limitar a
trazer algumas referências às proposições de Max Weber a respeito da pro-
dução de conhecimento científico sobre fenômenos sociais, às quais tam-
bém não serão exploradas em toda a sua complexidade, nem usadas mera-
mente como argumento de autoridade.
Em primeiro lugar, Weber descarta a possibilidade de uma objeti-
vidade pura: “não existe qualquer análise científica puramente ‘objetiva’ da
vida cultural, ou (...) dos fenômenos culturais, que seja independente de de-
terminadas perspectivas especiais e parciais” (Weber, 1999, p. 3). Em segun-
do lugar, para Weber, o que caracteriza uma abordagem científica não é a
verificação das “conexões ‘objetivas’” entre as “’coisas’”, mas sim “as cone-
xões conceituais entre os problemas” (Weber, 2003, p.83). Em terceiro lu-
gar, o seu conceito de Sociologia: “é uma ciência que pretende compreen-
der interpretativamente a ação social e assim explicá-la causalmente em seu
curso e em seus efeitos” (Weber, 1999, p.3).
Em relação à objetividade pura, por um lado, o fato de entendê-la
como inalcançável não significa renunciar à busca da eficácia explicativa so-
bre os fenômenos sociais através do método científico, dado que reconhecer os
229
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
limites das Ciências não muda em nada o que a realidade de fato é. Isso re-
mete à questão levantada por Braun e Clarke de como trabalhar a “dimen-
são subjetiva” sem cair em um “paradigma empirista positivista” (Braun;
Clarke, 2006, 97). Assim, a objetividade no âmbito da AT deve se dar so-
bretudo à clareza na inteligibilidade das formas como se dá esta busca e na
sua adequação aos objetivos da pesquisa. Por outro lado, este método deve
almejar a construção das melhores “conexões conceituais” entre os melho-
res “problemas” de pesquisa, para que se possa compreender, ainda que de
forma interpretativa, as “coisas”, ou seja, as ações sociais e os respectivos sen-
tidos subjetivos, se possível, em suas causas, curso e efeitos.
Braun e Clarke afirmam que AT pode ser entendida como um mé-
todo “contextualista” (aspas no original), que contempla:
As maneiras pelas quais os indivíduos dão significado à sua experiência
e, por sua vez, as maneiras pelas quais o contexto social mais amplo in-
fluencia esses significados, ao mesmo tempo em que mantém o foco no
material e em outros limites da ‘realidade’ (Braun; Clarke, 2006, p. 81).
Na análise qualitativa é importante “que a estrutura teórica e os mé-
todos correspondam ao que o pesquisador quer saber, e que eles reconhe-
çam essas decisões, e as reconheçam como decisões” (Braun; Clarke, 2006,
p. 80).2 A análise temática pode ser um método realista, que relata as expe-
riências e a realidade dos participantes, e também um método construcio-
nista ao examinar a maneira que os eventos e significados operam dentro
de um discurso na sociedade. Enfim, a análise temática pode ser um mé-
todo que funciona tanto para refletir a realidade e para desfazer mitos ou
suposições erradas sobre a própria realidade (Braun; Clarke, 2006, p. 81).
Outro aspecto importante é o da codificação.3 Os códigos “identifi-
cam uma característica dos dados (conteúdo semântico ou latente)” (Braun;
Clarke, 2006, p.88-89), presentes nas unidades de análise e que são interes-
santes para a pesquisa. A estrutura da codificação pode ser mais vinculada
às questões sugeridas pelos fundamentos teóricos ou aos aspectos e ao con-
teúdo dos dados, e pode ser feita manualmente ou utilizando softwares pagos
3. Este aspecto corresponde à Fase 2 do “passo a passo” sugerido por Braun e Clarke (2006). Ver Tabela 1 abaixo.
230
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
e gratuitos disponíveis para este tipo de pesquisa. Seja como for, é funda-
mental estar atento ao contexto da informação que está sendo processada, no
próprio texto e em relação a quem fala e às condições nas quais foi produ-
zido o discurso analisado, no sentido de evitar desprezar informações im-
portantes (Braun; Clarke, 2006, p. 88-89).
Enfim, a codificação não é meramente um procedimento técnico,
mas um momento fundamental da produção do conhecimento científico
resultante da AT. Isso depende das particularidades e dos objetivos da pes-
quisa, o que exige que ela seja, de um lado, explícita, constante, válida e ve-
rificável e, de outro, útil para a defesa da pertinência dos temas e para a sus-
tentação das conclusões. Além disso, exige cuidados especiais quando há
mais de uma pessoa realizando esta tarefa.4
Portanto, mais uma vez, se trata do processo de busca e articula-
ção dos argumentos que vão sustentar a argumentação e todas as informações
fundamentais deste processo devem estar explícitas e claramente apresen-
tadas. Aqui aparece a responsabilidade de evitar a ingenuidade de que esta
contextualização é algo que se resume à intenção de quem faz a pesquisa
ou que se trata de localizar aspectos óbvios e autoexplicativos. Como já vi-
mos acima, a estratégia de interpretação é fundamental para a compreensão cien-
tificamente justificada.
Dito isso, seguimos abaixo tratando das formas como a AT enfren-
ta os desafios da produção de Ciência sobre as relações sociais.
1.1.1 Sobre a flexibilidade da Análise Temática
Um primeiro aspecto que podemos destacar neste item a partir das
proposições de Braun e Clarke é o do modo como tratam das alternativas
na forma de definição dos temas e sua respectiva codificação, a “indutiva” e
a “teórica”. Na primeira, este processo se dá “debaixo para cima” e se carac-
teriza pela construção dos temas a partir do que o próprio material empírico
vai indicando, se aproximando, portanto, da Teoria Fundamentada (Grounded
Theory). Nesta estratégia, os dados são produzidos especificamente para a
pesquisa ou podem seguir os caminhos e os objetivos através dos quais as
4. Sobre a questão dos princípios fundamentais da produção de dados, ver Sampaio e Lycarião, 2021, Capítulo 1.
231
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
informações foram produzidas. Na segunda alternativa, como o nome su-
gere, a teoria adotada serve de referência para a construção mais bem defi-
nida dos problemas de pesquisa, dos procedimentos analíticos e dos temas
(Braun; Clarke, 2006, p. 83-84).
Evitando o que Braun e Clarke chamam de uma “visão realista in-
gênua da pesquisa qualitativa” sobre o que seria ouvir ou “dar voz” aos ato-
res, a análise qualitativa em geral e a AT em particular permitem que o pro-
cesso de construção da compreensão receba contribuições vindas não apenas
da busca de realização dos objetivos de quem faz a pesquisa, mas sobretu-
do dos próprios produtores das informações na definição dos temas e na
produção dos dados. Assim, os próprios dados, assim como os problemas
de pesquisa e até mesmo as questões teóricas, podem ser incrementadas ao
longo da pesquisa empírica pelo surgimento de novos temas sociologica-
mente pertinentes e ricos.
Portanto, se a AT pode ser articulada com diferentes abordagens
teóricas, mais importante ainda se torna a precisão, a coerência e a clareza
da forma como a pesquisa promoveu tal articulação. Neste sentido, mesmo
que comporte um conjunto de problemas de pesquisa ou perguntas especí-
ficas, sempre deve haver uma questão geral que as articule, lhes dê coerên-
cia e potencialize seus respectivos rendimentos analíticos advindo de suas
particularidades. Enfim, aqui também vale manter presente a pergunta aci-
ma mencionada: “E daí?”, no caso, o que essas alterações de fato trazem
para a construção da explicação?
Outro aspecto mencionado apenas de passagem por Braun e Clarke
é o da representação, entendida como a forma que os atores analisados descre-
vem e avaliam as situações, sentimentos, outros atores, instituições ou fatos
presenciados. Não pretendemos tratar da complexa discussão sobre repre-
sentação social, mas apenas indicar que a categoria representação pode ser uma
forma interessante de abordar a fala direta e pessoal dos atores em uma AT.
Podemos recorrer às proposições de Ralf Bohnsack (2020) em re-
lação à representação. Bohnsack afirma que a Sociologia do Conhecimento
não se pergunta se:
As “representações a serem interpretadas” (...) correspondem aos
232
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
critérios de validade da verdade ou da precisão normativa. (...) Não in-
teressa se as representações são (factualmente) verdadeiras ou corre-
tas, interessa apenas o que se documenta nelas em relação àque-
les que representam e em relação às orientações destes (Bohnsack,
2020, p. 85, grifos em negrito nossos e em itálico no original).
Outra forma interessante de tratar da flexibilidade da AT é o “movi-
mento constante de ida e volta” entre o conjunto de dados, a codificação e
a análise dos dados e a redação do texto que condensa os resultados (Braun;
Clarke, 2006, p. 86). A este relato, sugerimos acrescentar a produção de um
relato desta dinâmica e de outros momentos cruciais da pesquisa, com seus
desafios, percalços e sucessos, pois isso também pode ser útil para outras
pesquisas, o que nem sempre é feito, ao menos nas Ciências Sociais no Brasil.
Um momento muito importante da AT é o do arranjo dos dados
obtidos a partir dos códigos e da definição dos temas e da sua agregação,
ou seja, do “mapa temático”, que normalmente vem depois da conclusão
da codificação, quando se tem uma ideia geral dos dados disponíveis. 5Tra-
ta-se de momento importante na verificação da importância dos próprios
códigos, temas e subtemas e do seu “refinamento” que pode implicar em cria-
ção, abandono, revisão, divisão, fusão e perda parcial ou total de importân-
cia, mas também na coerência interna e na diferenciação entre os temas e na
sua capacidade de revelar padrões, e, portanto, exercerem um papel relevan-
te e articulado aos demais temas na análise e na sustentação dos resultados
(Braun; Clarke, 2006, p. 89-91).6 As autoras concluem ressaltando que essa
revisão deve ter duas motivações:
A primeira é (...) verificar se os temas ‘funcionam’ em relação ao conjun-
to de dados. A segunda é codificar quaisquer dados adicionais dentro dos
temas que tenham sido perdidos em estágios anteriores de codificação. A
necessidade de recodificação do conjunto de dados é esperada, pois a co-
dificação é um processo orgânico contínuo (Braun; Clarke , 2006, p.91).
Se o “mapa temático” funcionar, segue-se para a próxima fase. Caso
5. Esta atividade corresponde à Fase 3 do passo a passo de Braun e Clarke (2006). Ver Tabela 1 abaixo.
6. Este aspecto corresponde às Fases 4 e 5 do esquema de Braun e Clarke (2006). Ver Tabela 1 abaixo.
233
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
contrário, a revisão tem que ser feita novamente até que este mapa esteja
satisfatório. Neste processo, novos temas podem surgir, mas as autoras aler-
tam que se deve tomar cuidado para evitar uma “recodificação sem fim” e
o critério para não cair nesse erro é avaliar se há ganhos analíticos, meto-
dologicamente coerentes e sustentados nos dados (Braun; Clarke, 2006, p.
92). Outra sugestão das autoras é que os temas tenham nomes que sejam
“concisos, incisivos”, dando ao leitor uma ideia clara e precisa sobre o que
tema trata e pretende (Braun; Clarke, 2006, p. 93).
Nesta fase, a flexibilidade se dá enquanto ganho em precisão, valida-
de e eficácia da AT relativo ao processo de “ida e volta”, agora no que diz
respeito à relação entre resultado da codificação (dados) e temas. Isso é ne-
cessário para que se articule da melhor forma possível os temas e subtemas e
seus conteúdos, o que impacta na disposição destes argumentos ao longo do
texto. Esse procedimento pode se dar de forma sequencial ou igualmente
com “idas e voltas”, como ocorre no próprio processo de análise do mate-
rial empírico, desde que feita com muita clareza e coerência. Aqui também
vale a pergunta: E daí?. Ou seja, o que de fato se espera que os novos da-
dos e os novos temas agreguem à construção da explicação, já que eles nun-
ca devem falar por si, nem por quem fez a pesquisa.
Isto remete a mais uma das “armadilhas” indicadas por Braun e
Clarke que se deve evitar, ou seja, fazer uma análise fraca e que não traba-
lhe os temas e não use extratos que os ilustrem de forma coerente e consis-
tente e em torno da questão geral da pesquisa e com a própria estratégia de
AT adotada (“construcionista”, “essencialista” ou “contextualista”), o que
poderia implicar também em fazer inferências e generalizações precárias
(2006, p. 94). Por fim, é necessário dimensionar o alcance dos objetivos e
da questão central da pesquisa de acordo com os recursos e as possibilida-
des que a AT oferece e permite (Braun; Clarke, 2006, p. 97).
Braun e Clarke chamam a atenção também para a questão da forma
de apresentação ou de representação visual das estratégias de análise, dos có-
digos, dos temas, dos dados e dos resultados (2006, p. 89-90). Entendemos
que, embora as sugestões feitas sejam interessantes, é importante pensar em
alternativas para além de tabelas, figuras, mapas mentais e mapas temáticos,
234
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
as quais também podem se beneficiar da flexibilidade com a responsabilida-
de que caracteriza a AT.
Em suma, podemos observar que é necessário fazer uma análise o
mais convincente e interessante possível, em todos os seus fundamentos,
e não pretender algo que a pesquisa ou o método não permitem. Assim, a
flexibilidade não é no rigor, na clareza e na precisão dos objetivos, critérios
e fundamentos teóricos e metodológicos, nem na clareza da sua exposição,
mas sim na forma de construí-los. O mesmo ocorre em relação aos ganhos
analíticos, à eficácia explicativa e à fundamentação da compreensão, ainda que
interpretativa, produzida pela pesquisa. Ou seja, produzidos os dados, mais
uma vez, responder à pergunta: E daí?. O que esses dados explicam ou con-
tribuem para a compreensão? Enfim, como em qualquer outro método, não dá
para usar a AT sem conhecê-la bem e sem o preparo e o cuidado necessários.
2. Da diferença da Análise Temática para a Análise de Conteúdo
Como será tratado no próximo capítulo, a análise temática guarda
muitas diferenças em suas atuais aplicações para a Análise de Conteúdo.
Tendo uma origem mais construtivista e mais qualitativa, a AT original-
mente tinha uma preocupação menor com as questões de confiabilidade e
replicabilidade. Podemos afirmar que a técnica não tinha problemas com a
questão de se ter apenas um codificador e da necessidade do estudo ser ne-
cessariamente reprodutível. Como toda abordagem qualitativa, a questão da
subjetividade da codificação sempre esteve presente, mas de outra forma. A
AC se preocupa em fazer isso antes da codificação, usando livro de códigos,
dois ou mais codificadores e testes de confiabilidade. A AT já foi pelo ca-
minho mais natural da pesquisa qualitativa, tendo, recentemente, mais preo-
cupações com questões de triangulação, reflexividade, construção do corpus,
descrição detalhada, surpresa e validação comunicativa. Enquanto alguns li-
vros de código são feitos anteriormente à codificação, podemos dizer que
a maior parte é definida após certo andamento da codificação para afiançar
que não se trata de algo totalmente subjetivo e acrítico. Portanto, critérios
sobre a reflexividade (o impacto do pesquisador na pesquisa) e sobre a va-
lidação dos dados passam a ser importantes para a qualidade da pesquisa.
235
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
3. O modelo de aplicação da Análise Temática
Mesmo sendo muito usada, não há uma definição muito clara do
que é a AT e como fazê-la. Nosso objetivo é auxiliar a resolver essa lacuna
e relembrar a importância de se explicar como fazer essa análise e de enfa-
tizar que quem faz a pesquisa é que deve clarificar como foram feitas as es-
colhas de análise, por que se nós não sabemos como a pessoa analisou seus
dados, ou em quais suposições se baseou, há uma maior dificuldade em ava-
liar a pesquisa, em comparar com outros estudos e mesmo dar sequência a
essa análise.
Algumas etapas da AT são as mesmas de outras análises qualitati-
vas. Após coletar os dados e definir o corpus da pesquisa, é necessário olhar
para os dados, ou seja, ler e perceber as semelhanças e diferenças no mate-
rial, buscar padrões de significado e o potencial dos dados. Essa etapa pode
começar já na coleta dos dados. Por exemplo, se serão analisadas entrevistas
realizadas por quem fez a pesquisa, ele pode ter esses insights ao ir realizan-
do as entrevistas e perceber as semelhanças nas respostas dos entrevistados.
Há dois tipos de abordagem que podem ser utilizadas: indutiva e de-
dutiva. A abordagem indutiva e baseada nos dados não parte de uma grade
pronta de categorias ou temas para analisar os dados, já a dedutiva ou teórica
parte de um conjunto preestabelecido de categorias ou temas bem definidos.
Seja qual for a abordagem, a AT contribui pela sua praticidade e am-
pla aplicabilidade, pois pode ser utilizada em quase qualquer tipo de aná-
lise qualitativa. Mais que isso, tanto o pesquisador novato em análi-
se de dados qualitativos, como o mais experiente, pode se beneficiar da
AT. O novato tem a oportunidade, ao dominar a AT, de desenvolver ha-
bilidades fundamentais que servirão de suporte a outros métodos quali-
tativos, como a grounded theory (teoria fundamentada), a análise de dis-
curso e a análise de narrativas. É por esta razão que se considera a AT
como independente de teorias ou epistemologias (Souza, 2019, p. 53).
O ponto final é o relatório do conteúdo e o encontro dos temas
principais nos dados. Esta estrutura está presente nas técnicas de análise de
dados qualitativos bastante comuns na literatura.
236
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Tais temas são abstratos e baseados nos construtos que os investi-
gadores identificam ao longo da análise (Ryan; Bernard, 2000, p. 780). Um
tema captura algo importante sobre os dados em relação à pesquisa, bus-
cando responder à pergunta de pesquisa. Esse tema pode representar algum
nível de resposta e/ou ter um significado intrínseco ao conjunto de dados.
Uma pergunta importante em termos de codificação é: o que con-
ta como um padrão/tema? Conta algo que prevaleça, que seja recorrente.
Por exemplo, ao analisar as entrevistas e os textos sobre o movimento fe-
minista atual em sua tese, Daniela Drummond (2020) tinha como um dos
seus objetivos perceber se poderia chamar esse período de quarta onda fe-
minista, já havia autoras que mencionavam e caracterizavam esse período,
então busquei nos textos esses temas que marcam essa denominação na li-
teratura, tais como: interseccionalidade; ativismo digital; transnacionalida-
de; e assédio sexual.
Não existe uma regra para definir um tema, por exemplo, precisa
ser predominante em mais de 50% dos textos para ser um tema, isso não
é necessário, embora também seja possível quantificar em algum momen-
to, mas quem vai decidir o que é um tema é o pesquisador, baseado na teo-
ria de sua pesquisa e nos seus achados na análise. No entanto, se na maio-
ria das entrevistas ou material analisado aparece esse assunto, ele deve ser
um tema, já se aparece uma vez em uma das entrevistas, não será um tema
de análise. Os temas “escolhidos”, codificados e analisados precisam refle-
tir uma parte importante do conteúdo do conjunto de dados.
A análise é um vai e volta aos dados e a escrita faz parte dessa análi-
se, tomar nota dos aspectos mais relevantes facilita muito a escrita dos resul-
tados. A escrita não deve ocorrer só no final, como fazemos, por exemplo,
nas análises estatísticas. O ideal é que ela comece na fase inicial, anotando
as ideias, pensando em esquemas, nos temas predominantes com o mate-
rial já coletado, e essa escrita continua no processo de codificação/análi-
se. O registro de ideias, rascunhos e esquemas ao longo do processo facili-
ta muito o andamento da análise.
Assim como Tuckett (2005), nós defendemos que conhecer a litera-
tura contribui para aprimorar a análise, apresentando os recursos mais sutis
237
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
dos dados, percebendo os detalhes e contextualizando com mais facilidade.
A seguir elencamos as fases da análise temática baseadas em Braun
e Clarke (2006).
Tabela 1. Fases da Análise Temática
1. Familiarizar-se Transcrever os dados (se necessário), ler e reler os dados, anotar
com os dados: as ideias iniciais.
2. Geração de Codificar características interessantes dos dados de forma
códigos iniciais: sistemática em todo o conjunto de dados, reunindo dados
relevantes para cada código.
3. Busca de temas: Agrupamento de códigos em temas potenciais, reunindo todos os
dados relevantes para cada tema potencial.
4. Revisão dos Verificar se os temas funcionam em relação aos extratos
temas: codificados (Nível 1) e a todo o conjunto de dados (Nível 2),
gerando um “mapa” temático da análise.
5. Definição e Análise contínua para refinar as especificidades de cada tema e
nomeação de temas: a história geral que a análise conta, gerando definições e nomes
claros para cada tema.
6. Produção do A oportunidade final para a análise. Seleção de exemplos de
relatório: extratos vívidos e convincentes, análise final dos extratos
selecionados, relacionando a análise com a questão da pesquisa e a
literatura, produzindo um relatório acadêmico da análise.
Fonte: Extraído de Braun e Clarke (2006, p.87).
Também listamos algumas dicas para facilitar a codificação na AT:
● Procurar por palavras ou frases usadas repetidamente pelos atores;
● Procurar pelo inesperado;
● Ouvir as histórias dos atores (O’connor; Gibson, 2003);
● Procurar por subtópicos dentro de cada categoria, incluindo
238
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
pontos de vista contraditórios e novas ideias. Selecionar excertos que exem-
plifiquem a essência de uma categoria;
● Lembrar que um tema geralmente responde algo sobre a pergun-
ta de pesquisa;
● Lembrar que como se está lidando com análise qualitativa, não
há uma resposta padronizada para a questão de qual deve ser a proporção
de dados necessária.
Se a flexibilidade, as idas e vindas e outros aspectos da AT não per-
mitem o estabelecimento de uma única e definitiva sequência de procedi-
mentos, mais do que possível, é necessário indicar um passo-a-passo, até
como referência para os eventuais ajustes e adaptações. Entretanto, enten-
demos que nenhum passo-a-passo prescinde dos aprendizados cumulativos
advindos da experiência concreta e pessoal de fazer uma pesquisa, seja qual
for o estágio da carreira de quem a faz.
Apesar disso, é possível estabelecer critérios que garantam a quali-
dade do processo de análise, não criando um padrão a ser seguido, mas sim
sugerindo formas de desenvolvimento de pesquisa. Braun e Clarke (2006)
propuseram os critérios descritos na tabela abaixo:
239
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Tabela 2 - Lista de verificação de 15 pontos de critérios para uma boa Análise
Temática
Processo nº Critérios
Transcrição Os dados foram transcritos em um nível adequado de detalhes, e
1 as transcrições foram verificadas em relação às fitas para garantir a
"precisão".
Codificação Cada item de dados recebeu a mesma atenção no processo de
2 codificação.
Os temas não foram gerados a partir de alguns exemplos vívidos (uma
3 abordagem anedótica), mas, em vez disso, o processo de codificação
foi minucioso, inclusivo e abrangente.
4 Todos os extratos relevantes para cada tema foram reunidos.
Os temas foram comparados entre si e com o conjunto de dados
5
original.
Os temas são internamente coerentes, consistentes e distintos.
6
Análise Os dados foram analisados/interpretados, entendidos/em vez de
7 apenas parafraseados ou descritos.
A análise e os dados correspondem entre si / os extratos ilustram as
8
afirmações analíticas.
A análise conta uma história convincente e bem organizada sobre os
9
dados e o tópico.
Há um bom equilíbrio entre a narrativa analítica e os extratos
10 ilustrativos.
Geral Foi alocado tempo suficiente para concluir todas as fases da análise
11 de forma adequada, sem apressar uma fase ou dar a ela uma ligeira
revisão
Relatório As suposições e a abordagem específica da análise temática são
escrito 12 claramente explicadas.
Há uma boa adequação entre o que você afirma fazer e o que você
13 demonstra ter feito, ou seja, o método descrito e a análise relatada são
consistentes.
A linguagem e os conceitos usados no relatório são consistentes com
14 a posição epistemológica da análise.
O pesquisador é posicionado como ativo no processo de pesquisa; os
15
temas não "emergem" simplesmente.
Fonte: Extraído de Braun e Clarke (2006, p. 96).
240
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
A indicação clara e precisa dos critérios de definição da prevalência
dos temas e a caracterização da forma de expressar a sua presença nas infor-
mações encontradas no material empírico são procedimentos fundamen-
tais para testar as hipóteses e sustentar as inferências e conclusões, ou mes-
mo para incorporar novos temas e perguntas de pesquisa, dentro da lógica
da flexibilidade que caracteriza a AT.
Entretanto, é fundamental que todos os critérios, procedimentos e
ferramentas sejam estabelecidos de forma clara e precisa. Ou seja, se há ine-
vitavelmente subjetividades em qualquer abordagem científica, pois mes-
mo nas ferramentas de Inteligência Artificial há processos de treinamento
e de estratégias de alimentação de informações de alguma forma definidos
por alguém, isso não significa a possibilidade de haver obscuridade em rela-
ção àquelas dimensões fundamentais. Como dissemos acima, isso é impor-
tante tanto interna quanto externamente à pesquisa.
Outra indicação de Braun e Clarke muito importante para a ques-
tão da relação entre subjetividade e objetividade na AT é o desafio de defi-
nição do “nível” de identificação dos temas. As autoras ressaltam que quan-
do a pesquisa se volta para o “nível semântico ou explícito”, não se busca
“algo para além do que foi dito ou o que foi escrito”. Assim, a escolha dos
temas considera o “nível explícito” do discurso, produzindo uma “descrição”
que simplesmente organiza e sumariza os dados que indicam “padrões nos
conteúdos semânticos”, para daí chegar na “interpretação”, quando a teo-
ria e o diálogo com a literatura atuam na construção dos significados des-
tes padrões.
Já no “nível latente” a análise vai além do que está explícito e busca
identificar ou examinar “ideias subjacentes, suposições e conceitualizações
e ideologias que são teorizadas como moldando ou informando o conteú-
do semântico dos dados” (Braun; Clark, 2006, p. 84). Neste nível, a inter-
pretação dos dados ultrapassa a descrição e contempla as questões teóricas.
Embora esta distinção seja interessante, as autoras a apresentam
como uma decisão a ser tomada por quem realiza a pesquisa e como dois
níveis estanques. Entendemos que tal distinção implica mais propriamen-
te em questões epistemológicas e esse não seria o melhor caminho, ou ao
241
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
menos o único, para o uso da AT como método. Afinal, a interpretação se im-
põe, seja qual for o nível. Portanto, nos parece necessário a consideração de
que há continuidades no interior e entre estes níveis que podem ser importan-
tes na construção tanto dos temas e dos dados, quanto da sua interpretação.
Um exemplo de análise temática na Ciência Política foi a realizada
por Daniela Drummond em sua tese A quarta onda do movimento feminista no
jornalismo brasileiro e português: um estudo sobre as coberturas jornalísticas da Folha
de S. Paulo e do Público (2013-2018) defendida no Departamento de Ciência
Política, na Universidade Federal do Paraná, no ano de 2020. A análise te-
mática consistiu na segunda parte da tese, primeiramente a autora realizou
uma análise de conteúdo dos jornais Folha de São Paulo e Público e, para com-
plementar a análise dos jornais, realizou entrevistas com: 1) jornalistas que
trabalham nos jornais que fazem parte da amostra ou que estão ligados à te-
mática feminista; e 2) ativistas feministas e porta-vozes de organizações que
buscam a igualdade de gênero e tem maior visibilidade no país de origem.
Após realizar as entrevistas e transcrevê-las, Drummond (2020) op-
tou por realizar uma análise temática das mesmas com o apoio do software
NVivo. O processo da análise temática usado nas análises qualitativas tem
início quando o pesquisador procura nos seus dados padrões de significa-
dos e questões de possível interesse à pesquisa, podendo acontecer já du-
rante a coleta de dados ou na condução das entrevistas.
A partir da análise temática das entrevistas, a autora concluiu que
os temas mais frequentes da quarta onda feminista em Portugal são a vio-
lência no namoro, as diferenças salariais, o assédio sexual, a violência con-
tra a mulher, as questões da justiça machista que culpabiliza as vítimas e as
questões LGBTI. As conquistas mais recentes são os avanços na legislação
quanto ao tratamento do feminicídio e à despenalização do aborto.
Foi por meio da análise qualitativa que a autora confirmou sua hi-
pótese de uma nova onda feminista, a quarta onda, já que as ativistas entre-
vistadas reconhecem uma nova fase do feminismo, algumas usam a expres-
são quarta onda, a questão da internacionalização fica evidente nas falas, da
forma com que as temáticas ultrapassam fronteiras, como exemplo as de-
núncias de estupro e assédio feitas na campanha #MeToo, além do amplo
242
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
uso da internet na militância.
4. O relatório e o olhar do pesquisador
A análise final e a escrita do relatório apresentam as escolhas de
quem faz a pesquisa. Por sua vez, há cuidados importantes para a produção
do relatório que descreve os objetivos, os fundamentos, os procedimentos
adotados e as evidências que sustentam os resultados da pesquisa. Braun e
Clarke sugerem a seleção de exemplos e trechos do material que apresen-
tem de forma clara e direta o que se pretende demonstrar. Neste momen-
to, as autoras usam a expressão “argument” para enfatizar que não se trata
de mera descrição dos dados, mas sim de apresentar o que sustenta a pes-
quisa, em cada uma de suas partes estruturais: objetivos, fundamentos teó-
ricos e metodológicos e resultados (Braun; Clarke, 2006, p. 93).
Esta fase tem uma importância e um ganho interno fundamental:
organizar os argumentos em uma argumentação inteligível, coerente e com efi-
cácia explicativa. E tem a sua dimensão pública, ou seja, passará pelo crivo
de algum tipo de avaliação externa, seja em um evento, em um texto para
publicação (artigos e capítulos) ou um trabalho de conclusão.
Para destacar que há diversas formas de realizar uma AT, nos ba-
seamos novamente na análise de Braun e Clarke (2006). Relatar uma AT
em um artigo científico, pesquisa ou tese envolve narrar a história comple-
xa dos dados para convencer quem lê sobre o mérito e a validade da pes-
quisa realizada.
Podemos mencionar outra “armadilha” que as autoras nos alertam,
que é a da incoerência entre os dados e as conclusões produzidas, o que pode
até gerar suspeições em relação à pesquisa ou entre os dados e os fundamen-
tos teóricos adotados. Elas exemplificam esta situação da seguinte forma:
Se você estiver trabalhando com uma estrutura experiencial, nor-
malmente não fará afirmações sobre a construção social do tópi-
co de pesquisa e, se estiver fazendo uma análise temática construcio-
nista, não tratará o discurso das pessoas sobre a experiência como uma
janela transparente para o mundo delas (Braun; Clarke, 2006, p. 95).
243
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Por fim, este item buscou destacar a importância de um cuidado
que poderíamos expressar em torno de uma pergunta que quem faz a pes-
quisa tem que sempre se colocar: “E daí?”. Ou seja, além da qualidade e
da autenticidade da informação, qual é a sua pertinência e o que ela agre-
ga ao processo da pesquisa e à produção de seus resultados? Isso é que vai
ajudar na distinção acima mencionada entre informações e argumentos, ou
seja, quando tais informações, enquanto dados, compõem de forma harmô-
nica, coerente, criativa e produtiva uma argumentação que sustenta a interpre-
tação e a compreensão.
A análise pode conter gráficos ou ilustrações para explicar as esco-
lhas. No exemplo que usamos, a autora optou por não utilizar mapas e ilus-
trações. Souza (2019) elenca os temas nos retângulos e os subtemas no for-
mato oval e explica que os subtemas são, essencialmente, temas dentro de
um tema que também podem demonstrar a hierarquia de significados den-
tro dos dados.
Figura 1: Exemplo de ilustração de temas e subtemas
Fonte: Souza, 2019, p.61
O relatório deve fornecer evidência suficiente dos temas nos dados,
escolhendo os melhores exemplos que capturam a essência do argumento
que se está tentando ilustrar. A narrativa analítica precisa ir além da descri-
ção dos dados, mas analisá-los, construindo um argumento na relação com
a pergunta de pesquisa.
Também é possível a apresentação de ilustrações nos resultados, de
um mapa temático O trabalho original de Braun e Clarke (2006) fornece
exemplos de um mapa temático inicial, o mapa em desenvolvimento, e o
244
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
mapa temático final. Esse mapa pode ser apresentado no artigo final, mas
muitas vezes é suprimido por falta de espaço.
A clareza nos procedimentos é um critério de confiabilidade que diz
respeito à boa documentação, à transparência e ao detalhamento de expo-
sição dos procedimentos na busca e na análise dos resultados. É importan-
te gerar condições para que outros pesquisadores possam reconstruir o que
foi realizado em cenários de pesquisa diferentes. A tabela abaixo, baseada
em Nowell et al. (2017), exemplifica alguns dos critérios para que uma AT
cumpra os ideais de confiabilidade.
Tabela 3. Os seis critérios de confiabilidade para a Análise Temática (Nowell et
al., 2017)
Credibilidade Coerência entre o ponto de vista dos atores e a “representação”
que deles faz o/a pesquisador/a.
Transferibilidade Clareza na possibilidade de generalização e disponibilização
dos resultados.
Fiabilidade O processo de pesquisa é lógico, rastreável e claramente
documentado.
Confirmabilidade Demonstração de que a interpretação e os achados são
efetivamente derivados dos dados e ocorre quando a
credibilidade, a transferibilidade e a fiabilidade foram alcançadas.
Auditabilidade Apresentar de forma clara e bem justificada as decisões e
escolhas feitas pela pesquisa em relação à teoria e à metodologia,
permitindo que outras pessoas possam seguir o caminho dessas
decisões, escolhas e os respectivos resultados.
Reflexibilidade Registro detalhado dos processos pessoais, das reflexões
internas e do diálogo externo relativos aos objetivos, às decisões
e suas justificativas e os achados (insights) ao longo da pesquisa.
Fonte: elaborado pelos autores, a partir de Nowell et al. (2017, p. 3).
Nowell et al. (2007), baseados no passo a passo de Braun e Clarke
(2006), também apresentam critérios que garantam confiabilidade em cada
245
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
uma das seis fases da AT, demonstrados na tabela abaixo:
Tabela 4. Estabelecendo a confiabilidade durante cada fase da Análise Temática
Fases da Análise Temática Meios de estabelecer confiabilidade
Fase 1: Familiarização Envolvimento prolongado com os dados
com seus dados
Triangulação de diferentes modos de coleta de dados
Documentar pensamentos teóricos e reflexivos
Documentar pensamentos sobre possíveis códigos/temas
potenciais
Armazenar dados brutos em arquivos bem organizados
Mantenha registros de todas as notas de campo dos dados,
transcrições e anotações de reflexões
Fase 2: Geração de códigos Checagem dos resultados com os colegas e realização de ajustes
iniciais
Triangulação entre pesquisadores
Registro no diário de reflexões
Uso de um quadro de codificação
Registro do processo de tomada de decisões na geração de
códigos
Documentação de todas as reuniões de checagem dos
resultados com os colegas e de realização de ajustes
Fase 3: Busca por temas Triangulação entre pesquisadores
Diagramação para dar sentido às conexões entre os temas
Manter anotações detalhadas sobre o desenvolvimento e
hierarquias de conceitos e temas
Fase 4: Revisão de temas Triangulação entre pesquisadores
Exame dos temas e subtemas pelos membros da equipe
Teste de adequação referencial retornando aos dados brutos
246
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Fase 5: Definição e Triangulação entre pesquisadores
nomeação de temas
Checagem dos resultados com os colegas e realização de ajustes
Consenso da equipe sobre os temas
Documentação das reuniões da equipe sobre os temas
Documentação da escolha de nomes para os temas
Fase 6: Produção do Checagem pelos membros
relatório
Checagem dos resultados com os colegas e realização de ajustes
Descrição do processo de codificação e análise com os detalhes
necessários
Descrições detalhadas do contexto
Descrição do processo de tomada de decisões
Relatório sobre os motivos das escolhas teóricas, metodológicas
e analíticas durante todo o estudo
Fonte: Extraído de Nowell et al. (2017, p. 4).
A transparência desempenha para a pesquisa qualitativa funções se-
melhantes à validade interna e externa na pesquisa quantitativa. Cabe ao pes-
quisador proporcionar suficiente descrição do contexto social do cenário
da pesquisa e dos sujeitos analisados e das fases de sua elaboração para que
os leitores fiquem aptos a determinar a proximidade de suas situações com
o cenário relatado na pesquisa e até se descobertas podem ser transferíveis.
5. Aplicações em Ciência Política
Em uma busca na Web of Science, nas mais de 50.000 referências à
“Análise Temática”, com forte predominância de artigos e revisões, as/os
dez autoras/es que mais publicaram são da área de Saúde. Deste montan-
te, dos 126 que estão na categoria “Ciência Política”, a grande maioria é da
área de Psicologia Política.7
Quando selecionamos as revistas que se aproximam mais do que em
7. Assim como na pesquisa na Scopus e na Scielo Citation Index, foi usada a expressão “Thematic Analisys” considerando todos os
itens de busca. Os levantamentos foram feitos em 26/09/2023.
247
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
geral consideramos Ciência Política no Brasil, o número de trabalhos cai para
20. Destes, o trabalho mais citado é o de Toby James, publicado em 2014, e
apresenta a AT como uma metodologia inovadora na análise dos efeitos da
mudança na forma do registro eleitoral feita pelo governo do Reino Unido.
Através de entrevistas com as autoridades eleitorais locais, James busca no
“conhecimento local” dos “burocratas de nível de rua”, uma forma de ve-
rificação destes efeitos (James, 2014).
Dos dois outros trabalhos mais citados, um usa a AT para interpre-
tar as “representações sociais” expressas em notícias com posições negacio-
nistas em relação a mudanças climáticas, AIDS e covid-19 (Jaspal; Nerlich,
p.2022) e o outro analisa situações em que os cidadãos poderiam desempe-
nhar o papel de “empreendedores políticos” e usa a AT em grupos focais e
entrevistas com indivíduos que atuam por políticas públicas voltadas para
o autismo (Callaghan; Silvester, p. 2021).
É interessante notar que se destes 20 trabalhos o mais citado é de
2014, a grande maioria dos demais foi publicada entre 2021 e 2023, o que
indica uma tendência de crescimento no uso da AT, o que merece um acom-
panhamento e uma análise mais criteriosa no futuro.8
Apesar do baixo índice, apresentaremos trabalhos com uso de AT na
Ciência Política, para demonstrar suas amplas possibilidades de uso. Autores
internacionais como Ofosu-Anim e Seung-Hee Back (2021), da Coreia do
Sul, desenvolveram um quadro conceitual para discutir como ele pode ser
utilizado para as questões de liderança política. Eles realizaram uma revisão
temática da literatura sobre liderança política e identificaram 27 diferentes
teorias e práticas que elucidaram os princípios da teoria e prática da liderança
política, com os resultados obtidos desenvolveram uma estrutura conceitual,
identificaram dois temas: 1. Comportamental e características da perspecti-
va; e 2. Deliberativa perspectiva consultiva. E quatro processos de lideran-
ça política: 1) Promessa; 2) Mandato; 3) Representação; 4) Causalidade. Eles
seguiram a metodologia sugerida por Braun e Clarke (2006).
Já Julien Vrydagh (2021) realizou uma análise temática dos relatórios
8. Na base da Scopus houve o retorno de 73 mil referências com ano de publicação entre 1963 e 2024, com um crescimento
exponencial a partir de 2011. A predominância também é da área de Saúde, mas com uma presença maior das Ciências Sociais,
que ocupa o segundo lugar depois de Medicina, mas não há referência à área de Ciência Política.
248
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
dos minis públicos da Bélgica entre 2001 e 2021. Os minis públicos delibe-
rativos são grupos que participam das discussões deliberativas como for-
ma de solucionar problemas da sociedade, por meio da transformação des-
sas demandas em políticas públicas. O objetivo da pesquisa foi verificar se
e como as justificativas apresentadas nesses relatórios coincidem com a teo-
ria política que ressalta a importância da organização dos minis públicos no
processo de tomada de decisão e de criação de políticas. O autor conduziu
uma análise temática indutiva para mapear como os organizadores conce-
bem as funções dos minis públicos, seguindo as seis etapas propostas por
Braun e Clarke (2006). Primeiramente, ele olhou os dados para identifi-
car os temas que vinham do relatório, o que resultou em aproximadamen-
te 1100 itens brutos codificados e a primeira leitura revelou uma grande di-
versidade nas contribuições dos minis públicos. Em seguida, desenvolveu
‘recipientes conceituais’ para distribuir e categorizar o volume de dados e a
teoria (Sartori, 1970, p.1039). Em seguida, comparou os resultados encon-
trados com a literatura teórica, e seu achado foram discrepâncias entre teo-
ria e prática. Sua análise revelou que funções comuns na prática são pouco
teorizadas pelos estudiosos.
Na Ciência Política brasileira, entre os exemplos de uso da análise te-
mática está o trabalho de Rafael Silveira e Silva e Suely Mara Vaz Guimarães
de Araújo (2020), que analisou a estratégia de atuação de parlamentares que
se dedicam e se destacam na articulação política na arena de produção de
leis, denominados agenda holders. Os autores tinham como objetivo “apre-
sentar os marcos analíticos e o delineamento desse conceito no âmbito dos
Estudos Legislativos e propor estratégias metodológicas para a observação
e análise desses agentes políticos no Congresso Nacional” (Silva; Araújo,
2020, p.19).
Para observarem a atuação dos agenda holders, Silva e Araújo rea-
lizaram a análise temática, se aprofundando no conteúdo dos debates que
ocorrem no Legislativo e nos mecanismos de centralização adotados para
a tramitação de algumas proposições:
A análise temática exige um conhecimento detalhado dos assuntos tra-
tados no Congresso Nacional, o que requer familiaridade com os atores
249
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
envolvidos e com a forma que geralmente o Legislativo funciona. Um dos
recortes metodológicos que podemos adotar para verificar a atuação dos
agenda holders pelo tratamento temático é observar seus papéis nos proces-
sos de apropriação da agenda do Legislativo, nos quais também se pode
observar a atuação do Presidente da República (Silva; Araújo, 2020, p.24).
Outra pesquisa usando a análise temática na Ciência Política nacional
foi a realizada por Sarmento, Elias e Marques (2023), no texto A comunica-
ção digital e as pautas das deputadas brasileiras “de direita” no Instagram, as autoras
realizam uma análise temática do conteúdo das parlamentares na rede social
para compreender quais temas específicos relativos a questões de gênero e
direitos das mulheres foram mobilizados pelas legisladoras nas suas posta-
gens. Como metodologia utilizam a análise temática de conteúdo e análise
do discurso, codificando, a partir de temas relacionados às políticas para as
mulheres, 423 posts do Instagram de nove parlamentares.
Já Ituassu et al. (2023) no texto Mídias Digitais, Eleições e Democracia
no Brasil: Uma Abordagem Qualitativa para o Estudo de Percepções de Profissionais
de Campanha realizaram entrevistas semiestruturadas com profissionais de
campanha eleitoral no Brasil, em seguida a equipe transcreveu as entrevis-
tas e realizou uma análise temática das mesmas. “Entre a primeira e a se-
gunda etapa, foi desenvolvido um livro de códigos com temas (categorias)
e definições (indicadores)” (Ituassu, 2023, p.7). Um aspecto importante do
trabalho de Ituassu et al. (2023) os autores explicam como realizaram a aná-
lise temática adaptando as sugestões de Nowell e colegas (2017). Durante
o processo, os autores trabalharam com vários temas até chegarem a três
altamente mencionados: 1) democratização; 2) fake news; e 3) segmentação.
Considerações finais
A pesquisa qualitativa tem desafios, principalmente para pesquisa-
dores iniciantes, além disso, as pesquisas têm um limite de recursos de tem-
po e de condições financeiras para realizá-las. As exigências são menores
para um estudante de graduação e maiores para um mestrando e doutoran-
do sucessivamente, entretanto, toda pesquisa precisa ser finalizada em algum
250
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
momento. Explorar os temas e análises pode ser algo infinito, que se não
tiver um prazo de dois anos como no mestrado ou quatro anos como no
doutorado pode nunca ter fim. Cabe ao pesquisador decidir quando parar.
Se o objetivo deste capítulo foi apenas apresentar e dar indicações
de onde e como usar a AT, olhando sobretudo para a Ciência Política, a ex-
pectativa é que ele sirva como ponto de partida para o surgimento de no-
vos trabalhos em quaisquer áreas, sejam de natureza metodológica, sejam
de pesquisas empíricas, que acrescentem e cheguem muito além do que aqui
está sendo apresentado. Certamente, lacunas ficaram abertas, o que é inte-
ressante no sentido de fomentar novas análises, desenvolvimentos e apli-
cações da AT, por exemplo, no aprimoramento das revisões de literatura.
Um ganho importante que se busca com a AT, e que reforça a ideia
de Braun e Clarke de que deveria fazer parte dos primeiros passos da for-
mação de pesquisadoras/es, é o de fomentar nestes o exercício da crítica
no sentido da criação de algo inédito e interessante, de cunho pessoal, indi-
vidual e subjetivo, mesmo quando articulado com um coletivo ou grupo de
pesquisa. Enfim, não ser dependente dos resultados produzidos pelos mé-
todos, pelas ferramentas, pelos softwares e especialmente pela inteligência ar-
tificial, e produzir um conhecimento que possa não apenas ser compreen-
dido, verificado, testado e igualmente objeto da crítica de outras pessoas,
mas que produza compreensão, ainda que interpretativa.
Como ocorre com todos os métodos científicos, a AT e quem a uti-
liza devem se manter atualizados em relação às exigências dos periódicos,
ao desenvolvimento de novas ferramentas, aos avanços da literatura sobre
este método e também às novas formas de divulgação e obtenção de con-
tribuições e críticas, como as redes sociais e os preprints.
Seja qual for a natureza da estratégia de análise, é fundamental, sem-
pre que possível e particularmente na área de Ciência Política, o esforço em
produzir prospecções, indicar tendências, sugerir e contribuir com as formas
de enfrentar os desafios e problemas sociais concretos aos quais a pesquisa
remete. Se há o convencimento de que a abordagem qualitativa é cientifi-
camente válida, não há por que deixar de lado as contribuições específicas
que ela pode trazer para a sociedade, para a qualificação do debate e para a
251
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
mídia em geral, e não apenas para o âmbito acadêmico.
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
08
Análise de conteúdo qualitativa em Ciência Política 1
Rafael Cardoso Sampaio
Paula de Oliveira Portela
Pedro Beff
Tiago Borges
Murilo Brum Alison
1. Parte do conteúdo deste capítulo havia sido publicada em Sampaio, Portela, Araújo (2022), mas foi atualizada, adaptada para
uma abordagem qualitativa e focada em Ciência Política.
255
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
Este capítulo tem como objetivo apresentar uma proposta resumida de uma
aplicação científica da técnica de pesquisa análise de conteúdo (AC) em seu
modo qualitativo. A técnica pode ser considerada uma das principais for-
mas de análise de dados qualitativos na pesquisa brasileira, seja para análise
de textos e conteúdos produzidos por diferentes instituições ou atores, seja
para avaliar o resultado gerado por outras técnicas de coleta de dados qualita-
tivos, como entrevistas e grupos focais. Trata-se de técnica vastamente uti-
lizada em várias áreas de pesquisa, como, por exemplo, Administração,
Ciência da Informação, Ciências Contábeis, Ciência Política, Comunicação,
Educação, Enfermagem, Psicologia, Saúde Coletiva, Sociologia dentre tantas
outras (Deslandes e Iriart, 2012; Leite, 2017; Sampaio et al., 2022a, 2022b).
Mozzato e Grybovski (2011, p.733) observam que qualquer técni-
ca de análise de dados, em última instância, significa uma metodologia de
interpretação e, como tal, possui procedimentos peculiares, envolvendo a
preparação dos dados para a análise, visto que esse processo consiste em
extrair sentido dos dados de texto ou imagem. Nesta linha, a análise de con-
teúdo, particularmente, seria um método de análise de texto, que faz uma
ponte entre um formalismo estatístico e a análise qualitativa dos materiais
que compõe o seu corpus de texto (Bauer, 2007, p. 190).
Assim, pode-se dizer, sucintamente, que a análise de conteúdo é
uma técnica de pesquisa que permite, de forma sistemática, a descrição das
mensagens e das atitudes atreladas ao contexto da enunciação, bem como
as inferências sobre os dados coletados (Cavalcante; Calixto; Pinheiro, 2014,
p.14). Diante disto, uma das características da AC é que ela reduz a com-
plexidade de uma coleção de textos: a classificação sistemática e a conta-
gem de unidades de texto destilam uma grande quantidade de material em
uma descrição curta de algumas de suas características (Bauer, 2007, p. 191).
Note-se que há considerável debate na literatura a respeito da na-
tureza essencialmente – ou, ao menos, predominantemente – quantitati-
va da análise de conteúdo. Segundo Sampaio e Lycarião (2021), autores de
peso como Neuendorf (2002), Riffe, Lacy e Fico (2014) assumem aberta-
mente que “só se considera análise de conteúdo aquela que gerar resultados
256
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
quantitativos” (2021, p. 15). Por outro lado, há uma ampla gama de autores,
como Drisko, Maschi (2016), Mayring (2014), Krippendorff (2004) e Bardin
(2016), que não aderem a essa perspectiva, demonstrando haver, sim, análi-
ses de conteúdo qualitativas. Ante este quadro, Bauer (2007, p. 190) asseve-
ra o caráter híbrido da AC, uma vez que mantém características tanto quan-
titativas quanto qualitativas.
Desse modo, a pertinência do uso da análise de conteúdo estará sub-
metida às potencialidades que esta técnica apresenta para responder aos pro-
blemas/questões da pesquisa que está sendo mobilizada. A própria forma
como a análise de conteúdo será configurada depende diretamente do tipo
de pergunta a que se deseja dar resposta. A construção de uma pergunta
de pesquisa qualitativa, por exemplo, requer uma imersão prévia com o in-
tuito de compreender o objeto e sua essência. A análise de conteúdo, neste
cenário, emerge como técnica que se propõe à apreensão de uma realidade
visível, mas também uma realidade invisível, que pode se manifestar ape-
nas nas “entrelinhas” do texto, com vários significados (Cavalcante; Calixto;
Pinheiro, 2014, p. 15).
Grosso modo, as categorias analíticas e a codificação precisam ser
confiáveis, quer dizer, realizadas por dois ou mais codificadores que clas-
sificam o conteúdo de uma forma razoavelmente padronizada entre si, o
que busca dirimir o viés da codificação humana. Deseja-se que a pesquisa
seja replicável após a sua realização, ou seja, que possa ser repetida em um
contexto diferente do original. E, finalmente, a análise de conteúdo preci-
sa ser válida tanto no sentido de, efetivamente, mensurar os conceitos nos
quais é baseada quanto no sentido de representar, de fato, o fenômeno sen-
do estudado.
Neste bojo, a análise de conteúdo apresenta uma série de vanta-
gens e fraquezas metodológicas dignas de nota. Dentre os seus pontos for-
tes da AC, Bauer (2007) salienta que: 1) ela é sistemática e pública; 2) ela faz
uso principalmente de dados brutos que ocorrem naturalmente; 3) presta-
-se para dados históricos; e 4) ela oferece um conjunto de procedimentos
maduros e bem documentados (Bauer, 2007, p. 212). Por sua vez, as prin-
cipais fraquezas seriam: (i) introduzir inexatidões de interpretação; (ii) não
257
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
reproduzir o contexto original da análise; (iii) tender a se centrar em fre-
quências e descuidar do que está ausente; e (iv) perder a relação entre códi-
gos e texto (Sampaio; Lycarião, 2021, p. 24). Também como possível limi-
tação, a literatura ressalta que:
o método apresenta ainda um outro ponto controverso, quan-
do nem sempre um tema frequente é necessariamente um tema im-
portante ou, ao contrário, que um tema pouco frequente não seja
relevante para a compreensão dos fenômenos estudados. Talvez exis-
tam temas que sejam reprimidos, de difícil verbalização ou de difí-
cil manifestação visual (Cavalcante; Calixto; Pinheiro, 2014, p. 17).
Isto posto, a observância rigorosa dos procedimentos estipulados
para a aplicação da análise de conteúdo serve para balizar epistemologica-
mente a validade científica do método e minorar os riscos das fraquezas e
limitações acima mencionados. Este trabalho tem exatamente o intuito de
iluminar, de maneira prática, essa intrincada dinâmica procedimental que
caracteriza a AC. Assim, depois de expor, muito superficial e introdutoria-
mente, as características e funções, pertinência e potencialidades, vanta-
gens e desvantagens, é possível expor a definição que iremos adotar da téc-
nica em questão:
Análise de conteúdo é uma técnica de pesquisa científi-
ca baseada em procedimentos sistemáticos, intersubjetivamen-
te validado e públicos para criar inferências válidas sobre determi-
nados conteúdos verbais, visuais ou escritos, buscando descrever,
quantificar ou interpretar certo fenômeno em termos de seus significados,
intenções, consequências ou contextos (Sampaio; Lycarião, 2021, p. 17).
Existem inúmeras aplicações da Análise de Conteúdo, que podem
restringir-se desde a ser a técnica principal em si e gerar dados, bem como
uma técnica complementar para análise de dados gerados por outras téc-
nicas de pesquisa - como entrevistas qualitativas, entrevistas em profundi-
dade, entrevistas narrativas, histórias de vida, grupos focais, resultados de
observação participante e etnografia, questionários abertos etc. (Bardin,
258
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
2016; Flick, 2009; Schreier, 2012; Sampaio; Lycarião, 2021 p. 21). No caso
de ser a técnica principal, há uma miríade enorme de objetos e conteúdos
que podem ser classificados pela AC, a exemplo de documentos de insti-
tuições (atas, relatórios, documentos de arquivos públicos, contratos, licita-
ções registros, ofícios, correspondência, atas, memoriais, memorandos, co-
municados, prontuários, documentos clínicos, ambulatoriais e hospitalares),
produtos acadêmicos (papers, artigos, capítulos, livros, monografias, disser-
tações, teses etc.), materiais didáticos, websites e blogs, postagens em redes
sociais online (incluindo comentários, memes, imagens, áudios, vídeos etc.),
leis regulamentações (leis, projetos de leis, decretos, regulamentos, instru-
ções normativas, resoluções, portarias, medidas provisórias, etc.), audiovisual
(HGPE, TV, cinema, vídeos, novelas, séries, vídeos de redes sociais), notí-
cias (TV, impresso, rádio, internet), debates, discursos e pronunciamentos,
diários e (auto)biografias, letras de música, material literário, dentre outras
possibilidades (Sampaio et al., 2022b).
Finalmente, retomando os pontos iniciais, este capítulo busca suprir
duas lacunas apontadas na literatura. Em primeiro lugar, Sampaio e colegas
(2022a) fizeram uma compreensiva revisão cientométrica do uso da técnica
na base SciELO. Os autores localizaram 3.484 artigos que fazem uso da téc-
nica, estando divididos entre ciência da vida (especialmente, Enfermagem e
Saúde Coletiva) e Humanidades (notadamente, Psicologia, Administração e
Educação). Ao analisar os artigos mais citados em conjunto em termos de
AC, a pesquisa aponta que há um uso muito excessivo do manual de Bardin
em todos os colégios da pesquisa brasileira (humanidades, ciências da vida
e exatas). Os autores denotam que isso pode ser um indicativo da técnica
estar “parada no tempo”, uma vez que o referido manual não é atualizado
há mais de duas décadas.
Esta mesma visão levou Sampaio e Lycarião (2021) a lançarem um
manual sobre análise de conteúdo quantitativa focado em pesquisas em co-
municação política, ciência política e políticas públicas. Entretanto, ao ana-
lisarem a qualidade das análises de conteúdo que fizeram uma abordagem
qualitativa, Sampaio et al. (2022b) concluem que não apenas há muita Bardin,
mas também pouca qualidade. Em outras palavras, mesmo ao considerarem
259
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
os indicativos de cientificidade de uma pesquisa qualitativa, como confiabi-
lidade, replicabilidade, validade, transparência, credibilidade, descrição deta-
lhada e validação dos dados, a maior parte das análises de conteúdo qualita-
tivas não observava tais critérios em seu desenho e em sua apresentação. Ou
seja, também a análise de conteúdo qualitativa carece de novos manuais e
textos metodológicos afinados com os avanços da técnica nos últimos anos.
Este capítulo busca justamente ofertar uma versão qualitativa da análise de
conteúdo categorial com foco em objetos e temáticas da ciência política.
Breve origem da aplicação científica da técnica
É interessante notar que a origem da análise de conteúdo parece
ter se perdido no Brasil. Muitos acreditam que ela foi criada por Bardin ou
realmente não se importam com sua origem anterior. Todavia, como a pró-
pria Bardin reconhece, apesar de análises mais sistemáticas de textos já se-
rem realizadas há muitos séculos, a versão moderna e científica da técnica
foi criada pelo cientista político Harold Lasswell com o intuito de estudar
propagandas de guerra entre as duas guerras mundiais (Lasswell, 1927). Seu
papel vital para a criação da técnica e também para a análise política foi bas-
tante negligenciado no Brasil.
Apesar de não ser o objetivo do capítulo, acreditamos que há al-
gumas razões para isso. Primeiramente, a própria Bardin ao fazer sua re-
construção da história da técnica, diz que a análise de conteúdo criada por
Lasswell e “aperfeiçoada” por Berelson (com auxílio de Lazarsfeld) mos-
tram uma preocupação “em trabalhar com amostras reunidas de maneira
sistemática, a interrogar-se sobre a validade do procedimento e dos resul-
tados, a verificar a fidelidade dos codificadores e até a medir a produtivida-
de da análise” (Sampaio; Lycarião, 2021 p. 20), o que, para ela, demonstra-
va um “caráter obsessivo, susceptível de encobrir outras necessidades ou
possibilidades” (ibidem). Em seguida, em seu histórico, ela argumenta que
só após os anos 1950 a técnica voltou a ser vista como útil, quando saiu
da “excessiva objetividade” (e seu foco no conteúdo manifesto) e passou a
considerar as inferências que a AC poderia trazer, incluindo o conteúdo la-
tente (não explícito) das análises. Possivelmente, essa é a leitura das ciências
260
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
da vida que adotou uma versão eminentemente qualitativa da técnica e ba-
seada em Bardin.
Por sua vez, na Comunicação, onde a análise de conteúdo é uma
das principais técnicas, Lasswell foi muito criticado por sua visão reducio-
nista de comunicação, que tentava objetificar em excesso questões simbó-
licas sob um viés quantitativista. 1Enquanto na Ciência Política brasileira,
fortemente inspirada na norte-americana, a resistência estava diretamente
ligada à adoção da abordagem das teorias da escolha racional pelos eleito-
res, o que deixava pouco espaço para discussões mais simbólicas, focadas
na emoção, sedução e estetização da política (Porto, 1997), o que explica em
grande medida a excelente coletânea A linguagem da política (Lasswell, [1949]
1982) ser praticamente esquecida na área.
Ao contrário da visão da Comunicação e a despeito da recepção na
Ciência Política, reconhecemos tal importância denotada pelo professor
Morris Janowitz (1968) da Universidade de Chicago, que oferece uma visão
analítica abrangente das diversas contribuições de Lasswell para as ciências
sociais. Segundo Janowitz, Lasswell deve ser exaltado por sua abordagem
naturalista ao estudo do poder político, o exame de elites, a aplicação de
princípios psicanalíticos ao comportamento político e a investigação sobre
o papel social dos detentores de conhecimento (1968, p. 646). Um ponto de
diferenciação entre Lasswell e sua descendência intelectual, como Bernard
Berelson, reside na operacionalização da análise de conteúdo. Enquanto
Berelson limitou a análise de conteúdo ao conteúdo manifesto (Janowitz,
1968, p. 647), Lasswell propôs um arcabouço mais expansivo. Para ele, a
análise de conteúdo não se resumia apenas ao conteúdo manifesto; tam-
bém abrangia o conteúdo latente, que exigia a incorporação de perspecti-
vas históricas, culturais, psicológicas e jurídicas (Janowitz, 1968, p. 647-648).
A inclinação de Lasswell para a análise de conteúdo precipitou uma
conceitualização mais sistemática do ambiente simbólico, segundo Janowitz
(1968). Ele enfatizou a necessidade de padrões para avaliar o trabalho dos
“manipuladores de símbolos”, particularmente no que diz respeito à mu-
dança social e aos princípios do governo democrático (1968, p. 651). Por
1. Diferentemente da Ciência Política, a Comunicação brasileira em grande medida rechaçou os métodos e abordagens dos EUA,
o que também levou a área a ter uma abordagem essencialmente qualitativa.
261
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
meio dessa abordagem, Lasswell aprofundou significativamente o rigor me-
todológico e o escopo substantivo da investigação política e social. Em ou-
tras palavras, Lasswell de fato defendia uma visão quantitativista da análi-
se de conteúdo, mas não o foco no conteúdo explícito dos textos, tendo
forte preocupação com as questões simbólicas da política (Janowitz, 1968).
Da diferença da Análise de Conteúdo para a Análise Temática
Desde a concepção original deste manual, a ideia era termos capítu-
los separados para análise de conteúdo e análise temática, pois os organiza-
dores sabiam que as duas técnicas, por suas similaridades, eram frequente-
mente confundidas ou mesmo tomadas como idênticas, algo que também
é reforçado pela supremacia do manual de Bardin (2016). Na prática, afir-
mamos que o apresentado por Bardin como análise de conteúdo categorial
ou temática é na verdade uma análise temática qualitativa (ver capítulo 07).
Seguindo os princípios defendidos Neuendorf (2018), acreditamos
que apesar das duas técnicas dividirem diversas bases comuns, como a base
epistemológica de reduzir o conteúdo através de codificação humana e a
criação de categorias ou temas para organizar os temas principais dos quais
determinado conteúdo aborda, as diferenças param aí.
Apesar de existirem análises de conteúdo do tipo indutiva, acredi-
tamos que a análise de conteúdo “brilha” quando adota uma lógica deduti-
va, portanto quando um livro de códigos é criado e o conteúdo é analisado
conforme o mesmo. Então, para análises indutivas mais “puras” no senti-
do qualitativo, certamente a análise temática é um caminho mais produtivo.
Consoante Neuendorf (2018), isso se conecta à lógica de que a AC, de ins-
piração positivista, assume que os textos ou conteúdos são os fenômenos
a serem analisados (logo através de códigos já pensados anteriormente) en-
quanto a AT, baseada em um paradigma construtivista, entende os textos
como os próprios dados e os códigos devem surgir pela análise minuciosa
dos temas mais salientes.
Por conseguinte, por sua base ter sido definida por Lasswell (1982),
a AC tem uma preocupação muito forte em seus princípios de cientificidade,
notadamente em termos de confiabilidade, validade e replicabilidade, algo
262
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
que não está tão fortemente atrelado à análise temática. Em outras palavras,
a análise de conteúdo tem duas preocupações muito fortes em seu cerne,
em como lidar com a subjetividade da codificação humana e em como pro-
ver condições para os estudos serem replicados.
O principal impacto disso está no cuidado que a AC tem desde seu
desenho para lidar com esses dois fatores. Uma série de medidas são então
tomadas antes da codificação sequer começar, como a criação e aperfeiçoa-
mento de um livro de códigos, o treinamento de codificadores e o teste de
confiabilidade entre eles. Todos esses aspectos buscam tanto lidar com a
subjetividade de uma análise humana, portanto, subjetiva quanto com a re-
plicabilidade. Ora, se pensarmos pelo menos em uma ideia de reprodutibi-
lidade da pesquisa ou uma presunção de replicabilidade (Sampaio; Lycarião,
2021), a AC sempre se preocupa com esse pesquisador ou essa pesquisado-
ra que tentará replicar a pesquisa. Portanto, a confiabilidade da codificação
precisa ser garantida para afiançar que ela pode ser reproduzida por outrem
e o livro de códigos precisa estar disponível, assim como o banco de dados
para que seja possível a reprodução da pesquisa. Já a análise temática, em sua
forma mais contemporânea, buscará lidar com a subjetividade especialmen-
te após a codificação através de diversos métodos de validação dos dados.
1. Um modelo de análise de conteúdo qualitativo
Tradicionalmente, é reproduzido de modo massivo nas pesquisas
sobre AC no Brasil os parâmetros estipulados por Laurence Bardin (2016)
em seu manual clássico e inaugural, em termos nacionais, sobre esse mé-
todo (cf. Sampaio et al., 2022a). Resumidamente, a autora expõe a AC em
três grandes fases, nomeadamente: (i) pré-análise; (ii) exploração do mate-
rial ou codificação; e (iii) tratamento dos resultados/inferência e interpre-
tação. Apesar de acharmos uma série de outras etapas e fases mais minu-
ciosas em seu manual, aparentemente o mesmo é inadequadamente lido e
a AC brasileira frequentemente é baseada em Bardin e apenas as três eta-
pas acima são anunciadas.
Alternativamente, em outro texto bastante acionado pela literatura
brasileira, Bauer (2007, p. 215) apresenta um modelo mais complexo que o
263
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
anterior ao denotar, ao menos, oito fases, nominalmente: 1) seleção de tex-
tos específicos; 2) amostra; 3) construção do referencial de codificação; 4)
teste-piloto e revisão do referencial; 5) teste de fidedignidade dos códigos; 6)
codificação dos materiais e estabelecer fidedignidade do processo; 7) cons-
trução de arquivo de dados para análise estatística; 8) elaboração de folhe-
to com: (a) racional para referencial de codificação; (b) distribuições de fre-
quência de todos os códigos; e (c) fidedignidade do processo de codificação.
Ainda assim, Sampaio e Lycarião (2021, p.48) destacam que, ape-
sar do modelo de Bauer ser um avanço em relação ao de Bardin por tornar
mais explícito os inúmeros processos existentes na análise de conteúdo, ele
ainda dá pouca atenção ao que corresponderia à primeira etapa dela (pré-
-análise), que é justamente onde surgiriam as inquietações acadêmicas que
guiarão o desenho de pesquisa e não trata suficientemente sobre o teste de
confiabilidade entre codificadores.
Desta forma, acreditamos importante definir um passo-a-passo da
condução de uma AC, que explicite outras sub etapas de forma mais deta-
lhada. O modelo se baseia em Sampaio e Lycarião (2021), porém, é adapta-
do para a lógica qualitativa, conforme ilustra esquema abaixo:
ETAPAS DA ANÁLISE DE CONTEÚDO
Conceituação
1. Identificar o problema (Revisão de literatura)
2. Questões de pesquisa e hipóteses
Desenho
3. Selecionar a(s) unidade(s) e subunidade(s) de análise
4. Criar e definir categorias
a. elaboração do livro de códigos
b. elaborar a planilha de codificação
5. Amostragem ou construção do corpus qualitativo
6. Pré-teste das categorias e das regras de codificação
a. treinamento
b. revisão do livro de códigos
c. teste de confiabilidade piloto
264
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
7. Treinamento final e Teste de confiabilidade das categorias
8. Codificação
Análise
9. Análise qualitativa aprofundada
10. Interpretar e reportar os resultados
11. Cuidados em termos de validação e Replicabilidade
1.1 Conceituação
A primeira fase da análise de conteúdo (Sampaio; Lycarião, 2021),
como não iremos nos delongar, consiste basicamente da revisão de litera-
tura e da elaboração da pergunta de pesquisa. Como a AC é muito flexível
e adaptada às necessidades dos pesquisadores, essas etapas são importantes
para guiar o restante do desenho da pesquisa, que segue no tópico abaixo.
1.2 Desenho da Análise de conteúdo
Selecionar a unidade e subunidade de análise
Sendo assim, o uso da análise de conteúdo passa, antes de tudo, pela
organização do desenho de pesquisa, o que remete imediatamente para a
seleção da unidade amostral e a definição da unidade de análise. A unidade
amostral se refere ao material que será de fato analisado, como programas
de TV ou rádio, notícias impressas, posts de redes sociais, artigos, teses, do-
cumentos gerais, grupos focais, entrevistas etc. Enquanto a unidade de aná-
lise (ou unidade de codificação) representa o elemento unitário de conteúdo
a ser classificado. Em certos casos, a unidade de análise será idêntica à uni-
dade amostral, quando temos conteúdos mais curtos, como notícias de jor-
nais ou posts de redes sociais, porém, em outros, talvez a unidade amostral
seja muito extensa, como um livro, um relatório, uma entrevista, um grupo
focal ou simplesmente um vídeo muito extenso. Então, nestes casos, é pre-
ciso se definir a unidade de análise, que pode ser, por exemplo, o parágra-
fo. Isso significa que cada parágrafo do texto será codificado pelas regras
da AC. Num grupo focal, a título de exemplo, a unidade de análise pode
ser a fala de cada participante, enquanto na entrevista, cada resposta do en-
trevistado. Mesmo sendo uma análise qualitativa, para a AC a definição da
265
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
unidade de análise é central, pois é uma das figuras chave para a possibili-
dade de replicação do estudo. Do mesmo modo, a identificação correta da
unidade de análise é vital para a replicabilidade e confiabilidade da AC, ou
seja, os codificadores devem estar cientes da unidade a ser codificada para
que não haja resultados distintos. Em algumas pesquisas, será sentida a ne-
cessidade de definir mais de uma unidade de análise. Um exemplo comum é
o de postagens em redes sociais, com o texto da postagem sendo uma uni-
dade de análise e a imagem podendo ser outra.
Construção do referencial de codificação
A tarefa provavelmente mais importante na análise de conteúdo
está justamente na definição de um referencial de codificação. Trata-se de
“um conjunto de questões (códigos) com o qual o codificador trata os ma-
teriais, e do qual o codificador consegue respostas, dentro de um conjunto
predefinido de alternativas (valores de codificação)” (Bauer, 2007, p. 199).
Esse referencial de codificação é materializado, então, numa espécie de ma-
nual de codificação (codebook) ou simplesmente livro de códigos (Sampaio;
Lycarião, 2021, p. 58). Um livro de códigos deve incluir, segundo os auto-
res, ao menos seis componentes básicos:
1) categorias e seus códigos; 2) breve descrição; 3) definição com-
pleta; 4) regras para quando aplicar os códigos; 5) regras para quan-
do não aplicar os códigos; 6) exemplos. Em resumo, deve con-
ter definições claras, instruções fáceis de serem seguidas e exemplos
que não deixem ambiguidade. (Sampaio; Lycarião, 2021, p. 63-64).
Assim, o livro de códigos (LdC) é um manual de como codificar,
enquanto o formulário de codificação (FdC) é o local que será preenchido
pelos diferentes codificadores e apresenta espaços apropriados para aplicar
os códigos para todas as variáveis medidas. Enquanto em uma AC quanti-
tativa, o mais normal é fazer uma planilha, em ACs qualitativas, o local de
preenchimento é usualmente um software de análise qualitiva, um Computer-
assisted qualitative data analysis software ou CAQDA (ver capítulo 10 para mais
detalhes). Portanto, o livro de códigos precisa ser criado no software de análise
266
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
qualitativa e neste mesmo software ocorrerá a codificação por parte dos codi-
ficadores, processo que também contribui para a replicabilidade, transparên-
cia e uma maior credibilidade da pesquisa qualitativa (Mozzato, Grzybovski,
2011; Schreier, 2012)
O objetivo de criar um livro de códigos e um formulário de codi-
ficação é dar informações mais completas e menos ambíguas para mitigar
as diferenças individuais entre os codificadores. Juntos, LdC e FdC devem
funcionar sozinhos como o protocolo de análise de conteúdo. Esta etapa
se torna uma das precauções para lidar com a subjetividade da codificação -
distinguindo-se da análise qualitativa temática, que coloca esta preocupação
para após a codificação. Tal detalhamento também é importante para faci-
litar a validação dos dados da pesquisa em um primeiro momento, e mes-
mo para fins de replicabilidade.2
Bauer argumenta que um referencial de codificação é um modo sis-
temático de comparação, e “embora o corpus de um texto esteja aberto a
uma multidão de possíveis questões, a AC interpreta o texto apenas à luz
do referencial de codificação, que constitui uma seleção teórica que incor-
pora o objetivo da pesquisa” (2007, p. 202).
De acordo com a definição:
[O] código é a unidade elementar da AC. Ele irá resumir, filtrar ou con-
densar dados de acordo com os objetivos e com os interesses da pesqui-
sa. Grupos de códigos, por sua vez, são agrupados em categorias, ou seja,
unidade analíticas que materializam as questões a serem verificadas. [...]
Uma análise de conteúdo será produtiva na medida em que suas catego-
rias forem claramente formuladas e bem adaptadas ao problema de pes-
quisa e ao conteúdo sendo estudado (Sampaio; Lycarião, 2021, p. 58).
Num exemplo bem simples, pesquisadores de comunicação e políti-
ca verificam se há viés na mídia contra determinados políticos ou partidos,
o que chamam de valência. Então, a categoria é “valência”, que por sua vez
é formada pelos códigos “negativa”, “positiva” ou “neutra”. Portanto, es-
tando definida a unidade amostral e a unidade de análise, apenas os códigos
2. Um exemplo de livro de códigos de pesquisa anterior está disponível em: [Link] Acesso em 8 mar. 2022.
267
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
seriam aplicados e a soma deles daria o total da categoria valência.
Dito isto, conforme bastante reproduzido pela literatura brasileira,
a partir de Bardin (2016), as categorias de uma análise de conteúdo de boa
qualidade devem ser: a) exclusivas; b) exaustivas; c) homogêneas; d) obje-
tivas; e e) adequadas ou pertinentes. Contudo, sustenta-se que as duas últi-
mas características (objetividade e adequação/pertinência) somente são exi-
gidas por questão de confiabilidade e validade, respectivamente. De modo
que, no que tange especificamente às categorias apenas os três primeiros
itens devem ser observados (exclusividade, exaustividade e homogeneida-
de, nesta ordem de importância).
As categorias precisam ser mutuamente exclusivas, e não podem ter
elementos que se sobreponham ou sejam redundantes. Isso significa dizer
que cada código contido em uma categoria também é mutuamente exclu-
sivo (Sampaio; Lycarião, 2021, p. 59-60). Categorias e códigos exclusivos
tendem a melhorar os índices nos testes de confiabilidade e na chance de
replicabilidade do estudo. Portanto, nenhuma matéria de jornal, por exem-
plo, pode ter valência negativa e neutra simultaneamente.
Em segundo lugar, as categorias e seus códigos precisam ser exaus-
tivos, ou seja, não pode haver resíduos: todo o conteúdo analisado precisa
ser passível de codificação. No nosso exemplo, toda matéria de jornal deve
poder exibir uma valência, que será positiva, negativa ou neutra. Em cer-
tos casos, para garantir a exaustividade, podemos ainda acrescentar códi-
gos para formar as categorias, como “outros” e “não se aplica”, havendo o
cuidado deles terem resultados residuais.
Por fim, as categorias precisam ser homogêneas, o que quer dizer,
na prática, que cada grupo de categorias deve ser tão diferente quanto for
possível de todos os outros grupos, mas cada grupo deve ser homogêneo
internamente. Apesar de poder aparecer em diferentes proporções, os có-
digos “positiva”, “negativa” e “neutra” são homogêneos entre si.
Amostragem/construção de corpus
A noção de amostra (ou amostragem) apenas se apresentará ao
pesquisador quando os recursos disponíveis para se realizar a pesquisa se
268
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
mostrar insuficientes para analisar a totalidade de unidades da população
que se pretende estudar. Quando isso é possível, ou seja, quando a popula-
ção pode ser devidamente pesquisada em sua totalidade, no lugar de uma
amostragem, realiza-se, então, o que se denomina de censo. Assim, nas pa-
lavras de Neuendorf (2002), amostragem é o processo de se selecionar um
subconjunto de unidades para o estudo da população como um todo.
Bauer (2007, p. 196) ressalta, deste modo, que há três problemas com
referência à amostragem: sua representatividade, o tamanho da amostragem
e a unidade de amostragem e codificação. A esse respeito, Krippendorff afir-
ma que se pode dizer que uma amostra é representativa quando “ela leva a
conclusões que são aproximadamente as mesmas que aquelas que se alcan-
çaria caso toda a população fosse pesquisada” (2004, p. 112).
Consoante Sampaio e Lycarião (2021), o problema da representati-
vidade de uma AC deve ser colocado em perspectiva do interesse da pesqui-
sa e que, mais relevante do que se tentar criar uma amostra representativa,
é construí-la de modo a tornar possível a existência de resultados significa-
tivos para se responder ao interesse da pesquisa. Nesta linha, Bauer (2007)
sustenta que a representação, o tamanho da amostra e a divisão em unida-
des dependem, em última instância, do problema de pesquisa, que também
determina o referencial de codificação.
Já em relação ao tamanho da amostra, Bauer alega que uma “amostra
pequena, sistematicamente selecionada, é muito melhor do que uma gran-
de amostra de materiais escolhidos ao acaso” (2007, p. 197), o que parece
se encaixar melhor para análises mais qualitativas. Dito isto, o importante
é que método de seleção das unidades deve seguir critérios para a compo-
sição da amostra de modo que não enviesem ou privilegiem um resultado
ou conclusão de antemão.
O que nos leva às inúmeras e diferentes técnicas de amostragem.
De maneira breve e sintética, pode-se dizer que as técnicas de amostragem
se dividem em dois grandes grupos: probabilísticas (aleatórias) e não pro-
babilísticas (não aleatórias).
o Técnicas probabilísticas (aleatórias):
● Amostragem aleatória simples
269
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
● Amostragem sistemática
● Amostragem por agrupamento
● Amostragem estratificada
● Amostragem em múltiplos estágios
● Amostragem em “bola de neve”
o Técnicas não probabilísticas (não aleatórias):
● Amostragem por conveniência
● Amostragem por propósito ou relevância
● Amostragem por cotas (Sampaio; Lycarião, 2021).
Por motivos de espaço para desenvolver a descrição e explicação de
cada uma das técnicas de amostragem, nos restringiremos a enumerá-las.
Grosso modo, ACs qualitativas vão preferir técnicas não probabilísticas e
ACs quantitativas vão preferir técnicas aleatórias. Se o material analisado for
gerado por entrevistas, grupos focais e afins, geralmente a amostra já terá
sido realizada na seleção dos participantes e a AC vai ser baseada em todo
o conteúdo gerado. Para mais detalhamentos acerca do tema, ver: Bauer,
Aarts (2012); Neuendorf (2002); Krippendorff (2004); Schreier, 2012.
Treinamento dos codificadores
Sampaio e Lycarião (2021) indicam a necessidade de um treina-
mento mínimo para a compreensão dos códigos e das regras de codifica-
ção, pois mesmo um livro de códigos exemplarmente elaborado pode ge-
rar dúvidas entre os codificadores, além de se basearem no estudo de Milne
e Adler (1999), que evidenciam que o treinamento aumenta a qualidade da
codificação.
O treinamento, além de nivelar os codificadores, permite o apri-
moramento do Livro de Códigos, com a inclusão/exclusão de variáveis, o
acréscimo de notas explicativas e um maior consenso entre os participantes
da pesquisa. Dependendo da complexidade de uma variável, é normal que
sejam necessários vários testes pilotos e maior tempo de treinamento para
atingir o nível de confiabilidade necessária. Os treinamentos devem focar
270
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
nas divergências de classificação entre os codificadores e na compreensão
das razões pelas quais eles discordaram. Neste momento da pesquisa, o re-
ferencial de codificação ainda pode ser alterado para aumentar a concor-
dância entre os codificadores. É importante que todas as alterações este-
jam registradas no livro de códigos, para que, no momento da codificação
final, interpretação dos resultados e escrita do trabalho, o pesquisador res-
ponsável consiga relembrar o andamento da investigação como um todo.
É interessante pontuar, como faz Sampaio e Lycarião (2021), que no
contexto brasileiro é comum que alunos da graduação (geralmente, bolsis-
tas ou voluntários de iniciação científica) e pós-graduandos sejam os codifi-
cadores da pesquisa. Dito isso, não é raro que esses pesquisadores dividam
seu tempo entre pesquisa e trabalho, além de outras demandas universitá-
rios. Desta maneira, é importante que os codificadores não apenas passem
pelo treinamento, mas também tenham os objetivos da pesquisa esclareci-
dos e estejam presentes nas discussões sobre o livro de código. A etapa se-
guinte ao treinamento dos codificadores, e conforme recomenda a literatu-
ra internacional (Krippendorff, 2004; Neuendorf, 2002; Schreier, 2012), é
o teste de confiabilidade.
Teste de confiabilidade
O teste de confiabilidade é uma etapa vista como vital para a AC ser
considerada como uma técnica científica de pesquisa, porém é algo pouco
visto nas aplicações brasileiras, o que pode acontecer, possivelmente, por não
estar descrito no manual de Bardin (2016). A confiabilidade de uma análise
de conteúdo serve para dois princípios básicos. Inicialmente, ela indica que
as categorias são passíveis de serem aplicadas por dois codificadores distin-
tos. Em outras palavras, que os códigos não são tão complexos que nunca
poderão ser reaplicados por outra pesquisa. Portanto, em primeiro lugar, ela
indica a replicabilidade do esquema de codificação aplicado.
Em segundo lugar, e não menos importante, o teste de confiabilida-
de indica que os dois ou mais codificadores da equipe estão codificando de
maneira suficientemente similar e não de forma aleatória ou diferente entre
si. Ou seja, que não há um viés de classificação de apenas um codificador
271
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
e que há um padrão suficientemente alto de concordância entre os codifi-
cadores na hora de aplicar os códigos e categorias da análise de conteúdo.
Nos testes de confiabilidade, todos os codificadores codificam exa-
tamente o mesmo material, de forma independente, com uma amostra alea-
tória e representativa do corpus a ser estudado. A comparação entre os re-
sultados dos codificadores é submetida a um índice de confiabilidade para
cada categoria. Os mais famosos são o pi de Scott, o Kappa de Cohen, o
Kappa de Fleiss e o alpha de Krippendorff, sendo este o mais recomendado,
conforme Sampaio e Lycarião (2021). De forma resumida, se o resultado no
índice for superior a 0.667 em todas as categorias testadas, o teste passou.
A maioria dos softwares utilizados em Análise de Conteúdo, já pos-
sui pacotes para a realização dos testes de confiabilidade (NVivo, [Link],
MAXQDA), entretanto, Sampaio e Lycarião (2021) recomendam o uso da
página online de Deen Freelon (Freelon, 2013),3 que é bastante simples e
acessível para todos os pesquisadores.
Quando o teste de confiabilidade for bem-sucedido, a análise po-
derá começar em si. Caso o teste falhe, recomenda-se novos treinamentos
e mesmo alterações no livro de códigos.
Pelas características de pesquisas qualitativas, Schreier (2012) afirma
que ACs qualitativas podem buscar outras formas de atingir o que ela de-
nominou como consistência. Ela sugere dois procedimentos. Em um, seria
uma discussão geral das aplicações das codificações com todo o grupo de
pesquisa envolvido, porém a depender do tamanho do material, isso seria
bastante difícil. Na segunda, mais próxima do que acreditamos ser o mais
adequado, dois codificadores codificam o mesmo material e depois discu-
tem em conjunto as discordâncias de codificação e como resolvê-las.
Sampaio e Lycarião (2021) ainda sugerem que eventualmente na im-
possibilidade de existir um segundo codificador, seja feito um teste de es-
tabilidade. Ou seja, um mesmo codificador realiza a codificação do mesmo
material em dois momentos distintos no tempo (idealmente algo entre duas
a três semanas de distância), realiza o teste de confiabilidade entre as duas
codificações e deve obter um resultado superior a 0.9 em algum índice de
3. [Link] Acesso em 8 mar. 2023.
272
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
confiabilidade. Em caso negativo, isso significa que a codificação não está
sendo estável o suficiente e que o codificador precisa ter mais clareza em
como estão aplicando ou não seu referencial de codificação.
Ao se iniciar a codificação final, o livro de códigos não pode ser
mais alterado para permitir a replicabilidade da pesquisa.
Condução da codificação em si
Como já ficou claro, a análise de conteúdo científica se preocupa
em ter boas categorias e um nível adequado de concordância de como apli-
car as categorias antes da codificação em si. Essa é, provavelmente, a prin-
cipal diferença para a análise qualitativa temática, que faz a codificação do
material e depois se preocupa em formas de validar essa classificação (Flick,
2009; Schreier, 2012).
A esta altura, como já dito, o livro de códigos não pode mais ser al-
terado, para fins de replicabilidade. O corpus obtido pela amostra pode ser di-
vidido de forma igualitária entre os codificadores, pois o teste de confiabili-
dade já garante que os mesmos estão codificando de forma suficientemente
similar para os padrões exigidos pela literatura internacional. Suponhamos
que fossem 400 matérias para ser codificada a valência e temos quatro co-
dificadores (e todos passaram pelo teste de confiabilidade), cada um pode
codificar 100 matérias distintas então e o pesquisador principal apenas reú-
ne o resultado geral posteriormente.
A análise de conteúdo dedutiva aqui explicada busca compreender
determinado fenômeno através de um referencial de codificação materiali-
zado em de um livro de códigos, logo o objetivo está longe de tentar esgo-
tar os significados de um texto ou sequer tentar averiguar qual seria o sig-
nificado principal desse conteúdo. Na prática, a análise de conteúdo busca
achar “respostas” nos conteúdos para “perguntas” presentes no livro de có-
digos. Em outras palavras, o livro de códigos é a representação dos interes-
ses da pesquisa, sejam eles teóricos, conceituais ou práticos e ele vai guiar a
visão do pesquisador e a busca por respostas. Portanto, o analista de con-
teúdo vai buscar trechos, excertos que respondem aos pontos levantados
no livro de códigos, portanto de uma forma dedutiva.
273
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Como o livro de códigos tende a ter diversas categorias, o analis-
ta de conteúdo tende a ler e reler diversas vezes as suas unidades de análi-
se para verificar se determinados trechos podem evidenciar a presença ou
não dos códigos que formam as categorias ou das próprias categorias (caso
elas sejam apenas de presença ou ausência).
Caso esteja utilizando uma planilha, o pesquisador deve preencher
os números equivalentes a categorias e códigos, porém também deve guar-
dar um banco de exemplos dessas codificações, que permitirão a análise
mais qualitativa em si. Porém, recomendamos que a análise qualitativa seja
feita por um software baseado em CAQDAs.
Uso de softwares e análises online
Então, se a análise de conteúdo é qualitativa, recomendamos que
todo o livro de códigos seja montado no referido software e que a aplicação
se dê pelos códigos que formam as categorias sendo aplicado diretamente
às unidades de análise já definidas anteriormente, portanto os trechos rele-
vantes para responder aos pontos presentes no livro de códigos podem ser
“grifados” e atribuídos aos respectivos códigos ou categorias. Desta manei-
ra, ao usar um software qualitativo, não há uma perda entre a codificação e o
contexto dos textos. O software mostrará exatamente os trechos codificados,
que podem agora ser explorados de forma mais aprofundada. Também tais
softwares são bastante úteis para fazer o cruzamento de tais códigos ou cate-
gorias e permitir fazer inferências mais sofisticadas. Eles também são bas-
tante importantes para a replicabilidade da pesquisa.
Atualmente, existem mais de 25 programas para análise qualitativa
(Computer Assisted Qualitative Data Analysis Software ou CAQDAS), a exem-
plo de NVivo, [Link], MaxQDA, WebQDA, Dedoose e tantos outros (ver
Drisko; Maschi, 2016; Flick, 2009; Mayring, 2014; Schreier, 2012; Paula; Viali;
Guimarães, 2016). Boa parte desses softwares permite que sejam montadas
equipes de codificação, que poderão trabalhar de forma online. Para mais
sobre suas funções e possibilidades de uso, veja o capítulo 10.
Também tem sido prática crescente na ciência política o uso de aná-
lises textuais automatizadas (ver capítulo 9). No Brasil, essa análise tem se
274
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
dado essencialmente através do uso do software Iramuteq, que é gratuito, in-
tuitivo, não demanda conhecimento de linguagem de programação e permi-
te você trabalhar com diferentes parâmetros (Diniz; Oliveira, 2021; Viegas;
Borali, 2022). Mais recentemente, chegaram as abordagens mais sofistica-
das de text as data, baseados em linguagens de programação, notadamen-
te R e Python (Izumi; Moreira, 2018). Aqui o trabalho online não chega a
ser impossível, mas é notadamente mais difícil. Acreditamos que a análise
textual automatizada não substitui em absoluto a análise qualitativa huma-
na, mas pode complementá-la, podendo ser útil no momento inicial para
a elaboração das categorias ou posteriormente para o aprofundamento de
achados da AC.
Durante a escrita deste livro, em 2023, começaram a surgir vários
modelos, aplicativos, ferramentas e sites baseados em inteligência artificial,
que essencialmente funcionam online. Em especial, os modelos grandes de
linguagem (large language models) parecem especialmente úteis para análises
de conteúdo qualitativas, pois eles lidam bem com padrões nos textos e po-
dem ser facilmente ensinados a procurar por determinados padrões, como
as próprias categorias da análise de conteúdo. No momento da escrita deste
capítulo é difícil fazer indicações ou previsões mais acuradas, mas certamen-
te também nos parece um caminho similar ao do text as data, que permiti-
rá complementar a AC qualitativa (ver capítulo de conclusão deste manual).
1.3 Interpretação
Esta é a hora de adentrar os conteúdos codificados e os explorar
de maneira mais detalhada e minuciosa. O uso de softwares de análise qua-
litativos já dará as frequências simples dos códigos e categorias, ou seja, o
quanto eles apareceram ou não. O pesquisador deve decidir se os utiliza ou
não, porém a simples utilização de frequências e porcentagens não torna a
AC quantitativa. A exploração minuciosa, qualitativa de falas e/ou trechos
é que guiará a análise de maneira geral.
O analista de conteúdo, a partir do tratamento de “vestígios” dos fe-
nômenos, tem como intenção a inferência, vulgo interpretações, conexões
ou deduções de maneira lógica. O fundamento reside na articulação entre
275
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
a superfície dos textos descrita e analisada, e os fatores que determinaram
estas características. Procura-se estabelecer uma correspondência entre es-
truturas semânticas e estruturas sociológicas/psicológicas. Portanto, a no-
ção de inferência é vital à análise de conteúdo, afinal o pesquisador usa de
construtos analíticos para se mover do texto para as respostas das ques-
tões de pesquisa. O objetivo é traduzir em quantificações conceitos abstra-
tos a partir de interpretações de construções linguísticas. É neste momento
que o contexto (teórico, conceitual, histórico etc.) da análise e/ou da pro-
dução do conteúdo surge como aliado para uma análise mais aprofundada
e sofisticada.4
Em seguida, a interpretação dos resultados é a parte que talvez seja
mais desafiante para o analista de conteúdo. Krippendorff (2004) afirma
que é possível fazer inferências em termos de: a) extrapolações - tendên-
cias, padrões, diferenças; b) identificação, avaliações e julgamentos de pa-
drões; c) índices; d) representações linguísticas; e) conversações; f) proces-
sos institucionais.
Segundo Bardin (2016), é possível analisar os resultados partindo
de diferentes dimensões. Pode-se analisar o material segundo as atitudes de
avaliação subjacentes (temas favoráveis, neutros ou negativos), orientar-se
por estruturas de encadeamento de associação (palavra indutora e induzi-
da) ou analisar os resultados em função de variáveis externas aos locutores
(eg. nível sociocultural).
Validação dos dados
Segundo Krippendorff (2004), concluídas as inferências e as inter-
pretações, é o momento de reportá-los adequadamente em produto científi-
co. O resultado da pesquisa precisa atingir critérios de validade, confiabilida-
de e replicabilidade. Porém, a validade tende a ser inversamente proporcional
à confiabilidade (Sampaio; Lycarião, 2019). Quanto mais simples o parâme-
tro (i.e., código), mais fácil de ser aplicado e reproduzido, e menos repre-
senta o fenômeno (validade). Segundo os autores, “a melhor avaliação da
4. Aqui, temos, provavelmente, a maior diferença entre a AC e análise do discurso. Nesta, o contexto é parte inerente da aplicação
da técnica enquanto na AC ele só ganha força na análise dos resultados já obtidos. Em outras palavras, a análise de conteúdo
frequentemente não vai além do conteúdo durante a codificação.
276
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
validade ocorre de forma transacional. [...] o mais recomendável é que o
próprio campo científico no qual a pesquisa se insere seja justamente o me-
lhor árbitro para avaliar a validade do estudo em tela” (Sampaio; Lycarião,
2021, p.111). Ainda, pode-se afirmar que:
A validade da AC deve ser julgada não contra uma ‘leitura verdadei-
ra’ do texto, mas em termos de sua fundamentação nos materiais pes-
quisados e sua congruência com a teoria do pesquisador, e à luz de seu
objetivo de pesquisa. Um corpus de texto oferece diferentes leituras,
dependendo dos vieses que ele contém. A AC não é exceção; contu-
do ela traça um meio caminho entre a leitura singular verídica e o ‘vale
tudo’, e é, em última análise, uma categoria de procedimentos explíci-
tos de análise textual para fins de pesquisa social (Bauer, 2007, p. 191).
Finalmente, para garantir a replicabilidade do estudo, é preciso tor-
nar acessível o material analisado, o livro de códigos aplicado e o banco de
dados preenchido. Recomenda-se para tanto o uso de repositórios institu-
cionais online.
Questões éticas específicas à técnica
Via de regra, não há questões éticas específicas à análise de conteú-
do, uma vez que ela geralmente se aplica a textos e conteúdos já produzidos
naturalmente. Talvez uma exceção seja a questão de material gerado por et-
nografias digitais ou simplesmente de análises diretas de conteúdo da web.
Cada meio digital tende a apresentar suas especificidades nesse sentido e
deve-se buscar material relacionado (ver capítulo 6). Caso ela seja aplicada
a materiais gerados por técnicas qualitativas, a exemplo de grupos focais e
entrevistas, deve-se observar as questões éticas dessas respectivas técnicas
(ver capítulo 12 para informações mais gerais a respeito de cuidados éticos
em pesquisa qualitativa em Ciência Política).
Aplicações em Ciência Política
Como mencionado anteriormente, a Análise de Conteúdo é uma
das principais técnicas de análise de dados qualitativos na pesquisa científica
277
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
brasileira, sendo acionada tanto para analisar textos e conteúdos produzidos
por diferentes atores e instituições, quanto para analisar o conteúdo produ-
zido por outras técnicas de coleta de dados qualitativos, como entrevistas,
grupos focais, etnografia, observação participante, entre outros (cf. Sampaio
et al., 2022a, 2022b). Na Ciência Política, a AC também é uma técnica de
análise popular, porém geralmente se foca em um viés apenas quantitativo.
A análise de conteúdo na ciência política brasileira se destaca em dois prin-
cipais objetos de estudo: manifesto partidário e, especialmente, a comuni-
cação política em diferentes ambientes.
Os estudos de manifesto partidário têm em comum o desenho me-
todológico, baseado nas experiências de pesquisa com análise de conteúdo
de manifestos partidários do grupo Manifesto Research Group (MRG) ou com
bases similares a esses (Tarouco; Vieira; Madeira, 2015; Tarouco, Madeira,
Vieira, 2022). A análise de conteúdo de manifestos aparece com diversas
aplicações, como a construção e análise de escalas, estudos relacionais e
marcação de preferências (Tarouco; Vieira; Madeira, 2015), por vezes até
de forma comparada (Volkens; Bara; Budge, 2009). Babireski (2014), por
exemplo, compara os manifestos de partidos latino-americanos de direita
em relação a abordagens e posicionamentos marcados nos programas dos
partidos. Para além dos temas, percebe-se uma preocupação desse cam-
po de pesquisa com questões como validade, confiabilidade (Budge, 2003;
Volkens, 2003) e qualidade dos dados (Volkens; Bara; Budge, 2009).
Por sua vez, a utilização da AC em estudos sobre comunicação po-
lítica engloba diversos temas. Dentre eles, podemos destacar diversas pes-
quisas relacionadas às eleições, notadamente ao período de campanha, in-
cluindo a análise de propaganda política no Horário Gratuito de Propaganda
Eleitoral (HGPE) (Figueiredo et al., 1997; Cervi, 2011), campanhas políti-
cas nas mídias sociais (Braga, Carlomagno, 2018; Borba, 2019), debates elei-
torais (Vasconcellos, 2017) e até memes (Chagas, 2023), além da presença
e atuação das elites políticas profissionais em meios digitais (Barros et al.,
2021). Após 2018, também foram vários os estudos baseados em AC que
desejavam verificar como a extrema direita se comunicava em aplicativos
de conversa direta, como WhatsApp e Telegram, especialmente durante as
278
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
campanhas (Baptista et al., 2019).
Para além disso, a comunicação política tem interesse em compreen-
der questões importantes para a formação da opinião pública, a exemplo
de cobertura política de determinados fenômenos ou atores, como a aná-
lise de: notícias de jornais impressos sob a perspectiva do enquadramento
(Feres Júnior; Veiga; Ribeiro, 2018); notícias de jornais sob a perspectiva
da análise de valência (Azevedo, 2017; Feres Júnior; Sassara, 2016), edito-
riais políticos de jornais impressos (Mont’alverne; Marques, 2019), análise
da cobertura política com base nas fontes acionadas (Miguel; Biroli, 2011);
pronunciamentos de políticos (Campos; Coimbra; Oliveira, 2018), efeitos
da cobertura política (Mundim, 2014); além das redes de circulação de in-
formações e comentários nas mídias sociais de forma ampla em temáticas
políticas (Campos-Domínguez; Penteado; Cervi, 2021).
Outras temáticas ainda importantes estão em análises do potencial
de sites e redes sociais digitais para incremento da democracia digital, in-
cluindo avaliações de transparência (Farranha; Bataglia, 2019) e/ou ofertas
de participação em websites governamentais (Barros, 2016) e do Legislativo
(Mitozo, 2018), além de conversações políticas e/ou deliberações on-line
(Oliveira; Sarmento; Mendonça, 2014) avaliações de discordâncias, desres-
peito on-line e discursos de ódio (Sponholz, 2020). Outra seara em franco
crescimento é a análise de conteúdo de campanhas políticas digitais para o
avanço de certas temáticas ou políticas públicas, como direitos de minorias
como mulheres, negros e LGBTQIA+ (Nunes, 2020; Sarmento, 2021) e de
outras formas mais ou menos organizadas de ativismo digital (von Bülow;
Dias, 2019).
Por fim, também é possível encontrar estudos utilizando AC em
campos de pesquisa como a de política externa, estudos de legislativo e eli-
tes políticas. Silva e Hernández (2020) destacam como a análise de conteú-
do enquanto técnica não se desenvolveu muito na disciplina de Relações
Internacionais e demonstram o potencial da técnica ao estudar política exter-
na brasileira e a integração regional na América do Sul. Também estudando
a política externa brasileira, Silva, Ribeiro e Carvalho (2015) utilizam a AC
como ferramenta para a análise de pronunciamentos oficiais de presidentes
279
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
brasileiros. Bicquelet e Mirwaldt (2012) e Slapin e Proksch (2014) destacam
a análise de conteúdo como uma técnica de análise de “palavras” útil para o
estudo de legislativo, com destaque para debates parlamentares (Bicquelet;
Mirwaldt, 2012). Já no estudo de elites, em seu trabalho sobre burocratas
de médio-escalão, Hoyler e Campos (2019) acionaram a análise de conteú-
do como técnica de análise de dados coletados em etnografia através de ob-
servação participante e entrevistas.
Dessa forma, percebe-se que o potencial para o uso da análise de
conteúdo qualitativa na Ciência Política não é baixo. Embora seja pouco
acionada e muitas vezes confundida com a análise temática, a AC qualitati-
va apresenta-se como uma alternativa na análise de textos e de imagens do
campo político para pesquisadores que buscam analisar o conteúdo de for-
ma profunda, podendo inclusive suplementar inferências quantitativas em
estudos mistos.
Considerações finais
Há indicativos de que a análise de conteúdo brasileira é excessiva-
mente baseada em Bardin e que apresenta baixa qualidade, sendo pouco as-
sentada em princípios científicos. Este capítulo buscou dar uma contribui-
ção a essas lacunas ao apresentar um modelo de aplicação de AC que não é
baseado na autora e que cumpre os principais requisitos de confiabilidade,
replicabilidade e validade, esperados de uma técnica de pesquisa científica.
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09
Análise Textual e abordagens qualitativas em
Ciência Política: práticas combinadas e
aproximações possíveis
Lucy Oliveira
Eduardo Pagnan Vieira
289
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
Vivemos no momento em que os dados são o new oil. O exponencial cres-
cimento nas capacidades de geração, coleta e armazenamento de dados
(big data) e o desenvolvimento computacional têm se retroalimentado de
forma intensa nas primeiras duas décadas do século criando um ambien-
te social, político, cultural e, porque não dizer, científico sem precedentes.
Pavesi e Valentim (2021) chegam a aventar a hipótese de que essas trans-
formações para as ciências humanas e sociais são semelhantes às viradas
epistemológicas.
Assim, este capítulo entra nesse manual com um objetivo claro: re-
fletir e apontar alguns caminhos entre as técnicas de tratamento e análise
textual computacional (CATA)1 e as abordagens qualitativas. Esse exercí-
cio de escrutinar vias possíveis de combinação entre a análise textual auto-
matizada e análise qualitativa tem levantado questionamentos importantes,
como, por exemplo: qual o lugar do analista qualitativo no campo do big
data textual e das análises automatizadas? Como se dá a hermenêutica cien-
tífica qualitativa diante de uma quantidade massiva de dados de comunica-
ção agregados numericamente? Será que o analista humano (de discurso,
de conteúdo…) será substituído pelo avanço da inteligência artificial? Mais
ainda, dá para combinar uso de softwares ou programação e análise qualitati-
va? Como utilizar técnicas quantitativas em dados textuais que emanam de
uma análise de conteúdo qualitativa e vice-versa?
Algumas dessas perguntas continuam sem respostas. Ou, no máxi-
mo, têm soluções temporárias, dado que o campo está em movimento, em
formação e consolidação, e isso passa, necessariamente, pelas práticas e re-
flexões científicas postas em marcha neste momento, como este capítulo e
este livro, por exemplo.
Nesse caminho, alguns passos são importantes. O primeiro deles é
clarificar - o mais objetivamente possível nesse momento - o que é a análise
textual e como ela se relaciona com outros métodos qualitativos mais tradi-
cionais que também são aplicados sobre textos e que compõem esse livro,
como a análise de conteúdo. O segundo passo é propor uma organização
1. A sigla em inglês significa Computed Assisted Text Analysis (CATA).
290
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
do que seriam os tipos de análise textual com suporte computacional frente
características de maior ou menor participação dos pesquisadores e maior
ou menor automatização por máquinas. Isso será fundamental para apon-
tarmos o papel do analista qualitativo na empiria e na construção das infe-
rências a partir da análise textual. Por fim, traremos apontamentos sobre
vantagens e desafios da análise combinada.
1. Análise Textual e Análise de Conteúdo: estamos falando da mes-
ma coisa?
Faz poucos anos que o termo Text as Data tem começado a circular
de forma mais significativa na produção da Ciência Política no mundo. Isso
se deve, em certa medida, pela demora da incorporação dos avanços com-
putacionais com relação à análise de dados comunicacionais pelas Ciências
Sociais e da Ciência Política, em específico (Wiedmann, 2013).
De forma breve, a Análise de Conteúdo (AC) é um método que, a
partir de uma hermenêutica controlada por etapas transparentes e válidas,
permite ao analista inferir os conteúdos de uma mensagem. Isso se dá, na
prática, a partir de inferências sobre signos comunicacionais e linguísticos
diversos, entre estes, as palavras,2 bem como em diferentes unidades de aná-
lise, como a frase, o parágrafo, o frame, um riso, um sintoma etc (Sampaio;
Lycarião, 2021, ver também capítulo 7 deste manual). Já a Análise Textual
(AT)3 é feita primordialmente sobre o texto e tem como unidade de análise
a palavra - sozinha ou em conjunto. Assim, a AC está interessada no campo
semântico e a AT se debruça sobre o campo lexical (Lebart; Salem, 1994).
A partir dessa primeira definição, podemos então concluir que a AT
seria um subconjunto da AC, dado que a Análise de Conteúdo teria um uni-
verso mais amplo de dados comunicacionais do qual infere o sentido. Além
disso, na AT, o sentido é carregado na materialidade da língua, enquanto na
AC o sentido pode ser inferido de forma interpretativa pelo analista. Esse
entendimento se reforça quando consideramos que a Análise Textual é atual-
mente formada por técnicas computacionais que servem para estruturar
2. Como apontado no capítulo anterior, podem ser elementos textuais, audiovisuais e até mesmo outras expressões da comuni-
cação humana, como reações a estímulos.
3. A partir deste momento utilizaremos a sigla AT como sinônimo de Computer Assisted Textual Analysis e Text Mining.
291
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
automaticamente, ou semi-automaticamente, os dados.
Ou seja, ponto importante nessa diferenciação é o trabalho do pes-
quisador em si. Enquanto, na Análise de Conteúdo, o pesquisador faz o tra-
balho inicial de reorganização do texto em classificações que darão origem às
frequências numéricas a serem trabalhadas nas etapas seguintes, na Análise
Textual atual essa classificação é feita pelas máquinas/computadores. Na
AT, o analista pode até ter o trabalho de organizar e preparar o corpus para
o input dos dados - como fazer a limpeza de erros ortográficos, uniformiza-
ção de siglas e nomes próprios etc. - mas a decomposição dos corpus4 origi-
nais é feita pelas máquinas e a análise - ou seja, interpretação do pesquisa-
dor - só começa após a reorganização do material a partir de um universo
único de referência: o campo lexical daquela língua.
Este também é o argumento de Benoit (2020) ao colocar que o Text
as Data é toda a análise em que não há uma interpretação prévia do mate-
5
rial textual para sua classificação, cabendo ao analista o trabalho de inter-
pretação sobre o conjunto numérico posterior oriundo da decomposição
do corpus. Concordamos nesse sentido com o autor, mas discordamos que
apenas aí que o texto se torna dado. Ou seja, sendo lido pelo pesquisador
ou pela máquina, tendo inferência à priori ou a posteriori, ou mesmo sendo
tratado em sua forma textual/qualitativa, ou decomposta numericamente/
quantitativa o texto sempre foi dado. A inovação se dá exatamente no mo-
mento de atuação da inferência do pesquisador.
Entretanto, restringir a Análise Textual completamente a um conjun-
to contido dentro da Análise de Conteúdo não é uma conclusão inteiramen-
te acertada. Isto porque o texto não serve apenas de aporte para Análises
de Conteúdo, podendo assim a AT ser combinada com um conjunto maior
de métodos qualitativos, como grounded theory ou mesmo análise do discurso.
Por fim, o atual estado de desenvolvimento computacional da análise
textual a partir do Processamento de Linguagem Natural (PLN), aprendiza-
gem de máquina (machine learning) e Inteligência Artificial (IA) tem deixado
esses limites e diferenças cada vez mais borrados, permitindo ao pesquisador
4. Corpus é o conjunto de textos e dados comunicacionais geral que serão investigados pelo analista.
5. Outra forma mais recente de se referir à análise textual. Por isso, neste capítulo, utilizamos os termos Lexicometria, Análise
Textual e Text as Data como sinônimos.
292
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
desenhos de pesquisa cada vez mais sofisticados que combinam AT e AC.
2. Abordagens combinadas para a empiria e insights
As abordagens combinadas entre Análise Textual e Análise de
Conteúdo Qualitativa, além de possíveis, são múltiplas e variam de acor-
do com alguns parâmetros, como: a) o tipo de ferramenta computacional a
ser utilizada - abertas ou fechadas; b) o nível de automação da ferramenta -
com aprendizagem de máquina ou sem aprendizagem de máquina; c) qual
a unidade de análise suficiente para responder à questão de pesquisa - se as
palavras isoladamente ou em contexto; d) quais tipos de teste necessários
para organizar e produzir inferências válidas para a unidade de análise es-
colhida - variando de estatística descritiva a testes multivariados.
Assim, a partir dessa miríade de possibilidades e para nos auxiliar a
organizar como compreendemos as formas de combinar a atuação do pes-
quisador qualitativo no processamento textual, começaremos olhando os
aspectos inerentes às ferramentas computacionais e seu grau de automa-
ção - se fechadas ou abertas, com ou sem aprendizagem de máquina.
No primeiro grupo (suportes fechados), encontram-se as ferra-
mentas computacionais em que o pesquisador não consegue alterar o seu
funcionamento. Ou seja, softwares onde o pesquisador faz o input dos dados
e gera as análises sem poder modificar o recurso computacional que está
utilizando. Neste primeiro grupo, por exemplo, estão os softwares de análi-
se qualitativa que gradativamente foram incorporando ferramentas de aná-
lise textual, como NVivo, MaxQDA, [Link] etc. Mas, também, supor-
tes voltados exclusivamente para lexicometria6 ou análise textual, como
Alceste, Iramuteq, WordStat, Lexique 5, Tri Deux Mots, SPAD, Evocation,
Similitude, entre outros.
No segundo grupo (suportes abertos), estamos considerando as
ferramentas computacionais nas quais o pesquisador constrói o caminho da
análise baseado comumente em linguagem de programação. As linguagens
mais comuns para esse tipo de processamento textual são o R e Python.
Nesse sentido, também relacionamos os suportes fechados a
6. Na literatura de origem francesa, lexicometria é o campo de estudos estatísticos do Léxico. Ou seja, é sinônimo de Análise Tex-
tual. Tanto que em trabalhos traduzidos para língua inglesa, o termo Lexicométrie transforma-se em Text Analysis. Ver Salem (2004)
293
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
não-aprendizagem de máquina - ou seja, não há automação dos proces-
sos por parte das máquinas - e os abertos à aprendizagem de máquina -
à medida que a máquina recebe input de dados ela “aprende” sobre as res-
postas e o processo tende a uma crescente automação.
Há duas exceções nesta divisão que propusemos: i) os transfor-
mers, modelos computacionais baseados em aprendizagem profunda de
máquina (deep learning) e inteligência artificial, com alto grau de automação,
mas que não permitem a alteração do código pelo pesquisador - ou seja -
são fechados7; ii) os softwares de análise qualitativa (CAQDAS) que re-
centemente integraram em suas funções a incorporação de scripts em R e
Python construídos pelos pesquisadores que rodam na ferramenta, dando
a está um caráter mais aberto.
Figura 1. Esquema descritivo dos tipos de ferramentas de Análise Textual
Fonte: Elaborada pelos próprios autores.
Assim, em suma, no grupo dos suportes fechados, o pesquisador
atua “calibrando” aspectos a serem organizados, como tamanho dos seg-
mentos a serem analisados ou mesmo uma amostra específica de palavras.
Já nos suportes abertos, o pesquisador constrói seu próprio script de aná-
lise computacional.
O ponto principal sobre as abordagens combinadas considerando as
características das ferramentas computacionais é: quanto mais fechado e
7. Alguns destes modelos permitem que o pesquisador tenha acesso ao código que utiliza para gerar as análises, dando mais trans-
parência ao processo. Entretanto, o pesquisador não tem a possibilidade de alterá-lo, continuando assim “fechado” ao pesquisador.
294
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
não supervisionado for o suporte, menor é a interferência e a presen-
ça do pesquisador na empiria da análise textual. Se isso, de um lado,
permite mitigar questões de subjetividade, viés e replicabilidade das pesqui-
sas qualitativas, por outro, pode tornar a pesquisa uma caixa preta. Como
apontam Ho Yu, Jannasch-Pennell e DiGangi ., “deixar completamente a
cargo de um computador a análise de texto pode ser perigoso se o software
não estiver bem escrito” (2011, p. 735, tradução nossa). Nesses casos, a va-
lidade também fica comprometida. Grimmer e Stewart (2013) explicam ser
essencial a validação humana para códigos, destacando que mesmo que as
ferramentas computacionais possibilitem a análise de um universo grande
de dados, estas não eximem o pesquisador de validar e verificar a análise.
O segundo conjunto de ações combinadas ocorre a partir a uni-
dade de análise escolhida e dos tipos de testes possíveis para estas.
Como a Análise Textual trabalha com diferentes tratamentos estatísticos e
computacionais do texto - desde análise descritiva do léxico até testes mul-
tivariados - o trabalho do pesquisador começa traduzindo sua pergunta de
pesquisas em unidades passíveis de serem mapeadas no texto, a partir da
compreensão das opções mais adequadas para o desenho da sua pesquisa.
Ou seja, o trabalho do analista qualitativo pode e deve começar na trans-
formação da sua questão de pesquisa em indicadores passíveis de
serem encontrados em palavras, afinal essa será a unidade de análise e
agrupamento da AT.
Suponhamos que um analista qualitativo queira identificar como
um determinado agrupamento social adere à democracia por meio do es-
tudo de mensagens trocadas via mensageiros online. A primeira atividade,
antes mesmo de lidar com o suporte computacional, é definir o universo
de palavras a serem procuradas nas mensagens sobre a democracia e a po-
sição dos atores/atrizes com relação a elas. Em seguida, verificar quais su-
portes permitem encontrar essas palavras de forma adequada aos indica-
dores previstos na análise.
Neste sentido, suponhamos ainda que o pesquisador tenha a sua dis-
posição um suporte fechado, como o Iramuteq - software de lexicometria gra-
tuito criado pelo Laboratório de Estudos e Pesquisas Aplicadas em Ciências
295
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Sociais (LERASS) 8 da Universidade de Toulouse 3 - Paul Sabatier. Das 5
análises disponíveis pelo Iramuteq, a estatística descritiva com análise de fre-
quência das palavras é uma delas e atende aos interesses da pesquisa que es-
tamos utilizando como exemplo aqui.
Como um suporte fechado, é papel do pesquisador escolher os pa-
râmetros da pesquisa entre aqueles disponibilizados pelos criadores do soft-
ware já na fase de preparar o corpus para seu processamento na ferramenta.
No caso do Iramuteq, por exemplo, é necessário fazer a correção ortográ-
fica de todo o material, retirar caracteres não processáveis, salvar o arquivo
no formato “.txt” entre outras ações descritas nos manuais (Ratinaud, 2014;
Salviati, 2017; Camargo, Justo, 2021).9 Claro que, cada software tem seus pa-
râmetros de preparação, cabendo ao pesquisador escolher aquele que me-
lhor se adequa ao universo de dados que possui.
Cabe ainda, nessa escolha, levar em conta os testes estatísticos que
cada ferramenta entrega. Não adianta, ao nosso ver, simplificar o processo
de preparação se a ferramenta terá um conjunto de testes insuficientes ou
que não atendem a análise pretendida. E essa é uma limitação dos recur-
sos fechados: não há como utilizar testes e análises a não ser aquelas pre-
viamente disponibilizadas.
Seguindo o exemplo acima - de utilizar uma ferramenta fechada - é
comum, após preparar e incorporar os dados nas ferramentas, recebermos
outputs descritivos sobre aquele conjunto de dados. Eles podem ser diver-
sos e trazem informações como a quantidade de palavras existente no cor-
pus, frequências de palavras etc. Isso servirá para que o pesquisador explore
o universo lexical e semântico de seu material, encontrando, por exemplo,
palavras de referência e importantes para sua pesquisa.
8. Laboratoire d’Études et de Recherches Appliquées en Sciences Sociales - [Link] Acessado em 19 de outubro de 2023.
9. Há manuais em francês, inglês, português e espanhol. Para saber mais ver: [Link] aba “documentation”. No
MAXQDA, por exemplo, não é necessário fazer correção ortográfica para processamento do texto. Entretanto, cabe ressaltar,
os erros gramaticais e palavras escritas de forma inexata poderão alterar a decomposição lexical. Além disso, o software processa
textos diretamente de arquivos em PDF ou de tabelas do Excel, não necessariamente precisando transformar tudo em .txt, como
no caso do Iramuteq.
296
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Figura 2. Frequência de palavras ao longo dos anos
Fonte: Elaborado pelos próprios autores.
Interessante perceber que a lista de palavras e suas respectivas fre-
quências podem auxiliar o pesquisador qualitativo no sentido oposto ao
que foi sugerido anteriormente. Ou seja, o analista não indica as palavras
de interesse à priori, mas, com o uso de análise textual e explorando o uni-
verso de palavras contidas em seus dados, seleciona aquilo que mais inte-
ressa à pesquisa.
Essa definição sobre quais palavras são de fato relevantes ou não
para responder aos interesses da pesquisa é também um trabalho eminen-
temente qualitativo, de interpretação sobre o universo lexical de determina-
do agrupamento social e de criatividade científica. Ou seja, aqui o olhar do
pesquisador qualitativo será importante para encontrar os melhores descri-
tores visíveis - como aponta Lahlou (1994), os melhores indicadores do fe-
nômeno social expresso no campo simbólico da linguagem. E, para mitigar
o viés da subjetividade, o pesquisador pode recorrer a um trabalho coletivo
de escolha dessas palavras, onde outros analistas validem a amostra de des-
critores importantes da pesquisa. Assim, aproveita-se o potencial qualitati-
vo e garante uma menor arbitrariedade dos parâmetros.
Outro parâmetro de escolha pode ser a classe gramatical. Isso por-
que as formas mais frequentes nas listagens de análise textual em língua
portuguesa quase sempre são os artigos, as preposições, os pronomes, as
297
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
conjunções - chamadas de palavras funcionais. Apesar de trazerem indi-
cações estilísticas, estas são menos significantes que os substantivos, por
exemplo, pois os mesmos carregam o peso temático e semântico da lin-
guagem (Lebart, Salem, 1994; Bernard, 1999). Assim, as palavras relevan-
tes para um determinado léxico nem sempre são as mais frequentes, nem
as praticamente ausentes, mas aqueles que estão nos pontos intermediários
(Cassettari et al., 2015)
Importante levar em conta nessa escolha que pode - e deve existir -
mais de uma classe relevante a ser considerada para observação dependen-
do da língua analisada. No inglês, por exemplo, são os verbos auxiliares que
frequentemente indicam o tempo verbal daquela frase. No Português é a
conjugação verbal que nos indicará o passado, presente ou futuro. Ou seja,
o verbo principal já irá nos indicar a ação ou posição dos sujeitos. Ao co-
nhecer a língua de qual trata, o analista qualitativo terá melhores condições
de configurar os parâmetros das ferramentas - e esse é um elemento im-
portante na análise de conteúdo qualitativa com codificação humana, dado
que os textos são sempre codificados por falantes nativos ou com grande
domínio nas línguas a serem analisadas.
Ora, retomando ainda a questão da tradução da pergunta de pesqui-
sa em indicadores passíveis de serem encontrados em palavras, outro tra-
balho empírico do analista qualitativo passa pela uniformização do corpus a
ser processado pelo software. Para aumentar a assertividade da classificação
e reorganização de um universo lexical é necessário que as palavras que se
referem aos mesmos objetos sejam as mais parecidas entre si. Ou seja, não
é possível inferir que está se falando sobre democracia se a palavra demo-
cracia - e suas derivações semelhantes - não estiverem expressas diretamen-
te no texto. Um exemplo pode nos auxiliar a visualizar essa questão.
Na pesquisa desenvolvida por Oliveira e Diniz (2019) sobre os dis-
cursos presidenciais de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) nos respectivos programas que participavam na Voz do
Brasil10 foi comum encontrar referências distintas às mesmas políticas pú-
blicas tratadas nas entrevistas dos presidentes, como “FUNDEB” e “Fundo
10. No caso de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) o programa chamava-se Palavra do Presidente. Já com Lula o nome muda
para Café com o Presidente.
298
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
da Educação Básica”. Ora, são duas formas lexicais distintas de se referirem
ao mesmo objeto e que, provavelmente, serão processadas separadamente
pelos softwares, dado que a primeira é uma sigla (apenas uma palavra) e ou-
tra é um substantivo compo sto (ou seja, mais de uma palavra). Assim, foi
necessário uniformizar todo o corpus para garantir que todas as vezes que
determinado objeto fosse citado, tivesse a mesma palavra.
Figura 3. Exemplo de limpeza e uniformização do corpus
Fonte: Oliveira e Diniz, 2019.
No exemplo acima, além da uniformização do corpus, foi necessário
ainda retirar a repetição. Ou seja, se apenas fosse trocado o termo “Fundo
da Educação Básica” por “FUNDEB”, ter-se-ia a mesma palavra duplicada,
o que também não faria sentido em termos de correção gramatical. Assim,
além de uniformizar, as autoras verificaram os casos em que haveria redun-
dância e mantiveram a palavra apenas uma vez naqueles trechos.
Outra aplicação da uniformização encontramos em Salviatti (2017).
Ela utilizou o mesmo software - Iramuteq - para encontrar as distintas for-
mas lexicais que se referiam aos seus objetos de interesse (Figura 4). Para
tanto ela processou o corpus no software uma primeira vez sem uniformiza-
ção e, ao explorar a lista de palavras devolvidas pelo programa, pôde iden-
tificar termos distintos que se referiam ao mesmo objeto. A partir disso, ela
e sua equipe voltaram ao corpus original, uniformizaram as palavras e fize-
ram novamente a decomposição do corpus na frequência das palavras, des-
ta vez com um universo lexical mais reduzido e uniforme.
299
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Figura 4: Exemplo de uniformização do corpus
apontado por Salviati (2017)
Fonte: Salviati, 2017, p. 99.
Como dissemos acima, a análise textual permite ainda testes multi-
variados - a partir da relação palavra-palavra ou palavras-variáveis. A esco-
lha do uso desses testes emerge do desenho de pesquisa, mas, também, das
variáveis a serem trabalhadas, de como cada teste funciona e o que eles en-
tregam de resultados (output).
Assim, é necessário ter claro nas etapas iniciais quais variáveis vão
ser consideradas para interpretar o campo semântico e lexical. Tomemos
um exemplo: vamos supor que um grupo de pesquisadores queira investi-
gar a mudança de prioridades de políticas públicas de um governo ao lon-
go do tempo a partir dos discursos dos chefes do executivo. A variável que
indica o momento em que o discurso foi pronunciado é de suma impor-
tância (ano, mês, dia) e, em alguns casos, já precisa ser definida no momen-
to da organização do corpus.
Sobre a compreensão de como as análises multivariadas funcionam
e o que elas entregam, é necessário identificar se os testes utilizarão como
unidade de análise apenas a palavra ou o segmento de texto. A segmentação
300
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
é o recorte ou decomposição daqueles textos em trechos menores que deve
ser o espaço mínimo de sentido das palavras, chamado também de unida-
de de contexto (Lebart, Salem, 1994; Camargo, Justo, 2021). Ou seja, o seg-
mento não pode ser grande demais a ponto de carregar muitos contextos
distintos, nem pequeno demais que impeça de se compreender a palavra e
suas relações.
Importante dizer que a segmentação e a escolha da unidade de análi-
se são também uma atividade comum para uma análise de conteúdo manual
e/ou humana. Entretanto, com os softwares, isso é feito pelas máquinas. Em
alguns casos, é possível que o pesquisador altere os tamanhos dos segmen-
tos, que em geral giram em torno de 40 toques ou 5/10 palavras. Entretanto,
mesmo essa alteração, ao nosso ver, precisa seguir alguma métrica teorica-
mente justificada para evitar viés na análise. Assim, sempre aconselhamos
deixar o tamanho dos segmentos que vêm por padrão nas ferramentas.
Depois da decomposição em segmentos, é possível fazer testes mul-
tivariados que usam como base a relação de coocorrência das palavras, como
a Classificação Hierárquica Descendente (CHD). Nesta, todos os segmen-
tos de um corpus são reorganizados em forma de uma matriz de frequência
(document-term matrix) onde cada linha é um segmento de texto e cada colu-
na é uma palavra que compõem o corpus. Importante dizer que aqui as pa-
lavras são contadas em suas formas lematizadas - ou seja, reduzidas ao seu
radical ou a forma infinitiva (no caso dos verbos).
O resultado é apresentado em forma de dendrograma (figura 5) sen-
do uma árvore de grupos estáveis compostos de palavras com alta coocor-
rência entre si internamente e baixa coocorrência externamente (com os
outros grupos em que não está relacionada).
301
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Figura 5: CHD dos discurso da presidente Dilma Rousseff (PT) ao Congresso
Nacional (2011)
Fonte: Iramuteq. Elaboração Própria
Por meio da CHD é possível identificar, por exemplo, o conjunto
de palavras que juntas mostram um vocabulário estável em torno de temas
em um determinado discurso ou comunicação. E inferir, a partir disso, cam-
pos semânticos. Isso porque na comunicação humana, a proximidade das
palavras e a forma como aparecem repetidamente juntas importa na cons-
trução dos sentidos.
Outra técnica baseada na decomposição de textos no plano veto-
rial é a Latent Dirichlet Allocation - LDA (BLEI, NG E JORDAN, 2003). Ela
é um dos mais comuns algoritmos para identificação de tópicos guiada por
dois princípios fundamentais: i) todo documento é um conjunto de tópi-
cos/temas; ii) todo conjunto de temas é composto de um conjunto de pa-
lavras. Assim, na LDA é possível encontrar conjuntos de palavras relacio-
nadas entre si que formam tópicos estáveis de um conjunto de textos ou
comunicações.
As duas análises - CHD e LDA - entregam respostas semelhantes
que podem auxiliar os pesquisadores qualitativos a inferir temas e campos
semânticos de um conjunto de documentos e/ou comunicações.11 Além dis-
11. Uma diferença prática importante é que a LDA permite identificar esses diferentes conjuntos (tópicos) por documento. No
caso da CHD, esses resultados são mostrados para a totalidade de documentos analisados (corpus total). É possível, com a ajuda
302
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
so, o qualitativista pode atuar na parametrização das classes a serem geradas
pelas ferramentas, verificando se os grupos construídos fazem sentido ou
se apresentam tópicos não misturados. No caso da LDA, como uma ferra-
menta aberta (script construído no R), a capacidade de alterar parâmetros
da análise é mais ampla. No caso da CHD que roda no Iramuteq a parame-
trização ocorre em janelas específicas destinadas ao pesquisador.
Figura 6. Dendrograma dos discursos da Presidente Dilma Rousseff ao
Congresso Nacional em 2016 sem alterar os parâmetros da CHD
(“Número de classes terminais na fase 1” = 10)
Fonte: Elaborado pelos próprios autores.
de alguns softwares, identificar num mesmo documento os clusters montados na CHD, mas isso não é dado automaticamente e
requer a ação do pesquisador.
303
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Figura 7. Dendrograma dos discursos da Presidente Dilma Rousseff ao
Congresso Nacional em 2016 alterando os parâmetros da CHD
(“Número de classes terminais na fase 1” = 20)
Fonte: Elaborado pelos próprios autores
Nas figuras acima podemos ver que ao alterar a parametrização pa-
drão da CHD dobrando o número de classe terminais da fase 1 foi possí-
vel ter maior número de classes e grupos mais homogêneos internamente,
melhorando a identificação de temas que acabaram aparecendo juntos no
primeiro dendrograma.
Por fim, outra análise multivariada interessante sobre textuais é a
Análise Fatorial de Correspondência (AFC). Esta foi criada na década de
1970 por Benzécri e tem como principal característica demonstrar visual-
mente a relação de proximidade ou de diferença entre as comunicações.
304
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Figura 8. AFC a partir da CHD
Fonte: Elaborado pelos próprios autores
Por fim, entendemos que mesmo com ferramentas com aprendiza-
gem de máquina, os qualitativistas podem atuar de forma combinada a par-
tir da validação e aperfeiçoamento das ferramentas computacionais, nos ca-
sos de suportes abertos.
Nesses casos, há duas possibilidades: a melhoria dos resultados das
máquinas por humanos, nomeado de aprendizagem de máquina supervi-
sionada; e a interpretação do que os modelos computacionais estão operan-
do em termos de análises e seus outputs, a partir dos quais a inferência será
construída. Assim, ao considerar que os resultados apresentados pelas má-
quinas podem não ser os mais ajustados, é possível então perceber que o
pesquisador qualitativo deve estar presente no acompanhamento da cons-
trução da análise, na sua interpretação e julgamento, desconfiando, critican-
do e incrementando o trabalho analítico a partir das máquinas.
Em suma, o pesquisador qualitativo pode e deve atuar de forma
combinada desde a coleta e organização dos dados, na parametrização e es-
colha das análises a serem empregadas e também na interpretação e valida-
ção dos resultados apresentados pela Análise Textual.
305
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Figura 9. Esquema de atuação do pesquisador qualitativo na prática combinada
de Análise Textual e Análise de Conteúdo
Fonte: Elaborado pelos próprios autores.
*Quando necessário.
O ponto principal é que sua atuação irá variar em termos de inten-
sidade e presença a partir de cada pergunta de pesquisa, da escolha dos in-
dicadores e análises, bem como das ferramentas a serem utilizadas e na
construção dos insights relevantes que irão atender ao princípio de uma her-
menêutica controlada para a Análise de Conteúdo.
3. Questões éticas específicas à técnica
Ao tratarmos de um tipo de técnica altamente computacional, mas
que, em alguma medida, pode e deve ter a participação humana, a primei-
ra questão ética que emerge é como definir os limites da ação humana no
trabalho automatizado para não enviesar o processamento computacional.
Ou seja, mesmo com o processamento e reorganização computacional de
grandes volumes de texto percebemos que, tanto nas ferramentas fecha-
das, quanto nas abertas, é possível “conduzir” o computador para “melho-
rar” os resultados. Esse é o ponto sensível.
Ao longo do texto trouxemos vários comentários e exemplos dis-
so, como: a limpeza do corpus, que pode excluir palavras para “melhorar” a
aparição de outras; a escolhas das variáveis de interesse; a parametrização
306
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
das análises em suportes fechados, etc.
Assim, uma conduta importante nesse sentido é uma velha conhe-
cida da ciência: a transparência. É muito recomendado que os pesquisado-
res deixem claro os parâmetros, limpezas e ações que realizaram ao longo
do processo na análise textual, com exemplos e anexos contendo excertos.
Isso vale para a análise de conteúdo humana, isso vale aqui. Ao ser trans-
parente sobre os procedimentos, o pesquisador, além de permitir ao leitor,
seus pares e outras gerações o acompanhamento da construção de suas
inferências, ele permite a replicabilidade dos resultados e o teste de suas
conclusões (Miguel et al., 2014; De Oliveira et al., 2021). Ainda no esteio
de garantir a replicabilidade, outra boa prática de pesquisa é disponibilizar
abertamente em repositório online o corpus original e modificado para que
possam ser comparados.
Outro aspecto ético sobre esses limites se refere a até onde os pes-
quisadores devem interferir no processamento textual que o computador
vai fazer a partir da definição de parâmetros de análise ou limpeza e prepa-
ração do corpus e dos dados. Comecemos de trás para a frente.
Como dissemos, todo corpus precisa ser preparado e limpo para ser
processado pela ferramenta - aberta ou fechada - em padrões prévios (for-
mato do arquivo, tipo de caracteres processáveis etc.). Mas nessa fase, lem-
bremos, também podemos “editar os textos” para uniformizar descritores
semelhantes ou mesmo excluir palavras que não interessam (como a cria-
ção de listas de exclusão). Nesse caso, sugerimos que sejam utilizados ape-
nas critérios objetivos para essas operações, como: regras linguísticas de
importância das classes gramaticais para a pesquisa (i.e. substantivos, arti-
go e verbos) ou mesmo a frequência das palavras; ou mesmo a critérios de
pertinência de palavras para um determinado tema (como na análise de di-
cionário). Essas condições mais objetivas, somadas à transparência e à va-
lidação intersubjetiva, dará um modelo ético e científico de mínima inter-
ferência no corpus.
No caso da parametrização das análises, vários suportes sugerem pa-
râmetros padronizados (ou por default). Utilizemos, novamente, um exem-
plo vindo do Iramuteq. Na Classificação Descendente Hierárquica (CHD),
307
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
por exemplo, o software realiza a análise em duas etapas e, na primeira delas,
podemos interferir no número de grupos a serem formados. Por default, ou
por padrão, o software já traz uma quantidade máxima de 10 grupos na pri-
meira rodada. Isso significa dizer que o resultado - após a segunda rodada
de testes - entregará sempre uma quantidade igual ou menor que 10 gru-
pos. Quando temos um corpus não muito extenso e bem uniforme, os re-
sultados são grupos mais estáveis seguindo as métricas padrão. Entretanto,
quando temos um corpus muito extenso e diverso, vale a pena alterar essa
parametrização, dado que menos de 10 grupos pode ser insuficiente para
capturar as nuances amplas do que está sendo comunicado. Entretanto, no-
vamente, a transparência de qual foi o parâmetro alterado e para qual valor
é essencial para garantir a validade e ética do resultado.
Outras análises onde é necessário cuidado para parametrizar são
aquelas que lidam com a coocorrência de palavras numa classe ou num cor-
pus. Novamente, em corpus extensos - com muitas palavras - a visualização
dessas relações fica confusa, ou, por vezes, ilegível.
Figura 10. Árvore de coocorrência antes de ser limpa e com difícil visualização.
Fonte: Elaborada pelos próprios autores com o software Iramuteq
Neste sentido, as ferramentas abertas e fechadas permitem que se-
jam feitas listas de exclusão ou mesmo que se considere apenas parte do
corpus para isso. Assim, se for utilizado algum desses recursos, além de ex-
plícitos no texto final para justificar o resultado apresentado, é interessante
308
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
utilizar os mesmos parâmetros objetivos que comentamos na limpeza do
corpus acima.
Por fim, sugerimos que o pesquisador, no geral, interfira o mínimo
possível nos dados. Que isso só ocorra - no corpus ou na parametrização
dos dados - quando o processamento do material no original devolver uma
análise confusa. O que seria isso? Resultados sujos ou inviáveis de leitura
visual (Figura 10); lista de palavras que não interessam à pesquisa em posi-
ções de frequência significativas, o que vai enviesar os resultados estatísti-
cos; bem como, corpus onde há muitos sinônimos. Fora isso, quanto mais
original for o corpus para a análise computacional, melhor.
4. Aplicações em Ciência Política
É por meio da comunicação - e do texto - que os atores e as insti-
tuições políticas se expressam, apontam posições, estruturam conflitos ou
estimulam a cooperação, se conectam com os eleitores, prescrevem leis e
regulamentos que ordenam as práticas sociais e política etc. Assim, diver-
sos objetos da política podem ser estudados a partir do texto e de dados
comunicacionais.
O que se torna sui generis, neste momento, é, de um lado, a disponi-
bilidade de dados comunicacionais políticos numa quantidade sem prece-
dentes, que podem ser acessados computacionalmente e que permitiram a
superação um descompasso histórico entre a emissão de comunicações e
a capacidade analítica dos pesquisadores (Grimmer; Stewart, 2013); de ou-
tro, a combinação cada vez mais frequente de análises quantitativas e qua-
litativas, dando abordagens mistas.
Essa discussão só reforça a relevância de pensarmos as abordagens
combinadas, em especial, refletindo sobre como integrar um trabalho qua-
litativo qualificado ao universo dos grandes números quantitativos. Como
vimos, os dados textuais nos trazem oportunidades possíveis.
Wiedemann (2013) se debruça nesta discussão ao analisar o conceito
de democracia nos discursos políticos da Alemanha. O autor, que foi uma
das bases deste capítulo, traz uma importante discussão sobre CAQDAS -
softwares de análise qualitativa - e mineração de texto, retomando a trajetória
309
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de incorporação dessas ferramentas do trabalho automatizado e quantita-
tivo. Além disso, ao longo dos capítulos, ele demonstra os testes que reali-
zou para a mineração de texto. Ao final de cada capítulo, compilar as “lições
aprendidas” com o trabalho de análise textual, passando por aspectos como
a melhor formforma de identificar palavras-chave; o uso de documentos
de referência para a análise de dicionários, métodos com mais precisão, etc.
Outro exemplo interessante é o Manifest Research Project, consórcio
de pesquisadores que analisa o papel e posições dos partidos políticos em
mais de 50 países nos 5 continentes a partir da análise de conteúdo temáti-
ca qualitativa de seus manifestos. Em 2003 o projeto recebeu o prêmio de
melhor base de dados da American Polítical Science Association (APSA) e des-
de 2009 é financiado a longo prazo pela German Science Foundation (DFG).
O trabalho de análise foi, durante muitos anos, tradicionalmente baseado
na classificação dos manifestos por codificadores treinados e com livro de
códigos, a partir de semi-sentences (ST), ou seja, trechos de textos de tama-
nhos variados que permitem a inferência de um tema exclusivo. Entretanto,
mais recentemente, o MARPOR integrou às suas análises a análise textual
e scripts de R que, a partir do léxico e da análise de tópicos,12 tem permiti-
do inferir os temas de um determinado conjunto de texto sem a participa-
ção inicial dos pesquisadores. Neste sentido, continua fazendo Análise de
Conteúdo, entretanto combinada com a Análise Textual.
No Brasil, em várias áreas do conhecimento, o trabalho com soft-
wares de lexicometria ou CAQDAS para a análise textual tem se difundido
de forma significativa. Entretanto, apesar de serem trabalhos que apontam
claramente em seus textos a utilização da Análise de Texto em suas pesqui-
sas, o grau de utilização e se houve formas combinadas, ainda carece de in-
vestigação mais aprofundada. Alguns exemplos demonstram ser comum o
uso da análise textual na sua forma menos combinada ou mais restrita aos
testes e análises estatísticas.
Oliveira e Diniz (2021) se valem de análise textual para identificar
temas legislativos nos discursos presidenciais dos presidentes brasileiros
Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT)13 na
12. Na análise de tópicos o texto é decomposto em um conjunto de palavras que aparecem próximas
13. Nos seus dois primeiros mandatos, considerando, assim, o período de 2003-2010.
310
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Voz do Brasil, mais antigo programa de rádio do hemisfério sul e que dia-
riamente serve de canal de comunicação do Estado brasileiro, com espaços
para os três poderes e órgãos federais. Na pesquisa, a análise de conteúdo
foi focada quase que inteiramente nos resultados das análises multivaria-
das - como CHD e árvore de coocorrência. Com o trabalho sobre um cor-
pus de mais de 380 mil palavras, as autoras conseguiram identificar como
temas da agenda legislativa do Executivo apareceram nos discursos a partir
de árvores de coocorrência.
Ribeiro (2017) por sua vez utiliza do Iramuteq para analisar a modi-
ficação do papel do Banco Central (BACEN) ao longo dos três primeiros
governos do PT na Presidência da República (2003-2014) a partir das atas
do Comitê de Política Econômica (COPOM). Na pesquisa, a autora utili-
zou basicamente, as análises de similitude (árvore de coocorrência) e nu-
vem de palavras para inferir como, por meio dos termos constante nas atas,
poderia se identificar uma variação no caráter do Bacen. Nas conclusões,
ela aponta que as análises se mostraram promissoras para identificar os ter-
mos e caminhos encontrados no processo decisório da política econômi-
ca nacional. Entretanto, a análise precisaria avançar no sentido de “propor
métodos analíticos que aproximem cientistas sociais e economistas políti-
cos e que permitam gerar conexões semânticas entre o jargão econômico
e seu contexto” (Ribeiro, 2017, p. 115). Neste sentido, concordamos com
a importância de levar em consideração as etapas de prévias da Análise de
Conteúdo - que se dedicam a traduzir as questões da pesquisa nas variáveis
e indicadores de interesse - como uma forma de mitigar esses pontos ce-
gos dos resultados.
Oliveira e Valadares (2022) se debruçaram sobre corpus textuais
para investigar a importância da questão de gênero sobre os discursos ao
Congresso de dois presidentes do Partido dos Trabalhadores - Lula e Dilma
Rousseff. Com um corpus de mais de 2.000.000 de palavras, as autoras con-
seguiram identificar como os termos “mulher” e “gênero” apareceram nas fa-
las de ambos presidentes. As autoras demonstraram, a partir da Classificação
Hierárquica Descendente (CHD) dos discursos, que o termo “gênero” teve
pouco peso estatístico nas classes geradas por mandato. Além disso, o termo
311
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
“mulher” só foi relevante em 2 dos 8 discursos proferidos por Lula. Já nas
6 falas da presidente Dilma Rousseff ao Congresso, o termo se mostrou re-
levante. Interessante apontar, por meio das conclusões do trabalho, como a
presença mais forte do termo “mulher” demonstrou uma forma mais geral
de se referir às políticas do que o termo “gênero” que além de ser mais co-
mum na discussão de equidade, também é mais presente na oposição con-
servadora do período.
Assim, os trabalhos citados nos exemplos acima fazem a inferência
qualitativa a partir dos resultados apresentados pelas ferramentas compu-
tacionais, sem retornar ao trabalho de investigação dos trechos ou do tex-
to em si. Buscando uma análise de fato combinada, Becerra (2023) investi-
ga os ataques do presidente Bolsonaro à imprensa nas lives de seu primeiro
ano de mandato. Para tanto, a autora divide seu trabalho de análise em duas
etapas: na primeira, com o auxílio da Análise Textual, identifica um grupo
estável de trechos e falas ligados à imprensa que contém a palavra fake news;
e depois realiza uma interpretação qualitativa dos trechos ligados aos ter-
mos para investigar se, de fato, o termo fake news foi utilizado para atacar a
credibilidade da imprensa.
Por fim, compreendemos que a análise combinada por ser utiliza-
da em diferentes temas mais tradicionais ou emergentes da ciência política.
Fato é que todo fenômeno político em que seus dados sejam expressos de
forma textual (ou transformados em texto) permite a utilização da Análise
Textual combinada.
5. Vantagens e desafios da prática combinada
A possibilidade de combinar diferentes práticas e técnicas de pes-
quisa para a construção de um projeto é altamente desejável, mas raramen-
te utilizado (Niglas, 2004; Bryman,Bell, 2006; Wooley, 2008). Small (2011)
aponta que as vantagens na utilização de metodologias que combinam da-
dos ou técnicas qualitativas e quantitativas operam tanto no campo da con-
firmação quanto da complementaridade.
Neste sentido, é possível o pesquisador identificar as limitações de
determinada abordagem e complementá-la, dando maior robustez para as
312
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
pesquisas. Por outro lado, é interessante perceber como insights percebidos
numa leitura flutuante de textos podem ser corroborados por dendrogra-
mas temáticos. Ou mesmo, após conduzir a análise de um conjunto grande
de dados quantitativamente, o analista realize uma interpretação qualitativa
de uma amostra, recuperando detalhes que podem ter sido desconsidera-
dos em uma análise que trabalha com muito dados agregados. Além disso,
com os softwares, a distância entre a produção de dados textuais e a capaci-
dade de análise fica menor e possivelmente superável, ampliando também
a capacidade de análise do pesquisador.
Entretanto, todas essas possibilidades e transformações trazem de-
safios. Para a prática combinada de ferramentas, por exemplo, é necessá-
rio que o pesquisador conheça de forma significativa cada uma delas, suas
análises, quais dados rodam e mesmo seus outputs para poder analisar, já
de partida, a viabilidade da combinação.
No que tange os insights, o principal desafio é a combinar os dife-
rentes caminhos de interpretação, entendendo quais as possibilidades ana-
líticas existem a partir das diferentes ferramentas, e dos resultados obtidos
por elas. Ademais, cabe ao pesquisador entender como validar as técnicas
escolhidas a partir de cada modelo de análise, e quais as lacunas de cada ins-
trumento de análise.
Além disso, para o analista que quer lidar com ferramentas abertas
e construir seus próprios scripts, é necessário aprender alguma linguagem
de programação. E isso levará tempo e dedicação para lidar com a lógica de
programação, fortemente orientada pela linguagem matemática.
Considerações finais
Como dissemos na abertura deste capítulo, podem restar, ao lon-
go da leitura, uma série de questões que precisam ser pensadas e construí-
das em conjunto com os campos que interseccionam a Ciência Política e a
Análise Textual.
Ademais, destaca-se a necessidade de entender que o texto, é, e foi
historicamente entendido, como efetivamente um dado (data) dentro da
AT, que, ao se consolidar juntamente ao campo lexicométrico, firma um
313
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
compromisso em materializar o campo político por meio da palavra, so-
mando-se a métodos quantitativos. Pontua-se também que é imprescindí-
vel, a presença do pesquisador em todo o processo de uniformização, veri-
ficação, validação e análise dos resultados.
Importante reconhecer que as transformações que tentamos escru-
tinar aqui ultrapassam os exemplos e técnicas citados, demonstrando um
esforço reflexivo ainda parcial e aberto a novas contribuições, até porque
elas têm se movido em uma velocidade maior do que o ritmo da reflexão
acadêmica. Enquanto falamos aqui de análise textual sem aprendizagem de
máquina, já estamos convivendo com a realidade social - e acadêmica - atra-
vessada por modelos computacionais com inteligência artificial que gradati-
vamente incorporam mais a mais funções dos pesquisadores - como a pró-
pria inferência de contradições nos textos, temas e conceitos.
Entretanto, cabe-nos perguntar como a Ciência Política irá acom-
panhar esse desenvolvimento e como integrar as potencialidades desse de-
senvolvimento sem abdicar da principal ferramenta do cientista social: o
pensamento crítico, científico e qualificado sobre as transformações sociais
que nos atravessam.
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10
Introdução aos softwares de Análise de Dados
Qualitativos em Ciência Política
Mariana Arcos Lorencetti
Douglas Henrique Novelli
318
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
A crescente disponibilidade de dados é uma realidade presente no cotidiano
de pesquisadores e pesquisadoras, independentemente do campo de estudos
ou tradição epistemológica a qual estejam subscritos. Os avanços tecnoló-
gicos e novas formas de interação da sociedade com a tecnologia têm sido
os grandes motores desse processo: da expansão das redes sociais e popu-
larização de mídias digitais, ampliação do número de bases de dados de ór-
gãos governamentais e agências de pesquisa, até a simples digitalização de
arquivos outrora esquecidos em mídias físicas de difícil acesso – são múlti-
plos os fatores que têm contribuído para esse cenário.
A ampliação exponencial das fontes de informação apresenta vas-
tas, novas e importantes oportunidades de pesquisa, mas também impõe
uma série de desafios: como garantir que a coleta, tratamento e análise des-
se volume de dados siga princípios básicos da pesquisa científica, como o
da transparência, confiabilidade e replicabilidade? Embora essas sejam ques-
tões compartilhadas por todo o campo científico, responder a esta demanda
é particularmente desafiador em pesquisas qualitativas, as quais, tradicional-
mente, permitem abordagens mais subjetivas e menos engessadas que suas
contrapartes quantitativas, encontrando maiores dificuldades na sistemati-
zação de um conjunto tão amplo de informações.
Isto posto, embora seja um problema de considerável gravidade, não
se trata de uma questão tão nova, com ferramentas digitais que se prestam a
auxiliar pesquisadores na análise de dados qualitativos surgindo desde a dé-
cada de 1980 (Seidel, 1991; Tesch, 1990). O presente capítulo busca assim
revisar o uso e aplicação desses softwares de Análise de Dados Qualitativos –
os chamados CAQDAS1 – no campo da Ciência Política. Seu objetivo não é
ser um manual exaustivo do uso desses programas, dado que não seria viável
fazê-lo em um único capítulo e já existem múltiplas obras com esse objeti-
vo específico em mente, e sim apresentar uma revisão geral de suas princi-
pais ferramentas e aplicações na área. Com isso em mente, o capítulo é di-
vidido em duas seções, sendo a primeira voltada a descrição dos conceitos
básicos e da lógica de uso que permeia softwares dessa natureza, enquanto
1. Sigla derivada do termo em inglês, Computer-Assisted Qualitative Data Analysis Softwares. Nota-se que o termo QDA software, ou,
simplesmente, QDAS, também é empregado pela literatura.
319
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
a segunda se volta a uma breve análise das principais opções disponíveis,
acompanhada de exemplos de seus usos na Ciência Política.
1. Conceitos básicos e lógica de uso
Antes de avançar para a discussão dos softwares propriamente ditos e
como eles podem auxiliar pesquisadores em suas análises, é necessário revi-
sar alguns conceitos básicos, a começar pelo próprio entendimento de da-
dos qualitativos. Conforme apontado por Margit Schreier (2012, p.20), ao
contrário de dados quantitativos, que, em sua forma bruta, irão consistir de
valores numéricos com pouco espaço para interpretação, dados qualitati-
vos são essencialmente materiais simbólicos – texto, imagens e vídeos, en-
tre outros –, os quais irão demandar uma interpretação altamente contex-
tual e, muitas vezes, subjetiva. Isso não implica a impossibilidade para dados
qualitativos servirem de base para pesquisas que empregam metodologias
quantitativas – por exemplo, um estudo sobre a evolução do perfil legisla-
tivo na câmara dos deputados irá recorrer a dados qualitativos, como gêne-
ro e área de formação, para derivar variáveis categóricas, que podem então
ser analisadas por meio de métodos quantitativos–,2 mas será necessário
que esses dados sejam primeiro coletados e tratados de modo qualitativo.
Nesse sentido, iremos adotar a definição proposta por Christina
Silver e Ann Lewins, segundo a qual, para um programa ser considerado
um software de análise de dados qualitativos, é necessário que ele tenha como
princípio básico “adotar uma abordagem qualitativa para tratar dados quali-
tativos” (2017, p. 21). Em termos práticos, isso significa interpretar os dados
através da identificação de temas, conceitos, processos e contextos, buscan-
do construir, testar ou ampliar teorias. Esse processo geralmente é feito atra-
vés da codificação do material, simplificando e agrupando informações ao
atribuir rótulos a parcelas significativas dos dados que irão orientar a análise.
Ainda de acordo com as autoras supracitadas (Silver; Lewins, 2017,
p. 19), a codificação, seja ela feita ou não por meio de CAQDAS, deve ser
interpretada como um instrumento para auxiliar na organização, análise e
interpretação dos dados de um projeto. O processo de codificação, seja ele
2. Para um exemplo nesse sentido, ver Lorencetti (2017).
320
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
formal ou informal, também não deve ser encarado como um procedimen-
to mecânico voltado à redução dos dados, mas sim como uma ação voltada
para estimular e facilitar as análises, geralmente envolvendo um estágio ini-
cial, de identificação e codificação; e um estágio avançado, de refinamento
interpretativo e recodificação (Bazeley, 2013, p. 125).3 Logo, apesar da co-
dificação qualitativa necessariamente envolver redução dos dados, seu ob-
jetivo é a retenção das informações (Richards, 2015, p.104).
Embora seja plenamente possível realizar esses procedimentos sem
o auxílio de qualquer software, seja ele especializado ou não, é importante no-
tar que, ao trabalhar com dados qualitativos, os pesquisadores podem fa-
cilmente se sentir sobrecarregados pelo volume de dados a sua disposição.
Seguindo o exemplo fornecido por Schreier (2012, p.58), uma pesquisa que
empregue entrevistas em profundidade, com duração média de uma hora,
irá render, aproximadamente, 15 páginas de texto por entrevista; se forem
realizadas 15 entrevistas, isso irá se converter em 15 horas de áudio, ou 225
páginas de texto – um volume monumental de dados para serem analisa-
dos à mão. O processo de codificação serve assim para reduzir e organi-
zar os materiais de acordo com seus significados percebidos, com o uso de
CAQDAS sendo recomendado para facilitar esse processo ao permitir o rá-
pido acesso a todo o acervo trabalhado, além de fornecer ferramentas para
sua visualização e, se necessário, recodificação.
Naturalmente, a codificação auxiliada por softwares não está livre de
seus próprios riscos. Conforme Bazeley (2013, p.139) destaca, é fácil se per-
der no processo de codificação, detalhando extensivamente os dados ape-
nas pela facilidade em gerir um grande volume de códigos de modo eficien-
te, enquanto, simultaneamente, são ignoradas as ferramentas de anotações,
análise e identificação de conexões fornecidas por esses mesmos progra-
mas. Esse comportamento limita consideravelmente as reflexões que pode-
riam ser extraídas do conteúdo em análise, devendo ser ativamente evitado.
O foco excessivo no processo de codificação, inclusive, rendeu algu-
mas das primeiras críticas contundentes ao uso de CAQDAS nas Ciências
Sociais, com pesquisadores questionando como essa estrutura de navegação
3. A estrutura da codificação irá variar conforme cada caso, dependendo não apenas do método empregado, como, sobretudo, da
pergunta de pesquisa que se busca responder. Para uma discussão mais aprofundada sobre o assunto, ver Schreier (2012, cap. 5).
321
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
priorizaria técnicas baseadas na codificação formal em detrimento de ou-
tras formas de navegar e analisar os dados (Coffey; Holbrook; Atkinson,
1996; Lee; Fielding, 1996). Embora essas críticas sejam válidas, é importan-
te notar que o uso desses códigos irá variar muito de acordo com o próprio
método empregado, com a codificação podendo ser feita de modo formal,
como, por exemplo, em análises de conteúdo; ou informal, como utilizado
em análises de discurso (Halperin; Heath, 2020). Ademais, os avanços tec-
nológicos aos quais esses softwares foram submetidos ao longo dos anos ga-
rantiu a inclusão de múltiplas ferramentas para organizar, analisar e reportar
os dados, de modo que, ao invés de serem uma barreira que afasta os pes-
quisadores do material sendo estudado, CAQDAS, na realidade, ampliam as
possibilidades de contato e exploração dos dados (Lewins; Silver, 2009, p. 7).
Além da codificação básica, os CAQDAS também costumam apre-
sentar um conjunto amplo de ferramentas para auxiliar pesquisadores e pes-
quisadoras nos mais variados estágios da pesquisa com dados qualitativos. É
difícil fornecer uma lista definitiva dessas ferramentas, tendo em vista que
softwares dessa natureza estão em constante evolução, incorporando novas
funcionalidades na medida em que ocorrem avanços metodológicos e tec-
nológicos. Listas não exaustivas dessas funcionalidades já foram apresenta-
das por outros autores (Schreier, 2012; Lewins; Silver, 2009; 2017; Franzosi
et al., 2013; Kalpokas, 2022; Andradeet al., 2019), destacando as seguintes
possibilidades oferecidas por CAQDAS:
● Organizar o projeto de pesquisa, seja através de grupos de docu-
mentos, grupos de códigos, ou códigos inteligentes;
● Busca automática, que procuram por palavras, frases, e concei-
tos na base de dados, oferecendo opções para codificar esse material dire-
tamente da ferramenta de busca;
● Codificar parcelas do material que atendam a determinadas re-
gras, como, por exemplo, já estar codificado com certo conjunto de códigos;
● Escrever comentários ligados a determinado objeto do projeto,
como códigos, documentos ou recortes codificados em um documento;
● Escrever anotações na forma de novos objetos, as quais podem
ser utilizadas para documentar os avanços da pesquisa;
322
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
● Identificar conexões relevantes entre objetos, sejam eles docu-
mentos, códigos ou anotações;
● Utilizar as conexões identificadas para criar redes ou mapas con-
ceituais entre os elementos do projeto;
● Sincronizar e controlar a confiabilidade em projetos que envol-
vam múltiplos codificadores;
● Exportar relatórios textuais, que podem incluir a codificação com-
pleta da base de dados, com todos os segmentos considerados relevantes,
suas codificações e comentários que descrevem a lógica que os sustenta; e
● Exportar relatórios visuais, incluindo análises de frequência com
os códigos identificados por diferentes cores.
Também é comum que CAQDAS incluam ferramentas para a expor-
tação de dados quantitativos extraídos dos documentos trabalhados, com al-
guns incluindo opções de exportação direta para softwares estatísticos como
o SPSS. Comumente, esses relatórios poderão incluir: número total de vezes
que determinado código foi empregado; número de vezes que cada código
foi empregado em cada documento; e número de vezes em que dois códi-
gos foram empregados juntos (coocorrência). Assim, embora às vezes todo
o processo de pesquisa possa ser realizado dentro de um CAQDAS – como,
por exemplo, em uma análise temática (Braun; Clarke, 2021; Herzoget al.,
2019. Ver também: Drummond; Costa; Gonçalves, 2024, capítulo 7 deste
mesmo volume) –, esses softwares também podem ser utilizados como ponto
de partida para a organização e extração de dados quantitativos dos mate-
riais analisados, os quais, então, podem ser exportados e servir de base para
pesquisas ainda mais refinadas, indo de uma simples regressão até análises
de rede construídas a partir dos dados coletados, respondendo às necessi-
dades da pesquisa e do método escolhido.
Para além dessas opções de organização, tratamento e análise de da-
dos qualitativos, os CAQDAS ainda oferecem uma vasta gama de opções
de relatórios possíveis de serem gerados, permitindo ganhos em aspectos
sensíveis da pesquisa científica, nomeadamente a adesão a princípios bá-
sicos como os da validade, replicabilidade, confiabilidade e transparência.
323
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Resumidamente, o primeiro desses princípios, o da validade, corresponde
a pertinência epistemológica das estratégias adotadas, incluindo a escolha
dos dados e suas técnicas de coleta e análise. Já o segundo princípio, repli-
cabilidade, refere-se à capacidade de outros pesquisadores repetirem a pes-
quisa empregando os mesmos dados e métodos. Por sua vez, a confiabilida-
de se refere à capacidade de outros pesquisadores, ao replicarem a pesquisa
fora de seu contexto original, chegarem a resultados iguais ou similares.
Notavelmente, a adesão a esses princípios só pode ser garantida por meio da
transparência, que se refere à adequada divulgação dos detalhes e procedi-
mentos envolvidos em cada etapa da pesquisa, possibilitando uma avaliação
criteriosa e aprimoramento contínuo por parte da comunidade científica.4
A possibilidade oferecida pelos CAQDAS para o registro completo
dos procedimentos adotados em cada etapa da pesquisa torna relativamente
fácil garantir essa transparência, a qual, por sua vez, permite verificar e atin-
gir os demais princípios mencionados. Embora não exista um consenso de
quais são as melhores práticas a serem adotadas, as opções incluem a gera-
ção de relatórios como livros de códigos; a exportação de dados tabulados,
indicando quais códigos foram empregados em cada documento; a criação
de um relatório textual completo, com as parcelas do texto que foram co-
dificadas, códigos inseridos em cada segmento e comentários explicativos
sobre as escolhas adotadas; e, naturalmente, a exportação de um arquivo
contendo todo o projeto, o qual pode então ser importado em um software
semelhante para sua verificação completa.5 No caso de pesquisas envolven-
do mais de um codificador, alguns softwares mais avançados oferecem ainda
a possibilidade de geração de testes de confiabilidade, variando entre dispo-
nibilização de métricas como frequência simples até alfa de Krippendorff.
Em resumo, os CAQDAS oferecem recursos que permitem extrair
informações valiosas a partir de documentos e materiais qualitativos, facili-
tando a organização e análise dos dados ao mesmo tempo que viabilizam a
4. Para uma discussão mais aprofundada sobre essas questões, ver Moravcsik (2014), Lupia e Elman (2014) e Elman, Kapiszewski
e Lupia (2018). Ver também os capítulos 11 e 12 deste mesmo volume (Sandes-Freitas; Vasquez, 2024; Santos, 2024).
5. Embora cada programa por padrão adote um formato proprietário distinto, os principais softwares no mercado de CAQDAS
são subscritos à Rotterdam Exchange Format Initiative (REFI), criada com a finalidade explícita de desenvolver um formato padrão
(.qdxp) que permita a troca de dados qualitativos processados com programas dessa natureza. Embora algumas inconsistências
possam ocorrer ao transferir os dados de um programa para outro, espera-se que as informações básicas, como os arquivos
sendo analisados, segmentos marcados como relevantes, códigos empregados e comentários redigidos estejam sempre acessíveis.
324
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
criação de extensos relatórios que garantem a adesão dos estudos a princí-
pios essenciais da pesquisa científica, como validade, replicabilidade, confia-
bilidade e transparência. Isto posto, conforme já mencionado, os CAQDAS
apresentam diferenças sensíveis entre si, de modo que a próxima seção do
capítulo busca apresentar algumas das principais opções disponíveis, des-
tacando exemplos do uso desses programas em pesquisas do campo da
Ciência Política.
2. Principais opções e exemplos de uso na Ciência Política
Conforme exposto na seção anterior, softwares voltados à análise de
dados qualitativos tendem a seguir lógicas de uso semelhantes, essencial-
mente baseadas na codificação de segmentos dos dados, com funcionalida-
des muito próximas entre si, podendo ser localizadas em múltiplos pacotes
e incluir ferramentas adicionais. Isso não implica que todos os CAQDAS
sejam iguais, tendo em vista que a disponibilidade dessas ferramentas irá
variar muito de um software para outro: programas mais simples costumam
cobrir apenas arquivos de texto e disponibilizar relatórios básicos, como
contagem de palavras e frequência simples das codificações; já opções mais
avançadas irão oferecer vasto suporte a documentos de texto, áudio, vídeo,
imagens, tabelas de survey, dados bibliográficos e dados de geolocalização,
com ferramentas de análise variando entre a construção de redes semânti-
cas até a codificação automática por meio de inteligência artificial – no en-
tanto, tais funcionalidades são costumeiramente atreladas a um custo de
acesso mais elevado.
A escolha do software também suscita considerações metodológi-
cas mais profundas, tendo em vista que, como lembrado por Paulus et al.
(2015), a utilização de CAQDAS implica na interação entre as etapas e com-
portamentos prescritos pelo método empregado e as ferramentas disponí-
veis através de cada software, gerando cenários nos quais o programa pode
oferecer novas técnicas de exploração junto de novas formas para a execu-
ção técnicas familiares, ou severamente limitar a análise com base nas fer-
ramentas que oferece.
Notavelmente, a extensa lista de opções disponíveis no mercado
325
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
não favorece pesquisadores inexperientes com o uso de softwares de análise
de dados qualitativos. A CAQDAS Networking Project (2023), por exemplo,
fornece uma lista não exaustiva com 21 programas. Além destes, soluções
similares ainda podem ser encontradas na forma de pacotes para linguagens
de programação amplamente utilizadas pela academia, como o RQDA e o
QDAP, para R, e o Py3QDA, para Python (Huang, 2016).
Conforme já notado por diversas pesquisas (Andradeet al., 2019;
Franzosi et al., 2013; Paulus et al., 2015), ao longo das últimas duas déca-
das, três opções desse universo de programas se consolidaram como lide-
ranças no mercado: [Link], MAXQDA e NVivo. Embora se tratem de
três softwares comerciais e de uso fechado, suas funcionalidades estão mui-
to à frente das opções gratuitas e de código aberto, o que, em grande par-
te, justifica sua popularidade. Sendo os principais concorrentes uns dos ou-
tros, as inovações trazidas por um deles costumam logo ser implementadas
nos demais, garantindo aos usuários uma considerável sinergia no compar-
tilhamento e aproveitamento dos conhecimentos técnicos adquiridos en-
tre eles. Isto posto, diferenças e particularidades ainda existem, sendo dis-
cutidas a seguir.
2.1 ATLAS.ti6
Lançado em 1993 para uso comercial, o [Link] atualmente se
encontra na versão 23, com opções disponíveis para Windows, macOS,
Android e iOS, além de uma versão em nuvem. As ferramentas disponíveis
irão variar consideravelmente entre as versões, com a opção para desktop sen-
do a mais completa e, portanto, será a versão aqui considerada.
Enquanto um CAQDAS, o [Link] irá oferecer todas as princi-
pais ferramentas comuns a softwares dessa natureza, listadas na seção ante-
rior. Considerando os formatos de arquivo suportados, o programa dispõe
de ferramentas para analisar texto, imagens, áudios, vídeos e dados de geor-
referenciamento, aceitando a importação desses documentos em múltiplos
formatos. Adicionalmente, o [Link] ainda é capaz de importar e geren-
ciar dados de survey configurados na forma de tabelas; de gerenciadores de
6. [Link] (último acesso em 25 de novembro de 2024).
326
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
literatura, com bibliotecas exportadas nos formatos ris ou bib; transcrições
de áudio; e comentários em redes sociais, também configurados na forma
de tabela. Particularmente no caso de arquivos de texto, o [Link] ofere-
ce suporte à exibição e codificação em alfabetos não-latinos, como hanzi,
kanji, cirílico, árabe e hebraico, além de permitir que comentários em arqui-
vos doc e pdf sejam automaticamente importados como citações (quotations)–
isto é, parcelas dos arquivos identificadas como relevantes e submetidas ao
processo de codificação.
Acerca da análise de informações, para além da codificação manual,
o [Link] fornece aos usuários múltiplas opções de codificação automá-
tica, incluindo codificação a partir da ferramenta de busca; codificação a
partir de codificações prévias; reconhecimento de entidades nomeadas, se-
jam elas pessoas, locais ou organizações; análise de sentimentos, utilizada
para auxiliar na compreensão do tom emocional dos dados, indicando se
determinadas parcelas do texto contém sentimentos positivos, negativos ou
neutros; identificação de conceitos, que busca pelos substantivos mais men-
cionados e as palavras associadas a eles, oferecendo a opção de gerar uma
nuvem de palavras que destaca os termos mais frequentes e auxilia na iden-
tificação de padrões gerais e estruturais entre os conceitos e subconceitos;
e categorização de opiniões, que combina as funcionalidades das duas fer-
ramentas anteriores, indicando não apenas os conceitos, mas também atri-
buindo sentimentos positivos e negativos associados ao uso desses termos
no conjunto de dados analisado.
Em sua versão mais recente, o [Link] também passou a oferecer
a opção de codificação totalmente automatizada, oferecida através da tecno-
logia de inteligência artificial GPT da OpenAI, acessível diretamente atra-
vés do programa. A ferramenta atualmente se encontra em fase de testes,7
mas já é capaz de sugerir uma estrutura inicial de codificação e produzir re-
latórios que sumarizam os dados analisados em conjuntos de arquivos de
texto, prometendo reduzir em muito o tempo que normalmente seria dedi-
cado a exploração dos dados – o que, é importante destacar, não exime o
7. Embora o [Link] seja o precursor desse tipo de ferramenta no mercado de CAQDAS, sua implementação ainda é recente,
estando sujeita a erros ao passo que o próprio modelo de processamento de linguagem na qual é baseada ainda está em seu
início. Com o tempo, é provável que outros softwares dessa natureza implementem soluções semelhantes, com o potencial para
esse tipo de análise, auxiliada por modelos de linguagem amplas, se tornar uma tendência na pesquisa com dados qualitativos.
327
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
pesquisador das tarefas de análise e recodificação desse material.
Com relação a exportação de relatórios, o programa fornece múlti-
plas opções para seus usuários, variando entre relatórios textuais, estatísti-
cos e visuais. O primeiro grupo irá incluir a exportação do livro de códigos
na forma de tabela, além de relatórios completos, em doc ou pdf, detalhan-
do todo o processo de codificação, podendo incluir os segmentos codifica-
dos, suas codificações, e anotações atreladas a todos os elementos do pro-
jeto. Por sua vez, seus relatórios estatísticos irão incluir a relação completa
das codificações atreladas a cada documento e a análise de coocorrência en-
tre os códigos. Embora limitados, esses relatórios podem ser exportados
para outros softwares voltados para análises estatísticas mais robustas, além
de servir de base para os relatórios visuais gerados pelo [Link], os quais
incluem gráficos de frequência, nuvens de palavras, diagramas de sankey e
grafos de rede.
Para além dessas ferramentas convencionais, o [Link] irá se so-
bressair em comparação às demais alternativas em dois aspectos. O primei-
ro deles é o extenso suporte a projetos envolvendo múltiplos codificadores,
permitindo colaboração em tempo real em sua versão web, além de uma ro-
busta ferramenta para calcular a confiabilidade dos resultados inter-codifi-
cadores (disponível apenas na versão desktop).8
O segundo aspecto no qual se destaca são suas ferramentas focadas
na construção de redes semânticas, as quais permitem a visualização e aná-
lise das relações entre diferentes elementos de um projeto, incluindo códi-
gos, documentos, citações e anotações. Embora seja plenamente possível
conduzir análises no software que não recorram a essa ferramenta específica,
trata-se de uma funcionalidade que facilita a identificação de temas recor-
rentes, padrões emergentes e interconectividade entre conceitos. A Figura
1 fornece um exemplo dessas redes, extraído do manual do programa, com
os dados derivados da aplicação de entrevistas em profundidade.
8. A ferramenta em questão calcula o Alfa de Krippendorff (2004) para parcelas selecionadas do corpus. Embora essa métrica
tenha sido pensada para aplicação em análises de conteúdo, sendo seu uso recomendado por autores como Sampaio e Lycarião
(2018), ela pode ser extrapolada para métodos qualitativos em geral baseados em codificação.
328
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Figura 1 – exemplo de rede semântica criada com o [Link]
Fonte: [Link] (2023, p.10).
Para uma revisão detalhada do software, recomendamos a versão mais
recente do manual escrito por Susanne Friese (2019).9 Já para exemplos adi-
cionais do [Link] aplicado ao campo da Ciência Política, sugerimos os
trabalhos de: Demirsu (2017), que analisa a legitimação de políticas de com-
bate ao terrorismo em democracias liberais, utilizando o [Link] para em-
pregar uma análise de enquadramento em debates parlamentares no Reino
Unido; Malvaceda, Herrero e Correa (2018), que aplicam análise de conteú-
do qualitativa a 16 entrevistas em profundidade para estudar o processo de
socialização e radicalização em militantes do Partido Comunista do Peru;
Novelli (2022), que emprega uma análise de conteúdo quantitativa em 720
artigos publicados nos principais periódicos brasileiros do subcampo das
Relações Internacionais na década 2010; Lorencetti (2022), que, em conjunto
com outras ferramentas, utiliza o [Link] para conduzir uma revisão em
cascata sobre estudos voltados à profissionalização legislativa; e Dragomir
e Hosy (2023), que apresentam uma análise comparativa dos discursos de
ódio proferidos por três partidos nacionalistas romenos.
9. No início de 2022, o [Link] mudou sua forma de versionamento, passando a adotar um modelo anual. Na prática, isso
significou um salto da versão 9 diretamente para a versão 22. Embora o manual citado seja baseado na versão 8, ele continua
relativamente atual, tendo em vista que as mudanças entre versões se deram mais em termos de correção de erros e adição de
novas ferramentas. Isto posto, não se recomenda o uso de manuais relativos a versões anteriores, haja visto que o programa foi
totalmente redesenhado entre as versões 7 e 8.
329
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
2.2 MAXQDA10
Lançado em 1995 e atualmente em sua versão 2022, o MAXQDA
é também um software voltado à análise de dados qualitativos, se destacan-
do por ter maior foco no suporte a utilização de métodos mistos que suas
contrapartes. Embora só esteja disponível para Windows e macOS, o pro-
grama é dividido em quatro versões: (1) a versão Standard, que oferece todas
as ferramentas convencionais para análise e organização de dados qualita-
tivos anteriormente mencionadas; (2) a versão Plus, que adiciona a ferra-
menta MAXDictio, voltada para a análise textual quantitativa; (3) a versão
Pro, que, além do conteúdo da versão Plus, adiciona ferramentas avançadas
para análise estatística; e (4) a versão Reader, que permite, gratuitamente, a
visualização de projetos construídos com qualquer outra versão do progra-
ma, mas não sua edição.
Tal qual o [Link], o MAXQDA suporta a análise de documen-
tos de texto, imagem, áudio e vídeo, com suporte adicional a arquivos de
legenda no formato srt; referências bibliográficas, importadas no formato
ris ou txt; e respostas a questionários e comentários em redes sociais, con-
figurados no formato de planilhas. Além disso, também apresenta suporte
a dados de georreferenciamento, se conectando diretamente com a base de
dados do Google Earth; e oferece ainda uma ferramenta nativa para cole-
ta de dados de websites.
No que se refere às ferramentas de análise disponíveis, o MAXQDA
irá oferecer todo o conjunto básico esperado, incluindo opções de codifi-
cação manual e automatizada a partir da ferramenta de busca. Isto posto,
uma vantagem que apresenta frente aos demais CAQDAS é sua flexibilida-
de na gestão desses códigos, permitindo desde a atribuição de pesos (de 0
a 100) até a utilização de emojis para realizar a codificação. Para além desses
aspectos, ainda oferece amplo suporte a técnicas quantitativas e métodos
mistos, permitindo atribuir e editar variáveis numéricas e categóricas dire-
tamente aos documentos.11
O MAXQDA é capaz de produzir e exportar relatórios textuais tan-
to do livro de códigos, quanto do detalhamento das codificações realizadas,
10. [Link] (último acesso em 25 de novembro de 2024).
11. Essas ferramentas, contudo, só estão disponíveis na versão Pro do programa.
330
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
disponibilizando essencialmente o mesmo pacote de opções oferecido pelo
[Link], além de oferecer opções semelhantes para geração de nuvens de
palavras e gráficos de frequência das codificações. Nota-se que sua matriz
de códigos e tabela de coocorrência são um pouco mais avançadas, com a
primeira opção oferecendo a possibilidade de criação de mapas de calor,
enquanto a segunda pode gerar análises em até seis dimensões. Por outro
lado, embora também ofereça opções para análise com múltiplos codifica-
dores, fornece apenas um simples relatório de porcentagem, o que, como
notado por Sampaio e Lycarião (2018), está longe de ser uma métrica con-
fiável. Igualmente, sua ferramenta para a criação de redes semânticas não é
tão avançada, o que é compensado pela possibilidade de mapear visualmen-
te códigos e documentos de acordo com sua similaridade e padrões de so-
breposição, conforme demonstrado pelo exemplo da Figura 2.
Figura 2 – exemplo de mapa de códigos gerado pelo MAXQDA
Fonte: MAXQDA (2020, p. 378).
Para uma revisão detalhada do MAXQDA, recomendamos o ma-
nual escrito por Kuckartz e Rädiker (2019). Para exemplos recentes do uso
do software no campo da Ciência Política, sugerimos consultar os trabalhos
de Parra e Iacono (2020), que aplica análise de conteúdo em jornais publica-
dos entre 1990 e 2015, buscando estudar a invisibilização midiática de crian-
ças nascidas a partir de atos de violência sexual praticados como armas de
guerra; Issaev, Eremeeva e Shishkina (2021), que conduzem uma análise de
331
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
conteúdo qualitativa da cobertura do conflito sírio pela mídia russa; Landini
(2022), que analisa os debates parlamentares na Áustria, focando na exclu-
são do acesso de imigrantes aos benefícios sociais dos países hospedeiros;
e Diez-Gutierrez et al. (2022), que aplica métodos mistos, combinando o
MAXQDA com outros softwares para estudar a propagação de discursos de
ódio pela extrema direita no X (antigo Twitter).
2.3 NVivo12
Lançado em 1999, o NVivo pode ser visto como o sucessor espi-
ritual do NUD*IST (Non-numerical Unstructured Data Indexing, Searching and
Theorizing), lançado em 1981 e um dos pioneiros no mercado de CAQDAS.13
Atualmente em sua versão 14, o NVivo oferece versões para Windows e
macOS, com a primeira sendo mais completa.
Semelhante aos outros dois programas mencionados até aqui, o
NVivo fornece suporte à análise de documentos de texto, imagens, áudio e
vídeo. Se destaca particularmente pela possibilidade de integração com ou-
tros softwares, podendo importar e-mails diretamente do Outlook, questio-
nários gerados com o SurveyMonkey e referências bibliográficas organiza-
das com o Citavi. Aceita ainda formatos como ris, txt e xml, para referências
bibliográficas; e planilhas de Excel para questionários e comentários de re-
des sociais, construídos e exportados com ferramentas diversas. Tal qual o
MAXQDA, fornece também uma ferramenta de coleta nativa para conteú-
dos extraídos de páginas da internet, além de fornecer completa integração
com o NVivo Transcription para transcrição de áudios.
No que se refere às suas ferramentas de análise, o NVivo oferece o
conjunto básico esperado de um CAQDAS, incluindo opções para codifi-
cação manual e codificações automatizadas a partir de busca textual, análise
de sentimentos, análise de relacionamentos e identificação de temas, além
de múltiplas opções para codificação avançada a partir de segmentos já co-
dificados. No que tange aos seus relatórios, também fornece o básico das
opções oferecidas pelos demais softwares aqui listados, incluindo sumários
12. [Link] (último acesso em 25 de novembro de 2024).
13. Os dois softwares seriam desenvolvidos em paralelo pela QSR International até 2006, quando o NUD*IST, então em sua 6ª
versão, foi incorporado no NVivo 7.
332
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de elementos variados, tais como: códigos, documentos e citações; relató-
rios detalhando as codificações; tabelas relacionando códigos com docu-
mentos e coocorrência de códigos; gráficos de frequência; e redes semân-
ticas, estruturadas na forma de mapas mentais. Como opções adicionais,
oferece ainda a opção de gerar uma árvore de palavras a partir da pesqui-
sa de texto (Figura 3), além de um diagrama da estrutura dos códigos, her-
dada do NUD*IST.
Figura 3 – exemplo de árvore de palavras gerada pelo NVivo
Fonte: Silva e Pereira (2019).
Conforme já mencionado, seu diferencial acaba ficando a cargo de
sua integração automática com outros softwares, como o Outlook, o Citavi e
o SurveyMonkey. Várias dessas soluções são desenvolvidas pela Lumivero,
hoje responsável pelo NVivo e pelo Citavi, entre outros softwares de uso aca-
dêmico e comercial, garantindo uma integração fluida entre as ferramentas.
Isto posto, apesar das vantagens mencionadas, essa situação também apre-
senta desvantagens intrínsecas, uma vez que ferramentas como o já men-
cionado NVivo Transcription e o NVivo Collaboration Cloud (voltado para in-
tegrar o trabalho de múltiplos codificadores em um mesmo projeto) são
vendidas separadamente, encarecendo ainda mais aquela que já é uma das
soluções mais caras no mercado de CAQDAS.
Não obstante, para aqueles que desejarem empregar o NVivo em
suas pesquisas, o manual recomendado é a versão mais recente do produzido
333
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
por Bazeley e Jackson (2019). Nota-se ainda que o NVivo é historicamente
a opção mais popular entre os CAQDAS, sendo abundantes os exemplos
de seu uso nas mais variadas áreas do conhecimento. Para exemplos de tra-
balhos recentes no campo da Ciência Política que empregam a ferramenta,
recomendamos a leitura dos trabalhos de: Cury (2019), que aplica uma com-
binação de etnografia, observação participante e entrevistas em profundida-
de com lideranças muçulmanas para analisar respostas organizadas desses
grupos a casos de islamofobia; Maia et al. (2021), que empregam análise te-
mática para mapear as características de projetos premiados em concursos
de inovação na administração pública; Mohamed (2021), que recorre a téc-
nicas de análise de discurso e grupos focais para examinar como a impren-
sa do Quênia constrói a ideia de “radicalização” e como os jovens desafiam
essas construções na construção de suas identidades; e Lees-Marshment e
Bendle (2022), que combinam uma revisão sistemática da literatura com
entrevistas semiestruturadas para analisar como políticos enxergam o uso
de técnicas da administração na gestão de campanhas, partidos e governo.
2.4 Outras opções
Conforme já mencionado, apesar do [Link], o MAXQDA e o
NVivo serem os principais softwares disponíveis no mercado de CAQDAS,
existem dezenas de programas semelhantes disponíveis aos pesquisadores
e pesquisadoras, com novas opções aparecendo com frequência. Softwares
como QDA Miner, Dedoose, Transana e Quirkos também possuem algu-
ma popularidade, mas, tal qual as três opções abordadas até aqui, são to-
dos pagos.
Embora existam opções gratuitas, elas normalmente irão carecer de
muitos dos recursos disponíveis nas versões pagas, costumeiramente sen-
do limitadas a análise de arquivos de texto. Por essa exata razão, o software
QualCoder14 se destaca por apresentar o melhor suporte entre as opções de
uso livre, permitindo a análise de documentos de texto, imagens, áudio e ví-
deo. Embora suas opções de formato suportado sejam bem menores, ainda é
capaz de processar as principais opções empregadas nesses tipos de arquivo.
14. [Link] (último acesso em 25 de novembro de 2024).
334
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
A maior fragilidade do QualCoder reside na velocidade de proces-
samento dos documentos, sendo perceptivelmente mais lento que as de-
mais opções trabalhadas até aqui. Ademais, como indicado pelo próprio
manual, o processamento de arquivos no formato pdf é problemático, ten-
do em vista que esses arquivos são primeiro convertidos para o formato de
texto puro, o que pode ocasionar erros de formatação e, no caso de arqui-
vos grandes, travar o programa ao ponto de encerrá-lo abruptamente. Por
essa razão, ao trabalhar com documentos de texto, o próprio programa irá
automaticamente dividir os arquivos em parcelas de até 50 mil caracteres, vi-
sando otimizar a utilização de recursos e evitar travamentos, mas implican-
do em uma redução do nível de acessibilidade do material sendo analisado.
Apesar de seus evidentes problemas (em grande parte associados ao
fato do projeto ser disponibilizado gratuitamente e mantido pelo trabalho
voluntário de poucos pesquisadores), o QualCoder não deixa de ser uma
opção interessante, sobretudo para uso em projetos menores, haja visto que
ainda dispõe de um conjunto robusto de ferramentas para análise e apre-
sentação de resultados. Em particular ao primeiro aspecto, o software oferece
a opção de adicionar atributos diretamente aos casos trabalhados, os quais
podem envolver variáveis numéricas ou categóricas (Figura 4). Ao analisar
entrevistas, por exemplo, é possível utilizar esses campos para definir ida-
de e gênero de cada respondente, podendo então utilizar essas informações
para filtrar diferentes casos ou exportar esses dados na forma de tabela, jun-
tamente das codificações inseridas em cada documento, para produzir aná-
lises estatísticas mais avançadas em softwares especializados.
335
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Figura 4 – exemplo da função de atributos no QualCoder
Fonte: Curtain (2023).
Já no que toca às opções de relatório, o QualCoder é capaz de apre-
sentar a frequência das codificações em formato tabelado e de gráficos de
barra ou setorial no estilo sunburst; sumarização dos principais atributos as-
sociados a cada arquivo e cada código presente no projeto; relatórios de
frequência sobre os atributos inseridos nos casos; força das relações entre
dois ou mais códigos, incluindo relações de proximidade e sobreposição;
e relatórios textuais completos, que sumarizam o projeto como um todo.
Finalmente, o programa ainda é capaz de gerar testes de confiabilidade en-
tre dois ou mais codificadores, seja para o projeto completo ou para arqui-
vos selecionados individualmente, retornando a porcentagem de concor-
dância e o Kappa de Cohen para as codificações selecionadas, tornando-se
uma opção interessante para grupos de pesquisadores em busca de uma op-
ção de CAQDAS gratuita e funcional.
2.5 Comparando os softwares
Pensando em simplificar para iniciantes no mundo dos CAQDAS
a seleção do software mais apropriado entre os mencionados no presen-
te capítulo, o Quadro 1 oferece uma análise comparativa detalhada entre
as principais ferramentas e funcionalidades trazidas por cada uma das três
336
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
principais opções.15
Quadro 1 – Análise comparativa dos principais CAQDAS
[Link] MAXQDA NVivo
Formatos suportados por todos os softwares:
● Arquivos de texto, imagens, áudio e vídeos;
● Referências bibliográficas;
● Respostas de questionários na forma de tabelas;
● Importação de comentários de redes sociais (através do
[Link]);
Formatos
● Suporte nativo ● Suporte nativo a
de dados
a geodata, pelo geodata, através
suportados
Open Street Map do Google Earth
● Ferramenta ● Ferramenta
integrada de integrada de
coleta de páginas coleta de páginas
da web da web
Ferramentas disponíveis em todos os softwares:
● Codificação manual;
● Busca textual;
● Codificação automática, a partir da ferramenta de busca;
● Reconhecimento ● Reconhecimento ● Análise de
de entidades de entidades sentimentos;
nomeadas; nomeadas; ● Análise de
Ferramentas ● Análise de ● Codificação com relacionamentos;
para análise sentimentos; emojis; ● Identificação
● Identificação de ● Atribuição de temas.
conceitos; de peso às
● Codificação codificações;
automática por ● Múltiplas
meio de IA. ferramentas de
anotação.
15. Apesar das considerações levantadas a respeito do QualCoder, optou-se por não o incluir no quadro comparativo, haja visto
que seus recursos e funcionalidades ainda estão muito aquém das demais opções analisadas nesse capítulo.
337
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
[Link] MAXQDA NVivo
Opções de relatórios comuns a todos os softwares:
● Livro de códigos;
● Relatórios detalhando o processo de codificação;
● Tabela código-documento;
● Tabela de coocorrência;
● Gráficos de frequência;
● Nuvens de palavras;
● Diagramas de ● Matriz de ● Análise
Opções de sankey; códigos, com clusterizada
exportação ● Grafos de rede; opção de criação de códigos
de relatórios ● Redes semânticas de mapas de temáticos;
com opções calor; ● Árvore de
avançadas para ● Redes palavras;
identificação de semânticas, ● Redes
relações entre os incluindo semânticas
elementos; modelos estruturadas na
● Análise de automáticos; forma de mapas
confiabilidade ● Mapas de mentais.
intercodificadores. códigos e
documentos.
● Ferramentas ● Ferramenta ● Integração com
robustas para MAXQDA outros softwares
criação de redes Reader, que oferecidos
semânticas; permite a leitura pela Lumivero,
● Amplo suporte e pesquisa incluindo NVivo
a projetos de projetos, Transcription,
envolvendo disponibilizado Citavi e
Diferenciais
múltiplos gratuitamente; XLSTAT.
codificadores. ● Amplo suporte
a métodos
quantitativos
e mistos (nas
versões Plus e
Pro).
338
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
[Link] MAXQDA NVivo
Licenças de
Licenças de Licença Plus
estudante
estudante para estudantes
disponíveis a partir
Preço disponíveis a partir disponíveis a partir
de US$118.00 para
de US$51.00 por de US$47.00 por
o período de um
semestre. semestre.
ano.
Recursos ilimitados
nos primeiros 5
Recursos Recursos
Opções de dias, com limitações
ilimitados no ilimitados no
teste ao tamanho do
período de 14 dias. período de 14 dias.
projeto após esse
período.
Manual Friese (2019) Kuckartz e Rädiker Bazeley e Jackson
recomendado (2019) (2019)
Fonte: Elaborado pelos próprios autores (2023).
Embora o Nvivo seja tradicionalmente o software mais popular vol-
tado à análise de dados qualitativos, sua carência de opções exclusivas ou
avançadas, aliada à sua interface menos amigável e preço elevado, o tornam
a opção menos atraente das consideradas em profundidade neste capítulo.
Por outro lado, o [Link] e o MAXQDA são muito próximos, tanto es-
teticamente quanto no que diz respeito ao seu custo, oferecendo também
o mesmo conjunto geral de ferramentas. Levando em consideração apenas
as suas funcionalidades, a escolha de qual CAQDAS usar deve ser determi-
nada com base nas necessidades metodológicas e epistemológicas da pró-
pria pesquisa, com o [Link] oferecendo ferramentas mais robustas para
a criação de redes semânticas e amplo suporte a projetos envolvendo múl-
tiplos codificadores; enquanto o MAXQDA oferece o melhor conjunto de
ferramentas para a aplicação de técnicas quantitativas e métodos mistos.
339
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Considerações finais
Conforme notado no início deste capítulo, o crescimento da dis-
ponibilidade de dados e a ampliação exponencial das fontes de informação
têm gerado novas e significativas oportunidades para pesquisa, porém, tam-
bém apresentam desafios consideráveis na gestão dessas informações. Para
pesquisadores que trabalham com dados qualitativos, a coleta, tratamento
e análise de um volume crescente de informações tornam-se especialmente
complexos. Embora questões dessa natureza sempre tenham existido, ferra-
mentas digitais têm surgido desde a década de 1980 para auxiliar os pesqui-
sadores que se deparam com este desafio. Assim, o presente capítulo bus-
cou revisar o uso e aplicação desses softwares, listando suas funcionalidades
mais comuns e destacando como seus recursos podem auxiliar nos proces-
sos de organização, análise e apresentação dos resultados. Ainda que seja
impossível prover uma revisão exaustiva desse material no curto espaço dis-
ponível – sobretudo considerando a rápida evolução dessas tecnologias –,
se procurou fornecer uma sólida base de suas lógicas de uso, além de exem-
plos recentes da aplicação dessas ferramentas no campo da Ciência Política.
Por fim, dois aspectos merecem ser destacados na defesa do uso
desses softwares. Em primeiro lugar, CAQDAS não apenas auxiliam pesqui-
sadores e pesquisadoras na organização e sistematização de dados qualitati-
vos, mas também abrem novas fronteiras de pesquisa ao possibilitar formas
de exploração mais complexas dos dados. Com recursos como visualização
de redes, gráficos de frequência e codificação visual, torna-se possível iden-
tificar padrões, relações e tendências de forma mais clara e intuitiva. Isto
posto, conforme também mencionado anteriormente, é importante notar
que as funcionalidades disponíveis irão variar de um programa para outro,
de modo que a escolha do software não é uma questão trivial e deve ser sem-
pre tomada com as necessidades metodológicas e epistemológicas da pes-
quisa em mente.
Em segundo lugar, retomando a discussão que abriu o capítulo, é
importante ressaltar que os CAQDAS não são suficientes para assegurar, de
forma isolada, a observância dos princípios fundamentais da transparência,
confiabilidade e replicabilidade. Uma pesquisa com falhas significativas no
340
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
seu desenho metodológico, ou mesmo que careça de qualquer metodolo-
gia clara, ainda será uma pesquisa problemática – apenas terá seus proble-
mas adornados pelo uso dessas ferramentas. Isto posto, mesmo nesses ca-
sos, os CAQDAS ainda podem ser úteis, uma vez que a facilidade oferecida
na geração de relatórios completos pode nos ajudar a entender o que cer-
tas pesquisas querem dizer ao se definirem como “qualitativas”, sem nada
mais explicitar
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em Ciência Política: transparência metodológica,
replicação, validação dos dados e validade
Vítor Eduardo Veras de Sandes-Freitas
Vitor Vasquez
347
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
A partir dos anos 1990 um profícuo debate sobre procedimentos de pes-
quisa tomou conta da Ciência Política. Impulsionada pelo influente livro
Designing social inquiry: Scientific inference in qualitative research, publicado pela
primeira vez em 1994 por King, Keohane e Verba (KKV), a comunidade
da disciplina passou a discutir padrões científicos que deveriam ser obser-
vados em pesquisas qualitativas. A polêmica se instalou porque, para tanto,
foram tomados como ponto de partida procedimentos típicos das pesqui-
sas quantitativas. Não à toa, uma década depois um livro foi organizado por
Brady e Collier (2004) em diálogo à obra de KKV, Rethinking social inquiry:
Diverse tools, shared standards, buscando fazer algumas ponderações sobre o
que fora anteriormente proposto. A obra propunha que a Ciência Política
deveria debater padrões de pesquisa que fossem compartilhados entre as
duas tradições – qualitativa e quantitativa –, mas sem desconsiderar que cada
uma delas mobiliza diferentes ferramentas. Isto é, se por um lado devería-
mos estabelecer padrões científicos em busca de explicações causais váli-
das tanto em pesquisas qualitativas quanto quantitativas, por outro isto de-
veria ser feito considerando as especificações de cada uma dessas tradições.
Assim, é preciso compreender as especificidades de procedimen-
tos e práticas de pesquisa empregadas em cada tradição, com o objetivo
de identificar as potências e limitações das análises qualitativas e quantita-
tivas e como isso impacta o estabelecimento de padrões científicos (Brady;
Collier; Seawright, 2004). Em outras palavras, todas as ferramentas de pes-
quisa – sejam elas qualitativas ou quantitativas – podem ser alvos de críticas,
por isso é fundamental conhecer seus pontos fortes e fracos ao se pensar
em como utilizá-las. Portanto, um padrão de procedimentos em pesquisas
qualitativas deve ser estabelecido em seus próprios termos, não necessitan-
do de uma rationale quantitativa para tanto.
Neste capítulo, discutimos procedimentos de transparência, replica-
bilidade, validação e validade em pesquisas qualitativas. Para tanto, apresen-
tamos alguns padrões com vistas a garantir esses elementos, mas sem des-
considerar como características inerentes à tradição qualitativa impactam
essa dinâmica. Inicialmente, abordamos como características intrínsecas da
348
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
pesquisa qualitativa influenciam esses procedimentos pensando em limites
e possibilidades. Em seguida, tratamos especificamente da transparência, da
replicabilidade e da validação e, em outra seção, da validade. Por fim, traze-
mos nossas considerações finais.
1. Análise qualitativa: possibilidades e limites
Goertz e Mahoney (2012) comparam as tradições qualitativa e quan-
titativa com foco em questões relacionadas à análise causal. Segundo os au-
tores, apesar de cada abordagem ter seus valores, crenças e normas, ambas
compartilham a meta de produzir inferências descritiva e causal válidas. A
partir disso, eles exploram alguns aspectos presentes nas duas tradições, mas
que se mostram em diferentes formatos entre si. Apesar de o foco dos au-
tores ser a questão da causalidade, ao trazer certas características inerentes
às pesquisas qualitativas, o trabalho em tela nos é útil por permitir que pen-
semos a transparência, a replicabilidade e a validação em pesquisas qualita-
tivas considerando suas especificidades.
O primeiro aspecto nesse sentido diz respeito à forma como pes-
quisas qualitativas abordam a explicação. Nesta tradição, analisa-se resul-
tados em casos individuais, portanto, a estratégia de investigação foca na
causa dos efeitos. Em outras palavras, o resultado, que é conhecido de ante-
mão, é o fenômeno que se busca explicar e isto é feito a partir de casos par-
ticulares. Como consequência, ao final de uma pesquisa qualitativa sempre
fica o questionamento se os mesmos fatores são encontrados também em
outros casos, isto é, sobre quão generalizável são os resultados oferecidos.
Contudo, responder este questionamento não é tarefa fácil, pois pes-
quisas qualitativas carregam consigo a especificidade contextual dos casos
investigados. Adock e Collier (2001) afirmam que estabelecer equivalência
comparativa entre unidades que se diferem contextualmente é um desafio,
o que dificulta a replicação de dados e, consequentemente, a generalização
dos seus resultados. Por outro lado, os autores consideram fundamental en-
contrar um meio termo entre a universalização e a particularização. Para tan-
to, o pesquisador qualitativista deve identificar o máximo possível quais são
as especificidades do contexto analisado que podem afetar o quanto suas
349
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
evidências empíricas representam de fato o conceito mobilizado. Apenas
tomando este cuidado é possível assumir equivalência entre diferentes con-
textos e, assim, fazer a replicação de dados (Adock; Collier, 2001).
Para se estabelecer quais fatores contextuais têm mais impacto na
acuracidade com que a evidência empírica representa um certo conceito, é
fundamental que a definição conceitual do fenômeno observado seja esta-
belecida com precisão. Isso garantirá que as interpretações feitas acerca dos
fenômenos observados são válidas, isto é, de que suas evidências extraem
significativamente o sentido do conceito correspondente. Tal exercício, en-
tretanto, pode configurar uma empreitada laboriosa, afinal, muitas vezes,
na Ciência Política, um mesmo conceito é polissêmico, assumindo signifi-
cados distintos a depender da abordagem escolhida (Adock; Collier, 2001).
O conceito de democracia, por exemplo, pode variar de abordagens mini-
malistas a mais amplas, de representativa a participativa e assim por diante.
Como destaca Held (1987), existem várias concepções de democracia, algu-
mas delas conflitantes entre si. Isto se deve parte à complexidade do próprio
conceito e parte à sua característica de fenômeno histórico, porém vigente,
que continua se modificando ao longo do tempo. Por isso, em termos de
validação dos resultados, é importante que o pesquisador seja explícito so-
bre sua escolha conceitual, assumindo que há uma decisão e que ela acarre-
ta limitações e potencialidades. A validação de evidências deve se justificar
por um conceito específico e não por conceitos abrangentes. Quanto mais
amplo e polissêmico for o fenômeno investigado, mais importante é espe-
cificar qual dos seus significados o pesquisador está assumindo.
Pesquisas qualitativas, portanto, devem prezar por definições trans-
parentes e precisas para os conceitos que são centrais à análise. É justamen-
te a validação conceitual que evita erros de mensuração. Como destacam
Goertz e Mahoney (2012), na pesquisa qualitativa o pesquisador age tal qual
um detetive criminal. Nesse sentido, ele investiga enigmas e explica resul-
tados mais particulares do que universalistas. Para agir desse modo, com-
preender quais aspectos do seu contexto têm mais impacto na relação que
existe entre as evidências encontradas e o conceito estabelecido é funda-
mental, pois nem todos os aspectos – inclusive os causais – terão o mesmo
350
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
peso nesse sentido e isso deve ser considerado ao replicar os dados e ao se
estabelecer o quanto os resultados encontrados são válidos.
Outro aspecto a ser considerado é que a pesquisa qualitativa estabe-
lece suas hipóteses de causa dos efeitos partindo da ideia de condição neces-
sária e/ou suficiente. Isto ocorre porque têm como premissa que eventos
individuais não possuem apenas uma causa. Pelo contrário, deve ser con-
siderada uma variedade de fatores causais relevantes, ou seja, há uma com-
binação de variáveis que causam o efeito. Justamente por ser marcada por
uma combinação de fatores causais relevantes, o princípio da equifinalidade
é fortemente associado à tradição qualitativa, que explora múltiplos cami-
nhos causais a um mesmo resultado. Contudo, ainda que sejam múltiplos,
os caminhos identificados como causais são poucos. Por isso é necessário
identificá-los com precisão e explicitar qual peso cada um deles possui na
explicação para que alguém possa replicar as evidências encontradas em ou-
tra investigação. Não à toa, os cuidados em termos de replicação e valida-
ção devem ser tomados já no desenho da pesquisa qualitativa, cuja execu-
ção deve ser a mais transparente possível.
Portanto, as preocupações metodológicas se iniciam ainda na prepa-
ração do trabalho empírico. De acordo com Berry (2002), devemos sempre
nos perguntar o quanto a técnica de investigação que pretendemos mobili-
zar é adequada para responder às nossas perguntas. Uma boa estratégia nes-
se sentido é verificar o quanto essa mesma técnica foi utilizada por outros
pesquisadores em investigações semelhantes. Este exercício atravessa tanto
a replicabilidade quanto a validação dos resultados, pois, por um lado, per-
mite verificar se resultados semelhantes são encontrados utilizando técni-
cas parecidas em contextos equivalentes; por outro, possibilita ratificar que
o procedimento empírico é amparado por pesquisas que já foram validadas
pela comunidade científica. Assim, uma forma eficaz de conferir validade
às inferências produzidas em uma pesquisa qualitativa reside na elaboração
organizada e bem explicitada de seu desenho (Berry, 2002). Pesquisas quali-
tativas têm como riqueza certa flexibilidade de investigação e a profundida-
de ao olhar para o objeto, porém, exatamente por isso trazem consigo difi-
culdades em termos de validação e replicabilidade. Tal paradoxo é inerente
351
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
à tradição qualitativa (part and parcel) e, por isso, não pode ser evitado.
Alguns cuidados, entretanto, podem ser tomados para atenuar os
riscos elencados. Berry (2002), por exemplo, sugere atenção ao se selecio-
nar as provas do seu caso. Para tanto, o pesquisador deve se questionar em
que medida a seleção de evidências está sendo influenciada por suas pró-
prias preferências. Não se trata de se afastar delas, pois isso provavelmente
sequer é possível, mas reconhecer que uma evidência não tem a priori a fun-
ção de provar o argumento de alguém, ou seja, é o pesquisador que confere
o status de prova a ela. Desse modo, é fundamental confrontar suas evidên-
cias com alternativas, criticando o sentido que está atribuindo a ela e ques-
tionando, em última instância, as suas próprias convicções. Como salienta
Kurasaki (2000), é essencial nos questionar sobre a validade de nossas evi-
dências pensando se elas ainda fariam sentido em outros casos de contexto
equivalente. Tal exercício ajuda a evitar que se confira exagerada relevância
a uma causa em detrimento de outra, porém, isso só é possível conhecen-
do muito bem o(s) caso(s) em investigação.
Como visto, detalhamento e transparência de procedimento e con-
ceitual são requisitos para aumentar o grau de replicabilidade da pesquisa
qualitativa e validação de seus resultados. Todavia, estas tarefas podem es-
barrar em questões éticas que são caras à tradição. Assim, ao mesmo tem-
po em que detalhamento e transparência são esforços imprescindíveis, eles
devem ser alcançados preservando ao máximo a integridade dos participan-
tes da investigação. Fujii (2012) salienta que ética em pesquisa é uma res-
ponsabilidade constante, e não apenas um exercício pontual que se encerra
mediante aprovação do projeto em um comitê ou a assinatura de um termo
de consentimento. Afinal, pesquisa qualitativa, em especial, investiga sujei-
tos que podem ter prejuízos concretos ao participarem de uma investiga-
ção (Fujii, 2012). Tais prejuízos podem ser de ordem social, psicológica ou
física. A forma como a sociedade ou uma comunidade passa a ver um su-
jeito pode ser alterada após a publicação de um estudo. Por exemplo, parti-
cipantes vulneráveis como menores infratores ou usuários de droga podem
ter prejuízos psicológicos a depender de como são abordados em uma dada
pesquisa e até mesmo ações como prisão, repressão e perseguição podem
352
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
ser consequência de uma investigação, principalmente em estudos localiza-
dos em zonas de conflito, como sublinha Wood (2006). Portanto, tão im-
portante quanto cumprir as exigências éticas institucionais é refletir con-
tinuamente sobre os impactos que a pesquisa em execução pode gerar na
vida dos participantes. Nesse sentido, questões de transparência podem até
ser evitadas se o propósito for proteger o participante. Este é um dilema
intrínseco às pesquisas qualitativas.
As pessoas devem ser tratadas como fins e não meios. Nesse sen-
tido, o benefício que a participação de um sujeito potencialmente traria a
uma pesquisa pode ser limitado pelo prejuízo que a sua exposição pode ge-
rar. É importante destacar que há um desequilíbrio de poder entre pesqui-
sador e pesquisado, inclusive em estudos sobre elites. Portanto, ainda que
seja fundamental a obtenção de um consentimento explícito e voluntário
dos participantes, deve-se lembrar que nenhum formulário é capaz de co-
brir completamente todas as questões éticas do campo. Isto é, a frieza do
consentimento documentado pode nem fazer sentido ao participante e o
que pode parecer ético ao pesquisador e à sua comunidade científica, às ve-
zes não parece ao pesquisado. Em suma, agir eticamente não se restringe
ao projeto e aos formulários e é responsabilidade do pesquisador em últi-
ma instância.
Nenhuma proteção ética trará 100% de garantia aos participantes,
porém é fundamental ao pesquisador refletir continuamente a respeito dis-
so, considerando os indivíduos da pesquisa e o contexto no qual ela é rea-
lizada. E, toda vez que se encontrar em um dilema entre ética e evidência,
deve-se prezar pela primeira. Assim, transparência, validação e replicabili-
dade precisam ser perseguidos em pesquisas qualitativas, mas sempre que
houver um limite ético neste esforço é necessário recuar e resguardar a in-
tegridade dos pesquisados.
2. Transparência, replicabilidade e validação dos dados
O debate acerca da transparência, replicabilidade e validação dos da-
dos deve ser realizado conjuntamente. Sem isso, não é possível pensar em
estudos com inferências válidas. É nesse sentido que discutiremos questões
353
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
que envolvem esses três importantes aspectos de uma pesquisa, neste caso,
em específico, dos estudos qualitativos.
Pesquisas qualitativas são largamente utilizadas em estudos de ca-
sos, pois esses são úteis quando o pesquisador deseja se aprofundar em um
problema, identificando, explorando e analisando a fundo seus mecanismos
causais. Para tanto, busca-se imprimir rigor científico às análises, de forma a
garantir validade (sobretudo interna - a ser discutido na próxima seção) das
inferências a serem obtidas. No entanto, esse não é um objetivo fácil de ser
alcançado. Para tanto, é preciso garantir transparência ao trabalho acadêmi-
co e à forma como se alcançam as inferências obtidas.
Como forma de se realizar estudos de caso, uma alternativa meto-
dológica é fazer uso de métodos qualitativos, por meio da coleta de infor-
mações e dados que se tornarão evidências para a análise. Os dados qualita-
tivos (qualitative data) são construídos pelo pesquisador com base em coleta
de observações da realidade, seja por meio de documentos, anotações de
diários de campo, transcrições de entrevistas, fotografias etc. Não se tra-
ta de informações numéricas quantificáveis, ainda que elas possam ser tra-
tadas dessa forma. Isto é, “pode-se converter dados qualitativos em dados
quantitativos (por exemplo, por meio de codificação)” (Gerring, 2017, p.
31, tradução nossa), desde que seja possível validá-los, garantindo que se-
jam evidências coerentes para o estudo e aceitas pela comunidade acadê-
mica. Contudo, em geral dados qualitativos são analisados de forma qua-
litativa, mas isso não isenta o investigador de também tomar cuidados em
relação à validação das inferências que produz a partir deles.
É por meio da busca do rigor científico em pesquisas qualitativas
que os estudiosos conseguem garantir que seus achados adquiram valida-
de interna e externa. Com maior transparência na definição do desenho de
pesquisa é possível que outros pesquisadores não apenas conheçam os re-
sultados da pesquisa, mas possam avaliar criticamente as inferências e in-
terpretações realizadas para alcançá-los. Isso inclui informações e justifica-
tivas sobre as fontes escolhidas; em caso de entrevista, sobre as perguntas
realizadas e transcrição; além de outros cuidados como a triangulação das
fontes, visando atenuar vieses de subjetividade. Essa preocupação com a
354
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
transparência do desenho e a forma de executar investigações qualitativas,
influencia a própria produção de pesquisas, ao estimular pesquisadores a
se tornarem mais conscientes sobre a importância desses procedimentos e
atraindo um público mais amplo a compreender a pesquisa qualitativa a par-
tir dos seus próprios critérios metodológicos (Elman; Kapiszewski, 2014).
Esse ganho de transparência é obtido a partir da disponibilização
dos dados e demais detalhes metodológicos das pesquisas qualitativas. Com
isso, outros pesquisadores podem replicar estudos realizados ou aprimorar
o conhecimento sobre uma dada realidade. Nos estudos de caráter quan-
titativo, há uma prática consolidada de compartilhamento de dados, mas,
embora haja recomendações nesse sentido também na abordagem qualita-
tiva (Bauer; Gaskell, 2000), esse procedimento não obteve grande repercus-
são nesta tradição, nem de disponibilização e nem de uso de fontes secun-
dárias de outras pesquisas já realizadas para produzir novas investigações.
Entretanto, os ganhos acadêmicos são múltiplos e justificam a adoção de
um esforço nesse sentido: (a) possibilidade de validar conhecimento cien-
tífico; (b) melhoria da qualidade da inferência produzida sobre determina-
dos processos e fenômenos em análise; (c) diminuição de custos na realiza-
ção de novas pesquisas; e (d) construção de redes acadêmicas baseadas em
interesses de pesquisa afins. Atualmente, fomentadores e instituições que
promovem pesquisas incentivam tal prática,1 sendo possível compartilhar
informações em repositórios científicos que permitem livre acesso à comu-
nidade acadêmica.
Lupia e Elman (2014) destacam que a ciência aberta é útil à Ciência
Política por dois motivos. Primeiro por permitir aos membros da comuni-
dade acadêmica compreenderem e avaliarem o seu próprio conhecimento
sobre determinados fenômenos. Segundo por possibilitar o conhecimento
das escolhas teórico-metodológicas que levaram à produção de determina-
das conclusões em pesquisas da área, viabilizando inclusive o aprimoramen-
to do ensino dos métodos e das técnicas, expondo os dados e o raciocínio
das pesquisas, para fins de treinamento dos estudantes.
1. Na Ciência Política, por exemplo, existe o Data Access & Research Transparency (DA-RT), que tem como objetivo compartilhar
dados e promover maior transparência em pesquisas qualitativas. A iniciativa é vinculada à American Political Science Association
(APSA). Fonte: [Link] . Último acesso em 31/08/2023.
355
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
A necessidade de maior transparência foi alvo de uma mudança no
Guia de Ética Profissional em Ciência Política da American Political Science
Association (APSA), que recomendou, em 2012, a inclusão de padrões de
transparência na pesquisa quantitativa e qualitativa (Lupia; Elman, 2014).
Conforme o documento, os pesquisadores possuem a obrigação ética de faci-
litar a avaliação dos seus achados por meio do acesso aos dados, transparên-
cia da produção das evidências (coleção ou geração) e transparência analíti-
ca (detalhamento de como se chegou às conclusões analíticas por meio dos
dados utilizados). Esse processo de busca por mais transparência foi a pedra
angular da revolução metodológica na nossa disciplina (Moravcsik, 2014).
Gerring aborda o tema da transparência e replicabilidade conjunta-
mente, por entender que ambos estão interrelacionados, “na medida em que
maior transparência aumenta a replicabilidade” (2019, p. 246). A replicabili-
dade, segundo o autor, diz respeito à possibilidade de outros pesquisadores
acessarem os dados e reproduzir os procedimentos de pesquisa realizados,
permitindo que os achados de um trabalho possam ser confirmados ou fal-
seados. Isso é fundamental para garantir que os pesquisadores e a ciência,
como um todo, verifiquem a confiabilidade das inferências alcançadas. Em
pesquisas quantitativas, a replicabilidade é mais usual, pois, uma vez que os
dados tendem a ser produzidos a partir de variáveis diretamente estabeleci-
das, basta disponibilizar o banco (dataset), o dicionário de variáveis, os pro-
cedimentos de pesquisa para a coleta e análise dos dados, bem como o script
(ou passo-a-passo) para a realização da análise. No caso de pesquisas quali-
tativas, esse critério não é fácil de perseguir, afinal, as variáveis tendem a ser
produzidas a partir de codificações ou categorizações de informações qua-
litativas, o que dificulta a replicação de todos os percursos adotados pelo
pesquisador. Nesse sentido, em pesquisas qualitativas, é impossível repro-
duzir acontecimentos e interações entre pesquisador e pesquisado(s), invia-
bilizando a aplicação de uma lógica de replicação experimental. Por outro
lado, isso não desautoriza um pesquisador qualitativo a refletir sobre a re-
plicabilidade, reconhecendo as próprias características inerentes a este tipo
de tradição científica.
Uma estratégia para proporcionar maior transparência e
356
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
replicabilidade em análises qualitativas é utilizar process-tracing. Fairfield (2013)
mobiliza esta estratégia para realizar um estudo de caso sobre a reforma
tributária de 2005 no Chile. O autor apresenta no artigo um apêndice no
qual orienta o leitor sobre os múltiplos testes realizados (Straw-in-the-Wind
Test, Hoop Test, Smoking-Gun Test e o Doubly-Decisive Test) que são a base para
a análise executada. É comum que pesquisadores utilizem o process-tracing e
não identifiquem que tipo de testes foram realizados para verificar a força
das evidências, impedindo a replicabilidade. O uso de um apêndice meto-
dológico com detalhamentos garante a transparência e a possibilidade de
replicabilidade tão almejada atualmente em função da credibilidade que isso
confere às inferências propostas.
Além disso, Fairfield (2013) ainda utiliza o conhecimento do caso
(apresentando, inclusive, as fontes jornalísticas utilizadas para a análise) para
testar possíveis contrafactuais, ou seja, se a estratégia adotada fosse outra,
o que poderia ter acontecido? Este exercício é fundamental, pois existiam
várias trajetórias possíveis a serem tomadas pelos formuladores de políticas
públicas e uma delas, por razões contextuais, foi estabelecida. Por quê? Um
pesquisador que busca garantir a validade dos seus achados deve se preocu-
par com as configurações possíveis e com a trajetória que, de fato, ocorreu.
A partir dessas reflexões, apresentamos no Quadro 1 um protoco-
lo geral, proposto por Gerring (2019), que permite maior transparência e
replicabilidade ao estudo.
357
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Quadro 1 - Protocolo geral para proporcionar transparência e replicabilidade em
pesquisas
Elementos Atividades a serem realizadas
da pesquisa
1 - Teoria Deixe evidente o tipo de teoria ou argumento teórico: se
descritivo ou causal. Se causal, os autores precisam detalhar
a alteração esperada em X (variável independente), seu
efeito previsto em Y (variável dependente), junto com o
mecanismo subjacente (M) e as condições relevantes (Z).
Independentemente de ser descritivo ou causal, identifique a
população-alvo (escopo) do argumento. É preciso explicitar se
(e quais) partes do argumento abrangem populações distintas.
2 - Seleção Explique como o caso (ou casos) foi escolhido, justificando
de caso o método de seleção e destacando o conhecimento prévio
acumulado sobre os casos antes da escolha e antecipando
possíveis alterações na amostra durante a pesquisa.
3 - Reunião Em estudos que envolvem documentos, explicite os passos de
de evidências como as evidências foram coletadas, bem como as informações
necessárias e suficientes para que outros pesquisadores possam
seguir os mesmos passos, replicando o processo. Isso pode
ser detalhado na parte metodológica da pesquisa, em notas
de rodapé, apêndices e por disponibilização de links e outras
informações de fonte.
No caso de pesquisas com observação direta, como etnografia,
em que não é possível replicar o campo da forma como
originalmente ele se apresentou, informe as condições em que
a pesquisa foi realizada, permitindo que outros pesquisadores
possam revisitar o local/lugar. De forma análoga, entrevistas em
profundidade devem apresentar os critérios e os procedimentos
para a elaboração e realização da entrevista, desde o roteiro até
a gravação e transcrição, mas sempre respeitando limites éticos
de identificação do participante.
Já em estudos baseados em questionário fechado, como
surveys, todos os detalhes relevantes da coleta de dados devem
ser relatados, incluindo a elaboração da amostragem, do
questionário e das interações iniciais com os entrevistados.
358
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
4- As evidências produzidas pelo pesquisador em pesquisas
Armazena- qualitativas devem ser armazenadas de forma segura e tornadas
mento públicas, desde que sejam garantidos o anonimato dos
participantes e a confidencialidade de seus dados.
Se as evidências qualitativas forem transformadas em dados,
podem ser disponibilizadas em um formato matricial em uma
base de bancos de dados como o Dataverse. Outras evidências
qualitativas (entrevistas transcritas e demais arquivos em texto,
produzidos a partir de grupos focais ou documentos diversos,
fotografias, vídeos etc.) podem ser arquivadas no Qualitativa
Data Repository ([Link] ou no Qualidata (UK).
5 - Análise A replicação requer uma explicação objetiva do processo de
análise dos dados, detalhando cada etapa envolvida, bem como
o tipo de análise e o quão confiável e válida é a inferência a
partir do conjunto de evidências selecionado. É fundamental,
portanto, explicitar os argumentos teóricos de fundo e as
suposições, de forma a verificar se as evidências sustentam ou
não o argumento central.
6 - Sequência A ordem precisa de cada etapa no desenho da pesquisa é
fundamental. Por exemplo, no que diz respeito à escolha dos
casos, é importante informar o que os pesquisadores já tinham
conhecimento prévio sobre o fenômeno em análise, sobretudo,
em relação ao comportamento da variável (dependente) de
resultado (outcome). Também é importante definir o passo-a-
passo em relação aos procedimentos da pesquisa qualitativa
ou em caso de utilização de métodos mistos. Como se deu a
combinação dos métodos? Qual análise ocorreu primeiro?
Tais questionamentos devem ser respondidos na parte
metodológica da pesquisa, bem como a justificativa da escolha
do sequenciamento definido.
Fonte: Elaborado pelos autores com base em Gerring (2019, p. 247-248).
Em conjunto, os elementos da pesquisa contidos no protocolo ge-
ral sugerido por Gerring (2019) orientam no sentido de se buscar trans-
parência e replicabilidade. De forma intuitiva, a transparência é um atri-
buto comum e possível, tanto em estudos de caráter quantitativo quanto
359
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
qualitativo. Quanto mais precisas e publicizadas forem as opções teóricas e
metodológicas dos pesquisadores, mais a comunidade acadêmica pode va-
lidar o conhecimento produzido em um trabalho científico. Métodos, téc-
nicas e procedimentos de pesquisas pouco transparentes levam a incertezas
sobre o cumprimento de requisitos básicos da ciência, incluindo aqueles de
ordem ética, e sobre a credibilidade das inferências produzidas. A transpa-
rência, portanto, é um suposto basilar de todo e qualquer estudo científico.
No entanto, há questionamentos quanto à possibilidade de replicabi-
lidade em estudos qualitativos. À primeira vista, é possível imaginar que um
estudo com abordagem quantitativa é completamente replicável, enquanto o
qualitativo não seria. Mas há muita confusão entre a replicação do processo
de coleta de dados e da análise em si. É comum na área de Ciências Sociais
o uso de banco de dados produzidos por outras instituições e/ou pesqui-
sadores. Porém, por mais que a forma de coleta de dados seja transparente,
nem sempre é possível replicar a pesquisa para tentar reproduzir ou refutar
que foram empregados para analisá-los” (2019, p. 249). Contudo, segue o
autor, muitas vezes “problemas pertencentes à coleta de dados são varri-
dos para baixo do tapete” (Gerring, 2019, p. 249). Se um pesquisador não
for transparente também em relação aos problemas enfrentados durante a
produção de evidências, sobretudo em investigações qualitativas, a possibi-
lidade de replicação do estuda fica ameaçada. Assim, as tradições quantita-
tivas e qualitativas p ossuem obstáculos metodológicos semelhantes, mas,
por questões inerentes ao modo de fazer pesquisa qualitativa, sua execução
demanda maior atenção em termos de transparência a fim de indicar os ca-
minhos para uma possível replicação dos passos escolhidos.
Em muitas pesquisas qualitativas, as evidências são produzidas pelo
pesquisador, como por meio da realização de entrevistas em profundidade,
grupo focal e observação participante, entendidas como fontes primárias.
Mas também é possível trabalhar com fontes secundárias, como no caso
de documentos, fotografias, vídeos e demais fontes produzidas por outros
pesquisadores. Em ambos os tipos de evidência, tanto o processo de coleta
quanto de análise deve ser informado de forma transparente, possibilitan-
do a replicação dos mesmos passos por outros pesquisadores, assim como
360
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
também é recomendado para pesquisas quantitativas. Entretanto, a possibi-
lidade de se perseguir os mesmos passos por meio da publicização das eta-
pas, dos procedimentos e das escolhas teóricas e metodológicas não pode
ser confundida com a chance de se reproduzir a pesquisa tal qual foi reali-
zada originalmente. As contingências próprias dos fenômenos sociais e polí-
ticos impedem a reprodução da realidade em laboratório. Deste modo, para
se pensar em replicabilidade em nossa área é necessário considerar as parti-
cularidades do objeto de estudo e suas características contextuais.
Enfatizando cada elemento da pesquisa anunciado no Quadro 1, ob-
serva-se que a precisa demarcação da teoria e do argumento teórico é fun-
damental para o processo transparência e replicabilidade em pesquisas qua-
litativas. A teoria é a lente selecionada pelo pesquisador para observar seu
fenômeno, portanto, toda a análise das evidências selecionadas é feita ves-
tindo essa lente. Teorias permitem construções conceituais que conferem
sentido à operacionalização das variáveis elaboradas a partir dos dados co-
letados. Do ponto de vista da análise científica, não existe realidade sem a
mediação da teoria, pois a mera compilação de observações não possibili-
ta a construção do conhecimento. Ora, se a construção das evidências tem
como pré-requisito uma definição teórica, precisão e transparência nessa
definição são essenciais para a replicabilidade da pesquisa.
De forma análoga podemos pensar sobre em qual tempo e espaço
as construções teóricas são operacionalizadas. Especialmente em pesquisas
qualitativas, caracterizadas por poucos casos ou caso único. Nestas situa-
ções, as inferências produzidas dependem de sobremaneira do contexto em
que ocorre a pesquisa, tornando fundamental que o pesquisador explicite
e justifique os critérios de seleção de caso. Isso permite a outros pesqui-
sadores avaliar a consistência da seleção teórica, a validade das conclusões
e quais contextos são equivalentes ao mobilizado para realizar a replicação
da pesquisa. Em suma, a transparência em relação à seleção de caso possi-
bilita um conhecimento mais amplo sobre o fenômeno, uma vez que con-
figura um critério essencial de replicação.
Em termos empíricos, no Quadro 1 destacamos a necessidade de
se informar as fontes primárias e/ou secundárias utilizadas, além de como
361
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
e quando elas foram coletadas e/ou produzidas, elemento da pesquisa no-
meado de reunião de evidências. Todas as informações sobre como o pesqui-
sador realizou seu estudo devem estar disponíveis. Se não for possível dis-
ponibilizar ao longo do texto, é imprescindível adicionar notas de rodapé
ou um apêndice. No caso de artigos científicos, em que há limites de tama-
nho expressos pela editoria do periódico, uma alternativa é apresentar um
apêndice metodológico por meio de um link externo, direcionando para um
repositório de dados qualitativos ou um sítio eletrônico que garanta a dis-
ponibilização de forma permanente daquelas informações.
Para que a disponibilização de dados em análises qualitativas seja
proveitosa, o pesquisador deve ser transparente em relação aos critérios e
às regras mobilizadas na categorização e codificação dos dados. Além dis-
so, a pesquisa pode contar com codificadores externos, de forma a validar o
modelo originalmente proposto pelos pesquisadores ao reduzir vieses. Em
caso de discrepâncias, pode ser realizado um ajuste, com a finalidade de ga-
rantir maior confiabilidade e validade da codificação proposta pela pesqui-
sa. Albuquerque, Mesquita e Lira Brito (2022), por exemplo, disponibiliza-
ram o banco de dados, os critérios de codificação e utilizaram codificadores
externos com o objetivo de mapear a formação em métodos ofertada por
programas de pós-graduação na área de Relações Internacionais. Para tan-
to, os autores coletaram e analisaram as ementas das disciplinas ministra-
das nos cursos de mestrado e doutorado dos referidos programas. Trata-se
de um bom exemplo de transparência e publicização que permite a valida-
ção das inferências e replicação da pesquisa.
Mas para que a publicização das informações seja eficaz é importan-
te refletir sobre seu armazenamento, afinal, tão importante quanto dispo-
nibilizar é cuidar da segurança dos dados qualitativos. Os cientistas sociais
costumam, ao realizar pesquisas qualitativas, produzir evidências e analisá-
-las somente uma única vez, isto é, somente pelo pesquisador que produ-
ziu a pesquisa costuma utilizar as informações geradas na investigação. Uma
das dificuldades em se modificar esse cenário consiste na falta de repositó-
rios confiáveis para armazenar essas evidências e dados e disponibilizá-los.
Para superar esse obstáculo foi criado o Qualitativa Data Repository (QDR),
362
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
hospedado no Center for Qualitative and Multi-Method Inquiry da Maxwell School
of Citizenship and Public Affairs da Syracuse University, que consiste em um re-
positório de evidências qualitativas (incluindo textos, imagens e vídeos) que
busca garantir a publicização de dados, mas protegendo a confidencialida-
de e privacidade dos participantes da pesquisa.2
Um exemplo de disponibilização de dados, evidências e procedi-
mentos metodológicos no QDR se deu a partir da pesquisa realizada por
Pérez-Liñan e Mainwaring (2013), em que os autores analisam as transi-
ções e rupturas democráticas em países da América Latina, no período de
1945 a 2005. A investigação foi realizada entre 2008 e 2013, com participa-
ção de 19 assistentes de pesquisa, que realizaram pesquisa documental, ou
seja, por meio do uso de fontes secundárias. Buscando conferir transparên-
cia e possibilitar replicação, os pesquisadores disponibilizaram todos os re-
latórios (por país) com as regras de codificação estabelecidas para os casos
analisados: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba,
República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Haiti, Honduras,
México, Nicaragua, Panamá, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela.3 No do-
cumento principal, os autores detalham o protocolo com as regras a serem
seguidas pelos assistentes de pesquisa no processo de codificação das va-
riáveis independentes, atribuindo valores de 0 a 1, conectando-se com as
escolhas teóricas e metodológicas. Em suma, o caso em tela ilustra preo-
cupações de transparência e replicabilidade no processo de construção do
modelo de análise, na operacionalização dos conceitos em variáveis e na dis-
ponibilização dos dados analisados. Logo, há um esforço de conexão entre
teoria e análise histórico-contextual dos casos, a partir de critérios padroni-
zados, com o fim de aplicar um método de comparação de casos que pos-
sa ser mobilizado também em outras pesquisas.
Outro repositório voltado para pesquisa qualitativa é o UK Data
Service, projeto financiado pelo governo do Reino Unido por meio do Economic
and Social Research Council (ESRC) e sediado na Universidade de Essex desde
1967, em parceria com outras universidades do país. O repositório contém
2. Para mais informações, acesse: [Link]
3. Mainwaring, Scott; Pérez-Liñán, Aníbal (2015). Democracies and dictatorships in Latin America: Political actors, 1944-2010.
Qualitative Data Repository. [Link] QDR Main Collection. V1
363
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
mais de 5.700 coleções de dados que tratam de pesquisas sobre questões so-
ciais, econômicas e políticas e está disponível por meio do QualiBank.4 Uma
parte dos dados das pesquisas é disponibilizada sem a realização de registro
no sítio eletrônico. No entanto, para o uso de dados que podem ter implica-
ções de ordem ética, um registro é obrigatório. Para pesquisadores vincula-
dos a universidades ou faculdades do Reino Unido, o acesso com usuário e
senha é realizado de forma quase direta. Outros investigadores, entretanto,
devem formalizar um pedido de acesso, sendo que as solicitações, confor-
me informação disposta na página do repositório, são verificadas manual-
mente e podem levar até cinco dias úteis para serem avaliadas e processadas.5
Um exemplo de estudo encontrado no repositório se intitula
Qualitative Study of Democracy and Participation in Britain (1925-2003) e foi
conduzida pela socióloga Fiona Devine.6 A pesquisa tratou das percepções
e atitudes de ativistas voluntários e de suas avaliações sobre participação e
democracia. Para tanto, foram feitas 98 entrevistas presenciais (face-to-fa-
ce interview), conduzidas por roteiros semiestruturados e realizadas com
ativistas voluntários residentes na Inglaterra, País de Gales e Escócia, sen-
do transcritas e disponibilizadas no UK Data Service. Além das transcri-
ções, contam-se com outros materiais que detalham escolhas metodológi-
cas e estratégias de condução da pesquisa.7
A tendência é que cada vez mais as instituições de fomento, univer-
sidades sedes e associações científicas exijam que os dados científicos ge-
rados em pesquisas acadêmicas sejam disponibilizados. Isso inclui os crité-
rios de levantamento das evidências e o processo de operacionalização dos
dados em variáveis e indicadores, mesmo quando os dados forem gerados
por pesquisa qualitativa. Essa orientação também deverá ser seguida por pe-
riódicos, com o fim de ampliar a validade e o reconhecimento pela comu-
nidade acadêmica dos resultados apresentados em artigos científicos. Do
ponto de vista ético, o ideal é apresentar o protocolo da coleta e análise dos
dados e das evidências qualitativas, como entrevistas transcritas, imagens,
4. Para mais informações, acesse: [Link] e [Link]
5. Por e-mail, foi informado que a análise se dá em até três dias úteis.
6. Devine, F. (2003). Qualitative Study of Democracy and Participation in Britain, 1925-2003. [data collection]. 2nd Release. UK
Data Service. SN: 5017, DOI: [Link]
7. Existem outros repositórios de dados que também contém estudos produzidos a partir de métodos qualitativos (ou métodos
mistos), como o Inter-university Consortium for Political and Social Research - ICPSR ([Link] o [Link]
[Link]/ ([Link] e o Henry A. Murray Research Archive ([Link]
364
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
vídeos etc., bem como garantir o anonimato e a confidencialidade das in-
formações pessoais e o consentimento dos participantes no que está sendo
divulgado. Neste sentido, todos os identificadores do respondente, como
nome, endereço e demais informações que possibilitem a identificação do
participante devem ser removidas, assim como trechos que possam, even-
tualmente, levar à identificação. Esse processo é chamado de desidentifica-
ção (de-identification).
Não há um manual protocolar de desidentificação do participan-
te de pesquisas qualitativas. Pelo contrário, cabe ao investigador identifi-
car e remover o máximo possível qualquer identificador direto ou indireto.
Kirilova e Karcher (2017) sugerem que informações que facilmente identi-
ficam o participante sejam substituídas por outras mais amplas, que aumen-
tem a gama de pessoas que se enquadre naquelas categorias/ características,
sem que se perca a essência da informação. Assim, uma sentença como “Eu
me formei em Dartmouth em 1985”’, poderia ser substituída por “Eu me
formei [em uma faculdade de artes liberais] em [meados dos anos 1980]”
(Kirilova; Karcher, 2017, p. 4).
De todo modo, o pesquisador qualitativo sempre terá o dilema en-
tre publicizar o máximo de informação possível – transparência – e preser-
var a privacidade do participante – desidentificação –, e a busca por uma
solução ótima é de sua responsabilidade. Assim, de acordo com Kirilova e
Karcher (2017), é preciso dialogar tanto com a comunidade científica sobre
o que publicizar e como manter segurança sobre o que for compartilhado,
quanto com os participantes da pesquisa sobre como preservar suas iden-
tidades. Afinal, uma vez divulgadas as informações, a responsabilidade, do
ponto de vista ético, se torna do pesquisador e do repositório que se dis-
pôs a divulgar as informações.
Além da reunião de evidências, o seu processo de análise também
deve ser marcado pela transparência. Assim, pesquisadores qualitativistas de-
vem descrever minuciosamente toda etapa relevante de elaboração de suas
inferências. Ter no horizonte alguns questionamentos é fundamental nesse
processo: como os argumentos teóricos colaboraram no processo de aná-
lise das evidências? Eles sustentam ou não a teoria? É possível conjecturar
365
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
outras hipóteses a partir das evidências coletadas e analisadas? O fenôme-
no analisado no caso selecionado e pela lente conceitual escolhida possibi-
lita incrementar a teoria existente?
Em termos práticos, um cuidado recomendado ao realizar o de-
talhamento do processo de análise consiste na citação ativa (active citation).
Moravcsik (2010) observa que pesquisas qualitativas que utilizam fontes pri-
márias frequentemente são desatentas quanto à sua referenciação. Isto traz
imprecisão ao argumento, reduz a transparência do estudo e dificulta a sua
replicabilidade. A citação ativa consiste em utilizar a tecnologia para trazer
mais sistemicidade e transparência ao processo de análise em pesquisas qua-
litativas. Nesse sentido, o pesquisador deve referenciar todos os dados uti-
lizados na construção de seu argumento, sobretudo os que mais impactam
podem causar na literatura existente, incluindo, sempre que disponível, o
hiperlink que direciona o leitor à fonte primária mobilizada. Ou seja, a cita-
ção ativa não significa mudar a forma como as análises são realizadas, mas
conferir especial atenção à referenciação de todo dado relevante utilizado,
possibilitando rápido e fácil acesso às fontes primárias a quem interessar.
Esta atenção traz mais rigor e transparência às inferências, aumentado sua
validade e a possibilidade de replicação.
Por fim, o último elemento de pesquisa elencado no Quadro 1 trata
da sequência lógica que estrutura o argumento. As inferências da pesquisa
qualitativa se tornam mais transparentes se o autor detalhar o passo-a-passo
do procedimento de análise, permitindo ao leitor refletir criticamente sobre
a coerência da construção do argumento. Além disso, esse cuidado permite
que outros pesquisadores repliquem a investigação em casos equivalentes,
com vistas a ratificar ou confrontar os resultados encontrados.
3. Validade
King, Keohane e Verba (1994) argumentam que a investigação cien-
tífica possui quatro características: (a) o objetivo da pesquisa é a inferên-
cia; (b) os procedimentos são públicos; (c) as conclusões incluem incerte-
za; e (d) o conteúdo é o método. Vimos na seção anterior a importância
366
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
da transparência (b) – que torna os procedimentos públicos – e os limites
das conclusões da pesquisa (c). Ao mesmo tempo, destacamos a importân-
cia dos métodos (d), discutindo a transparência e os limites das conclusões
de uma investigação especificamente sob o prisma da pesquisa qualitativa.
Entretanto, devemos salientar que uma pesquisa científica busca, como fim,
inferir algo da realidade. Em outras palavras, pesquisas científicas produzem
inferências descritivas ou causais válidas sobre a realidade. Uma maneira de
garantir a validade das inferências é permitir que outros pesquisadores co-
nheçam os detalhes teóricos e metodológicos da pesquisa (transparência) e
possam, a partir disso, reproduzir (replicabilidade) os caminhos adotados,
ratificando ou resultando os resultados e propondo novo perspectiva teó-
rica e/ou metodológica, com o fim de aprimorar as inferências.
A pesquisa qualitativa se coaduna melhor com as inferências descri-
tivas, dado que é possível analisar dados imediatos para se produzir inter-
pretações sobre os fenômenos mais amplos (King; Keohane; Verba, 1994).
Assim, estudos de casos, compreendidos como estudos em profundidade,
permitem, por meio do uso de abordagens qualitativas, produzir inferên-
cias descritivas sobre o fenômeno em análise. Como afirma Sandes-Freitas,
“o foco em um número reduzido de casos permite que o pesquisador na
área de Ciências Sociais realize pesquisas mais densas sobre o fenômeno
em análise, possibilitando a construção de teorias que melhor dão conta da
realidade” (2015, p. 79). Estudos desse tipo, portanto, possibilitam, como
resultado, teorias melhores que podem aprimorar a capacidade de criar ex-
plicações mais robustas sobre a realidade. No entanto, se o objetivo for pro-
duzir inferência causal, existem mais obstáculos às pesquisas qualitativas.
Afinal, usualmente, esse tipo de inferência é produzido na área de Ciências
Sociais a partir de uma lógica probabilística, com uso de amostras não-in-
tencionais, o que caracteriza justamente as pesquisas quantitativas. A ideia
é buscar padrões gerais para o relacionamento entre conceitos, verificando
em que medida uma variável dependente é influenciada (positivamente ou
negativamente), na média, por variável(is) independente(s).
Entretanto, Goertz e Mahoney (2012) afirmam que pesquisas qualita-
tivas também podem produzir inferências causais válidas, da mesma maneira
367
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
que inferências descritivas podem ser geradas em pesquisas quantitativas.
Assim, o fato de as concepções de causação serem diferentes se comparar-
mos a tradição qualitativa da quantitativa não impedem que causalidade seja
perseguida nos dois tipos de pesquisa. A pesquisa qualitativa busca causa a
partir da ideia de necessário e/ou suficiente e é este tipo de condição que
define o modelo de hipótese. A pesquisa quantitativa, por sua vez, busca as
causas que, na média, afetam os valores de uma variável numa grande po-
pulação. Portanto, a hipótese é se uma variável explicativa se associa, mais
ou menos, a um resultado. Ou seja, ao passo que as pesquisas quantitativas
se estruturam a partir de um prisma estatístico, pesquisas qualitativas se ba-
seiam muito mais em lógica formal (Goertz; Mahoney, 2012). Isto não sig-
nifica, contudo, que pesquisas qualitativas não podem produzir inferências
causais, mas sim que, ao fazê-lo, sua validação deve levar em conta as espe-
cificidades deste tipo de abordagem
Uma forma, para tanto, tem sido os aprimoramentos metodológi-
cos em pesquisas qualitativas como os desenvolvimentos recentes com uso
de process-tracing, por exemplo (Collier, 2011; Beach, Pedersen, 2013; Cunha,
Araújo, 2018.). Com vistas a contribuir nesse debate, Gerring (2017, p. 25)
apresenta uma série de regras “de ouro” (Rules of Thumb) para a construção
de inferências causais a partir da investigação qualitativa:
● Analisar as fontes de acordo com a sua relevância (a fonte é per-
tinente para a questão de interesse teórico), proximidade (a fonte está em
posição de saber o que está afirmando), autenticidade (a fonte não é falsa
ou reflete a influência de outra pessoa), validade (a fonte não é tendencio-
sa) e diversidade (coletivamente, as fontes representam uma diversidade de
pontos de vista sobre a questão em questão);
● Ao identificar um novo fator causal ou teoria, procure aquele que
(a) seja potencialmente generalizáveis para uma população maior, (b) seja
negligenciado na literatura existente sobre o assunto, (c) aumenta muito a
probabilidade de um resultado (se binário) ou explica muita variação nes-
se resultado (se for nível de intervalo) e (d) não sofra influência de outros
fatores explicativos.
● Explorar amplamente explicações rivais que também servem como
368
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
potenciais confundidores. Tratá-los seriamente, descartando-os apenas se
justificado. Utilize esta lógica de eliminação, sempre que possível, para au-
mentar a força da hipótese que se deseja comprovar.
● Para cada explicação, construa tantas hipóteses testáveis quanto
possível, prestando atenção às oportunidades dentro do caso – por exem-
plo, mecanismos e resultados alternativos.
● Detalhe os experimentos mentais contrafactuais no texto, explici-
tando quais características contextuais estão sendo alteradas e quais se pre-
sume permanecerem inalteradas, a fim de testar a viabilidade de uma teoria.
Além disso, concentre-se nos períodos em que as características de fundo
estão estáveis, evitando confundidores e aumentando a garantia de que as
mudanças observadas são causadas pelos fatores explicativos enunciados, e
não por um cenário alternativo.
● Utilizar cronologias e diagramas para esclarecer as interrelações
temporais e causais entre fatores causais complexos. Inclua tantos recursos
quanto possível para que a linha do tempo seja ininterrupta.
A primeira regra diz respeito à qualidade das evidências coletadas
ou produzidas a partir de determinadas fontes (primárias ou secundárias).
Busca-se garantir que a evidência produzida seja, de uma forma ampla, vá-
lida. A segunda trata da teoria a ser utilizada, que garante a validade do ar-
gumento para a análise das evidências. Como se almeja construir inferên-
cias causais, neste caso, é recomendável que as explicações possam também
construir teorias de maior amplitude, isto é, com maior potencial explica-
tivo. A terceira é um aspecto fundamental da pesquisa científica: leve a sé-
rio as diversas explicações existentes sobre o que está sendo estudado. Se
há explicações rivais,8 considere-as. Isso garantirá que a teoria e os argu-
mentos escolhidos tenham maior potencial explicativo. A quarta regra, ain-
da sobre as explicações, trata sobre a necessidade de construir hipóteses a
partir de cada uma delas, para garantir que sejam testáveis e se produzam,
a partir disso, inferências causais.
Por fim, as duas últimas regras tratam da necessidade de se testar
8. Refletir sobre uma explicação rival à sua significa se questionar se um outro fator diferente do qual você está apontando como
evidência não poderia estar causando (ou associado à) o fenômeno que se busca explicar.
369
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
contrafactuais e sobre a importância do sequenciamento cronológico dos
eventos. Quanto aos contrafactuais, este é um aspecto fundamental em es-
tudos com N pequeno, uma vez que aumenta a garantia de que as causas
selecionadas se conectam, efetivamente, aos seus efeitos. Assim, testar con-
trafactuais permite eliminar, do ponto de vista argumentativo, que haja ou-
tras combinações entre causas e efeitos, ainda que sem evidências empíri-
cas. Este exercício é essencial em estudos histórico-comparativos (Kogut,
2010). Como afirma Fearon, “particularmente na pesquisa com N peque-
no, a condição comum de muitas variáveis e poucos casos tornam os ex-
perimentos mentais contrafactuais meios necessários para uma justificação
séria das afirmações causais” (1991, p.194). Finalmente, pesquisas que le-
vam em consideração o tempo como fator central na construção dos argu-
mentos (estudos históricos comparativos, por exemplo) devem, por meio
de um cuidadoso exame qualitativo, garantir o sequenciamento de eventos
e a conexão entre eles por meio de elos causais justificados por evidências
sólidas sobre as implicações propostas e testadas.
A possibilidade de realizar inferências causais está vinculada ao esta-
belecimento de validade ao argumento, seja ela interna ou externa. Métodos
qualitativos são mais propensos a gerar maior grau de validade interna às
evidências, pois permitem ampliar a “observabilidade” dos casos investiga-
dos, garantindo aos pesquisadores se aprofundarem em aspectos que estu-
dos com N elevado não permitem. Porém, o desafio é maior em termos de
validação externa. Estudos qualitativos, por permitirem maior aprofunda-
mento de aspectos específicos dos casos, dificultam a padronização proce-
dimental, criando obstáculos à comparabilidade nos mesmos termos com
outros casos. Por isso destacamos na seção anterior a importância do deta-
lhamento metodológico da pesquisa com vistas à sua reprodutibilidade em
contextos equivalentes. Outra possibilidade para contornar estes entraves
é a triangulação, que consiste em uma abordagem multimétodo que, a fim de
ampliar a validade externa das inferências causais realizadas em pesquisas
qualitativas, complementa-as com pesquisas quantitativas (Gerring, 2019).
De todo modo, insta retomar o argumento de Goertz e Mahoney e ratificar
que inferências causais são viáveis em quaisquer abordagens investigativas,
370
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
desde que se considere os limites e potenciais que suas especificidades im-
põem nesse sentido.
Considerações finais
As reflexões propostas neste capítulo partem de um debate que
tem perpassado as últimas décadas na Ciência Política e que gira em torno
da seguinte questão: é possível garantir mais rigor metodológico à pesquisa
qualitativa? O consenso acadêmico é que sim, mas os debates e questiona-
mentos ainda são amplos. Para realizar nossa contribuição nesta discussão,
partimos do debate em torno das especificidades da abordagem qualitati-
va e de suas diferenciações em relação aos métodos quantitativos. Por ou-
tro lado, concordamos que, apesar das diferenças, há em comum a preocu-
pação em construir inferências de forma válida.
Por isso, tratamos sobre a busca por transparência, replicabilidade e
validação dos dados qualitativos nos próprios termos da pesquisa qualitati-
va, e não a partir da lógica quantitativa como propunha o debate emergido
nos anos 1990 com KKV, com o objetivo de uma padronização completa da
ciência. Nesse sentido, deve-se pensar as definições metodológicas a partir
das contingências próprias dos objetos analisados sob o prisma qualitativo,
considerando que existem limites inclusive éticos para a transparência, que
devem ser seriamente discutidos e pensados pelos pesquisadores e partici-
pantes da pesquisa, de forma a dar maior publicidade às escolhas teóricas e
metodológicas realizadas.
Este é um desafio que diz respeito também à replicabilidade, pois ela
deve ser pensada nos próprios termos da pesquisa qualitativa. O que é pos-
sível publicizar? Os pesquisadores devem levar em consideração as questões
ligadas à responsabilidade com a comunidade acadêmica, mas, ao mesmo
tempo, considerar os limites éticos impostos à divulgação de informações
que podem ser confidenciais. Além disso, é possível replicar os mesmos pas-
sos de pesquisas realizadas por outros estudiosos? Entendemos que é possí-
vel, desde que se assuma a ideia de contextos equivalentes. Afinal, a realida-
de é dinâmica e os casos variam entre si em tempo e espaço, o que precisa
ser considerado na replicação. Mas, para que isso seja possível é preciso se
371
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
disponibilize os protocolos de pesquisa, bem como os dados qualitativos
produzidos na investigação, o que auxilia na validação das evidências, so-
bretudo a validação externa. Em suma, a transparência permite que outros
pesquisadores possam continuar o processo de validação, mesmo após a
publicização dos resultados de pesquisa, confirmando ou questionando as
inferências causais e aprimorando as formas de categorização e codificação
dos dados.
Isso perpassa a preocupação em refletir sobre formas de se buscar
validade interna e externa em pesquisas qualitativas, por meio de cuidados
procedimentais que contribuam para a construção de inferências descritivas
e causais. Esperamos que este capítulo colabore com a agenda de pesqui-
sas no campo da metodologia que busca estabelecer maior rigor e padrão
aos estudos em Ciência Política, sem perder de vista os aspectos inerentes
a cada tradição investigativa.
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
12
Ética e pesquisas qualitativas em Ciência Política
Rayza Sarmento
Rafael Adilio dos Santos
376
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
Este capítulo tem por objetivo apresentar a discussão sobre ética na pes-
quisa qualitativa em Ciência Política. Trata-se de uma tarefa não muito sim-
ples, dado que há no cenário brasileiro um conjunto robusto de críticas so-
bre como foram construídos os procedimentos exigidos para a apreciação
ética dos trabalhos acadêmicos nas Humanidades, na qual a nossa subárea
está inserida. Esta tensão precisa estar demarcada desde o início deste tex-
to, a fim de que a expertise dos Comitês de Ética em Pesquisa (CEPs) e
suas exigências formais, da qual trataremos mais adiante, não sejam tomadas
como sinônimos exclusivos da construção sobre boas práticas de pesquisa.
Schmidt (2008) e Minayo e Guerreiro (2013) propõem que uma pos-
tura ética exige a autorreflexão constante de quem pesquisa sobre a relação
com os indivíduos ou grupos pesquisados, com a clareza de que se trata de
uma interação assimétrica marcada por diferenças de poder, hierarquias e
lugares ocupados. Para Schmidt (2008), a ética na pesquisa seria um modo
de lidar, tematizar e agir que não se prende exclusivamente à normativida-
de jurídica. Nogueira e Silva (2012) entendem que uma pesquisa ética tem
quatro preceitos: respeito aos direitos humanos, proteção às pessoas vul-
neráveis, promoção da ciência e proteção ambiental. Para além desses pila-
res, Concone (2008) indica que as pesquisas eticamente orientadas devem,
obrigatoriamente, deixar claro que a participação se trata de um convite e
não de obrigação e devem garantir a privacidade, o anonimato e a possibili-
dade de desistência a qualquer momento, elementos que posteriormente se-
rão incorporados aos termos formais de consentimento no caso brasileiro.
De acordo com a Resolução 510/2016, do Conselho Nacional
de Saúde (CNS), responsável por indicar os parâmetros de avaliação das
Ciências Humanas e Sociais (CHS), entre os princípios éticos das pesqui-
sas destacam-se a liberdade e autonomia de todos os envolvidos, defesa dos
direitos humanos e antiautoritarismo, respeito aos valores dos participan-
tes da pesquisa, à diversidade social e ao enfrentamento a qualquer tipo de
preconceito.
Neste capítulo, partimos da premissa de que o compromisso ético
deve atravessar toda a construção da pesquisa, não podendo ser reduzido,
377
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
como assinala Duarte, a um mero “acordo formal inicial” (2015, p. 35). Na
esteira deste autor, o entendimento sobre ética deste capítulo compreende
que a pesquisa qualitativa em Ciência Política será sempre afetada pelas re-
lações entre quem pesquisa e os participantes, de forma que “define-se um
rumo e os contornos teóricos e metodológicos da pesquisa, mas não se es-
pera que esse desenho inicial se mantenha intacto até o fim do processo”
(Duarte, 2015, p. 36).
Ao longo deste capítulo, buscaremos apresentar brevemente como se
estruturou a discussão sobre ética nas Ciências Humanas, a apropriação do
debate a nível nacional, a conformação dos CEPs e seus protocolos atuais
de avaliação, que regulam as investigações com seres humanos.
1. Ética em pesquisa no contexto brasileiro: das formulações biomé-
dicas à Resolução 510/2016
O debate sobre ética nas pesquisas se aprofunda a partir da Segunda
Guerra Mundial, após as experiências científicas que violaram direitos huma-
nos fundamentais, sobretudo com o Código de Nuremberg. O documento
foi publicado em 1947 para embasar os tribunais que julgavam os cientistas
nazistas por seus experimentos praticados durante o regime autoritário na
Europa. De acordo com Taquette (2021), na década seguinte, a Declaração
de Helsinque (1964) foi um marco por explicitar textualmente que os par-
ticipantes das pesquisas precisam ter integridade e dignidade consideradas
e não subjugadas aos avanços científicos. A declaração abordava o consen-
timento, a garantia de sigilo dos dados, respeito aos participantes (crenças,
ideologias, condições) e necessidade de submissão da pesquisa a um comitê
de ética (Ramos; Junqueira; Puplaksis, 2008; Barbosa; Souza, 2008).
No Brasil, a reflexão se institucionaliza nos anos de 1990, com a cria-
ção da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP) e dos Comitês
de Ética em Pesquisa (CEPs), por meio da Resolução 196/96, do Conselho
Nacional de Saúde (CNS), ligado ao Ministério da Saúde (MS). Os CEPs, de
acordo com a norma, são “colegiados interdisciplinares e independentes”
e foram constituídos para “defender os interesses dos sujeitos da pesqui-
sa em sua integridade e dignidade” (Brasil, 1996). Sua composição precisa
378
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
ser de, no mínimo, sete membros e apresentar diversidade científica, bem
como contar representante da sociedade/usuários; já as formas de eleição
a esses assentos, calendário de reuniões, modelos de decisão cabem às ins-
tituições que abrigam o comitê. É vedado que um membro do CEP deci-
da sobre pesquisas nas quais coordena ou está envolvido. A esses comitês
cabe a revisão das pesquisas com seres humanos e a “responsabilidade pri-
mária pelas decisões sobre a ética da pesquisa a ser desenvolvida na insti-
tuição, de modo a garantir e resguardar a integridade e os direitos dos vo-
luntários participantes” (Brasil, 1996).
A Resolução 196/96, contudo, não tratava das especificidades das
pesquisas em Humanidades. As críticas à importação do “modelo biomé-
dico de regulação ética”, nos termos de Diniz (2008, p.418), foram funda-
mentais para que fossem evidenciadas, ainda que não totalmente reconhe-
cidas, as diferenças de condução das investigações em Ciências Humanas e
Sociais. De acordo com Duarte:
Todo o sistema da avaliação bioética repousa sobre a pressuposição de um
risco a ameaçar todos os “seres humanos” que participam de uma pesqui-
sa; o que é perfeitamente razoável no caso das pesquisas biomédicas, en-
volvendo, como envolvem, a intervenção comissiva ou omissiva nas con-
dições corporais dos sujeitos; podendo resultar em agravos da mais diversa
ordem, e inclusive em sua inabilitação ou morte (Duarte, 2015, p. 32).
Dentro das Humanidades, os autores preocupados com este debate,
sinalizam que o paradigma científico seria outro, a pesquisa é vista como um
processo reflexivo, com contextos e situações que interferem em seu per-
curso (crenças, ideologias, marcadores sociais). As diferenças se expressam
de forma clara na metodologia, dado que na área biomédica é comum um
tipo de pesquisa experimental e em ambiente controlado (Nogueira; Silva,
2012; Christians, 2006). Taquette esclarece bem a diferença ao sustentar que
“nas ciências naturais a investigação se dá em seres humanos e nas ciências
humanas, com seres humanos” (2021, p. 597, grifos da autora).
Essas premissas distintas foram fundamentais para que, posterior-
mente, normas específicas às Humanidades fossem construídas nos âmbitos
379
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
dos CEPs/CONEP, mas esse processo não se deu sem profundos dissen-
sos, como mostram as controvérsias muito bem documentadas nos traba-
lhos de Barbosa et al. (2014), Sarti (2015) e Alves e Teixeira (2020). Sem o
intuito de recuperar detalhadamente esse enfrentamento com o paradigma
bioético, é relevante citar a publicação da Resolução 466/CONEP/MS, de
2012, que tornou ainda mais evidente as diferenças entre as áreas de co-
nhecimento e a sobrerrepresentação de uma visão biomédica no tangente
à apreciação ética. A partir desta norma, em 2013, foi criado o Fórum das
Associações de Ciências Humanas e Sociais e Sociais Aplicadas (CHSSA),
descrito por Sarti como “uma frente ampla formada por associações cien-
tíficas das diversas subáreas dessas ciências” (2015, p.81), a fim de construir
uma alternativa à então regulamentação vigente e, especialmente, solicitar
que a avaliação ética dessas áreas fosse de competência do então Ministério
da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e não do CONEP junto do
Ministério da Saúde (MS).
Após intensas críticas e árduo trabalho das associações das áreas
de conhecimento de humanas e sociais, em 2016, entrou em vigor a atual
norma específica, a Resolução 510. O resgate sobre a construção do docu-
mento, os atores envolvidos e suas principais inovações frente à norma an-
terior foi abordado em Minayo (2021), de forma que retomaremos apenas
alguns pontos fundamentais.
A Resolução 510 passa a admitir a “importância de se construir
um marco normativo claro, preciso e plenamente compreensível por todos
os envolvidos nas atividades de pesquisa em Ciências Humanas e Sociais”
(Brasil, 2016) e as define como:
aquelas que se voltam para o conhecimento, compreen-
são das condições, existência, vivência e saberes das pessoas e
dos grupos, em suas relações sociais, institucionais, seus valores
culturais, suas ordenações históricas e políticas e suas formas de subjeti-
vidade e comunicação, de forma direta ou indireta, incluindo as modali-
dades de pesquisa que envolvam intervenção (Brasil, 2016, artigo 2, XIV).
É com base neste documento que os Comitês de Ética em Pesquisa
380
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
das universidades devem avaliar os projetos da grande área, levando em con-
sideração suas características específicas; o que para Minayo (2021, p. 528),
ainda que com avanços, continua sendo realizado de forma “muito estreita”.
A referida pesquisadora, assim como Taquette (2021), tem mostrado os de-
safios para uma implementação desses princípios no julgamento dos comi-
tês. Não são incomuns os relatos de “pendências” ou negativas de projetos
de pesquisas em nossa área ligados não à ausência de compromisso ético,
mas a pouca familiaridade com metodologias ou premissas epistemológi-
cas das Humanidades. Preocupada com esses julgamentos, Taquette (2021,
p.604) sustenta que, sobretudo quando se trata de temas sensíveis, a pes-
quisa deve detalhar com rigor como tratará questões relativas à confiden-
cialidade e autonomia dos participantes, “para se evitar interpretações ina-
dequadas por parte dos membros dos comitês, seja por desconhecimento,
conservadorismo ou preconceito”.
Barbosa et al. (2014, p.488) discutem a importância da atualização
e formação contínua dos integrantes dos CEPs, a fim de que a pluralidade
epistêmica e metodológica esteja presente nesses espaços. Os autores ci-
tam a experiência do Comitê de Ética em Pesquisa em Ciências Humanas e
Sociais (CEP/CHS) da Universidade de Brasília, ativo desde 2007 e o pri-
meiro do país com tal especificidade. De acordo com a página oficial do ór-
gão, sua missão é “pensar esse sistema à luz das particularidades da pesquisa
social” e seu trabalho é restrito “aos estudos que utilizem técnicas qualita-
tivas de levantamento e/ou análise de dados, tais como entrevistas, obser-
vações, survey ou questionários” (CEP/CHS).1 A maioria das universidades
brasileiras conta com apenas um Comitê, com frequência ligado aos insti-
tutos ou faculdades da área da Saúde. No entanto, é necessário possuir as-
sento de pesquisadores das Humanidades, a fim de fortalecer a diversida-
de na pesquisa acadêmica.
Uma discussão importante sobre ética nas pesquisas qualitativas diz
respeito à transparência e possibilidades de replicação, a partir dos debates
sobre confiabilidade das pesquisas.
1. [Link] Acesso em 14.06.2023.
381
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
2. A ética em pesquisa qualitativa e a transparência
Um dos pilares éticos da pesquisa é a confidencialidade de infor-
mações dos participantes, lugares e situações que possam gerar algum risco
ou constrangimento. Por outro lado, cada vez mais, a disponibilização de
bancos de dados para fins de confiabilidade e replicação tem sido requeri-
da. Observamos que o padrão de transparência cobrado, por vezes, se ba-
seia nos métodos de pesquisa quantitativa, tais como os que utilizam ques-
tionários fechados e amostras populacionais
Sendo a pesquisa qualitativa diferente da quantitativa, seu processo
de transparência também deve ser pensado de forma diferente e apropria-
do para o tipo de trabalho realizado, sendo impossível uma padronização
de procedimentos (Moravcsik, 2014b; Hiles; Cermak, 2007). A transparên-
cia deve levar em conta as possibilidades de deixar o trabalho acessível, in-
formando as formas de coleta das informações e interpretação dos dados.
A entrega de um apêndice metodológico detalhando todas as etapas como
anexo pode ser uma saída, além da criação de links que levam a conteú-
dos complementares, criação de repositórios de textos e dados (Moravcsik,
2014a; 2014b), com o devido anonimato. O uso de softwares também é re-
comendado para ajudar a criar um padrão de análise de dados por codifica-
ções de temas, organizando os dados, possibilitando pesquisas de texto, a
realização de auditorias e comparações, bem como o compartilhamento do
banco de dados com as informações possíveis de publicação (Kapiszewski;
Karcher, 2021; O’Kane; Smith; Lerman, 2021).
As recomendações de transparência costumam sempre ressaltar a
importância de explicar os métodos, mas, também, relatar como era o am-
biente pesquisado e como a pesquisa se inseria nele, detalhando aspectos
culturais, condições econômicas e as estruturas de poder. É importante des-
crever elementos como: a relação do pesquisador com os participantes da
pesquisa, as relações de contato ou proximidade; os critérios para montar
a amostra (se houve ponto de saturação e como foi obtido); bem como in-
formar problemas e reconduções que se fizeram necessárias no decorrer
da pesquisa, como, por exemplo, negativas ou desistências de participantes
(Aguinis; Solarino, 2019).
382
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Ainda que a discussão sobre transparência não seja pacífica entre
pesquisadores/as da abordagem qualitativa, a literatura da área aponta para
um ganho de credibilidade e confiabilidade, advindas da possibilidade de
replicação e análise dos dados por outros/as autores/as (O’Kane; Smith;
Lerman, 2021; Hiles; Cermak, 2007). Para Moravcsik (2014a), a transparên-
cia dá validação às pesquisas e abre diálogo entre pesquisadores, o que leva
a avanços teóricos, metodológicos e na coleta de dados, construindo pes-
quisas mais rigorosas e o desenvolvimento do campo de estudos.
Mapeadas as críticas e divergências sobre ética em pesquisa, é preci-
so ressaltar, como lembra Sarti (2015), que a resistência a esse modelo pre-
cisa ser construída de forma coletiva. Contudo, diante do cenário atual em
que periódicos, agências de fomento e demais instituições têm exigido a re-
visão dos comitês, cabe-nos apresentar os componentes mais importantes
do protocolo atual.
A seguir, iremos discutir os principais elementos da resolução de
CHS e do processo de avaliação. No momento da publicação deste livro
estão em vigor as resoluções 466,2 510,3, bem como cartas circulares que
disciplinam pontos específicos. Para fins da nossa discussão, vale consultar
também a Carta Circular nº 1/2021-CONEP/MS4 com orientações sobre
pesquisa em meio virtual, emitida no contexto da pandemia de covid-19.
3. Processo de submissão e avaliação do Comitê de Ética
Uma primeira dúvida comum é sobre quais pesquisas das
Humanidades devem ser submetidas aos CEPs. A Resolução 510 esclarece
que a tramitação é obrigatória para as investigações em que “procedimen-
tos metodológicos envolvam a utilização de dados diretamente obtidos com
os participantes ou de informações identificáveis” (Brasil, 2016). Entre tais
procedimentos estão os abordados neste livro, que coletam e produzem da-
dos por meio de etnografias, entrevistas, grupos focais, observação-partici-
pante, pesquisa-ação, dentre outros, de forma presencial ou online. Esta úl-
tima é uma informação importante ratificada na Carta Circular nº 1/2021,
2. [Link] em 14.06.2023.
3. [Link] em 14.06.2023.
4. [Link] em
14.06.2023.
383
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de que o contato com os participantes mesmo virtual precisa ser avaliado
eticamente. Não há também diferenças no tangente ao tamanho da amos-
tra ou número de participantes envolvidos no estudo, assim trabalhos que
necessitem, por exemplo, de apenas uma única entrevista precisam igual-
mente passar por revisão nos CEPs.
O Artigo 1º da 510 explicita também as pesquisas que não preci-
sam ser avaliadas, das quais ressaltamos: “pesquisa de opinião pública com
participantes não identificados”; “pesquisa com bancos de dados, cujas in-
formações são agregadas, sem possibilidade de identificação individual”;
“atividade realizada com o intuito exclusivamente de educação, ensino ou
treinamento sem finalidade de pesquisa científica”, excetuando neste caso
os “Trabalhos de Conclusão de Curso, monografias e similares, devendo-se,
nestes casos, apresentar o protocolo de pesquisa ao sistema CEP/CONEP
“ (Brasil, 2016). Este é um ponto importante, dado que pesquisas de opi-
nião pública (surveys) sem identificação são comuns à área de Ciência Política
e são isentas da aprovação ética segundo tal norma. Também não precisam
se submeter as atividades realizadas correntemente em disciplinas o treina-
mento metodológico, caso fiquem circunscritas ao âmbito do ensino e não
resultem em publicação posterior.
Já o Artigo 2º da mesma norma, traz um elemento muito impor-
tante para os estudos em âmbito digital, informando que as pesquisas en-
cobertas precisam também ser submetidas ao CEP. Trata-se de “pesqui-
sa conduzida sem que os participantes sejam informados sobre objetivos e
procedimentos do estudo, e sem que seu consentimento seja obtido previa-
mente ou durante a realização da pesquisa” (Brasil, 2016). Tal modalidade
pode ser justificada quando a “informação sobre objetivos e procedimen-
tos alteraria o comportamento alvo do estudo ou quando a utilização des-
te método se apresenta como única forma de condução do estudo” (Brasil,
2016). No âmbito da Ciência Política, pesquisas com grupos altamente ra-
dicalizados ou sobre questões sensíveis, online ou offline, têm a possibilidade
de requererem o uso desta norma como justificativa ética, o que será ava-
liado pelo comitê colegiado.
É necessário passar por avaliação ética qualquer pesquisa de Ciência
384
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Política que utilize dados oriundos de entrevistas qualitativas, grupos focais,
etnografias em espaços institucionais ou não-institucionais, observação par-
ticipante, dentre outras técnicas de coleta, sejam elas realizadas com elites,
servidores públicos, eleitorado, usuários de diferentes políticas públicas, in-
tegrantes da sociedade civil organizada e demais públicos, de forma presen-
cial ou online. Assim, caso a pesquisa necessite passar pelo CEP, há um ele-
mento obrigatório a ser considerado: o comitê não revisa coletas de dados
que já iniciaram. Desta forma, a pessoa responsável pela investigação pre-
cisa realizar a submissão antes do início efetivo, observando especialmente
o calendário de reuniões do CEP de sua instituição, que costumam ser rea-
lizadas mensalmente, mas também recebem volume considerável de traba-
lho. Recomenda-se bom senso no prazo, evitando submissões com tempo
muito próximo à realização do campo qualitativo e planejamento para lidar
com possíveis pendências.
A submissão para o CEP não é feita por e-mail ou com documen-
tos físicos e todos os processos nacionais tramitam na Plataforma Brasil:
[Link] Pessoas em nível de pós-gra-
duação (mestrado e doutorado) podem realizar o cadastro, mas é altamente
recomendável que docentes sejam responsáveis institucionais da pesquisa
e cadastrem discentes como “assistentes”, uma possibilidade técnica para
compartilhar o preenchimento dos dados no sistema. Cabe também ressal-
tar a importância de se referir a pessoa voluntária da pesquisa como “par-
ticipante” e não “objeto” ou “pesquisado”.
A submissão à Plataforma Brasil envolve o preenchimento de um
formulário online e a necessidade de anexar documentos obrigatórios.
Constam como documentos fundamentais: o projeto de pesquisa; roteiros,
questionários ou demais instrumentos que guiem a coleta de dados; autori-
zação prévia de instituições que sediarão a coleta; cronograma; termo de si-
gilo e confidencialidade (ver modelo em cada universidade); folha de rosto
(documento específico gerado pelo sistema); e o termos de consentimen-
to e assentimento. Os CEPs de cada universidade costumam disponibili-
zar em seus sites um check-list documental, bem como o calendário das re-
uniões do comitê, junto de seus prazos.
385
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
O Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) (para maio-
res de idade) e o Termo de Assentimento (para menores de idade ou pes-
soas impossibilitadas de consentir)5 são os instrumentos avaliados com mui-
to cuidado pelos comitês e também um dos focos de maior discussão entre
a comunidade acadêmica. Eles funcionam como um instrumento que in-
forma ao participante da pesquisa os objetivos, justificativas do estudo, bem
como seus direitos. O consentimento ou assentimento precisa ser realizado
antes da coleta de dados e este é um ponto de crítica importante.
Segundo Alves e Teixeira (2020) e Diniz e Guerriero (2008), as pes-
quisas antropológicas, com a etnografia, são as mais afetadas por este instru-
mento. Sarti afirma que a anuência prévia diz respeito não apenas “à inope-
rância para solucionar as questões éticas que enfrentamos, mas a problemas
que o TCLE cria para o trabalho de campo etnográfico” (2015, p. 88-89),
em que a imprevisibilidade e as consequências não informadas por um ter-
mo são parte fundamentais. Um exemplo dessas particularidades é trazido
por Diniz (2008) acerca do filme etnográfico, especialmente sobre uma ques-
tão sensível (aborto). Nesse caso, a autora detalha que participantes “seriam
os primeiros a assistir o filme editado e que somente com o consentimento
pós-edição o filme seria finalizado” e ainda que foi acordado o “direito de
veto a cenas que não considerassem do seu interesse pessoal (Diniz, 2008,
p. 423), demonstrando que a relação sobre consentimento extrapola o ter-
mo. Taquette lembra ainda de casos em que as pessoas pesquisadoras tam-
bém dever ser protegidas tanto quanto os participantes e que a assinatura
de um termo tornaria inviável a coleta de dados, tais como os mencionados
estudos sobre aborto e tráfico de drogas (2021, p. 597).
Considerando parcialmente tais debates, o Artigo 5º da Resolução
510 reconhece que os termos de consentimento e assentimento não precisam
necessariamente ser “assinados”, mas podem comportar a “expressão oral,
escrita, língua de sinais ou de outras formas que se mostrem adequadas”, o
que é fundamental para uma série de públicos que participam das pesquisas
em Ciência Política, bem como por conta das coletas em ambiente virtual.
5. Nos termos da Resolução 510, o assentimento livre e esclarecido é a “anuência do participante da pesquisa – criança, adolescente
ou indivíduos impedidos de forma temporária ou não de consentir, na medida de sua compreensão e respeitadas suas singulari-
dades, após esclarecimento sobre a natureza da pesquisa, justificativa, objetivos, métodos, potenciais benefícios e riscos”. Além
do assentimento, é necessária também a obtenção do termo de consentimento do/a responsável (Brasil, 2016).
386
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Em pesquisas que ocorrem com aplicativos digitais, por meio de áudio ou
vídeo, bem como de formulários online, os participantes podem demons-
trar seu consentimento por tais meios, não necessitando de uma assinatura
física. Nos artigos 14º e 15º, o documento também sinaliza que quando o
consentimento for inviável, é possível pedir a dispensa desse processo, com
a devida justificativa e com entrega de documento de garantias aos partici-
pantes. A dispensa será devidamente avaliada pelo CEP/CONEP.
Os elementos que o TCLE deve apresentar, em suas diferentes for-
mas (escrita, vídeo, áudio), estão descritos no artigo 17º. Dentre os vários
itens destacam-se a garantia de sigilo, de liberdade, desistência, ressarcimen-
to (quando for o caso), e indenização por possíveis danos, além do obje-
tivo da pesquisa e dos contatos dos/as pesquisadores/as para posteriores
esclarecimentos.
Conforme citado na primeira parte deste capítulo, as críticas ao atual
desenho das submissões ainda persistem e podem ser observadas no formu-
lário da Plataforma Brasil, que solicita dados comuns aos estudos biomédi-
cos, conforme critica Taquette (2021, p. 602). Ao iniciar o preenchimento
da plataforma, os pesquisadores realizam o cadastro de informações pes-
soais e posteriormente do projeto para avaliação, indicando o CEP da uni-
versidade em que a pesquisa será desenvolvida. Posteriormente, em nova
página, deverão ser preenchidas no formulário as seguintes informações:
área; título; desenho; financiamento (informar quando não houver); pala-
vras-chave; resumo; introdução; hipóteses; objetivos; metodologia; meto-
dologia de análise; riscos; benefícios; desfechos primário e secundário; ta-
manho da amostra; e dispensa ou não de TCLE.
A Carta Circular nº110-SEI/2017-CONEP/SECNS/MS6 torna
mais próximo o preenchimento de tais campos pelas pesquisas em CHS. Na
aba de “desenho”, o documento afirma que o pesquisador pode preencher
como “vide metodologia”. Caso se trate de um trabalho exploratório ou
interpretativista sem possibilidade de indicar “hipóteses”, é possível sinali-
zar no formulário “não se aplica”. O mesmo ocorre para “metodologia de
análise de dados” se já estiver descrita no campo anterior de “metodologia”.
6. [Link] Acesso em 14.06.2023.
387
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Ainda de acordo com a Carta, “nos itens ’desfecho primário’” e ’desfecho
secundário’, os pesquisadores devem preencher os campos referentes com
a expressão ’não se aplica’, uma vez que as pesquisas na área não preveem
esses desfechos” (Brasil, 2017). Sobre o tamanho de amostra, também soli-
citado na plataforma, a carta circular recomenda a inserção do número “0”
quando não houver como estimar o número de participantes da pesquisa.
Dentre os pontos do formulário que seguem gerando questões está
a descrição dos riscos e benefícios, bastante ligada ao paradigma bioético.
No caso dos benefícios, é possível admiti-los de forma mais ampliada para
a pesquisa acadêmica ou para o grupo em estudo, não necessariamente in-
dividualizando-os. Já os riscos, tendem a gerar mais discussões. Duarte de-
fende que os “possíveis riscos das pesquisas de CHS são de outra qualida-
de, raramente se distinguindo do chamado ’risco mínimo’, ou seja, aquele
que é passível de ocorrência na vida cotidiana entre quaisquer pessoas co-
muns” (2015, p. 32). Há alguns anos Diniz informava que os CEPs com
frequência emitiam pareceres com “a imputação de possíveis riscos emo-
cionais pelas entrevistas abertas”, mas a pesquisadora defende que se “há
chances de que a entrevista desencadeie fortes sentimentos, é também pos-
sível reconhecer o caráter quase-terapêutico da cena etnográfica para mui-
tas pessoas” (2008, p. 420).
Dessa forma, no preenchimento sobre os riscos cabe ao responsá-
vel pela pesquisa sinalizar se há possibilidade de constrangimentos na reali-
zação da coleta de dados, seja por exposição de emoções ou valores ou por
possibilidade de identificação (perda de sigilo). No campo destinado a esse
item na plataforma, é obrigatório evidenciar como tais riscos serão con-
tornados. É preciso enfatizar que o participante pode a qualquer momen-
to desistir de compartilhar informação e encerrar o contato (Brasil, 2016).
Após a finalização da submissão, os CEPs retornam aos pesquisa-
dores a avaliação, em torno de 30 dias. O projeto pode receber os seguin-
tes resultados:
-aprovado;
- com pendência: quando o Comitê considera o protocolo como
aceitável, porém identifica determinados problemas no protocolo, no
388
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
formulário do consentimento ou em ambos, e recomenda uma revisão es-
pecífica ou solicita uma modificação ou informação relevante, que deverá
ser atendida em 60 (sessenta) dias pelos pesquisadores;
- retirado: quando, transcorrido o prazo, o protocolo permanece
pendente;
-não aprovado; e
- aprovado e encaminhado, com o devido parecer, para aprecia-
ção pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa -CONEP/MS, nos ca-
sos previstos no capítulo VIII, item 4.c. (Brasil, 1996).
Os projetos que receberam pendência só devem começar a coleta
de dados após a aprovação final do Comitê. Com o retorno positivo, reco-
menda-se que em trabalhos acadêmicos e demais publicações, seja explici-
tado que a pesquisa foi revisada pelo CEP da instituição com o respectivo
número do Certificado de Apresentação de Apreciação Ética, o CAAE. A
plataforma Brasil também prevê possibilidade de emenda de projetos (am-
pliações sem mudanças substantivas no original) e notificações para envio
de documentos posteriores. Ao final da pesquisa, é necessário submeter o
relatório que também passará por avaliação do comitê.
Embora haja muita discussão em torno da legitimidade dos comi-
tês, como mapeamos na primeira parte do capítulo, é preciso estar ciente de
que o/a pesquisador/a pode enfrentar alguns problemas sem ter a aprova-
ção formal do CEP, desde não conseguir realizar um campo (especialmen-
te com sujeitos e instituições que já possuem informações sobre a neces-
sidade da assinatura de um termo de consentimento) até a não publicação
em periódicos e demais espaços, que têm cobrado a aprovação dos comitês
como regra de submissão para dados obtidos com seres humanos. Ressalta-
se também que o principal objetivo do comitê é preservar a integridade de
quem concede seu tempo e informações voluntariamente, tendo um docu-
mento (TCLE) que comprove sua participação legal e a partir do qual pos-
sa requer informações caso se sinta prejudicado pela pesquisa.
Seguindo autoras de outras áreas, como Taquette e Souza (2022) e
Diniz e Guerriero (2008), entendemos que boa parte das implicações éticas
na Ciência Política está mais presente no momento posterior da pesquisa.
389
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Na seção seguinte, à guisa de conclusão, voltaremos a estes pontos.
Considerações finais
Ao longo deste capítulo, buscamos mostrar que a discussão sobre
ética nas pesquisas sociais é múltipla e que as perspectivas reguladoras dos
comitês de ética sofrem resistências pela comunidade acadêmica. No en-
tanto, sobretudo a partir da resolução 510, as particularidades das Ciências
Humanas passaram a ser consideradas e é possível notar avanços no sis-
tema CEP/CONEP. Após descrever os passos de submissão, gostaríamos
de nos dedicar a alguns pontos mais específicos para pensarmos as impli-
cações éticas.
Taquette e Souza (2022), ao revisarem artigos que discutem dilemas
éticos, atestam que as situações mais frequentes dizem respeito a questões
de sigilo e anonimato, desconsideração da autonomia, confusão nas rela-
ções entre participantes/pesquisadores e diretamente à avaliação, por ve-
zes quantitativista, dos comitês. Diniz e Guarniero também apontam casos
exemplares sobre implicações éticas, a partir de estudos consolidados, e de-
fendem que é “na fase de divulgação dos resultados que estão os maiores
desafios éticos, tais como garantia de anonimato e sigilo, ideias sobre repre-
sentação justa, compartilhamento dos benefícios, devolução dos resultados
etc.” (2008, p.292), dado que na maior parte das vezes as pesquisas qualita-
tivas não se constituem como ameaçadoras à integridade física ou psíqui-
ca dos participantes.
No momento da coleta de dados, é importante garantir que a pessoa
ou grupo participante da pesquisa esteja confortável e tenha compreendi-
do seu papel, não se sentido constrangida ou coagida. O lugar para a reali-
zação de entrevistas ou demais técnicas deve ser definido de comum acor-
do com participantes e caso haja algum custo de deslocamento, este precisa
ser previsto pelo pesquisador. Relações de pesquisa de longa duração po-
dem, de acordo Taquette e Souza (2022), gerar para além da confiança ne-
cessária conflitos sobre o papel da escuta e das trocas estabelecidas. Nesse
sentido, Diniz e Guarniero lembram que essa relação se liga ao “estatuto
epistemológico da produção do conhecimento” nas técnicas qualitativas, na
390
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
qual estão implicadas “subjetividade e reciprocidade”, em “um jogo sim-
bólico muito diferente do que se estabelece em rotinas de estudos biomé-
dicos” (2008, p. 291). Não se trata de desconsiderar ou neutralizar tais re-
lações, mas informar quando possível para fins de transparência do estudo.
Outro ponto atual para pensar os limites éticos diz respeito à dispo-
nibilidade e uso de dados online, em especial de redes sociais. Se as frontei-
ras sobre dados públicos e privados estão borradas na arena online, cabe a
ponderação sobre a possibilidade de a pesquisa gerar riscos diversos para a
vida dos seus participantes. O Guia de Conduta da Association of Internet
Researchers (AIOR, 2019, p.10) discute de forma interessante a questão
do consentimento, que fica por vezes inviável com coletas automatizadas
de grande número de dados. Para lidar com isso, a associação afirma que
diferentes estratégias têm sido adotadas, desde obter o consentimento de
sujeitos a excluir nomes e demais informações que permitem identificação
desde o momento de processamento dos dados. De acordo com o docu-
mento, também é possível buscar o consentimento direto já visando a pu-
blicação dos resultados, especialmente quando se trata de pequenos núme-
ros de citações em um texto.
Após a coleta, cabe uma reflexão importante sobre armazenamento
de dados, especialmente, áudios, fotos e vídeos. O sigilo e a confidenciali-
dade dos dados passam também por resguardar seu acesso em locais segu-
ros. O mesmo vale para entrevistas ou demais coletas no meio digital, com
preservação dos links a fim de evitar invasões aos espaços.
A devolução das pesquisas qualitativas, especialmente quando rea-
lizadas com sujeitos ou grupos vulneráveis, é um processo interessante e
poucas vezes realizado na Ciência Política, sendo muito comum ao cam-
po antropológico. As devolutivas podem se constituir como momento de
profunda reflexão do conhecimento produzido com e a partir daqueles par-
ticipantes, podendo auxiliá-los na compreensão dos fenômenos que viven-
ciam e elucidar o entendimento do próprio sujeito que pesquisa. Não há
uma única forma de devolutiva, podendo se dar com o simples envio das
publicações resultantes, com oficinas, relatórios ou conversas informais
(Almeida et al. 2018).
391
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Ao final deste capítulo, esperamos que a comunidade leitora con-
sidere a ética como ponto de partida e grande guia em todo o processo da
pesquisa e não apenas como mera formalização. Embora seja necessária,
ela não resume a necessidade de respeito aos direitos integrais de pessoas
que se propõem a voluntariamente contribuir com a construção do conhe-
cimento científico.
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397
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Introdução
A busca pela inferência causal com o objetivo de estabelecer generaliza-
ções sobre fenômenos complexos tem acompanhado a trajetória da Ciência
Política. No decorrer do tempo, tem-se observado o predomínio de traba-
lhos empíricos, fazendo uso de métodos e técnicas quantitativas, na tentativa
de identificar relações de causa e efeito – ainda que a produção de trabalhos
teóricos e “ensaísticos” constituam parte significativa dos estudos científi-
cos em Ciência Política (Leite, Feres Jr., 2021; Lenine, Mörschbächer, 2020).
Não obstante, a discussão sobre métodos e técnicas de pesquisa
na Ciência Política passa por transformações que levam a um novo padrão
de cientificidade da área, baseado em modelos inferenciais orientados pelo
problema de pesquisa, cujos desenhos apresentem maior rigor metodológi-
co e possam integrar estratégias qualitativas às quantitativas de forma com-
plementar – a depender do escopo da questão a ser respondida (Gunther,
2006; Rezende, 2015). Esse processo vem no bojo de uma série de deba-
tes metodológicos ativados sobretudo a partir da obra de King et al. (1994),
publicada pela primeira vez nos anos 1990 e cujo objetivo central consis-
tia em defender uma lógica inferencial para a Ciência Política, comum tan-
to aos métodos quantitativos quanto aos qualitativos. Em larga medida, um
dos eixos desses debates foi justamente a preocupação com a causalidade.
Como aponta Dowding:
Até certo ponto, (...) o debate moderno foi desencadeado por King et al.
(1994) e sua afirmação de que existe uma lógica de inferência. A implica-
ção subjacente da lógica da inferência é que apenas a evidência quantitati-
va pode (a) determinar a causalidade e (b) testar hipóteses extraídas da teo-
ria. Uma resposta foi que a evidência qualitativa pode definir a causalidade
(c) preenchendo as lacunas e ajudando a demonstrar os mecanismos reais
e (d) usando um modelo diferente de causalidade (Dowding, 2016, p.162).
Nessas circunstâncias, passou a haver uma retomada da valoriza-
ção de métodos e técnicas qualitativas na disciplina. A preocupação com a
identificação de relações causais assumiu lugar de destaque, o que levou os
pesquisadores qualitativistas a elaborar novas modalidades epistemológicas
398
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
e metodológicas que justificassem não só o seu entendimento de causa-
lidade, como também permitissem de fato evidenciar processos causais
(Bennett, Checkel, 2015). Nesse contexto, o process tracing (ou rastreamen-
to de processos) emerge como uma abordagem para explicar, de maneira
causal, como e por quê um fenômeno se conecta a outro (Goertz, Mahoney,
2012; Mahoney, 2010).
O process tracing como método de pesquisa data da década de 1960,
mais precisamente nos estudos da Psicologia Cognitiva que pretendiam
compreender como as pessoas tomam decisões e, para tanto, focavam nas
etapas mentais intermediárias desse processo. Em Ciência Política, o process
tracing foi definido inicialmente por George e McKeown como um méto-
do de estudo de caso com ênfase na “investigação e definição de processo
de decisão pelo qual várias condições iniciais se traduzem em resultados”
(Cunha, Araújo, 2018, p. 35). Em outras palavras, através de uma profunda
análise do caso (within-case analysis), o uso de process tracing permite eviden-
ciar os elos intermediários entre dois pontos de uma sequência causal, i.e.,
as ligações entre uma causa C e um resultado R, no que é denominado por
Waldner (2012) de uma lógica de concatenação de eventos.
Em seu desenvolvimento histórico, a abordagem de process tracing pas-
sou por diversas transformações. Durante a década de 1990, a maioria dos
estudos que utilizavam process tracing estavam preocupados com “microfun-
damentos do comportamento individual” e analisavam processos cognitivos
latentes à tomada de decisões. Nesse período, a abordagem em tela passou
a ser utilizada em análises em que as variáveis de causa e efeito não eram re-
gulares – portanto, inadequadas para serem aplicadas em métodos estatís-
ticos “convencionais”, e nas quais as teorias de embasamento das análises
eram insuficientes para fundamentar os argumentos explicativos (Cunha,
Araújo, 2018). Posteriormente, King et al. (1994) estabeleceram alguns pa-
râmetros fundamentais para aplicação do método, o que provocou uma li-
teratura subsequente a reagir a seus protocolos e propor novos entendimen-
tos epistemológicos e metodológicos sobre process tracing (Beach, Pedersen,
2019; Bennett, 2008, 2010; Bennett, Checkel, 2015). Mais contemporanea-
mente, versões hermenêuticas de process tracing enfatizam a interpretação
399
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
como forma de compreender os arcabouços conceituais dos indivíduos es-
tudados, as mudanças intersubjetivas desses arcabouços e suas consequên-
cias para os resultados sociais e políticos (Norman, 2021).
Essa pluralidade de entendimentos e aplicações demonstra que o
process tracing se consolidou como um método de pesquisa que tem como
objetivo produzir inferências a partir do rastreamento de como processos ou
mecanismos causais operam em casos específicos. Trata-se de uma investi-
gação cujo foco está na identificação de sequências causais, no teste de teo-
rias e, sobretudo, em revelar mecanismos que explicam fenômenos políticos
através da identificação de processos que intermedeiam a relação/conexão
entre fenômenos (Beach, 2017; Cunha, Araújo, 2017). Na verdade, a ques-
tão central para qualquer análise de process tracing consiste na identificação
de mecanismos causais, os quais, na contemporaneidade, são definidos1 se-
gundo a proposta de Woodward:
Uma condição necessária para a representação de um modelo aceitável de
mecanismo é que a representação (i) descreve um conjunto organizado
ou estruturado de partes ou componentes; onde (ii) o comportamento de
cada componente é descrito por uma generalização que é invariante sob
intervenções; onde (iii) as generalizações que governam cada componen-
te são também independentemente variáveis; e onde (iv) a representação
nos permite ver como, em virtude de (i), (ii) e (iii), a saída [output] geral do
mecanismo variará sob a manipulação da entrada [input] para cada compo-
nente e mudanças nos próprios componentes (Woodward, 2002, p. S375).
A centralidade do mecanismo causal no process tracing requer que
não só as hipóteses da pesquisa sejam formuladas em termos do mecanis-
mo, como também a narrativa causal se estrutura em torno de uma expli-
cação do funcionamento desse mecanismo, levando em conta suas condi-
ções de necessidade e suficiência (Beach, Pedersen, 2019).2 Há, então, uma
1. O conceito de mecanismos é polissêmico nas Ciências Sociais e o modelo de Woodward, apesar de sintetizar de maneira robusta
e precisa diversos entendimentos, não é o único existente. Para uma revisão detalhada dos múltiplos sentidos de mecanismos
causais, ver Hedström e Ylikoski (2010).
2. Desenvolvimentos recentes em process tracing enfatizam o uso da lógica bayesiana para o aprimoramento da qualidade das
evidências. Ao utilizar o teorema de Bayes, analistas de process tracing avaliam o quanto uma determinada peça de evidência afeta
a confiabilidade na hipótese de relação causal proposta pela pesquisa. Ver Bennett (2014) para aplicações formais; e Beach e
Pedersen (2019), para a aplicação da lógica bayesiana sem formalidades estatísticas.
400
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
preocupação em identificar partes de um mecanismo e hierarquizar tais
eventos a partir da sua natureza, diferenciando eventos necessários daque-
les suficientes. As evidências, além de descritas, devem ser encadeadas em
sequências lógicas de forma a se conectarem de modo causal, id est a con-
catenação de Waldner (2012). Portanto, o process tracing utiliza a narrativa e a
descrição como ferramentas analíticas de evidências que, relacionadas, co-
nectam causas a efeitos (Silva, Calmon, 2018).
Dada a complexidade do empreendimento analítico, o rastreamen-
to de processos só permite que sejam feitas inferências causais a partir da
análise aprofundada de um ou um pequeno número de casos. Estabelecer
causalidade implica em reconhecer em profundidade as dimensões con-
textuais e históricas dos casos escolhidos, mobilizando diferentes tipos de
evidências (documentos, entrevistas, discursos etc.), uma vez que diferen-
tes mecanismos podem operar diferentemente em cada caso e resultar em
efeitos específicos (Beach, 2017). A triangulação de evidências é, portan-
to, uma estratégia fundamental para a identificação das condições necessá-
rias e suficientes dos mecanismos causais em operação e aprimoramento
da qualidade da inferência (Beach, Pedersen, 2019). Condições necessá-
rias são aquelas cuja presença é um requisito para que um evento ocorra
(por exemplo, eleições são uma condição necessária da democratização, ou
seja, para que um país autoritário se democratize). Condições suficientes,
por sua vez, são aquelas que, uma vez presentes, já asseguram a existência
de um fenômeno (por exemplo, o veto de um dos membros permanentes
do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas é suficiente
para a não aprovação de uma resolução desse órgão). Na linguagem causal:
Considera-se que as condições necessárias são causas que devem sempre ocor-
rer e precedem o resultado, e as condições suficientes são causas que, quando
presentes, produzem o resultado, mas este não é sempre precedente da cau-
sa. Para isso, utiliza-se de observações de conjunto de dados (DSO) de tama-
nho reduzido para comparar de forma controlada e em profundidade dois ou
mais casos. Portanto, estuda-se de forma mais densa alguns casos para fazer
inferências cruzadas (Beach; Pedersen, 2013 apud Cunha, Araújo, 2018, p. 28).
401
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Existem alguns testes para identificar, dentre as partes que compõem
o mecanismo, qual é suficiente e qual foi necessária. A partir da compara-
ção com outros casos, o método da concordância visa eliminar causas ne-
cessárias. Para tanto, é verificado se todas as condições potenciais estão em
todos os casos. Se estiverem, são suficientes. Se não, são consideradas ne-
cessárias. Em oposição, o método da diferenciação elimina as condições su-
ficientes para encontrar as necessárias. Estas devem sempre ocorrer e pre-
cedem o resultado.
Sabe-se que a produção de conhecimento perpassa, além de crité-
rios relativos à objetividade, racionalidade, replicabilidade e sistematicida-
de, pelas dimensões analíticas e explicativas. A primeira refere-se ao detalha-
mento das partes de um todo de modo que seja possível produzir sínteses.
A segunda destaca a produção de explicações para a ocorrência de fenô-
menos enfatizando suas possíveis causas (Cunha, Araújo, 2018). O process
tracing enquadra-se na dimensão analítica sob o argumento da provisorieda-
de das explicações. Ao ter como premissa a generalização para determina-
dos casos, pesquisas explicativas tendem a oferecer razões provisórias para
as causas de fenômenos, ao passo que a dimensão analítica, por ser menos
abrangente, permite identificar causas singulares de fenômenos complexos
a partir de uma ótica direcionada a casos específicos.
1. Aplicação
O process tracing se ocupa da análise de mecanismos causais entre
duas ou mais variáveis (Figura 1). Sua aplicação ocorre no sentido de bus-
car as evidências observáveis para uma explicação hipotética por meio da
análise de como o mecanismo causal opera em um caso. Central para o pro-
cess tracing é a formulação da hipótese de pesquisa em termos do mecanismo causal, algo
que a distingue de outras abordagens narrativas causais. A análise do pro-
cesso causal considera, então, as diversas partes de um mecanismo que es-
tão em interação:
– entidades (n): atores, organizações, instituições, estruturas que se
engajam em atividades;
– atividades (→): processos pelos quais são transmitidas forças
402
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
causais, isto é, as ações que produzem mudanças em mecanismos;
– causa (x): motivação do efeito;
– efeito (y): resultado da cadeia/mecanismo/processo causal.
Figura 1 – Lógica do mecanismo causal para análises de process tracing
Fonte: Cunha, Araújo (2018, p.44).
Dentre suas funções, estão a de analisar de maneira aprofunda-
da um ou poucos casos de fenômenos complexos que são compreendidos
através do detalhamento de seus mecanismos. Em outras palavras, o pro-
cess tracing busca conectar uma causa a um efeito a partir da análise aprofun-
dada das entidades e atividades que intermedeiam a relação entre ambos
(Cunha, Araújo, 2017; 2018). Nesse processo, mecanismos são compreen-
didos como entidades organizadas de tal maneira que se tornam respon-
sáveis por determinado fenômeno (Beach, Pedersen, 2019). Nota-se que o
foco não está no evento em si, mas no processo que conecta causas e efei-
tos (Figura 2). Por isso, na Ciência Política o process tracing tem sido utiliza-
do como uma forma de gerar inferência causal através de análises qualita-
tivas que conectam atores e agentes a contextos e instituições de maneira
detalhada (Rezende, 2015).
Figura 2. Figura 2. SEQ Figura \* ARABIC 2 – Exemplo de estrutura de meca-
nismo causal com destaque ao foco de análise
Foco de análise - mecanismo
Fonte: elaborado pelos autores com base nos trabalhos de Beach (2017) e Cunha
e Araújo (2018).
1.1 Tipos e usos do Process Tracing
A aplicação de process tracing está condicionada ao tipo de análise que
se deseja realizar e a literatura contemporânea se divide em torno de como
403
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
qualificar as diferentes formas de análise com base nessa abordagem. Beach
e Pedersen (2019, p. 9-12) propõem uma tipologia útil: process tracing para
teste de teoria, que visa a testar se o mecanismo causal proposto na pes-
quisa de fato existe e opera como sugerido pela teoria; process tracing para a
construção de teoria, cujo objetivo consiste em utilizar as evidências para
construir o mecanismo causal que explica os fenômenos de interesse; pro-
cess tracing para revisão de teoria, que busca entender por que um mecanismo
proposto pela teoria falha no mundo real; e process tracing para explicar um re-
sultado, que se orienta a analisar diretamente um caso provendo uma expli-
cação mecânica sobre o resultado observado.
Outrossim, há duas formas de rastrear processos, quais sejam: a for-
ma minimalista e a forma sistêmica/sistemática (Beach, Pedersen, 2019). O
primeiro tipo de process tracing traz uma análise menos profunda do mecanis-
mo causal em estudo. Trata-se de um nível mais abstrato de análise no qual
o mecanismo causal é menos detalhado tanto empírica quanto teoricamen-
te (Figura 3). Tipos minimalistas desenvolvem análises mais exploratórias e
superficiais, podendo ser utilizados em estágios iniciais da pesquisa – para
mapear e construir hipóteses, por exemplo – ou para identificar mecanismos
menos complexos que operam em mais casos entre uma causa e um efeito.
Figura 3. Exemplo de aplicação da análise minimalista do process tracing
Fonte: elaboração própria com base em Beach (2017).
No process tracing sistêmico, por outro lado, todas as partes do meca-
nismo causal são desagregadas e analisadas na relação entre causa e efeito.
Aqui, as análises apontam para uma continuidade produtiva, segundo a qual
as partes internas do mecanismo são desdobradas e detalhadas empirica-
mente na busca dos rastros deixados pelas atividades das entidades (Figura
4). Tipos sistêmicos, por se ocuparem da profundidade da análise, contri-
buem para o avanço teórico ao se dedicarem ao funcionamento das partes
404
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de um mecanismo causal. Para tanto, observam cada processo do mecanis-
mo em termos de necessidade e suficiência na conexão lógica entre as par-
tes dos fenômenos em análise. Cada processo do mecanismo causal – ilus-
trado na figura 4 pelos números 1, 2 e 3 – é desdobrado nos elementos que
o compõem – ilustrados na figura 4 pelas letras a, b e c.
Figura 4 - Exemplo de aplicação da análise sistêmica do process tracing
Fonte: elaboração própria com base em Beach (2017).
Esse método pode ser utilizado em três sentidos: o primeiro tem en-
foque nas causas temporais dos eventos, ou seja, na sequência. Nessa abor-
dagem “o tempo é levado bastante a sério e se torna parte da explicação
causal” (Cunha, Araújo, 2018, p. 76). Diante do desafio de abrir a “caixa-
-preta” da inferência causal, a segunda aplicação do método parte de uma
lógica mais dedutiva e consiste em identificar e testar hipóteses sobre tais
mecanismos. Já a “terceira maneira de aplicar o método emerge da preocu-
pação de alguns autores em tratar os fatores de fundo dos processos cau-
sais, como variáveis omitidas, problema de exogeneidade ou condições de
alcance do método” (Kreuzer, 2016, apud Cunha, Araújo, 2018, p. 76).
A principal limitação3 do process tracing é que ele não pode ser apli-
cado em pesquisas com muitos eventos, ficando restrito a estudos de caso
em profundidade ou comparativo com poucos casos. Além disso, uma vez
que mecanismos diferentes podem operar simultaneamente, é possível que
a força relativa das variáveis explicativas não seja evidente. Portanto, ape-
sar de oferecer observações que podem corroborar ou refutar uma hipóte-
se e permitir que o pesquisador desenvolva algumas generalizações descri-
tivas, o process tracing não permite grandes generalizações de relações causais
(Cunha, Araújo, 2018, p. 37).
3. Para outras críticas, como, por exemplo, o problema do detetive honesto, a causalidade em colisão e os limites da estatística
bayesiana aplicada a process tracing, ver Dowding (2023).
405
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Por outro lado, nos estudos que envolvem processos de decisão, pre-
ferências, expectativas, intenções, motivações, crenças ou aprendizado nos
níveis individual e organizacional, o process tracing é capaz de gerar resul-
tados robustos a partir de relatos internos de mudanças na política, e per-
mite ainda comparação entre estudos de caso únicos, minimizando o erro
inferencial. Dentre as vantagens do método, Cunha e Araújo destacam que:
[…] o seu uso volta-se para a produção de inferências causais basea-
das em informações empíricas, evidências selecionadas que contribuem
para identificar e analisar os mecanismos causais presentes no caso es-
tudado, como interagem as partes desse mecanismo, bem como a cadeia
causal e a conexão entre os mecanismos causais para a produção dos re-
sultados encontrados no caso estudado (Cunha e Araújo, 2018, p. 41).
O método destaca-se justamente por sua capacidade de identifi-
car rastros deixados pelas entidades que acabam por constranger decisões.
Nesses estudos, a inferência é dada quando um ou mais mecanismos causais
se mostram robustos para explicar o evento em análise. É por este, dentre
outros motivos, que atualmente o uso de process tracing tem sido observado
em áreas como a de avaliação de políticas públicas, em pesquisas que bus-
cam analisar o desencadeamento de eventos para explicar por que deter-
minada política pública produz resultados diferentes a depender da região,
por exemplo, ou como o comportamento de agentes políticos se altera em
mesmos contextos institucionais (Rezende, 2015).
1.2 Preparação
O process tracing é um método que exige profundidade e aprofunda-
mento. Profundidade no sentido do conhecimento de teorias e estudos pré-
vios sobre o fenômeno que se busca analisar. Aprofundamento na medida
em que um objeto, isto é, um mecanismo causal em um caso, possa ser de-
talhado tendo como base hipóteses teóricas consolidadas. Nesse sentido, a
preparação para um estudo de process tracing envolve duas fases principais: i)
a conceituação do mecanismo e da hipótese causal; e ii) o diálogo com as
hipóteses rivais.
406
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
É por meio da conceituação do mecanismo causal que hipóteses
podem ser elaboradas e dar base para estudos de rastreamento de proces-
sos. Aqui é fundamental, além da definição conceitual, o diálogo com as hi-
póteses teóricas e explicações alternativas (Cunha, Araújo, 2018). Deve-se
mobilizar a literatura sobre o tema elencando seus aportes teóricos e dis-
cutindo, a partir do que já fora pesquisado, quais as lacunas de estudos an-
teriores que levaram à construção da hipótese e do mecanismo causal a ser
rastreado. É importante, também, que nessa fase os conceitos sejam densa-
mente definidos, sendo que seus atributos se demonstrem relevantes para
os mecanismos causais.
O diálogo com as hipóteses alternativas/rivais é o que torna pos-
sível especificar as partes do mecanismo elaborado, explicitando a robus-
tez do mecanismo causal ao denotar regularidades, padrões e desvios nas
relações entre uma causa e um efeito em determinado caso. Importa, aqui,
descartar as hipóteses já testadas pela literatura com base em relações de
necessidade e suficiência – sem, no entanto, excluí-las, mostrando por que
elas não explicam o fenômeno que se pretende rastrear.
O principal objetivo da conceituação do mecanismo é validar a ex-
plicação causal e direcionar os passos seguintes da pesquisa a partir da iden-
tificação de elementos teóricos e empíricos causalmente relevantes. Em ou-
tras palavras, uma vez que o process tracing é utilizado para a análise de poucos
casos, torna-se inviável o uso de procedimentos estatísticos de validação da
pesquisa.4 Desta forma, conceituar e dialogar com as hipóteses alternati-
vas tem sido a prática usual para assegurar a validade interna do estudo e
da proposição causal, de forma que a confiança na hipótese sobre o me-
canismo observado também é elevada. Não por acaso, Bennett e Checkel
(2015, p. 21, tradução livre e adaptada) sugerem 10 boas práticas de process
tracing para garantir a qualidade e a validade do estudo: 1. Propor uma am-
pla rede de explicações alternativas; 2. Ser igualmente rígido com as expli-
cações alternativas; 3. Considerar potenciais vieses das fontes de evidências;
4. Considerar se o caso é mais ou menos provável de ter explicações alter-
nativas; 5. Tomar uma decisão justificável sobre quando começar a análise;
4. Embora seja possível utilizar estatística bayesiana para melhorar a qualidade da inferência causal (Bennett, 2008), uma parte da
literatura desconfia que essa prática não atinge seu objetivo dada a limitação do baixo número de casos analisados (Dowding, 2023).
407
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
6. Buscar incansavelmente evidências diversas e relevantes, mas tomando
o cuidado de justificar quando parar essa busca; 7. Combinar process tracing
com comparações de casos quando isso for útil e viável para o objetivo de
pesquisa; 8. Estar aberto a insights indutivos; 9. Usar da dedução para se in-
terrogar: “se minha explicação é verdadeira, qual será o processo específi-
co que leva ao resultado?”; e 10. Reconhecer que um process tracing conclu-
sivo é bom, mas que nem todo process tracing bom é conclusivo
1.3 A escolha dos casos
Os casos são fundamentais no rastreamento de processo e, por isso,
devem ser escolhidos a partir de critérios que estejam em conformidade com
a pergunta de pesquisa e a teorização do mecanismo. Diferentemente de ou-
tros métodos, no process tracing a escolha dos casos não parte de pressupostos
teóricos, mas são pertinentes aos potenciais eventos observáveis que aborda.
Nesse sentido, as recomendações para a escolha dos casos seguem
na direção de casos típicos (positivos) ou desviantes (negativos). Casos típi-
cos são aqueles em que o mecanismo opera a partir da mesma causa e gera
o mesmo resultado em condições contextuais conhecidas (Beach, 2017).
Ou seja, em uma relação em que x causa y, o mecanismo b se mantém ope-
rante. Casos desviantes, por sua vez, consistem naqueles em que o mesmo
mecanismo não opera conforme o esperado pela relação de causa e efei-
to. Assim, o mecanismo b opera para o resultado y, mas x não é sua causa
(Beach, 2017). Nesses casos, o process tracing contribui de forma significati-
va ao proporcionar o refinamento e avanços de teorias.
Recomenda-se dar maior atenção para os casos desviantes, tendo
em vista que o mecanismo causal, ainda que opere sobre o mesmo resulta-
do, apresenta variação em sua causa. Vale ressaltar que a escolha dos casos
deve ser criteriosa, pois no process tracing é a escolha dos casos que atua no
controle de variáveis.
1.4 Análises
As análises de process tracing são realizadas a partir dos mecanismos
causais tendo em vista identificar como determinadas evidências se conectam
408
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
ligando causas a efeitos. Essas análises são realizadas em termos da presen-
ça ou ausência de evidências, assim como de necessidade ou suficiência de
condições (Beach, 2017; Cunha, Araújo, 2017, 2018). Nesse sentido, podem
ser realizados quatro tipos de testes: straw in the wind, smoking gun, hoop e dou-
bly decisive. Originalmente sugeridos por Van Evera (1997) e explorados por
Collier (2011) por meio de uma análise do crime investigado por Sherlock
Holmes em Silver Blaze, esses testes servem ao propósito de avaliar a força
explicativa de uma determina proposição causal.
No teste straw in the wind, a ausência de uma evidência/parte do me-
canismo diminui a confiança no mecanismo, mas a presença não é suficiente
para confirmar um argumento. Consiste em uma análise em que as evidên-
cias não têm potencial de confirmar ou rejeitar uma hipótese, assim como
de enfraquecer uma hipótese rival. Esse tipo de teste é recomendado para
análises prévias dos mecanismos e devem ser complementados por outros
testes mais robustos.
Testes de smoking gun consistem em análises em que a presença da
evidência aumenta a confiança do mecanismo, mas a ausência não descon-
firma. Se um critério de suficiência estiver presente no mecanismo a hipó-
tese se confirma, mas sua ausência não a elimina diante das hipóteses rivais.
Em testes hoop, a presença da evidência não confirma a hipótese,
mas a ausência desconfirma. Essa análise estabelece critérios de necessidade
para a confirmação de uma hipótese causal. Caso a hipótese não cumpra o
critério de necessidade é eliminada, mas as hipóteses que contam com esse
critério não podem ser confirmadas. A lógica da análise é de que uma con-
dição necessária não é suficiente para que um mecanismo opere.
Testes doubly decisive produzem uma análise em que a presença da
evidência confirma a hipótese e a ausência desconfirma. Isto é, os critérios,
ao mesmo tempo, confirmam a hipótese e eliminam as hipóteses alternati-
vas, pois contêm a presença de uma condição necessária e suficiente para a
ocorrência de um fenômeno.
Em qualquer uma das análises importa menos a quantidade de evi-
dências e mais a qualidade que elas apresentam nos processos dos me-
canismos causais. Portanto, não é o número de evidências que define a
409
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
causalidade, mas as formas como elas se conectam em mecanismos que li-
gam uma causa a um efeito.
2. Aplicações de process tracing na Ciência Política
Atualmente, destaca-se o uso de process tracing na área de Políticas
Públicas, em pesquisas que buscam analisar o desencadeamento de even-
tos para explicar por que uma política pública produz resultados diferentes
a depender da região, ou para analisar o processo de formulação de deter-
minada política pública.
Seguindo a tradição do process-tracing como um método propício para
estudos de caso, Pinto e Côrtes (2022), analisam o processo de formula-
ção do Programa Mais Médicos (PMM), bem como os atores, ideias e ins-
tituições que influenciaram seu formato específico. Derivadas da teoria so-
bre processo político (Birkland, 2016 apud Pinto e Côrtes, 2022, p.5) e da
Teoria da Mudança Institucional Gradual (TMIG) (Mahoney; Thelen, 2010
apud Pinto e Côrtes, 2022, p. 5), as hipóteses a serem comprovadas indica-
vam que: 1) atores, motivados por seus interesses e ideias, disputaram a po-
lítica vigente, ao se posicionar e problematizar questões; 2) a mudança no
arcabouço institucional dos subsistemas de saúde e de educação superior,
bem como os legados históricos, influenciaram a formulação do PMM; 3)
o contexto político e padrões institucionalizados de relação entre governo
e sociedade tiveram impacto sobre as estratégias de ação.
O process tracing foi utilizado para explorar bibliografias, documen-
tos, texto de legislações, matérias de entrevistas na mídia e entrevistas reali-
zadas com atores-chave. Nessas fontes de dados, buscou-se evidências para
construir uma narrativa capaz de explicar o mecanismo de formulação do
PMM. As evidências analisadas incluíam: as posições, objetivos, ideias, pro-
postas e atuações dos atores envolvidos; as mudança e criação de progra-
mas e regras, ideias associadas e mobilização de recursos; as mudanças na
correlação de forças, relações entre decisores e atores societais e estratégias
de ação; e as mudanças na legislação, normas e programas.
A análise revelou significativas alterações feitas no desenho do pro-
grama, desde a preposição pelo Poder Executivo, até a efetiva aprovação.
410
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Evidências indicam que o PMM foi elaborado com base em legados his-
tóricos de formulações e programas que objetivam solucionar o problema
da insuficiência na oferta e formação médica. Também ficou comprovada
a ocorrência de contexto favorável na opinião pública. Esse contexto fez
parte das estratégias adotadas pelos formuladores, que conseguiram supe-
rar resistências das entidades médicas e chegar a um formato próximo do
defendido pelos grupos interesses, em especial, o Movimento Sanitário.
Na Ciência Política, de maneira mais ampla, seu uso tem sido em-
brionário, porém promissor. Por exemplo, Lima e Menezes (2021) analisa-
ram a inserção de políticas de integridade nos órgãos e entidades da adminis-
tração pública federal. Por meio do process trancing, produziram um mapa
causal e uma lista de eventos que permitiram identificar as principais moti-
vações para a inserção da política de compliance no setor público.
Partindo da hipótese de que a “política de integridade foi inserida
no ordenamento institucional brasileiro como uma resposta do governo fe-
deral às Convenções Anticorrupção de organizações internacionais (OEA,
ONU e OCDE) e às jornadas de junho de 2013” (Lima e Menezes, 2021, p.
2). Lima e Menezes realizaram uma análise documental na busca por evidên-
cias capazes de estabelecer elos em uma cadeia causal que explicasse a natu-
reza da relação entre as Convenções de Combate à Corrupção, as Jornadas
de 2013 e a implementação da política de integridade no governo federal.
Dentre as evidências encontradas, é possível citar, como exemplo,
a inexistência de instrumento legal para a penalização de pessoas jurídicas
beneficiadas por corrupção, até fevereiro de 2010. Quando o Projeto de
Lei nº 6826/2010, foi apresentado pelo Poder Executivo, com elaboração
da CGU, junto com o Ministério da Justiça e a Advocacia Geral da União
(AGU). Essa iniciativa ocorreu após a participação brasileira em eventos in-
ternacionais, como Convenções Internacionais Anticorrupção (OEA, ONU,
OCDE), na qual o Brasil se comprometeu em punir, efetivamente, pessoas
jurídicas que aliciam funcionários públicos em atos corruptos.
O PL nº 6826/2010 ficou em tramitação na Câmara dos Deputados
até o ano de 2013. Sendo enviado para o Senado no mês em que aconte-
ceram as manifestações conhecidas como Jornadas de Junho. Apesar das
411
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
demandas pulverizadas daquelas reivindicações (Tatagiba, 2014 apud Lima
e Menezes, 2021, p. 8), o combate à corrupção estava no centro do debate.
Esse elemento é apontado, pelas autoras, como um ponto de inflexão na
inserção de políticas de compliance no setor público.
Partindo da abordagem teórica do institucionalismo histórico da
Ciência Política, Gomide (2011) utilizou process tracing associado ao méto-
do de comparação controlada entre dois casos contrastantes: transportes e
telecomunicações. O seu objetivo era explicar o processo político que re-
sultou na reconfiguração institucional do setor federal de transporte, ma-
terializada pela Lei 10.233, de 2001. As telecomunicações também passa-
ram por processos de reformas sob o mesmo contexto histórico, político e
macroinstitucional, porém com resultados diferentes em termos de confi-
guração institucional final (Gomide, 2011, p.42). Nesse caso, a comparação
controlada permitiu melhorar a inferência analítica.
As hipóteses que, possivelmente, explicam o fenômeno foram re-
tiradas da literatura histórico-institucionalista, que utiliza ideias, interesses
e instituições como variáveis explicativas. Também se apoia no modelo de
Mahoney e Thelen (2010 apud Gomide, 2011, p.46) que reconhece a impor-
tância do contexto político, das características das instituições preexisten-
tes, e das motivações dos atores envolvidos.
Gomide (2011) levanta a hipótese de que a cronologia dos even-
tos e o mecanismo de policy feedback explicam a configuração institucional
do setor federal de transportes. Nesse caso, a desestatização do setor ocor-
reu num contexto de ausência de marco-regulatório e estruturas organiza-
cionais ajustadas ao novo cenário. Como resultado, os atores e interesses já
cristalizados anteriormente convergiram-se. Esse movimento, de um lado,
provocou um efeito de “reforço”, pressionando pela manutenção dos ar-
ranjos existentes. Por outro, uma “contrarreação” que induziu os atores a
criarem uma alternativa viável para as atuais regras do jogo. Já no setor de
telecomunicações, o mecanismo de path dependence não atuou. Dessa vez,
interesses privados não estavam materializados no status quo institucional.
A estrutura do mercado de telecomunicações foi alterada pela forte onda
de inovação que o setor experimentou, despertando o interesse de agentes
412
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
privados em atividades que estavam sob o monopólio estatal.
Para testar a hipótese, a estratégia metodológica adotada foi a uti-
lização de estudos anteriormente realizados sobre o setor de telecomuni-
cações como caso-controle, com o objetivo de reduzir a margem de erro
inferencial. No caso principal (transportes), utilizaram-se dados primários
obtidos de pesquisa documental e entrevistas semiestruturadas com espe-
cialistas na área e atores-chaves. Os eventos considerados como evidências
foram arranjados em ordem cronológica inversa, do mais recente ao mais
antigo, a fim de criar uma regressão causal.
Os resultados corroboram a hipótese inicial do trabalho. A sequên-
cia no tempo de eventos, tais como mudanças na legislação, reformas insti-
tucionais realizadas nos anos de 1990 no sentido de privatização de algumas
atividades anteriormente realizadas pela administração pública, e a proposta
do Poder Executivo de criação de agências reguladoras, impactaram a con-
figuração institucional do setor federal de transportes, materializada na Lei
10.233, de 05 de junho de 2001.
Dos exemplos citados até aqui é possível verificar que, para além da
análise documental e de textos de legislações, o uso de entrevistas tem sido
um recurso utilizado para capturar singularidades presentes nos processos a
serem rastreados. O método tem-se mostrado uma alternativa viável quan-
do o objetivo é identificar mudanças institucionais e a influência de atores
e ideais nos processos de deliberação política.
2.1 Como aplicar process tracing online?
Por mais que a aplicação do process tracing não se limite à análise do-
cumental, boa parte dos dados que baseiam esse tipo de pesquisa está dis-
ponível on-line. Os estudos citados anteriormente oferecem alguns exem-
plos: Lima e Menezes (2021) coletaram dados em documentos públicos e
oficiais disponibilizados pelas instituições de combate à corrupção para ela-
boração do mapa causal. Uma das fontes de Gomide (2011) para sua tese
de doutorado foi o site da Câmara dos Deputados.
Tanto a Câmara dos Deputados, quanto o Senado Federal, alojam
413
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
em seu sítio eletrônico uma seção referente à Atividade Legislativa.5 Lá é
possível acessar informações sobre a tramitação de determinado projeto de
lei; transcrição de discursos e debates em plenário; relatórios de atividades;
e outras informações relevantes.
Rosin (2018), por exemplo, analisa as interações entre atores e ins-
tituições que marcam a trajetória das agendas de políticas cicloviárias em
três cidades: Bogotá, Buenos Aires e São Paulo. Para tanto, utilizou a pro-
dução de documentos oficiais sobre bicicletas, como leis, atos normativos,
planos e relatórios disponíveis no site da prefeitura de São Paulo. A partir
de um arcabouço teórico que valoriza a análise dos arranjos interacionais
nos processos de políticas públicas, a pesquisa concluiu que as três cidades
apresentaram arranjos distintos, com a participação popular ocorrendo de
maneira localizada e concentrada em figuras representativas.
Além disso, muitos trabalhos que usam process tracing estudam um
determinado programa – como o Programa Mais Médicos – ou lei espe-
cífica (a exemplo da Lei 10.233/2001). Esse tipo de documento também
está disponível on-line, em plataformas como o “[Link]” e o site do planal-
to ([Link]).
Considerações Finais
As potencialidades de process tracing para a análise de inferência cau-
sal a partir de uma abordagem metodológica qualitativa vêm sendo enfatiza-
das pela literatura contemporânea. O recurso a uma narrativa causal estru-
turada que evidencia os mecanismos operantes para a geração de resultados
políticos é seu elemento distintivo em relação a outros métodos, sobretu-
do os de cunho mais narrativo. Ao estabelecer parâmetros para a proposi-
ção de relações causais fundadas em mecanismos, e ao traçar os caminhos
para analisá-las por meio do cruzamento de distintas evidências, o process
tracing oferece uma forma inovadora e, ao mesmo tempo, rigorosa de con-
duzir pesquisa qualitativa causal.
Porém, é fundamental ressaltar que process tracing não é um método
passível de ser aplicado em qualquer desenho de pesquisa. A postulação de
5. Atividade Legislativa, Senado Federal: [Link] Acessado em 08/10/2023. Atividade
Legislativa, Câmara dos Deputados: [Link] Acessado em 08/10/2023.
414
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
hipóteses em termos de mecanismos causais é o que justifica a utilização
do process tracing e o que o distingue de outras narrativas explicativas. Mais
do que apontar sequências de eventos, o uso de process tracing testa propos-
tas de condições necessárias e suficientes para a ocorrência de tais sequên-
cias. É precisamente nesse aspecto que reside a riqueza de sua análise, uma
vez que a um só tempo se fornece um relato causal passível de ser confron-
tado com explicações alternativas.
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418
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
14
Uma introdução à Análise Qualitativa Comparada (QCA)
em Ciência Política
Acácio Vasconcelos Telechi
Maiane Bittencourt
Thiago Silame
419
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Introdução
A Análise Qualitativa Comparada (QCA)1 foi introduzida por Charles Ragin,
em seu livro The comparative method: moving beyond qualitative and quantitative stra-
tegies, cuja primeira edição é de 1987. O método tem como objetivo propor
uma abordagem apropriada para a análise de um número de casos interme-
diário para fins de inferência descritiva e causal. Trata-se de uma estraté-
gia de análise qualitativa, com base em conhecimento profundo dos casos,
combinada à comparação, buscando a identificação de configurações cau-
sais ou a combinação de condições relacionada a determinado resultado.
O QCA é baseado na Teoria dos Conjuntos e na álgebra boolea-
na e por isso o tipo de inferência causal tem como base conexões explíci-
tas ou determinísticas e não probabilísticas como é observado comumen-
te em análises estatísticas. Metodologias bastante frequentes em campos
como a Matemática e a Filosofia, a Teoria dos Conjuntos e a álgebra boo-
leana são menos explicitamente aplicadas nas Ciências Sociais, campo no
qual a Teoria da Probabilidade e a álgebra matricial são mais disseminadas
em estudos quantitativos com uso de técnicas estatísticas.
Um conjunto representa uma coleção de elementos que possuem
uma característica comum. A Teoria dos Conjuntos e a álgebra booleana
buscam identificar padrões nas relações entre os conjuntos. Quando fala-
mos que países democráticos não fazem guerra entre si, estamos dizendo
que o conjunto de Estados democráticos é um subconjunto dos países que
não estão em guerra entre si. A lógica de conjuntos, portanto, é implicita-
mente utilizada nas Ciências Sociais (Schneider; Wagemann, 2012). Os tra-
balhos que utilizam essa lógica são denominados por Schneider e Wagemann
(2012) de set-theoretic methods.
Métodos orientados pela Teoria dos Conjuntos possuem três carac-
terísticas em comum: (i) eles trabalham com o pertencimento dos casos em
determinado conjunto; (ii) consideram as relações entre os fenômenos so-
ciais como relações de conjuntos; e, (iii) interpretam essas relações de con-
juntos em termos de necessidade e suficiência. Considere Y um resultado de
interesse e X uma condição que buscamos identificar seu efeito. Para uma
1. A sigla se refere ao nome da técnica em inglês Qualitative Comparative Analysis (QCA).
420
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
condição ser considerada necessária, todas as instâncias de Y devem mos-
trar a presença de X. Nesse caso, Y é um subconjunto de X ou Y está con-
tido em X. Já para uma condição suficiente, todas as instâncias de X devem
apresentar a presença de Y. Nesse caso, Y contém X.
Utilizando o exemplo dos autores citados acima, França e Alemanha
fazem parte do conjunto de países europeus, diferentemente dos Estados
Unidos (característica i); todos os países da Organização do Tratado do
Atlântico Norte (OTAN) são democráticos, o que não implica que todo
país democrático seja membro da OTAN (característica ii); e ser democrá-
tico é condição necessária para ser membro da OTAN (característica iii).
No entanto, fenômenos sociais são complexos e a causalidade, por-
tanto, também o é. Assim, o QCA possui algumas premissas sobre a causa-
lidade dos fenômenos, as quais precisam ser levadas a sério pelos(as) cien-
tistas sociais: (i) equifinalidade; (ii) causação conjuntural; e (iii) assimetria
(Schneider, Wagemann, 2012; Ragin, 2008). A primeira considera que po-
dem existir diferentes combinações causais capazes de produzir o mesmo
resultado. Primeiro, é possível observar diferentes explicações para o mes-
mo fenômeno sem isso necessariamente enfraquecer a inferência (equifina-
lidade). Segundo, é bastante improvável que apenas uma condição seja res-
ponsável por produzir um determinado fenômeno social. Por essa razão o
QCA foca na combinação de diferentes condições produzindo o resultado.
Além disso, algumas condições causam efeitos somente quando combina-
das com outras. Esse fenômeno é compreendido na causação conjuntural.
A assimetria surge quando a necessidade de delineação e operaciona-
lização de distintos conceitos se torna essencial para abranger dois estados
diferentes. Por exemplo, ao adotar uma abordagem fundamentada em con-
juntos, o contraste entre democracia e autocracia pode não ser de natureza
oposta. Similarmente, a relação entre riqueza e pobreza pode não ser pura-
mente antagônica. Esta perspectiva se afasta consideravelmente das abor-
dagens não ancoradas em conjuntos, nas quais é comum possuir um indica-
dor para cada variável. No contexto da prosperidade e carência de um país,
a renda per capita pode servir como tal indicador. A assimetria inerente aos
métodos baseados em conjuntos compreende, portanto, que não pertencer
421
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
ao conjunto de nações autocráticas não implica necessariamente fazer par-
te do conjunto das nações democráticas. Portanto, se uma dada condição X
resulta em Y, não significa que Y não ocorrerá na ausência de X. O resulta-
do de interesse pode ocorrer por uma outra combinação de fatores causais
que não contém X (Scheneider; Wagemann, 2012). Essa dinâmica comple-
xa exige uma análise mais sofisticada das nuances entre os estados e ressal-
ta a importância de capturar as múltiplas facetas das relações conceituais.
Falando especificamente do QCA, ele difere de demais abordagens
baseadas em conjuntos (como os métodos de Mill, comparação histórica,
tipologias etc.) por três razões principais. Primeiro, refere-se à busca por
causalidade. Uma das preocupações centrais do QCA é a busca de combi-
nações causais, ou seja, busca-se explicações causais. A segunda diferença
está relacionada com a sua ferramenta analítica principal: as tabelas-verda-
de. Esse instrumento apresenta todas as combinações causais com o res-
pectivo resultado. Falaremos mais adiante, na seção 2, das tabelas-verdade e
sua utilização. Por fim, o QCA distingue-se das demais abordagens por re-
correr, frequentemente, às reduções lógicas, um método para reduzir o nú-
mero de combinações causais para encontrar aquelas mais parcimoniosas,
procurando diferenças e semelhanças entre os casos com mesmo resultado.
A seção 2 também apresentará a minimização lógica mais detalhadamente.
1. Aplicação
Pela base matemática ser diferente da de outros métodos, o QCA
possui uma terminologia própria. Criada a partir da teoria dos conjuntos, da
lógica formal e difusa e da álgebra booleana, o método define pontuações
de associações em vez de valores em variáveis como nos métodos estatís-
ticos, que estabelece correlações em vez de relações definitivas (Schneider;
Wagemann, 2010). Assim, os termos condições, resultado e fórmula de so-
lução são usados no lugar de variável independente, variável dependente e
equação, respectivamente. Em termos matemáticos a análise de QCA apre-
senta a seguinte fórmula:
y = ƒ(x1 + x2 + x3 + x4 +... xn )
422
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Onde y representa o resultado de interesse e xn são as n condições
causais consideradas na investigação do fenômeno. O somatório considera
justamente a dimensão de que há uma combinação entre as diversas condi-
ções causais, possibilitando a ocorrência de diversas configurações que po-
dem apresentar o resultado de interesse.
O uso de uma terminologia própria auxilia o(a) pesquisador(a) a es-
tabelecer uma separação mental das diferentes lógicas metodológicas. Como
argumentam Schneider e Wagemann, essa “linguagem própria” possibilita
“diminuir o risco de confundir a lógica subjacente do QCA com a de outras técnicas de
análise de dados como a regressão” (2010, p.8, tradução livre).
Neste sentido, o QCA possui diferentes versões. As mais comuns
são o crisp-set QCA (csQCA) e o fuzzy-set QCA (fsQCA). No primeiro caso,
é possível trabalhar com conjuntos convencionais, nos quais os casos po-
dem ser membros de determinado conjunto, ou não. São conjuntos de ava-
liação dicotômica: ou 1, ou 0. A outra versão do QCA, por outro lado, per-
mite avaliações em termos de grau de pertencimento de determinado caso
em um conjunto. Em termos de operacionalização, um caso pode estar em
qualquer valor entre 0 e 1, onde 1 é pertencimento total ao grupo. Um país,
por exemplo, pode pertencer parcialmente no conjunto de países democrá-
ticos, com um grau de pertencimento de, por exemplo, 0,8. Um valor como
esse indica que há mais características de países democráticos do que o con-
trário, mas ainda não todas as características de um país que pertença com-
pletamente no conjunto dos democráticos.
Para processar dados no QCA crisp e fuzzy-set é preciso ter uma pon-
tuação consistente que leve em conta a Teoria dos Conjuntos. Ragin (2008)
alerta que é preciso elaborar essas pontuações por meio da calibragem de
conjuntos. Em csQCA as pontuações de associação variam de 0 e 1, e em
fsQCA de 0, 0.5 e 1. Os argumentos teóricos em torno do problema de pes-
quisa são necessários para determinar quais evidências empíricas se qualifi-
cam para pontuações das associações (Schneider; Wagemann, 2010).
Há, ainda, o multi-value QCA (mvQCA) (Cronqvist; Berg-Schlosser,
2008) que permite a codificação de valores multinominais. Em um csQ-
CA, por exemplo, o sistema partidário de um país pode ser classificado em
423
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
bipartidário ou não. Já em um mvQCA, a classificação poderia ser mais gra-
nular: bipartidário, multipartidário, ou com partido dominante. A base da
teoria dos conjuntos no mvQCA, contudo, fica menos evidente, uma vez
que, por exemplo, a classificação não requer que seja com base em grau de
pertencimento em determinado conjunto.
Quando, então, usar ou não o QCA em qualquer uma de suas ver-
tentes? Os trabalhos que utilizam o QCA, por definição, devem possuir de-
senhos comparativos. Assim, se não se tratar de um estudo comparativo, o
método não poderá ser aplicado. Além disso, essa técnica não demanda uma
grande quantidade de observações, ao contrário de métodos estatísticos. A
recomendação é de um N intermediário, entre cinco e cinquenta casos. Dessa
forma, um estudo com poucos casos, digamos cinco ou seis, pode perfeita-
mente utilizar o QCA, já que demanda menos quantidade e mais qualidade
no sentido de informações aprofundadas sobre os casos. Por isso, é impor-
tante cuidar na seleção dos casos a serem utilizados, incluindo casos típicos,
ou seja, casos que permitam o teste das relações e dos resultados indicados
pela teoria. É nesse sentido que Rihoux (2006) defende que a aplicação de
QCA seja mais vantajosa em estudos pequenos e intermediários.
1.1 Amostragem/construção de corpus
Uma vantagem do QCA é a possibilidade de inclusão de várias con-
dições causais para um número de casos relativamente pequeno. Isso porque
em análises estatísticas é muito comum a exclusão de variáveis relevantes
por problemas de sobredeterminação nos modelos. Contudo, a construção
do corpus para aplicação QCA é baseada na lógica booleana. Assim, a com-
binação de um alto número de condições é disfuncional por permitir mui-
tos restos lógicos e tornar cada vez mais complexo as interpretações teóri-
cas significativas do estudo (Schneider; Wagemann, 2010). Em análises de
dados micros pode haver uma proporção entre o número de casos e condi-
ções que se diferenciam das análises macros por operarem de maneira mais
heterogênea e numerosas (Schneider; Wagemann, 2010).
Tanto a seleção de casos, quanto a seleção e definição de condi-
ções em QCA podem estar sujeitos a mudanças com base em descobertas
424
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
ao longo da pesquisa (Schneider; Wagemann, 2010). Esse processo ocorre
muitas vezes por conhecimento específico dos casos ou descobertas teó-
ricas. Isso, no entanto, não significa que os dados depois de coletados se-
jam passíveis de alterações. O que queremos dizer aqui, é o argumento de
Schneider e Wagemann de que “uma adaptação contínua do conjunto de dados [do
QCA] é regra, não exceção” (2010, p. 7, tradução livre).
Quando há menor necessidade de preservar informação e amostras
pequenas, o csQCA é o mais indicado (Sandes-Freitas; Bizarro-Neto, 2016).
Além disso, a aplicação demanda um profundo conhecimento dos casos, o
que dificulta estudos com grande N (ainda que possam existir, com apoio
de métodos de calibração indiretos, por exemplo). Isso pode ser uma vanta-
gem, já que às vezes simplesmente não há número de observações suficien-
tes para um estudo estatístico robusto para fenômenos sociais. A desvanta-
gem é que se perde na generalização. Dito de outra forma, é possível fazer
generalizações, porém ela é mais modesta e conjuntural quando compara-
da a estudos estatísticos. Em vista disto, indicamos algumas estratégias para
delimitação do corpus: construções de ordem e prioridade (Ragin, 2000);
dos master or macro-variables2 (Berg-Schlosser; De Meur 1997); e, da aborda-
gem two-step3 QCA (Schneider, Wagemann 2006; Schneider, 2008).
Em estudos quantitativos, a amostragem deve seguir princípios alea-
tórios, seja por uma amostra aleatória simples (onde cada caso tem a mes-
ma chance de fazer parte da amostra), seja por amostras complexas (na qual
a amostragem é feita com base em uma estratificação pré-definida da po-
pulação). No QCA, como mencionamos anteriormente, a escolha dos ca-
sos é normalmente intencional. Isto é, é mais importante uma boa escolha
dos casos do que uma amostragem aleatória. Existe uma influência impor-
tante do(a) pesquisador(a) em avaliar a qualidade dos casos que farão parte
da análise e a escolha deve ser feita com base na teoria e no conhecimen-
to do(a) pesquisador(a).
2. Em análises de dados ou pesquisa, “variáveis mestras” ou “variáveis macro” são termos que se referem as principais variáveis
em um sistema complexo. Elas englobam informações importantes que afetam várias partes. São utilizadas para categorizar,
resumir ou explicar as relações entre variáveis mais específicas. Ao utilizar essas variáveis mestras, é possível simplificar a análise
ao capturar tendências gerais e influências principais, evitando a necessidade de examinar detalhes específicos
3. A abordagem Two-Step QCA é um método de análise utilizado nas ciências sociais para investigar relações complexas entre
variáveis qualitativas. Ela busca identificar padrões e relações causais em situações com relações não lineares ou combinações
variáveis similares. A abordagem envolve duas etapas: na primeira, identificam-se padrões de combinações variáveis por meio de
uma tabela de verdade; na segunda, os resultados da primeira etapa são analisados estatisticamente para identificar conjuntos de
variáveis relacionados aos resultados.
425
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
1.2 Construção do referencial de codificação
A construção de hipóteses em pesquisa de QCA é um debate sensí-
vel, pois Ragin (1987) elabora o método mais voltado ao elemento explora-
tório do dado – é o que o autor cunhou de “diálogo entre ideias e evidên-
cias”, a comunicação entre a teoria e a empiria. Baseado nisso, raramente
o QCA é utilizado para testar hipóteses prontas da literatura (Schneider;
Wagemann, 2010). De fato, as hipóteses no QCA, quando explicitamente
apresentadas, tendem a ter formato diferente, apostando em conjunturas
ou combinações de causas e dificilmente em causas únicas. Isso é reflexo
da causalidade conjuntural discutida na primeira seção.
Dado a isso, avaliar o grau de pertencimento a um conjunto de um
caso é fundamental para qualquer método baseado em conjuntos. O pro-
cesso de utilizar informação empírica dos casos para avaliar esse pertenci-
mento é chamado de calibração. Segundo Schneider e Wagemann (2012),
calibração demanda: (i) de uma definição cuidadosa da população relevante
dos casos; (ii) uma definição precisa do significado dos conceitos utilizados
na análise; (iii) uma decisão sobre onde está o ponto de máxima indiferen-
ça em relação ao pertencimento ou não; (iv) uma decisão sobre a definição
de pertencimento completo - que receberia grau 1 - e não-pertencimento
completo - ou 0; e, (v) uma decisão sobre os graus de pertencimento entre
as âncoras qualitativas.4
A calibração de fuzzy-sets deve ser tratada com um pouco mais de
atenção. Ragin (2008) e Schneider e Wagemann (2012) enfatizam que a ca-
libração deve usar critérios que são externos aos dados. Isto é, ao calibrar a
condição de pertencimento ao grupo de países ricos, os dados de PIB per
capita poderia ser utilizado; seria tentador, então, normalizar os dados como
por exemplo o minimax, ou definir o ponto de máxima indiferença na me-
diana dos dados e, assim, quem estivesse acima estaria no conjunto de paí-
ses ricos, abaixo, não. No entanto, essa estratégia, em QCA, é falha, por-
que caminhos desse tipo levariam com que os graus de pertencimento se
alterassem com a adição de novos casos. A presença ou não de determina-
dos casos alterariam os graus de todos os outros. Além disso, é importante
4. Âncoras qualitativas podem ser entendidas como os pontos de decisão onde há o pertencimento ou não, em fsQCA, por exemplo,
pode ser 0 para não pertencimento completo; 0,5, o ponto de indiferença; e 1 o de pertencimento completo.
426
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
lembrar que o QCA é uma técnica qualitativa, então a simples utilização de
dados quantitativos de forma binária ignora informações mais pormenoriza-
das que podem ser fundamentais para a correta classificação dos casos. Por
conta disso, o critério deve ser externo (orientado pela teoria, pela defini-
ção precisa do conceito realizada previamente). Não se deve, contudo, des-
considerar a distribuição dos dados obtidos. Essa distribuição é um critério
auxiliar, mas não deve ser o único para estabelecer as âncoras qualitativas.
Deste modo, Ragin (2008) propõe dois tipos de métodos para cali-
bração de fsQCA. Ambos os métodos são mais formais e utilizam modelos
estatísticos. Primeiro, o método direto utiliza uma curva logística para ajustar
os dados entre as três âncoras qualitativas - pertencimento completo, pon-
to de indiferença e não-pertencimento completo. A localização das âncoras,
entretanto, é definida previamente utilizando critérios externos aos dados.
Segundo, o método indireto requer um agrupamento inicial dos ca-
sos por graus de pertencimento. O(a) pesquisador(a) classifica grosseiramen-
te quais casos poderiam estar com grau, digamos, de 0,8 em determinado
conjunto, quais com 0,6, e assim por diante. Utilizando um modelo logís-
tico fracionado, o valor dos scores dos demais casos podem ser inferidos.
A utilização de técnicas de clusterização também podem ser muito
úteis para encontrar como os casos podem ser agrupados. Essas técnicas
permitem explorar e encontrar similaridades dentro de uma determinada
base de dados. Assim, argumenta Haynes (2014), a clusterização permite um
agrupamento exploratório dos casos e o QCA pode dar a orientação teóri-
ca sobre o relacionamento entre os conjuntos encontrados. A partir disso,
é possível pensar em técnicas de machine learning, como k-means, que auxi-
liam no agrupamento de casos como métodos auxiliares para o QCA. Essa
abordagem, contudo, não está disseminada na literatura. A próxima seção
visa elucidar o processo de análise e interpretação que o QCA possibilita.
Para tanto, é interessante considerar um protocolo analítico sugerido pelos
formuladores da técnica (Pérez-Liñan, 2010).
2. Interpretação
O protocolo interpretativo pode ser resumido em quatro fases. A
427
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
primeira consiste na construção da Tabela Comparativa que tem o intui-
to de organizar a informação qualitativa e possibilita a observação da exis-
tência de condições necessárias. A segunda fase consiste na construção da
Tabela de Verdade e possibilita a identificação das configurações causais
suficientes. A terceira fase consiste em examinar as configurações que não
apresentam exemplos históricos. Por fim, o processo de minimização lógi-
ca que visa reduzir o número de configurações causais suficientes e estabe-
lecer os implicantes primários.
Realizadas as calibrações, inicia-se a parte de análise. O QCA con-
siste em criar tabelas verdades, aplicar as reduções lógicas e avaliar a con-
sistência e cobertura das receitas causais. Explicaremos, agora, com maior
detalhe cada um desses passos.
A tabela verdade lista as combinações lógicas possíveis das condi-
ções causais e o resultado empírico de cada uma delas. É importante notar
que, para csQCA, a quantidade de linhas, ou possíveis receitas causais, é 2^k
, onde k é o número de condições causais. Um estudo que argumente, por
exemplo, que são chaves para a consolidação democrática de um país uma
forma de governo presidencialista, um executivo forte, um nível baixo de
fragmentação partidária e um passado não comunista, possui quatro condi-
ções causais e, portanto, 16 receitas causais possíveis (já que cada condição
pode assumir o valor 1 ou 0, pertencimento ou não ao conjunto). A tabela
verdade abaixo ilustra esse exemplo retirado de Ragin (2008):
428
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Tabela 1. Tabela Verdade
Linha Forma Executivo Baixa Passado Consolidado*
presidencialista forte (B) fragmentação não (Y)
(A) partidária (C)
1 não não não não -
2 não não não sim não
3 não não sim não não
4 não não sim sim -
5 não não não não não
6 não sim não sim não
7 não sim sim não -
8 não sim sim sim sim
9 sim não não não não
10 sim não não sim -
11 sim não sim não -
12 sim não sim sim -
13 sim sim não não sim
14 sim sim não sim sim
15 sim sim sim não -
16 sim sim sim sim sim
* o símbolo “-” indica que não houve casos em que a receita lógica foi encontrada empi-
ricamente. Fonte: adaptado de Ragin (2008).
A tabela verdade formaliza e simplifica a análise das receitas cau-
sais. Um ponto importante é que quanto maior o número de receitas cau-
sais possíveis, maior é a possibilidade de se obter restos lógicos, isto é, recei-
tas causais sem casos empíricos encontrados (onde há “-” na última coluna
da tabela). Esse problema fica particularmente agravado em mvQCA, onde
o número de receitas causais pode crescer mais acentuadamente, já que é a
combinação de todos as receitas possíveis (o que se torna maior do que 2^k
429
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
se há condições com mais de duas possibilidades de codificação).
Uma tabela verdade é mais específica quando há menos resto lógi-
cos e contradições, e maior consistência (Schneider; Wagemann, 2010). É
possível que haja linhas da tabela verdade que contenham valores com re-
sultados diferentes. Essas são chamadas5 “linhas contraditórias” e são pas-
síveis de resolução antes de minimizar o algoritmo da tabela verdade com
a alteração da seleção dos casos, com a adição de outras condições ou com
uma nova conceituação do resultado (Schneider; Wagemann 2010).
As análises a partir de uma tabela verdade são voltadas para en-
contrar condições suficientes, as considerações sobre condições necessá-
rias só devem ser feitas se encontradas em um exame separado (Schneider;
Wagemann, 2010). No entanto, para Schneider e Wagemann (2006, 2010),
a análise dos dados deve sempre começar com as condições necessárias.
Ao achar a tabela verdade, podemos iniciar o processo de encon-
trar as receitas causais suficientes. Continuando com a tabela verdade dada
como exemplo anteriormente, quatro condições apresentaram resultado po-
sitivo para consolidação democrática: as linhas 8, 13, 14 e 16. Em notação
matemática, teríamos o seguinte:
linha 8 + linha 13 + linha 14 + linha 16
~ABCD + AB~C~D + AB~CD + ABCD → Y6
A equação acima é relativamente complexa e não nos traz muitas
informações novas. O processo de reduzir essa equação para uma menos
complexa que tenha o resultado lógico equivalente é denominado de mini-
mização lógica.
Esse processo segue alguns princípios. O primeiro é procurar con-
dições redundantes, isto é, quando há ou não um resultado que não se al-
terem receitas cujas demais condições são idênticas. No nosso exemplo,
5. Em caso de ainda não ter tido solução das linhas contraditórias, é indicado que se assuma isto no estudo e a justifique por
argumentos teóricos. Para saber mais sobre isso, indicamos a leitura da seção “j) Contradictory Truth Table Rows Should Be Resolved
prior to Minimizing the Truth Table Algorithm” de Schneider e Wagemann (2010).
6. O símbolo “~” indica a negação da condição, por exemplo ~A indica o valor 0 para a condição A, que no exemplo representa
não pertencer ao conjunto de países com forma presidencialista. O símbolo “+” representa o operador lógico “ou”. A dotação
“*” também pode ser utilizada para indicar o operador lógico “ou”. Já a seta, “→”, o operador “se … então”. No exemplo, onde
houve a presença de qualquer uma daquelas condições, então houve consolidação democrática.
430
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
verificamos que a linha 14 e linha 16 são idênticas, exceto pela condição C,
ela pode, assim, ser removida e as duas linhas unidas. Ficando então a se-
guinte expressão:
linha 8 + linha 13 + linha 14 e 16
~ABCD + AB~C~D + ABD → Y
Esse processo pode ser feito de forma iterativa buscando reduzir
a quantidade de receitas lógicas possíveis para encontrar explicações mais
parcimoniosas e precisas. Há outros algoritmos que podem ser aplicados
como o Quine-McCluskey. Além disso, há outros processos específicos para
encontrar condições em termos de necessidade.7
As tabelas-verdade, contudo, são limitadas. O que fazer com contra-
dições? O que fazer quando os resultados de receitas causais não forem os
mesmos? Para isso existem as medidas de consistência e cobertura das re-
ceitas causais, que guiam a tomada de decisão do(a) pesquisador(a). A me-
dida de consistência para condições suficientes representa a proporção de
casos em que a condição estava presente e o resultado foi positivo, poden-
do ser calculada da seguinte maneira:
Ao se tratar de condições suficientes, Schneider e Wagemann (2010)
argumentam não existir um limite válido e exato para os parâmetros de ajus-
tes do QCA, embora seja possível apontar a consistência de alguns limites
inferiores. Para Ragin (2008b) o limite de consistência inferior é de 0,75 –
abaixo disto não deve ser aceito. Em caso de condições necessárias, os li-
mites devem ser maiores (Schneider; Wagemann, 2007).
Se a condição X é suficiente para Y, então X é um subconjunto de
Y. Se, contudo, X for uma condição necessária, então Y é um subconjunto
7. Para uma discussão mais detalhada, ver Schneider e Wagemann (2012).
431
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
de X. Por conta dessa relação espelhada, a consistência de condições ne-
cessárias deve ser lida de maneira distinta. Se a condição X é necessária, en-
tão ela será completamente consistente se nenhum caso Y = 1 possuir X =
0. Logo, a fórmula para consistência de condições necessárias é a seguinte:
A cobertura é o segundo coeficiente importante para uma análise
QCA. Essa medida capta o quanto determinadas receitas causais são encon-
tradas empiricamente. Para condições suficientes, esse coeficiente represen-
ta o quanto do resultado Y é coberto pela condição X, isto é, a importância
empírica de X para a explicação de Y. A cobertura para condições suficien-
tes pode ser encontrada da seguinte forma:
Para X como condição necessária, temos a seguinte fórmula:
Ainda que as fórmulas sejam parecidas para o cálculo de consistên-
cia (apenas o numerador se altera para condições necessárias e suficientes),
a interpretação é substancialmente diferente.
Ao contrário da consistência, a cobertura não possui um ponto de
corte, já que indica o quanto determinada condição é relevante empirica-
mente. Há, contudo, recomendações para que se foque a análise em condi-
ções cujo coeficiente seja maior do que 0,5 (Schneider; Wagemann, 2012).
2.1 Teste de confiabilidade
É indicado a combinação de QCA com outros métodos, pois há a
limitação da metodologia nas inferências causais (Schneider; Wagemann,
2010). Enquanto métodos estatísticos possibilitam generalização, o QCA
432
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
permite um conhecimento aprofundado sobre semelhanças e diferenças
entre os casos – o que não possibilita estender a argumentação para outros
objetos de pesquisa sem aplicação. De acordo com Schneider e Wagemann
(2010), o QCA deve testar hipóteses que consistam em declarações sobre
condições suficientes e/ou necessárias.
Quando se fala em teste de hipótese em QCA, todavia, deve-se to-
mar um cuidado. Como não se trata de uma técnica estatística, não se avalia
a probabilidade dos resultados terem sido obtidos ao acaso. Alguns traba-
lhos, como Braumoeller (2015) e Rohlfing (2018), procuram preencher essa
lacuna, criando métodos específicos para isso. Ambos os trabalhos mencio-
nados utilizam testes de permutação.
Braumoeller (2015) elaborou técnicas para avaliar o risco de erros
Tipo I (rejeitar a hipótese nula quando não se deveria rejeitá-la, ou falsos
positivos, ou o nível de significância alfa). Rohlfing (2018), por outro lado,
busca mensurar o risco de erro Tipo II (não rejeitar a hipótese nula quan-
do se deveria rejeitá-la, ou falsos negativos, ou o poder de explicação beta).
Ambas as proposições não são amplamente aplicadas pela literatura e não
estão plenamente implementadas - até a data em que escrevemos - nos pro-
gramas e pacotes mais utilizados.
A escolha da vertente do QCA depende essencialmente de duas
avaliações: a necessidade de preservar informação e o tamanho da amos-
tra. Frequentemente, o pesquisador ou a pesquisadora depara-se com um
trade-off entre preservar informações dos casos e o tamanho da amostra.
Quanto maior é a necessidade de se preservar os dados diversos, maior a
dificuldade de se obter amostras grandes. Métodos quantitativos preservam
menos informação (uma vez que as variáveis selecionadas são operaciona-
lizadas e mensuradas), porém podem ser aplicados a amostras muito gran-
des. Os qualitativos, por outro lado, preservam maior quantidade de infor-
mação, porém há dificuldade para aplicação em muitos casos (etnografia
é um excelente exemplo, já que o pesquisador tem acesso a uma quantida-
de gigantesca de informações dos mais diferentes tipos, porém dificilmen-
te consegue aplicar para mais de um caso específico). O QCA está situado
em um nível intermediário. Essas duas dimensões também influenciam a
433
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
escolha da vertente do QCA.
É imprescindível que o(a) pesquisador(a) tenha em mente que um
software pode facilitar muito a aplicação do QCA, mas que este não deve
8
ser feito de maneira mecânica. É preciso sempre relacionar o método aos
casos (Schneider; Wagemann, 2010). É sempre importante ter em mente a
base qualitativa do método e que sua contribuição está justamente na análi-
se comparada com base em informações aprofundadas dos casos.
Outra relação importante que o(a) analista precisa ter com o QCA,
é saber justificar quando um (ou mais) caminho é considerado mais impor-
tante que outro. Em Schneider e Wagemann (2010) vemos duas maneiras
de solucionar isto: (i) pelo coeficiente de cobertura, quando um resultado
é coberto ou explicado por um termo de solução; e (ii) pela abordagem da
relevância teórica, quanto a ideia permite apontar o caminho como mais
apropriado para a pesquisa.
Por outro ângulo, por mais que haja medidas empíricas ajustáveis e
relatadas no QCA, o(a) pesquisador(a) não deve atribuir relevância teórica a
um papel secundário na interpretação dos resultados ou esconder os casos
desviantes através desses ajustes necessários (Schneider; Wagemann, 2010).
É essencial a parcimônia em cada etapa da aplicação do método.
3. Aplicações na Ciência Política
Uma das ferramentas que ganhou destaque na avaliação das aplica-
ções de métodos, técnicas e conceitos em pesquisas no âmbito da Ciência
Política é a bibliometria. Essa abordagem confere ao(a) pesquisador(a) a res-
ponsabilidade de manter-se atualizado quanto à comunicação científica e de
identificar os estudos que exercem o maior impacto no campo. Para alcan-
çar esse objetivo, optamos por empregar essa metodologia a fim de quan-
tificar a utilização do método QCA dentro dessa disciplina. A seguinte se-
quência de termos foi empregada em títulos, resumos e palavras-chave na
base de dados Scopus, no dia 24 de agosto de 2023, às 22 horas e 10 minutos:
8. Existem alguns programas que foram desenvolvidos especificamente para aplicar o QCA e são disponibilizados gratuitamente,
como o Tosmana e o fsQCA. Também há pacotes que foram desenvolvidos para R e Stata. Vale mencionar que o Tosmana,
contudo, não é compatível, até o presente momento, com conjuntos difusos, portanto, não permite avaliar a necessidade das
condições e não calcula coeficientes de cobertura e consistência.
434
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
TITLE-ABS-KEY (QCA) -> 5,753 document results ->
AND (LIMIT-TO (SUBJAREA, “SOCI”)) -> 1,104 document
results
Ao término da análise, foi constatada a presença de um total de
1,104 resultados. Com o propósito de fornecer uma amostra representati-
va dos estudos, procedemos à seleção dos dez trabalhos que apresentam o
maior número de citações na base de dados.
Tabela 2. Trabalhos mais citados na base Scopus com a string “QCA” em 24 de
agosto de 2023
Fonte: Elaborado pelos autores a partir da base Scopus.
Para desvendar o elevado índice de citações desses estudos, é cru-
cial inicialmente compreender que a abordagem QCA é uma metodologia
que harmoniza teoria, empirismo e conhecimento específico de cada caso
durante sua aplicação. Cada investigação com o QCA percorrerá um pro-
cesso individualizado, uma característica que a distingue dos métodos esta-
tísticos uniformemente empregados em todos os estudos, como menciona-
do previamente. Esse aspecto personalizado da abordagem QCA permite
uma análise mais contextualizada e sensível às nuances inerentes a cada
435
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
situação, contribuindo para sua notável influência e ampla referência na li-
teratura acadêmica.
A maioria das obras mais frequentemente referenciadas consiste em
espécies de manuais ou orientações relacionadas à aplicação e ao uso eficaz
do método QCA. Essas obras refletem o comprometimento dos(as) pes-
quisadores(as) com o contínuo avanço metodológico desse enfoque. Além
disso, é uma característica comum a todas essas obras o fato de terem sido
redigidas em inglês e terem sido publicadas após o ano 2000. Destaca-se
que a obra mais citada é um livro, enquanto as restantes assumem a for-
ma de artigos científicos, exceto um capítulo de livro. Notavelmente, den-
tre os dez trabalhos mais citados, dois deles são de autoria dos pesquisado-
res Schneider e Wagemann.
3.1 Objetos ou fenômenos que o uso da técnica é mais indicado
Uma primeira observação aponta para a aplicabilidade do méto-
do QCA em diversas direções, incluindo a criação de tipologias empíricas
(Schneider, Wagemann, 2010; Kvist, 2006) e estudos comparativos, con-
forme anteriormente mencionado. Uma compreensão profunda dos ca-
sos em análise antes, durante e após a implementação do QCA é essencial
(Schneider; Wagemann, 2010). Destacando a contribuição de Berg-Schlosser
et al. (2008), Schneider e Wagemann (2010) e Ragin e Rihoux (2004), é pos-
sível identificar três propósitos principais para a utilização do QCA: (i) ava-
liar a consistência de dados que se baseiam em subconjuntos e resumi-los;
(ii) testar teorias e hipóteses existentes, além de desenvolver novos argu-
mentos teóricos; e (iii) verificar, de maneira abrangente e rápida, pressupos-
tos fundamentais de análise.
O método (QCA) é particularmente adequado para contextos ca-
racterizados por um número limitado de casos, especialmente quando a
amostra (N) é pequena ou intermediária. Esta abordagem é particularmen-
te relevante em níveis mesossociológicos, que envolvem atores individuais
e empresas, bem como em níveis macrossociológicos, que abrangem esta-
dos-nações ou regiões, conforme discutido por Rihoux (2006). Portanto, a
recomendação de aplicação do método QCA concentra-se primariamente
436
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
na meticulosa elaboração do desenho de pesquisa em vez de na seleção de
um objeto de estudo específico. A flexibilidade e adaptabilidade inerentes a
este método, quando aplicado em contextos com limitações de casos, real-
çam sua utilidade em áreas em que outras abordagens estatísticas conven-
cionais podem demonstrar uma eficácia inferior.
3.2 Aplicações na Ciência Política brasileira
Na medida que o método se difunde por meio de cursos de cur-
ta duração ofertados anualmente por importantes instituições de ensino e
pesquisa9 brasileiras (Santos; Amoroso Botelho, 2018), é possível mapear
uma produção nacional que mobiliza a técnica. Pode-se agrupar esta pro-
dução em dois grupos. O primeiro grupo contempla trabalhos de natureza
metodológica que visam apresentar a técnica (Sandes-Freitas; Bizarro Neto,
2015; Santos; Amoroso Botelho, 2018; Albala; Leal, 2022). O outro con-
junto remete a trabalhos que aplicam à técnica para compreender fenôme-
nos políticos (Pires, Gomide, 2013; Sandes-Freitas et. al., 2021; Silame, 2021;
Perissinotto, Nunes, 2023).
No entanto, em estudos empíricos, é aconselhável que a aplicação
da técnica seja conduzida de acordo com um protocolo estruturado, descre-
vendo os passos seguidos pelo pesquisador. Isso confere à técnica um valor
pedagógico significativo e contribui para sua disseminação, conforme des-
tacado por Pérez-Liñan (2010).
Nesse contexto, o principal objetivo do estudo conduzido por
Sandes-Freitas e Bizarro Neto (2015) é introduzir o QCA como uma técni-
ca alternativa às abordagens metodológicas convencionais, tanto do ponto
de vista qualitativo quanto quantitativo, no contexto da investigação de fenô-
menos políticos e sociais complexos. Em complemento, Santos e Amoroso
Botelho (2018) abordam os desafios da aplicação do QCA em estudos da
Ciência Política, no qual apresentam quatro sugestões para ampliar sua dis-
seminação no país: (i) oferecer cursos curtos para compreensão e aplica-
ção prática do QCA; (ii) promover a troca de experiências entre estudantes
de diferentes universidades para enriquecer a compreensão da técnica; (iii)
9. Podemos citar os cursos da Escola de Versão da IPSA-USP, o MQ e o Modus, ambos ofertados pela UFMG. Ver outras estra-
tégias de difusão da técnica em Santos e Amoroso Botelho (2018).
437
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
aumentar a carga horária das disciplinas de metodologia, preparando melhor
os alunos para utilizar o QCA em pesquisas; e, (iv) desenvolver materiais
específicos sobre a aplicação do QCA na política comparada, estimulando
pesquisadores(as) a adotar essa abordagem. Isso é, objetivo é impulsionar
o uso do QCA no meio acadêmico, capacitando pesquisadores(as) e alu-
nos(as) a aplicar essa abordagem e contribuir para o progresso do conheci-
mento na Ciência Política.
Albala e Leal (2022) também publicaram um interessante capítulo
metodológico sobre QCA, apresentando histórico, utilidade, formulação
de hipóteses com técnicas crisp-set, multi-value e fuzzy-set¸ denotando etapas
da construção da pesquisa, diversidade limitada e tratamento de contrafac-
tuais e consistência e cobertura. Apesar dos objetivos similares, notadamen-
te vemos uma complementaridade entre os materiais. Pires e Gomide (2013)
contribuem para esse panorama ao aplicar a abordagem QCA em oito pla-
nos, programas ou projetos governamentais brasileiros desenvolvidos en-
tre 2003 e 2013. Seu estudo identifica que a presença de capacidades técni-
co-administrativas substanciais resulta da combinação entre organizações
profissionalizadas e mecanismos de coordenação eficazes. Portanto, essas
análises complementares evidenciam como metodologias como o fuzzy-set
e o QCA têm a capacidade de revelar padrões e nuances em diferentes con-
textos de pesquisa, contribuindo para uma compreensão mais aprofundada
de fenômenos complexos e multifacetados.
Sandes-Freitas e colaboradores (2021) analisam o sucesso eleitoral
de prefeitos às capitais brasileiras nas eleições de 2020 no contexto de en-
frentamento à pandemia de covid-19. Os autores buscam explicar a reelei-
ção (ou não) valendo-se do tipo de análise multi-value (mvQCA) a partir da
observação conjunta de quatro condições causais: (i) aprovação do prefei-
to; (ii) grau de restrição das medidas de isolamento social; (iii) alinhamento
do prefeito ao presidente da República; e, (iv) taxa de óbitos por covid-19
por 100 mil habitantes. O contexto em que prefeitos são bem avaliados em
cidades que apresentarem pequena taxa de óbitos mostrou-se uma confi-
guração importante. Contudo, o estudo evidencia a diversidade de configu-
rações causais que podem resultar no resultado de interesse.
438
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
No contexto subnacional, Silame (2021) realiza uma análise da dinâ-
mica entre o Poder Executivo e o Poder Legislativo nos estados do Brasil.
O autor investiga as condições políticas contextuais que influenciam o êxi-
to das iniciativas legislativas do governador. A variável de interesse central
do estudo é o grau de sucesso do governador. As condições causais exa-
minadas compreendem o tamanho da oposição, a fragmentação da assem-
bleia legislativa e a polarização ideológica na casa legislativa. O método de
análise empregado é o crisp-set (csQCA). Os resultados apontam que o ta-
manho da oposição se configura como uma condição necessária, e a com-
binação de assembleias com baixa presença de oposição e com fragmenta-
ção limitada abrange 60% dos casos de governadores que obtiveram êxito
em suas iniciativas.
Perissinotto e Nunes (2023) adotam a metodologia fuzzy-set em um
estudo que abrange treze casos e quatro condições causais. O propósito
central da pesquisa é validar a proposição de que processos de industriali-
zação tardia demandam a presença indispensável de uma elite moderniza-
dora e instituições robustas. Este enfoque contrasta com a abordagem de
Nunes (2003), que empregou a técnica QCA para desvendar as razões sub-
jacentes ao insucesso das políticas de industrialização no Brasil após o ano
2000, explorando três programas distintos de política industrial.
Parte ressaltar que esta seção não tem o intuito fazer um levantamen-
to exaustivo da literatura que adota a técnica QCA, mas sim evidenciar as
potencialidades dos seus usos em Ciência Política, sobretudo, em desenhos
de pesquisa com N pequeno ou médio e em que ocorre a necessidade do(a)
pesquisador(a) se aprofundar qualitativamente sobre o fenômeno a ser ob-
servado. Desta forma, a QCA é uma técnica de pesquisa que permite lidar
com complexidade dos fenômenos sociais e políticos em decorrência dos
pressupostos de causação conjuntural múltipla, equifinalidade e assimetria.
Considerações finais
O objetivo deste capítulo foi proporcionar uma introdução abran-
gente ao método QCA, abordando as principais considerações e perspec-
tivas. O debate contínuo em torno deste método destaca sua natureza em
439
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
evolução, sugerindo que a cada nova produção acadêmica, novas contribui-
ções e insights podem surgir. Mesmo que o QCA seja uma metodologia em
desenvolvimento, a comunidade científica das ciências sociais já elaborou
manuais de boas práticas - que estão destacados na seção de referências ci-
tadas - e que merecem ser tratados com seriedade.
Especificamente, é crucial manter a moderação ao realizar ajustes
durante a aplicação do método e manter uma conexão constante com a teo-
ria subjacente e o conhecimento prático dos casos em estudo. Desse modo,
embora o QCA seja especialmente recomendado para análises comparativas
com um número reduzido ou intermediário de casos (N), não existe uma
prescrição rígida quanto à sua aplicação em domínios específicos. Em vez
disso, a ênfase recai sobre a seleção de desenhos de pesquisa apropriados e
a delimitação de problemas teóricos significativos.
Nesse contexto, vale destacar a influência substancial do(a) pesqui-
sador(a) na avaliação da qualidade dos casos incluídos na análise. A escolha
de casos deve favorecer aqueles que são representativos e em relação aos
quais o(a) analista(a) possui um entendimento profundo. Portanto, a sele-
ção criteriosa dos casos deve ser informada pela teoria e pelo conhecimen-
to acumulado, buscando maximizar sua profundidade e amplitude.
Em resumo, o método QCA representa uma ferramenta de signifi-
cativa relevância para desenhos de pesquisa comparativos, os quais viabili-
zam a realização de análises qualitativas aprofundadas em relação aos casos
sob exame. É fundamental destacar a importância do rigor conceitual, que
demanda um profundo comprometimento com a compreensão do objeto
de estudo. Este método é caracterizado por sua constante evolução, e seu
êxito na aplicação requer uma interseção eficaz entre teoria, prática e a se-
leção criteriosa dos casos sujeitos à análise.
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Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
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Apêndice A
Este apêndice pretende demonstrar uma operacionalização prática do QCA
em R. Apresentamos um exemplo bastante simples, apenas a título de demonstra-
ção. Para isso, utilizaremos os dados disponíveis pelo pacote.
Os dados foram retirados do artigo clássico de Lipset (1959), intitulado
Some Social Requisites of Democracy: Economic Development and Political Legitimacy, e re-
presentam 18 países com as seguintes variáveis: nível de desenvolvimento, baseado
no PIB per capta (DEV); nível de urbanização, percentual da população que mora
em cidades com mais de 20.000 habitantes (URB); nível de alfabetização, como
percentual da população (LIT); nível de industrialização, como percentual da for-
ça de trabalho empregado na indústria (IND); estabilidade do governo, como nú-
mero de gabinetes (STB); e o resultado, se a democracia sobreviveu no período do
entreguerras (SURV).
Para iniciar a análise, é necessário instalar o pacote “QCA” caso ainda não
tenha sido instalado, e, em seguida, importá-lo:
---
[Link](“QCA”) #para instalar o pacote
library(QCA) #para importar o pacote
---
Como vimos, os dados que não são binários devem ser calibrados, ou seja, trans-
formar os dados quantitativos em variáveis do tipo 1 ou 0, sim ou não, para utili-
zarmos o csQCA Esse processo pode ser bastante complexo e demorado. A cons-
trução de âncoras qualitativas para essa transformação pode ser tanto determinada
pela pessoa que analisa, quanto matematicamente. O pacote permite as duas abor-
dagens. Se quisermos, por exemplo, calibrar a variável DEV para encontrar aque-
les que fazem parte dos países desenvolvidos (portanto recebendo valor 1 nessa
variável) podemos utilizar a função calibrate. Antes disso, porém, encontrar os cor-
tes, ou threshholds, da seguinte forma:
444
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
---
devTh <- findTh(LR$DEV) #retorna o valor 626
---
A função findTh permite encontrar os cortes automaticamente. É impor-
tante salientar que não se trata da melhor prática para o QCA. É mais indicado que
esses cortes sejam determinados pelo analista de acordo com o conhecimento do
caso. Como veremos, o trheshold sugerido não é o mais adequado.
Antes de seguirmos, vale explicar um pouco da sintaxe do R. No Exemplo
acima, criamos uma variável chamada devTh. A ela atribuímos o valor 626, retor-
nado pela função findTh. Outro ponto que pode parecer confuso para não inicia-
dos em R, é o termo LR$DEV. Ele significa que estamos selecionados a coluna
“DEV”, a variável que queremos encontrar o corte, da tabela (no R chamado de
data frame) LR, que é o nome da tabela que foi importada pelo pacote do QCA.
Por fim, o símbolo “#” indica comentários no código, trechos que não são execu-
tados pelo R, servem apenas para informação.
É possível criar outros cortes para aplicar em um mvQCA por exemplo.
Se quiséssemos dois cortes, para indicar o grau de pertencimento ao conjunto de
países desenvolvidos, poderíamos realizar o seguinte:
---
DevThMv <- findTh(LR$DEV, n=2) #retorna os valores 626 e 940
---
Nesse caso, teríamos dois cortes: países com nível de desenvolvimento abaixo de
626 seriam considerados como não pertencentes ao grupo de desenvolvidos; aci-
ma de 940 seriam os desenvolvidos. Entre 626 e 940 são os países que estariam
em uma situação intermediária. Neste exemplo, seguiremos apenas com o csQCA,
portanto ficando esse código apenas a título de exemplo.
Para realizar a calibragem de fato, utilizamos a função calibrate, da seguinte forma:
---
devC <- calibrate(LR$DEV, type = “crisp”, thresholds = devTh)
445
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
---
Criamos, então, uma variável chamada devC, que é a variável DEV do nos-
so banco calibrado de maneira dicotômica. Em seguida poderíamos realizar o mes-
mo procedimento para todas as variáveis de interesse do banco.
Para demostrar a importância da escolha certa dos cortes, utilizaremos
a base de dados já calibrado presente no pacote (chamada de LC). O R permite-
-nos facilmente criar tabela de cruzamento de dados com o comando table. Vamos
comparar os resultados do cruzamento da variável DEV e SURV para verificar a
diferença entre o que foi calibrado automaticamente com o que foi utilizado para
o artigo do Lipset:
---
devTh <- findTh(LR$DEV)
survTh <- findTh(LR$SURV)
devC <- calibrate(LR$DEV, type = “crisp”, thresholds = devTh)
survC <- calibrate(LR$SURV, type = “crisp”, thresholds = survTh)
table(devC, survC) # retorna
# survC
# devC 0 1
#0 7 3
#1 2 6
table(LC$DEV, LC$SURV) #retorna
# LC$SURV
# LC$DEV 0 1
#0 8 0
#1 2 8
---
As quatro primeiras linhas criam as variáveis calibradas conforme ex-
plicamos acima. As últimas duas linhas criam as tabelas cruzadas. Na primeira,
446
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
utilizamos a variável calibrada automaticamente. Nesse caso, vemos que sete paí-
ses não desenvolvidos não foram democracias que sobreviveram; enquanto ou-
tros três sobreviveram. No caso de países desenvolvidos, dois não sobreviveram
e seis sobreviveram. Na segunda tabela, nenhuma democracia de país não desen-
volvido sobreviveu, todos os oito falharam. Além disso, apenas dois países desen-
volvidos não se mantiveram democráticos. Note-se que, se quiséssemos argumen-
tar que economias desenvolvidas possuem democracias mais fortes (no sentido de
que têm menos chances de acabarem), a segunda tabela reforça essa tese, pois su-
porta esse argumento (dezesseis dos dezoito casos). Na primeira, contudo, cinco
casos estariam em desacordo com essa hipótese. Mais uma vez reforçamos a im-
portância de uma correta calibragem das variáveis para uma aplicação correta do
QCA, daí a importância de se conhecer bem os casos estudados. O próximo pas-
so da análise é investigar condições de necessidade. O pacote possui uma função
que facilmente nos ajuda nisso:
---
pof(“DEV <- SURV”, data=LF) # retorna
# inclN RoN covN
# 1 DEV 1.000 0.800 0.800
---
A coluna inclN representa a proporção do conjunto de resultado (neste
exemplo se a democracia sobreviveu ou não) que está incluído em determinada con-
junto (neste caso, DEV). Isto é, a proporção de casos em que ocorre Y (a demo-
cracia sobreviveu) e X está presente (é um país desenvolvido). No exemplo, 100%
dos casos em que as democracias sobreviveram foram em países desenvolvidos.
A segunda coluna, RoN, também chamada de Relevance of Necessity (ou
Relevância da Necessidade), indica o quão relevante é a condição testada. Quanto
menor o RoN, menor é a relevância da condição causal. Ela compara o quão gran-
de é o conjunto em que a variável X (no caso DEV) está presente em relação a Y,
o resultado (no caso, SURV). No exemplo, há 10 países desenvolvidos (DEV =
1), e, em 8 deles, a democracia sobreviveu. O RoN, portanto, é 0.8, ou 80%.
Por fim, temos o convN, que é o índice de consistência que apresentamos
447
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
anteriormente neste capítulo. Assim, temos 10 casos em que X está presente e 8
em que Y está presente, portanto, uma consistência de 80%. Em seguida, pode-
mos realizar testes de suficiência para a variável DEV:
---
pof(“DEV > SURV”, data=LF) # retorna
# inclS PRI covS covU
# 1 DEV 0.800 0.800 1.000 -
---
A interpretação de inclS e covS são similares às condições de necessidade,
porém agora pensamos em termos de suficiência. Vemos que, no nosso exemplo, o
fato de o país ser desenvolvido é um forte candidato para condição de suficiência.
A coluna PRI representa a Redução Proporcional da Inconsistência, um in-
dicador que indica o quanto X é consistente como condição suficiente para Y. Ou
seja, o indicador tenta levar em conta as contradições, ou seja, a presença de X em
Y e ~Y. No exemplo, há dois casos em que os países são desenvolvidos (portanto
X=1) e que houve ruptura democrática (SURV = 0). Assim, nosso PRI é de 80%.
Valores mais altos indicam boas candidatas para explicações causais de suficiência.
Por fim, há mais um indicador que devemos explicar: covU. Ele mede a
consistência de uma relação única entre X e Y. No nosso caso ele não é calculado
pois estamos apenas olhando para uma variável (DEV). Mas se, por exemplo, es-
tivéssemos olhando também para o nível de urbanização (URB), o indicador bus-
caria medir o quão consistente é a relação de suficiência apenas entre DEV, sem
considerar URB. Ou seja, a intersecção de SURV e DEV e não URB.
Em seguida, poderíamos testar diferentes receitas causais, porém o pacote já pos-
sui uma função que as realiza de maneira iterativa, retornando apenas aquelas com
uma inclusão acima do que determinarmos. No exemplo, queremos apenas as re-
ceitas causais com uma inclusão acima de 90%:
---
superSubset(LC, outcome = “SURV”, [Link] = 0.9) # retorna
448
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
# inclN RoN covN
# 1 DEV 1.000 0.800 0.800
# 2 LIT 1.000 0.500 0.615
# 3 STB 1.000 0.700 0.727
# 4 DEV*LIT 1.000 0.800 0.800
# 5 DEV*STB 1.000 1.000 1.000
# 6 LIT*STB 1.000 0.900 0.889
# 7 DEV*LIT*STB 1.000 1.000 1.000
# 8 ~URB + IND 1.000 0.000 0.444
---
Passamos para a função superSubset nossa tabela de dados, LC, informan-
do que o nosso resultado é a coluna “SURV” e que ela retorne apenas as receitas
causais que o resultado estivesse presente em pelo menos 90% dos casos. Há ou-
tras formas de filtrar as linhas que retornam. Podemos filtrar pela cobertura, pelo
RON, PRI etc. Conforme a necessidade e interesse do analista.
Em uma análise rápida, podemos verificar que países desenvolvidos, com
alto grau de alfabetização e governo estável (DEV*LIT*STB), em 100% dos ca-
sos, houve sobrevivência da democracia. Em cima disso, e possível considerar que
se trata de uma condição necessária para a continuidade democrática. Vemos que
países com alta alfabetização e governo estável (LIT*STB) também é uma receita
causal bastante importante.
Por fim, há outras duas funções importantes que são a truthTable e minimi-
ze. A primeira retorna a tabela verdade, enquanto a segunda se refere à uma tabe-
la com as combinações lógicas restantes após o processo de minimização lógica,
como mencionamos anteriormente neste capítulo:
---
ttb <- truthTable(LC, outcome = “SURV”, complete = TRUE, [Link] =
TRUE)
minimize(ttb, details = TRUE) #retorna
M1 representa a receita lógica necessária e suficiente para a sobrevivência
449
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
democrática. Interpretando, encontramos que países desenvolvidos (DEV), com
baixo nível de urbanização (~URB), alta alfabetização (LIT) e com estabilidade
(STB) - ou resumindo DEV*~URB*LIT*STB – ou países desenvolvidos (DEV),
alta alfabetização (LIT), industrializados (IND) e com estabilidade farão parte do
conjunto de países com estabilidade democrática.
Muitas outras opções estão disponíveis no pacote QCA, como a possibi-
lidade de realizar mv e fsQCA, outras possibilidades para calibragem, plotar os grá-
ficos dos conjuntos. Este apêndice pretendeu apenas iniciar uma apresentação ao
pacote e exemplificar como realizar um QCA de maneira mais simples. A docu-
mentação do pacote ([Link]
é bastante completa e apresenta todas as outras possibilidades de análise.
450
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
CONCLUSÃO
Boa parte deste livro foi escrito e revisado entre 2023 e 2024. Trata-se exa-
tamente dos mesmos anos em que as inteligências artificiais (IA) generativas
geraram grande alarde no mundo. Notadamente, as IAs com a capacidade de
produzir textos muito semelhantes aos humanos, como o ChatGPT,10 e de
imagens de alta qualidade, a exemplo do MidJourney,11 geraram receios so-
bre diversas profissões, como jornalismo, direito, marketing, tradução, ilus-
tração e outras tantas (Dwivedi et al., 2023). Também a educação esteve no
centro das discussões, afinal as possibilidades de gerar respostas para provas
e trabalhos online foram incrementadas de forma não esperada. Finalmente,
a pesquisa acadêmica vivenciou semelhante furor, afinal a escrita científica
também será diretamente afetada por tais ferramentas.
A ciência passou a estudar a nova ferramenta de IA. Desde seu lan-
çamento, vimos milhares de artigos de pesquisadores do mundo todo rea-
lizando testes e refletindo sobre grandes modelos de linguagem em geral e,
especificamente, sobre o ChatGPT. Várias questões foram exploradas, como
o potencial dessas ferramentas para a redação acadêmica, para a automação
ou facilitação de tarefas técnicas, como escrever e-mails, preencher formulá-
rios, criar textos padrão, parafrasear, traduzir, resumir, sintetizar, organizar
e estruturar textos, transcrever áudios, “criar” e corrigir scripts de progra-
mação, entre outras, usando comandos básicos em linguagem natural co-
nhecidos como prompts (Sok, Heng, 2023; Susarla et al., 2023).
Além das questões técnicas, também houve discussão e experimen-
tação em torno do uso desses grandes modelos de linguagem e de outros
sistemas de IA para questões substantivas de pesquisa, como pesquisa de li-
teratura acadêmica, leitura de material acadêmico, análise de dados e, é cla-
ro, a própria redação científica (Salvagno, Taccone, Gerli, 2023; Sampaio et
al., 2024b).
Como esses modelos de linguagem dependem da identificação
e da simulação de padrões em conversas, não é de surpreender que os
10. [Link] Acesso em 16 ago. 2024.
11. [Link] Acesso em 16 ago. 2024.
451
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
pesquisadores tenham começado a refletir e a testar seu desempenho para
fins de pesquisa qualitativa. Afinal de contas, uma parte significativa des-
ses estudos baseia-se em grandes quantidades de conteúdo textual, espe-
cialmente aqueles coletados por meio de técnicas como entrevistas, etno-
grafias e grupos de foco. Já em 2023, dois dos principais softwares de análise
qualitativa do mundo, Atlas.ti12 e MaxQDA,13 introduziram o uso de ferra-
mentas baseadas em inteligência artificial (ver capítulo 10 para mais deta-
lhes), o que é um forte indicativo de que tais soluções estarão presentes em
outros softwares no futuro próximo.14
Como organizadores, cogitamos a possibilidade de introduzir um
capítulo específico a respeito do uso de IAs para a pesquisa qualitativa, po-
rém era notável que se tratava de uma tecnologia ainda muito recente, por-
tanto, não suficientemente testada para estar presente em um capítulo. Tais
LLMs também apresentam, no atual momento, alguns limites importantes.
Por exemplo, quando um LLM não apresenta um treinamento adequado
sobre determinada questão, especialmente aquelas factuais, ele ainda assim
apresenta uma resposta, que pode ser verossímil do ponto de vista linguís-
tico, porém que ainda pode estar incorreto em relação a um fenômeno,
acontecimento ou conceito, no processo que tem sido chamado de “alu-
cinação” (Alkaissi, Mcfarlane, 2023; Rahman et al., 2023). Também houve
muitas discussões sobre os limites éticos do uso da IA para essas tarefas,
incluindo a privacidade dos dados de participantes de pesquisas (Cotton,
Cotton, Shipway, 2023; Ray, 2023).
A pesquisa de Sampaio e colegas (2024b) fez uma revisão de escopo
de 31 materiais acadêmicos que trataram a respeito do uso de LLMs para a
pesquisa qualitativa em 2023. Seus resultados iniciais apontam que os prin-
cipais usos já recomendados pela literatura incluem a geração de resumos e
a geração de códigos (codes) iniciais para métodos qualitativos. Eles também
evidenciam algum uso para geração de temas (para análises temáticas), aná-
lise de sentimentos, análise conversacional, extração e tratamento de dados
qualitativos e validação de análises. No geral, a literatura acadêmica sugere
12. [Link] Acesso 13 out. 2024.
13. [Link] Acesso 13 out. 2024.
14. Para um exemplo bem inicial desta aproximação entre IAs e CAQDAS, ver Lopezosa, Codina (2023).
452
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
um uso cauteloso de tais ferramentas e sempre em conjugação com o olhar
e a avaliação humana, que deve ser sempre aquela a ter a última palavra (ver
também Anjos et al., 2024; Silva, Paula, 2024).
Em uma revisão similar, Bryda e Costa (2024) apresentam uma vi-
são mais otimista, denotando trabalhos que evidenciam o potencial da in-
teligência artificial para acelerar e aperfeiçoar a pesquisa qualitativa. Para os
autores, algoritmos de IA são capazes de analisar textos e propor estruturas
de codificação baseadas em livros de códigos e dicionários, visando maior
precisão. Há um foco na confiabilidade da análise, abordagem de desafios
metodológicos e necessidade de colaboração interdisciplinar. A automati-
zação da codificação e análise com IA reduz significativamente o tempo de
processamento de grandes volumes de dados, permitindo que os pesqui-
sadores foquem mais na interpretação e desenvolvimento de teorias. Isso
também reduz custos, tornando a pesquisa qualitativa mais acessível. A in-
tegração de software análise qualitativa com IA avançada, como o ChatGPT,
promete resultados de pesquisa mais sofisticados, eficientes e abrangentes
(ver também Lopezosa, Codina, 2023).
Além disso, Bryda e Costa (2024) fazem uma argumentação convin-
cente sobre como os CAQDAs (Computer-Assisted Qualitative Data Analysis
Software) transformaram positivamente a pesquisa qualitativa e como isso
pode se repetir com o uso das inteligências artificiais:
As ferramentas CAQDAS transformaram fundamentalmente o cenário
da pesquisa qualitativa, simplificando significativamente os procedimen-
tos de codificação e pesquisa. Estes avanços facilitam a gestão de dados,
tornando-a mais eficiente e melhoram o tratamento e a análise de con-
juntos de dados complexos, sendo um marco na forma como os inves-
tigadores se envolvem com dados qualitativos (Bryda, Costa, 2024, p. 5).
Segundo os autores, isso também se deu na forma como os CAQDAS
facilitaram outras formas de visualizar os dados qualitativos. Essa mudan-
ça permitiu aos pesquisadores compreender, interpretar e comunicar me-
lhor suas descobertas, resultando em pesquisas mais robustas e impactantes.
De fato, os pesquisadores qualitativos não devem temer o uso de
453
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
novas tecnologias em si. Entretanto, gostaríamos de destacar alguns pon-
tos que merecem atenção no atual momento do desenvolvimento tecnoló-
gico das IAs e de seus usos.
Grosso modo, identificamos três desafios mais imediatos a tal uso.
Inicialmente, é preciso reconhecer que há diversas questões nebulosas e
moralmente discutíveis envolvendo os algoritmos utilizados e as bases de
dados integradas no treinamento desses sistemas, que manifestam e propa-
gam vários vieses (bias) (Dwivedi et al., 2023; Hacker, Engel, Mauer, 2023).
Assim, até mesmo ao solicitar uma tarefa básica, como uma síntese, o pro-
grama pode produzir termos ou segmentos que não correspondem ao tex-
to fonte, potencialmente resultando em equívocos significativos.
Para Sampaio et al. (2024a), do ponto de vista acadêmico, isso ge-
ralmente indica que o paradigma científico predominante no aprendizado
e outputs desses sistemas é o anglo-saxão. Tal fato sugere que essas ferra-
mentas e modelos provavelmente têm um desenvolvimento menos robusto
em metodologias qualitativas e, sem os devidos ajustes, podem apresentar
falhas ao serem aplicados em nossas investigações, especialmente aquelas
originárias do sul global. Também já sabemos que tais bancos de dados são
pouco representativos de grupos minoritários, como negros e povos ori-
ginais, e minorizados, como mulheres (Lippens, 2024). Então, o pesquisa-
dor qualitativo deve sempre ter em vista que as análises e resultados de tais
modelos têm vieses importantes a serem considerados no momento final.
Em segundo lugar, tratam-se geralmente de modelos proprietários
pertencentes a grandes corporações, que possuem valores de mercado su-
periores aos PIBs de diversos países. Tais empresas afirmam não poder tor-
nar transparentes as bases dos modelos, pois seriam propriedades intelec-
tuais necessárias para manter a inovação, mas, na prática, são verdadeiras
caixas-pretas e tais empresas não têm interesse em regulações de seus ne-
gócios (Han, 2022; O’Neil, 2020; Morozov, 2018).
Consoante a Sampaio et al. (2024b), diferentemente dos softwares aca-
dêmicos, que geralmente oferecem versões estáveis e rastreáveis, os gran-
des modelos de linguagem funcionam de outro modo. Esses sistemas são
atualizados de tempos em tempos, sem manter o acesso às versões antigas.
454
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Essa prática dificulta a reprodução de estudos que foram feitos com ver-
sões obsoletas. Embora sejam visíveis nos resultados práticos, essas mu-
danças não são registradas minuciosamente, o que dificulta a compreensão
exata de seus impactos. Em contrapartida, programas acadêmicos permi-
tem o uso de diversas versões, incluindo as desatualizadas, o que ajuda a en-
tender as alterações feitas e a reproduzir estudos com parâmetros estáveis.
Em suma, diversos fatores estão além do controle do pesquisador,
o que faz com que essas tecnologias sejam mais complicadas para uso cien-
tífico. Isso limita a habilidade do pesquisador de avaliar a validade e a con-
fiabilidade desses resultados, impedindo que certos aspectos da pesquisa
não possam ser replicados.
Finalmente,15 em terceiro lugar, a pesquisa qualitativa exige que o
pesquisador tenha um envolvimento mais direto com os sujeitos que estão
sendo estudados, que geralmente ajudam a construir os resultados da pes-
quisa. Deve-se tomar cuidado para garantir que o uso da IA não se torne
uma forma de terceirização da análise apenas para aumentar a produção de
estudos e artigos. Afinal, uma parte significativa da análise qualitativa é a
leitura, a releitura, a anotação, o destaque, a codificação, a agregação, a se-
paração de códigos, buscando a identificação de categorias ou temas (con-
forme capítulos 07 e 08).
É exatamente durante esse processo que o pesquisador se aprofun-
da nos significados dos atores, buscando entender seus sentimentos, per-
cepções, opiniões, posições e comportamentos, enquanto se envolve em
seu próprio processo de reflexividade. Esse processo lento e “tedioso” de
análise qualitativa geralmente produz a melhor compreensão do fenômeno
analisado e frequentemente produz as melhores reflexões e conclusões, isso
para não mencionar um tratamento mais respeitoso e ético com os partici-
pantes (Minayo, 2021). Embora o uso de IA possa ajudar a agilizar a pes-
quisa, ele não resulta necessariamente em uma pesquisa melhor.
Se as IAs forem usadas somente para acelerar a pesquisa, não haverá
15. Na verdade, há muitas questões envolvidas no uso de IA na pesquisa acadêmica, seja ela qualitativa ou não. Em primeiro lugar,
há questões autorais sérias, pois no atual momento tais modelos são treinados em dados disponíveis na internet, havendo pouco ou
nenhum respeito com os direitos de seus autores (Lucchi, 2023). Além disso, temos uma questão ambiental séria, uma vez que os
centros de dados e servidores necessários para manter tais estruturas apresentarem grandes custos de água para seu funcionamento
(Bhaskar, Seth, 2024). Finalmente, temos o emprego de mão-de-obra de baixo custo em nações subdesenvolvidas para a verificação
humana desses modelos (Le Ludec, Cornet, Casili, 2023). Há certamente ainda outras questões que não buscamos esgotar aqui.
455
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
muita diferença entre o uso dessa tecnologia e as análises textuais automati-
zadas que já existem há algum tempo, incluindo através dos CAQDAs. Para
nós, um uso mais interessante desses LLMs seria aprimorar a capacidade
analítica dos pesquisadores humanos. Isso poderia ser feito ao comparar a
codificação humana com a realizada por IAs, ao questionar outras possibi-
lidades de análise, ao agrupar códigos e temas e até mesmo ao interpretar
resultados. Em suma, como colocado por Paoli, o cenário “não é um onde
analistas humanos são substituídos por analistas IA, mas um de colabora-
ção Humano-IA” (2023, p. 19, tradução nossa).
Portanto, a ideia é não abraçar sem questionar e nem rechaçar a pos-
sibilidade da facilitação de algumas tarefas da pesquisa qualitativa. Sem dúvi-
da, essas técnicas consomem muito tempo e recursos e exigem um esforço
humano significativo. O ponto é abrir um debate sobre as transformações
trazidas por tais tecnologias e se há, ao final, um saldo positivo em termos
de velocidade e profundidade. No momento, é prematuro fazer tal decla-
ração. Até o momento, a análise humana é insubstituível em todas as fases
da pesquisa qualitativa.
Na atual situação, todas as experimentações são válidas desde que
realizadas de forma ética e reflexiva pelos pesquisadores. Dentre os pou-
cos consensos já presentes, podemos apontar que: a) modelos de linguagem
não podem ser autores e co-autores, pois não podem ser responsabilizados
ética e legalmente; b) deve haver transparência sobre o uso de qualquer in-
teligência artificial na pesquisa, incluindo o máximo de transparência em
termos de modelos, versões e prompts utilizados; c) os autores e as autoras
devem assumir total responsabilidade pela integridade do conteúdo gerado
pela IA, incluindo a revisão e edição cuidadosas para evitar informações e
citações incorretas, incompletas ou tendenciosas.
À guisa de conclusão, podemos dizer que as sociedades contem-
porâneas produzem uma quantidade imensurável de dados a todos os mo-
mentos, o que tem gerado igualmente gigantescos sistemas informáticos
(eg. algoritmos, aprendizado de máquina, inteligência artificial) capazes de
coletar, guardar e analisar tais dados, buscando prever (e mesmo influen-
ciar) com muita acurácia os comportamentos e planos de ação das pessoas,
456
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
notadamente em termos do uso desses dados para publicidade (Han, 2022;
O’Neil, 2020; Morozov, 2018). Entretanto, governos e instituições de dife-
rentes naturezas também passam a fazer usos cada vez mais constantes de
dados para incrementar seus serviços, moldando diversos aspectos de nossa
sociedade (Buhmann, Fieseler, 2023; Mendonça, Filgueiras, Virgílio, 2023).
Tudo isso parece apontar, para alguns, para um suposto enfraque-
cimento da pesquisa qualitativa, que estaria espremida entre análises auto-
matizadas de big data de um lado e de cruzamentos estatísticos sofisticados
de dados das pessoas de outro lado. Todavia, é exatamente o contrário. É
justamente nessa situação que a pesquisa qualitativa pode se mostrar ain-
da mais relevante.
Nunca foi tão importante ouvir os atores sobre suas perspectivas,
opiniões, sentimentos e interpretações do mundo. Ora, tais modelos po-
dem ser muito bons e úteis para avaliações gerais, porém são incapazes de
aprofundar e compreender a experiência das pessoas. Por exemplo, em ava-
liações de governos ou de propagandas políticas, tendem a ignorar posi-
ções minoritárias que poderão ser chaves analíticas importantes para elei-
ções. Terão dificuldade de compreender como a população carente pode
se identificar com partidos ou candidatos que defendem políticas neolibe-
rais que vão de encontro ao seu interesse imediato. Certamente, mesmo os
melhores chatbots terão dificuldade de funcionar em avaliações de impacto
e sucesso de políticas públicas, pois novamente lidam apenas com tendên-
cias, com predomínios e com o que se destaca.
Assim, podem invisibilizar ainda mais as demandas políticas e re-
presentacionais de comunidades carentes, longínquas e minoritárias, nota-
damente em tempos de grandes desastres e conflitos que temos experien-
ciado nos últimos anos. Ou ainda: “os problemas que nossas sociedades
enfrentam hoje, que vão desde a desigualdade estrutural até as pandemias
globais, exigem mais, e não menos, pesquisas qualitativas” (Ercan, Vromen,
2023, p. 31, tradução nossa).
Em um mundo cada vez mais baseado em dados e dominado por
máquinas, sempre haverá espaço e necessidade de conversar, dialogar e com-
preender as ações humanas. A pesquisa qualitativa vai ficar bem desde que
457
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
saiba se adaptar à nova realidade e continue focada em gerar dados e análi-
ses relevantes para os problemas políticos, sociais e culturais.
A formação dos futuros pesquisadores também precisa se adaptar a
essa realidade. As habilidades valorizadas no contexto futuro, como o mane-
jo de ferramentas de IA e a interpretação crítica de seus resultados, devem
ser incorporadas aos currículos dos cursos de graduação e pós-graduação.
Não é fácil e não temos aqui a receita disso, mas tal investimento garantirá
que as futuras pesquisadoras e pesquisadores estejam preparados para uti-
lizar as novas tecnologias de modo consistente e consciente.
Rafael Cardoso Sampaio
Carolina de Paula
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460
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461
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
ORGANIZADORES
Rafael Cardoso Sampaio
Doutor em Comunicação Política pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).
Professor do Programa de Pós-graduação em Ciência Política da Universidade
Federal do Paraná (UFPR). Tem interesse nas temáticas de Democracia Digital,
Comunicação Política, Inteligência Artificial e revisões sobre o campo da Ciência
Política. É autor, com Diógenes Lycarião, de Análise de conteúdo categorial: um manual
de aplicação publicado pela ENAP.
cardososampaio@[Link]
Carolina de Paula
Doutora em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Profissional consultora
da área de opinião pública e comportamento dos cidadãos, eleitores e consumido-
res (iniciativa privada e pública). Especialista em pesquisa qualitativa e novas meto-
dologias de pesquisa comportamental. Co-criadora do Painel Online de Monitoramento
de Tendências (POMT). Escreve no blog Legis-Ativo (Congresso em Foco) e no
Broadcast Político, da Agência Estado.
[Link]@[Link]
AUTORES E AUTORAS
Acácio Vasconcelos Telechi
Mestre e doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Pesquisador associado ao Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais
(NEPRI-UFPR) e Editor Executivo da revista Conjuntura Global. Seus temas de in-
teresse são: métodos quantitativos e qualitativos em Ciência Política e Relações
Internacionais, integração regional, lobbying e advocacy.
acaciotelechi@[Link]
462
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Bruno Nichols
Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Mestre em Comunicação e bacharel em Ciências Sociais pela mesma instituição.
Pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas
e Soberanias Informacionais (INCT-DSI). Pós-Doutorando pela Universidade
Federal Fluminense (UFF). Coordenador de dados no Instituto de Pesquisa IDEIA.
brunonichols@[Link]
Daniela Drummond
Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) com pe-
ríodo sanduíche na Universidade Lusófona do Porto. Pós-doutora no Instituto de
Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-
UERJ). É professora na Universidade Federal do Pampa. Tem pesquisas sobre mí-
dia, política, gênero e feminismos.
danieladrummond@[Link]
Douglas H. Novelli
Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), mestre
em Ciência Política pela mesma instituição e bacharel em Relações Internacionais
pelo Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA). Pesquisador associado ao
Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NEPRI-UFPR), atuou como
Editor Executivo da Revista Conjuntural Global entre 2019 e 2021. Seus tópicos de
interesse incluem soft power, novos regionalismos e métodos de pesquisa qualitati-
va aplicados à Ciência Política.
douglashnovelli@[Link]
Eduardo Pagnan Vieira
Mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar). Pesquisador do Núcleo de Estudos Integrados
em Democracia, Comunicação e Sociedade (DECOS) com ênfase em pesquisas
sobre Jornalismo Político; Imprensa e Democracia e em metodologias, especial-
mente aquelas com auxílio computacional.
[Link]@[Link]
463
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Enzo Lenine
Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS), mestre pela mesma instituição e bacharel em Relações Internacionais
pela Universidade de Brasília. Professor do Departamento de Ciência Política e do
Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da Universidade Federal
da Bahia (UFBA). Seus temas de interesse são: metodologia de pesquisa, feminis-
mos nas Relações Internacionais, e filosofia das ciências sociais. Publicou sobre mo-
delos formais na Perspectives on Politics (co-autoria com Keith Dowding), sobre me-
todologias feministas na Dados, e hierarquias do conhecimento na Revista Brasileira
de Ciência Política (co-autoria com Melina Mörschbächer).
lenine@[Link]
Ester Athanásio
Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Políticas Públicas da Universidade
Federal do Paraná com período sanduíche na Universidade do Minho, Braga,
Portugal. É mestre em Comunicação e jornalista pela UFPR. Profissional con-
sultora em comunicação de causas, advocacy e políticas públicas para iniciativas
socioambientais.
ester.athanasio1@[Link]
Eurico Matos Neto
Doutor e Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade
Federal da Bahia (UFBA). Professor da Escola de Comunicação, Mídia e Informação
da Fundação Getulio Vargas (FGV - Comunicação Rio) e do Programa de Pós-
Graduação em Comunicação Digital e Cultura de Dados. É pesquisador do Instituto
Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital ([Link]).
[Link]@[Link]
Gabriel Bento Leite Ferreira
Mestre em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e membro
da linha de Pesquisa “Instituições Políticas e Processos Decisórios”. Bacharel e
Licenciado em História pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), atua como
464
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Professor de História na rede pública de ensino do Estado do Paraná.
g.ferreira98r@[Link]
John dos Santos Freitas
Doutorando em Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP). Bacharel e
Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Licenciatura
em Filosofia pelo Instituto Católico de Estudos Superiores do Piauí (ICESPI).
Professor do Instituto Federal do Maranhão ( EBTT/IFMA). Pesquisador do
Centro de Estudos da Metrópole (CEM/USP) e do Núcleo de Estudos sobre
Desenvolvimento e Pobreza (NUDEP/UFPI).
[Link]@[Link]
Julia Maurmann Ximenes
Doutora em Sociologia Política na Universidade de Brasília (UnB). Visiting Scholar
na Universidade da Califórnia/Davis. Professora do Programa de Mestrado e
Doutorado em Políticas Públicas da Escola Nacional de Administração Pública
(Enap). Líder do grupo de pesquisa certificado no CNPq pela Enap, Campo
Jurídico, regulação e políticas públicas. Coordenadora Acadêmica da Faculdade
Latino Americana de Ciências Sociais (FLACSO) no Brasil. Tem pesquisado a re-
lação entre o campo do Direito e as Políticas Públicas a partir da lente analítica
do institucionalismo discursivo. Tem interesse em capacidades estatais, análise de
discurso e decolonialismo.
juliamximenes@[Link]
Júlia Gonçalves
Mestranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Bacharel em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás
(PUC-GO). Pesquisa sobre regulação de redes sociais. Tem interesse em democra-
cia digital e impactos de redes sociais na política.
[Link]@[Link]
Maiane Bittencourt
Doutoranda em Ciência Política na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
465
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Pesquisadora do Laboratório de Análise do Campo Científico (UFPR), do
Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil (UFPR) e do Observatório do
Legislativo Brasileiro do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Atua nos temas de processo decisório,
representação parlamentar feminina e cientometria.
[Link]@[Link]
Mariana Lorencetti
Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR),
mestre em Ciência Política e graduada em Ciências Sociais pela mesma institui-
ção. Pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política (UFPR) e do
Laboratório de Análise do Campo Científico (UFPR). Suas áreas de interesse são
estudos de perfil social de agentes do legislativo, estudos de profissionalização po-
lítica e metodologia de pesquisa da Ciência Política.
malorencetti@[Link]
Marta Pontes de Campos
Mestre e doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Graduada em Ciências Sociais e Comunicação Social, pela mesma insti-
tuição. Pesquisa sobre o comportamento político da elite econômica e sua relação
com instituições políticas.
martapontesdecampos@[Link]
Michelle Fernandez
Doutora e mestre em Ciência Política pela Universidade de Salamanca e gradua-
da em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB). Foi pesquisadora visi-
tante na Universidade Autônoma de Barcelona, na Universidade de Oxford e na
Universidade de Manchester. É professora e pesquisadora no Instituto de Ciência
Política da UnB. Coordena o Núcleo de Estudos sobre Estado, Burocracia e Políticas
de Saúde (NEPOS) dentro do Laboratório de Pesquisa em Comportamento Político,
Instituições e Políticas Públicas (LAPCIPP/UnB).
[Link]@[Link]
466
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Murilo Brum Alison
Doutorando e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Bacharel em Ciências Sociais (UPPR). Tem interesse na formação da ima-
gem pública de atores políticos, uso das redes sociais e personalismo.
murilobalison@[Link]
Natália Guimarães
Doutora em ciência política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Educadora e pesquisadora do SOS Corpo – Instituto feminista para a democra-
cia. Autora do livro Violência contra as mulheres: (re)produção de desigualdades nas políti-
cas públicas, publicado em 2023 pela Edições SOS Corpo.
[Link]@[Link]
Natasha Bachini
Doutora em Sociologia pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade
do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Pesquisadora de Pós-doutorado do
Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP). Bolsista
da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Pesquisa
democracia, autoritarismo, ciberativismo, identidade coletiva e campanhas elei-
torais a partir de métodos que combinam análise de dados digitais e entrevistas
semiestruturadas.
natashabachini@[Link]
Lucy Oliveira
Docente do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e do Departamento
de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos, é doutora em Ciência
Política (PPGPol/UFSCar) com pós-doutorado no Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento (FAPESP/CEBRAP). Coordena o Núcleo de Estudos Integrados
em Democracia, Comunicação e Sociedade (DECOS) e o Laboratório de
Dados e Técnicas em Ciência Política ([Link]). Organizadora do livro O Sistema
Presidencialista: perspectivas analíticas nos EUA e no Brasil e é consultora em metodolo-
gia de análise de texto e conteúdo com suportes computacionais. Pesquisa presiden-
cialismo e discurso; propaganda negativa; jornalismo político; mídia, gênero e raça.
467
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
gosilva@[Link]
Patrícia Sene de Almeida
Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Graduada em Ciências Sociais e Mestra em Gestão Urbana pela Pontifícia
Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Estuda a relação entre a proposição
legislativa de políticas distributivas e território, além de temas como pork barrel, co-
nexão eleitoral, comportamento legislativo, políticas urbanas e processos decisó-
rios no âmbito municipal. Coordenadora discente no Laboratório de Pesquisa em
Ciência da Política (CIdaPOL).
patriciasenealmeida@[Link]
Paula de Oliveira Portela
Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Mestre em Ciência Política pela mesma instituição. Graduada em Ciências
Econômicas pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Pesquisadora
do Laboratório de Análise do Campo Científico (LACC), do Observatório de
Elites Políticas e Sociais do Brasil, e do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política
(NUSP). Pesquisa sobre elite econômica, política monetária, jornalismo econômi-
co e circulação de ideias. Tem interesse em Teorias das Elites, Advocacy Coalition
Framework (ACF) e Macroeconomia. É editora-executiva da Revista Eletrônica de
Ciência Política (RECP).
paulapportela@[Link]
Paulo Roberto Neves Costa
Doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Professor do Departamento e do Programa de Pós-graduação em Ciência Política
da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Estuda a relação entre empresários e
política e tem interesse em Teoria da Democracia. É editor associado da Revista de
Sociologia e Política e um dos coordenadores do Núcleo de Pesquisa em Sociologia Política
da UFPR.
paulocostaufpr@[Link]
468
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Pedro Henrique Chaves de Azevedo Beff de Araújo
Mestre e doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro (PUC-Rio). Editor-executivo da Revista Eletrônica de Ciência Política (RECP).
Pesquisador do Observatório de Elites Políticas e Sociais do Brasil e do Núcleo de
Pesquisa em Sociologia Política (NUSP). Estuda e pesquisa elites judiciárias, com-
portamento judicial e ideologias econômicas dos ministros do Supremo Tribunal
Federal.
[Link]@[Link]
Pedro Lenhagui Bergamaschi
Mestre e doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Editor Executivo da Revista de Sociologia & Política, pesquisador do Núcleo
de Pesquisa em Sociologia Política (UFPR). Estuda elites parlamentares abastadas
em perspectiva comparada.
plberga@[Link]
Rayza Sarmento
Professora da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em
Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA) e doutora em Ciência
Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É coordenadora do
Grupo de Pesquisa em Gênero, Comunicação, Democracia e Sociedade (GCODES)
e pesquisadora associada ao Margem - Grupo de Pesquisa em Democracia e Justiça.
rayzasarmento@[Link]
Rafael dos Santos
Graduado e mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá
(UEM), doutorando em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Professor de sociologia na SEED-PR.
rafaeladilio91@[Link]
Regina Luna Santos de Souza
Doutora em Comunicação pela Universidade de Brasília (UnB) e mestre em
469
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Ciência Política pela mesma instituição. Especialista em Políticas Públicas e Gestão
Governamental (EPPGG) e atualmente atua como Coordenadora-geral de Pós-
graduação Stricto Sensu e como professora dos cursos de mestrado e doutorado da
Escola Nacional de Administração Pública (Enap). Seus temas de interesse se cen-
tram nos novos paradigmas de desenvolvimento estatal e sua relação com gover-
nos democráticos, bem como no uso das mídias digitais pelas organizações, públi-
cas e privadas, para avaliação do seu impacto na governança das políticas públicas.
[Link]@[Link]
Sabrina Almeida
Doutora em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
professora na Escola de Comunicação, Mídia e Informação da Fundação Getúlio
Vargas (ECMI - FGV). Estuda comportamento político com ênfase em participa-
ção e atitudes políticas, além de método e pesquisa em mídias sociais.
[Link]@[Link]
Tainá R. Serafim
Doutoranda em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Gestora Pública e Mestra em Desenvolvimento Territorial Sustentável (UFPR).
[Link]@[Link]
Thiago Silame
Bacharel em Ciências Sociais, mestre e doutor em Ciência Política pela Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor da Universidade Federal de Alfenas
(Unifal-MG). Pesquisador do Centro de Estudos Legislativos (CEL-DCP) da
UFMG e Coordenador do Centro de Estudos da Política (CEPÓLIS) da Unifal-
MG. Autor do livro Assembleias Legislativas de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Rio Grande
do Sul: política de recrutamento para as comissões permanentes.
[Link]@[Link]
Tiago Borges
Doutorando e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Paraná
(UFPR). Bacharel em Ciências Sociais (UFPR). Pesquisador associado ao Instituto
470
Manual de introdução às técnicas de pesquisa qualitativa em Ciência Política
Democracia em Xeque. Tem interesse nas temáticas de Inovações Democráticas,
Democracia Digital e Instituições Participativas.
tpfbsilva@[Link]
Victor Piaia
Doutor em Sociologia pelo do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP-UERJ). Professor da FGV
Comunicação Rio e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Digital
e Cultura de Dados. Líder do Grupo de Pesquisa em Sociologia Política e
Transformações Digitais.
[Link]@[Link]
Vítor Eduardo Veras de Sandes-Freitas
Doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Professor Adjunto da Universidade Federal do Piauí (UFPI). Coordenador do
Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Partidos Políticos (Geppol). Tem se dedi-
cado na área de desenho de pesquisa e métodos e tem pesquisado sobre eleições,
partidos e representação política.
vitorsandes@[Link]
Vitor Vasquez
Doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
com período sanduíche na Universidade da Califórnia de San Diego (UCSD).
Professor Assistente no Curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de
Santa Cruz (UESC) e Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em
Ciência Política da Universidade Federal do Piauí (PPGCP-UFPI). Líder do Grupo
de Estudos em Instituições Políticas, InsPol (CNPq-UESC).
vlvasquez@[Link]
471