Eu Disse Que Nao - Rita Robalo Rosa
Eu Disse Que Nao - Rita Robalo Rosa
Saí da casa de banho. Demorei mais tempo do que pensava, pois perdia-me
sempre naquela casa enorme. São três portas até ao quarto dele — e eu acabava
sempre a contá-las mal —, mas mesmo que não soubesse como voltar, o cheiro
das velas que ele tinha acendido no quarto era inconfundível.
Ainda mal tinha passado a porta que me levava para o seu mundo, quando
reparei que ele se apressou a guardar o que tinha na mão. Estava a mexer no
meu telemóvel. Ainda hoje não acredito como não percebi logo nesse dia tudo o
que estava errado.
g
Vesti a minha melhor roupa para irmos ao bar da vila. Calças de cabedal
largas, all star bota com plataforma, um body com um ligeiro decote. Sentia-me
mesmo gira.
— Uau — ouvi em uníssono as meninas dizerem.
Fiquei feliz, esmerei-me. Andávamos há cerca de dois meses, mas foi a
primeira vez que a minha mãe me deixou ir ao bar à noite com eles. Contudo, a
minha felicidade não durou muito.
— Onde pensas que vais assim vestida? Se calhar vamos para casa.
Agarrou-me na mão, puxou-me atrás dele e fomos embora.
Já não me lembro do que fiz, ou do que ele fez. Sei que a mão dele apertou o
meu pulso com tal intensidade que deixou marca. Cinco minutos depois, estava
tudo bem (era regularmente assim, parecia que nunca nada acontecia), e
continuamos a nossa caminhada pelo jardim perto de uma casa de marqueses
(um palacete, no fundo) para irmos ter com os nossos amigos ao café. Puxei as
mangas para baixo. Quando cheguei a casa, tinha o pulso pintado de negro.
g
Estávamos apenas a falar do que íamos vestir para a festa de Halloween. De
repente, ele apertou-me a perna.
— O que significa isso? O que tens de vestir? — perguntou.
Barafustei. Estava farta de que ele tentasse controlar tudo o que visto ou
deixo de vestir (e eu nem sequer queria ir sexy como as minhas amigas). Não o
devia ter feito, pois ele apertou-me ainda mais a perna. Acho que a minha
circulação parou nesse momento. Levantei-me para ir à casa de banho, não
queria arranjar mais problemas. Fiquei lá parada, com o meu coração bem
apertadinho, sem saber o que fazer.
Fui a casa de um amigo. Um amigo dos dois. Porque é que ele me chateou
com isto? Aliás, porque é que ele se chateou com isso? O que é que eu fiz de
mal? Ele gritava ao fundo, eu respondia sem pensar, nem parecia estar em mim,
sentia que estava a assistir a toda esta cena de fora. Ouvi-o a dizer que me viu.
— Andas a espiar-me? — respondi entre gritos e com a voz a tremer.
Ele parou, levantou a mão e disse:
— Ou te calas, ou…
g
Quando ele estava com ciúmes nem parecia a mesma pessoa. Veio ter comigo
a minha casa só para me dar na cabeça por ter ido para casa com o melhor amigo
dele — algo que antes de nós começarmos a namorar fazíamos quase todos os
dias. Não sabia o que dizer, a minha mãe estava em casa e tentei não levantar
muito a voz.
— Como foste capaz? — perguntou-me, como se eu tivesse feito algo de
errado. Pela sua voz, parecia que o tinha traído.
— Não fiz nada.
Os olhos dele começaram a ficar vermelhos, e não consegui perceber se estava
a chorar por mim, por ele, ou mesmo de raiva.
— Como ainda és capaz de dizer isso? — gritou, ao mesmo tempo que deu
um murro na parede.
Eu podia ser a parede.
— Deves achar que és melhor do que eu — continuava aos berros, e pegou
num globo de neve que me tinha dado e atirou-o ao chão.
Ouviram-se pedaços a estilhaçar. Eu podia ser o globo de neve.
«Tu deves achar que és mais esperta do que eu.» Recebi esta mensagem
assim que acordei — foi uma bela forma de começar o dia, sem dúvida. Fiquei
logo cheia de medo, a pensar no que ele me poderia fazer. Já estava num ponto
em que não aguentava, acho que já não aguentava há vários meses, mesmo que
não o admitisse.
A mensagem nem foi o pior. Assim que me viu, tinha raiva estampada no
olhar, não sei como não espumava da boca.
«És isto e és aquilo» — nem sequer o estava a ouvir bem, tantos insultos,
mais do mesmo. Os meus ouvidos acabaram por bloqueá-lo com o passar do
tempo, mas dessa vez não consegui ficar calada.
Virei-lhe costas, o pior erro que podia ter cometido. Senti a mão nele na
minha cabeça, a agarrar-me os cabelos, a gritar comigo, a insultar-me.
g
— És uma mentirosa! — gritou, em frente a toda a escola, no meio do átrio.
E como o insulto não lhe bastava, empurrou-me e eu caí de rabo no chão.
Eu disse que não.
1
Acredito no amor
«‘Cause when you’re fifteen,
Somebody tells you they love you
You’re gonna believe them»
Swift, Taylor (2008)
[ Laura ]
Amão dele está entrelaçada na minha. Este gesto é tudo aquilo de que preciso,
tudo o que me dá a segurança de que estou protegida do mundo. Do mundo,
sim, mas à medida que a nossa relação vai envelhecendo uns meses, começo a
questionar se estou protegida dos demónios que habitam a sua cabeça, que se
expressam nas suas palavras e se fazem sentir nas suas mãos.
Adoro-o, a sério. Há seis meses que assim é. Talvez esteja a exagerar, só temos
17 anos, acabadinhos de fazer, mas nunca gostei assim tanto de alguém. Há
quem diga que estou cegamente apaixonada. Eu acho piada, mas não estou. Sei
bem a peça que me calhou, acho. E falar em paixão parece-me um exagero. É
mais um conforto, um quentinho no coração que sinto ao lado desta pessoa que,
além de meu namorado, é meu amigo há cerca de sete anos.
Começámos a namorar no ano letivo passado, em abril, e têm sido uns meses
maravilhosos. Ele tem as suas coisas, ninguém é perfeito, mas não podia pedir
namorado melhor que o Manuel. Pelo menos era assim no início; agora começo
a ter as minhas dúvidas, ainda que continue a adorá-lo tal como quando tudo
começou.
Quando fizemos um mês, levou-me a jantar fora a um restaurante de um chef
com estrela Michelin. Ficámos na melhor mesa, e as mesas à nossa volta estavam
também reservadas para que ninguém se sentasse perto de nós. No segundo
mês, ofereceu-me um conjunto da Pandora — eu nem sou muito dessas coisas,
confesso, mas era impossível não ficar derretida com o gesto dele. No terceiro
mês, veio buscar-me às 6h da manhã a casa e, com o motorista dele, fomos até
uma praia deserta na zona onde os pais têm a casa de férias. Só saímos de lá às
18h e, ainda assim, cheguei a casa depois da hora combinada. Ele desculpou-se
tanto à minha mãe, e ela nem se importou muito, viu o meu grande sorriso
assim que passei pela porta.
Em agosto, não estivemos juntos no nosso «mêsversário». Ele esteve sempre
com os pais, que foram a um congresso político não sei onde, nem sei bem para
fazer o quê. Não me quis meter muito no assunto porque os pais dele são
bastante diferentes de mim. E quando digo bastante diferentes, quero dizer que
estão no espectro político oposto ao meu. Não que eu tenha uma visão política
muito definida, ainda tenho muito para aprender, mas sei naquilo em que
acredito, e definitivamente não é no mesmo que eles. A única vez que fomos
jantar todos juntos, ainda antes de nós namorarmos, eles desvalorizaram por
completo tudo aquilo em que eu acredito, e nem sequer acreditam nas
alterações climáticas — em que mundo vivem?
No quinto mês, levou-me ao cinema, tinha-lhe pedido para fazermos algo
mais normal. Claro que ele recusou inicialmente, dizendo: «Porque é que tenho
de ir para um sítio com tanta gente se tenho a minha própria sala de cinema em
casa?» Mas eu insisti, pois há muito que não ia ao cinema e estava cheia de
saudades e ia estrear um novo filme com o meu ator preferido, Timothée
Chalamet — juro que gosto muito dele como ator, se bem que também seja um
deleite para os olhos.
Cerca de uma semana depois, fiz anos, a 11 de setembro — sim, o dia
fatídico para os Estados Unidos da América; todos os anos alguém me diz algo
sobre isso, e já estou farta de ouvir —, e ofereceu-me um vinil da Taylor Swift.
Gostei muito, ele sabe como a adoro, mas já tinha aquele disco (a nossa amiga
Diana tinha-mo oferecido assim que saiu, pois ela é tão louca por ela como eu).
Quando lhe disse, ripostou logo: «Como era suposto adivinhar?» Mas eu não
disse aquilo para o atacar, este tipo de coisas acontece, acho eu.
No sexto mês, que foi há apenas três dias, ele foi ter comigo a casa para me
oferecer um ramo de rosas. Eu agradeci, mas a verdade é que não gosto muito
de rosas. Pensava que lhe tinha dito isso, talvez não tenha dito, tenho de me
lembrar de lhe dizer, mas agora vou deixar passar uns dias.
Bem sei que tudo o que ele fez nos últimos seis meses por nós, e por mim, foi
graças ao dinheiro dos pais, mas a sério que ele é mesmo carinhoso comigo. Fora
uma ou outra situação, quase nunca discutimos, e ele é praticamente o líder do
nosso grupo de amigos. E da escola — é o presidente da Associação de
Estudantes desde o 10.º ano (o primeiro ano em que efetivamente se podia
candidatar). Toda a gente o conhece, e até tem um pavilhão com o nome dele,
ou melhor, o apelido. «Pavilhão Amorim», pois foram os pais que pagaram a
sua reconstrução.
Não diria que o Manuel é o rapaz mais giro do mundo, eu tenho olhos, mas
também não sou a rapariga mais bonita que existe à face da Terra. Ele tem um
olhar penetrante, com os olhos da cor do céu e o cabelo liso e curto da cor do
mel. É magro e parece mais alto do que realmente é — será por andar sempre
de queixo levantado? Tem lábios finos, um pescoço esguio e uns braços
surpreendentemente fortes para alguém magro.
Como sempre, desde que o ano letivo começou, há cerca de três semanas, que
às quartas-feiras nos dirigimos para o café, porque é o único dia em que
nenhuma das pessoas do nosso grupo de amigos tem aulas à tarde. Hoje é
quarta-feira, e é para lá que caminhamos. No ano passado, costumávamos ficar
no café umas boas horas, especialmente nos dias em que não tínhamos muito
para estudar. Este ano, até agora, temos sempre saído relativamente cedo — há
sempre algo que nos faz «zangar», pequenas tensões. Parece que a cola que nos
unia está a ficar seca.
— Estás pensativa, baby. O que se passa?
— O quê? Nada.
— Pronto, se tu o dizes... — E dá-me um beijo na testa. Não consigo
expressar em palavras o quanto adoro este pequeno beijo.
Quando ele se aproxima de mim, sinto o cheiro do seu perfume, One Million,
do Paco Rabanne, como não podia deixar de ser — a condizer com o seu
estatuto social. Cheira não só a riqueza, mas a conforto. Pelo menos, para mim
— mas hoje ainda não tenho como saber que este cheiro me vai perseguir
durante muito tempo na minha vida.
Conhecemo-nos desde que me mudei para Vila de Luz, com apenas dez anos.
Tive de me mudar porque os meus pais se separaram. O meu pai não ia muito a
casa e, quando lá estava, o ambiente não era o melhor. Hoje em dia, liga-me no
aniversário e no Natal e, se tiver sorte, lembra-se de me convidar para fazer algo
no Dia do Pai, o que não acontece há três anos.
Vila de Luz tem «vila» no nome, mas é uma cidade — nem muito pequena
nem muito grande. Temos tudo aqui perto e está suficientemente longe da
capital, Lisboa, para fugirmos à poluição que se instalou naquele céu, mas
também perto o suficiente caso precisemos de algo. Por exemplo, estamos agora
a passar por um jardim lindo, perto da casa dos marqueses da Luz (que deram o
nome à cidade), que fica perto da escola e do café. Ainda conseguimos ouvir os
passarinhos a cantar, e não as buzinas que se tornaram a banda sonora dos
habitantes da capital.
Eu e o Manuel vimos muitas vezes para aqui namorar. Sentamo-nos a falar
sobre tudo e sobre nada — sobre o presente, o passado e o futuro, ou então
preferimos nem falar.
Andamos devagar, mas pouco me importa, estou com ele.
— Adoro este lugar.
— Dizes sempre isso quando passamos aqui. Não percebo o fascínio.
— A vila já está bastante urbanizada, este é o único lugar que ainda tem um
charme do século xviii.
— Certo, mas se queres ver mansões, podes sempre ir à casa dos Amorim.
— Tudo contigo é uma desculpa para me levares lá a casa, não é?
Rimo-nos.
— Foi aqui que me pediste em namoro, lembras-te?
— Claro que me lembro, estava meganervoso.
— Porquê?
— Tinha medo de que dissesses que não. O que iriam pensar de mim?
— Ninguém rejeita o senhor Manuel Amorim.
Ri-me, mas algo soou estranho. Então ele estava nervoso não porque eu o
pudesse rejeitar, mas pelo que as pessoas iriam achar?
Comecei a gostar do Manuel no início do 11.º ano. Até então, éramos apenas
amigos. Ele não era, nem é, o mais giro do grupo, mas tinha um certo mistério
que me atraía. Além do mais, o Guilherme — sem dúvida o rapaz mais bonito
do nosso grupo, ou até da escola, para não arriscar dizer do país — era
demasiado cobiçado, e eu era tão próxima dele que não conseguia deixar de o
ver como um irmão (um irmão superatraente, mas ainda assim um irmão).
Não sei exatamente porque comecei a gostar do Manuel, mas lembro-me de
um dia em que fomos ver uma das suas provas de equitação e algo despertou em
mim um sentimento que ainda hoje não consigo explicar. A Diana diz que
percebeu logo que eu tinha os olhos a brilhar — mesmo que não perceba bem
como, pois já não é a maior fã dele.
Ele trata melhor os cavalos dele do que trata a maioria das pessoas. Depois da
prova, ele foi mimar os cavalos, tal como o comum dos mortais mima o seu gato
ou cão.
— É a Rapunzel — disse, na altura.
— Que nome original. Deixa-me adivinhar, pelos seus longos cabelos —
respondi a rir-me.
— Não, claro que não, pela sua longa crina. Os cavalos não têm cabelos,
Laura! — disse, a sorrir para mim.
Desde esse dia que passei a não tirar os olhos dele. Acho que houve um
momento em que já toda a gente tinha reparado, menos ele. Quanto a ele, ainda
hoje não sei o que viu em mim para passarmos de amigos a namorados. Nem
um beijo tínhamos dado antes de ele me pedir em namoro; às vezes parece que
pediu por pedir. E eu aceitei. Quem está errado aqui?
— Manel, diz-me uma coisa...
— Sim.
— Ainda nem me deixaste acabar… o que te levou a pedir-me em namoro?
— Laura, já te disse mil vezes, comecei a gostar de ti.
— Mas o que te levou a isso? Já te contei a história da equitação.
— Já começo a ficar farto desta conversa — grita, enquanto me agarra a mão.
— Todos os meses a mesma coisa, todos os meses te digo que não sei.
Acho que ele exagerou. Não lhe pergunto todos os meses o que o fez reparar
em mim e mudar a maneira como me via, ou pelo menos acho que não. Talvez
ele tenha razão, se não tivesse, não se chatearia.
Parecia que adivinhava o que eu estava a pensar:
— Ouve, podia ter qualquer miúda da escola e quis estar contigo. Quero.
Não te chega isso?
— Claro que sim.
Só me largou a mão quando ouviu o «sim». E a conversa acabou ali. Também
já estávamos a chegar ao café e já tínhamos discutido antes, não me apetecia
voltar a levantar a voz.
«Café Luz», é assim que se chama. O nome não tem nada de original, já que
é o nome da vila, mas dizem que é o café mais antigo da zona. E a decoração
remete para o século xix, com toques de modernidade. Parece chique, mas é
tudo aparência. Como num típico café português, há malta a beber cerveja logo
pela manhã, a falar aos altos berros em chamadas de trabalho e, claro, os miúdos
da escola — como nós — que também não somos pouco barulhentos, confesso.
Evitei a discussão, mas o ambiente ficou pesado. Tem ficado de vez em
quando. Não sei o que se passa com o Manuel, mas parece que leva as coisas
mais a peito do que antes. Muito mais do que quando éramos apenas amigos, e
mesmo nestes seis meses que passámos juntos, as coisas mudaram. Só ainda não
percebi bem como.
Puxo as mangas da minha camisola para baixo e abro a porta do café.
2
Desconforto
«I don’t know how to feel
But I wanna try
I don’t know how to feel
But someday, I might
Someday, I might
When did it end? All the enjoyment
I’m sad again, don’t tell my boyfriend
It’s not what he’s made for
What was I made for?»
Eilish, Billie (2023)
[ Laura ]
M alde abro a porta do café, avisto os mesmos cinco de sempre na mesma mesa
sempre — a única mesa do café que comporta um grupo de sete.
Claro que somos os últimos a chegar. Desde sempre que o Manuel é o último
a chegar; não sei porquê, parece que gosta dessa atenção, das cabeças a girarem
para o ver passar, de interromper as conversas dos outros com a sua presença. Já
eu prefiro evitar toda esta atenção e ser das primeiras a chegar, mas agora que
estou com ele, tal só acontece se vier sozinha para o café, ou seja, nunca.
Os cinco estão a rir-se, e tenho ainda uns segundos para os observar antes que
reparem que já chegámos.
A Francisca, ou Kika, como lhe chamamos, está agarrada ao telemóvel, como
sempre. Aposto numa destas opções: a escolher o filtro perfeito para a sua
próxima foto do Instagram; a editar um vídeo qualquer para o TikTok; ou a
fazer scroll infinito numa dessas duas redes sociais. A Kika é viciada em redes e
não se interessa por mais nada além disso, seja em férias ou na escola, temos de
estar sempre a tirar-lhe fotos e a pensar qual a próxima dança do TikTok que
temos de aprender. É um bocado — muito — chato, mas ela é boa pessoa, e
quando realmente precisamos, basta pedir-lhe ajuda. O problema é que nem
sempre temos coragem para pedir ajuda, e seria bom ela reparar um pouco no
que acontece à sua volta. Eu, pelo menos, não tenho essa coragem — e ainda
não faço ideia do quanto seria bom poder ter coragem de pedir ajuda, evitaria
todo um livro que está por escrever.
O oposto da Kika está mesmo ao seu lado, a Diana, que está a rir
desalmadamente com o Simão. A Diana é, a meu ver, a rapariga mais bonita do
mundo. Tem ascendência indiana, os avós são de Goa, e é simplesmente perfeita
com a sua pele ligeiramente mais escura, os cabelos pretos muito lisos e os olhos
amendoados. Foi a primeira dos seis a chamar-me para o grupo — no quinto
ano, ninguém se queria dar com a menina nova, loira, de aparelho e
superdesastrada. Está ao meu lado em tudo na vida — não literalmente, pois
não partilhamos o curso (estuda Artes e eu Humanidades) nem o desporto (eu
jogo vólei, ela diz que corre de vez em quando, mas ambas sabemos que é raro),
mas de resto acompanha-me nos concertos, nos livros (e no clube de leitura), no
grupo de ativistas da escola, no amor por comédias românticas e por panquecas
logo de manhã. É a minha melhor amiga e, no fundo, só não vive ao meu lado,
mas tudo tem uma razão de ser: desconfio que se assim fosse, a minha mãe ou a
mãe dela tinham muito mais trabalho pela frente!
O Simão também é um excelente amigo. Os pais dele são muito próximos
dos pais do Manuel — não me perguntem bem como, visto que eles têm
ascendência cabo-verdiana e os pais do Manuel não costumam gostar de quem
não é 100% português, ainda que o Simão o seja. Talvez o dinheiro possa
mesmo pagar amizades e estatuto, embora eu gostasse genuinamente de
acreditar que não. Ele e o Manuel conhecem-se desde o infantário, mas são
pessoas completamente opostas. O Simão é luz, cor e alegria. Pode parecer que
estou a exagerar, mas são estas as palavras que a personalidade dele emana: o
lema dele é, literalmente, nunca vestir preto; tem sempre alguma peça colorida;
odeia as coleções de outono/inverno por não terem cores nenhumas além do
castanho e do preto (nem imaginam o quão feliz ele ficou naquelas coleções pós-
pandemia, em 2022, quando as lojas apresentaram casacos quentes e coloridos);
está sempre a rir; e apesar de ter consciência das lutas que temos todos os dias
(sim, ele também está no grupo de ativistas) tenta sempre ir para o grupo com
uma dose de leveza, para não tornar tudo tão «pesado».
Também está lá o Xavier, cuja melhor maneira de descrever é: a cópia do
Manuel. A sério, desde o nono ano que já todos notámos isso — inclusive o
Manuel —, mas ninguém lhe diz nada. Ele veste-se como ele, anda como ele,
fala como ele. Chega a ser assustador. Só não tem os mesmos passatempos, pois,
apesar de não viver mal, os pais não têm as mesmas posses que a família
Amorim, portanto não há cá equitação, nem ir almoçar ao restaurante ao lado
da escola dia sim dia sim. Joga padel aos fins de semana, mas sinceramente
nunca me interessei muito por ele, apenas está ali.
E depois, o primeiro a virar a cabeça e a olhar para nós, o Guilherme, o
querido Gui. O que dizer sobre ele? É — ou pelo menos era, ainda fico confusa
— o melhor amigo do Manuel. Do quinto ao nono ano eram inseparáveis,
jogavam na mesma equipa de futsal e estavam sempre juntos. Quando
começaram a ter namoradas afastaram-se um pouco, mas ainda dizem que são o
melhor amigo um do outro — ainda que toda a gente saiba que não o são, o
rótulo ficou, mas a amizade desvaneceu. Se é que ainda se pode chamar amizade.
Também não têm muito em comum, o Gui é mais humano, tem mais empatia
pela dor e pela luta de cada um. Claro, faz parte do grupo de ativistas. Ainda
joga futsal, mas não quer fazer disso vida, joga para se divertir e descomprimir.
Se fosse tentar fazer disso uma carreira, provavelmente não teria sucesso, está
longe de ser um Cristiano Ronaldo (ou, em termos de futsal, longe de ser um
Ricardinho). O Gui é provavelmente o rapaz mais cobiçado de toda a escola (o
que deixa o Manuel furioso, apesar de ele tentar esconder) graças aos seus
cabelos negros encaracolados, lábios carnudos, ombros e peito tão bem
esculpidos, e ser cerca de 8 centímetros mais alto do que Manuel. Sabem os
primeiros filmes de Noah Centineo na Netflix? Juro que o Gui se parece mesmo
com esse ator nos primeiros anos de carreira. Deve ser essa uma das razões que
leva as miúdas todas atrás dele. Mas mal o vemos com namorada, anda sempre
de rapariga em rapariga porque nada resulta. Coitado, também acho que tem
azar, mas assim que as beija, elas já estão a falar de casamento e a dizer que ele é
o amor da vida delas — terá algum hipnotizante nos lábios? Talvez elas não
sejam loucas, talvez ele esteja apenas à espera da pessoa certa, talvez ele até já a
tenha conhecido. Costumo ir para casa com ele, pois vivemos na mesma rua, eu
num prédio normal, ele no condomínio no final da rua (a rua é bastante grande,
a maior e mais antiga da vila, a bela Rua dos Pescadores), e acho que ninguém
me faz rir tanto e questionar tanto a minha vida ao mesmo tempo — ele é um
excelente amigo, sem dúvida. Se a Diana é a minha melhor amiga, ele é o meu
melhor amigo. Posso até dizer que, por vezes, me sinto mais à vontade a falar
com ele do que com o Manuel — sinto-me mal por admitir isto, ainda que seja
apenas para os meus botões.
Assim que todos nos veem começam os comentários:
— Lá vêm os pombinhos! — diz o Xavier.
— Beijo, beijo, beijo — exclamam o Simão e a Diana, enquanto a Kika se ri
e o Gui fica apenas a olhar para nós.
— Vá, não sejam parvos! — digo.
— Não estão a ser, anda cá, amorzinho — diz o Manuel, e beija-me,
pegando-me na cara. Não adoro quando faz isto à frente dos outros, não gosto
de deixar ninguém a fazer de vela.
— Então, do que tanto se riem? — pergunto.
— Tu não tens noção do que me aconteceu! — começa a dizer a Diana. —
Estava eu a andar na rua, na minha vidinha, quando uns miúdos do 10.º ano…
imagina, 15 anos, meu Deus! Bem, eles começaram a mandar bocas, a dizer que
me faziam isto e aquilo. Nem me quero lembrar, porque foi mesmo nojento.
Onde é que os miúdos aprendem a ser tão mal-educados? Eu ia mesmo agora
contar isto ao Gui, porque eu e o Simão vínhamos a rir disto e — olha para a
Francisca —, Kika? Estás a ouvir? Isto tem piada, amiga!
— Sim, sim — diz, tirando rapidamente os olhos do telemóvel.
— Têm de ouvir a resposta dela! — diz o Simão.
— Então?
— Disse-lhes «então vem, vem fazer, anda lá». Olha, acho que nunca vi
rapazinhos tão envergonhados.
— Mas qual é o mal? Não te sentiste desejada? — perguntou o Manuel,
entre risos que ficaram apenas entre ele e o Xavier.
Não percebi se ele estava ou não a ser sarcástico, mas de vez em quando tem
estes comentários de mau gosto indesejados, vai-se lá saber de onde vêm.
— Desejada? Por miúdos de 15 anos? Por amor de Deus, Manel!
— Quando tiveres 30, eles têm 28, qual é o mal?
— O que é que não entendes? O mal não é a idade, são os comentários
nojentos que eles fizeram.
— Como é que podes estar a defendê-los? — pergunto.
— Não estou a defendê-los, Laura. Estou simplesmente a dizer que eles, para
comentarem isso, provavelmente acham a Diana bonita, vai-se lá saber porquê.
— Riu-se e fez uma careta em direção à Di. — Mas agora uma pessoa não pode
dizer nada? É tudo virgens ofendidas?
— Ó Manel, um pouco de noção se faz favor.
— A sério! Acho que cada pessoa deve ser livre de dizer o que quer.
— Claramente não conheces a expressão «a minha liberdade termina onde
começa a dos outros» — respondo.
— Claramente devias aprender a estar do lado do teu namorado. — E com
esta declaração, o primeiro momento tenso da tarde acabou de chegar. — Mas
pronto, já não está cá quem falou. Mudando de assunto, já conheceram o
professor que vai substituir a maluca de Inglês?
— Não, quem é? — pergunta o Gui, é a primeira vez que o ouço a falar hoje,
gosto de ouvir a sua voz, mas de há uns tempos para cá que fica mais e mais
ausente quando estamos todos juntos.
— Não sei como se chama, mas que figurinha. Parecia o Simão em
esteroides. Tinha uma camisa de padrão leopardo, umas calças cor de laranja e
uns óculos de sol, apesar de estar a chover. Sei que os meus pais tentaram
impedir a contratação dele, agora já percebo porquê.
— Porquê? — pergunta o Simão, já em tom de discussão.
— Ele claramente não é bom da cabeça para se vestir assim. Simão, tu até
tens bom gosto.
— Mas por que razão é que os teus pais não o queriam na escola? —
pergunta o Simão. Todos sabemos o porquê. O Manuel não sei se sabe, mas a
maioria de nós sabe porque é que o Simão fez esta pergunta. — Se não fosse
bom professor, a escola nem o teria selecionado para a entrevista, e não é pela
maneira de uma pessoa se vestir que deve ser excluída de um emprego.
— Acho que eles sabiam que ele era gay, e depois do que vi hoje, posso
praticamente confirmar as suspeitas deles.
Que raio. O que diabo está o Manuel a dizer? Acho que foi a primeira vez
que o ouvi a falar assim tão diretamente contra homossexuais — pelo menos
acho que foi a primeira. Será que ignorei as outras e fui conivente? Que
inconveniente, que desconfortável, até sinto a minha barriga a dar voltas.
Bloqueio. Eles continuam a discutir sobre o novo professor, sobre o facto de ele
ser gay não ter nada que ver com a sua habilidade de dar aulas e a tentarem fazer
ver ao Manuel que todos temos os mesmos direitos — boa sorte a tentarem
mudar-lhe as ideias, nunca ninguém conseguiu.
Devia agir — que raio de rapariga sou eu, que sai à rua pelos direitos da
comunidade queer, mas que nem consegue responder quando o próprio
namorado tem comentários homofóbicos? Serei falsa? Não estarei realmente na
luta? Talvez apenas seja confortável estar escondida por trás do meu
privilégio…
Não consigo dizer nada. Simplesmente já deixei de tentar chamar o Manuel à
razão. Já desisti de muita coisa, na verdade. Só uma coisa me sai da boca perante
o desconforto:
— Bem, tenho de ir. Tenho treino.
— Já? Está bem, não queres que te leve a casa?
— Não, deixa, vou só buscar as coisas e correr para o pavilhão.
Levanto-me e saio o mais depressa possível dali.
3
Atrás de ti
«You’re spending all your time
In this wrong situation
And anytime you want it to stop
I know I can treat you better than he can
And any girl like you deserves a gentleman»
Mendes, Shawn (2016)
[ Guilherme ]
O café está praticamente vazio. Olho à minha volta e vejo o senhor Joaquim a
beber a sua mini (algo que acontece sempre que cá venho, seja de manhã ou
à tarde) e a dona Odete a beber o seu café pingado, enquanto lava as chávenas à
mão para preparar as horas de final do dia — quando o café fica realmente cheio
com as pessoas que vivem aqui perto e chegam dos seus trabalhos das 9h às
17h.
A minha perna vai batendo ao som da música ambiente, marcando o passo da
minha impaciência. Fui o primeiro a chegar. Sou sempre o primeiro desde que
me lembro. O Manuel há de ser o último e, por arrasto, a Laura também, mas
espero que não demorem muito tempo, pois cada minuto que o relógio avança
enquanto estou aqui sentado parece-se cada vez mais com uma tortura medieval
— penso que consigo sentir o meu corpo a ceder à pressão e os meus ossos a
racharem.
Estou a exagerar, bem sei. Mas cada vez me sinto mais desligado de algumas
pessoas deste grupo. Muitas destas amizades são movidas a carvão — sim, a
carvão, porque a única coisa que nos liga é o facto de serem amizades quase do
século passado (só não são porque todos nós nascemos já no novo milénio).
Continuo a ser capaz de fazer tudo por eles. Bem, tudo talvez não, mas faria
muita coisa com certeza. E continuo a gostar deles, por muito que nos
tenhamos afastado, mas já não me identifico, e muitas vezes questiono o que
ainda nos junta, pois parece que é mais aquilo que nos separa.
Ano após ano, o tempo não parou, e nós já passámos por muitos 31 de
dezembro juntos. Antes éramos apenas crianças, víamos o mundo em cor-de-
rosa e a única preocupação que tínhamos era a que horas íamos para o intervalo
para irmos brincar. Umas vezes jogávamos à bola, outras vezes à macaca porque
as meninas juravam a pés juntos que ia ser divertido — e não era, mas
fazíamos-lhes a vontade.
Agora, ainda somos miúdos, mas um pouco mais velhos. Já nos começamos a
preocupar com o que nos rodeia, já temos valores — ainda que estejam sujeitos
à natural evolução do crescimento —, já pensamos no futuro, já somos cidadãos
e mais dia menos dia até já podemos votar. Bem, eu e a Diana já praticamente
podemos (fruto de termos nascido em novembro e dezembro — os nossos pais
quiseram adiar a nossa entrada no primeiro ciclo), mas não houve eleições
recentemente, sem ser as da Associação de Estudantes, e essa estava dada ao
Manuel ainda nem tinham começado as campanhas.
Ouço a porta abrir-se e o meu coração acelera. Viro rapidamente a cabeça. É o
Xavier. Não era quem eu queria ver. Desacelero.
— Então, mano? — pergunto.
— ‘Tá tudo — responde e senta-se, agarrado ao telemóvel. Está à espera das
mesmas pessoas que eu, mas não pelo mesmo motivo, com certeza.
O silêncio abate-se sobre nós como quando a escuridão cai em cima da
cidade. Há uns três anos que deixei de falar com o Xavier. Falamos apenas
quando estamos todos juntos (e nem assim falamos muito, acho que nem sequer
trocamos ideias). Se pensar bem, acho que nunca estive com ele sozinho sequer.
Talvez quando éramos putos, mas já nem tenho memória, o que mostra quão
indiferente o Xavier é para mim.
A porta abre-se novamente. Viro novamente a cabeça, desta vez sem
esperança. É a Francisca, vem agarrada ao telemóvel e dirige-se a nós. Não
levanta a cabeça, senta-se sem «ai» nem «ui».
— Olá, Kika! — digo, sem resposta. — Alô? Terra chama Francisca?
— Dá-me dois segundos, Gui. Estou a acabar de editar um vídeo para pôr no
TikTok.
— Claro, como não pensei nisso? — ironizo. — Mas sabes que podes pôr o
vídeo depois de cumprimentar as pessoas não sabes? O mundo não acaba se o
TikTok esperar trinta segundos.
Levanta a cabeça, olha para mim e revira os olhos:
— Olá, Gui! — sorri, sarcasticamente.
— Vês? Não custa nada!
E enquanto nos rimos, a porta do café abre-se novamente — sem dar tempo
ao meu coração de ansiar pelo conhecido — e um tsunami de gargalhadas
inunda o café com alegria. Podia não ter virado a cabeça que sabia bem quem
vinha aí: a Diana e o Simão.
Alegro-me mais um pouco, são dos poucos com quem ainda me dou mesmo
bem neste grupo. Quando há protestos na escola ou fora dela, estamos quase
sempre lá — não fizéssemos nós parte do grupo de ativistas do colégio — e
também colaboramos muito os quatro, pois o Simão e eu estamos no clube de
fotografia, a Diana e a Laura, no clube de literatura, e aproveitamos todas as
oportunidades para tentar arranjar projetos conjuntos e cruzar os dois clubes.
— Estão muito animados, sim senhor!
— Já conheces o Simão, não pode passar cinco minutos sem dizer uma
parvoíce qualquer.
— Ei! Não é nada disso, ela já me está a difamar — acusa, dando-lhe um
calduço na cabeça. — Agora queria era bater ideias para os nossos clubes. Sabias
que elas vão estar a ler Saramago até ao final do próximo período? Acho que
podíamos tirar fotografias que representassem cada livro na ótica delas, a visão
delas de Saramago, que achas?
— Parece-me bem.
— Só bem?
— Ouve, Simão… por mim está ótimo, mas não estou muito no mood para
falar sobre isso agora. Apetece-me aproveitar a minha única tarde livre sem
pensar em nada relacionado com a escola. Amanhã à hora de almoço temos
reunião, apresenta lá a ideia e discutimos, tenho a certeza de que toda a gente
vai adorar!
Ele sorriu. Acho que fui demasiado bruto com ele, não merece. Talvez lhe
explique mais à frente, mas a minha disposição não é mesmo a melhor. Não
quando nos últimos tempos tenho andado a sentir falta de algo, ainda que não
saiba bem o quê — ou talvez saiba, mas nego-me a admitir. Ele já sabe que
estar aqui é meio que um suplício — acho que também o é para ele —, mas
fora isso não sabe deste vazio que sinto e que parece que me anda a impedir de,
sei lá, ser uma pessoa normal e social que está com os seus amigos sem estar
sempre com a cabeça a andar à roda.
— Concordo com o Gui, Simão. Sabes perfeitamente que tenho coisas mais
importantes para contar.
Assim que a Diana diz isso, desatam-se os dois a rir. Quando estes dois se
começam a rir, nada os consegue parar. Acreditem em mim, que já tentei várias
vezes. É até contagiante, não consigo parar de sorrir ao lado deles.
E entre gargalhadas, ouço a porta a abrir e viro logo a cabeça. Finalmente!
Aqueles cabelos loiros, meio lisos meio encaracolados, a pele de porcelana
com ligeiras sardas e um sorriso de orelha a orelha inconfundível: a Laura
chegou. Claro, de mão dada com o Manuel, o meu melhor amigo. Aliás, o meu
antigo melhor amigo, agora apenas dizemos que o somos pela história, pois
estamos longe disso. Sem dúvida que esse lugar é ocupado pelo Simão há alguns
anos.
Desde o primeiro ciclo que eu e o Manuel éramos inseparáveis, mas quando
começámos o ensino secundário, ele começou a interessar-se cada vez mais pelas
aparências e ficou apenas uma fotocópia dos pais. Escusado será dizer que eu não
gosto muito deles, ainda que só me tenha começado a aperceber disso para aí no
oitavo ano. Na altura, o Manuel só queria andar atrás das raparigas mais
populares, e eu comecei a interessar-me por causas que a ele não lhe dizem nada.
Também estive com algumas raparigas que ele odiava por serem ativistas e da
escola pública da cidade ao lado. E confesso que estive com algumas raparigas
do colégio que ele desejava, não para o provocar, mas sei que ele não gostou
disso. Foi sempre um tema proibido entre nós, mas em conversas com o Simão,
apercebi-me de que ele tem alguma inveja por eu ter algumas raparigas atrás de
mim — mesmo que eu não tenha culpa nenhuma e que não lhes dê bola
regularmente.
Nunca deixámos completamente de ser amigos, nem sequer abordámos o
assunto entre nós, mas ambos sabemos, e todos no grupo sabem, que já não é a
mesma coisa — ou, pelo menos, eu acredito que sim. Agora ele está muito mais
próximo da sua fotocópia versão pobre, o Xavier, e eu do Simão. Acho que a
vida tem destas coisas, e tento não pensar muito no assunto, pois se reflito sobre
a personalidade que o Manuel ganhou nos últimos anos, começo a questionar
porque estou sentado à mesa com eles — prefiro viver na ignorância, por
enquanto.
A Laura, além de única, é a minha companhia quase diária para casa. Ela vive
num prédio no início da rua, eu vivo mais ao fim. São sempre caminhadas
muito divertidas até casa, mas ultimamente o Manuel tem-na levado de carro e
já só tenho o prazer de a ter para mim uma vez por semana, com sorte.
— Lá vêm os pombinhos! — ouço o Xavier dizer, e a minha barriga treme
com tanta volta que dá nestes segundos.
— Beijo, beijo, beijo — exclamam o Simão e a Diana, enquanto a Kika se ri
e eu fico simplesmente a olhar para eles, com um nó na garganta que teima em
não sair.
— Vá, não sejam parvos! — diz a Laura.
— Não estão a ser, anda cá, amorzinho — diz o Manuel, e beija-a. Viro a
cara, por favor, arranjem um quarto (não!).
— Então, do que tanto se riem? — pergunta a Laura.
— Tu não tens noção do que me aconteceu! — começa por dizer a Diana.
Será que desta consegue contar sem se rir?
— Estava eu a andar na rua, na minha vidinha… — não a estou a ouvir
muito bem, nem sei se me interessa, para ser sincero, por muito que goste dela,
mas tenho rapidamente os meus pensamentos interrompidos quando ouço o
meu nome. — Eu ia mesmo agora contar isto ao Gui, porque eu e o Simão
vínhamos a rir e — olha para a Francisca —, Kika? Estás a ouvir? Isto tem
piada, amiga!
— Sim, sim — duvido que realmente esteja a ouvir.
— Têm de ouvir a resposta dela! — diz o Simão.
— Então? — digo, em simultâneo com a Laura, e olho para ela a sorrir.
— Disse-lhes «então vem, vem fazer, anda lá». Olha, acho que nunca vi
rapazinhos tão envergonhados.
— Mas qual é o mal? Não te sentiste desejada? — pergunta o Manuel, a rir-
se com o Xavier, como se tivesse imensa piada o que acabou de dizer.
Não percebo estes comentários machistas do Manuel, a sério. Como é que a
Laura aguenta isto? Não me cabe na cabeça alguém tão inteligente como ela
aturar isto todos os dias, a toda a hora. Talvez não aguente, pela cara que fez não
me pareceu que tenha gostado muito.
— Desejada? Por miúdos de 15 anos? Por amor de Deus, Manel! — Ele
tocou num ponto sensível. Quando a Diana se chateia, é difícil fazê-la voltar à
realidade. Boa sorte.
— Quando tiveres 30, eles têm 28, qual é o mal?
— O que é que não entendes? O mal não é a idade, são os comentários
nojentos que eles fizeram.
— Como é que podes estar a defendê-los? — pergunta a Laura, bem me
parecia que não tinha gostado. Ela não me engana.
— Não estou a defendê-los, Laura. Estou simplesmente a dizer que eles, para
comentarem isso, provavelmente acham a Diana bonita, vai-se lá saber porquê.
— Riu-se e fez uma careta em direção à Di. — Mas agora uma pessoa não pode
dizer nada? É tudo virgens ofendidas?
Deixei de ouvir, o Manuel insistiu na sua ideia, como sempre, pois está para
nascer alguém que consiga fazê-lo mudar de opinião. Entretanto, perguntou se
sabíamos quem era o professor que ia substituir a professora de Inglês, a
Amélia.
— Não, quem é? — pergunto, para tentar enquadrar-me na conversa.
— Não sei como se chama, mas que figurinha. Parecia o Simão em
esteroides. Tinha uma camisa de padrão leopardo, umas calças cor de laranja e
uns óculos de sol, apesar de estar a chover. Sei que os meus pais tentaram
impedir a contratação dele, agora já percebo porquê.
— Porquê? — pergunta o Simão, já em tom de discussão.
— Ele claramente não é bom da cabeça para se vestir assim, Simão, tu até
tens bom gosto.
— Mas por que razão é que os teus pais não o queriam na escola? Se não fosse
bom professor, a escola nem o teria selecionado para a entrevista, e não é pela
maneira de uma pessoa se vestir que deve ser excluída de um emprego.
— Acho que eles sabiam que ele era gay, e depois do que vi hoje, posso
praticamente confirmar as suspeitas deles.
Estas palavras do Manuel surpreendem-me zero. Mas acho que surpreendem
a Laura — ainda não sei bem como. A cara dela transborda desconforto, os
olhos semicerrados, a sobrancelha meio levantada, ficou ali a olhar para ele sem
saber bem o que fazer.
Às vezes apetece-me abaná-la e dizer «acorda para a vida, namoras com um
machista, misógino e homofóbico», mas que moral teria eu? Que raio de moral
teria para dizer uma coisa dessas quando continuo a sentar-me à mesa com ele?
Continuo a protestar de um lado contra pessoas como ele e a partilhar o meu
tempo com ele na mesma. Tudo porque sei que ele antes era boa pessoa… Mas
será que era mesmo boa pessoa? Ou era simplesmente uma criança? Ninguém
nasce mau, não é o que dizem?
— Bem, tenho de ir. Tenho treino — diz a Laura, e eu acho estranho, creio
que os treinos de vólei são às segundas e quintas. Sei disso porque o meu
treinador de futsal já tentou trocar treinos e o treinador delas é um pouco
intransigente.
— Já? Está bem, não queres que te leve a casa? — pergunta o Manuel.
— Não, deixa, vou só buscar as coisas e correr para o pavilhão.
Levanta-se rapidamente, mas para mim pareceu uma cena em câmara lenta.
Vestia umas calças de ganga largas — que lhe ficam muito bem, mas escondem
as belas pernas dela, que ela acha muito gordas, mas não são — com uma
camisola de malha justa — que enaltece o seu peito pequeno e até mesmo os
seus ombros — e vai-se afastando, cada vez mais longe. Bate com a porta e
continua a afastar-se, sem olhar para trás.
Que raio de comentário. Não percebo o que ela vê nele. Já não é a primeira
vez que faz estes comentários descabidos que deixam um ambiente em que a
tensão se consegue cortar com uma faca. E parece que nem se apercebe dos
disparates que diz.
— Malta, desculpem. Lembrei-me de que tenho um trabalho para amanhã,
tenho de ir fazer aquela porcaria.
— Então e o «aproveitar a única tarde livre»? — pergunta o Simão. Sei que
está a gozar comigo, mas acho que é mais do que isso. Penso que ele percebeu e
me está a provocar. Mas esta não é a melhor altura para isso.
— Só me lembrei agora. Foi uma coisa de última hora. É a stora Isabel, têm
sorte de ter Português com o Gustavo, muito mais calmo. — Será que me safei
desta? É literalmente das poucas disciplinas em que os nossos professores
diferem, o colégio não é assim tão grande.
— Tenho pena, Gui — diz a Diana, e passa-me a mão no cabelo.
Levanto-me rápido e, assim que saio porta fora, vou a correr atrás da Laura.
— Pensava que tinhas treino às segundas e quintas. — Acabo por dizer,
ligeiramente ofegante.
— O Horta marcou um treino extra.
— Marcou mesmo?
E assim que faço esta pergunta, ela para e olha para trás. Sei o que isso
significa.
4
Quando tudo começou
«Às vezes dói mas eu escondo
Eu ‘tou perdido entre o
Que eu quero ser e o que ainda não sou
Mas vou bafando o meu nite
Passa o dia e a noite
Não sei se ‘tou a perder
Amor à vida ou ódio à morte»
Slow J (2017)
[ Laura ]
S aípude.
do buraco negro para o qual ele me estava a puxar o mais depressa que
Vim a correr, ou pelo menos na minha cabeça, parecia que estava a
correr a toda a velocidade que o meu corpo permite. Fisicamente, tentei não
andar sequer muito depressa para não dar a entender o desconforto que me
inundava os pensamentos. Mas queria sair dali o mais depressa possível, quem
não quereria?
Às vezes, pergunto-me o que faço ali, o que faço com ele, mas depois lembro-
me dos últimos meses e tudo se dissipa. Ele não é assim. Não é. Recuso-me a
acreditar que seja. Mas desde que voltámos à escola, desde o mês que passou
com os pais a fazer sabe-se lá o quê, que estes comentários têm sido cada vez
mais frequentes. Será por isso? Será que sofreu uma lavagem cerebral dos pais e
dos seus amigos? Ou sempre foi assim e era uma questão de se revelar? Ah, não
devia pensar nisto, eu gosto tanto dele, ele faz-me sentir tão bem.
Exceto quando não faz.
Ouço a porta a bater atrás de mim. Espero que ninguém tenha tido a
brilhante ideia de me seguir, não me apetece desabafar, nem sequer falar.
Apetece-me apenas existir e colocar todos os maus pensamentos que se
atravessam na minha cabeça numa gaveta, fechá-la à chave e nunca mais a abrir.
E espero mesmo que não seja o Manuel; eu posso adorá-lo, mas tento sempre
evitar confrontos com ele. Já tentei uma ou outra vez, e não correu muito bem
para o meu lado. Acabo sempre a pedir desculpa, no melhor dos casos, no pior
dos casos, a dor apodera-se de mim, vinda das suas mãos, mas isso é raro, por
isso prefiro inventar qualquer coisa e sair de cena.
Não olho para trás, mas ouço o Gui, meio ofegante:
— Pensava que tinhas treino às segundas e quintas.
— O Horta marcou um treino extra.
— Marcou mesmo?
E assim que o Gui me fez esta pergunta, percebi que ele sabia. Ele sabia
tudo. Como? Não sei. Talvez seja mais óbvio do que penso; afinal, ele é capaz de
me conhecer melhor do que qualquer pessoa daquela mesa, talvez do mundo,
fruto das nossas caminhadas para casa, que no ano passado eram diárias. Por esse
motivo, não tive outra opção se não parar e olhar para trás. Afinal, é o Gui, e eu
nunca lhe virarei as costas — exceto quando tiver mesmo de ser.
— Porque vieste atrás de mim, Gui?
— Porque saíste a correr, Laura?
— Eu fiz uma pergunta primeiro.
— Alguma coisa se passa, claramente. Não me tentes enganar, sou eu.
Ele tem razão. É ele, e parte de mim quer contar-lhe tudo, tudo o que vai na
minha cabeça, tudo o que já pensei e deixei de pensar sobre o Manuel. Mas não
posso. Tenho de guardar tudo na minha gaveta secreta. Mesmo não sendo os
melhores amigos que eram, continuam a ser amigos, acho eu, e se ele lhe fosse
contar? Seria o nosso fim, e eu não posso ser essa pessoa. Imaginem o que seria
se o Manuel descobrisse algumas das coisas que eu penso sobre os seus
comentários. Primeiro, ia fazer-se de vítima, quase de certeza que ia dizer «não
sou machista, nem racista, nem nada disso que me estás a acusar, tudo o que
digo são factos». Depois, se tivesse sorte, ficava por aí, mas ele é vingativo,
quase de certeza que acabaria comigo, arranjava alguma forma de me humilhar
perante a escola e lá se ia o nosso grupo de amigos — parece que os meus
pensamentos já estavam a escrever o meu destino muito antes de eu sonhar com
o pior. Acho que a Diana, o Simão e o Gui ficavam do meu lado, mesmo sendo
amigos dele há mais tempo, mas prefiro não arriscar. Não imagino a vida sem
eles. Neste momento, nem sei se imagino a minha vida sem o Manuel. Seria
melhor do que é agora? Ou mais vale limitar-me à minha existência enquanto
sua parceira por forma a evitar que todos os males do mundo recaiam sobre
mim? Se sair do seu escudo protetor o que me irá acontecer? Talvez passe anos
na terapia a tentar esquecê-lo, talvez ele deixe uma marca em mim que fique até
ao fim dos meus dias. Pensando bem, é melhor continuar sob a sua asa. Sendo
sua, estarei protegida da sociedade — mas estarei protegida dele?
— Pronto, tens razão. A verdade é que não tenho treino. — Invento algo
rapidamente. — Mas tenho muito que estudar. Nunca poderia ficar ali muito
tempo. — Será que ele acredita em mim?
— Só isso? — pergunta. Tem um olhar penetrante e uma expressão
desconcertante. Está a olhar para mim como se fosse a irmã mais nova que não
tem, e eu odeio quando ele faz isso. Sempre que acontece alguma coisa comigo,
ele fica com esta expressão de salvador, como se tivesse algum poder sobre mim
ou pudesse mudar as coisas. Adivinha, Gui, não és um super-herói, não
consegues mudar absolutamente nada, escusas de te preocupar, eu sei cuidar de
mim!
Uma vez, no nono ano, se não me engano, tive um fraquinho por um rapaz,
chamava-se Rodrigo, e esse rapaz sabia e beijou-me atrás do pavilhão de
Educação Física. O problema é que não foi só a mim — na semana anterior já o
tinha feito com umas duas ou três raparigas, e no mesmo dia beijou mais outras
duas. Não me lembro como é que o Gui soube — eu com certeza não lhe
contei, estava cheia de vergonha quando descobri —, mas ficou furioso, naquele
dia achei que lhe ia bater. Não bateu, mas colocou os braços à minha volta,
dando-me um abraço gigante, e permitiu que eu chorasse sem que ninguém me
visse. Depois olhou para mim com esta mesma expressão, esta expressão de
quem me dá a mão quando caio, de quem me retira do meio das correntes sem
saber se ele próprio vai sobreviver, de quem vai curar o mundo por mim, de
quem me vai proteger de todos os desafios que a vida me quiser pôr à frente.
Lamento que não vás conseguir, Gui. Por nós, queria que fosses capaz.
Já vivi mais do que ele, mais do que todos eles na verdade. Não estou a
tentar ser injusta, mas é a realidade que alguns até fingem não ver. Todos eles
vivem vidas mais ou menos perfeitas, os pais ainda vivem juntos, estão em boas
casas, têm liberdade e nunca tiveram de se preocupar com nada a nível
monetário. Esta última eu também não, mas sei que a minha mãe sim, e fez o
possível e o impossível para o esconder de mim. Mas o pior, a meu ver, é que
por muitas imperfeições que os pais deles tenham aos seus olhos, eles estão lá.
Nenhum deles sabe o que é não ver o pai, ou pior, que o pai não queira saber da
vida deles. Eles estão lá, mais ou menos presentes, mas estão. Eu não tenho essa
sorte (ou tenho sorte por não a ter). E, por muito que queiram pôr-se nos meus
sapatos, não conseguem. Felizmente, nunca vão conseguir.
— Não tem nada que ver com o Manel? — insiste, mas eu mantenho-me em
silêncio. Não quero mesmo que ele descubra, ou que confirme o que já sabe. —
Bem, quem cala consente… Não sei quanto a ti, mas eu imagino que, se fosse
rapariga e ele dissesse aquilo ao meu lado, eu não ia ficar muito feliz. Já para
não falar do comentário sobre o novo professor…
— Não imaginas! Podes não ser machista e defender os direitos das mulheres
ao nosso lado, mas não imaginas — respondo, finalmente.
— Ah, afinal é isto.
— Não, eu adoro-o…
— Mas?
— Mas nada, eu adoro-o. Não tenho mais nada a dizer.
— Não leves a mal, mas…
— Gui, todos os insultos ou coisas más começam com um «não leves a mal».
— Nada disso. Só acho que já estamos numa idade em que, para estarmos
numa relação, temos de fazer mais do que apenas adorar a pessoa.
— O que queres dizer com isso? — estou genuinamente irritada.
— Nada, nada, desculpa.
— Não estou a gostar do que estás a insinuar. É melhor ires embora, Gui!
— Ouve, desculpa — sei que ele está a ser sincero, mas não tenho paciência
para este tipo de conversas, não hoje. — Deixa-me pelo menos levar-te a casa. Já
percorremos estas ruas milhares de vezes, já somos amigos há imenso tempo…
Desculpa se me expressei mal, mas sabes que podes falar comigo, certo? — Eu
sei, mas não quer dizer que esteja pronta para fazê-lo.
— Tal como nós somos amigos há imenso tempo, também és o melhor
amigo dele, ou pelo menos dizem que sim. Não devias estar a tentar estragar a
relação dele. — Tento magoá-lo com nostalgia.
— Não é nada disso, Laura.
— Se ainda és amigo dele, não te metas — digo, talvez de forma demasiado
agressiva. — Ainda são amigos, certo? Quer dizer, já há pelo menos dois anos
que não vos vejo a agir como tal, mas são?
— Pois — diz, olhando para baixo e sem me dar uma resposta. Sinto-me
mal. Não merece que eu seja assim com ele, só me está a tentar ajudar.
Ainda faltam cerca de cinco minutos até minha casa. Quero contar-lhe tudo,
mas é cedo, nem eu sei bem o que se passa, e não seria justo para o Manuel estar
a virar o amigo dele contra ele, ou pior, o Gui virava-se contra mim. Nem
quero imaginar como isso seria.
Estes episódios não passam disso, episódios, são esporádicos. De certeza que é
só uma fase. Vai passar, e eu estarei cá para abraçar de novo o Manuel que
sempre conhecemos. O quanto eu espero que assim seja.
A minha cabeça não para, nem reparei que os últimos cinco minutos se
passaram em silêncio. Mas chegámos a minha casa.
— Adeus, Gui — digo, friamente. Ele sabe disso, nunca lhe digo só
«adeus».
— Desculpa, Laura! — E abraça-me. Sinto o cheiro do seu perfume, Boss, o
mesmo que usava o ano passado, quando fazíamos isto todos os dias e recebia
um abraço apertadinho diariamente.
Foi mais curto que o normal. Entro no prédio, e através das portas
transparentes, vejo-o a seguir o seu caminho.
Carrego no botão para chamar o elevador que, para minha sorte, está no
quinto andar. Sinto o meu coração a bater muito depressa, preciso
urgentemente de chegar a casa e de me sentar em algum lado.
Será que, tal como o Gui, os outros já se aperceberam? Será que também
levam a mal a atitude do Manuel? Ou será que percebem tudo o que vai na
minha cabeça e estão contra mim?
O elevador chega, as portas abrem-se e entro. Carrego no quarto andar, onde
vivo, encosto-me à parede e fecho os olhos. O que raio se passa comigo?
O tempo é a invenção mais subjetiva do homem. Às vezes, cinco horas
parecem cinco meses. Daqui a cerca de cinco meses, cinco minutos vão parecer
cinco anos. Hoje, cinco segundos de olhos fechados parecem cinco horas. Ainda
só vamos no primeiro piso quando abro os olhos para ver o meu reflexo no
espelho, estou mais pálida do que o normal (sim, porque eu sou branca tal como
um copinho de leite), apenas com as bochechas super-rosadas. Todos estes
pensamentos fazem subir a minha temperatura corporal e, sem pensar duas
vezes, arregaço as mangas. Já me tinha esquecido, mas ali está a marca do
aperto, uma marca de amor, diriam alguns, a ficar negra.
Quero gritar bem alto e dizer vinte mil asneiras em todas as línguas e mais
algumas, mas não posso, e ainda o adoro.
Chego ao quarto andar. As portas do elevador abrem-se atrás de mim e
apresso-me a pôr as mangas para baixo novamente. Se já estou com má cara,
imagino as perguntas que a minha mãe faria se visse esta pequena mancha. É
mesmo essa a pior parte de chegar a casa, ter agora de responder a milhares de
perguntas sobre como foi o meu dia e fingir interação com a minha mãe,
quando tudo o que eu quero é enfiar-me no quarto com a cara na almofada.
Meto a chave na porta, mas nem era preciso, a minha mãe pressentiu a minha
chegada e estava à porta com um sorriso gigante no rosto, à minha espera.
— Olá, filha. Como foi o dia?
— Correu tudo bem, mãe.
— Só isso?
— Sim, mãe, tenho já muita coisa para estudar. Vou para o quarto. — E no
momento em que digo isto, vejo o sorriso a dissipar-se. Ela não tem culpa de
nada, sei que se esforça, mas não estou mesmo com cabeça.
Isto deixa-me a sentir culpada. Sei o quanto a minha mãe, Susana, se esforça e
se esforçou sempre para me dar a melhor vida que fosse possível, para que nada
me faltasse, e é assim que eu lhe pago. Já li imensas histórias e vi imensos
filmes em que isto acontece — somos adolescentes, certo? —, mas lá no fundo
sinto-me culpada por não lhe dar a atenção que merece.
Especialmente porque tenho a sorte de ainda ter a minha mãe comigo, de a
ter muitas vezes em casa — está metade da semana em teletrabalho, os
benefícios de trabalhar numa boa empresa de marketing —, e de ela se
preocupar.
Enfim, também acho que ela tenta compensar o pai que tenho (ou que «não
tenho»).
No meio destes pensamentos, entro no meu quarto. Deito-me em cima da
cama a olhar para o teto, que pintei de azul-marinho no ano passado. Ainda é
cedo para ligar as luzes que imitam um céu estrelado que já não se vê nesta zona
da cidade, mas sempre que a ansiedade bate à porta, é assim que eu me acalmo.
Viro a cabeça para a direita, onde se encontra a minha mesinha de cabeceira,
com uma foto minha e da Diana quando tínhamos dez anos. Foi tirada pouco
depois de eu e a minha mãe chegarmos a Vila de Luz e, desde então, que tenho
esta foto impressa no meu quarto. Sorrio. Ainda tenho pessoas boas na minha
vida. Pena que a minha ansiedade, os monstros que habitam cá dentro e um
monstro que habita cá fora as afaste todas, mais dia, menos dia.
Nesse ano, comecei um diário — uma tradição que fui perdendo, e,
entretanto, é muito raro pegar num diário para escrever. Ainda o tenho e, não
sei porquê, sinto uma enorme vontade de o abrir.
A primeira página é uma foto minha com os meus pais. Apesar de tudo o que
ele fez, a inocente Laura de dez anos queria relembrá-lo. A segunda página
explica como viemos aqui parar, num português acriançado.
Chegámos a Vila de Luz tinha eu dez anos acabadinhos de fazer. Estivemos
um mês numa casa pequeníssima, a única disponível para alugar de uma
semana para a outra, enquanto a minha mãe procurava apartamentos para nós.
O processo de divórcio ainda nem estava finalizado, e ela já estava a dar o passo
de comprar uma nova casa para nós assentarmos. Sei que apenas queria seguir
em frente e deixar a toxicidade do meu pai para trás. Não a censuro.
Aquele homem passava mais tempo fora de casa do que connosco, em
alegadas viagens de trabalho. Hoje em dia, duvido muito que fossem apenas
viagens de trabalho, mas tento nem tocar no assunto com a minha mãe. Mesmo
quando ele estava por cá, chegava quase sempre tarde e a más horas a casa — e
quase sempre com os copos, ainda que eu na altura não percebesse que era disso
que se tratava. Assistia a discussão atrás de discussão. Nenhuma está gravada
neste diário, mas algumas estão bem presentes na minha memória. Uma delas
ficou particularmente guardada numa gavetinha do meu cérebro. Estava quase a
fazer 10 anos e ouvia os berros que penetravam as paredes do meu quarto. Saí do
meu casulo, na esperança de que, se eu ali estivesse, o amor por mim levasse a
que eles parassem. Não aconteceu. Cheguei à sala no exato momento em que ele
levantou a mão. Gritei. Ele bateu-lhe.
Felizmente, sou filha de uma mulher corajosa, pois no minuto a seguir a ele
lhe ter dado um estalo, ela disse «nunca mais fazes isso» e pegou na minha mão
e foi comigo para o quarto. Meteu toda a minha roupa em duas malas de
viagem e fez uma pequena mala de essenciais para ela. Foi essa a última noite
que vi os meus pais juntos. Fomos para os meus avós e, uns dias depois,
chegámos aqui.
Dois meses depois começaram as aulas — foi nessa altura que conheci o
pessoal. Olhando para trás, não sei o que viram em mim para me acolherem no
grupinho especial deles, eram unha com carne, todos. Num dia, a Francisca e a
Diana passavam os intervalos a vê-los jogar à bola, e no dia seguinte, eles faziam
as vontades delas e iam apanhar bichos-da-seda e amoras. Às vezes, passavam os
intervalos inteiros na biblioteca a jogar Candy Crush ou Roblox, ou a verem
vídeos do YouTube. Faziam tudo juntos, e eu cheguei de rajada, a rapariga que
tinha a bolsa de apoio social — sim, todos sabiam que eu não era rica como
eles, e ninguém quis saber.
Não era rica porque a minha mãe estava sozinha. Não me queria pôr na
escola pública — não perguntem porquê, também não sei — então candidatou-
se à bolsa da escola, que pagava 50% da mensalidade. Era o corte suficiente para
conseguir pagar todas as despesas mensais até ter o dinheiro do divórcio, que
demorou cerca de dois anos a chegar. Dois anos intermináveis, a vivermos no
limbo, de final do mês em final do mês, com ajuda dos meus avós.
Durante esses dois anos, sei que passámos dificuldades, mas a minha mãe
sempre escondeu isso de mim. Nunca me apercebi de nada, sem ser o adiar de
alguns sonhos consumistas de uma menina de dez anos. Sempre me deu tudo o
que eu queria, sem grandezas, mas mesmo com os meus pequenos sonhos, eu
não lhe pedia muito. E mesmo depois de termos o dinheiro do divórcio, que
ajudou a pagar uma boa parte da casa, nunca vivemos com grande riqueza — o
oposto do Manuel, obviamente, que ainda fica chocado com algumas das coisas
que eu conto (coisas essas que poriam quem sofreu verdadeiramente com
inveja).
Devo-lhe tudo, mas também lhe peço espaço mais do que uma vez. Para
viver, para ser eu, para errar — e sinto que é mesmo isso que estou a fazer.
Hoje em dia, já não guardo rancor ao meu pai, mas foram anos muito
dolorosos para mim, em que o odiava profundamente. Há cerca de um ano
percebi que todo esse rancor me fazia mal e decidi simplesmente seguir a minha
vida. Não posso dizer que o perdoei, estou longe disso, se é que alguma vez irá
acontecer, mas é como se ele já nem existisse, exceto quando sou obrigada a vê-
lo.
Não sei quanto tempo passei perdida nos meus pensamentos, mas o
telemóvel toca. No ecrã aparece a notificação do WhatsApp. É o Gui.
5
Devia ser eu
«Dreaming ‘bout the day when you wake up and find
That what you’re looking for has been here the whole time»
Swift, Taylor (2008)
[ Guilherme ]
[ Laura ]
A cordo no dia seguinte, pronta para enfrentar as longas 24 horas que tenho
pela frente (ou melhor, cerca de 17 horas), mas não o meu querido
namorado. Ontem à noite, não falámos depois do que aconteceu. No início da
relação, falávamos todos os dias à noite, entretanto esse hábito foi-se perdendo
por passarmos também muito tempo juntos. Ainda assim, costumo enviar-lhe
uma mensagem de boa-noite, mas ontem nem tive forças para isso. Não estava
com disposição para fingir que nada se passava, nem mesmo estando escondida
por um ecrã onde ele não me poderia magoar (pelo menos, não no imediato).
Também não ouvi ou li nada dele, mas como sou sempre eu a tomar iniciativa,
não me espanta. Será que por não ter dito nada, ele percebeu que fiquei
chateada? Pessoalmente, acho que fiquei muito boa a esconder quando me sinto
desconfortável, mas nunca se sabe, ele faz-se de burro por vezes, mas tenho a
certeza de que é muito esperto.
São já 7h30, e às 8h15 tenho a primeira aula do dia, Ciência Política, e
apesar de eu adorar, não é a melhor aula para se ter assim que se acorda, pois
exige muito do meu cérebro, cérebro esse que não está na melhor forma depois
da noite que passei. Sei que a professora Rute odeia atrasos, e eu ainda estou
com o meu pijama vestido. Podia ir assim, mas um dia alguém achou
inaceitável ir com calças com gatinhos para a escola sem ser no Carnaval. Como
vivo em sociedade, que remédio tenho eu de respeitar estas regras que ficaram
por escrever na constituição. Sabem como estava bem? Na pandemia. Bem sei,
muita gente morreu, e isso é muito triste, mas eu podia ficar de pijama o dia
todo sem ninguém me massacrar a cabeça com isso. No fundo, era fim de
semana todos os dias, só que tinha de estudar na mesma e fingir que estava
atenta nas aulas online. O único julgamento vinha das redes sociais, onde toda a
gente fazia alguma coisa e eu me sentia mal por continuar de cabelo apanhado e
pijama dia após dia. Experimentei fazer pão, mas também não correu muito
bem. Enfim.
É outubro, mas está um sol agradável depois da chuva de ontem à noite, só
não está é muito calor, como seria de esperar, tendo em conta aquilo a que as
alterações climáticas nos habituaram. Pego numas mom jeans pretas, camisa
branca e uma malha lilás para este início de dia abraçado pelo fresco de outono.
Calço rapidamente os meus stan smith com uns quatro anos — já a precisar da
reforma — e dirijo-me para a casa de banho. Lavar os dentes e a cara, pôr o
creme, corretor e máscara de pestanas — para mim chega. Ah, e batom do
cieiro, claro, porque depois quem sofre sou eu. Já está tudo automatizado.
Os problemas chegam no momento em que passo para o cabelo. Num dia
normal, os meus caracóis já não me dão tréguas — afinal, se o pentear muito
nos dias em que não o lavo, a juba de leão fica ainda maior, por isso o truque é
apenas passar um pouco de óleo de argão entre os fios de cabelo com os dedos —
só que hoje os fios de cabelo vêm atrás. Um atrás do outro a ficarem colados à
minha mão. Olho-me ao espelho em pânico, mas sem surpresa, e com um
pedaço de cabelo enrolado no meu punho. Não é a primeira vez que acontece.
Apanho o cabelo para tentar disfarçar e saio da casa de banho como se nada
fosse.
Já são 7h55. Passo rapidamente na cozinha, onde está a minha mãe.
— Bom dia, mãe.
— Bom dia, Laura. O que queres comer?
— Estou mega-atrasada, mãe. Já sabes que não posso chegar atrasada às
quintas, senão a stora Rute mata-me!
— Mas tens de comer.
— OK. Levo um iogurte e uma sandes mista. Podes fazer-me a sandes,
mãezinha? — pergunto, e dou-lhe um beijinho na bochecha, a graxa perfeita.
— Claro, não te esqueças de preparar as coisas para o treino.
— Obrigada!
Já me esquecia do treino. Meto as coisas na mala num instante, mas ainda
tenho tempo de vir a casa antes de começar, pois é só às 18h e nós saímos às
15h. Contudo, mais vale estar já tudo pronto — claro que a minha mãe tem
razão, mas não lhe digam isso, por favor. Acabo de pôr as coisas na mochila,
pego num pacote de bolachas, no iogurte e na sandes que a minha mãe me
preparou e saio de casa.
Meto os fones e ando até ao Colégio D. Maria II (o nome não é inocente, ela
passava longos serões com os marqueses de Luz, mas não ficava tão bem para um
colégio privado ter no nome algo que fosse menos que a família real). São cerca
de 15 minutos a pé, o que me dá tempo para comer e chegar apenas um minuto
atrasada, acho que não vou sofrer por isso.
Não sei onde anda o Manuel, o Gui, a Diana ou os restantes. Nem tenho
tempo para pensar nisso agora, pois tenho de ir diretamente para o pavilhão C,
onde tenho a maioria das minhas aulas — eu e todos os alunos de Línguas e
Humanidades.
Só cheguei à sala às 8h18 — as minhas contas não bateram certo, ou fui
demasiado lenta, uma delas —, mas ainda estavam todos a entrar, e a professora
ia só agora começar a fazer a chamada. Safei-me. Se calhar, se tivesse ficado
menos tempo a matutar em tudo o que aconteceu ontem, não teria adormecido
após desligar o alarme às 7h.
Agora que me sentei, tirei as minhas coisas e a aula começou, já estou
novamente mais calma, mas os pensamentos voltaram a invadir a minha cabeça,
ocupando o espaço que deveria estar destinado à política e à atenção à aula. O
que ando a fazer à minha vida e o que posso fazer para mudar? É preciso mudar
alguma coisa?
Ouço ao longe o meu nome, ainda que não saiba de onde vem.
— Menina Laura? — Porra, é a professora a chamar-me.
— Sim?
— Está connosco?
— Sim, sim.
— Então, pode responder à minha pergunta.
Olho para todo o lado, sem saber o que fazer. Não me dou com muita gente
nesta turma e acho que ninguém me poderia ajudar naquele momento — afinal
há muito que se lhe diga sobre as principais correntes políticas, ninguém sabe
bem o que a professora Rute pretende.
— Como eu calculava, veja lá se põe os pés na Terra, que não precisamos de
mais visitas à Lua! — diz, achando que teve imensa piada. Plot twist, não teve,
mas eu perdoo por já ser de meia-idade, se calhar teria piada nos anos 80.
De qualquer modo, devia estar mais atenta. Mais um bocadinho e estamos na
primeira época de testes. Não me posso dar ao luxo de estar distraída agora.
Preciso de subir a média se quero ir para Relações Internacionais (adorava
estudar no norte do país, no Porto!).
O relógio vai contando os segundos, marcados pela minha caneta a bater em
cima da mesa. O Leonardo — que está sentado ao meu lado por causa da ordem
alfabética — já me pediu para parar, mas não consigo. A caneta não bate ao
ritmo do relógio, bate ao ritmo do meu coração. Tum, tum, tum, tum, tum,
sem parar.
Cerca de uma hora depois, que pareceram três, toca para sairmos da aula.
Finalmente. Lá fora, encontro logo o Manuel e a malta, na mesa do costume, no
átrio.
— Olá, Laurinha — diz ele, e dá-me um beijo curto quando me vê. — Já
tinha saudades tuas, ontem não disseste mais nada.
— Sabes que também podias ter dito, certo?
Estamos quase todos, falta o Simão e o Gui, que vão estando muitas vezes
juntos, sem nós, também por causa do clube de fotografia. Pensando bem, acho
que o Gui até nem teve a primeira hora da manhã.
— Então, miúda, ontem o treino correu bem? — pergunta a Diana. Sei que
não tem maldade, mas fiquei completamente vermelha.
— Treino? — questiono, sendo que em menos de dois segundos me lembro
da desculpa esfarrapada que dei ontem. — Ah, sim, correu bem.
— Olha, Laura, temos de fazer uns vídeos no teu equipamento de vólei.
Aposto que ia bater imenso nas redes!
— Kika, sabes que não tens equipamento, certo? E que é só para a equipa?
— pergunto, rindo-me. Só ela para ter estas ideias.
— E ninguém me pode emprestar, só por um dia?
— Duvido muito.
— Ninguém vai fazer vídeo nenhum, era só o que faltava. Não basta teres de
vestir esses calções para toda a escola e outra malta verem?
— Ó Manel, não sejas ridículo. É desporto, tem de ser assim, dá mais jeito
jogar assim do que com roupa larga, por exemplo.
— Eu sei, mas porque achas que estão sempre tantos rapazes a ver os jogos?
Não é por jogarem bem, de certeza — diz isto enquanto dá um high five ao
Xavier, pois acha que teve imensa piada, quando na verdade nós jogamos bem.
O ano passado ficámos em quarto nos nacionais. — Imagina se fossem pôr
vídeos assim vestidas na net…
— Também não tens de te preocupar comigo, porque não vou fazer nada
disso — digo, para finalizar a conversa, e dou-lhe um beijo na bochecha.
Toca para irmos para a aula seguinte, e o Manuel pede-me que espere. Sabe
que tenho Português e que as aulas começam sempre 15 minutos atrasadas com
o stor Gustavo. Ele vai para o pavilhão B, mesmo perto do meu. Não sei o que
será.
— Ontem o Gui saiu atrás de ti.
— Sim, ia para casa também.
— Vi de longe que ele ainda te apanhou. De que falaram?
— Nada de mais, eu ia ter treino, ele perguntou-me como estava a correr e
quando íamos ter jogos.
— Levou-te a casa?
— Ele não me levou a casa, Manel. Ele foi para casa e eu fui para a minha e,
como sabes, ficam as duas na mesma direção. O ano passado fazíamos este
caminho juntos todos os dias.
— Pois, mas no ano passado não namoravas comigo.
— Manel! Que raio, é teu amigo, que se passa?
— Nada, nada. Sabes que te posso levar a casa também.
— Eu sei. Ouve, tenho de ir para a aula.
Viro costas e vou em direção ao pavilhão. Quando olho em frente, a Diana
está a olhar fixamente para mim, como se estivesse a ver a minha alma. Suponho
que esteja à minha espera, temos Português juntas, porque a turma de Artes são
apenas doze pessoas e a minha de Humanidades é a mais pequena (escolhemos
Literatura, e a maioria dos miúdos de 14 anos, quando escolhe as disciplinas
opcionais, foge a sete pés de Literatura), somos apenas quinze.
— Lau, não pude deixar de ouvir, desculpa. Estás bem?
— Sim, porque não havia de estar? — percebi muito bem a pergunta, mas
queria evitar esta conversa, já me chega o Gui.
— Bem, aquilo pareceu-me um ataque de ciúmes. Do Gui! Quem diria.
— Pois, foi o que eu pensei. Ele não tem razão nenhuma para ter ciúmes do
Gui.
— Ele costuma fazer isso?
— Isso o quê?
— Ser assim.
— Assim como?
A pergunta fica suspensa no ar, pois somos interrompidas pelo professor
Gustavo:
— Olá, meninas! Toca a andar para a sala.
E entramos.
A meio da aula, sinto o telemóvel a vibrar-me no bolso. Não consigo não
olhar:
Eu sei, Diana, eu sei, mas não consigo lidar com isto agora, hoje… não irei
conseguir lidar com isto tão cedo.
Sorrio na sua direção e, sem emitir um som, mexo os lábios para lhe dizer
que «está tudo bem».
Está tudo bem, penso para mim.
Está tudo bem — hoje ainda não tenho noção da quantidade de vezes que
vou mentir ao dizer esta simples frase.
Está tudo bem.
E assim se foi passando o dia, sempre com uma inquietação dentro de mim,
sempre a sentir o sangue a passar-me nas veias ao ritmo do meu coração e a
perna a bater compassadamente, ao ritmo da dança do sol.
Mas está tudo bem.
7
Espero-te
«My thoughts, they slip away
My words are leaving me
They caught an aeroplane
Because I thought of you
Just from the thought of you»
Birdy (2013)
[ Guilherme ]
H oje quase não tenho aulas. Tenho apenas Psicologia, Português e a reunião
do clube de fotografia, mas isso não conta. A minha primeira aula é só às
10h e é Psicologia, a disciplina que escolhi claramente para subir a média, pois
é facílimo tirar 20 no final, segundo o que dizia a malta mais velha (e as pautas
deles).
Tenho uma boa média, mas quero entrar em Engenharia Biomédica no
Técnico em Lisboa — nunca quis ser médico, vejo a vida que os meus pais têm,
mas a medicina ainda assim fascina-me, assim como a tecnologia que permite
que os médicos salvem vidas. A decisão do curso não foi difícil e também não
chateou os meus pais, que sempre me apoiaram — acho que apoiariam mesmo
que eu quisesse ir para Tradução, que nada tem que ver com saúde.
Acordei supercedo, sem conseguir dormir mais assim que os raios de sol
começaram a passar pelos buracos dos estores, a sentir a urgência de ver a Laura,
de falar com ela. Sei que ela hoje teve logo a primeira hora, portanto de certeza
que não a apanho no caminho para a escola. Saímos os dois às 15h, talvez aí dê.
Abro o roupeiro, visto as primeiras coisas que me caem nas mãos: calças de
ganga, T-shirt branca e um casaco de fato de treino vermelho-escuro, da cor dos
meus old skool (a prenda mais recente dos meus pais depois de perceberem o
estado em que os meus all star brancos estavam — já eram mais cinzentos que
outra coisa).
São 9h15 e já estou despachado, tal é a pressa de a ver. Vou a pé para a escola,
escuso de apanhar o autocarro que normalmente apanho quando me atraso, pois
são apenas cerca de 25 minutos a pé.
Mal chego à escola, vejo o Simão. Tinha acabado de ter Economia C e, no
intervalo, foi para o portão do colégio, esperar por mim.
— Olá, olá!
— Como estás, mano?
— Ew — diz, fazendo um ar de quem vai vomitar naquele preciso momento.
— Odeio que me chames isso, Gui, pareces tão machão.
— Estou a brincar contigo — digo, enquanto me rio e lhe dou um murro no
ombro em forma de cumprimento.
O Simão é homossexual. Ele não fala disso, e eu não comento, mas eu sei, sou
um dos poucos do grupo que sabe. Não me chateia que ele não se assuma
perante o resto do grupo, pois é uma coisa dele, simplesmente não comentamos.
Os pais não são os melhores amigos da comunidade queer, portanto nem quero
imaginar se o Manuel soubesse — afinal, os pais deles dão-se megabem. Mas eu
estarei cá para ele, sempre que ele precisar. Eu, a Lau e a Di. E ele estará para
mim. E estará para a Laura, mesmo que ela não o saiba ou não o sinta.
— Hoje já podemos falar do projeto para fotografia?
— Qual projeto?
— O que te falei ontem.
Merda, já me tinha esquecido disso, com tudo o que aconteceu.
— Claro que sim. Queres contar-me já, ou só na reunião do clube, a seguir a
esta aula?
— Aposto que já te tinhas esquecido.
— Confesso que sim, não foi um dia fácil.
— Então?
— Nada, deixa lá. Conta mas é o que tens nessa cabecinha!
— Pensei em várias coisas. Por exemplo, para o Memorial do Convento,
podíamos ir a Mafra fazer as fotos, mas ouvindo sempre o que elas sentiram ao
ler o livro.
— Captar emoções?
— Sim, isso mesmo.
— É difícil. Sei que, no ano passado, quando a Laura leu esse livro, só porque
sim, olhou para ele como um protesto, como a opressão sobre os trabalhadores e
a liberdade no final, na subida aos céus. Como representarias isso?
— Ei, eu não li o livro, não sei.
— Lembro-me mesmo de ela dizer que se sentiu oprimida durante quase
todo o livro. Claro, é apenas a opinião dela, mas se todos achassem o mesmo
seria complicado.
— Bem, com certeza podemos pôr umas amarras para simbolizar a opressão.
E para a libertação, sei que adorarias ter uma bandeirinha com uma foice e um
martelo. — Rimo-nos os dois. Ele é mesmo a alegria em pessoa, não há melhor
forma de o descrever.
— Tens muita piada! Mas agora a sério, talvez fosse mais fácil juntarmo-nos
também com o clube de teatro e recriar cenas dos livros.
— Também é uma boa ideia.
Toca, finalmente! Adoro o Simão, mas a minha cabeça não está para isso, não
hoje, não enquanto não estiver tudo resolvido.
— Bem, tenho de ir. Vou ter Psicologia, amigo. Até logo!
— Adeus… e, Gui, se quiseres falar já sabes.
— Sei sim, miúdo.
Sigo para a aula, no pavilhão B. Ao longe vejo o Manuel e a Laura a falarem.
A coisa parece tensa, mas não estou pronto para interromper aquilo, não agora,
não sem entender a 100% o que se passa, não sem ter a confirmação dela de que
as coisas não andam bem. Dou meia-volta, e vou por outro caminho para o
pavilhão. Encontro a Matilde ao longe e não sei o que preferia, se passar pela
discussão do casalinho perfeito ou por ela, mas há forma de evitar: coloco os
fones e finjo que estou desligado para o mundo até à hora em que me sento na
secretária.
Cada minuto passado dentro daquela sala é um sacrifício. Olho para o relógio
e ainda só passaram cinco minutos. Olho novamente, mais cinco minutos. E
novamente, outros cinco. Se assim for, não sei como vou aguentar 90 minutos
disto. Hoje não aguento 90 minutos do tempo a passar, como aguentarei três
anos no limbo?
Rabisco o caderno com a caneta. Não escrevo, nem desenho nada, são apenas
riscos, uma forma da minha cabeça ir desanuviando. Paro e olho para a mancha
que criei, assemelha-se a um coração (a um verdadeiro coração, não aos que
aprendemos a fazer no jardim de infância), o que é irónico, pois o meu tem dado
muitas voltas dentro do peito nas últimas 24 horas.
— Gui, pareces stressado. — A voz é da Matilde, a minha colega do lado,
que me toca no braço com gentileza.
— Está tudo bem. — Sei o que ela quer, sei disso desde que ela se sentou ao
meu lado no início do ano letivo e assim foi ficando, pois a diretora de turma
não nos colocou por ordem alfabética e não teve paciência para fazer alterações,
retirando-me do meu santo lugar ao pé do Francisco, uma das poucas pessoas
decentes desta turma. E por isso é que a tentei evitar ainda antes de chegar à
aula.
— Se quiseres, podemos ir desanuviar na hora de almoço. Vais almoçar onde?
— No bar da escola, uma sandes de atum provavelmente.
— Que deprimente, porque não vens à hamburgueria? Podemos ir os dois.
— Matilde, tenho muito que fazer.
— Pronto, desculpa lá.
— Não leves a mal, tenho reunião do clube.
— Tudo bem, acho que estarias melhor comigo, só isso — diz, enquanto me
acaricia a mão e eu reviro os olhos
Ela não é feia, de todo. Dá uns ares de Alba Baptista (sim, a atriz portuguesa
que conseguiu sacar o Capitão América) e podia ter qualquer um que quisesse.
E se eu estivesse emocionalmente disponível, com certeza que quereria, mas a
minha cabeça não está bem neste momento. Nem sei se alguma vez estarei
emocionalmente disponível. Talvez apenas esteja para uma pessoa. Talvez não
esteja para ninguém. Qualquer rapaz me abanaria e diria que eu estou maluco
por não aproveitar, mas para mim não dá. Já passei por isso. Já estive com
raparigas só porque sim e acabo sempre por magoá-las. Querem sempre mais do
que eu. Não as julgo, também quero tudo o que elas falam, mas não com
nenhuma rapariga que conheci até ao momento. Além disso, não consigo pensar
em mais nada se não em resolver as coisas com a Laura — acho que nunca se
chateou comigo como ontem, e com razão. Não devia ter dito nada.
A hora de almoço é passada com a malta do clube de fotografia. Foram os
únicos 45 minutos em que tive algum vislumbre de distração, com o Simão
megaentusiasmado — ele gosta mais disto do que eu e até acho que tem mais
jeito, deveria estudar Artes e não Economia, mas os pais não deixaram. Os
outros membros do clube adoraram as ideias e ficaram encarregues de tratar da
papelada com a escola para nos deixarem ir ao Convento de Mafra ainda antes
das férias de Natal, caso contrário teremos de pedir alguns pais voluntários para
nos levarem até lá. Eu e o Simão ficámos encarregues de falar com as meninas.
Já a aula seguinte, de Português, foi passada entre olhares vazios para as
paredes, olhares de esperança para o relógio e suspiros audíveis no outro lado do
mundo. Mas finalmente chega a hora, toca.
Tento sair rapidamente da sala. Chego, inclusive, a tropeçar na mochila de
um dos meus colegas (porque a deixou no chão?). O pavilhão B é perto da
entrada, mas há um mar de gente a sair a esta hora. À minha frente está o
Manuel, consigo reconhecê-lo, com a Laura ao lado. Deixo-me estar um pouco
para trás, com certeza os dois ainda se vão despedir, e não sei se tenho estômago
para observar isso, não hoje, não depois de perceber que algo está errado.
Sei que ela tem treino hoje, mas costuma ir a casa primeiro. Quase de certeza
que consigo falar com ela, a não ser que vá de carro com o motorista da família
Amorim; nem sequer fica em caminho, mas agora é o mais habitual. Espero que
não, não quero deixar nada por dizer, não a uma amiga que me conhece há anos
e é tão importante para mim.
Quando saio do portão, ali está o Tesla dos pais do Manuel (que já lhe
prometeram oferecer um assim que ele tirar a carta). A Laura está lá, assim
como a Maria, a irmã mais nova do Manuel.
Vejo tudo ao longe, com um único pensamento a atravessar a minha mente:
«Por favor, não vás com eles.»
8
Pequena mentira
«The arguments that I have won against you in my head
In the shower, in the car and in the mirror before bed
Yeah, I’m so tough when I’m alone and I make you feel so guilty
And I fantasize about a time you’re a little fuckin’ sorry
And I try to understand why you would do this all to me
You must be insecure, you must be so unhappy
And I know in my heart hurt people hurt people
And we both drew blood, but, man, those cuts were never equal»
Rodrigo, Olivia (2023)
[ Laura ]
Q António,
uer vir connosco, menina? Não custa nada, como sabe. — Ouço o senhor
–
o motorista do Manuel, dizer.
E enquanto ele me pergunta isso, a minha cabeça levanta-se ligeiramente e os
meus olhos avistam uma pessoa. Ali está ele, o Gui. Está com o corpo congelado
na porta da escola, a olhar para nós. Sei perfeitamente o que quer, e sei que
tenho de o fazer, mesmo que não queira muito falar com ele, pois há uma
vozinha na minha cabeça que diz que tenho de ir. E sem me aperceber, sinto os
meus lábios a esboçar um ligeiro sorriso na sua direção.
— Menina? — pergunta novamente, devo ter demorado uma eternidade nos
meus pensamentos.
Mesmo sabendo o que preciso e o que devo realmente fazer, não consigo. Não
tenho coragem para o enfrentar. Não tenho coragem para me enfrentar a mim
mesma. Prefiro ficar a sós com os meus pensamentos, com as vozes negras que
mancham a minha cabeça em relação à minha relação (serão só vozes?), comigo.
Preciso de pensar antes de falar com o Guilherme. E, quem sabe, quando eu
tiver pensado tudo o que preciso, a minha relação esteja finalmente perfeita e
nem precise de ter esta conversa. Talvez se eu aguentar, como a minha mãe
aguentou, ele mude, ao contrário do meu pai. Não sei nada, só sei que não
consigo falar hoje com o Gui.
— Laura? — é a vez do Manuel fazer a pergunta.
— Sim, vou — digo, enquanto entro no carro sem olhar novamente para o
Gui. — Importas-te que vá um bocadinho para a vossa casa? — pergunto.
— Claro que não, baby.
Assim que enviei a mensagem, senti o meu estômago a dar voltas e a azia a
subir-me garganta acima. Por que razão me sinto assim? Porque é que o meu
cérebro me faz sentir culpada por querer estar com um amigo meu (nosso)?
Tenho de fazer controlo de danos antes que eles possam existir:
Sorrio.
— Estás a sorrir para o telemóvel?
— Ah. — Fico atrapalhada, ele está em cada canto. — Sim, estava a falar
com a Diana. Olha, a minha mãe ligou-me a lembrar-me de que ainda tinha de
passar em casa antes de ir para o treino. Achas que o senhor António me pode
levar?
— Claro, eu vou já chamá-lo.
— Ah! E mais uma coisa. Amanhã não esperes por mim depois da tua aula
de Educação Física. Eu depois de sair de História vou falar com o Gui sobre um
projeto conjunto do clube de fotografia e literatura por causa de uns pormenores
quaisquer. A Diana também vem!
— A Diana? Mas ela não tem só uma aula amanhã?
— Sim, mas depois vem ter connosco na mesma. Sabes como ela é!
— Sim, sim… — Será que me safei? — António! — grita.
Desço as escadas com o coração nas mãos. Não sei o que acontecerá amanhã.
Mas tenho de desabafar urgentemente com alguém.
9
Roxo, verde e amarelo
«So step right out, there is no amount
Of crying I can do for you»
Swift, Taylor e Bon Iver (2020)
[ Guilherme ]
D urante a manhã, não senti o tempo passar. Era como se estivesse congelado a
assistir ao dia a passar por mim, como se estivesse num filme — via tudo
como se eu fosse apenas um espectador da minha vida. Sentia o sangue a passar
pelas minhas veias, o ar a encher-me os pulmões, os músculos a responder às
tarefas automáticas pedidas pelo meu cérebro, um passo à frente do outro, mas
sem ser realmente eu.
Acordei desta paralisia no momento em que vi o seu nome no ecrã do meu
telemóvel.
[ Laura ]
[ Guilherme ]
Sei o que isso quer dizer, e sei perfeitamente que já não me vou divertir. Vou
passar as próximas horas a pensar no que terá acontecido depois de lhe ter
limpado as lágrimas na casa de banho. Será que voltaram a falar do assunto?
Será que ela queria vir? Será que ele a impediu? Ou pior, será que a magoou por
causa daquela conversa ridícula?
Ainda assim, entro. Tenho de tentar distrair-me. Lá dentro, a música está a
bombar em altos berros. A luz é pouca, por isso necessito de cinco minutos para
o meu olhar se ambientar. Ao fundo, vejo a Matilde a vir na minha direção. Não
é a melhor altura, viro costas e dirijo-me ao bar.
— Dois shots de tequila, por favor.
— Com quem é que vais beber isso? — É o Simão que pergunta,
aproximando-se.
— Afinal são quatro! — digo, meio aos berros, porque a música não dá para
mais.
Sal. Tequila. Limão. Repetimos.
O álcool desce pela garganta e arde. Mas o que arde cura, não é o que dizem?
E neste momento, eu preciso de curar, não sei o quê, mas preciso. E de esquecer.
Não sei qual das duas é mais forte, mas o álcool serve para ambas.
— Estamos a beber por algum motivo em especial?
— Para celebrar as amizades! — digo a sorrir. — Especialmente as tóxicas
— digo mais baixinho, ou pelo menos achava que estava a falar baixo.
— O que queres dizer com isso? Estás a falar de quem eu estou a pensar?
— Não quero dizer nada, Simão, não sei em quem pensas. — Sei bem que
ele percebeu. — Anda, vamos ter com a malta.
E depois de cinco minutos a levar empurrões da multidão, conseguimos
chegar ao nosso sofá. A Diana e a Francisca já estão alegres quando chegamos ao
pé delas — o efeito de dois shots e uma vodca limão em duas miúdas com pouco
mais de metro e meio, mas sei que elas aguentam mais que isto.
Por uns momentos, esqueço tudo. Sorrimos, abraçamo-nos, cantamos a
plenos pulmões. Sinto a música a entrar pelo meu corpo — hip hop, reggaeton,
pop e até funk —, mas tudo volta à minha cabeça ao fim de algum tempo. Falta
um abraço. Falta uma voz. Falta um sorriso. Acabo por me escapar para ir
novamente ao bar.
— Um whisky cola por favor.
— Whisky, hein? Nunca pensei que fosses desses.
Olho e é a Diana, que veio atrás de mim.
— Estou a ver que hoje está difícil beber sozinho. O que queres?
— Se fores um querido, quero um gim tónico. Mas quero também saber o
que se passa contigo. Estás aqui, mas ao mesmo tempo parece que não estás.
— Olhe, um gim tónico também, por favor — digo para o empregado de
balcão, enquanto pego no meu whisky. Volto-me para a Diana e respondo: —
Acho que já bebeste de mais, Di.
— É a Laura, não é?
— Desculpa?
— Sim, sentes a falta dela, não sentes?
— Acho que todos sentimos.
— Tu percebeste o que quis dizer.
— Não, não percebi — minto. — Agora, se me permites, vou estar um
pouco sozinho.
E viro-lhe costas. Necessito deste tempo para mim — felizmente, sendo
homem, posso estar sozinho numa discoteca sem ter perigo a rodear-me a cada
minuto.
Volto ao bar.
— Acha que é desta que consigo beber sozinho? — O empregado ri-se. —
São dois shots de tequila.
Sal. Tequila. Limão. Repito.
Olho para o relógio. São apenas 1h44 e eu já quero ir embora, quero ir desde
que ela não chegou, na verdade.
Não lhes digo nada e dirijo-me para a porta. Um passo de cada vez, meio a
cambalear, mas eu consigo. Estou em pé, consigo chegar lá fora.
E chego. Ar puro — não damos valor suficiente a esta maravilha que é
apanhar ar. Estava prestes a pegar no telemóvel para chamar um uber quando
ouço o meu nome.
— Gui!
Oh, não, reconheço esta voz das aulas e não me apetece nada lidar com esta
pessoa agora!
Mas aqui está ela, a agarrar-me no braço.
— Estás bem?
— Sim, porque não haveria de estar?
— Bem, parece que mal te aguentas em pé…
— Nada com que eu não consiga lidar sozinho.
— Porque estás a ir já para casa? Volta, podemos dançar os dois.
— Matilde, ouve, tu és muito bonita, OK? Mas eu não estou nessa onda
agora.
— Achas-me gira?
— A sério que só ouviste isso?
— Vá, não digo mais nada. Mas deixa-me ao menos fazer-te companhia até o
uber chegar.
Felizmente, cerca de dez minutos depois, chegou um carro que correspondia
à descrição que se encontrava na aplicação, pronto para me levar para casa.
Olhei para o lado para agradecer à Matilde e me despedir, e ela inclina-se para
me tentar beijar. Tive tempo para me desviar, e os lábios dela tocaram apenas no
canto dos meus. Merda, não eram esses que eu queria. Merda, não acredito que
pensei mesmo isto.
Abro a porta do carro. São 2h03. Num ato de loucura, pego no telemóvel e
ligo para a Laura. Claro que não deve atender a esta hora, mas tentar não custa.
Chama, chama, chama, cha…
— Estou?
— Laura!
— Gui, já viste que horas são?
— Desculpa, precisava mesmo de falar contigo.
— Eu estava a dormir.
— Lau, desculpa. Gosto mesmo de ti. Precisava de te ouvir. — Sinto-me
lento e parece que as palavras saem a ferros da minha boca.
— Gui, vou dormir.
— Espera! Podemos ver-nos amanhã? — Já não me deve ter ouvido, ouço o
«piiiii» da chamada desligada. Só faço porcaria, mas não desisto.
Releio a mensagem três vezes. Acho que não tem erros, mas mesmo que
tenha, ela compreenderá.
No dia seguinte é feriado, mas eu tenho de a ver. Ela não responde logo,
obviamente, deve ter caído no sétimo sono assim que desliguei a chamada.
Chego a casa ainda meio desorientado. São 2h36, e eu tentei quatro vezes
abrir a porta de casa — a chave não estava a funcionar, só pode. Bebo um belo
de um penálti de água e rezo a todos os santinhos para não me sentir mal
amanhã. E para que ela venha.
Dispo as calças, tiro a camisola e vou dormir assim mesmo, de boxers, apesar
de este ano não estarmos a ser abençoados com o verão de São Martinho.
Acordei às 9h37 com o telemóvel a vibrar:
Depois de almoço? O que significa isso? Às 14h ou às 17h? Certo é que já
estou a contar os segundos a cada tiquetaque do relógio que ouço. Mas à medida
que o tiquetaque vai passando, os meus olhos voltam a fechar.
Só abrem às 14h36, quando ouço a campainha. Meio atordoado, levanto-me e
vou logo abrir.
12
Complicaste-me
«We’re drowning in our eyes
Don’t know what we’ll find
I’m not sure, should we fly or fight this?»
Carson, Sofia (2022)
[ Laura ]
C onsegui convencer a minha mãe de que ia estudar com a malta. O Gui tem
razão, nada como jogar a carta da faculdade. Elas caem sempre.
Saí depois de almoço, sem o Guilherme me ter dito mais nada desde manhã.
Já estou à sua porta e são apenas 14h35, espero que ele já esteja acordado, mas
não estou confiante na minha sorte.
Toco à campainha e nada. Felizmente, o senhor Nunes já me conhece bem (se
não venho ter com o Gui, venho ter com a Diana, o senhor já deve achar que
vivo aqui), caso contrário, teria ficado mesmo na entrada do condomínio ao frio
e à chuva que nos vieram abraçar no primeiro de novembro. Toco outra vez.
Finalmente a porta abre-se e desvenda um Guilherme que eu não esperava
ver, nunca. O meu queixo cai ligeiramente à medida que os meus olhos se
arregalam — será que se notou?
— Oh! Olá, Gui — digo, e logo a seguir engulo em [Link] meus joelhos
começam a tremer ligeiramente e a minha respiração começa a acelerar sem
saber a razão de tamanha urgência. O Guilherme está apenas de boxers, e
digamos que a vista não é nada má. Já sabia disso, vamos muitas vezes à praia
no verão, mas assim é diferente. Vejo as suas pernas definidas pelo futsal, os seus
abdominais, tal como uma tablete de chocolate, os ombros esculpidos, as
clavículas bem desenhadas. Mas o toque especial está no topo do seu metro e
oitenta: o cabelo encaracolado despenteado e os olhos desnorteados.
— Oh, porra! Já chegaste — diz, com as bochechas a ficarem vermelhas que
nem um tomate. — Ah! E, olá, Laura. — Sorri — Deixa-me vestir qualquer
coisa rapidamente.
Parte de mim, queria pedir que não o fizesse, não vou mentir, mas sei que é
totalmente errado da minha parte ter este tipo de pensamentos. Nem o Manuel
eu vi com tão pouca roupa, a não ser na praia, mas pronto, foi apenas um
acidente (certo?).
Vestiu-se efetivamente muito rápido, fez a cama (uau!), lavou os dentes e foi
comer qualquer coisa à cozinha.
— Pronto, já estou mais apresentável — afirma, com uma chávena de café na
mão. — Desculpa lá, é que adormeci mesmo.
— Não te preocupes. Não sei como é que não ficaste com frio — digo a rir.
— Ontem quando cheguei… bem, digamos que só queria dormir. — E
esboça um sorriso, meio de lado, como costuma fazer. Sorrio de volta.
Fomos em direção ao seu quarto. Sei que é o seu sítio preferido da casa, onde
tem as suas câmaras e a guitarra — sim, ele também toca guitarra —, mas,
bem, acho que o quarto é o sítio favorito de qualquer adolescente, não é
verdade?
O quarto tem uma parede verde-escura, atrás da cama, e as restantes paredes
brancas quase não são visíveis, pois estão cheias de fotografias tiradas por ele e
pósteres dos seus filmes preferidos. Pulp Fiction, Guerra das Estrelas, A Origem, e
reparo que tem uma nova aquisição desde a última vez que cá estive. É o póster
de O Amor Acontece.
— Uau, O Amor Acontece merece estar na parede? Nunca pensei.
— Como não? É o melhor filme de Natal e um romance incrível.
— Nunca pensei que fosses do tipo de romances. — Volto-me para ele. — E
nada detona o Sozinho em Casa como melhor filme de Natal.
Rimo-nos os dois. E ficamos assim durante o que parecem dez minutos, mas
deve ter sido no máximo um. Olho para a parte das fotografias. Protestos,
projetos escolares, a Francisca e a Diana, ele e o Simão, o perfil do Simão e eu.
Nunca tinha visto esta fotografia, estou desprevenida.
— Nunca me mostraste esta fotografia.
— Desculpa, acho. Gosto de ter aí as fotos dos meus amigos. E essa foto está
muito gira.
— Foi tirada este verão, certo?
— Sim.
— Nota-se as minhas sardas.
— São lindas — diz, sorrindo para mim, e eu não consigo evitar e acabo por
sorrir de volta (e, sim, a foto está incrível). — Senti a tua falta ontem —
continua, enquanto se senta na cama.
— Pela mensagem que me mandaste, eu diria que te divertiste muito. —
Sento-me ao seu lado, de modo que os nossos joelhos quase se tocam.
— Bebi um pouco de mais. Ou pelo menos bebi muito em pouco tempo.
— Pois… às duas da manhã já estavas a voltar para casa. Porquê?
— Sem ti não é tão divertido.
— Que lamechas, Gui!
— Porque não foste?
— Sabes muito bem porquê.
— Foi aquilo do outro dia na escola?
— Sim e não.
— Podes explicar?
— Bem, já não me apetecia muuuito ir, confesso. E com todo o drama em
relação à roupa, fiquei com ainda menos vontade de ir para uma festa. É que se
fosse, eu estava a uma unha de ir com uma roupa ainda mais reveladora do que a
que a Kika estava a descrever, só mesmo para o chatear. — Ele ri-se, o que será
que imaginou? — Depois fiquei com medo. E depois pensei que não queria
problemas. Nem sequer cheguei a pedir autorização à minha mãe para ir.
— Lamento muito, Lau — diz, enquanto mete a mão dele em cima da
minha.
— Ora. Ao menos tenho com quem falar. Obrigada por me ouvires.
— Estou sempre cá para isso, pequena.
— Mas, afinal, por que razão querias que viesse ter contigo?
— Já te disse, senti a tua falta.
— Gui, amanhã já me ias ver outra vez na escola, isso não é desculpa.
— Bem, aconteceu uma coisa…
— Conta! Quem foi a sortuda? — O meu entusiasmo é real, sou um pouco
coscuvilheira com os meus amigos, mas ao mesmo tempo a minha barriga dá
voltas e espero mesmo que ele diga «ninguém».
— Sabes a Matilde da minha turma?
— Ah! Meu Deus! Sim! — Será que fingi bem o entusiasmo? — Aquela que
está sempre a atirar-se a ti? Ela é muito gira.
— Sim, mas, bem… não aconteceu nada. — Fico aliviada, não vou mentir.
Depois de o meu coração respirar de alívio, olho para ele e levanto uma
sobrancelha, semicerrando os olhos logo de seguida. O meu ar confuso deve ter
sido notório, pois ele apressou-se a explicar:
— Quando saí da Moon, ela veio atrás de mim. Viu que eu estava bêbedo e
ofereceu-se para me fazer companhia até o uber chegar — diz, aproximando-se
de mim. — Depois tentou beijar-me — aproxima-se mais um pouco —, e eu
desviei a cara, pois apercebi-me que não eram aqueles os lábios que eu tanto
desejava beijar, mesmo que não soubesse quais no momento.— E mais um
pouco, já não havendo espaço algum entre nós.
— Então e já sabes? — digo e levanto a cabeça, sabendo bem qual era a
resposta. Ele está mesmo ali, com o corpo quase colado ao meu. Os nossos
narizes estão tão perto que sinto a sua respiração a aquecer-me o rosto, os nossos
lábios separados por uma fina folha de papel. O rosto dele brilha, ou talvez
sejam apenas os seus olhos, tão perto dos meus que sinto como se me estivesse a
afogar neles. Sinto a barriga a tremelicar, a minha perna começa a tremer ao
ritmo dos calafrios que se espalham dentro do meu corpo e o meu coração salta
um batimento.
— A ti. — E tenta beijar-me, mas eu inclino-me para trás rapidamente,
sendo que ainda senti um toque breve dos seus lábios a rasparem nos meus.
Afasto-me e levanto-me, cortando a tensão que pairava no ar.
— Gui… — Faço uma pausa porque não sei como processar o que acabou de
acontecer, não sei se é bom, se mau. — É melhor não. Não vamos estragar isto.
— Nem sei bem se acredito no que estou a dizer, nem sei bem se não quero,
mas sei que não devo e não posso.
— Mas — começa por dizer, mas acrescenta um pedido sincero de
«desculpa» logo que se apercebeu do que ia fazer.
— A minha relação pode não ser perfeita, mas eu ainda estou nela e não era
capaz de fazer isso — digo, sem muita convicção, pois já pensei muitas vezes
que seria muito mais fácil um caminho destes, rápido, para ter uma «desculpa»
para acabar com tudo. O problema é que uma parte de mim ainda quer lutar
pelo Manuel, uma parte cada vez mais pequena de mim. Além disso, também
sei que um caminho destes equivaleria a vingança, e vingança vinda de um
Amorim é algo com o qual eu prefiro não ter de lidar. — E também não quero
estragar a nossa amizade, Gui!
— Tens razão, mas até quando?
— Até quando o quê?
— Até quanto é que te vais submeter a isso? Quando é que começas a ser
feliz?
— Não sei, tenho medo de sair.
13
Possessão
«Porque é que finjo não me estar a iludir?
Eu já devia ter saído há muito tempo
Eu é que fingi não ver o relógio
Desculpei-me com o calor do momento
Para não ter de vestir o nosso amor de ódio»
Deslandes, Carolina (2020)
[ Laura ]
S ãoontem.
6h59 e eu já estou acordada. Ainda não consigo acreditar no que aconteceu
Não acredito que o Gui me queria beijar, a mim, de todas as
raparigas no mundo (ou pelo menos de Vila de Luz), e muito menos acredito
que uma pequena parte de mim também o desejava, ou deseja, não sei. Recuso-
me a pensar nisto outra vez, que tipo de pessoa sou eu? Em quem me
transformei? Não posso fazer isso ao Manuel. Eu não sou má pessoa, por muito
que às vezes sinta que o sou aos olhos dele… e aparentemente ele tem razão.
Ligo o meu projetor de estrelas — a única coisa que parece acalmar-me nestes
dias — e fico a olhar para o teto do meu quarto, que agora se parece com a
imensidão do universo, durante cerca de dez minutos. Sinto-me pequenina
assim. E precisava disto, precisava de colocar as coisas em perspetiva.
Não, não sou má pessoa. Tive um mau pensamento. E é apenas porque a
minha relação não está perfeita de momento. Em breve tudo se encaminhará,
tenho (quase) a certeza disso.
Arranjo-me com todo o tempo do mundo, mas paro quando chego ao cabelo.
Voltou a acontecer. Depois de tomar banho, tenho mais cabelo no ralo e na
escova do que na cabeça. O que será que está a provocar isto?
Volto a apanhar o cabelo, termino o que tenho de fazer e saio para o colégio.
Hoje é quarta-feira, e toda a gente do nosso grupo entra às 08h15, portanto até
gosto de chegar mais cedo para conviver com eles (ou, pelo menos, com os que
chegam a horas) um pouco antes de me arrastar para uma sala de aula durante
hora e meia. Sei que é dia de ir ao café, mas acho que vou inventar uma
desculpa para vir para casa descansar — mal eu sabia que nem precisaria de
uma desculpa. Está tudo a ruir.
Mal entro no átrio, o Manuel começa a dirigir-se a mim. Não parece estar
com boa cara. Já vem descarregar em cima de mim alguma porcaria que lhe
aconteceu. Ou talvez eu tenha feito algo. Será por não lhe ter respondido às
mensagens ontem? Não temos falado muito, pois a atitude dele foi péssima,
mas ele finge que não se passa nada, o que é ainda mais irritante. Ao menos
podia reconhecer a porcaria que faz, mas não.
— Laura! — grita, deixando todos os presentes a olhar para nós.
— O que foi, Manel?
— O que foi? Ainda tens a lata de perguntar o que foi?
— Sim. Se é por não te ter respondido às mensagens, desculpa…
— Estou-me bem a cagar para isso!
— Então…
— Então nada, deves pensar que eu não sei o que andaste a fazer ontem. — E
assim que ele diz isto, eu percebo que ele sabe que estive com o Gui e que os
próximos minutos vão ser muito piores do que eu imaginei inicialmente.
— O quê? — questiono, ainda com esperança que a gritaria não escale para
mais do que isso.
— Eu sei que estiveste em casa do Gui, portanto não me venhas com merdas.
Porque é que foste lá? — Tento responder, tento interrompê-lo, mas sem
sucesso. — Responder às mensagens do teu namorado não, mas estar com o
meu melhor amigo nas minhas costas já é OK?
— Ele também é meu amigo, ou já te esqueceste? — Consigo finalmente
dizer.
— Laurinha, não sejas ingénua. São amigos o caraças. Deve querer ir-te à
cona, é o que é, como quer com todas!
— Manel, não digas uma coisa dessas do Gui! E, olha lá, andas a espiar-me,
é? — Acabo por me passar e levantar a voz para um volume ainda mais alto do
que o dele.
— Não sejas tão egocêntrica. Esqueces-te de que o Xavier mora no mesmo
condomínio que o Guilherme?
— A Diana também mora lá.
— Só que não foste visitar a Diana, pois não? — Olho para ela que está lá
atrás. Consigo ler «desculpa» nos seus lábios. Ele deve ter-lhe perguntado.
Estou lixada.
— Manel…
Vejo o seu rosto a contorcer-se, a ganhar tons que no pantone seriam definidos
como «vermelho-raiva». Tenho medo, quero sair. Observo os seus punhos a
fecharem-se e a sua mão a levantar-se no que me parece ser uma câmara lenta.
— Ou te calas ou…
— Ou quê? — Reconheço esta voz. É o Gui.
O Guilherme chegou por trás do Manuel, mas não se devia ter metido na
discussão. À medida que ele interrompe o menino Amorim, ele vira-se, e a sua
mão, que imagino que era dirigida a mim, acaba por embater no Gui.
Um grito de pânico escapa-me dos pulmões, sem saber bem ao que acabei de
assistir e que sentimentos esta discussão desperta em mim. À nossa volta, as
pessoas aglomeram-se, deixando-nos aos três no centro. Os miúdos mais novos
começam a gritar «luta» como se estivéssemos num filme de pancadaria. Uma
confusão de punhos, cotovelos e lágrimas apodera-se do átrio. Choro e grito para
lá do meu limite. O Simão e o Xavier vêm e agarram o Manuel, que continuava
a projetar a sua raiva num Gui que nem queria lutar.
Começo a ver tudo negro, ou branco, nem sei bem.
De alguma forma, que não sei bem explicar, encontro-me na sala de aula a
ouvir a professora Carlota a falar não sei do quê da Revolução Industrial — não
estou verdadeiramente a ouvir.
Tive uma branca. Parece que tudo o que aconteceu antes se perdeu na minha
memória.
O que lhe deu? O que me dá para aguentar estas atitudes? O que teria
acontecido se o Guilherme não tivesse aparecido? Sempre disse a mim mesma
que, no momento em que estivesse numa relação assim, iria sair… mas eu até
gosto dele. Deveria gostar mais? Deveria portar-me melhor? Deveria ser uma
melhor namorada por ele? Estas dúvidas assolam-me — nos últimos tempos,
ocupam a minha cabeça dia após dia. O Manuel é o meu primeiro namorado, se
eu sair desta relação, vou destruir tudo o que temos, destruir o nosso grupo de
amigos, destruir-me. Eu é que ficaria sozinha, eu é que seria a «cabra», eu é que
ficaria sem ninguém e sem nada. OK, talvez não fosse bem assim, mas é o que
parece. Já para não falar do medo que sinto de escapar. Se eu sair desta prisão,
ele virá atrás de mim? Vai tentar, com certeza, aplicar-me uma pena maior do
que aquela que tenho. A pena será muito maior quando fugir.
Respondeu logo, como é óbvio. Aposto que nos próximos dias vai agir como
se nada fosse e ser o namorado perfeito. E eu vou gostar, pois sou masoquista e
parte de mim acha mesmo que ele vai mudar — que eu posso ser a sua
salvadora, a pessoa que o resgata desta raiva e toxicidade. Penso em não
responder, mas não quero atirar mais lenha para a fogueira.
Minto. Neste momento não o adoro muito. Como posso adorar alguém que
me iria bater? Bem, talvez não fosse. Talvez seja tudo um mal-entendido.
A verdade é que me ri, ele faz-me rir, por muito mau que isto seja.
[ Guilherme ]
C hego ao colégio por volta das 8h07, com esperança de ter uns relaxantes oito
minutos antes de me sentar a ouvir o professor Rui a debitar algo sobre
probabilidades. Infelizmente, não apanhei a Laura pelo caminho, queria pedir-
lhe desculpa por ontem. Sei que não devia ter tentado beijá-la, por muito que
quisesse, por muito que a deseje, por muito que tenha sido a única coisa na
minha cabeça nos últimos dias. Tenho de respeitar a relação dela com o Manuel,
mesmo que isso signifique que a vejo ser infeliz ao longe, mesmo que saiba o
sofrimento que lhe causa. Tem de ser ela a querer libertar-se. Já não está nas
minhas mãos.
Mal entro no átrio, ouço gritos. Está toda a gente calada, a olhar para o
centro do espaço onde se encontram duas pessoas a discutir. Mas não são duas
pessoas quaisquer, eu reconheço estas vozes. Merda. É a Laura e o Manuel.
— Ele também é meu amigo, ou já te esqueceste? — Foi a primeira coisa
que ouvi a Laura dizer, e percebi que era de mim que estavam a falar.
— Laurinha, não sejas ingénua. São amigos o caraças. Deve querer ir-te à
cona, é o que é, como quer com todas!
Abro a boca de choque. Somos «melhores amigos» o raio que o parta. Há uns
anos, ele nunca se atreveria a dizer uma coisa dessas, nem mesmo nas minhas
costas. Quero dizer algo, interrompê-lo, ajudá-la, alguma coisa, mas fico
paralisado com o que sai da boca dele.
— Manel, não digas uma coisa dessas do Gui! E, olha lá, andas a espiar-me,
é? — grita a Laura.
— Não sejas tão egocêntrica. Esqueces-te de que o Xavier mora no mesmo
condomínio que o Guilherme? — A sério? nem em minha casa estamos
seguros, agora?
— A Diana também mora lá.
— Só que não foste visitar a Diana, pois não?
— Manel…
E numa questão de segundos — que mais parecem horas —, o Manuel
enraivece, fica vermelho, os seus punhos fecham-se e a sua mão começa a
levantar-se.
— Ou te calas ou…
— Ou quê? — pergunto, depois de finalmente ganhar coragem para intervir.
Afinal, talvez esteja nas minhas mãos.
Ele vira-se para mim e a sua mão embate no meu rosto. Não acredito que
acabei de levar um murro do Manuel. Antes eu que ela — que agora grita em
pânico. Não me arrependo de nada, voltasse a acontecer o mesmo e eu voltava a
impedir que ele lhe batesse (pelo menos, parecia que o ia fazer).
À nossa volta, as pessoas aglomeram-se, deixando-nos aos três no centro. Os
miúdos mais novos começam a gritar «luta». O Manuel dá-me mais um
pequeno soco. Eu tento defender-me sem o atacar, mas acabo por cair ao chão.
Ele está em cima de mim quando o Simão e o Xavier o agarram. Vejo que a
Laura chora agarrada à Diana, que a tira dali para a levar para a aula.
Já não vou a Matemática, tenho faltas para dar, e se há algo que não me
apetece agora é ir para uma aula. Além disso, tenho de me dirigir à enfermaria
da escola e ver se consigo pelo menos limpar as feridas.
— Gui, estás bem?
É a Matilde e o seu belo sentido de oportunidade.
— Estou, sim.
— Que raio, achava que vocês eram amigos…
— Pois. Antigamente éramos.
— Ele está com ciúmes teus? Quer dizer, eu percebo, és bem mais giro, mas
consegues melhor que a Laura.
— Hã?
— Desculpa. Talvez queiras a Laura.
— Não quero nada, Matilde. Estava apenas a defender a minha amiga, que
estava numa má situação.
— Oh… pois, todos os casais discutem, de certeza que isto passa. — Anuo
com a cabeça e ela continua. — Vá, vou contigo até à enfermaria.
— Não é preciso.
— Não quero saber, alguém tem de cuidar de ti.
Não vou lutar. Ela é uma força da natureza e, quando quer algo, ninguém lhe
tira a ideia da cabeça. E, vá, não vou ser ingrato, ela está a ser boa pessoa.
A enfermaria fica mesmo ao lado do átrio. Quando chegamos, a enfermeira
Margarida fica surpreendida ao ver-me neste estado.
— O que andou a fazer, Guilherme? Sente-se aqui.
Efetivamente, não é comum eu andar em lutas. Nunca foi, tanto que levei
uns quatro ou cinco socos na minha vida toda e nunca dei nenhum. Já o Manuel
e o Xavier sempre foram muito mais agressivos nesse aspeto, chegavam até a
pegar-se um com o outro só porque sim.
Dá-me gelo para pôr no olho e limpa-me as feridas com água oxigenada.
Mete Betadine para desinfetar e dá-me um comprimido para as dores.
— Se sentir tonturas, volte cá, pode ser preciso ser observado por um médico.
— Obrigado, enfermeira Margarida!
Acho que se estão a preocupar em excesso, ele não é assim tão forte. Tenho a
certeza de que pareço bem pior do que realmente estou.
— Agora descanse um pouco.
Saímos da enfermaria, e a Matilde insiste para irmos para a zona de sofás da
escola.
— Obrigado, a sério.
— Ora essa. Precisas de alguma coisa?
— Achas que me podes ir buscar um copo de água? — digo, na esperança de
ter dois minutos sem a sua presença, para tentar ver se a Laura está bem.
Entretanto, a Matilde voltou. Senta-se ao meu lado, bem perto de mim —
quase sem me dar espaço para eu beber o copo de água que lhe pedi — e eu
digo-lhe para ir para a aula. Claro que a teimosia em pessoa insistiu para ficar ao
meu lado e não foi para aula nenhuma. Mas eu preciso de só mais um tempinho
para falar com a Laura sem a ter em cima de mim e, quem sabe, a olhar para o
meu telemóvel.
— Podes comprar-me algo para comer no bar? Um croissant, por favor?
— Claro.
Sei que a tenho na mão, se assim o entender, tal como quem tem um
fantoche. Ela faz tudo o que eu pedir, e não é por estar aleijado. Sinto-me mal
por me permitir pensar isso de uma mulher.
O bar da escola fica na outra ponta do átrio, e com sorte apanha gente à sua
frente, o que me dá mais uns minutos para saber da Laura.
Eu sei que não devia ter feito nada ontem, já reconheci isso a mim mesmo —
e a ela também. Mas acho que não é motivo para se afastar de mim. Não é de
mim que ela tem de se afastar. Não devia ser.
Olho em frente, e a Matilde está mesmo a chegar.
— Olha, queres faltar ao resto do dia? Podemos ir à tal hamburgueria que
sugeriste há uns tempos.
Os olhos dela iluminam-se e acena positivamente com a cabeça enquanto
esboça um sorriso gigante. Se não posso fazer a Laura feliz, ao menos que faça
alguém.
15
Síndrome do super-herói
«Eu sempre tive medo do fim
Sempre tive medo de amar-te
Agora que me escolhi a mim
Eu não tenho medo de nada»
Bandeira, Bárbara (2023)
[ Laura ]
4 de novembro
Passaram-se dois dias desde a discussão/cena de pancadaria no
colégio. Hoje fazemos sete meses de namoro, e a minha vontade
de celebrar é igual a zero (ou até negativa).
Ele já me pediu desculpa (por mensagem, e uma vez em
pessoa, só, mas chega, certo?), mas, ainda assim, não tenho
vontade de o ver, quanto mais de celebrar.
Estou por casa, e ele passou por cá. Quando ouvi a
campainha tocar, disse logo à minha mãe «se for o Manuel,
diz-lhe que estou doente». Ela perguntou porquê e eu disse-lhe
apenas que tínhamos discutido e que ainda não me apetecia
muito falar com ele, que depois resolvíamos as coisas na
escola.
Será que lhe devo contar o que o Guilherme tentou fazer? Por
um lado, sei que não devemos esconder coisas dos namorados.
Por outro, isso seria o fim do Gui. Nem quero imaginar o que
lhe faria. Se ele lhe bateu tanto e nem tinha motivos para tal, o
que faria se soubesse? E o que seria do nosso grupo de
amigos? Eu sei que o Xavier ficaria do lado do Manel, mas e a
Kika? Com tudo o que aconteceu entre eles quando andávamos
no nono ano, talvez ficasse do lado do Gui, mas não sei… e
eu? Para onde me viraria?
Até já tentei contar à Diana. Já lhe disse que precisava de
falar com ela, mas acobardei-me quando chegou o momento.
Já lhe escrevi um testamento com o que aconteceu e depois
apaguei cada letra. Não sei como dizer isto a alguém. Preciso de
clarear a cabeça.
Acho que é mesmo daqueles casos em que é melhor ficar
calada. Pode ser que o Gui arranje alguém entretanto… mas
se estamos a ser 100% sinceros (e este é o meu diário, portanto
posso sê-lo), não sei se ia gostar disso.
Argh. Voltar a ler esta última frase é um soco no estômago. Fiz todos os
possíveis no último mês para recalcar este pensamento e estava a conseguir.
Fecho os olhos, respiro fundo e viro a página (sei que vêm lá coisas boas).
16 de novembro
A última vez que aqui vim foi por causa daquela cena feia.
Bem, parece que tudo está esquecido. OK, não 100% esquecido,
mas está quase.
O Manuel voltou a ser o namorado perfeito que era no início
da relação. Para ser sincera, já sabia que era isto que ia
acontecer. Sempre que há alguma coisa má, é assim que ele
funciona, finge que está tudo bem.
Quando nos vimos na escola, a seguir ao nosso
«mêsversário», vinha outra vez com rosas na mão. «Como
gostaste tanto das rosas que te dei», disse-me. Oh, mal ele sabe.
Mas a culpa também é minha, não é? Já lhe devia ter dito que
não gosto de rosas!
Tudo se está a encaminhar. As minhas dúvidas têm-se vindo a
diluir com a passagem do tempo, mais ou menos, e começo a
achar que ele tem capacidade de mudar. Será que vou
conseguir? Será que serei capaz de o mudar para aquilo que
sei que ele pode ser?
Sim, Laura. Estás a conseguir. Claro que, só se passou mais um mês e ainda
há um longo caminho a percorrer. Mas podes ficar feliz. Sorrio com este diálogo
interno. Sei que preciso só de mais tempo, de algum sinal, de uma confirmação
de que é verdade, de que ele mudou. Sei perfeitamente que se ele passasse
menos tempo com os pais, eu conseguiria. Mas é impossível, estamos
literalmente a falar dos pais dele.
E por falar em pais:
8 de dezembro
Estou cheia de raiva! Como é que é possível alguém ser tão
energúmeno (e de onde veio este vocabulário)?
Já passei o dia meio chateada porque ontem foi a visita de
estudo/projeto em Mafra e eu não fui com a malta. Tudo
porque não queria dramas com o Manel. Claro que, não ir, fez
com que certos sentimentos e pensamentos voltassem à minha
cabeça.
E também não me sentia bem em estar com o Gui. Não temos
falado praticamente nada desde o que se passou, e não o
censuro. A culpa é minha, mas acho que fiz o que tinha de
ser feito. Mas… tenho saudades dele.
Pronto, tudo isto culmina no que se passou hoje. Eu e o Manel
aproveitámos o feriado para celebrar o nosso oitavo mês de
namoro. Ele disse logo no dia 4, «olha, não tenho nada para ti,
quero celebrar no feriado» — palavras com as quais eu me
entusiasmei, muito! Achei que íamos ver as luzes de Natal
(algo que adoro), ou que íamos a uma feirinha de Natal…
guess what? A surpresa dele era ter um almoço oficial com os
pais, sendo eu namorada dele (sim, os pais já sabiam, mas não,
ainda não tínhamos estado assim juntos oficialmente com eles,
enquanto namorados). Por que raio eu quereria passar o dia
com os pais dele? Estava a tentar fugir deste momento a sete pés
há meses!
Foi ainda pior do que eu achava que iria ser.
Como todas as pessoas com mais de 40 anos, o programa
favorito às refeições é comentar o noticiário. Ainda mal as
entradas tinham pousado em cima da mesa e já se ouvia o
senhor Amorim «os meios de comunicação estão comprados
pela esquerda», «esta emigração ilegal resolvia-se facilmente,
mandá-los para as terras deles», «agora as mulheres podem
tudo», «o quê? mais uma letra para a sigla LGB não sei
quê?», «desempregados não deviam ter nem um tostão,
trabalhem mas é», «lá estão estes miúdos com as alterações
climáticas, já te deixaste dessas ideias, Laurinha?» — podia
continuar, e isto foi só no almoço, num noticiário de apenas
um hora e pouco. Não sei como me controlei.
Aliás, sei. Sei que não o fiz.
Com o meu melhor ar bem-educado disse «desculpe, mas
poderia ser menos chalupa?». OK, não disse isto… mas
pensei. O que disse realmente, da única vez que falou comigo,
foi um «pois».
Não sei como é que a mãe do Manuel atura uma pessoa
assim… e até concorda com ele em muitas coisas, inclusive
no que diz sobre mulheres. E como é que uma besta, desculpem
a expressão, é diretor executivo de uma petrolífera? Aliás, é
óbvio como é que lá chegou: a negar as alterações climáticas e a
ligar a nada mais do que o dinheiro.
O Manel ainda queria ir para o quarto comigo, mas eu só
queria sair dali o mais rápido possível e voltar para casa.
Também não estava preparada mentalmente para o que quer
que fosse que o Manel queria… (eu sei o que era, mas não
estou pronta para isso, quero que seja especial).
Tudo neste dia me deu náuseas. E o pior é que não vejo o Gui
por causa disto. Tenho de ser sincera, não há outra razão.
Ah, essa é outra, o Gui faz anos, e eu estive a perder o meu
tempo naquela casa de negacionistas machistas! Não que ele
me quisesse ver, a mim ou aos outros…
Será que é possível eu receber algum sinal do próximo passo
que tenho de dar?
É verdade… o Guilherme acabou por se afastar de todo o grupo. Só está com
o Simão, praticamente. Esteve com a Diana em Mafra, e mais nada. Como o
grupo de protestantes não tem conseguido juntar-se, também não somos
«obrigados» a vermo-nos. Mas ele afastou-se ao ponto de nem passar o
aniversário connosco. Ele nunca foi fã de comemorar o seu aniversário, mas
sempre o passámos todos juntos, nem que fosse no café à tarde. Este ano, apenas
lhe consegui mandar uma mensagem querida, mas nem sequer recebi uma
grande resposta. Agora que o diário me recorda disso, volto à nossa conversa.
Foi mesmo a última vez que falámos.
Engulo em seco. Aquele «é melhor assim» é claramente uma indireta ao que
eu lhe disse há mais de um mês. Quem é que eu estou a tentar enganar? Não é
uma indireta, é bem direta.
Diz que anda ocupado. Tem dito sempre isso. Sempre que combinamos algo
em grupo, sempre que alguém o convida, diz que está ocupado.
Deve estar ocupado com as raparigas com quem anda. No início de
novembro, esteve cerca de duas semanas com a Matilde — nada sério, que eu
soubesse, mas ela já o tinha na mira há imenso tempo. E mesmo antes do seu
aniversário, começou algo com uma Catarina, talvez seja Carlota, não tenho a
certeza, não sei bem quem é, só que é do décimo ano. Também acho que não é
namorada dele, pelo menos nunca chegou aos ouvidos do grupo que uma delas
fosse mesmo namorada. Ah, que raiva. Por que raio estou aqui a preocupar-me
com isto?
Tenho mas é de me despachar para ir ter com eles ao café. É sábado de manhã
(bem, para mim é manhã, mas já passa do meio-dia), mas como estamos mesmo
quase de férias, já não há muito que estudar, portanto a dona Susana deixou-me
ir. Caso contrário, nunca me deixaria ir ter com eles em dia de jogo, pois na sua
cabeça, o vólei já me ocupa muito tempo. Mal sabe ela que é das coisas que
mais me alivia a cabeça.
Apanho o autocarro para ir até ao café, que é para lá do colégio, pois não me
apetece andar. Sou das primeiras a chegar, e aos poucos vai-se compondo o
grupo. Até que estamos todos, menos o Guilherme, claro. Ouço a porta abrir e
viro a cabeça. Não acredito que ele está aqui.
— Olá! — diz a todos, acenando com a mão antes de a pôr novamente no
bolso.
— Convidei-o diretamente — diz a Diana —, se não nunca mais o víamos,
certo? Então, Gui? Novidades? Ainda estás com a Carolina?
— Carolina? — pergunto, deve ser a tal miúda do décimo ano que eu não
conhecia.
— Ah, isso não era nada — conta, e eu respiro fundo.
— Não era nada, mas estiveram juntos no teu aniversário, não foi? — Só me
apetece pedir à Diana que se cale, por favor. — Por momentos até achei que nos
fosses apresentar finalmente uma namorada. — Alguém que a cale, não posso
ser só eu a pensar isto.
— Não sejam parvas!
Num mês estava a tentar beijar-me, por muito que isso fosse errado, e nem
uma semana depois estava com a Matilde, e agora a Carolina — e sei lá mais
quantas que nós não tivemos conhecimento.
A conversa continuou, e sem me dar conta, o Manuel foi-se chegando mais
para ao pé de mim, sendo até mais carinhoso (mais do que foi nestes últimos
tempos, o que até foi estranho) — será que queria fazer ciúmes ao Guilherme?
Temos estado tão bem, exceto aquele incidente do almoço em casa dele. Isto não
faz sentido.
Não sei como, mas após uns dez segundos de silêncio tenebroso, e depois da
Diana e a Kika chatearem o Gui a querer saber pormenores sobre os seus
namoricos, o Xavier (que nunca toma iniciativa) pergunta:
— Bem, já chega dessa conversa. De nada, Gui. — Ri-se e dá-lhe uma
palmadinha nas costas — Já estamos em dezembro, daqui a seis ou sete meses
estamos a candidatar-nos para a faculdade. Já sabem para onde vão?
— Arquitetura! — responde a Diana, entusiasmada.
— Uau — dizemos em uníssono (quase) todos.
— Isso não é para raparigas, Di — diz o Manuel, que tinha de estragar o
ambiente, e os últimos tempos, com (mais) um comentário machista.
Não consigo ficar calada:
— Porque não? Ela pode ser o que ela quiser, não estamos no século xx.
— Só acho que nem vai ter uma hipótese, as empresas da área querem
homens. E só contratam mulheres para preencherem a merda das quotas.
— Não, querem pessoas competentes, independentemente do género.
— Tu nem devias estar a falar, nem sabes o que queres. Um dia, Relações
Internacionais, outro, Literatura.
— Isso não tem nada que ver com a vida da Di.
— Whatever, qualquer uma das opções é para ir para o desemprego. Mas é na
boa, babe. Eu sustento-nos e tu ficas em casa a cozinhar e a cuidar dos nossos
futuros filhos.
— Manel, meu deus, em que século vives? — pergunta a Di e, ao mesmo
tempo, o Gui olha para mim.
— Deixa, Di. O meu querido namorado acha que vivemos num romance do
século xix, em que a mulher deixa tudo pelo seu homem, mesmo que nem
sequer goste dele, mesmo que não queira passar toda a sua vida ao lado daquela
pessoa, vai fazê-lo, pois é assim que tem de ser, e, claro, ficar em casa com os
filhos, que nem quis, mas é assim que a sociedade manda.
— O que queres dizer com isso? — pergunta, já num tom de voz que
conheço bem e que não ouvia há mais de um mês.
— Nada, quero apenas dizer que eu não sou rapariga de ficar na cozinha e
nem sei se quero ter filhos, quanto mais cuidar deles.
— Primeiro, tu não és rapariga de nada. Tu própria disseste que não sabias.
— Faz uma pausa de dois segundos e consigo ouvir o Gui dizer o nome dele
baixinho. — Deixem-me continuar. Segundo, todas as raparigas são raparigas
de ficar na cozinha. — Ri-se em conjunto com o Xavier como se tivesse muita
piada. — Ainda não acabei. E, terceiro, é óbvio que vamos ter filhos, que raio
de conversa.
Vejo o desconforto nos olhares do resto do pessoal e, sem saber de onde veio,
ganho coragem e faço aquilo que sei que mais o vai irritar:
— Bem, Gui, também tens jogo hoje, não tens? A seguir a mim — ele acena
que sim com a cabeça. — É que, de repente, perdi o apetite para almoçar aqui.
Acho que prefiro comer uma sandes qualquer no bar ao pé do pavilhão. Queres
vir já comigo? Já nem te vejo há algum tempo e tinha saudades tuas, podemos
pôr a conversa em dia.
Ele arregala os olhos e abre a boca, meio sem perceber o que eu tinha acabado
de fazer. Não durou muito.
— Vou, sim, Lau, que também preciso de voltar para o século xxi. Foi um
prazer, malta.
E saímos os dois porta fora, sem olhar para trás. Não quero ver a cara do
Manuel, nem quero imaginar. Sei que ele hoje não podia ir ver o jogo, portanto
devo estar safa pelo menos até segunda-feira, que é o último dia de aulas.
— O que foi isto? — pergunta o Gui.
— Ganhei coragem, só isso.
— Acho que fizeste muito bem, miss independente. Não sei como é que
ainda não te queimaram na fogueira — diz, rindo-se.
— Aquela conversa toda já me estava a dar vómitos. E filhos, a sério, temos
17 anos, acalma-te lá.
— Estás mesmo irritada. Nunca tinham falado disso?
— Não, não pensei que tivesse de falar disso com o meu namorado com esta
idade, não é?
— Claro, mas sabes que, por ele, tu aos 18 começavas já a ter os cinco filhos e
ele já te sustentava.
— Cinco filhos? Nossa, não, não.
— Não queres ter filhos?
— Acho que sim, nunca pensei muito nisso. É o que é esperado, suponho…
— Bem… sim, mas não tens de o fazer, obviamente.
— A única coisa que sei é que não serão dele, de certeza. O mundo já está
cheio de energúmenos, não são precisos mais, muito menos vindos de mim.
Ele sorri.
— Tinha saudades tuas, Lau!
— E eu tuas, Gui!
16
O globo de neve
«And maybe we got lost in translation
Maybe I asked for too much
But maybe this thing was a masterpiece ‘til you tore it all up
Running scared, I was there
I remember it all too well»
Swift, Taylor (2012)
[ Laura ]
[ Guilherme ]
S into o meu coração a bater mais depressa que o normal, ao mesmo tempo que
parece que alguém o está a apertar e não consigo respirar — tudo ao mesmo
tempo. Não sei se era um sonho, ou pesadelo, mas o que fosse levou-me a abrir
os olhos de sobressalto. Olho para o telemóvel e são apenas 10h30. É domingo e
não tenho nada marcado. Sou um homem — já com 18 anos — solteiro e sem
compromissos, o que raio me está a fazer levantar antes do meio-dia a um
domingo?
Não tenho resposta, mas o meu coração continua apertado e a minha barriga
começa a dar voltas. Alguma coisa não está bem, sinto-o, mas não sei o quê.
Olho para as minhas fotografias e a primeira que vejo é a da Laura. A foto nunca
saiu dali, nem mesmo depois de ela dizer para me afastar. Nem mesmo quando
trouxe a Matilde cá a casa a foto saiu dali — e, bem, ela não ficou propriamente
fã da foto, antes pelo contrário, fez uma cena de ciúmes, e acho que depois
disso, só estive com ela mais uma vez, na sua casa. Seja como for, nunca vou
tirar a foto dali, não enquanto for possível.
Por alguma razão, ao olhar para a foto, algo me diz que deve ser a Laura o
motivo da minha preocupação — como na maioria das vezes. Só pode ser algo
com ela. Será que o Manuel se chateou por causa do seu ato corajoso de ontem?
Meu Deus, não devia ter ido com ela. Já me estou a passar.
Felizmente, sei que há uma forma de contornar a ansiedade que me invade e
não perco tempo.
Pronto, está enviada. Quero mostrar que estou cá para ela, quero que se
lembre de mim, mas sem parecer desesperado ou demasiado preocupado. Afinal,
pode ser tudo uma invenção da minha negra cabeça e não se passar nada.
Uns minutos depois, ouço a vibração do telemóvel, que deixei em cima da
mesa de cabeceira.
— Lau, olá! — A voz dela não parece a melhor — Está tudo bem? —
pergunto, com uma réstia de esperança de que tudo seja um grande pesadelo
criado pela minha ansiedade.
Não posso acreditar nas palavras que ouço saírem daquele telemóvel. Não
quero acreditar. Um murro na parede? Partir coisas? Podemos ser miúdos ainda,
mas já temos idade para distinguir o certo do errado. Ele está só a ser um
cabrão. E novamente a culpar-me de a querer — e, OK, não está errado, mas a
ele nunca lhe dei razões para pensar isso. Pelo menos eu acho que não. Se há
uma pequena probabilidade de a culpa ser minha, eu não me vou perdoar,
nunca.
As últimas palavras dela atingem-me como uma flecha atinge o seu alvo —
não a do cupido, mas a seta de um caçador a matar a sua presa. «É melhor não
falarmos mais disto. Não falarmos mais dele. Temos de agir só como amigos,
Gui, que é o que somos, mas amigos distantes, senão ele passa-se.»
— Lau… não sei se consigo — digo, ouvindo como resposta um «tens de
conseguir, da próxima, posso não ter tanta sorte». E, nesse momento, juro a
mim mesmo que não posso fazer mais nada, não enquanto ela não quiser. É a
sua segurança que está em causa, e eu não me atrevo a pô-la em risco.
18
A fotografia de Natal
«I wanna take you somewhere so you know I care
But it’s so cold and I don’t know where
I brought you daffodils in a pretty string
But they won’t flower like they did last spring
And I wanna kiss you, make you feel alright
I’m just so tired to share my nights
I wanna cry and I wanna love
But all my tears have been used up
On another love»
Odell, Tom (2013)
[ Laura ]
E uE enem
o Manuel mal falámos na segunda-feira seguinte, no último dia de aulas.
sequer vi o Gui. Mas no primeiro dia de férias, apenas seis dias antes
do Natal, recebi uma mensagem muito querida dele.
Sim, esta é uma mensagem querida dele. E sim, eu fui ter com ele, apesar da
«decisão» que tomei, pois não sou de ferro e algo dentro de mim ainda gosta
dele. Recebi um abraço gigante e algo que não ouvia sair da boca dele há
imenso tempo, um pedido de desculpas. Claro que foi «desculpa» e mais nada,
mas já é melhor que fingir que estava tudo bem, certo? Ainda puxei por ele,
perguntei-lhe se só tinha isso para dizer, mas ele insistiu que já tinha dito tudo
o que tinha para dizer e que preferia não falar, ou sequer pensar, no assunto. Eu
anuí, e dei-me por feliz só de ter ouvido essa palavra mágica sair da boca dele.
Parabéns, Laura, tiveste uma recaída.
Desde então, voltou ao mesmo: o namorado perfeito que me dá abracinhos,
diz que sou linda e todas essas coisas com as quais eu me derreto a ouvir. Só que
nestes dias, por muito que eu continue a gostar de ouvir essas palavras, a
verdade é que cada vez que ele me toca, o meu corpo retrai-se, como se o seu
último ataque de raiva tivesse sido efetivamente dirigido a mim.
Por muito que ele tente compensar, acho que deixei de me sentir protegida,
segura, em casa — se é que alguma vez o senti mesmo. E se assim é, o que me
impede de ir procurar essa segurança noutro lado? Ou de ser eu essa segurança
para mim mesma?
Divago enquanto toco no meu pulso, onde se encontra a pulseira que o
Manuel me ofereceu no dia 25, mesmo antes de partir para Andorra com os
pais, para as férias anuais na neve da família Amorim. No ano passado, quando
ainda não namorávamos, tenho a ideia de que ele ofereceu uma pulseira igual
— ou semelhante, pelo menos — à Sara, a ex-namorada. Será que nem sequer
pensou muito em mim?
A minha mente continua a navegar por mares atribulados, mares pelos quais
eu preferia não passar, não nestes dias que têm sido santos. O Manuel em
Andorra passa o tempo quase todo a esquiar, ou seja, falamos muito menos, e
quando falamos é o básico do básico, pois ele está sempre muito cansado. Não
me importo. Precisava deste espaço para me recompor, para repensar a minha
vida, para pôr tudo em perspetiva e, quem sabe, tomar uma decisão — a decisão
que eu já achava estar tomada, aquela que adio a cada dia que passa, mas que
devia ter sido tomada há muito tempo.
Ontem estive com a Diana, o Simão e também com o Guilherme —
estarmos todos juntos é a única forma que tenho de estar com o Guilherme. Ele
estava distante. Não o censuro, também estaria se achasse que o estava a
prejudicar. Mas ao mesmo tempo é dele que eu preciso. Mas quem sou eu para
voltar para os seus braços quando fui eu mesma que o afastei? Por isso, esta é a
única maneira de estarmos juntos, a organizar uns protestos que temos em
mente para avançar até ao final do ano letivo — relacionados com a ansiedade
climática e financeira em que nós jovens vivemos sem termos ninguém a
protestar por nós. Agora estamos a pensar fechar a escola a cadeado, como um
grupo já fez há uns anos. Pode ser que, como mexe com o dinheiro que os
nossos pais (alguns deles com grande importância no panorama do país) pagam
todos os meses, tenha algum impacto. Com impacto ou não, eu organizaria
todos os protestos do mundo para me sentir em casa, ainda que com uma parede
de betão emocional entre nós.
Daqui a dois dias é a passagem de ano e vamos estar todos juntos na casa do
Manuel — que apenas convidou o Guilherme graças à Francisca, que o
convenceu, pois as palavras da Diana e do Simão de nada valeram, e eu nem me
atrevi a meter no assunto, por muito que queira que o Gui esteja lá. Ela disse-
lhe que ele estava a ser parvo, que o Guilherme poderia ter qualquer rapariga do
mundo, que não se atrevia a fazer-lhe frente e que deveria pôr a amizade dos
dois à frente dos ciúmes. Ainda não percebo como é que as palavras dela o
convenceram, mas pouco importa, o Gui estará presente.
Com esta situação toda, uma festa vem mesmo a calhar. Confesso, contudo,
que tenho algum receio de como será misturar estes sentimentos e devaneios
com uma boa dose de álcool — especialmente em alguém como eu, que não
precisa de muito para ficar tocada.
No meio dos meus pensamentos, ouço a campainha a tocar. Estava mesmo
bem no sofá, de pijama polar, enrolada na manta, a enterrar os últimos dias e os
meus pensamentos numa caixa de gelado (sim, como gelado no inverno). Toca
novamente. Porra, tenho mesmo de me levantar.
Olho para a câmara e não está ninguém. Estranho. Viro-me para o olho
mágico e lá está ele. O que é que está a fazer aqui? E que raio tenho eu vestido
para o receber? Seja como for, não o posso deixar mais tempo à espera — e
também já passámos férias e noites todos juntos, ele já me viu de pijama.
Abro a porta.
— Olá, Lau! Desculpa, a porta lá de baixo estava aberta, então subi logo.
— Olá, Gui! — sorrio, é impossível não o fazer.
— Desculpa aparecer assim, sem avisar. — Para, olha para mim e ri-se. —
Estás muito gira, já agora.
— Oh! — Coro. — Mas não faz mal. Entra. — Fomos andando para a sala.
— Se esperares cerca de 30 minutos, ainda podes ganhar um lanchinho feito
pela dona Susana.
— Mas tu não farias um lanche ao teu convidado? — diz, rindo-se. Sei que
está a brincar, por isso não levo a mal, mas tenho noção de que se essas palavras
viessem da boca de outra pessoa, eu não ficaria muito feliz.
— Hum, bem, eu estava mais numa de… — E aponto para a caixa de
gelado. — Está quase vazia, mas queres uma colher?Rimo-nos de uma maneira
que eu já tinha saudades. Os pulmões já doem da falta de ar e a barriga
contorce-se a pedir uma pausa. Até que, num último fôlego, o Gui consegue
falar.
— Ouve, sei que pediste para estarmos mais distantes e eu tenho mesmo
tentado ao máximo. Mas continuo a ser teu amigo, e ontem queria ter-te dado
isto. Como não sabia se era algo OK por ti, acobardei-me. — Tem um presente
na mão. — É a minha prenda de Natal para ti, como um bom amigo distante.
— Gui, não era preciso…
— Não é nada de mais, já a tinha antes da última… antes das aulas terem
acabado.
Percebo o que ele quer dizer e apresso-me a abrir. Nem acredito no que
estava a ver. Era mesmo Corte de Espinhos e Rosas de Sarah J. Maas, um livro que
eu andava há meses a dizer que queria ler. E tinha uma pequena dedicatória:
«Para a minha pequena. Feliz Natal. Gui.» E ainda vinha com um caderno de
leituras, para eu apontar tudo o que leio, as minhas frases preferidas, o que
gostei e não gostei. Folheio o livro para o cheirar — sim, adoro o cheiro de um
livro novo — e de repente cai um papel. Não é um papel qualquer. Sou eu. É
uma fotografia minha. A fotografia que o Gui tem no quarto.
— Gui…
— É a minha preferida!
— Não sei o que dizer, obrigada.
— Afinal, sabes! — Sorri e abraça-me.
Que bom, finalmente estou em casa.
19
Novo ano, novo eu?
«Não tenho nada a perder
Já sofri o que tinha a sofrer»
Daniel, Fernando (2020)
[ Laura ]
[ Guilherme ]
T oda esta noite está a ser muito estranha. Já bebi de mais, é verdade, mas é
impossível que seja só disso.
É doloroso estar numa festa, na mesma casa, com a rapariga de quem eu
verdadeiramente gosto e vê-la com o namorado. Contudo, era muito mais
doloroso não estar. Afinal, quem sabe o que ele faria se algo corresse mal
durante a noite, com álcool à mistura. Tenho mesmo de estar aqui. Tenho de
estar agradecido por ele me ter permitido vir à festa pelos «bons velhos
tempos», como disse quando me mandou mensagem há uns dias. E agora, que
me caia um raio em cima se eu estiver maluco, mas acho mesmo que ela afinal
gosta de mim, e tenho quase a certeza de que me deu a entender isso.
E que raio de jogo é este? E porque é que o Manuel não reage mal, como
seria expectável, quando eu e a Laura estamos a ir pela segunda vez para um
quarto sozinhos? Ele convidou-me, e agora ainda age assim? Nada está a bater
certo.
A porta fecha-se atrás de nós.
— Ainda bem que voltámos para aqui — digo.
— Porquê?
— Fiquei com algo por dizer.
— Então, diz.
— Tenho saudades tuas — digo, a olhar diretamente no céu penetrante que
ocupa os seus olhos, este céu que efetivamente faz a minha barriga andar às
voltas, estes olhos que me impediram de me comprometer nos últimos meses,
quem sabe anos.
— Gui, volto a dizer o que disse há pouco. Há dois dias estivemos juntos.
— Não. Tenho saudades tuas. — Pego-lhe na mão e olho para o seu belo
rosto, rosado graças à mistura de álcool e calor. — Tenho saudades de te ter ao
pé de mim constantemente, de não ter medo por ti, de não me preocupar com o
que os outros pensam quando apenas te quero dar um abraço porque sinto a tua
falta, de não me esconder de sabe Deus o quê para estar com a minha melhor
amiga, mas mais importante, tenho saudades de te ver feliz, de te ver sorrir, de
ver os teus olhos a brilhar, de olhar para ti e ver-te plena, com a ingenuidade
que sempre te abraçou, de olhar para ti e saber que amanhã te vou ver
novamente. — E quando acabo este pequeno monólogo, aproximo-me dela e
coloco a mão no seu rosto.
Aproximo-me mais, sem saber o que vou encontrar do outro lado, sem saber
se devo continuar ou lutar contra este sentimento.
— Não devíamos. Bebemos muito — diz.
— Se não quiseres, eu não faço nad… — nem me deu tempo de acabar a
frase. Rapidamente, e para surpresa minha, foi ela que pressionou os seus lábios
quentes contra os meus, dando-me o beijo mais apaixonado que alguma vez
senti (talvez o único beijo da minha vida onde posso afirmar com todas as letras
que havia amor envolvido, pelo menos da minha parte… e talvez não esteja
sozinho).
O meu coração bate de forma irregular. O beijo vai-se tornando mais intenso
à medida que o tempo de jogo vai passando. Ela geme. Eu sinto o meu corpo a
pedir mais do que aquilo que um beijo me pode dar. Ela arqueja.
Não sei quanto tempo me falta, mas deixo-me ir. Deito-a devagar sobre a
cama, coloco-me em cima dela e beijo-lhe o pescoço lentamente. Paro por uns
segundos para a observar. Olha-me com tal intensidade, no meio da sua
respiração acelerada, que cedo e volto para os seus lábios, de onde espero nunca
voltar a sair.
Ao fundo ouvimos um alarme a tocar.
— Oh — digo, enquanto ajeito o meu cabelo.
— Oh — repete, fazendo o mesmo. — Ainda bem que não vim de batom
vermelho, não é? — pergunta, quase num sussurro, e ri-se, como só ela sabe. —
Não vens?
— Preciso de uns segundos — digo envergonhado, com esperança de que ela
não perceba ao que me refiro.
21
A escolha
«I needed to lose you to find me
This dancing was killing me softly
I needed to hate you to love me»
Gomez, Selena (2020)
[ Laura ]
[ Guilherme ]
10
9
8
Olho para a Laura. Quero beijá-la outra vez.
3
2
1
Vejo o Manel dar-lhe um beijo curto. Que asco. Devia ser eu. E agora, mais
do que nunca, tenho a certeza de que ela queria que fosse eu o autor do beijo
que acabou de receber, do primeiro beijo do ano. No entanto, ali estão eles, o
casal perfeito mais imperfeito que conheço.
— Não tenho direito a um beijinho, este ano? — pergunta-me a Francisca.
Não tenho tempo para isso agora. Viro costas sem lhe dar uma resposta.
Tenho de sair daqui urgentemente. Ando na direção do fogo de artifício, que
ao fim de dois minutos continua a rebentar, e vou apanhar ar.
Sem me aperceber, o Simão vem logo atrás.
— É a Laura, não é? — pergunta.
— O quê?
— É ela, não é?
— Como assim?
— Vá lá meu, sou eu. Não precisas de fingir. Já topei há muito tempo, e
quando saíram do quarto depois do jogo, os teus olhos brilhavam… e os dela
também.
— Eu sei que não devo.
— É verdade, não deves. Mesmo que o Manel seja um pouco cretino com ela.
— Também reparaste…
— Sim, mas sabes como é, entre marido e mulher não se mete a colher.
— Simão! — quase que grito — Sabes que não é bem assim.
— Claro, desculpa, expressei-me mal… o que quis dizer é que não me
compete a mim dizer à Laura com quem deve ou não estar.
— Não concordo contigo — começo por apontar. — Claro que, numa
situação normal, não se deve fazer isso, mas ele já lhe fez muita merda mesmo.
Algumas vocês nem têm noção, mas outras assistiram como eu. E não deveria
ter sido só eu a chamá-la a atenção.
Faz-se silêncio. Ele sabe que eu tenho razão.
— Desculpa, não queria que ficasses a pensar nisto. Bem sei que cada um
reage às coisas da sua maneira e, se calhar, tal como ela, deixaste-te levar pelos
anos de amizade que temos com ele. Quem errou não foste tu, foi ele —
acrescento.
— Tens razão. Se calhar devia ter dito algo, talvez ela já não estivesse nesta
situação.
— Ou talvez estivesse. Não sabemos. Mas magoa-me tanto vê-la a ser infeliz,
a deixar a sua pessoa para trás, a ficar com a sua personalidade tapada pelo
medo, os olhos mais baços, o corpo mais encolhido…
— Estás mesmo apanhadinho! — declara, dando-me uma palmadinha nos
ombros.
— Isto vai arruinar o nosso grupo, Simão.
— Gui, esquece isso. O nosso grupo está arruinado há muito tempo e não
foste tu que o estragaste. Somos amigos porque desde a infância que
conhecemos essa realidade, mas há muito que há uma clara divisão entre o nosso
grupo… temos valores completamente diferentes… o que não tem de ser mau,
estimula o debate e tal, mas será que quero ser amigo de alguém que levanta a
mão a uma rapariga? Que lhe diz o que pode e não pode vestir?
Desta vez, sou eu que fico em silêncio. Recordar as coisas que sei que ela já
passou enchem os meus olhos de lágrimas. Sinto-me impotente, apesar de saber
que não há nada que eu possa fazer para mudar o passado.
— Nenhum de nós é parvo. Achas que o Xavier concorda com tudo o que o
Manel diz? Eu tenho a certeza que não… apesar de parecer. Este ano,
especificamente, parece que cada vez mais é um suplício estarmos todos juntos.
Não sei como chegámos até ao dia de hoje, para te ser sincero, e não sei como
será daqui para a frente. Aposto que será uma das últimas vezes que estamos os
sete juntos, mas talvez seja por um bom motivo. Pelo menos, eu acho que a
saúde da Laura é um ótimo motivo — continua. — Agora vamos para dentro, é
suspeito estarmos aqui. Vá, até te vou preparar mais um caipirão à la Simão. —
Põe as mãos nas minhas costas e empurra-me ligeiramente de volta para dentro.
E assim o resto da noite vai passando. A tequila vai a meio, mas
direcionámos os nossos esforços para shots de vodca com sumo de laranja por
serem muito mais doces. Foi uma má ideia. Rapidamente a Francisca voltou a
apagar e foi-se deitar, ainda mal passava da uma da manhã, o Simão e a Diana
seguiram o mesmo caminho perto das 2h, o Xavier apagou completamente no
sofá, e eu estou sozinho nesta sala enorme, que se encontra agora desprovida de
alma — ainda que com um cheiro nauseabundo a álcool e muita sujidade com
copos descartáveis que voaram devido a jogos de bebida. A Laura e o Manuel
foram para cima há cerca de 20 minutos, e prefiro não imaginar o que estão a
fazer. Ele estava muito bêbedo, ela também. Basta juntar um mais um, certo?
Já passa das três da madrugada, abro uma cerveja — a última da noite —,
enquanto procuro um lugar para pôr os pensamentos em ordem e,
eventualmente, dormir, já que não tenho companhia para a depressão de final de
bebedeira.
Mas talvez esteja errado. Talvez não esteja sozinho.
Ouço alguém a descer as escadas. Olho na direção do barulho, mas não
precisaria de a ver para saber que era ela, já conheço o ritmo do seu andar. O
meu rosto ilumina-se quando a vê, e não preciso de um espelho para saber que
estou a sorrir de orelha a orelha.
— Então? Pensava que te tinhas ido deitar.
— Não. Fui só ajudar o Manel, ele estava mesmo mal… apesar de tudo,
ainda me preocupo. Por isso, fiquei lá um pouco, para ter a certeza de que ele
ficava a dormir de lado.
— Oh. Fizeste bem. — Não sei bem o que dizer, irrita-me que ela seja tão
boa pessoa para alguém que a trata abaixo de cão. — E tu, estás bem?
— Sim, desde que vomitei antes da meia-noite que fiquei ótima!
— Então, queres uma cerveja?
— Queres que eu vomite mais ainda? — Rimo-nos os dois.
Abraço-a. Ela fica encostada ao meu peito e eu sinto o meu coração a acelerar.
Ela sente-o também.
— Ouve, Gui. Devíamos falar sobre o que aconteceu… — Sei que tem razão,
mas não me apetece nada falar sobre coisas sérias, quero apenas ficar aqui, com
ela nos meus braços. — Anda, vamos para a cave. Tenho a certeza que lá
ninguém acorda e nos ouve por acidente.
— Aquele espaço minúsculo?
— Nada nesta casa é minúsculo, Gui. Já devias saber.
Leva-me pelo corredor lateral até uma porta de vidro. Abre-a e descemos
umas escadas estreitas até à cave.
— Não me lembro deste espaço.
— Acho que foi ampliado no final do verão, ali ao fundo vai dar à parte de
trás do jardim.
— Uau — digo, sabendo perfeitamente que estou apenas a fazer conversa de
conveniência e que não é sobre arquitetura ou decoração de interiores que a
Laura quer falar.
— Pois. Bem, queria dizer-te…
— Eu gosto de ti, Laura. Desculpa interromper-te, mas gosto, provavelmente
desde sempre, e só nos últimos meses admiti isso a mim mesmo. E olha que
quando estamos alcoolizados dizemos mesmo o que sentimos. — Ela sorri para
mim com ternura.
— Eu também gosto de ti. Sempre gostei, isso não está em causa, somos
amigos.
— Laura, sabes muito bem que eu gosto de ti bem mais do que como minha
amiga.
— Sabes, Gui… — A pausa que faz neste momento deixa o meu coração em
pausa, sem saber se continua a bater ou não. — Eu acho que também, mas
preciso de pensar melhor nas coisas todas que se têm passado. Seja lá o que for
isto, neste momento da minha vida, é errado.
— Porquê? Tu disseste, quando estávamos no quarto, que já não te sentias
segura com ele, deste a entender que já não querias estar com ele. — Levanto a
voz. — Porra, Laura, foste tu que me beijaste primeiro.
— E não o devia ter feito. Não que não o quisesse, mas foi errado da minha
parte. Seja bom ou não, eu e o Manel ainda estamos juntos. Por muito mal que
ele tenha feito, ninguém merece ser traído.
Se estivéssemos a falar sóbrios, sei que tinha virado costas e respeitado o que
ela me estava a dizer. Mas não estou, e ela também não.
— Não merece, nem um bocadinho?
— Por uma pessoa ser má, não quer dizer que nós tenhamos de ser.
Agarro-lhe a mão e puxo-a para junto de mim. Está tão perto que sinto na
sua respiração tudo o que bebeu esta noite. Coloco a sua mão junto do meu
coração e ela encosta-se a ouvir.
— Nem por uma noite? — sussurro-lhe ao ouvido. Sei que ela sente a minha
respiração.
Coloco um dedo no seu queixo e levanto a sua cabeça para me olhar nos
olhos. É muito difícil não dar o primeiro passo e acabo por desistir de lutar
contra a minha moral. Assento a minha boca na dela. Beijo-a mais uma vez, ao
som da sua pulsação.
23
Borboletas
«E ele não contou
Mas ela não escondeu
Com quem a noite passou
Jura ela o seu Romeu
Ele quer mais
Ela também»
Tinoco, Bárbara (2019)
[ Laura ]
E stou mesmo a beijá-lo? Não acredito que sim, que o estou a beijar
novamente. Ele faz-me querer gritar em alto e bom som o verso clichê de
Mind da Gap — «o que é que sentes? Borboletas» — cada vez que as suas mãos
me tocam, cada vez que o sinto, cada vez que nos envolvemos.
Sem dar por isso, ele dirigiu o meu corpo até ao pequeno sofá que habita esta
cave, envoltos numa onda de calor que apenas nós sentimos. Até que ouvimos
barulho. Passos.
— Vem aí alguém. Temos de nos esconder, rápido — digo, meio assustada,
pois parte de mim consegue pressentir quem vem lá.
— Onde?
— Entra ali. É a lavandaria. — Os pés dele não reagem, por que raio é que
ele não se mexe? — Vá, Gui, depressa! — sussurro como se estivesse a gritar.
Entramos naquele espaço pequeníssimo — afinal o Guilherme tinha razão, há
um espaço nesta casa que é minúsculo —, que nos obriga a estar muito perto
um do outro, quase abraçados, para cabermos aqui dentro com a porta fechada.
— Está aí alguém? — ouvimos o Manuel perguntar. Eu sabia que era ele, o
meu instinto não falha. Ele deve ter acordado do seu microcoma alcoólico. Ao
menos não deve ter achado estranho eu não estar ao seu lado, espero, pois disse-
lhe que iria cumprir o que a minha mãe me pediu e que ia ter com a Diana
quando ele adormecesse.
— Laura? Francisca? Xavier? — Para durante uns segundos. — Devo estar a
sonhar.
Ouvimos passos de novo. Parte de mim tem medo de abrir a porta que se
encontra atrás do Guilherme. Sim, acho que ele poderia muito bem estar a
fingir estar alcoolizado para nos apanhar, mas por outro lado eu vi o estado em
que ele estava, eu deitei-o, é impossível. Será a minha mente a sentir-se
culpada? Ou simplesmente já o conheço muito bem? Sei do que ele é capaz,
mas (ainda) não quero acreditar.
Não sei quanto tempo passou até que finalmente ganho coragem para
perguntar:
— Será que foi mesmo embora?
— O que importa, Lau? — pergunta com um sorriso gigante nos lábios. —
Agora só saio deste cubículo de manhã. Ainda por cima, aqui, tenho-te só para
mim. — Puxa-me para si e ficamos com os narizes quase colados um ao outro.
Assim que acaba de dizer estas palavras, beija-me como se fosse o último e o
primeiro beijo que me confia. E eu sinto aquele beijo em cada centímetro do
meu metro e sessenta. Agarro nos seus caracóis e puxo-o para mais perto de
mim, se é que isso é possível. Ele agarra-me nas pernas e pega-me ao colo,
conduzindo o meu pequeno corpo para cima da máquina de lavar roupa e
colocando as minhas pernas de forma a abraçarem as suas. Estremeço.
O Guilherme para várias vezes para me olhar nos olhos, pausas que duram
pouco, pois ambos nos queremos.
Volta aos meus lábios. Sinto a língua dele junto da minha, mas depressa a
deixa deslizar pelo meu pescoço abaixo, passando também pela minha clavícula
e o início do meu peito — as únicas partes facilmente acessíveis que não estão
tapadas pelo que tenho vestido. Não que isso o impeça. Baixa ligeiramente a
camisola e a sua língua escorrega agora pelo meu peito. Fecho os olhos, e a sua
mão, que há dois segundos estava nos meus seios, descai e agarra agora a minha
anca. A outra mão vai percorrendo lentamente o seu caminho pelas minhas
coxas acima, atingindo o espaço sagrado, apenas coberto por umas cuecas de
renda azuis (sim, azuis, como manda a tradição). Sinto que me está a faltar
oxigénio, que não consigo respirar. Nunca ninguém me fez isto. Nunca
ninguém esteve tão perto. Nunca pareceu tão certo, e a parte de mim que pensa
que é errado ficou suprimida pela parte que tanto o deseja. Para ele não há
obstáculos, e enquanto sussurra o meu nome, pergunta se me pode tocar, e mal
tem uma resposta positiva, desvia as minhas cuecas morosamente deixando os
seus dedos entrarem dentro de mim. O meu coração para e solta um gemido de
novidade. Agarro na camisola dele, sem saber bem o que estou a fazer. Tento
despi-lo, o que o obriga a parar a sua magia, mas ele volta rapidamente para
mim. E eu torno a enlouquecer, as minhas pernas a tremer. Digo o seu nome
como nunca disse o de ninguém.
Perdemos já a noção do tempo, mas por mim ninguém me tirava daqui.
Beijando-me o pescoço, começa a tentar puxar-me as cuecas para baixo. E
assim que faz a primeira tentativa, tudo muda. De repente, lembro-me que não
o posso fazer, que estou a ir longe de mais. Não só pelo Manuel, mas
principalmente por mim. O meu corpo fica hirto e repele-o.
— Gui, para, por favor — digo, enquanto o empurro ligeiramente. Não
preciso de dizer duas vezes. Nos seus olhos leio uma mistura de medo e
preocupação, ou mesmo um certo pânico.
— Desculpa. — Para, sem saber o que fazer. — Desculpa — repete. — Fiz
alguma coisa errada? — Acaba por questionar.
— Não. — Foge-me a boca para a verdade. — Quero dizer, tudo isto é
errado, Gui, e tu sabes. Mas não fizeste nada errado, estás a ser incrível e
superquerido.
— Então… Laura, o que se passa?
— É que eu… — Não sei como lhe dizer isto. — Eu… nunca…
— Oh… Laura, peço imensa desculpa. — Os olhos dele estão arregalados,
assustei-o, mas não queria fazê-lo. Tenho medo que nunca mais me volte a tocar
depois disto, visto que já me olha muitas vezes como uma menina frágil, uma
boneca de porcelana. — Eu achava que sim. Assumi que sim. Não que isso seja
desculpa para o que quer que seja. Mas pronto, vocês já namoravam há algum
tempo e estavas a deixar-me fazer-te estas coisas. E… Deus, o que fui eu fazer?
Desculpa, Lau. — Ele fica querido quando fica atrapalhado, até me faz soltar
uma ligeira gargalhada.
— Não te preocupes. Não fizeste nada que eu não quisesse — digo para o
acalmar, e desta vez volto a ser eu a espetar-lhe um curto, mas apaixonado,
beijo.
Sim, sou virgem. Sim, acabei de deixar que ele me fizesse todas estas coisas.
Coisas que nem o Manuel fez — que teve sorte de tocar na parte de cima, e foi
com muito esforço e dedicação.
Volto a beijá-lo para o tranquilizar. Ele foi um querido, foi tal e qual o clichê
esperado de um romance de domingo à tarde; foi exatamente como esperava que
um homem me tratasse quando chegasse a minha hora.
— São quase quatro da manhã. Queres fazer uma pequena sesta até ao final
da madrugada? Antes da malta acordar? — pergunto, depois de me recompor.
— Juntos? — Os seus olhos brilham, ainda que com um subtom de espanto.
— Sim. — Sorrio.
E acabamos esta noite cintilante abraçados no sofá da cave do meu (ainda)
namorado. Pelo menos, até às 6h, quando os alarmes tocam e nos separamos
com um último beijo, sem saber o que o futuro nos reservava. Tive de o deixar
escapar, por agora, mas sei que a partir de hoje, o primeiro dia de uma longa
história, só há um nome que ecoará na minha cabeça.
Eu ainda não sei quão ingénua estou a ser. Ainda não sei o que me espera.
Mas seja como for, o Guilherme terá sempre um espacinho no meu coração.
24
A corrente (in)quebrável
«I don’t relate to you, no
‘Cause I’d never treat me this shitty
You made me hate this city
(...)
You ruined everything good
Always said you were misunderstood
Made all my moments your own
Just fucking leave me alone»
Eilish, Billie (2021)
[ Laura ]
Enquanto não tenho uma resposta para o meu segundo pensamento, posso
sempre fazer algo quanto ao primeiro.
Não precisava disto. Hoje era o dia em que eu ia finalmente ganhar coragem
e sair. Tinha tudo planeado na minha cabeça ao pormenor. Não precisava de
mais um stresse.
Corro para a casa de banho. Quanto mais depressa me despachar, mais
depressa falo com ele, mais depressa acaba toda esta tensão. Olho para o
espelho. Quem me vir deve achar que não dormi nada — efetivamente, dormi
pouco, a imaginar todos os cenários e mais alguns de como poderia acabar a
minha relação — ou que vi um fantasma. As minhas olheiras estão escuras,
estou pálida, sem saber o que fazer ao cabelo. O meu coração bate a mil. Quem
me dera poder tê-lo na mão e apertá-lo para que toda esta dor vá embora. Estou
nervosa. Só quero que o dia acabe. Meto corretor e blush para ganhar um pouco
de vida. Olho de novo para o meu cabelo e já sei o que vai acontecer, nem tento,
faço logo um rabo de cavalo.
Assim que recebo a mensagem, pego nas coisas e corro para a porta.
— Adeus, mãe. Até logo!
— Não comes nada? — Ainda a ouvi dizer, mas era tarde de mais, eu já
estava a fechar a porta. E também não queria, nem quero, comer nada. Os
nervos são tantos que, se eu coloco algo no estômago, não sei quanto tempo
permanecerá por lá.
Elevador ocupado. Sem problema, desço as escadas a correr. Só quero
despachar isto.
— Olá — digo.
— Olá, traidora — afirma, num tom assustadoramente calmo.
Cai-me tudo.
— Hã?
— Oh, não venhas com essas coisas. E não sejas mentirosa, como sempre.
— Como é que...?
— Achavas mesmo que eu estava na boa contigo e com o Guilherme juntos
no quarto? Que era só um jogo?
Não digo nada. Estou confusa, e, ao mesmo tempo, sinto que todas as peças
do puzzle se começam a juntar. Afinal não estava assim tão bêbeda. Afinal, eu
percebi. Afinal, tudo faz sentido.
— Sempre que foram vocês a tirar os papéis, os únicos nomes que lá estavam
eram os vossos. — Eu sabia. — Eu queria provar-te que ele te queria, que ele
iria tentar algo. Só não estava à espera de que fosses tu a beijá-lo.
Estou sem palavras. Será que ele sabe do resto?
— Então? Não dizes nada?
— Manel, o que é que tu sabes? — Que merda de pergunta, ele pode ser
tóxico e ser um cabrão para ti, mas ainda assim merecia um pedido de desculpa,
não achas, Laura?
— O que é que eu sei? Sei que o beijaste. Se calhar é mesmo melhor não
dizeres nada, sua cabra asquerosa, se é para dizeres porcaria. — Tenho medo do
que ele pode fazer agora, mas está mais calmo do que imaginaria numa situação
assim. — Durante meses e meses fiz tudo por ti, dei-te coisas que nunca na vida
vais conseguir pagar, e é assim que tu retribuis? És uma pega ingrata.
— Manel!
— Não, ainda não acabei. Nem sequer tentes fazer-te de vítima, como fazes
sempre. Tanto drama é exaustivo. Desta vez eu tenho razão. És uma puta que
nunca ninguém deveria ter chamado para o pé de nós… e o Gui, enfim, já sabia
do que aquele otário era capaz.
— Já chega! Tu nem sequer tens noção das coisas que fazes, pois não? —
Agora é a minha vez, vou tentar guiar-me pelo que ensaiei a noite toda. — Dos
comentários machistas, das proibições, dos ciúmes ainda antes de teres razões
para isso. — Faço uma pausa, pois sei que, em parte, ele tem razão. — Eu fiz
merda, sim, desculpa. Mas ao menos assumo o que fiz. E tu?
— Já cá faltava, a vítima Laura. Estás no clube errado, devias fazer teatro.
— Sabes que mais? Ainda bem que já sabes tudo, assim não me sinto mal em
dizer que acabou!
E assim que digo «acabou», solto um suspiro de alívio, viro-lhe costas e vou-
me embora, dirigindo-me para a escola, na esperança de estar tudo acabado,
tudo em pratos limpos. Mas foi o pior que podia ter feito.
De repente, sinto o meu cabelo a ser puxado para trás, e no meio dos meus
gritos, ouço o Manuel dizer: «Isto acaba quando eu disser que acabou.»
— Larga-me — grito, na esperança de que alguém o pare, que alguém me
acuda. — Ajudem-me! — grito novamente, e ele mete-me a mão à frente da
boca.
— Não pies, cabra.
— Se sou isso tudo, porque não acabamos?
— Eu não quero.
— És doido!
— Nem tu imaginas quanto.
As pessoas olham para nós. Ele repara, e como toda a gente sabe quem ele é,
acaba por me largar os cabelos — metade deles devem ter ficado na mão dele.
Olham, mas não fazem nada. Não o impedem. Não me ajudam. Não deveria
ficar surpreendia, nunca ninguém ajuda a vítima nestes casos.
— Vês como ninguém te veio ajudar? Ninguém vai ficar do teu lado,
ninguém. És uma vadia — sussurra-me ao ouvido, afastando-se de seguida
como se nada fosse.
Tenho os olhos cheios de lágrimas. Suo por todo o lado por baixo da minha
camisola de lã. Apetece-me gritar, mas não posso, não no meio da rua. Também
não é por gritar, por falar, por seja o que for, que o ódio que sinto no momento
vai diminuir. E o que me irrita mais é que este ódio que me tem vindo a
consumir nos últimos tempos é sempre abafado pelas boas memórias, pelos «e
se?», pelas dúvidas. Ele até tem razão. Não, não tem. Tem, neste caso tem, e
isso irrita-me, pois a culpa é minha. No resto, não tenho culpa, eu sei disso.
Mas aqui tenho, e nada dói mais que isso.
Tenho vergonha do que fiz — por muito que o quisesse fazer. Tenho
vergonha do que acabou de acontecer. Tenho vergonha de estar presa. Eu queria
sair, a sério que queria, mas não me deixam. No dia em que ganhei coragem
para cortar as correntes que me prendiam a ele, ele conseguiu arranjar maneira
de colocar umas novas. Estarei sempre presa ao Manuel — e estou longe de
imaginar quão certa estou, infelizmente.
25
Palavras tóxicas
«People help the people
And if you’re homesick, give me your hand and I’ll hold it
People help the people
Nothing will drag you down»
Birdy (2011)
[ Guilherme ]
[ Laura ]
A ssim que entro no átrio sinto o meu corpo petrificar. Estou gelada e sem
reação. Não acredito no que estou a ver, não posso. O Manuel está em cima
de uma mesa a discursar, com toda a escola a ouvir. Não apanhei o início do
monólogo, pois dei a volta para entrar pela porta de baixo, mas não é difícil
adivinhar do que se trata.
— É uma puta vadia que me traiu com o meu melhor amigo. Os dois
metem-me nojo — ouvi, ainda sem ter bem noção do que estava a acontecer.
Vou percorrendo o caminho, pé ante pé, com as pessoas a olharem-me de
lado. Mesmo quem não gosta dele deve achar que eu sou uma cabra. Tenho o
meu ano de finalista completamente arruinado.
Lá ao fundo vejo o Guilherme, está a dizer algo — suponho que a defender-
me —, mas não consigo ouvir. Paro ao pé da Diana e do Simão, que parecem
tão chocados como eu. A Diana coloca o seu braço à minha volta para mostrar o
seu apoio. Sabe que agradeço.
Do nada, começa o horror. Afinal, é agora que a minha vida acaba (não, não
é). Ali, na parede branca que tenho à minha frente, está o meu fim (o meu fim
ainda está por vir). Está o vídeo. Eu e o Gui. Nós. Vê-se tudo. A entrada no
quarto. A aproximação. Eu a beijá-lo e a querer, claramente, mais que um beijo.
Ele a deitar-se em cima de mim. Tudo. E o átrio num silêncio de cortar a
respiração. E o nosso primeiro beijo, que eu iria guardar para sempre na
memória como lindo, está agora guardado como a maior humilhação pela qual
alguma vez passei.
— E tu, minha querida? — diz, descendo da sua mesa vindo na minha
direção. — Não tens nada a dizer em tua defesa?
— És um porco! — grito, a única reação possível.
— Tu tratavas mal a Laura, o que estavas à espera de que ela fizesse? Ficasse
eternamente submissa ao menino Amorim? — ouço, com alguma surpresa, o
Simão dizer. Não sabia que ele tinha noção do que se passava.
— Eu? Tratar mal?
— Tu literalmente quase lhe bateste há uns meses neste mesmo sítio.
E faz-se silêncio durante uns breves segundos. Mas se ainda tenho algum
pingo de dignidade, é agora a minha deixa, e não a posso perder.
— Sim, tratavas-me mal! — digo, num tom de voz acima do normal. — Eu
não sou como tu, mesmo tendo cometido um erro. Eu nunca te trataria como tu
me trataste. És um porco machista que não me deixa fazer o que quero, ser
quem sou. Nem sequer me deixas usar as roupas que eu quero. Já para não falar
das tuas crises de ciúmes e ameaças. — Não sei de onde vem esta força.
— Isso é mentira. És uma mentirosa!
— Podes chamar-me o que tu quiseres, mas ambos sabemos que eu tenho
razão. Caraças, tu já quase me bateste à frente desta gente toda. E ainda hoje me
puxaste os cabelos com tanta força que eu achava que ia cair para trás. Nunca
falei mal de ti a ninguém, nem aos nossos amigos, porque tenho vergonha.
Tenho vergonha de estar contigo. Arruinaste tudo o que tínhamos de bom.
— Ninguém vai acreditar em ti, escusas de estar com esse discursozinho de
vítima.
— Fora as nódoas negras com que fiquei noutras situações em que não
conseguiste controlar a tua raiva.
— Cala-te! — grita, ao empurrar-me.
Caio para trás, aos pés da Diana, que logo me ajuda a levantar.
— Estás bem? Queres sair daqui?
— Sim, por favor.
Ele já lá vai ao fundo. Creio que uma funcionária o chamou (espero que para
ir direto ao gabinete do diretor, ainda que saiba que nada lhe vai acontecer).
Outras auxiliares estão a mandar toda a gente para as aulas, e as pessoas acabam
por dispersar, mesmo que preferissem ficar a assistir a todo o drama em
primeira mão ao invés de ouvirem apenas os boatos (que daqui a 15 minutos já
distorceram completamente o que realmente se passou).
Eu faltei a mais uma aula para ficar com a Diana, que não tinha noção do
quão grave era a minha relação com o Manuel.
— Por que razão não me contaste o que se passava? Achava que éramos
amigas.
— E somos, não tem nada que ver contigo, Di.
— Desculpa, não é o momento para isso. — Faz uma longa pausa. —
Desculpa não ter reparado. Sei que ele é… bem, tóxico. Já tinha reparado em
algumas coisas, pequenas, mas nunca imaginei que fosse tão grave quanto o que
acabaste de descrever, Laura.
— A culpa não é tua, Di. A sério. Não é de ninguém senão dele.
— Como tua amiga, devia ter reparado, ou pelo menos não devia ter
ignorado os poucos sinais de que me apercebi, devia ter dito algo. — Quando
diz isto, começa a chorar, o que me leva também a chorar, e de repente somos
duas Marias Madalenas a partilhar uma dor que, felizmente, ela não conhece.
— Por que razão contaste ao Gui?
— Porque ele reparou e veio falar comigo. Já éramos muito próximos, como
sabes, e isso aproximou-nos ainda mais. Se ele não viesse falar comigo sobre o
assunto, provavelmente não teria dito nada a ninguém. É uma vergonha.
— Quem deveria ter vergonha era o Manel!
— O que se passa connosco? Porque continuámos todos amigos dele?
— Interesse.
— Di!
— Oh, vá lá. Não sejas puritana. Somos todos muito moralistas, mas a
verdade é que temos interesse em ser amigos dele. A história de sermos amigos
há muito tempo não é verdade. Ou, pelo menos, eu não acho que seja essa a
razão atual. Ele tem tudo. Aquela família tem tudo. Já viste a segurança que é
sermos amigos dele?
— Diana… nunca pensei ouvir-te falar assim. Imaginava isso da Kika, não
de ti.
— Estou apenas a evidenciar os factos. Mas agora acabou. Podes ter a certeza
de que nunca mais lhe dirijo a palavra.
— Como será agora? Tenho algum medo.
— Medo de quê?
— Dele. Da família. São pessoas com muito poder.
— Se for preciso, saímos todos de Lisboa, vamos para o Alentejo plantar
árvores ou algo do género. Em ti, ninguém toca!
Abraçamo-nos. Que bom é poder voltar a falar com a Diana sobre tudo. Que
bom é ter a minha amiga, por inteiro, de volta. Que bom é este abraço.
27
Aconchego
«Sei que enquanto fores viva,
Nunca me vai faltar nada»
Bispo (2017)
[ Laura ]
C om tudo o que se tem passado nos últimos meses, especialmente nas últimas
semanas, o que mais me custou foi chegar a casa e sentir que tinha de
engolir tudo. A minha mãe não merecia mais uma preocupação, não depois de
todos os dias da sua vida ter sido o oposto de mim. Ela foi corajosa. Eu não. Só
de pensar em contar-lhe tudo o que estava a acontecer, os nervos apoderavam-se
de mim e não tive outra hipótese senão esconder-lhe o que se passava.
Abro a primeira gaveta da mesa de cabeceira e retiro o diário, o primeiro de
todos. Sei a página que procuro e dou rapidamente com ela.
14 de setembro
Hoje foi o meu primeiro dia de aulas no quinto ano. Tenho
saudades dos meus amigos da outra escola, mas até acho que
já tenho uma amiga nova.
Combinei com a mãe que ela me ia buscar quando as aulas
acabassem, mas o pai apareceu à porta da escola.
Já nem me lembrava de ver a mãe assim tão zangada.E senti
muita vergonha com o que se estava a passar.
A mãe perguntou o que ele estava aqui a fazer. Estava
vermelha que nem um tomate. Ele disse que me veio apoiar no
meu primeiro dia de aulas. Ela disse para eu voltar para dentro
da escola e para esperar lá dentro até alguma funcionária me
ir chamar. Foi nesta altura que a Diana me chamou. Os pais
só a podiam vir buscar uma hora depois e também estava
sozinha, o seu grupo de amigos já tinha ido embora. Ela foi
muito simpática. Brincámos à macaca, saltámos à corda e
tirámos selfies juntas com o seu iPhone 4 (ela disse que os pais
lhe iam dar o 6 no Natal, que fixe, eu nem tenho telemóvel
ainda). Disse-me ainda que amanhã me iria chamar para ao
pé do grupo dela. Isso era mesmo fixe, eles parecem muito
amigos.
A mãe lá me foi buscar. A caminho de casa disse-me «nunca
saias da escola com o teu pai, a não ser que tenhas a minha
autorização, percebeste?». Eu disse que sim, mas não percebo
porquê. E depois disse que ia avisar toda a escola que só ela
ou os meus avós me poderiam ir buscar. Não sei porque está
tão zangada…
Paro de ler. Hoje em dia imagino a conversa que ela teve com o meu pai.
Hoje em dia percebo porque estava zangada. Guardo este diário e abro aquele
que me tem acompanhado nos momentos mais escuros da minha curta vida.
13 de janeiro
Será que a minha mãe já se apercebeu?
Nas últimas semanas, os meus cabelos tiveram dias em que
foram mais os que caíram do que os que ficaram, outros em
que estavam mais fortes que nunca — um espelho do que se
passa na minha alma. Tanto choro horrores com vergonha do
que aconteceu, como esboço sorrisos gigantes a olhar para o
Guilherme (ou simplesmente para uma foto dele). Deixei de ter
fome de manhã e à noite (não que antes tivesse muita) quando
estou em casa ao pé da minha mãe, apesar de comer bem
durante o dia quando estou com os meus amigos. Em casa,
fecho-me constantemente no meu quarto, quando tudo o que
quero é estar com ela, a comer sem parar uma caixa de gelado.
Mas tenho vergonha de que ela me ache fraca.
Se calhar nem sequer reparou que algo mudou. Deve achar
que estou a ser uma típica adolescente.
Mas não estou, mãe. Estou com medo, medo de te contar, medo
do que vais achar da tua filha.
Mas acho que chegou a hora. Chegou a hora de ultrapassar a
vergonha que sou para ela. Se alguém me pode apoiar é ela.
Só passaram uns dias e não aguento mais guardar toda esta
raiva dentro de mim — talvez assim consiga apreciar o amor
que sinto em paralelo.
Fecho o diário e saio rapidamente do quarto. A minha mãe está na cozinha a
fazer o almoço desde que cheguei a casa vinda do jogo.
— Mãe… — devo ter uma cara pior do que imagino, porque assim que se
vira fica pálida a olhar para mim.
— Laura! O que se passa, filha?
Era esta a cara que eu não queria ver — uma cara que reconheço bem, é a
mesma que o Guilherme faz ao querer proteger-me. Até aqui lutei para ser
forte, uma luta de dias, de semanas, meses. Lutei para não a fazer sofrer, para ela
não se pôr na minha pele, mas já não aguento mais. Preciso de uns minutos para
descansar a cabeça. Preciso de deixar de lutar.
Salto para os seus braços. Preciso da minha mãe. Da mãe que me diz que vai
correr tudo bem, da mãe que me faz a comida, que escolhe a roupa que vou
vestir no dia seguinte, que me levanta quando caio, que me dá um beijinho na
ferida depois de cair no chão, que me lê uma história para adormecer. Preciso da
minha heroína.
Poupo-a aos pormenores mais quentes com o Guilherme e aos pormenores
mais negros que ainda devem estar marcados no meu corpo, mas de resto conto-
lhe tudo. As palavras demoraram o seu tempo a conseguir escapar dos meus
lábios, mas agora vão-se atropelando umas às outras, às vezes sem uma
orientação certa, mas os seus ouvidos estão atentos a cada uma delas. Digo-lhe
que estou magoada e ao mesmo tempo feliz (o que é verdade). Digo--lhe que
tenho medo e que me quero esconder, mas ao mesmo tempo quero viver a
felicidade que encontrei. Também lhe falo da parte que mais tenho vergonha de
afirmar em voz alta: que já não me reconheço; que deveria ter sido como ela,
corajosa; que deveria ter percebido mais cedo; que não sei quem é a Laura que
vejo quando me olho ao espelho.
Quando olho para os seus olhos, ela está em lágrimas — o que eu mais temia.
— Ouve, filha, quero que saibas que não tens culpa. — Faz uma ligeira
pausa. — Se alguém tem culpa sou eu.
— Mãe, tenho a certeza de que não! Se alguém tem culpa é ele…
— Certo. — Faz uma pausa. — Mas tu achas que sempre fui forte, só que
não fui. Deixar o teu pai foi a coisa mais difícil e mais corajosa que fiz ao
mesmo tempo. Não o fiz de forma leve. Foram anos a sentir-me um autêntico
lixo. Muito antes de tu chegares. — Não consigo acreditar no que estou a ouvir,
apesar de não estar totalmente surpreendida. — Mas quando ele se tornou pai,
parecia que as coisas iam efetivamente melhorar. Não melhoraram, como sabes.
Antes de sair de casa, tive de ir buscar todas as minhas forças vindas nem sei de
onde, por ti. Foi por ti. Mas não queria que achasses que eu era uma
supermulher. Não sou e nunca fui. São estes momentos que nos definem.
— Mãe, não sei o que dizer…
— Lamento muito o que te aconteceu, Laura — diz, enquanto me agarra nas
duas mãos. — Sabes se aconteceu algo ao Manuel? Foi suspenso pelo que fez?
— Achas mesmo, mãe? — digo, em tom meio irónico. — Sei que no dia foi
ao gabinete do diretor e posso apenas imaginar o que se passou dentro daquelas
portas, mas acredito que o dinheiro compre tudo neste mundo, pois ele
continuou a ir à escola nos dias seguintes como se não tivesse feito nada, como
se a vida não tivesse mudado, como se continuasse a ser o rei daquilo tudo…
— Isso não pode ser assim, filha. Tenho de falar com o diretor!
— Mãe, escuta. Está tudo bem, agora. Não precisas de fazer isso. Por favor,
não faças isso, OK?
— Não gosto disso, Laura, mas vou respeitar o que me pedes — diz, e
enquanto me acaricia o rosto com uma das mãos, percebo que está a hesitar em
perguntar algo, até que por fim as palavras saem-lhe da boca. — Desculpa
perguntar, Laura, mas não achas que te estás a precipitar em relação ao
Guilherme?
— Foi só um beijo, mãe. Continuamos amigos, e agora não quero nada com
ele, pelo menos não nesse sentido. — É mentira, mas não a quero preocupar
mais. Mais para a frente conto-lhe a verdade. — E, olha, à tarde vou estudar
com a Di, OK? — Também é mentira, vou ter com o Gui.
Dou-lhe um beijo na bochecha e agradeço tudo o que faz por mim.
Despacho-me a meter-me na banheira antes do almoço estar pronto. Quero ir
ter com ele e fazer tudo bem como não fizemos à primeira. Quero estar
arranjada, nervosa até e, mais importante, oficialmente solteira.
Visto a minha melhor roupa interior por baixo do polo de malha dele — que
tenho guardado ainda desde o verão, quando uma vez me emprestou por estar
cheia de frio na praia — e de umas calças largas.
Depois de almoço faço uma máscara facial, meto blush, máscara de pestanas e
um gloss. E, ao contrário da maior parte dos dias, não me esqueço do perfume.
A minha mãe aparece no momento em que estou a tentar domar o meu
cabelo — que parece ter deixado de cair nos últimos dias.
— Tanta coisa apenas para ir ter com a Di! — Coro.
— Tenho de aproveitar para me mimar enquanto posso — digo,
literalmente, a primeira coisa que me vem à cabeça. — Daqui a nada tenho de
estudar para os exames e depois vem a faculdade, não vou ter tempo para nada,
aposto.
«Hm hm», ouço-a enquanto se afasta. Será que percebeu? Tento não pensar
nisso. Hei de contar-lhe eventualmente que já há muito que comecei a gostar
do Guilherme e que só não o admiti mais cedo porque era errado, de tantas
maneiras. Talvez ela saiba, mas sei que quer proteger o meu coração. Com esta
história, deve achar que o meu coração é mais frágil do que é. E talvez seja, mas
sinto que o posso entregar ao Gui. Se alguém o vai proteger, ou melhor, voltar a
pô-lo no sítio, é ele.
28
Quero-te
«Sei que tens o coração partido
Não sei quem de nós partiu primeiro
Mas talvez juntando os pedacitos
Dos dois nós fazemos um inteiro
Puxa por mim que eu puxo por ti
Ninguém cai nesse despenhadeiro
Deixa essa bagagem toda aqui
’Bora lá começar do zero
Que me dizes de ir atrás de um final feliz
Num sítio onde dois infelizes possam juntos sarar as cicatrizes»
Papillon (2018)
[ Guilherme ]
[ Laura ]
[ Guilherme ]
P assou-se pouco mais de uma semana desde a tarde mágica que passei ao lado
dela. Todos os dias tenho acordado com um sorriso de orelha a orelha, em
pulgas para a ver. Como hoje. São já 8h e estou atrasado. Já a avisei que não
consigo vê-la a caminho da escola, mas combinámos encontrar-nos no parque à
hora de almoço.
Custa-me ter de esconder. Só quero gritar aos quatro ventos que é minha, que
a tenho para mim, que a amo — porque ela não tem de ser a única a saber. Mas
tem de ser.
Desde que o Manuel fez aquela cena na escola que tem sido estranho meter lá
os pés, especialmente para a Laura. Ela até pode achar que eu não percebo, mas
eu sei que as pessoas a olham de lado, algumas pelo menos. Ouço o que
comentam sobre nós nos corredores, ainda que não façam ideia do que
realmente se passa. Por isto tudo, é melhor continuarmos a esconder, até a
turbulência passar, até ser aceitável.
Só me resta a companhia dela no parque e nas nossas casas — ainda que não
tenhamos conseguido estar juntos só nós os dois desde a tarde que eu continuo a
repetir vezes e vezes sem conta na minha cabeça. A mãe dela passa muito tempo
em casa e os meus pais decidiram ter horários normais no mês de janeiro —
quer dizer, não é nesta altura que as pessoas estão com gripe? Bem, não que eu
deseje que as pessoas fiquem doentes para ter sexo, mas quero muito repetir,
pois nunca foi tão especial como naquele dia, nunca foi tão especial como é com
ela.
Não sei como me perdi nos pensamentos, mas já estou a meio da aula de
Matemática. Merda, perdi-me completamente. Eu sei que consigo recuperar,
mas tenho mesmo de atinar, e desde que comecei a perceber o que sentia pela
Laura que a minha concentração nas aulas tem patinado.
Mal dou por mim, está a tocar para o intervalo. Tenho apenas 15 minutos,
mas junto-me à parte do grupo que ficou intacto. Ela já lá está. Vejo-a ao longe
a colocar uma madeixa de cabelo — meio despenteado como sempre — atrás da
orelha e a rir-se com a Diana. Tão bom ver que ela está feliz. Tão bom saber que
todo o drama está a passar, aos poucos, e que ela está a reconstruir todo o seu
coração. Queria tanto que pudesse ser sempre assim, queria tanto que todas as
feridas dela se curassem tão rápido como esta, mas não.
Paro cerca de cinco segundos à porta do átrio e fico a observá-la. Ela olha para
mim de lado e sorri. Eu sorrio de volta. Quase que consigo ouvir daqui o Simão
e a Diana a sussurrarem «uuuuuh» — os únicos que sabem que estamos juntos
(bem, eles e a Francisca, que ainda não percebi de que lado da barricada ficou).
— Gui! — diz, com um sorriso gigante.
— Olá, malta.
— Ainda bem que chegaste — diz o Simão. — Estávamos agora a combinar
coisas para a viagem de finalistas.
— O quê?
— Bem, prepara-te! — diz a Laura entusiasmada. — Tu nem sabes quem é
que decidiu juntar-se a nós. — Devo ter um ar bem confuso estampado no
rosto, pois ela não me deixou sequer tentar adivinhar. — A Kika!
— Uau! Achava que ela tinha deixado de se dar connosco…
— Pois, também nós — lembra a Diana —, mas veio falar comigo ontem.
Disse que precisou de uns dias para se ambientar à ideia de vocês os dois terem
uma cena e de o Manuel ser… bem, o que nós sabemos que ele é. Acreditas que
ela nunca tinha reparado? Em absolutamente nada. Ela achava mesmo que ele
estava apenas a brincar quando dizia aquelas coisas horríveis. Podem calcular
que foi uma conversa muito produtiva, a nossa.
— Mas, sendo assim, como vamos fazer? — pergunto.
— Bem, assim já temos o quinto membro do grupo para o apartamento de
dois quartos. Já mudei na aplicação da viagem e tudo! — continua a Diana.
— Hum… e o Xavier e o Manuel?
— Estás mesmo preocupado com eles?
— Não, Lau. Bem, desculpa, não era isso que queria dar a entender. Só que
achei que eles fossem com ela.
— Eles que se desemerdem! — O tom de irritação ouve-se na sua voz, e não
era, de todo, isso que eu queria. Passo-lhe a mão ao de leve na perna e acaricio-
a. A mão dela vai ao encontro da minha e ficamos de dedos entrelaçados durante
uns breves segundos, antes de nos lembrarmos que não estamos sozinhos, nem
só com os nossos amigos.
— Bem, concordo com a Laura, mas se quiserem mesmo saber, eles vão ficar
com malta da Associação de Estudantes, que é mais a cara deles — responde o
Simão (claro que ele sabe tudo o que se passa). — Vocês sabem, os misóginos
todos juntos. Assim só se estraga um apartamento! — Rimo-nos todos,
enquanto as raparigas começam logo a combinar ir às compras e que roupa vão
usar em cada noite.
Faltam exatamente dois meses em ponto para partirmos num avião rumo a
Ibiza, mas mal posso esperar. Talvez aí, eu e a Laura já possamos andar juntos à
frente de toda a gente. Talvez aí, ela já seja totalmente minha e toda a gente o
saiba. Talvez aí, o passado já esteja arrumado e possamos viver a nossa felicidade
sem estarmos numa bolha.
Talvez.
Talvez esteja errado.
31
Destino: o fim da vida como a conheço
«Now my life is sweet like cinnamon
Like a fucking dream I’m livin’ in»
Del Rey, Lana (2012)
[ Laura ]
14 de janeiro
Duas entradas seguidas, quem sou eu e o que fiz à Laura que
só vinha aqui quando precisava e estava deprimida?
Fora de brincadeiras, ontem acabei por contar à minha mãe.
Ela apoiou-me em tudo, como eu sabia que faria. Foi tão bom
poder deitar cá para fora tudo o que me ia na cabeça, tudo o
que o Manel me fez… Tenho pena que ela tenha achado que a
culpa era dela. Não é!!! E, no fundo, sei que ela sabe disso.
Além disso, todas as mães devem achar isso, não é? Que tudo o
que acontece na vida dos filhos é culpa delas… bem, se algum
dia encontrares isto, mãe: fica a saber que a culpa não é tua e
que eu te adoro!
Agora, se estiveres mesmo a ler isto, POR FAVOR, NÃO
LEIAS MAIS!!!!
Vamos lá ver… tive a melhor tarde, as melhores horas da
minha vida ao lado do Guilherme. Ah, nem acredito que é real.
Primeiro: já não sou virgem (eu disse para parares de ler,
mãe). E foi tudo o que eu poderia imaginar. OK, imaginava
mais umas velas e umas pétalas de rosa na cama, mas isso é
supérfluo. Foi tudo como eu imaginei. Ele foi um querido do
início ao fim, perguntou-me umas vinte vezes se eu tinha a
certeza… e, oh, se tinha! A ele eu diria sempre que SIM!
Segundo: ele disse que me amava! BERROS! Bem, eu não
disse de volta, mas não é por não o sentir. Acho que sinto. Não
sei bem, mas acho que sim. Só está tudo muito confuso na
minha cabeça, tudo o que se passou com o Manuel, e estes
sentimentos novos pelo Gui que se misturam com os antigos
(que já eram bastante fortes). Só queria que alguém me
dissesse assim «rapariga, é óbvio que isso é que é o amor», só
mesmo para ter a certeza que desta vez não me estou a meter
numa alhada.
24 de janeiro
Aqui estou eu novamente. E desta vez apenas tenho uma coisa
a dizer: FALTAM DOIS MESES PARA A VIAGEM DE
FINALISTAS. (Sinto que precisava de animar este diário,
está muito depressivo, tendo em conta tudo o que aconteceu,
portanto agora quero vir aqui sempre que tiver coisas felizes
para contar).
Estou deitada na minha cama a ler as últimas duas entradas do meu diário.
Lembrei-me de o abrir para escrever que é já amanhã que parto para a viagem
de finalistas e deparo-me com uma promessa que deixei por cumprir. Não
escrevi todos os momentos felizes dos últimos dois meses. Também seria
impossível, ou então teria novas entradas todos os dias, pois os últimos dois
meses foram os mais mágicos da minha vida. Foi tal qual estar a viver dentro de
um filme.
Onde é que andavam estes sentimentos? Ainda não disse que o amava, e
tenho a certeza que é isso que sinto, mas preciso do momento perfeito — ele
merece isso depois de dois meses à espera que eu retribuísse. Eu acho que ele
sabe, quer dizer, eu trato-o por «amor» e andamos juntos tal e qual os casais dos
«felizes para sempre», mas ainda não o disse. Penso fazê-lo na praia, num pôr
do sol, antes de irmos sair à noite. Só espero que não me escape com um copo
ou dois a mais.
Amanhã tenho de acordar bem cedo e ainda nem as malas tenho feitas como
deve ser. Basicamente, já tenho biquínis e roupa de praia, mas falta-me saber o
que vestir todas as noites — apesar de já ter delineado vinte mil looks diferentes
na minha cabeça.
Como se adivinhassem os meus pensamentos, começa a tocar o telemóvel.
Tenho uma videochamada no grupo com a Diana e a Francisca a tocar.
— Olá — digo. — Ligaram mesmo em boa altura, preciso de vocês!
— Já sabia — diz a Kika, enquanto as duas se riem.
— Vá, conta o que já tens na mala.
— Então, todos os meus biquínis, na esperança de que esteja um tempo
decente, e a roupa de praia também está tratada. Mas e para a noite?
— Essa é a especialidade da Kika!
— Leva-me até ao teu roupeiro!
Pego no telemóvel e transporto-as até à desorganização do meu roupeiro, que
se encontra uns três passos em frente à cama.
— Amiga, quando voltarmos de Ibiza temos de fazer algo quanto a esse
roupeiro… — começa por dizer sarcasticamente a rainha da moda.
— Agora mostra-me toda a tua melhor roupa de sair.
Assim faço, não é muita: um vestido midi justo, calças de cabedal, uns tops
curtos de cetim e em lantejoulas, um vestido de cetim e uns calções pretos.
— Isto é tudo o que tenho de jeito!
— Nada temas, mete tudo na mala e decidimos quando lá chegarmos. —
Como só podia ser, a Diana a ser prática, como sempre.
— Hum, sim, e eu vou levar roupa extra para te emprestar. Tenho uns
vestidos que te iam ficar mesmo bem. E ai de ti que digas que não, agora não
tens nenhuma amarra.
A Francisca tem razão. Já não tenho a amarra que me prendia. Mas será que
ele me prendia assim tanto? Ou eu deixava-me prender, quando a verdadeira
prisão era a minha cabeça? Sempre fui uma rapariga minimamente simples,
nunca me arranjei por aí além; gosto de calças e calções e evito saias e vestidos,
especialmente fora do verão; os ténis são os meus melhores amigos, e nem
comecemos a falar do cabelo. Contudo, se calhar esta é a hora certa para arriscar.
Será que o Guilherme gostava que eu me arranjasse mais? Ou iria achar
estranho? Seja como for, sei que me vai apoiar em tudo. E é só uma semana,
quando chegar posso voltar a enfiar-me em calças de fato treino e em toda a
minha roupa confortável para o resto da minha vida.
— Combinado! — digo, por fim. — Agora toca a ir dormir, meninas, que
amanhã começa a nossa viagem de sonho.
— Não, a nossa viagem de sonho começa depois de amanhã, quando
começarem as noites de festa. Amanhã é só mais um dia a andar de avião e a ver
praias paradisíacas. — Típico da Francisca, nem se apercebe que nem toda a
gente passa metade do verão numa ilha qualquer, europeia ou não.
— Kika, eu e a Di nunca fomos a Ibiza!
— Pronto, está bem, desculpem! Começa amanhã a nossa viagem. E, meu
Deus, vocês vão ado... — Sei o que ela ia dizer, mas a Internet falhou nesse
momento e ainda bem, está na hora de arrumar isto tudo e tentar ir dormir
contendo o entusiasmo.
Envio-lhes uma mensagem rápida a dizer que mal posso esperar, acabo de
arrumar as coisas e meto-me na cama.
Já me conheço. Sei que vou demorar horas a adormecer, tal é o entusiasmo.
Ainda me lembro da primeira vez que andei de avião. Eu e a minha mãe fomos
à Disney quando tinha 11 anos. Fartei-me de lhe pedir para irmos. «Os meus
amigos já andaram todos de avião e já foram todos à Disney», dizia-lhe todas as
semanas. Até que nas férias da Páscoa, a minha mãe pegou em mim e em duas
malas e disse que tinha uma surpresa. Assim que chegámos ao aeroporto, eu
fiquei histérica. A minha mãe mostrou-me os bilhetes para a Disney, e eu mal
parei quieta desde que ela anunciou que iria cumprir o meu sonho. Dormimos a
primeira noite no centro de Paris. Bem, nem por isso. Ela dormiu. Eu mal
preguei olho, de tão entusiasmada que estava.
Aposto que hoje vai acontecer o mesmo. Entretanto, já andei de avião mais
três vezes — umas férias no Sul de Itália, outras na Croácia, e o ano passado
fomos uma semana para a Riviera Francesa —, mas não é por isso o meu
entusiasmo. É por ser A viagem de finalistas. Vendem-nos esta viagem como
um sonho, uma última festa antes de termos de seguir com a nossa vida. E
posso fazer isso ao lado dos meus melhores amigos e do namorado mais perfeito
que existe. Bem, e por terras espanholas estará também o meu ex-escroto, mas
vou tentar esquecer isso nos próximos dias.
Fecho os olhos, para tentar acalmar o cérebro. Dou uma e outra volta e,
quando volto a abrir os olhos, são 4h28. Não me lembro de adormecer, e agora
não vale a pena tentar fazê-lo outra vez, pois o alarme toca daqui a dois
minutos.
Vou comer qualquer coisa. A minha mãe ainda dorme. Disse--lhe ontem para
acordar só às 5h, que era o suficiente para nos ir levar e voltar para casa para
acabar de descansar.
A minha rotina é a mesma, apesar de estar a acordar quase três horas mais
cedo que o normal. Descarto a maquilhagem por agora — afinal, vamos estar
num avião — e depois logo vejo se faço alguma coisa. Guardo a bolsa da
higiene na mala e a bolsa da maquilhagem na mala pequena. Visto umas
leggings pretas, uma T-shirt curta preta e uma sweatshirt por cima, da equipa de
voleibol. Claro, os meus stan smith por fim.
Quando acabo de me arranjar, já a minha mãe está de pé a acabar de comer.
— Uau! Se te arranjasses tão rápido para ir para a escola não precisavas de te
levantar tão cedo.
— Que piada, mãe!
— Vá, vamos, que ainda temos de passar em casa do Guilherme e da Diana.
— Mãe, convém trocares de sapatos… — digo, enquanto olho para os seus
chinelos de inverno. Ela ri-se.
Em menos de cinco minutos, já estávamos à porta do condomínio deles.
— Olá, dona Susana — diz a Diana com o seu entusiasmo típico enquanto
dá um abraço à minha mãe. — Olá, amiga! — repete, comigo.
— Olá! — diz, mais timidamente, o Gui, dando-lhe um beijinho rápido na
cara. — Olá, Lau. — E passa para mim, mesmo eu sabendo perfeitamente que
ele quer dar-me mais do que um beijo na bochecha.
Sentam-se lá atrás, e a minha mãe não perde tempo para nos envergonhar:
— Sabem… vocês não precisam de fingir, eu não sou burra.
— Mãe! — grito.
— O que foi? Claramente, ele queria dar-te mais que um beijo na cara,
querida. — A Diana ri-se perdidamente.
— Para com isso — peço.
— Pronto, pronto, já não está cá quem falou.
— Ai, adoro-a, dona Susana! — Apetece-me matar a Diana, mas viro-me
para trás e dou-lhe uma carinhosa chapada na perna, da qual ela reclama.
Assim que estaciona no parque do aeroporto, vê-se uma manada de jovens,
alguns da nossa escola, outros vindos de longe, mas todos com o mesmo
objetivo: ter a semana das suas vidas.
Estava tão perdida nos meus pensamentos que nem tive tempo de processar o
que a minha mãe estava a perguntar ao Guilherme:
— Então, menino Guilherme… tens preservativos?
— Mãe! — grito, quando me apercebo o que ela está a fazer. — Nossa, Gui,
desculpa! — Ah, não tem mal, mas… ah… — Ele está tão atrapalhado, coitado
(e, claro, a Diana continua a rir, para ela, isto está a ser melhor que um
espetáculo de comédia).
— Não fiques atrapalhado, eu meti na mala dela quando ela não estava a ver.
— O quê? — Volto a subir o tom de voz e escondo o rosto com as mãos.
— Sim, e vamos ter uma conversa sobre a roupa interior que levas na mala
quando voltares, minha menina. — Ao mesmo tempo que diz isto, pisca o olho
ao Guilherme. Sei que está a brincar, mas eu sinto-me um tomate por ela ter
descoberto a roupa que estive a comprar com as meninas.
— Que vergonha! — Acabo por dizer.
Dou-lhe na mesma um abraço e ela sussurra-me ao ouvido, já depois do
Guilherme ter saído:
— Confio em ti, querida. Faz boa viagem, mas tem cuidado! — Mal ela sabe
que eu tenho todo o cuidado do mundo. Ainda assim, em certos episódios da
nossa vida, por muito que lutemos, não passamos de meros espectadores.
— Sim, mãe! — digo, dando-lhe dois beijinhos, e depois saio porta fora para
ao pé da malta.
«Olá», ouço-os a gritar ao longe enquanto corro com as malas atrás para os
apanhar.
Dou um abraço gigante ao Simão e à Francisca, e agora que estamos todos
juntos, à espera do avião, sinto que começou a melhor semana da minha vida.
Assim espero que seja. Assim esperava que fosse. Mal eu sabia.
— Então, miúda, pronta?
— Kika, tu não tens noção da cena que a minha mãe acabou de fazer! —
digo, com um toque de pânico na minha voz.
— Conta-me tudo!
E eu conto, interrompida mil vezes pela Diana para descrever os tons do
Pantone pelo qual a minha cara passou. E rimo-nos todos. E o Gui coloca o seu
braço à minha volta — já há algum tempo que andamos mais descuidados com
quem vê ou não que estamos juntos, apesar de não andarmos por aí a esfregar na
cara das pessoas — e tudo parece perfeito. Até ao momento em que deixar de
ser.
Aproximadamente duas horas depois, já estávamos dentro do avião, prontos
para descolar. Dou a mão ao Guilherme — não tenho medo, mas a aterragem e
a descolagem são o meu ponto fraco — e ele dá-me um beijo na testa e sussurra
«vai correr bem, pequena». Mal ele sabe.
Em menos de duas horas, o ritual repetiu-se, mas, desta vez, nem eu estava
tão nervosa. Temos de agradecer ao vinho e gins comprados pela Diana e pelo
Gui ao longo da viagem. Entre risos, foi bom ter os pés de volta ao chão.
Ainda é cedo. O plano é compras (sim, que apesar de termos as principais
refeições incluídas e bar aberto todos os dias até às 2h, ainda precisamos de
snacks, lanches e mais umas bebidas para nos entreter durante o dia) e depois
praia o resto do dia, visto que na primeira noite ainda não há festa (pelo menos,
não oficial).
E agora aqui estamos. Na casa onde vamos passar os próximos dias. Na vila
onde nos vamos apaixonar ainda mais. Na praia onde nos vamos amar como
nunca amámos. No sítio onde a minha vida vai terminar, pelo menos na forma
como a conheço, mas ainda estou longe de imaginar esse desfecho. Hoje ainda
sou feliz.
32
Debaixo das estrelas
«Por isso ama-me
Como se me fosses perder
Procura-me
Como se nunca me tivesses tido
Agarra-me
Como se eu fosse desaparecer
Faz de conta que o para sempre só existe comigo»
Piçarra, Diogo (2017)
[ Guilherme ]
J áfesta.
estamos na sexta e última noite da viagem de finalistas. A última noite de
Tem sido a semana das nossas vidas. Além de estar entre amigos e de
nos divertirmos nas festas que temos todos os dias, é a presença, o toque e o
beijo da Laura que me deixa todos os dias com um sorriso estampado no rosto.
Não consigo explicar a felicidade que é acordar ao seu lado dia após dia.
Acordo quase sempre primeiro que ela e fico uns cinco minutos a vê-la a dormir
— nem sempre é angélica, às vezes está de boca aberta, mas até aí é bonita. Sei
que posso parecer sinistro ao gostar de a ver dormir, mas a beleza dela deve ser
apreciada. Depois beijo-lhe o braço nu até chegar aos seus lábios, pronto para a
acordar.
Nunca ninguém me disse que uma das melhores sensações de estar
apaixonado é adormecer e acordar ao lado dessa pessoa. Estou eu a dizer: é.
Abraçá-la, dar-lhe um beijo de boa-noite, acariciar-lhe o cabelo e vê-la a
adormecer com toda a segurança nos meus braços é a melhor sensação do
mundo. E o mesmo acontece em sentido inverso, quando é hora de acordar.
OK, talvez não seja a melhor. Não vou ser hipócrita, o sexo que temos tido
todas as noites e manhãs supera isso — mas por pouco!
Apesar de estar a ser a melhor semana da minha vida, não deixo de me
perguntar quão estranho estará a ser para a Laura. Afinal, está aqui o seu ex-
namorado, o nosso ex-amigo, a pessoa que a tratou tão mal nos últimos tempos.
E nós nem andamos sempre agarrados, mas ele tem olhos na cara, com certeza já
nos viu na noite, mesmo que, até agora, não tenha dito nada, nem feito
nenhuma cena. Não deixo de imaginar se não estará para breve.
Estamos mesmo a acabar de jantar quando ela me pergunta:
— Vamos dar uma volta?
— Eles vão fazer o pré, não queres ficar?
— Eles esperam por nós. Além disso, a Francisca e a Diana são muito mais
demoradas que eu a arranjar-se. Ainda os apanhamos, e eu ainda vou acabar de
me arranjar primeiro que elas, vais ver!
— Isso é batota! — grita a Diana. — Tu já tens o teu cabelo arranjado,
graças a moi. Desculpem, não pude deixar de ouvir.
Entre gargalhadas, ela pega-me na mão e leva-me para fora do restaurante.
Não sei para onde vamos, mas simplesmente a sigo, com toda a confiança que
tenho nela.
— Não perguntas onde vamos?
— Confio em ti, Lau!
Caminhamos mais um pouco até sentir a areia fria nos meus pés.
— Queria ter vindo mais cedo, queria ter visto o pôr do sol contigo, mas
esqueci-me de que nesta altura do ano era muito cedo.
— Não faz mal, não importa o estado do céu, eu quero é estar contigo! —
Dou-lhe um beijo na testa.
Sinto algum nervoso miudinho por parte dela, mas não faço ideia porquê,
nem no que está a matutar.
— Passa-se algo, Laura?
— Sim.
Continuo calado, deixando pendente no ar a pergunta inevitável.
— Queria agradecer-te, e não queria fazê-lo em frente a toda a gente.
— Agradecer-me pelo quê?
— Por me teres salvo.
— Lau…
— Deixa-me acabar, por favor. — Calo-me automaticamente e deixo-a ter o
seu momento, sem saber o que esperar das palavras que jorra. — Quero
agradecer-te por me teres aberto os olhos em relação a uma pessoa que já não me
fazia bem, já não fazia bem a nenhum de nós, na verdade. Eu sei que em tempos
todos nós gostámos dele, e, confesso, às vezes ainda penso como não vi mais
cedo, como não te vi mais cedo. Acho que sempre te vi quase como um irmão,
não me deixava pensar em mais do que isso. Aliás, se pensasse em ti com
alguém, não seria comigo com certeza, tu eras areia a mais para a minha
camioneta. E agora estás aqui. A dar-me a mão. A ser o meu porto de abrigo. A
ser tudo e mais do que eu preciso. Amo-te, Guilherme! — Quando ela
finalmente reúne coragem para dizer esta palavra, sinto os meus olhos a brilhar
e um sorriso a formar-se no meu rosto. — Sempre amei, não é mentira
nenhuma, mas agora é diferente. É mesmo amor, aquele amor que nos mostram
nos filmes e que pensamos que nunca vai acontecer na vida real, ainda que o
desejemos com todas as nossas forças. Amo-te. E desculpa ter demorado tanto
tempo a dizê-lo, ainda que ache que o soubesses pelos meus gestos e ações, sei
que precisavas de o ouvir.
— Laura, não sei que dizer.
— Que tal dares-me um beijo?
Nem precisa de acabar a frase, já me atirei ao seu rosto. Tenho as duas mãos a
agarrar-lhe a cara e beijo-a como se amanhã não o pudesse fazer — mal eu sabia
o que estava por vir. Os nossos lábios apenas se largam para eu dizer que
também a amo.
Não temos ninguém à volta, e mesmo que tivéssemos, acho que neste
momento mais nada importa. Somos só nós. Só eu e ela. Só os nossos corpos. Só
os nossos lábios.
Começo a beijar-lhe o pescoço enquanto ela me tira o cinto das calças. Não
sei se o devemos fazer, mas amo-a demasiado para não partilhar esta chama com
ela — e pode ser a minha última oportunidade.
Ela mantém a minha T-shirt vestida, mas toca-me por baixo da mesma e eu
volto a sentir o frio na barriga. O mesmo frio que senti naquela noite no Ano
Novo. Estremeço, ainda sem acreditar que ela é minha.
Se há uns meses ela não tinha jeito nenhum para me despir, hoje já estou com
as calças no fundo das pernas, e, pegando nela ao colo, deito-a na areia. Deixo-a
ficar com o seu vestido de praia, por muito que só a queira ver nua novamente
— se eu soubesse, talvez tivesse aproveitado melhor a última vez que a vi por
completo. Apesar de estar vestida, tento senti-la o máximo que consigo, passo a
mão pelo seu corpo até chegar ao ponto mais importante. Toco-lhe, primeiro
devagar, depois mais depressa. A respiração dela acelera e a minha também.
Não paro de a beijar durante o tempo todo, não consigo e não quero. Não quero
deixar de a sentir.
Ela acaricia-me a coxa e não só. Tudo o que faz vai-me deixando louco. Já não
consigo pensar em mais nada. Já nem sequer consigo pensar que a amo — e
amo! — só consigo pensar em estar dentro dela. Apenas uns minutos e perco a
capacidade de pensar. Baixo-lhe a roupa interior ligeiramente e lembro-me de
que não tenho preservativo.
— Tens a certeza?
— Outra vez esta conversa, Gui? Acho que depois de tantas vezes posso dizer
que sim — diz, beijando-me novamente como quem me quer calar.
— Não, desculpa, é só que tenho os preservativos no quarto.
— Oh — faz uma pausa, e eu acho que estraguei o momento. — Bem, eu
tomo a pílula. Basicamente, só não posso vomitar hoje, e tu, podes sair antes do
grande final, certo?
— Sim — desta vez sou eu que paro por uns segundos, ela está a dizer-me
tudo o que quero ouvir, o que não significa que seja o mais correto. — Mas tens
a certeza?
— Beija-me!
Beijo-a, cedo ao desejo, e finalmente entro no seu corpo. Começo devagar,
pois tenho sempre medo de a estar a magoar, mas desta vez não me controlo. E
ela também não. Nenhum dos dois se controla. Nenhum dos dois pensa. Ela
geme. Eu quero-a mais do que nunca.
Mas assim é mais difícil, tenho de parar urgentemente. Tenho de sair.
Afasto-me para o lado e fico a olhar para ela e para as estrelas nítidas por
cima de nós.
Está a ser a melhor noite da minha vida. Pena que vá ser a pior noite da vida
dela, e nenhum dos dois ainda o sabe.
33
Não!
«I looked around in a blood-soaked gown
And I saw something they can’t take away»
Swift, Taylor (2022)
[ Laura ]
A viagem de finalistas tem sido melhor do que eu alguma vez poderia pedir ou
imaginar. Apesar de andar a beber mais do que queria, do que devia e do
que suporto, está a ser incrível. Dentro do nosso grupo, todos sabem sobre mim
e o Gui, todos nos apoiam e, sinceramente, já nem nos importamos com a
opinião de quem está de fora. A cada dia que passa temos tido menos cuidado
em esconder, temos estado mais livres. Às vezes, ainda tenho pena do Manel,
por ter de nos ver juntos, mas depois lembro-me de tudo o que me fez e essa
culpa desvanece. Agora, se a culpa desvanece… o medo, nem por isso. Tenho
receio de que ele faça algo por saber que estamos juntos. Tenho medo de voltar
a sofrer nas suas mãos. Tudo o que não quero é ter de vestir o papel de vítima
novamente. O relógio vai marcando o passo, os dias vão passando, e eu, sem
saber quão certa estou, encontro-me prestes a entrar num ciclo do qual só Deus
sabe se irei sair.
Já estamos na última noite da viagem de finalistas — e até ao momento está
a ser a melhor noite da minha vida. Não podia pedir melhor que o Guilherme.
Depois do momento mais romântico de sempre na praia — ainda que não
muito confortável —, sinto que estou com a pessoa certa para mim, para a
minha vida. Não me quero esquecer desta noite. Não vou — mesmo que não
seja por bons motivos.
— Amiga, em que pensas? — É a Kika a ter um dos seus poucos momentos
de amiga atenta ao que a rodeia, um momento que durou pouco. — Anda,
vamos beber um shot antes de irmos para a festa! — Não ia dizer que não, mas
mesmo que quisesse, não conseguia, pois já tinha o copo quase em cima da
minha boca.
— À Laura e ao Gui, malta! — gritam, e nós damos um rápido beijo,
envolvidos na felicidade de todos.
— Vocês são demais!
— Estamos apenas felizes por vocês — diz o Simão, enquanto se apoia no
ombro do Gui, já a precisar de ajuda a equilibrar-se.
O primeiro problema desta noite foi o que se seguiu a este shot: mais um, e
outro, e possivelmente mais uns dois ou três — entretanto perdi-lhes a conta.
Fomos a pé para a discoteca. O que era suposto ser um percurso de nem 10
minutos passou a mais de 15, pois além de andarmos aos círculos, parávamos a
cada 50 metros para nos rirmos de algo banalíssimo. Estávamos a viver a nossa
melhor vida, enquanto grupo, enquanto adolescentes prestes a entrar numa fase
com mais responsabilidades, as quais queríamos esquecer durante esta semana.
As nossas bocas cantavam em alto e bom som «we ain’t ever getting older»1 e era
mesmo isso que sentíamos. Estávamos felizes. No momento. No dia seguinte,
quem sabe.
Ao entrar na discoteca, sou rapidamente ofuscada pelas luzes e demoro uns
minutos a habituar-me. Para falar com eles é preciso gritar, e ainda assim nem
sempre nos ouvimos. Mas por vezes não é preciso dizer nada. Olho para o Gui e
sorrio, e ele sorri-me de volta. Amamo-nos e nada pode estragar isso.
De repente, a Diana traz mais bebidas para mim e para a Francisca:
— Vá, meninas, aproveitem, que daqui a 30 minutos acaba o bar aberto.
E bebemos rapidamente uma vodca cola, e a seguir mais uma, mais
lentamente. O estômago já começa a dar de si — assim como a bexiga.
Dois minutos depois do bar aberto fechar, já estamos as três na casa de
banho. A Francisca demora sempre imenso tempo, e eu não me sinto nada bem.
— Di, acho que vou lá fora apanhar um pouco de ar!
— Precisas de que vá contigo?
— Não, espera pela Kika. Mas depois não saiam de onde estávamos para eu
conseguir ir lá ter.
— Combinado!
Vou até lá fora. Ando um pouco e encosto-me a uma parede. Preciso
urgentemente de parar, sinto que vou cair para o lado a qualquer momento. Até
que alguém me agarra na mão.
— Gui?
— Não, querida, sou eu.
É o Manuel. Porra. Tenho de ficar consciente o mais depressa possível. Tenho
de voltar a mim, mas não estou a conseguir. Põe-te sóbria, Laura!
— Que é que eu sempre te disse? Não devias beber muito, depois coisas más
acontecem. — Puxa-me para ir com ele e eu não consigo pará-lo. — E muito
menos devias andar assim vestida. Já devias saber que depois os homens levam-
te ou fazem-te coisas más. — Exatamente o que estás a fazer, penso, sem conseguir
travá-lo.
— Onde me levas? Deixa-me em paz!
— Para um sítio seguro, claro, sou eu. Nunca te faria mal — diz, de uma
forma tão calma que é perturbadora.
Não tenho forças para ripostar, e mesmo que tivesse, ele agarra-me o pulso
com tanta força que se torna impossível fazê-lo. Passam-me várias imagens pela
cabeça. Algumas lembram-me das vezes que ele me agarrou com esta força,
outras mostram-me as marcas que ele deixou em mim. Está escuro. Não
reconheço onde estamos apesar de ainda conseguir ouvir a música que vem da
discoteca, agora mais distante. O meu coração dispara de ansiedade, e a minha
mente é invadida por mais imagens. Só que estas não são memórias. É a minha
ansiedade a falar mais alto. Sou eu a fazer filmes. Imagino tudo o que pode dar
errado, tão nitidamente que podia jurar que já tinha acontecido. Estarei mesmo
a fazer filmes ou realmente a prever o meu futuro? O meu coração acelera, e eu
já só peço que ele pare de vez para evitar o que está para vir.
Eu sei que isto não é bom, mas agarro-me à esperança de que não seja tão
mau como o que eu imagino. Será que pode ser ainda pior?
Fujo dos meus pensamentos para voltar à realidade. Tenho de tentar fugir,
mas ele aproxima-me da parede e encosta a sua zona pélvica contra a minha, ao
mesmo tempo que me tenta beijar. Eu desvio a cara, para um lado e para o
outro, a tentar evitar o seu desejo, mas ele acaba por me agarrar e aperta-me o
rosto, pressionando os lábios contra os meus. Não me mexo, não lhe vou dar o
prazer de o beijar de volta.
Uma lágrima escorre-me pelo rosto enquanto penso «por favor, que seja só
um beijo; por favor, que não seja tão mau como imagino; por favor, isto não me
pode acontecer». Mas ele continua. Passa para o pescoço, e eu continuo a tentar
desviar-me, sem sucesso.
— Acho melhor não resistires, «Lau». — Ele não tem o direito de me
chamar assim, mas percebo porque o faz. Só quer vingar-se. — É assim que ele
te chama, não é? Podes sempre imaginar que sou o cabrão do Guilherme, aquele
que se fez passar por meu melhor amigo.
— Não quero nada contigo.
— Tens de querer, se não é pior para ti.
— Por favor, não me faças isto!
Ele ignora-me.
— Larga-me! — grito, mas ele rapidamente me tapa a boca com a sua mão.
Sinto o cheiro do seu perfume, One Million. Ironicamente, o que antes era
conforto, agora dá-me náuseas.
Numa última réstia de força, tento dar-lhe uma joelhada, mas estou tão presa
que a minha perna mal levanta. Não consigo fazer mais nada agora, nem uma
joelhada, nem uma cabeçada, absolutamente nada contra a sua força. Os meus
gritos são abafados pela sua mão. Ninguém me vai ouvir.
— Já te disse, tens de querer. É por tudo o que não fizemos quando
estivemos juntos.
Já não são apenas lágrimas que me escorrem pela cara. Eu estou a chorar, a
soluçar enquanto ele me toca. Fecho-me o mais que posso, mas dói. Tudo dói.
Muito. Dói-me no corpo, dói-me na mente, dói-me na alma.
Esperneio, tento soltar-me, mas é inútil. Ele tem mais força que eu. Sempre
que tento gritar, os meus «não» são abafados pelo som da sua mão a tapar-me a
boca. Olho para o lado na esperança de encontrar alguém, mas não há ninguém
por perto, ninguém que me consiga ver, ninguém para me salvar.
Sinto-me a perder as poucas forças que tinha. Sinto-me a ir. Deixo-me levar
entre o medo e a raiva. Desisto. É este o meu destino, mais vale aceitá-lo.
E numa questão de minutos, aquela que estava a ser a melhor noite da minha
vida, passou a ser a pior. E a minha vontade neste momento é juntar-me ao
sangue que jorra pelas minhas pernas e tornar esta a minha última noite de
sempre.
[ Guilherme ]
[ Laura ]
P Custa-me
or favor — disse, ainda sem acreditar que o estava a mandar embora.
–
imenso fazê-lo, afinal é ele o meu maior apoio, o meu porto de
abrigo. Mas o que devo fazer? Não posso deixar que ele me veja neste estado,
com sangue seco nas coxas, máscara de pestanas espalhada por todo o meu rosto
de tanto chorar, e a minha dignidade perdida naquela última bebida, com a
minha alma a fugir-me do corpo em desespero e sem um pingo de amor-próprio
restante.
A culpa é minha. Devia ter vindo de calças — como na maioria das noites
—, não devia ter bebido tanto. Porra, mais valia ter ficado em casa.
Engraçado como uns minutos podem apagar todas as boas memórias que
estava a criar. Engraçado talvez não seja a melhor forma de caracterizar.
Assustador, horrível, desumano.
Desumano.
O que ele fez foi desumano.
Eu não merecia. Ou merecia?
Sinto-me nojenta. Quero tomar banho para retirar todos os vestígios que ele
possa ter deixado em mim. Retirar todo o seu ADN e todas as pequenas células
que entraram em contacto com a minha pele. Quero voltar para Portugal e para
os braços da minha mãe.
Desato a chorar novamente, sem me importar com quem me observava.
— Obrigada! — Acabo por dizer à Diana.
— Ora essa, amiga. O que queres fazer?
— Podemos ir para o apartamento?
— Sim, claro, mas sabes que eles também estarão lá, certo?
— Sim, mas preciso de tomar um banho. — Faz-se um longo silêncio. —
Podes dormir tu comigo esta noite?
— Claro, Laura… o que é que ele te fez? — Aqui estava a pergunta que eu
não queria ouvir, queria evitá-la a todo o custo, mesmo sabendo que era
praticamente impossível.
— Não quero falar sobre isso — digo, na melhor tentativa para deixar o
assunto para trás.
A Diana levanta-me e dá-me um abraço. Dá-me a mão e seguimos em
silêncio até ao apartamento.
Ao chegar ao apartamento, o Gui já lá estava, como era de esperar. Olho para
ele e perco a pouca força que me restava. A verdade é que a coragem que tive
para o mandar embora veio toda da vergonha que sinto, mas contraria a força de
o querer ter comigo, de querer estar nos seus braços — o sítio mais seguro do
mundo. Abraço-o a chorar sem parar.
— Ela quer ir tomar banho — ouço a Diana dizer.
— Vamos, pequena? — Anuo em resposta à sua pergunta.
Dirigimo-nos para a casa de banho, mas quando me tenta despir, retraio-me
automaticamente. Não por achar que ele me fosse fazer o mesmo horror que
acabei de passar, mas por desconhecer como ele vai reagir ao meu corpo depois
de ter sido invadido desta forma.
— Posso?
— Podes virar-te? Eu dispo-me.
— Claro — respira fundo. — Olha, Laura… não sei o que aconteceu, mas
imagino. Talvez até imagine pior do que realmente foi, e só quando te sentires
preparada é que deves falar. Não te quero pressionar a nada, mas queres
apresentar queixa à polícia?
— Não! — digo assertivamente, mas a pergunta apanhou-me de surpresa.
Ainda não tinha pensado bem nisso, embora ache que seja irrelevante.
— Tens a certeza?
— Sim. Não vai valer de nada. Já sabemos como estas coisas funcionam.
— Eu acho mesmo que devias, ele não pode sair impune.
— Ele vai sempre sair impune, com ou sem a minha acusação.
— Ele pode fazer isso a outras! — Esta afirmação dói mais que as anteriores.
Será que eu posso impedir que outras raparigas passem pelo mesmo que eu
passei? Seja como for, não estou preparada para tal.
— Não sei. Espero e acho mesmo que não. Acho que foi vingança.
— O que quer que tenha sido…
— Eu disse que não, OK?
— Desculpa insistir, mas só quero mesmo o teu bem.
— O meu bem agora é isto: tomar banho, ir dormir e amanhã ir para casa e
avançar com a minha vida, OK? — pergunto retoricamente, sem imaginar
quanto tempo teria a minha vida praticamente paralisada por causa de uns
minutos terríveis.
— Desculpa.
Sinto-me mal por ter respondido assim, mas acho que ele entende. Ele não
sabe o que se passou. Não tem noção de que «imagino o pior» é uma mentira
— é sempre pior que isso. Ninguém sabe. Ninguém imagina. Ninguém tem
noção. Só quem passa por isso.
Um dia, li num livro da Colleen Hoover uma frase que me marcou: «Temos
ambos de sofrer as consequências das tuas ações durante o resto das nossas
vidas.»2 Mas não temos. Eu tenho, e os que me amam e se preocupam comigo,
por muito traumatizados que estejam com a imagem que ficaram na cabeça,
sofrem apenas 1% das consequências, não mais.
A ele nada irá acontecer. Para mim, a vida acabou hoje.
2
Isto Acaba Aqui, Colleen Hoover (2016).
36
Vergonha
«Thought I found a way out (found)
But you never go away (never go away)
So I guess I gotta stay now
Oh, I hope some day I’ll make it out of here
Even if it takes all night or a hundred years
Need a place to hide, but I can’t find one near
Wanna feel alive, outside I can’t fight my fear»
Eilish, Billie; Khalid (2020)
[ Laura ]
U nsquarto,
tímidos raios de luz invadem a escuridão que se apoderou do meu
forçando-me a abrir os olhos e a viver esta realidade. Estou deitada
de barriga para cima e, mesmo com a pouca luz que entra no meu quarto,
consigo observar com clareza o azul-marinho com o qual pintei o teto. Não
quero estrelas, nem mais luzes para me acalmar, pois nada conseguirá acalmar-
me.
Não me lembro de muito.
Os «flashes» vão aparecendo na minha cabeça. Eu tento sair. Eu tento gritar.
O Guilherme está a esmurrar o Manuel. A vergonha. A última coisa que me
lembro claramente é de estar a tentar dormir agarrada à Diana. Não sei como,
mas acabei por adormecer.
Sinto que, desde aí, a minha vida foi feita em modo piloto automático.
Lembro-me de pegar na minha mala, de entrar no avião, de pousar os pés em
Portugal — um pé à frente do outro até chegar à minha mãe, que estava tão
feliz por me ver. Lembro-me de forçar um sorriso. Lembro-me de algumas das
poucas palavras que lhe disse. Mas é isso. Cheguei a casa. Fechei-me no quarto.
Tentei escrever e não consegui. Meti-me nos lençóis — que ainda estão
húmidos das lágrimas que derramei durante a tarde, noite e madrugada — e aí
fiquei. Aqui estou. Tenho o coração apertado no peito, a tentar bater
aceleradamente entre as mãos que o estão a esmagar. Mal consigo respirar.
Arquejo enquanto coloco as mãos no peito. É agora. A minha hora chegou — só
que não, tudo o que chegam são mais lágrimas. Cravo as unhas nas pernas para
que pare de doer. Por favor, alguém que ponha um fim a este sofrimento.
Preciso da minha mãe. Talvez ela fosse capaz de me libertar desta dor. Mas
não posso passar a angústia para ela, não lhe posso contar. Aliás, ela deve achar
que estou apenas muito cansada — que outra razão poderia haver para a sua
filha estar fechada no quarto há quase 24 horas, sem comer, sem nada? Não que
ela saiba, pois saiu antes de almoço, mas se ficar aqui muito mais tempo, talvez
ela suspeite. Só que continuo sem fome e sem forças para me erguer.
Volto a abrir o diário.
31 de março
Ontem, ainda consegui escrever a data. Foi a única coisa para a qual tive
forças. E sim, hoje é dia 1 de abril, Dia das Mentiras — e o como eu queria
estar a viver uma mentira neste momento.
1 de abril
Quero morrer. Pronto, está dito. Quero morrer. Como é que é
possível querer viver depois do que me aconteceu?
Mãe… se estiveres a ler isto, não há de ser por bons motivos,
peço imensa desculpa. Adoro-te!
Os meus olhos voltam a encher-se de lágrimas. Será que algum dia este mar
salgado parará de cair sobre o meu rosto? Será que vou ultrapassar isto? Será que
a tristeza sairá do meu corpo?
Deixo estes pensamentos a pairarem no ar enquanto me levanto lentamente,
pé ante pé, para comer. Algo em mim desperta quando consigo finalmente
colocar comida dentro do meu corpo. Eu tenho de fazer algo. Tenho de ganhar
coragem. Quem serei eu se deixar outras mulheres sofrerem nas suas mãos? O
lugar do Manuel é atrás das grades. Tem de ser.
Neste meu ato de coragem, mando mensagem ao Gui:
[ Guilherme ]
A inda tenho as janelas abertas, mas a noite já caiu lá fora. Os meus pais estão
os dois no hospital, no turno da noite. Só voltam amanhã de manhã, se não
fizerem um turno extra. Encontro-me sozinho em casa, como tantas noites da
minha vida nos últimos anos, mas nunca me senti tão só como no último mês.
Aproveito o facto de os meus pais não estarem para beber um copo de whisky
sem ter de esconder. Esta garrafa (várias, na verdade) tem sido a minha
companheira noturna das últimas semanas. Quando voltámos da viagem de
finalistas, adormecia todas as noites a chorar e a rever as imagens daquela noite
fatídica na minha cabeça. Não conseguia parar por nada deste mundo.
Adormecer é dizer muito. Cheguei a passar noites em branco, a sentir o coração
na boca. Até que comprei a primeira garrafa de whisky, que durou apenas dois
dias. Precisava de esquecer o que aconteceu e de afogar os meus sentimentos em
álcool. Assim conseguia distrair-me e eventualmente acabava por adormecer.
Passei a dormir cinco horas por noite. O suficiente para parecer normal, mas não
o suficiente para me manter acordado nas aulas, não o suficiente para sorrir
durante o dia quando não estava com ela, não o suficiente para manter as
minhas notas (sinceramente, nem quero pensar nisso agora).
Sinto-me culpado por estar assim, por cada lágrima que derramei, pelas
imagens que revivi, pois com certeza a Laura está bem pior que eu. Ela sentiu,
ela viveu aquilo. Os horrores dela devem ser bem piores que os meus. Não
acredito que de vez em quando ainda dou por mim a pensar «Oh, meu Deus, as
coisas que eu vi», quando ela é a verdadeira vítima, mas não consigo tirar
aquela imagem da minha cabeça. Não sem whisky. Será que alguma vez vou
conseguir?
Por muito que tente, não consigo não sentir pena dela. Mais importante: não
consigo não sentir raiva dele. Imagino-me a partir-lhe a cara toda. A não parar
quando ela me pediu — tantas são as vezes que eu desejo ter ignorado a vontade
dela. Imagino-me várias vezes a matá-lo, a não me controlar, a vingar-me por
ela.
Não aguento que algo deste calibre tenha acontecido com ela. Com a minha
pessoa. Eu sei que, infelizmente, acontece a muitas mulheres. Desde que
voltámos que não consigo parar de pesquisar tudo e mais alguma coisa sobre
violação. Leis, associações, projetos de lei, o que defendem os partidos, o que
está a ser trabalhado no Parlamento, dados, tudo. Os últimos dados que li sobre
o assunto diziam que, em 2022, registaram-se em Portugal mais de 500
inquéritos por crime de violação, o maior número dos últimos 10 anos. E em
2023, a APAV3 registou quase 1800 crimes sexuais contra crianças e jovens
(que, sim, incluem muito mais que violação, mas mostra tudo o que está errado
com o mundo em que vivemos). Eu tenho noção de que, nalguma parte do
mundo, todos os dias alguém sofre nas mãos de um predador sexual. Mas nunca
pensei que acontecesse a alguém que conheço — e muito menos à mulher que
mais amo.
Sinto-me culpado porque a deixei sozinha. Devia ter estado sempre com ela.
Se assim fosse, isto não teria acontecido. Claro que, pensando racionalmente e
olhando para trás, sei que não havia forma de o evitar. Como me iria lembrar de
que algo assim pudesse acontecer depois de ela simplesmente ir à casa de
banho? Como poderia pensar que numa viagem de finalistas com tantos
monitores, e num sítio onde supostamente nos devíamos sentir seguros, isso iria
acontecer? Como era suposto pensar que uma pessoa que já foi tão próxima dos
dois, por muito que tivesse os seus grandes defeitos, faria algo assim? Nunca na
vida me lembraria disso. Mas ainda assim culpo-me. Devia ter estado lá para
ela. Se estivesse, aposto que o Manuel nem teria tentado nada. Não a devia ter
largado por um segundo. Nunca mais a quero largar — só que ela mal me deixa
agarrá-la. Se calhar ela até quer que eu a largue, mas assim não tenho como a
proteger de todos os males do mundo.
Só queria que ele pagasse por tudo o que fez. Talvez se a violação fosse um
crime público, eu pudesse denunciar — mas nem sei como funcionaria, tendo
em conta que aconteceu fora do país. Nem sei se deveria fazê-lo sem a
autorização da Laura. Mas a única coisa que eu desejo é vê-lo atrás das grades
(irracionalmente, desejo pior que isso, como já percebemos).
Voltam-me a escorrer lágrimas pelo rosto. Olho para a mesa de cabeceira
onde tenho a garrafa de whisky a meio e o copo por encher. Está na hora.
Já nem sempre preciso do whisky para adormecer (comprei esta garrafa há
mais de uma semana), mas hoje não é um desses dias. Amanhã é o baile de
finalistas, e convencemos a Laura de que lhe faria bem ir e divertir-se connosco.
Mas sei que não seremos os únicos na quinta. O violador dela também estará lá,
e eu irei precisar de toda a minha força de vontade para não lhe fazer nada.
Amanhã era suposto ser um dia feliz, um dos mais felizes do nosso ensino
secundário. Ia sorrir ao vê-la radiante no seu vestido; tirar uma foto para mais
tarde mostrarmos aos nossos filhos, que se iriam derreter com a nossa história de
amor, a qual contaríamos todos os anos no Natal; dançar com ela ao som de
«Lover»4 e dizer-lhe que mal posso esperar que seja a nossa vez de estarmos
perante os nossos amigos a dizer o quanto nos amamos, com ela vestida de
branco; beijá-la sem medo de mostrar a todos o quanto a amo; sentir-me
abençoado na noite que marca o fim de uma etapa e o início de uma que estou
ansioso por começar ao seu lado. Só que tenho a certeza de que já não vai ser
assim. Irei sorrir ao vê-la de vestido, como sorrio sempre que a vejo, mas ela
estará tudo menos feliz; tiraremos uma foto para recordação, mas não sei para
quem se destinará sem ser para a nossa própria memória, para a ver quando já
não for minha; dançarei com ela, se ela assim desejar, e apesar de me apetecer
dizer-lhe que casava com ela já amanhã, não o farei, pois desconfio que o
amanhã dela é mais sombrio que o meu; irei dar-lhe todos os beijos que ela
permitir, mas a medo que algo pior aconteça se o Manuel decidir continuar a
sua vingança; não estarei a ansiar pela próxima etapa, que algo me diz que não
se realizará ao seu lado.
Tenho medo do amanhã. Tenho medo de que seja o fim dos melhores meses
da minha vida. Só queria fazê-la feliz até ao seu último suspiro — e que o seu
último dia fosse, pelo menos, depois dos 80. Já não sei nada. Acho que já não a
faço feliz (e duvido que alguém consiga voltar a fazê-lo).
Quando estamos juntos, nenhum de nós sabe bem o que fazer. No início,
tinha medo de me aproximar e de lhe tocar. Parecia que estava a fazer o oposto
do que o meu corpo me pedia. No início, não queria sequer dar-me a mão, e eu
compreendia. Tal como dois polos magnéticos iguais se repelem, era assim que
funcionávamos. Agora, ela tolera melhor o meu toque, o que me deixa uma
réstia de esperança no coração, mas nada é como antes. Não deixei de tentar dar-
lhe a mão, e hoje é das poucas coisas que parece normal — mas não é, eu sinto a
tensão em cada um dos mais de 30 músculos da sua mão. Há umas semanas,
não me beijava e os abraços eram raros. Agora, os abraços tornaram-se mais
frequentes, permitindo-me matar saudades do cheiro dos seus cabelos, e os
beijos, que antes eram inexistentes, passaram a ser raros. E ainda assim eu amo-
a tanto.
Desde o início que tinha medo de dar um passo em falso, mas continuei a
tentar. Eu tentei mais, a sério que tentei. Até que deixei de o fazer. Era capaz de
esperar anos pela Laura que sempre conheci. Sou capaz de esperar, mas não sei se
consigo lutar sozinho. Quero acreditar que sim, que faria qualquer coisa por ela,
que dava 200%, mas não sei.
Não sei como se ama alguém que não se ama a si, que não ama a vida, mas eu
continuo a amá-la.
Acho que ela tem medo da vida. Eu tenho medo do que a vida vai fazer dela.
3 Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) é uma organização sem fins lucrativos e de voluntariado que apoia,
de forma individualizada, qualificada e humanizada, vítimas de crimes através da prestação de serviços gratuitos e
confidenciais.
4
Música da Taylor Swift que faz referência a um casamento.
38
A culpa - parte II
«(...) while dancing
Left you out there standing
Your mom’s ring in your pocket
My picture in your wallet
Your heart was glass, I dropped it»
Swift, Taylor (2020)
[ Laura ]
N ãoparaestou viva. Ou melhor, estou, mas não me sinto viva. A minha cabeça dá
os estudos e para pouco mais. Evito toda a gente, exceto no único sítio
onde é impossível fazê-lo. Não me apetece ir ao café, e já fingi umas quantas
doenças para dar todas as faltas a que tenho direito no ano nos últimos tempos.
Com a quantidade de faltas que dou, devem achar que estou mesmo doente.
Talvez a minha mãe pense o mesmo. Até tenho medo de que ela pense que é
cancro. Disse que queria fazer uns exames médicos por eu estar sempre doente.
Talvez tenha visto os cabelos que ficam no ralo depois do banho e tenha juntado
um mais um. «Mas está tudo bem, mãe.» É «só» ansiedade. E culpa. E
vergonha. «Está tudo bem, mãe.» Penso muitas vezes como seria contar-lhe,
mas prefiro dizer que está tudo bem, prefiro mentir.
Repito muitas vezes — numa tentativa sem sucesso para me enganar — que
vai ficar tudo bem. Mas não sei quando é que vou chegar lá. Certo é que nos
dias que correm prefiro olhar diretamente para o sol a olhar-me ao espelho, pois
não me reconheço. Dava tudo para me sentir eu novamente. O cabelo vai caindo
como se o outono já estivesse instalado lá fora, mas estão 30 graus no exterior e
eu nem uns calções consigo usar.
Já estamos quase no final de maio. Não dei pelo tempo a passar, mesmo
contando todos os minutos, de todos os dias, de todas as semanas, na esperança
de voltar a sentir o tempo. Toda a gente sabe que o tempo passa mais
rapidamente quando estamos felizes. Toda a gente sabe que demora a passar
quando a tristeza nos bate à porta. Toda a gente sabe que o tempo acaba quando
partimos deste mundo. Mas e quando estamos semivivos? Quando não estamos
nem cá nem lá? Nestas situações, o tempo é que passa por nós e ninguém nos
avisa. Ninguém nos diz que somos atropelados pelos ponteiros do relógio a cada
segundo que passa sem conseguirmos recuperar a nossa vida.
O tempo foi particularmente cruel nos últimos sete dias, que tinham tudo
para ser os melhores dias da minha vida a seguir à viagem de finalistas (ou
talvez ainda melhores), mas tal como uma só ação me estragou uma semana
inteira, continuou a arruinar-me dia após dia, e esta semana não foi exceção. Era
suposto ter ido ver a Taylor Swift no sábado com a Diana (e ainda por cima ela
cantou as minhas músicas preferidas na parte acústica do concerto, quando
canta as músicas surpresa). Sexta e sábado foram os dois primeiros concertos
dela em Portugal, e nós ficámos horas a tentar comprar bilhetes no verão
passado. Contudo, é claro que não estava, nem estou, mentalmente estável para
ir a um concerto. Por muito que gritar a «All Too Well» ou a «Tolerate It»5
fosse como terapia grátis, não era justo eu estragar a noite da Diana.
Felizmente, consegui vender o meu bilhete e recuperar os 230 euros que
paguei. Mas vou-me martirizar para sempre se ela nunca mais voltar a Portugal.
Rio-me ao pensar nisto. Nem sei se estarei viva amanhã, quanto mais pensar em
ver algum artista ao vivo.
Hoje é o segundo dia da semana que era suposto ser perfeito. É o dia do baile
de finalistas, o dia que uma pequena parte de mim ansiou durante três anos, o
dia que tanto desejei nos últimos meses viver ao lado do Guilherme. Vou na
mesma, porque finjo estar tudo bem quando na realidade nada está. O Gui sabe
que não está, ele conhece-me, mas disse que me faria bem divertir-me com os
meus amigos. Com os meus amigos e com o criminoso que me usurpou a
vontade de viver, pois ele também estará lá a divertir-se como se não tivesse
arrancado um pedaço do meu ser.
Olho para mim no espelho de corpo inteiro do roupeiro para analisar ao
pormenor o meu look. Não sei quem é esta rapariga, mas com certeza não sou
eu. Reviro os olhos, pois apesar de nada em mim exclamar felicidade, quem me
vir por fora talvez ache que sou apenas uma rapariga normal a ir a uma festa
com os amigos. Talvez consiga fingir, mas eu sei que esta não sou eu. Aquela
rapariga no espelho não é a Laura que foi violada. Aquela rapariga não parece
que já pensou em morrer de vinte formas diferentes nas últimas semanas.
Contra a vontade da minha mãe, comprei um vestido preto — a cor perfeita
para combinar com o meu estado de espírito. Depois da intensa pesquisa no
Google de «como disfarçar falhas no cabelo», lá arranjei uma solução: puxei o
cabelo para trás, para esconder as falhas e, a partir daí, fiz uma trança.
Felizmente, o vestido esconde o que eu não quero que ninguém veja. Todas as
noites cravo as unhas nas minhas pernas, é a única forma que tenho de
conseguir sentir algo. Dói menos do que não fazer nada. Na maioria das vezes,
as unhas são o suficiente, às vezes até deito um pouco de sangue, mas noutros
dias não chega. Se não saísse de casa hoje, talvez fosse um desses dias. Subo o
vestido e olho para a marca mais recente. Passo a minha mão por cima. Como
sou capaz de fazer isto a mim mesma? Se não tenho culpa do resto, tenho culpa
disto. Não sou boa para mim. Não consigo ser.
Suspiro. Tenho de reverter as lágrimas que começam a surgir nos meus olhos,
pois esforcei-me um pouco mais do que o normal na maquilhagem (face aos
últimos tempos, muito mais). Estou bem, talvez se não tivesse uma nuvem
negra na minha cabeça, pudesse admitir que até estou bonitinha, mas não tão
bonita como estaria se fosse a Francisca a tratar do assunto. Ainda assim,
continuo a achar-me irreconhecível, não por causa da maquilhagem, mas devido
ao espetáculo em volta de algo que não sinto. Não passo de uma personagem
criada para o dia, para agradar aqueles que o meu coração congelado ainda não
expulsou.
Olho-me ao espelho novamente. Continuo sem me reconhecer.
Eu quero tentar, quero mesmo, quero mesmo ser a pessoa que estou a fingir
ser hoje. Quero divertir-me, rir e chorar de alegria, até não me importava de
sentir tristeza. Só queria sentir alguma coisa. Já não tenho nada dentro de mim,
exceto uma dura pedra de gelo que me vai dizendo para continuar.
Ouço a campainha tocar. Sei que é o Gui. Dirijo-me à porta e dou-lhe um
beijo rápido nos lábios quentes que em tempos tanto me confortaram. Desde
que voltámos de Ibiza, demorei um mês a conseguir beijá-lo novamente — não
sei se é pouco tempo para o que me aconteceu, não fui pesquisar, e não conheço
ninguém que tenha passado pelo mesmo, mas foi o tempo de que precisei para
me sentir confortável. Ele entendeu, claro, pois é um homem perfeito, mas o
que ele não percebe é que eu era fisicamente incapaz de o fazer, por muito que o
quisesse beijar logo na semana seguinte. O pior é que, desde então, a nossa
relação não passa disso. Um beijo ocasional. Dar as mãos de vez em quando.
Outras vezes ele toca-me, com a inocência de quem tenta esquecer o que se
passou, e o meu corpo ainda se retrai — que ridículo é eu retrair-me da única
pessoa que tanto bem me faz. Ainda vamos ao café, mas muitas vezes apenas
fico lá cinco minutos e arranjo uma desculpa para ir para casa agarrar-me à
minha música e aos meus livros.
Se por acaso vir o Manuel dentro do café, eu não entro; nos corredores da
escola, volto para trás; na rua, mudo de direção. E o Guilherme vai-me
abraçando, sempre que eu permito, nestes pedacinhos de tempo em que o
pânico me assola.
E já nem o vólei tenho para me consolar. Quando voltámos, pedi desculpa ao
treinador, mas disse-lhe que não conseguia terminar a época. Ele tentou
convencer-me, mas desistiu no momento em que eu supliquei «por favor, não
me peça isso» a um segundo de desatar a chorar. Não sabe o que aconteceu, não
me perguntou, mas acho que percebeu que era grave — afinal, nunca desistiria
do vólei se assim não fosse.
Enquanto o Gui fala com a minha mãe sobre quão linda estou, não posso
deixar de analisar cada pormenor do seu rosto, a maneira como gesticula, a
maneira como fala, o sorriso que esboça quando olha para mim. Ele tem sido o
melhor namorado que eu alguma vez podia querer. Só não queria que a sua
namorada fosse alguém com uma cicatriz tão grande como a minha.
Um dia, ele fez mais do que tentar beijar-me. Quando fui ter com ele, disse
que tinha uma surpresa para mim. Tapou-me os olhos e levou-me até ao seu
quarto — um caminho que eu já conseguia fazer de olhos fechados. Quando
abri os olhos, havia um cenário digno de filme. Ele tinha montado uma tenda,
com montes de doces, computador aberto na Netflix e rosas espalhadas pela
zona onde ficámos deitados. Havia uma réstia de esperança de que as coisas
poderiam avançar. Sei que não fez por mal ou para me pressionar. Mas nada
poderia avançar. Não naquela altura, não agora e, quem sabe, talvez nunca.
Chorei abraçada a ele, enquanto lhe pedia desculpa. Pedi-lhe desculpa por não
conseguir, pedi-lhe desculpa por amá-lo, pedi-lhe desculpa por ele me amar.
Afinal, a culpa é minha. Se ele não namorasse comigo, não estaria nesta
situação. Se eu não tivesse começado a namorar com o Manel, ninguém estaria
nesta situação. Se eu não me tivesse aproximado do Gui, talvez o Manel não
tivesse nada para se vingar. Se eu não existisse, talvez levasse a dor de todos
comigo para o céu.
Muito resumidamente, a minha vida agora é esta: casa, escola,
ocasionalmente o Gui durante um curto período, fechada no meu quarto até ser
hora de confrontar a minha mãe e fingir que está tudo bem.
Já vi imensos filmes assim e nenhum acaba bem. As probabilidades não estão
a meu favor.
— Terra chama Laura — ouço a minha mãe dizer.
— Sim?
— Fotos?
— Ah, sim, claro.
A minha mãe não tem culpa. Aliás, no meio de tudo o que aconteceu, se
alguém não tem culpa é ela. Mas sofre as consequências na mesma. Agora tem
uma filha distante e sem vontade de viver e nem faz ideia, ou talvez saiba, mas
não quer intrometer-se. Ainda perguntou se estava tudo bem, mais do que uma
vez até, mas eu digo sempre que sim. Ela não sabe o que aconteceu, e no que
depender de mim nunca saberá. Como é que lhe iria contar? Como é que a ia
olhar nos olhos e dizer que a sua preciosa menina foi abusada sexualmente?
Como é que lhe ia dizer que deixou tantas vezes entrar na nossa casa um
violador? Como?
É melhor não lhe dizer nada. Ela assim está protegida.
Depois das fotos, está na hora de seguir caminho. Os pais do Guilherme
arranjaram tempo para nos levarem no seu Tesla de cinco anos — pergunto-me
o que diriam os pais do Manuel sobre ter um carro com «tanto» tempo. Nem
acredito que estou a pensar nisto. Depois de tudo o que ele me fez, ainda me
ocorrem estes pensamentos que deveriam ter terminado no momento em que a
nossa relação acabou.
Olho de relance para o Guilherme, que sorri quando olha para mim. Sorrio
de volta, mesmo não estando feliz. Ele está, dentro dos possíveis. Vai ao baile
com a rapariga que ama, com o futuro todo pela frente e uma relação que pensa
ser para a vida. Eu tenho as minhas dúvidas, pois já nem sei o que é a vida.
Ainda nem lhe disse que me vou candidatar a Coimbra (na verdade, nem sei se
vou chegar a fazê-lo ou se vou parar por um ano). Ele vai ficar por cá, eu sei, é o
melhor para ele, e não lhe posso retirar isso. Não posso impedir que ele viva a
sua vida por mim, uma morta-viva.
Acho que não são apenas dúvidas. Creio não estar a ser completamente
sincera comigo mesma. Há semanas que sei o que aí vem. Os nossos amigos vão
compreender, apoiá-lo e estar do seu lado, mas sem me deixar cair. Eu sei disso,
pois todos viram o que me aconteceu, todos têm pena. Mas o resto das pessoas
não sabe. Já consigo ouvir a conversa nos corredores na minha cabeça: «Daria
uma bela noiva um dia. Que pena ser tão maluquinha. Por algum motivo, ela e
o Manel também tinham acabado. Só pode ser culpa dela.» E é. Ou então vão
dizer que o Gui foi apenas a minha relação da «ressaca», mal eles sabem que
nunca amei tanto alguém como a ele. E ainda amo. Mas a culpa não deixa de ser
minha. Eu é que sou o problema.
Perdida nos meus pensamentos, nem me apercebi que rapidamente chegámos
à quinta onde se vai realizar o baile. É linda — até neste estado consigo
reconhecer a sua beleza. Tem uma vinha e vista para a serra. Cá fora, estão
montadas luzes de arraial e, lá dentro, parece um salão retirado de um conto de
fadas. Todos estão felizes, menos eu, que já avistei quem não queria e agora não
consigo parar de pensar nisso. Será que vou sofrer novamente às suas mãos esta
noite? Retraio-me. Vou sofrer, sim. Mas por minha culpa, não dele.
Comi. Bebi apenas refrigerantes — não vá o diabo tecê-las. Até me ri.
Dancei com as minhas amigas lindas até me doerem os pés. E também dancei
abraçada ao Guilherme. Tentei durante meses «fingir até ser real» no que diz
respeito à minha felicidade, mas nunca tentei tanto como nesta noite. Porém,
tudo está errado na mesma.
Enquanto toca a «Only Love Can Hurt Like This», da Paloma Faith, ainda
me encontro nos braços do Gui, mas tenho de dar o passo que tanto tenho
temido nos últimos meses.
— Podemos falar? — sussurro ao seu ouvido.
— Claro, vamos lá fora.
O sol já se pôs. Somos só nós e as luzes da quinta — e das estrelas. Afastamo-
nos um pouco para ninguém nos ouvir e, assim que paramos, o Gui tenta
beijar-me, mas eu desvio a cabeça. Não sei exatamente onde esta conversa nos
vai levar, mas sei que tenho de a ter.
— Ouve, Gui.
— Não, ouve-me tu, por favor — calo-me, até prefiro não ser eu a começar
esta conversa, apesar de saber o que aí vem. Ele vai tentar mudar o final, mas já
está escrito na minha cabeça. — Sei que provavelmente vens aqui dizer que as
coisas não estão bem, que não estás bem. — Acertou. — Eu percebo tudo isso,
a sério, eu só quero que saibas que estou aqui à espera para quando estiver.
— E se nunca ficar bem?
— Vai ficar.
— O problema é esse. Não sabes. Ninguém sabe.
— Lau…
Cada palavra que ele recita parece-se com uma grande pedra a desbravar
caminho por entre um lago, um lago negro, sem fim. É assim que me sinto. E
tal como uma pedra entra no lago há água que salta, também saltaram palavras
da minha boca, que não consegui controlar (e que não tenho a certeza que
queria dizer):
— O que pensas de mim? Quem pensas que eu sou? Quem quer que fosse,
essa rapariga está morta, ou pelo menos está a morrer muito lentamente. Não
consegues amar alguém que está a morrer! — Falo cada vez mais alto. — Eu
não me sinto bem, acertaste. Eu não estou bem. Aquele cabrão tirou-me a vida,
percebes? Cada vez que me beijas, tenho uma luta interior entre querer mais e
não querer nada, entre ceder ao meu amor por ti ou ao medo do toque
masculino. Passo a vida a imaginar a cena que me destruiu a alma. Como é
suposto estar numa relação assim? Sem toque, sem sexo, porra!
— Eu ainda estou aqui, não estou?
— Mas eu não te posso pedir que fiques.
— Eu espero.
— Eu sei que sim, mas não te posso pedir isso...
E contra tudo o que quero e contra tudo o que sei que é correto, beijo-o.
5 Duas músicas que fizeram parte da setlist da The Eras Tour, da Taylor Swift, que passou por Portugal a 24 e 25 de
maio de 2024.
39
Despedida
«Can you hear me screaming?
Please don’t leave me
Hold on, I still want you
Come back, I still need you
Let me take your hand, I’ll make it right
I swear to love you all my life
Hold on, I still need you»
Overstreet, Chord (2017)
[ Guilherme ]
N ãoqueé elapreciso ser muito inteligente para saber o que aí vem. Eu sei sobre o
quer falar. Sei o que me resta, mas não quero acreditar. Amo esta
rapariga com todas as forças que tenho, com todas as células do meu corpo, com
toda a minha alma. Se pudesse voltar atrás no tempo, nem sequer ia de viagem,
ficava com ela em Portugal e tudo era perfeito. Mas, infelizmente, não tenho
uma máquina do tempo.
Vou tentar. Vou fazer de tudo para a ter comigo até ao último ar que entre
pelos meus pulmões.
— Ouve, Gui.
— Não, ouve-me tu, por favor. Sei que provavelmente vens aqui dizer que as
coisas não estão bem, que não estás bem. Eu percebo tudo isso, a sério, eu só
quero que saibas que estou aqui à espera para quando estiver.
— E se nunca ficar bem? — sinto a insegurança em cada letra que lhe sai da
boca.
— Vai ficar.
— O problema é esse. Não sabes. Ninguém sabe.
— Lau…
— O que pensas de mim? Quem pensas que eu sou? Quem quer que fosse,
essa rapariga está morta ou pelo menos está a morrer muito lentamente. Não
consegues amar alguém que está a morrer! — Fala cada vez mais alto. — Eu
não me sinto bem, acertaste. Eu não estou bem. Aquele cabrão tirou-me a vida,
percebes? Cada vez que me beijas, tenho uma luta interior entre querer mais e
não querer nada, entre ceder ao meu amor por ti ou ao medo do toque
masculino. Passo a vida a imaginar a cena que me destruiu a alma. Como é
suposto estar numa relação assim? Sem toque, sem sexo, porra! — Não está a
correr como quero.
— Eu ainda estou aqui, não estou?
— Mas eu não te posso pedir que fiques.
— Eu espero — digo, já a transpirar o desespero que sinto.
— Eu sei que sim, mas não te posso pedir isso... — E contra tudo o que eu
esperava, a Laura beija-me, e eu deixo-me ir, desfrutando da despedida.
— Desculpa, não devia ter feito isto.
— Lau, por favor. Não faças isto, não me deixes. — Tento, uma última vez,
já a saborear o sal que me escorre devagar pelo rosto.
— Achava mesmo que um beijo teu me poderia salvar de todos os males.
Que continuaria a minha vida como se aquilo que aconteceu fosse apenas uma
pedra no caminho. Mas não consigo. — Ela faz uma pausa e olha para mim. —
Sabes, concordo muito com uma frase que li já não me lembro onde. Dizia algo
como «quando as coisas começam mal, estão destinadas a falhar».
— Não digas isso.
— É verdade! A nossa relação começou de uma traição, tinha tudo para
correr mal.
— Não foi a nossa relação que te deixou mal. A única coisa errada é o facto
daquela pessoa existir. — Paro durante uns segundos. — Eu continuo a precisar
de ti. Eu amo-te!
— Eu também te amo. Provavelmente, vou amar-te toda a minha vida. —
Sei que não me mente, sei que o sente, mas ainda assim sei perfeitamente que
chegou ao fim, e ela confirma-o uns segundos depois. — Tens de parar de me
amar!
— Sabes que isso é impossível, Laura.
— Não é o nosso tempo.
— Talvez mais tarde — digo, e apesar de ser tristeza que me escorre dos
olhos, o sabor que me chega aos lábios é de esperança.
— Talvez.
E beijamo-nos novamente. O último beijo.
— Por favor, não te esqueças de mim — digo, enquanto a sua mão me escapa
entre os dedos.
Viro-lhe costas, com todas as forças que me restam. Lá dentro, a música que
toca tem como letra «You were more than just a short time / I’ve got a lot to live
without /I’m never gonna meet / What should’ve been you»6.
Agora sim, a despedida.
[ Laura ]
Epílogo
«Nunca vamos ser só amigos
Falar de coisas banais
Fingir que somos dois estranhos
Que um dia se amaram demais
Vamos ser um do outro
Metades de um todo
Que pedem sempre mais»
De Deus, Carolina (2023)
E stou de volta à capital, sentada no meu quarto a reler os meus diários. Deixei
de escrever quando marquei a primeira consulta com a doutora Madalena.
Ela aconselhou-me a continuar, mas parecia uma rotina associada à minha vida
antiga e eu queria começar uma nova.
Terminei no final de junho os exames e sou oficialmente licenciada em
Serviço Social, três anos depois. Não estou pronta para entrar já no mercado de
trabalho, por isso já me candidatei ao mestrado na minha área. Desta vez, para
ficar por cá, perto da minha mãe, que, até ao dia de hoje, não sabe de nada do
que me aconteceu.
Não sei quando lhe vou contar. Quero fazê-lo. A dor tornou-se mais
suportável. Mas estou à espera do momento perfeito — se é que este alguma vez
irá chegar.
Durante o terceiro ano do curso, passei a ir à terapia apenas uma vez por mês.
A doutora sabe que vim para Lisboa de vez e recomendou-me uns colegas para o
caso de eu querer continuar a fazer terapia aqui, mas não quero. Não sei se
alguma vez vou ficar completamente «curada» — muito provavelmente, não
—, mas sinto-me bem o suficiente para não ter de ir ao psicólogo durante
algum tempo. E acho que, se sentir essa necessidade, prefiro marcar uma
consulta por videochamada com ela.
A minha vida no verão não tem sido nada de especial. No primeiro verão,
quando terminei o primeiro ano do curso, fiquei fechada em casa os dois meses e
meio de férias, agarrada aos meus livros e à minha música. No ano passado, saí
pela primeira vez — duas vezes — para me encontrar com a Diana e tomar café.
Era para ter ido uma terceira vez encontrar-me com ela no café, mesmo antes
de voltar a Coimbra, mas o Manuel impediu-me. Sim, ele. Quer dizer, não ele
diretamente, mas ele. Estava a caminho do café, a ansiar por estar com a minha
amiga e para comer um croissant recheado com doce de leite, quando vi um Tesla
estacionado numa praceta que dá para uma zona de lojas (caras, diga-se). Eu não
costumo bloquear com todos os Tesla que vejo, mas reconheci a matrícula. O
meu corpo bloqueou. Não me consegui mexer. Queria sair dali, voltar para trás,
não queria que ele me visse. Mas parte de mim queria — e foi essa parte que
me congelou as pernas. Afinal, uma parte de mim esperava um sinal de
redenção, um pedido de desculpas até, mesmo que não apagasse o que
aconteceu. Claro que não foi isso que aconteceu. Quando o vi sair da loja, o meu
coração saltou um batimento (ou dois, ou três). Ele olhou diretamente para
mim. Não desviou o olhar. Colocou os seus óculos de sol e consegui ver a ponta
dos seus lábios a esboçar um pequeno sorriso maldoso. Entrou no carro e foi
embora. Não me disse nada. Nada. Não que eu estivesse à espera de outra coisa,
mas queria — e sei o quanto precisava de um pedido de desculpas. Acho que
vai ser sempre um vazio que vai ficar e com o qual tenho de aprender a viver.
Ele continua a viver a sua vida como se nada fosse. Em parte, talvez tenha
culpa disso (sim, ainda batalho muitas vezes contra a minha cabeça e contra este
sentimento de culpa). Nunca o denunciei. Nunca consegui passar da porta da
polícia. Talvez um dia consiga, mas sei que já vai tarde. Só espero, do fundo do
meu coração, que tenha sido apenas um ato de vingança e que mais nenhuma
mulher sofra nas suas mãos como eu sofri. Infelizmente, não acredito muito
nisto.
Assim que o Tesla desaparece na minha linha de horizonte, envio uma
mensagem à Diana a pedir desculpa por não conseguir ir. Não inventei uma
desculpa. Disse-lhe mesmo o que aconteceu e o quanto me afetou — um
progresso que a doutora Madalena adorou quando, na nossa primeira consulta
após voltar a Coimbra, lhe contei tudo o que aconteceu nesse episódio.
Agora estou de volta e ligeiramente mais resolvida — se é que alguma vez
estarei inteiramente resolvida. Tenho muitas saudades da Diana, e dos outros
também. Mesmo que sejam uma recordação daquilo por que passei, também são
uma recordação de que tenho sempre alguém para mim e que não estou
sozinha. Mereciam mais de mim, mas estava incapaz de lhes dar. Por isso, este
verão decidi que, além de ler muitos livros, tenho de sair mais, pelo menos,
mais do que duas vezes. E tentar ver mais pessoas além da Diana.
A pensar no diabo, o telemóvel vibra e vejo que a notificação que aparece tem
o seu nome.
Page List
1. 1
2. 2
3. 3
4. 10
5. 11
6. 12
7. 13
8. 14
9. 15
10. 16
11. 17
12. 18
13. 19
14. 20
15. 21
16. 22
17. 23
18. 24
19. 25
20. 26
21. 27
22. 28
23. 29
24. 30
25. 31
26. 32
27. 33
28. 34
29. 35
30. 36
31. 37
32. 38
33. 39
34. 40
35. 41
36. 42
37. 43
38. 44
39. 45
40. 46
41. 47
42. 48
43. 49
44. 50
45. 51
46. 52
47. 53
48. 54
49. 55
50. 56
51. 57
52. 58
53. 59
54. 60
55. 61
56. 62
57. 63
58. 64
59. 65
60. 66
61. 67
62. 68
63. 69
64. 70
65. 71
66. 72
67. 73
68. 74
69. 75
70. 76
71. 77
72. 78
73. 79
74. 80
75. 81
76. 82
77. 83
78. 84
79. 85
80. 86
81. 87
82. 88
83. 89
84. 90
85. 91
86. 92
87. 93
88. 94
89. 95
90. 96
91. 97
92. 98
93. 99
94. 100
95. 101
96. 102
97. 103
98. 104
99. 105
100. 106
101. 107
102. 108
103. 109
104. 110
105. 111
106. 112
107. 113
108. 114
109. 115
110. 116
111. 117
112. 118
113. 119
114. 120
115. 121
116. 122
117. 123
118. 124
119. 125
120. 126
121. 127
122. 128
123. 129
124. 130
125. 131
126. 132
127. 133
128. 134
129. 135
130. 136
131. 137
132. 138
133. 139
134. 140
135. 141
136. 142
137. 143
138. 144
139. 145
140. 146
141. 147
142. 148
143. 149
144. 150
145. 151
146. 152
147. 153
148. 154
149. 155
150. 156
151. 157
152. 158
153. 159
154. 160
155. 161
156. 162
157. 163
158. 164
159. 165
160. 166
161. 167
162. 168
163. 169
164. 170
165. 171
166. 172
167. 173
168. 174
169. 175
170. 176
171. 177
172. 178
173. 179
174. 180
175. 181
176. 182
177. 183
178. 184
179. 185
180. 186
181. 187
182. 188
183. 189
184. 190
185. 191
186. 192
187. 193
188. 194
189. 195
190. 196
191. 197
192. 198
193. 199
194. 200
195. 201
196. 202
197. 203
198. 204
199. 205
200. 206
201. 207
202. 208
203. 209
204. 210
205. 211
206. 212
207. 213
208. 214
209. 215
210. 216
211. 217
212. 218
213. 219
214. 220
215. 221
216. 222
217. 223
218. 224
219. 225
220. 226
221. 227
222. 228
223. 229
224. 230
225. 231
226. 232
227. 233
228. 234
229. 235
230. 236
231. 237
232. 238
233. 239
234. 240
235. 241
236. 242
237. 243
238. 244
239. 245
240. 246
241. 247
242. 248
243. 249
244. 250
245. 251
246. 252
247. 253
248. 254
249. 255
250. 256