● Rascunho cena #1
- Eu deveria me preocupar com seu pai? - A caminho da festa, no carro, Gabriel
dirige com um certo pavor escondido no olhar. Não que meu pai fosse rígido o
tempo todo, porém isso realmente me surpreendeu.
- Claro que não… - tento demonstrar certeza fixando os olhos na pista à nossa
frente. Pensando melhor, eu estava mais duvidosa que ele - Você nem precisava
ter pedido - resmungo. Obviamente ele ainda tinha certa dificuldade em deixar que
eu tomasse responsabilidade de minhas escolhas.
- Então… - ele pretende continuar, mas ao encontrar meus olhos irritados, muda
de assunto pigarreando. - Minha entrada atrasada não foi tão ruim quanto achei
que seria. Será que eles vão precisar de algum stand-up no casamento? - Nunca,
em toda tevê brasileira, pude vislumbrar algo tão bom e engraçado em toda a
minha vida. Silvio Santos não sabe o que está perdendo. O riso que se prendeu na
igreja volta de imediato com mais força, fazendo meu corpo se curvar para frente
numa risada presa, que, com meu corpo voltando à vertical, vibra em minha
garganta estridentemente como de uma pessoa escandalosa. Cubro minha boca
com uma das mãos, envergonhada, ainda escutando-a, porém o som vinha do
banco ao lado, de forma mais grave e descontraída. Suas mãos se desprendem
por alguns segundos do volante, trazendo consigo cenas embaçadas de um
acidente distinto que arrepia minha espinha de cima a baixo. Na rua adiante, um
carro freia ao semáforo que muda do amarelo para o vermelho de repente. Agarrei-
me com urgência suas mãos de volta ao volante, levando uma das pernas para o
lado do motorista esmagando o pé de Gabriel e freando bruscamente o carro. O
veículo estagna alguns centímetros do próximo, arremessando nossos corpos,
enrolados pela minha pequena peripécia, para frente do painel e de volta para os
bancos de couro. Meus olhos não se fecharam desde o início, sendo pior ao piscar
com a tontura causada pelo impacto na cabeça. A fumaça da pista era perceptível,
e o barulho de antes ainda mais. Acredito ser minha imaginação atacando
novamente, porém ao ver um rastro de sangue escorrer pelo nariz de Gabriel, vejo
que não fui a única a perder a cabeça.
- Deus! - lanço procurando alguns lenços na bolsa. - Tente inclinar a cabeça para
trás. - Peço lutando com as desnecessárias coisas na minha bolsa. Vejo de relance
sua mão mexer no nariz de leve em seguida de um gemido baixo. Ele olha para os
lados como se ainda não entendesse. De súbito vários filmes e casos em revistas
e jornais que mostram acidentes de carro em que a pessoa adquire deficiência
auditiva passa pela minha cabeça. E se ele estivesse surdo? Ou estaria com um
eterno zumbido no ouvido que só se abafa ao ouvir música? Bato uma das palmas
na outra em alto som como só eu conseguia fazer desde os oito anos, fazendo seu
corpo pular em susto olhando espantado para mim. Meus olhos estão grudados em
seu rosto procurando algum sinal de surdez.
- Se isso serve para ver meus reflexos, pode acreditar que é o suficiente - diz
ainda segurando o nariz entre os dedos. Graças a Deus! Um suspiro pesado é
liberado dos meus pulmões que murcham.
- Pensei que estivesse surdo. - Volto à bolsa ainda à procura dos lencinhos.
- Só você para pensar nisso numa hora dessas. - Revira os olhos. - Você está b…
- Achei!! - o interrompo. Alcanço o pacotinho com rapidez retirando alguns lenços
que não chegam a mão do indivíduo machucado. Ouço então algumas buzinas na
traseira do carro, recordando que ainda estávamos no meio da rua. - Eu acho que
estamos causando um pequeno engarrafamento. - Observamos pelo retrovisor
uma fila que começava a se estender. Inclinando o volante ele solta o nariz que
volta a escorrer, assim avanço com os lencinhos tampando-o. Éramos um
emaranhado de braços e pernas tentando ocupar um único banco, e para
melhorar, meus seios insistiam em se aproximar de seu peito largo me trazendo,
além de tudo, pouco equilíbrio. Estávamos ao lado de um supermercado sendo o
estacionamento um lugar mais seguro para encostar o carro.
Ao encostar jogo os lencinhos sujos de sangue numa sacola que rondava aquele
carro por não sei quanto tempo, ajeitando as pernas entre as suas, definitivamente
sentando em seu colo. Observo-o com o rosto quente, enquanto recebo um aceno
de cabeça. Parece que eu era a única incomodada com aquilo. Apanho outros
limpando algumas linhas vermelhas que se estendiam até seu queixo.
Sinceramente, antes, esperei que uma discussão começasse sobre eu limpar sua
ferida, mas Gabriel está extremamente calmo com os olhos fechados, me
presenteando alguns instantes para admirar seu rosto. Ele era naturalmente sério
quando relaxado, como se não pensasse em nada. Os lábios fartos e largos tinham
um tom rosado escuro que não notava antes. As maçãs do rosto só eram vistas ao
exibir o sorriso que, sem sombra de dúvida, encanta muitas mulheres. Era
estranho como com poucos dias eu me sentia tão familiar a ele, como se já nos
conhecemos a muito tempo. Devagar observei seus lábios se afastarem com um
pequeno suspiro. Ele está dormindo? Levo as mãos aos seus ombros pronto para
sacudí-lo, porém sua voz se materializa antes.
- Por quanto tempo pretende demorar? - Então seus olhos se abrem,
demonstrando como a cor de uma esmeralda é realmente. O verde daquelas
órbitas destacam na pele de capuccino brilhante, como se duas jóias fossem
deixadas no meio de grãos de café.
- Se quiser chegar assim na festa para causar outra boa impressão, então sairei
de cima de você - digo já puxando uma das pernas.
- Jô, não seja tão orgulhosa - diz antes segurando a lateral do meu rosto. - Você
também faria um pequeno show. - Pegando um dos lencinhos encosta-o de leve
em minha testa, trazendo a minha frente o lenço pintado de rubro vivo, que até
então, não havia percebido. Olho pelo retrovisor o corte pequeno porém visível.
- Eu posso? - indica o machucado. Afirmo com um balanço de cabeça sem me
concentrar pois sua mão ainda se mantém em meu rosto. - Não garanto que sua
maquiagem saia intacta. - Entrega um sorriso torto.
- Sem problema, eu trouxe algumas coisinhas, sabe… no caso de quase morrer. -
Ouço um breve riso ruborizar da garganta dele, como meu corpo agora. É
frustrante perceber que estou me comportando como uma adolescente no auge da
puberdade, pois até sua respiração estava me deixando enlouquecida.
Ele termina jogando o lenço na mesma sacola de antes. Voltamos aos nossos
assentos nos ajeitando, Gabriel alisando e arrumando o paletó e a calça, eu e
alguns babados da barra do vestido dobrando-se para baixo mais uma vez. Olho
novamente o machucado no retrovisor passando o dedo como se pudesse apagá-
lo. Mamãe seria a primeira a me encher de perguntas racionais, e Ali a segunda
com perguntas nada racionais. Ela sempre estava além do real ocorrido.
- Acha que voltará a sangrar? - pergunto recebendo seu olhar atento. Por um
momento ele exita em algo, porém logo se ergue pela divisão dos assentos
aproximando o rosto ao meu selando minha testa, acima do machucado, com os
lábios.
- Não mais - diz seriamente envergonhado. Eu o observo atônita e penso em
desviar seu olhar, mas ele me prendeu de um jeito quase perceptível e mortal,
levando a mim efeitos como de uma parada cardíaca. Mãos suando. Coração
palpitante como de um coelho. Dificuldade em respirar. Abro os lábios de leve em
meio a toda aquela adrenalina, que em resposta atrai os olhos em brasa de
Gabriel. Ele se aproxima novamente, como na noite passada, inclinando devagar a
cabeça voltando aos meus olhos procurando uma resposta. Porém, dessa vez, eu
copio seu movimento respondendo-o. De relance vejo um pequeno sorriso brincar
por aqueles lábios que me capturam em seguida.
● Rascunho cena #2
● ELA:
Caminhávamos em silêncio. Se aquilo era alguma ajuda do universo, eu ainda
não havia entendido. Não vou mentir, não pensei em puxar conversa porque, era
meio óbvio, eu não fazia ideia do que conversar. Não o via muito, e quando via, era
para pedir alguma informação ou observava-o de longe tocando com outros
alunos. Não era nem meu professor para começo de conversa, por que diabos
estávamos indo tomar alguma coisa? E ainda tinha isso. Uma coisinha muito
importante que afligia, boa parte da minha vida era que eu não sou de beber.
Quando saía com meus amigos eles sabiam que eu pediria um suco ou refri, mas
jamais cerveja ou algo muito alcoólico, pois automaticamente minha mente derretia
e descia goela abaixo junto com a bebida e a vergonha na cara. Na primeira e
única vez que tomei uma latinha de cerveja acabei fazendo um cover de três horas
da beyoncé na sala de Henrique, e mesmo depois de dormir continuei
resmungando “Hold up”. Eu jamais iria acreditar numa coisa dessa se não tivessem
filmado. Naquela manhã todos acordaram de ressaca e eu com dor de garganta.
Então, não seria algo que eu gostaria de repetir, ainda mais na frente de alguém da
faculdade.
● ELE:
Tudo bem. Eu não lembro o que exatamente disse, só sei que já estamos na
frente do bar perto do parque da cidade, não dissemos uma palavra desde que
concordamos em vir, e minha mãos estão suando.
O que eu realmente disse? “Quer beber alguma coisa?”. “Está sozinha?”.
Eu flertei com ela?
Observo seu rosto de esguelha. Sua expressão está séria como sempre, acho
que nunca vi seus dentes. A um tempo já notei, quase sempre seus olhos se
demoram na janela da grande sala de música ao passar. Pensei ser uma de
minhas alunas, mas ela faz psicologia, meio difícil de acreditar. O Dr. Gomes, em
um de seus desabafos, disse que muitos não conseguem realizar a comunicação
necessária em um simples teste. Talvez ela seja um deles.
Empurro a porta e dou espaço para que ela passe primeiro, logo sigo às suas
costas percorrendo os olhos na cabana aberta já conhecida. O lugar é
aconchegante com luzes amarelas iluminando o piso marrom de madeira e
paredes de carvalho claro. Na entrada, nos cantos encostado nas paredes de um
lado, havia variados sofás com mesas curtas na frente, e mais no meio, mesas
redondas altas juntamente com as cadeiras eram infestadas de pessoas rindo e
falando alto com copos vazios, que logo enchiam novamente de bebida, rostos
cansados e aliviados de álcool e pela gratificante noite de sexta feira. Ao fundo,
perto dos banheiros, um pequeno palco com dois suportes para microfone e quatro
caixas de som, duas de cada lado, eram usados por dois rapazes, no qual
cantavam e tocavam, um deles com um violão, “Bem Melhor” do Lagum
animadamente, enquanto garçons saiam de trás da bancada do bar, no outro canto
da cabana, às pressas e com certa agilidade, pois mesmo com alguns, claramente
bêbados, em pé dançando desajeitadamente por alguns cantos, eles passavam
sem receio de algo cair. Podia se dizer que era uma bagunça familiar organizada.
Reparo na cabeça de Jodie se movendo de um lado para o outro, tentando
acompanhar todo o salão.
- Onde vamos nos sentar? - pergunta quase aos gritos virando-se de frente para
mim. Seus lábios estavam levemente esticados, quase sorrindo. Isso era novo.
- Ali - grito de volta apontando dois banquinhos vazios na bancada do bar. Ela
assentiu com a cabeça continuando a admirar o ambiente em direção aos bancos.
Já sentados levanto o braço brevemente ao barman. Ele olha de relance e
continua com a distribuição de bebidas na ponta da esquerda onde um grupo de
rapazes cantavam com os braços nos ombros e gargalhadas altíssimas.
- O que achou do lugar? - puxo conversa à espera do barman. Não podíamos
ficar em silêncio a noite toda, mesmo que minha prioridade fosse o álcool em si.
- É diferente - os olhos de Jodie brilham com ruguinhas nos cantos. - Parece
muito divertido para falar a verdade. Você vem muito aqui?
- Quase nunca - vejo outro barman vindo em nossa direção. - Geralmente venho
com uns amigos, mas todos estavam ocupados com uma festa…
- De dois dias em Laguna - eu me atento a ela que desvia o olhar para os rapazes
que terminaram de cantar. Uma mulher ruiva sobe com o violão do anterior e
começa a tocar. Não conheço essa. - Todos estão indo para lá.
- Todos menos você - disparo sem intenção. Penso em pedir desculpas, mas
ouço depois:
- Você também está aqui - retruca sem um pingo de ofensa. Fico surpreso com
seu divertimento. Antes que eu responda, o Bartender chega com a atenção em
nós.
- Boa noite. O que vão querer?
- Eu vou querer a de sempre - pisco para David que revira os olhos.
- Eu esqueço que você não muda - fala mais para si do que para mim. - Uma
cerveja para o garotão… e você querida? O que vai querer? - Vira-se para Jodie.
- Boa noite… - sorri nervosa. Percebo observando seus olhos inquietos olharem
para a prateleira atrás de David, como se fossem cair em cima dela. - O que tiver
menos álcool, por favor. - Diz por fim com um suspiro pesado.
- Tudo bem, um coquetel então. - Ele sorri e sai apressado sem parecer notar.
- É alcoólatra? - pergunto direto. Tudo que eu não queria era trazer um alcoólatra
para o bar.
- Eu tenho cara de alcoólatra? - diz sarcástica. Não. Ela não tinha cara de ter
esse tipo de problema, mas geralmente seu rosto não demonstrava muito coisa.
- Sim? - Brinco. Seu rosto continua sério, mas seus olhos me fuzilavam com certa
incredulidade. - Estou só brincando. - Cruzo os braços, apoiando-os na bancada. -
Você não se parece com alguém que tem problemas com álcool. Mas… posso te
perguntar uma coisa? - Ela assenti. - Você tem problemas com seus sentimentos?
- Nome: Gabriel. Qualidade: ser direto. Defeito: ser direto. Eu pergunto, a pessoa
me xinga, pareço babaca, a conversa termina. Talvez fosse pela maneira
intrometida que foram pronunciadas, porém, dessa vez, tudo que ouço é uma
risada baixa e estridente no assento ao lado.
- Me diga, professor, você já viu alguém com problemas sentimentais? - Apoia o
cotovelo na bancada, com a mão segurando o rosto virado diretamente para meu.
- Acho que não - respondo. Seus olhos cintilam na superfície castanha escura
que eram suas íris. Ela parecia estar se divertindo?
- Então, porque acha que tenho?
- Porque não é fácil decifrá-la - digo surpreso. Porém aquilo era verdade. Fazia
um tempo que aquilo me incomodava. Ela aparecia na janela da sala, pelos
corredores, campos e até no refeitório, sempre com o mesmo semblante, como se
sua alma estivesse a quilômetros dali e seu corpo acidentalmente havia ficado. Eu
havia me interessado por aquela alma penada que passava despercebida pela
universidade. Queria ajudá-la de alguma forma. Saio devaneio encontrando-a tão
surpresa quanto eu. Continuamos a nos olhar por um milésimo de segundo, sendo
suficiente para ela corar e desviar o olhar para, até que enfim, David que trazia
nossas bebidas com gotículas pequenas de suor na testa.
- Desculpe a demora. Essa noite está uma loucura. - Ele coloca ambos os copos
á nossa frente. - Uma cerveja para o garotão - Arrasta um copo com a bebida
amarela e uma pequena camada de espuma em cima para mim. - E… - Empurra
um copo com a bebida branca com um pequeno pedaço de abacaxi cravado na
borda do copo e um canudo. - Piña Colada para a, senhorita? - pergunta
claramente interessado.
- Jodie, Obrigado - diz indicando o copo.
- Sem problema. Sou David, irmão de Gabriel - Estende a mão para Jodie, que
estende a sua, apertando-a. - Ele está te incomodando? - Inclina a cabeça para
mim.
- Não, ainda não. - Sorri zombeteira.
- Então está tudo bem, por enquanto. - Agora os dois sorriem debochadamente.
Parecem farinha do mesmo saco.
- Mas, se quiser, posso ficar de olho nele enquanto você está ocupado - brinca. -
Claro, se você precisar. - diz fingindo seriedade. Ele gargalha de imediato com
certo gosto, sendo que ao se recompor está com os olhos marejados de tanto rir.
- Faça esse favor para mim, por favor - De repente outro barman aparece o
chamando. - Já estou indo - grita em sua direção. - Eu tenho que ir, se precisarem
de alguma coisa é só chamar. - Antes de sair ele pisca para Jodie que retribui com
um sorriso tímido.
- Então… Você é um incômodo? - se volta para mim depois de um gole.
- Eu tenho cara de incômodo? - pergunto encarando.
- Sim? - responde com o sorriso frouxo antes de tomar outro gole. Outra gracinha.
Isso é novo.
● ELA:
Está tudo bem. Tenho total controle do meu corpo e não vou deixar o álcool subir
para cabeça de novo.
Sou uma universitária e não uma adolescente que acabou de descobrir a bebida
alcoólica.
Tudo bem. Não está tudo bem. Esse negócio de mantra nunca funcionou comigo,
nem sei porque estou tentando, mas se eu tivesse pelo menos um pouquinho de
maturidade para aguentar uma Piña Colada sem enlouquecer seria um milagre.
Porém essa sensação quente que se planta no peito já me tira a consciência.
Perguntei a Gabriel como foi sua semana, uma conversa jogada para a culatra,
pois não prestei atenção, mas pelo seu sorriso de canto parecia ter sido bom.
Sorrio de volta sentindo o suor nas mãos aumentar. Isso era só a primeira fase. A
próxima seria o sorriso frouxo. Observo seu rosto direcionando a mim e ao copo
enquanto falava. Ele levanta o braço de relance chamando um dos Bartender para
encher seu copo mais uma vez. O que lhe servia não era David, seu irmão, muito
bonito por sinal. Fazia tempo que um rapaz não piscava para mim sem pedir a
resposta da questão antes. Ouço alguém me chamando com ao levantar o rosto
que sem perceber baixara. Ao erguer o semblante encontro os olhos do professor
ao meu lado. Eles estavam escuros naquele ambiente amadeirado, mas
continuavam intensamente verdes. Era hipnotizante. Ele mexe a boca, mas não
escuto, o barulho das conversas havia se intensificado. Aproximo o tronco de seu
corpo quase colando a boca em sua orelha, enquanto devagar seu perfume, que
não consigo distinguir qual seu principal aroma pois me embriagava junto a bebida,
penetra em minhas narinas.
- Eu não estou te ouvindo.
Ele recua com a aproximação repentina e o semblante em dúvida, porém, logo
deduz minha inevitável situação.
- Você está bem? Parece até que já está… - Agora ele se aproxima com o rosto
centímetros do meu, inalando profundo aquele curto espaço entre nós. - Você está
bêbada. - Não era uma pergunta.
- Como pode ter certeza? - digo com as palavras arrastando-se na língua. - E não
me diga que eu sou alcoolatra de novo… - dou uma risada como, obviamente, uma
bêbada. - Porque aquilo me deixou realmente puta… e... não é nada, NADA
LEGAL acusar alguém de algo que ela não é. - Tomo o último gole batendo o copo
em seguida. O homem ao meu lado não se mexia de espanto com a mudança
repentina de humor da maluca ao seu lado. Eu o encaro com os olhos marejados.
Essa era a quinta e a pior fase, pois depois dela eu não lembrava de mais nada.
Respirei fundo fechando os olhos devagar, tentando manter o controle e a calma.
Penso em levantar, pagar pela bebida e ir embora, porém, ao alcançar a alça da
mochila sinto uma mão firme e quente repousar em meu ombro.
● Rascunho cena #3
Fecho a porta da frente quase que a batendo. Tiro o calçado com as pontas dos
pés empurrando a parte de trás no calcanhar deixando-os jogados na sala. Com
descuido, quase derrubando outras louças do corredor, pego uma taça que logo
abandonei na pia vazia. Minha cabeça latejava e pulsava com força, mas devagar,
me agoniando. Abro a geladeira, encontrando, pegando e abrindo a garrafa de
vinho pela metade. Era a única coisa alcoólica na casa, então, era algo valioso
naquele país que eu chamo de apartamento. Tomo um gole, sem exagero,
saboreando o calor gostoso que se espalhava pelo peito. Tomo outro gole bem
devagar, como se fossem as últimas gotas de vinho na face da terra. Se alguém
me visse, pensaria ter achado uma alcoólatra. Espero sentir o sufoco se soltar do
meu pescoço. Porém não adianta. Não sinto gosto de vinho, mas sim de Gabi,
envolvendo meu corpo e descansando em aconchego no coração. Eu já havia lido
e sentido, porém pouco, desse sentimento. Lágrimas pesadas, cheias ameaçavam
cair relutantes por cada traço do meu rosto, com vergonha. Vergonha de mim, de
mim e só de mim. Será que o amor pode matar? Porque aquilo estava me
matando, tanto quanto a dor do meu útero inchado. Solto a garrafa, caminhando
em arrasto para o quarto, mas, ainda no corredor, ouço passos ligeiros às escadas.
Olho para trás, para a porta aberta, e o homem afronte dela me encarando com o
rosto angustiado. Ele fecha a porta ainda me olhando, deixa as sacolas que trazia
na mesa da cozinha e vem de braços abertos para mim, como no sonho passado.
Sinto o pulsar errar uma batida ao sentir seus olhos cintilarem aos meus. As
lágrimas vem com violência ainda envergonhadas ao sentir seus braços grandes e
quentes ao meu redor, um braço na cintura outro estendido para sua mão segurar
meu rosto. Afundo meu rosto em seu pescoço inalando seu cheiro doce de café
pela manhã. Enrolo ambos os braços em seu tronco largo.
- Eu estou aqui - diz no meu ouvido. Eu o solto para contemplar e admirar seu
rosto, porém, em segundos, seus lábios se aconchegam aos meus como o abraço
de agora. Abro-os para sentir seu gosto, quando sua língua adentra minha boca e
enlaça-a a minha. Sua mão ainda segurava meu rosto e as minhas descansam em
seu peito. Me afasto procurando ar, me deparando com suas íris esmeraldas
cantarem uma melodia silenciosa de súplica para que tudo estivesse bem.
- O que houve? - resvala seu polegar em minha bochecha devagar.
- Eu acho que estou naqueles dias - digo olhando para a barriga inchada. - E
também… - clamo dramática. - Acho que estava com saudades. - Observo seu
rosto. Ele está realmente surpreso. Eu podia não ter falado nada, mas senti a
necessidade de ele saber o que sinto. Porque às vezes, retrato seus olhos ainda
confusos, como se não soubesse o que eu sentia sobre ele e nossa relação,
porém, de agora em diante, diria tudo que eu pudesse para mostrar quanto eu o
amava. Só espero que ele aprenda a entender meu silêncio com o tempo. Falar
muito não era meu forte.
- Isso é novo - sorri abobado.
- Desculpe se eu te preocupei - abraço seu pescoço. - Eu realmente estava com
saudades de você.
- E do que você sentiu saudades em mim? - diz baixinho como um sussurro nos
meus cabelos. Uma coisa que ando aprendendo, é que as palavras são
fisicamente palpáveis para Gabriel. Ele pode até deduzir o que você tem, mas
nunca deixa de ouvir o que você quiser falar, mesmo que seja algo banal. Palavras
fortes o machucam fortemente, palavras gentis o abraçam fortemente. Ele é assim.
O meu contrário.
- Tudo, desde sua mente ao seu coração. - digo por fim olhando no fundo de seus
lagos esverdeados. Parece que eu havia o surpreendido mais uma vez, pois ele
alterna seus olhos de um lado para o outro, do meu olho esquerdo ao direito várias
vezes recebendo todo significado que aquela frase poderia ter. Ele, então, se
aproxima mais uma vez, encostando seus lábios no lóbulo de minha orelha
esquerda e mordendo-a não muito forte, mas o suficiente para eu sentir a onda de
dor e muito prazer percorrer meu corpo. - O que... está fazendo? - minha
respiração saiu entrecortada.
- Conferindo se você é minha Jodie - ele sai dos meus cachos e me beija
diferente, realmente conferindo. Mordendo de leve meu lábio inferior, enrolando e
sugando devagar minha língua com grande ternura, me fazendo derreter por inteira
em seus braços. Ele se afasta ofegante de imediato, como se nosso contato
queimasse. - O gosto e a sensação é a mesma. Meu diagnóstico indica que
● Rascunho cena #4
Imagine uma segunda-feira normal, com a casa uma bagunça tendo ainda horário
para sair da cama cedo pois a semana de exames estava prestes a começar e o
conteúdo passava quase em branco pelo cansaço de estudar. Mas algo estava
diferente. O ranger da cama estava mais denso, o cheiro do quarto estava
levemente adocicado, como se a pessoa certa estivesse na cama certa na manhã
errada. Era 7:40 de segunda e um certo professor de música se encontrava aos
roncos ao meu lado. Eu não compartilho a cama com alguém há sete anos. Eu
esperava ficar incomodada, ainda que algumas vezes, na madrugada, senti seu
corpo se mexendo várias vezes, mas em nenhuma das vezes ele se afastava, se
recolhia. De todos os modos em que se enrolava entre o cobertor e eu, ou sua mão
estava se entrelaçando a minha, ou seu braço descansava em minha cintura, ou
suas pernas enroscavam entre as minhas, sendo tudo que pude sentir, e raciocinar
em meio aquele aconchego de carinho, cansaço e paixão era o quanto eu amava
ele. E isso me assustou por um dois minutos, depois me senti tão feliz que comecei
a hiperventilar com o coração pesando mais que aqueles dois corpos em cima do
colchão.
Faz quase vinte minutos que acordei e estou olhando ele dormindo. Eu sei, meio
psicopata. Mas sabe quando você gosta tanto de algo que só de olhar você se
sente feliz. É essa a sensação. A chuva, antes caía como garoa, crescia conforme
o vento tempestuoso perambulava pela varanda do quarto, respingando forte na
porta de vidro. Volto minha atenção a Gabriel, que repousava a mão em minha
coxa me fazendo relembrar o quanto nossa intimidade havia crescido. Agora
tínhamos beijos roubados, ao sair, ao chegar, ao rir, ao cozinhar, ao discutir;
abraços ao ver teve, ao dormir, ao levantar. Esperei que isso virasse um clichê na
minha cabeça, que ficasse enjoada desse toque todo, mas eu adorava cada
instante como se fosse o primeiro.
Uma grande trovoada se alastra no céu cinza ruborizando pelo apartamento. Eu
adorava cada segundo de uma tempestade, era como um grande manifesto dos
céus, muitas vezes presenteando a terra, outras vezes prejudicando-a. Me
aconchego mais no corpo quente e esguio de Gabi que abre os olhos devagar e
sonolentos.
-Bom dia querida - boceja antes de beliscar os lábios em minha testa. - O mundo
está acabando ou isso é minha barriga?
- É só uma grande tempestade em plena segunda-feira - digo rindo.
- E o sono logo volta - diz desanimado tirando a cabeça do travesseiro e
descansando em meu colo. - Ok, primeira verdade do dia… eu adoro essas
garotas… - agora a metade de seu corpo descansa em cima do meu. - São como
travesseiros portáteis.
- Só se for para você