DOI: 10.4025/actascieduc.v33i1.
12491
Paradisus corporalis est quies claustralis: usos e sentidos do claustro
beneditino no Ocidente medieval
Maria Cristina Correia Leandro Pereira
Departamento de História, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, Av. Prof. Lineu
Prestes, 338, 05508-900, Butantã, São Paulo, São Paulo, Brasil. E-mail: mariacristinapereira@[Link]
RESUMO. O claustro de um mosteiro beneditino é um de seus lugares mais privilegiados
e característicos. No entanto, a palavra que designa este território, por excelência, dos
monges não teve sempre o mesmo significado, assim como aquele espaço não conheceu
sempre as mesmas utilizações. É nosso objetivo estudarmos aqui o claustro no contexto do
Ocidente medieval, atentando para a gênese do termo e as relações deste espaço com o lugar
por ele ocupado no imaginário religioso da época e no quotidiano dos monges beneditinos.
Palavras-chave: monges, paraíso, costumes, regra beneditina.
ABSTRACT. Paradisus corporalis est quies claustralis: uses and meanings of the
Benedictine cloister in the Medieval West. The cloister of a Benedictine monastery is
one of its most privileged and typical places. However, the word for this place did not
always have the same meaning, and that space has not always met the same uses. It is our
goal here to study the cloister in the context of the medieval West, paying attention to the
genesis of the term and the relations this place holds in the religious imaginary of that time
and the daily lives of Benedictine monks.
Keywords: monks, paradise, customary, rule of St. Benedict.
Introdução galeria arqueada formando um quadrilátero, tendo
de um lado as dependências monásticas e de outro
O claustro é um de seus lugares mais
um pátio descoberto – clausura se refere mais a uma
privilegiados e característicos de um mosteiro. No situação, a uma condição que é própria da vida
entanto, a palavra que designa este lugar que é o monástica. Nos textos dos primeiros autores
território por excelência dos monges, claustrum, não cristãos, no entanto, as palavras não tinham essa
teve sempre o mesmo significado. A partir da idéia distinção. Encontramos por exemplo nas
de clausura, de fechamento, lentamente, ao longo Etimologias de Isidoro de Sevilha (ISIDORVS
dos primeiros séculos medievais, o termo vai HISPALENSIS, Etymologiae, 15, 7, 5) a definição,
ganhando o sentido de lugar que conhecemos: o bastante simples, de: “claustra, daquilo que é
espaço em geral quadrangular, no interior do fechado” (“claustra, ab eo quod claudantur est”).
mosteiro, circundado por galerias com colunas, que No entanto, à medida que os mosteiros se
dá acesso a diferentes partes do mosteiro, e onde são multiplicavam no Ocidente medieval, a palavra
exercidas determinadas funções próprias à vida claustrum começava a ser revestida de certa
monástica. É nosso objetivo estudarmos aqui o especificidade – ainda uma clausura, mas uma
claustro no contexto do Ocidente medieval, clausura cada vez mais de tipo físico. Ela passava a
atentando para a gênese do termo, uma vez que foi nomear o habitat do monge: o mosteiro como um
naquele esquema mental e linguístico que o claustro todo, enquanto um espaço fechado (mas não ainda o
foi pensado, elaborado, construído e visualizado. nosso “claustro”). A Regra Beneditina, referência
Assim, poderemos melhor perceber as relações deste obrigatória para nosso estudo, é exemplar nesse
espaço com o lugar por ele ocupado no imaginário sentido – embora ela só use por duas vezes o termo
religioso e no quotidiano dos monges beneditinos. claustro. Na primeira, após uma longa enumeração
Nas línguas latinas modernas, a exemplo do dos “instrumentos das boas obras” (“instrumenta
português, temos duas palavras muito próximas bonorum operum”) necessários a uma vida monástica
derivadas do latim claudere, fechar: claustro e bem-sucedida, seu autor conclui: "São, porém, os
clausura. Enquanto a primeira usualmente designa claustros [claustra] do mosteiro e a estabilidade na
um espaço físico no interior do mosteiro – uma comunidade as oficinas [officina] onde executaremos
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diligentemente tudo isso” (BENEDICTI REGVLA O sentido é bastante distinto: não se trata do espaço
MONACHORVM, 1990, 4, 78). O texto fala, pois, físico do mosteiro, mas de algo mais particular,
vagamente de um espaço físico (muito mais o próprio a cada monge: seu corpo (REGVLA
próprio mosteiro que o claustro), associando-o MAGISTER, 6, 1-2). Como sublinha Adalbert de
diretamente à noção de estabilidade – noção que lhe Vogué, uma das diferenças entre a Regra Beneditina
era particularmente cara, visto a crítica aos giróvagos, e a do Mestre está em que, enquanto esta é mais
monges que viviam sem limites, sem barreiras, logo subjetiva, com grande utilização de metáforas, a
no início da Regra (BENEDICTI REGVLA outra é em geral mais prática, mais objetiva
(VOGUÉ, 1972, p. 221-222). O Mestre também
MONACHORVM, 1990, 1, 10). Na segunda
utiliza a palavra claustrum, e não somente clausura,
utilização do termo claustrum na Regra Beneditina, o
visando a um sentido bem físico, quando ele
sentido é basicamente o mesmo: há uma
recomenda aos monges que escondam a chave do
recomendação aos monges que não deixem os claustro, a "claustris claues" (REGVLA MAGISTER,
"claustros [claustra] do mosteiro" sem autorização do 79, 20), dos estrangeiros. Mas enquanto utiliza o
abade (BENEDICTI REGVLA MONACHORVM, termo clausura por treze vezes, emprega claustrum por
1990, 67, 7). Novamente, a palavra claustra está apenas duas vezes.
associada à saída do mosteiro, fazendo referência aos De toda forma, ambos os textos dão prova do
seus limites. É interessante observar que nas duas início da transformação do sentido metafórico de
ocasiões a palavra é empregada no plural, o que claustrum – como tudo aquilo que pode ser pensado
mostra que, mais que uma referência a dois espaços em termos de fechamento (como o que faz o corpo
concretos, ainda que alguns mosteiros mais tarde com a alma, por exemplo) – a um sentido mais físico
viessem a ter dois claustros, trata-se de uma de reclusão, mas específico à realidade monástica.
preocupação com os limites (ainda que físicos), com Os especialistas não são unânimes para apontar o
a clausura. primeiro texto a fazer uso da palavra claustro para
Isso pode ser percebido também quando a Regra, designar aquele espaço específico. Segundo Henri
ao descrever um mosteiro ideal, não menciona o Leclercq (LECLERCQ, 1934, p. 2006), este seria a
claustro: "Seja, porém, o mosteiro se possível, Vida de são Philibert, do século VIII, que descreve
construído de tal modo que todas as coisas como o santo construiu o claustro de Jumièges. Mas
necessárias, isto é, água, moinho, horta e os diversos seu principal opositor, Jacques Bousquet, afirma que
ofícios se exerçam dentro do mosteiro" o texto não é suficientemente claro para permitir que
(BENEDICTI REGVLA MONACHORVM, 1990, se tire aquela conclusão (BOUSQUET, 1976). A
66, 6). Em outro documento relacionado ao discussão prossegue em torno de um outro
fundador dos beneditinos, a hagiografia de são Bento documento hagiográfico contemporâneo àquele, a
redigida pelo papa são Gregório Magno, quando este Vida de Hrodbert. Enquanto Paul Meyvaert está
descreve a planta de um mosteiro proposto pelo certo de que o texto menciona um claustro
santo em resposta a um pedido, pode-se perceber, se MEYVAERT, 1973, p. 53), Christopher Brooke é de
não a visão arquitetônica deste santo, pelo menos a opinião contrária (BROOKE, 1987, p. 19).
do papa: "Ide, em tal dia irei também eu, e mostrar- Se a busca genealógica pelo texto inaugural pode
vos-ei em que lugar havereis de edificar o oratório, o se revelar infrutífera e, até certo ponto, mesmo
refeitório dos irmãos, os aposentos dos hóspedes e desnecessária, sabe-se que na passagem do século
tudo o que for preciso" (GREGORIVS MAGNVS, VIII ao IX os códigos normativos monásticos, como
1979, 2, 22, 1). Novamente, não há aí referência ao os Costumes e Estatutos, já faziam referência
claustro. explícita ao claustro, estabelecendo como os monges
Quanto ao termo "clausura", ele só é encontrado deveriam se comportar naquele local preciso, como
por uma vez na Regra, em seu sentido geral, de veremos mais adiante. E essas referências se
reclusão: "Já quanto às brincadeiras, palavras ociosas multiplicam a partir do século XII, até mesmo pelo
que provocam riso, condenamo-nas em todos os sucesso do ideal de vida monástica e pela
lugares a uma eterna clausura, para tais palavras não multiplicação dos claustros construídos.
permitimos ao discípulo abrir a boca" (BENEDICTI Deixando um pouco de lado os documentos
REGVLA MONACHORVM, 1990, 6, 8). Ela avança textuais, um documento iconográfico de grande
mais em direção a um "rigor monástico" do que o faz importância por sua raridade é a planta do mosteiro
sua principal fonte de inspiração, a chamada "Regra de Saint Gall, do início do século IX. De modo
do Mestre". Nesta, na passagem referente aos geral, os historiadores defendem que não seria a
"instrumentos das boas obras", a expressão "claustra planta real daquele mosteiro, mas uma planta ideal,
monasterii" havia sido substituída por "corporis clusura". um modelo a ser imitado, como analisa Anselme
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Davril (DAVRIL, 2004, p. 22). Esse dado só faz àquele paraíso onde foi colocado Adão"
aumentar a importância desse documento, que (AELREDVS ABBATIS RIEVALLENSIS, 1952,
efetivamente mostra um claustro localizado ao sul da sermo 10: "Paradisus corporalis est quies claustralis. Et
igreja, tendo a sala capitular a leste e o dormitório quidem pulchrior, ut michi videtur, illo paradiso, in quo
acima dela, o refeitório ao sul e o celeiro a oeste. positus est Adam, non inferior").
Vemos, pois, que a palavra claustrum, que possuía Além dessas exegeses mais generalizadoras, a
antes certa carga abstrata, qualitativa, acompanhando partir do século XII também vemos autores que
e modificando as palavras principais, tornava-se cada esmiuçam os sentidos do claustro. Hugo de Fouilloy
vez mais um termo concreto, designando uma (1110-1172), prior dos cônegos regulares de Saint
estrutura física precisa. E ao mesmo tempo em que Laurentan, parece ter sido o primeiro a enunciar a
ele deixava seu sentido abstrato por um mais moralização dos quatro lados do claustro, em sua
concreto – ou seja, literalmente; passava a ocupar um obra "De Claustro Animae": segundo ele, o claustro
território – começava a ser objeto de uma espiritual, assim como o de pedra, tem quatro
interpretação exegética. Sua forma quadrada, suas paredes: o desprezo de si, o desprezo do mundo, o
diversas dependências davam lugar a interpretações amor ao próximo e o amor a Deus (HVGONIS DE
simbólicas e moralizadoras. FOLIETO, 3, 2).
Para o eremita Honório (1095-1135), em sua obra O último dos grandes exegetas do claustro é o
"Gemma Animae", o claustro, por estar próximo à igreja, bispo Sicard de Cremona (1160-1215), que seguiu
poderia ser comparado ao Pórtico de Salomão, de perto seus predecessores: além de alguns
próximo ele também ao Templo (HONORIVS empréstimos a Honório, como as analogias entre o
AVGVSTODVNENSIS, 1, 148). E as árvores claustro e o Pórtico de Salomão e entre as árvores
frutíferas de seu jardim poderiam ser comparadas aos frutíferas e os livros das Escrituras, ele também
livros das Escrituras (HONORIVS acrescentou as analogias entre o claustro e o paraíso
AVGVSTODVNENSIS, 1, 149). Além disso, o e entre as várias dependências do claustro e as muitas
claustro inteiro seria uma prefiguração do céu, onde os moradas no céu. (SICARDVS CREMONENSIS, 1,
puros são separados dos pecadores, assim como os 4). Ele também se utilizou do esquema quaternário
monges o são dos leigos, e onde tudo se possui em de Hugo de Fouilloy.
comum (HONORIVS AVGVSTODVNENSIS, 1, A tradição exegética enfatiza, pois, o caráter
149). privilegiado do claustro, uma espécie de antecipação
Um exemplo deste tipo de aproximação entre o do destino que teriam os monges no post-mortem.
claustro e o céu é dado por uma fonte talvez Mas enquanto isso, durante sua vida, o claustro era o
ligeiramente anterior ao Gemma Animae, o seu território de ação, de exercício das atitudes que
Horologium stellare monasticum. Esse texto, porém, não garantiriam seu lugar nesse "claustro celeste". A fim
se dedica a fazer uma exegese do claustro. de se estudar as utilizações deste espaço pelos
Provavelmente elaborado no mosteiro beneditino de monges, as melhores referências são portanto
Saint Benoît sur Loire, segundo Giles Constable novamente os Estatutos e Costumes, sempre
(HOROLOGIVM STELLARE MONASTICUM, preocupados com a normatização da vida monástica.
1975, p. 9-11), trata-se de um calendário indicando Na maioria desses textos reguladores, quando se
os lugares mais apropriados no mosteiro – dos quais tratava do claustro, o ponto mais importante era a
a maioria se encontrava no claustro, obviamente – definição dos períodos de proibição ou de permissão
para observar as diferentes constelações ao longo do de conversa – o que era compreensível visto que o
ano, segundo o calendário litúrgico. Como analisa claustro, por sua estrutura, era um lugar propício à
Éric Palazzo, esse documento mostra, como sociabilidade, enquanto o silêncio era considerado
nenhum outro, a relação estreita, prática, material, uma obrigação, além de uma das virtudes monásticas
entre o céu e o claustro, indo muito além das fundamentais. Vimos mais acima como a Regra
interpretações de tipo teórico (PALAZZO; Beneditina faz um elogio da taciturnidade,
DAVRIL, 2000, p. 74-77; 208-209). ocupando-se dela por todo um capítulo, designando-
O claustro, um espaço fechado, quadrangular, a como a responsável pela atmosfera de
encerrando um jardim e uma fonte, era, pois, uma tranquilidade e ordem necessária a um mosteiro
estrutura perfeita para ser comparada à topografia (BENEDICTI REGVLA MONACHORUM, 6).
celeste. Alguns textos comparam-no diretamente Outro exemplo ilustrativo é uma afirmação do abade
com o Paraíso, como Aelred de Rievaulx, um abade Odon de Cluny, de que um monge sem silêncio,
cisterciense do século XII: "O paraíso atual é o não é um monge (JOANNES, 2, 11).
repouso do claustro. E, pelo menos no que a mim De acordo com os Costumes cluniacenses de
me parece, um [paraíso] mais bonito e não inferior Uldaric, havia dois momentos de conversação
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autorizada: meia hora pela manhã e quinze minutos, pernas nem mantê-las abertas, mas mantê-las lado a
pelo menos, à tarde (VLDARICVS, 1, 40). No lado, decentemente (THE CUSTOMARY OF THE
século XII, os Estatutos de Pedro, o Venerável BENEDICTINE ABBEY OF EYNSHAM IN
aboliram este segundo período, além de OXFORDSHIRE, 1963, 25). Longe de estimular
acrescentarem três dias de silêncio completo durante uma deambulação pelo claustro, à maneira dos
a Quaresma, para que os monges se colocassem em turistas atuais, a ênfase era dada à imobilidade, à
um clima propício à ocasião (PETRVS fixidez. À imagem do já mencionado ideal
VENERABILIS, 1975, statutum 42). No que monástico, não se deveria ser giróvago nem mesmo
concerne aos menores de doze anos, Pedro, o no interior do claustro. A preposição "per"
Venerável, reconhecendo a dificuldade de precedendo a palavra "claustrum" é utilizada
manutenção do silêncio, insistia sobre a importância sobretudo para as procissões. Estas aconteciam aos
deste no refeitório e no dormitório, mas suavizava-o domingos e nos dias de festa, antes da grande missa.
no claustro, exigindo-o apenas entre a hora vespertina Os monges, com a cruz à frente e entoando cantos
e a tertia, condições mínimas, segundo ele, para litúrgicos, percorriam as galerias do claustro,
diferenciá-los dos seculares (PETRVS aspergindo com água benta todas as dependências
VENERABILIS, 1975, statutum 42). claustrais: primeiro, de acordo com Bernard de
Os monges mais jovens e os noviços eram um Cluny, a enfermaria, depois o dormitório, o
alvo constante de preocupação. Assim, os Costumes refeitório, a cozinha dos monges e por fim a oficina
do mosteiro beneditino de Eynsham, em do celeiro (BERNARDVM, 1726, 1, 45, 234). Da
Oxfordshire (c. 1230) recomendam que se deva Pentecostes à Quaresma havia procissões também às
ensinar-lhes a se portar bem quando caminham pelo quartas e sextas-feiras, de penitência, com os monges
claustro: sem apressar o passo, sem se inclinar, sem caminhando descalços – única ocasião em que isso
balançar os ombros, sem levantar a cabeça, sem era permitido (CONSVUETVDINES
deixar os olhos vagabundearem, e citam santo BECCENSES, 1967, 7).
Ambrósio, que diz que a atitude do corpo é de certa É certo que o claustro servia de lugar de
forma a voz da alma (THE CUSTOMARY OF THE passagem no interior do mosteiro, entre as diversas
BENEDICTINE ABBEY OF EYNSHAM IN dependências claustrais, e sobretudo entre elas e a
OXFORDSHIRE, 1963, 24). igreja, e como tal era percorrido várias vezes por dia.
Além da definição do horário da conversação no Mas quando se tratava de uma atividade específica ao
claustro, havia também a regulamentação de como claustro, a atitude recomendada era a estabilidade, a
ela deveria se dar. De acordo com os Costumes de imobilidade – o que fazia com que a posição por
Eynsham, na "hora locucionis" os monges não excelência fosse sentada. Era o caso da leitura, da
deveriam se sentar em um lugar qualquer do meditatio in libri, como diz claramente Pedro, o
claustro, mas em um sítio determinado (THE Venerável: "fratres in claustro sedeant et legant"
CUSTOMARY OF THE BENEDICTINE ABBEY (PETRVS VENERABILIS, 1975, statutum 26). A
OF EYNSHAM IN OXFORDSHIRE, 1963, 7, 1). proximidade da biblioteca e a luminosidade natural
Os Costumes de Farfa são ainda mais precisos, e do claustro contribuíam a fazer daquele lugar o ideal
estabelecem que quando os monges estivessem no para a leitura. O mesmo se aplicava ao canto, outra
claustro, tanto para a conversação como para a das atividades ideais a serem realizadas no claustro,
leitura, os jovens não deveriam sentar-se juntos, mas como diziam os Costumes de Lanfrande: "Saindo da
sim intercalados com os mais velhos, a fim de evitar sala capitular sentem-se no claustro sem falar, mas
distrações e conversas descompromissadas cantando ou lendo" (DECRETA LANFRANCI
(CONSUETVDINEM FARFENSIS, 1983, 155). MONACHIS CANTUARIENSIBUS
Além disso, todos os monges deveriam guardar uma TRANSMISSE, 1967, 40). E isso deveria ser feito
distância entre seu companheiro ao lado: de uma também durante o cumprimento de outras
coluna ou um assento, para Eynsham (THE atividades, como preconizam os primeiros
CUSTOMARY OF THE BENEDICTINE ABBEY Costumes de Cluny (CONSVETVDINES
OF EYNSHAM IN OXFORDSHIRE, 1963, 25), ou CLVNIACENSIVM ANTIQVIORES CVM
de um côvado, para Afflighem (CONSVETVDINES REDACTIONIBVS DERIVATIS, 1983, 35).
AFFLIGENIENSIS, 1975, 7). O claustro é, enfim, uma síntese da vida
Um detalhe bastante marcante no conjunto dos quotidiana dos monges, que aí se dedicavam a ler,
Costumes beneditinos é o fato de que a maioria das cantar os ofícios e rezar. E também a fazer algumas
referências às atitudes, ao comportamento dos atividades mais "corporais": em função do lavatorium
monges no claustro são acompanhadas pelo verbo lá existente, o claustro servia também de espaço para
sedere. E não de qualquer maneira: sem cruzar as a higiene dos monges. Era o lugar onde se lavavam
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os calçados (pelo menos a cada sábado) (JOANNES, pecar por qualquer negligência, logo depois neste
2, 23; PETRVS VENERABILIS, 1975, statutum, 28), lugar de maldição ele purga esta negligência na
onde se fazia a tonsura e a barba (BERNARDVM, presença de todos. Ele é admoestado, acusado,
criticado, confessa e é absolvido, e dessa forma sofro
1726, 1, 31), onde se lavavam as mãos e o rosto pela
por perder tudo o que ganhei em outra parte e que
manhã ou após um trabalho manual e antes da me alegrava.
leitura (CONSUETUDINEM FARFENSIS, 142), e
onde se lavavam e estendiam as roupas (em todas as Ela era também um dos espaços mais públicos do
galerias, menos a da sala capitular) (BERNARDVM, claustro, pois aí poderiam ser assinadas cartas de
1726, 1, 18; 28; 30). Além disso, se podiam cortar as doação ao mosteiro. Os doadores, em geral senhores
unhas, amolar as facas, encadernar livros, raspar os locais, estavam entre os poucos laicos que poderiam
pergaminhos, remendar os hábitos, tudo isso em ser recebidos no interior do claustro, assim como
momentos determinados, seja pela manhã, seja alguns pobres durante o Mandatum. Mas de forma
durante as horas de locutio in claustro (THE geral, os visitantes não eram bem-vindos ali. Os
CUSTOMARY OF THE BENEDICTINE ABBEY Estatutos de Pedro, o Venerável recomendavam
OF EYNSHAM IN OXFORDSHIRE, 202; expressamente que eles fossem evitados – sobretudo
Consuetudines Affligeniensis, 14; BERNARDVM, 1, 30). os servidores ("famulorum"), a não ser em ocasiões
A presença de água dava ao claustro funções
excepcionais, como para tratar de enfermos ou
litúrgicas também, como o lugar onde se realizava o
realizar algum outro trabalho específico (PETRVS
Mandatum, o ritual de lava-pés da Quinta-Feira
Santa, inspirado pelo exemplo do Cristo na Santa VENERABILIS, 1975, statutum, 23). E justifica isso
Ceia: os monges lavavam os pés uns dos outros, dizendo que, do contrário, a circulação frequente de
assim como de alguns pobres, que nessa ocasião visitantes, clérigos ou laicos e especialmente de
também recebiam um pouco de vinho, dois denários familiares, transformaria o claustro em uma via
e uma pequena refeição (VDALRICVS, 2, 37). Além pública.
dessa cerimônia do Mandatum na Quinta-Feira Santa,
havia outra que acontecia diariamente, mas nesse caso Considerações finais
os pobres não eram trazidos para o mosteiro.
A atitude de Pedro, o Venerável é bastante
Outras cerimônias poderiam acontecer no
significativa das representações e funções dos
claustro. No mosteiro cluniacense de Moissac, por
claustros beneditinos: importava antes de tudo que
exemplo, era realizado um ritual específico quando
ele não fosse uma "via pública", mas um espaço da
da festa de são Pedro e são Paulo em frente ao capitel
vida privada – e mais que privada, diríamos mesmo
com a representação do martírios dos santos, que
possuía um relicário incrustado em uma de suas fechada. Assim, somente aqueles que se fechavam
faces. De acordo com Marguerite Vidal, nesse dia naquele espaço, que cumpriam com as normas e
havia uma procissão feita àquele capitel, que era exigências da vida monástica, que levavam uma vida
incensado (VIDAL, 1967, p. 7). santa, poderiam ser dignos de estar naquele território
O papel litúrgico do claustro era acrescido ainda construído, material e simbolicamente, à imagem da
pela presença da sala capitular em uma de suas topografia paradisíaca. Somente eles, portanto,
galerias. Este era um dos lugares mais importantes poderiam levar uma vida que se pretendia uma
para o funcionamento da comunidade, reunindo, antecipação da vida celeste.
além de funções litúrgicas, outras de caráter
administrativo, político e normativo. Era o local Referências
onde quotidianamente eram lidos a regra, o AELREDVS ABBATIS RIEVALLENSIS. Sermones. Edição:
martirológio e o necrológio, onde o trabalho manual Talbot, C. H. Roma: Curia generale sacri ordinis cisterciensis, 1952.
era distribuído, as culpas, confessadas e as punições, (Series Scriptorum S. Ordinis Cisterciensis, t. 1).
aplicadas. Ou seja, tratava-se do local de maior poder BENEDICTI REGVLA MONACHORVM. A Regra de
no mosteiro. Uma passagem da Legenda Áurea São Bento. Edição e tradução: Enout, J. E. Latim-
permite ilustrar bem a importância deste local, português. Rio de Janeiro: Lumen Christi, 1990.
quando é relatado o diálogo entre São Domingos e BERNARDVM. Ordo Cluniacensis. Edição: Herrgott, M.
um diabo que se recusava a entrar na sala capitular Paris: C. Osmont, 1726.
de um mosteiro (VARAZZE, 2003, p. 626-627): BOUSQUET, J. Problèmes d'origine des cloîtres romans.
Nunca entrarei aí [diz o diabo], que é para mim um Histoire et stylistique. De l'époque carolingienne à
inferno e lugar de maldição, onde perco tudo o que Aurillac, Conques et Moissac. Cahiers de S. Michel de
ganhei nos outros lugares. Quando faço algum frade Cuxa, v. 7, p. 7-33, 1976.
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