0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações10 páginas

Análise de Porco Rosso: Miyazaki e a Animação

Porco Rosso, dirigido por Hayao Miyazaki, é uma animação que conta a história de Marco Pagot, um piloto que se transforma em um porco e vive na Itália pré-fascista, enfrentando piratas aéreos enquanto lida com questões pessoais e sociais da época. A obra destaca o primor técnico da animação, a riqueza de detalhes históricos e a complexidade das relações humanas, especialmente entre Marco e Gina, além de apresentar uma crítica sutil ao fascismo. A narrativa é marcada pela sensibilidade de Miyazaki em criar personagens cativantes e reflexões sobre a condição humana.

Enviado por

crimson.mark
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato RTF, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
4 visualizações10 páginas

Análise de Porco Rosso: Miyazaki e a Animação

Porco Rosso, dirigido por Hayao Miyazaki, é uma animação que conta a história de Marco Pagot, um piloto que se transforma em um porco e vive na Itália pré-fascista, enfrentando piratas aéreos enquanto lida com questões pessoais e sociais da época. A obra destaca o primor técnico da animação, a riqueza de detalhes históricos e a complexidade das relações humanas, especialmente entre Marco e Gina, além de apresentar uma crítica sutil ao fascismo. A narrativa é marcada pela sensibilidade de Miyazaki em criar personagens cativantes e reflexões sobre a condição humana.

Enviado por

crimson.mark
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato RTF, PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

PORCO ROSSO (Kurenai no Buta — Japão — 1992).

Direção de Hayao Miyazaki. 93 minutos.

SOBRE O DIRETOR

Não exageramos ao considerarmos Hayao Miyazaki um dos maiores roteiristas e


diretores da história da animação. As personagens que ele cria são cativantes e muito
bem trabalhadas, tanto em termos de desenho (o character design) quanto ao caráter
psicológico — o que Miyazaki tem maestria em desenvolver, especialmente se
considerarmos que grande parte das suas principais personagens são crianças ou
adolescentes que enfrentam perdas e desafios, amadurecem ou transformam as situações
em seu redor. Seus roteiros são permeados de fantasia, mas não no sentido de
excentricidade, capricho imaginativo ou fuga da realidade. Pelo contrário, Miyazaki tem
grande cuidado em criar metáforas e mundos ficcionais que nos remetem imediatamente
à condição do ser humano em relação ao semelhante, à natureza e às instituições por ele
criadas (família, Estado, etc.). Fundador do Studio Ghibli (juntamente com o amigo Isao
Takahata, outro grande diretor), Miyazaki construiu a sua excelência dentro da indústria
de animação mundial exatamente pela sua sensibilidade em desenvolver narrativas tão
cuidadosas, tão humanas, tão ricas de referências e reflexões — já que, muitas vezes, os
desenhos animados tornam-se pesada exploração comercial de outros produtos
(quadrinhos, brinquedos, jogos eletrônicos, revistas ilustradas), isso quando não são
meramente niilistas ou escatológicos.

SOBRE A ANIMAÇÃO

Porco Rosso significa, literalmente, “porco vermelho” em italiano. O mesmo


significado tem o título original do anime, Kurenai no Buta. O título deve-se à
personagem principal, o veterano pilotogenovês Marco Pagot (também chamado de
Marco Porcellino, passado para o português como “Marco Porquinho”), que vive na
Itália pré-fascista, no final da década de 1920, e tem cara de porco. Não se trata, porém,
de um funny animal , de um animal antropomorfizado como nos cartoons , e sim de um
homem que, devido a determinados motivos pessoais, teve a sua fisionomia humana
mudada para a de um porco! Além disso, Marco pilota um hidroavião monomotor
vermelho-vivo, completando o sentido do nome do filme.

Devemos ressaltar que Porco Rosso traz uma característica forte de muitas animações
japonesas bem realizadas, que é o primor do desenho técnico: todos os aviões que
aparecem, bem como seus motores, foram exaustivamente estudados pelos animadores
do Studio Ghibli, e realme nte foram fabricados na Itália antes da II Guerra (o avião de
Marco, por exemplo, tem um antigo motor Folgore, produzido pela FIAT, e foi baseado
no modelo Savoia S21). E a animação das máquinas é excelente, o que constatamos ao
assistir às cenas de batalha e acrobacias. Cada tomada de câmera, cada ângulo, e até
mesmo os reflexos da luz solar na carcaça dos aviões tem a intenção de chamar nossa
atenção para os detalhes do desenho, e mostra a habilidade dos animadores — a qual
parece ser maior ainda nos dias de hoje, visto que nenhum tipo de computação gráfica
foi empregado no processo de produção. O Studio Ghibli, na verdade, só passou a
usufruir dos recursos de CGI a partir de 1997, com o excelente Princesa Mononoke
(Mononoke Hime), e ainda assim em momentos muito específicos. Trata-se de uma
questão de estilo defendida por Miyazaki, que ainda explora a expressividade da
animação clássica.
Outra qualidade interessante é a contextualização histórica — narrativa e detalhista —
que Miyazaki deu para Porco Rosso, desde quando estava produzindo o mangá
(quadrinho) no qual a animação se baseou: na fuselagem e nas asas do hidroavião de
Marco aparecem bandeiras italianas da época, que ainda continham na faixa branca o
brasão real da família de Savóia. O rival de Marco, o ianque Donald Curtis, é um piloto
galante e playboy de bigodinho que, apesar da crise econômica causada pelo crack da
bolsa de Nova Iorque, sonha em ser presidente dos Estados Unidos e ator de filmes na
ascendente Hollywood. A gangue de malfeitores chamada “Mamma Aiuto” (“Mãe,
ajuda!”, em italiano) é composta por piratas aéreos que realmente atuaram na Itália
daquela época. E em vários momentos da animação vemos manifestações que mostram
a ascensão do fascismo na Itália (desfile conduzido pelo próprio Mussolini;
enfraquecimento da economia européia perante as conseqüências da I Guerra e da crise
de 1929).

Marco é um sobrevivente da I Guerra, na qual lutou através da Força Aérea Italiana.


Nos dias sobre os quais a animação conta, ele é um tipo de piloto que resolve crimes
relacionados à pirataria aérea no Mar Adriático, cobrando por esse serviço. É querido
pela população da costa leste da Itália, especialmente pelas mulheres, apesar da sua cara
de porco. Seus antagonistas, primeiramente, são os piratas aéreos do bando conhecido
como “Mamma Aiuto”. Esse monte de piratas cheios de cicatrizes, gorduchos,
bigodudos, narigudos e com vestes e capacetes simples de piloto é aparentemente cruel,
violento e inescrupuloso, uma vez que o bando nos é apresentado raptando menininhas
de um navio e atirando com metralhadoras de grosso calibre no avião de Marco. Porém,
Miyazaki passa longe do simples maniqueísmo, mostrando-nos, no decorrer do filme,
que, apesar de criminosos e rudes, esses piratas mantêm uma honra entre si e para com
os adversários. E são até ridículos e bobalhões, provando que, muitas vezes, a valentia
não passa dos níveis mais superficiais do caráter humano. Por exemplo, na seqüência
em que Marco tem que resgatar as menininhas das mãos dos piratas, percebemos que
elas todas não estão nem um pouco amedrontadas, apesar dos tiros e das manobras dos
aviões — é como se estivessem num parque de diversões. E o mais hilário é que elas
bagunçam todo o avião dos “malvados” piratas, andando para tudo quanto é lugar,
atrapalhando os atiradores e esgotando a paciência dos pilotos. As cenas imediatamente
seguintes se passam em um hotel à beira-mar, chamado Hotel Adriano.

E esse ambiente é bem interessante: está todo decorado à italiana. Até as bebidas
servidas, os penteados e a indumentárias das pessoas do local foram baseadas no que
realmente havia na Itália dos anos de 1920. Toda a pesquisa que o Studio Ghibli fez de
um típico cabaré do litoral italiano dessa época seria exagerada, se não se encaixasse tão
perfeitamente no contexto do anime. Nesse ponto há outra característica de Miyazaki: a
rápida exibição de planos gerais de locais internos, mostrando os detalhes de toda a
ambientação, de modo a colocar o espectador exatamente no contexto em que se deseja.

O Hotel Adriano é administrado pela belíssima Gina, “a paixão do Mar Adriático”, uma
elegantíssima dama, possuidora de uma sensibilidade capaz de tocar até mesmo o
coração dos mafiosos reunidos no bar. Gina está cantando em francês, acompanhada por
um piano de cauda. A animação é de tal modo cuidadosa que podemos sentir a leveza, a
graça e a calma com que canta para a platéia.
No mesmo cabaré, encontram-se, além da máfia que financia a pirataria, Marco e seu
rival mais perigoso, Donald Curtis — admirador de Gina (e de diversas outras
mulheres). Os mafiosos comentam que chamarão Curtis, um ás dos hidroaviões, para
eliminar Marco, que tem causado prejuízos ao deter as esquadrilhas de piratas. Gina,
depois de sua apresentação, conversa com Marco, e é aí que começamos a ver em Porco
Rosso como Miyazaki trata das relações entre os adultos. Gina, viúva de três pilotos,
fala para Marco sobre a tristeza que ela sentiu ao ter perdido seu terceiro marido, que
esteve numa batalha aérea na Ásia. Gina, no fundo apaixonada por Marco, ao mesmo
tempo em que se defende das cantadas de outros homens (como as de Curtis), teme o
amor que ela própria pode desenvolver. Por ser viúva, de algum modo, ela tem o receio
de se casar com Marco e enfrentar o dilema de descontenta-lo (persuadindo-o a deixar
de ser piloto) ou ser complacente com o risco de perder mais um marido para as missões
de batalha. Só mesmo assistindo a todo o anime para captar a sutileza dessa relação
entre os dois, e também da delicadeza da personalidade de Gina: ela não é nenhuma
vulgar, nem se torna soberba por ser tão admirada pelos homens. Seu sentimento de
paixão pelo “porco” é simples e genuíno, e Miyazaki põe isso nessa personagem
feminina de modo sem igual. Ainda sobre essa conversa, ressaltamos que Marco
reclama por causa de uma fotografia afixada numa parede próxima à mesa em que eles
estão. É uma imagem datada de 1912, na qual aparecem, entre outros pilotos anônimos,
Gina e Marco quando mais jovens. Porém, o rosto de Marco (ainda com fisionomia
humana) está riscado. Ele próprio o riscara depois de sua cara ter se transformado na de
um porco, por motivos que entenderemos mais para o final do filme.

A seqüência seguinte mostra uma parada popular nas ruas da Itália, marcando a
ascensão do Partido Fascista ao poder. E é tão bem montada que, mesmo se estivermos
atentos aos movimentos de Marco, que vai ao banco retirar seu dinheiro, podemos
perceber que as pessoas da localidade usam uma braçadeira verde e falam da
prosperidade que esperam que o novo governo traga ao país. Ao fundo, ainda é possível
notar, em cima de um tanque de guerra, uma caricatura de Mussolini, recebendo salvas
da população. Vêm, depois disso, as seqüências que mostram outra interceptação aérea
dos piratas, e dessa vez o alvo é um navio de cruzeiro, cheio de passageiros. A
preparação da esquadrilha pirata para o ataque (na qual os aviões se comunicam através
de sinais de luz em código morse) e a luta posterior entre Marco (que rumava para
Milão, a fim de consertar o motor) e Curtis (em auxílio dos piratas, disposto a eliminar
Marco) apresentam uma qualidade muito boa de animação. Vôos, acrobacias, disparos
de metralhadora, tudo é mostrado sem exageros e excesso de efeitos especiais. E
também é dado destaque para o cenário bem pintado: céu de crepúsculo, carregado de
nuvens e, entre elas, muitos espaços deixam passar raios de sol que incidem no mar.

Curtis atinge o avião de Marco e destroça toda a lataria, fazendo o Porco Vermelho cair
no mar. É uma forma que Miyazaki encontrou para apresentar uma das falhas do caráter
de Curtis: morto o porco, ele cumpre seu dever como apoiador da máfia dos piratas (ou
seja, não corre o risco de ter a cabeça posta a prêmio por ela) e tem caminho livre para
conquistar Gina. Marco sobrevive, embora seu hidroavião tenha sido quase todo
destruído pelas metralhadoras de Curtis. Ele vai para Milão de trem (outro exemplo de
detalhado desenho de máquinas), e chega a uma fábrica chamada “Piccolo”, onde um
mecânico, seu velho conhecido, o ajudará com o reparo. Aqui, entra uma surpresa
preparada por Miyazaki: quem se encarregará de redesenhar e reconstruir o avião de
Marco é a neta do seu amigo mecânico, uma simpática garota ruiva, chamada
simplesmente de Fio. Fio é a personagem adolescente que aparece em Porco Rosso e
transforma a personagem principal. Dedicada, inteligente, desinibida e um bocado
falastrona (pena que dublada em português meio sem expressividade), tem 17 anos — a
mesma idade que Marco possuía quando pilotou um avião pela primeira vez. É essa
primeira identificação de Marco com Fio que faz com que ele, a princípio relutante, dê à
menina a chance de mostrar a sua habilidade e montar o avião. Marco vê que ela é
realmente toma a responsabilidade, passando noites em claro desenhando o avião na
prancheta, e ele até se preocupa com a saúde dela, embora não queira forçar nenhuma
intimidade com Fio e disfarce: “De que me adianta pagar por uma desenhista que está
doente? Vamos, descanse!”

Fio e seu avô coordenam na fábrica Piccolo uma grande equipe de mulheres, e todas
trabalham diretamente na reconstrução do avião de Marco. Os homens, que deveriam
fazer esse serviço no lugar delas, estão alistados no serviço militar italiano. Aqui é
mostrada, embora de modo velado, a desconstrução e o desequilíbrio sociais que um
período de tensão bélica é capaz de causar.

Entrementes, temos outra referência histórica, vendo que Marco, piloto independente e
viajante aéreo internacional, passa a ser procurado como criminoso pelo governo
fascista, e perseguido por espiões.

Quem lhe avisa sobre isso é Ferrarini, um oficial da Aeronáutica de alta patente, amigo
de Marco (atenção para esse momento, quando Marco e Ferrarini estão em um velho
animatógrafo, assistindo a um desenho animado em preto e branco — além de
metalingüística, a pequena animação à qual eles assistem é uma homenagem de
Miyazaki aos irmãos Fleischer. Basta reparamos na mocinha, que é uma sósia de Betty
Boop). A prova de que estão no encalço de Marco surge quando ele e Fio, dentro de um
caminhão, são perseguidos por um carro preto, que depois eles conseguem despistar.

Quando o avião fica pronto, Marco não tem dinheiro suficiente para pagar pelo conserto
(temos aqui mais um aspecto da narrativa baseado na história do período entre as
guerras: o crack de Nova Iorque e a debilitação da economia européia devido à I Guerra
causou um déficit de crescimento em quase todos os países do velho mundo. Marco
sente-se no dever de quitar sua dívida com a Piccolo até o último centavo, visto que
seus funcionários foram muito competentes e a empresa tem cada vez menos clientela.
Essa crise também é mostrada pouco mais adiante na animação, quando Marco e Fio
estão abastecendo o avião — e a gasolina, embora cara, é a mais barata que eles
conseguiram fora de Milão, e o posto de abastecimento também sofre com a falta de
consumidores). Fio decide acompanhar Marco em suas missões. O porco acha um
absurdo a ousadia da garota em se arriscar a viver sozinha com um homem pouco
conhecido, mas Fio, alegremente, argumenta que precisa testemunhar pessoalmente o
desempenho do avião, de modo a verificar se existem falhas no projeto que ela mesma
fez — e. além do mais, quer permanecer ao lado de Marco até que ele junte dinheiro
suficiente para pagar as dívidas que fez. Segue-se, então, outra cena de vôo, mostrando
a performance do novo hidroavião (Fio aloja-se num cockpit situado no nariz do avião,
sem atrapalhar a visão de Marco, na cabine principal). Mais uma vez, Miyazaki nos
presenteia com uma excelente seqüência de ação, esbanjando técnica e agilidade, sem,
no entanto, esvaziar o sentido desse dinamismo: trata-se do primeiro vôo de Fio e
Marco, da primeira prova de cooperação entre os dois: a habilidade de pilotar de Marco
une-se à competência do projeto de Fio. O oficial Ferrarini, dentro de um avião pintado
com os símbolos do novo governo (o machado junto ao feixe de varas) é leal ao seu
amigo e mostra aos dois o caminho mais seguro a tomar.

Enquanto Marco e Fio voam baixo no Mediterrâneo, para despistar os espiões fascistas,
Curtis aparece na mansão de Gina, construída numa ilhota. Ele vem para flertar
livremente com a distinta dama, uma vez que Marco, segundo ele supõe, não existe
mais. Ele se aproxima de Gina, oferece-lhe uma convite para atuar em um filme e
promete fazer dela estrela hollywoodiana, caso tope casar-se com ele e rumar para os
Estados Unidos. Aqui, Miyazaki mostra de novo as suas habilidades em desenhar as
características psicológicas e afetivas de seus personagens. Gina, com toda a sua
elegância e sinceridade (imagine a delicadeza da animação da personagem), zomba da
simplicidade da proposta de Donald Curtis: “Venha comigo, e lhe darei (literalmente,
inclusive) os céus”. Gina está na [Link]-se na parede e olha para o céu
através da janela. E entra um flashback , mostrando Gina e Marco, quando eram jovens
e este ainda tinha sua fisionomia humana, voando em um antigo modelo, anterior à I
Guerra (essas lembranças servem para reforçar, para o espectador, o que realmente Gina
está sentindo). Ela se surpreende ao ver um monomotor vermelho: é Marco que está de
volta! Ele dá acrobacias, encantando sua dama e provocando ciúmes em Curtis, que, é
lógico, tem má surpresa ao vê-lo.

Marco e Fio chegam na gruta onde o porco costumava esconder seu hidroavião, e são
surpreendidos por todo o bando Mamma Aiuto! É de fazer rir a cena em que eles saem,
desengonçados, da pequenina barraca de Marco e cercam-no, bem armados. Ao verem
Fio, espantam-se com a beleza da garota, a qual, percebendo que atraíra a atenção dos
piratas, corajosamente os repreende (esperteza típica das personagens jovens de
Miyazaki): “Vocês teriam coragem de destruir um avião que EU mesma tanto me
esforcei para construir?” E ainda emenda: “Que vergonha, vocês, temidos piratas,
precisarem da ajuda de um estrangeiro! Marco ainda vai ganhar daquele cara!!!” (Fio
tem conhecimento desse fato porque leu nos jornais sobre a derrota de Marco, e talvez
porque ele próprio tenha contado a ela sobre o ocorrido).

Ouve-se uma risada, que ecoa meio histriônica pelo lugar. É Curtis, que decidiu vir atrás
de seu rival! Ele está numa fenda, no alto do paredão que cerca a gruta. O engraçado é
que, ao pular para o chão, e também ao pousar, ele faz uns movimentos meio ridículos,
como se estivesse enfeitando o seu ato — Miyazaki mostra o artificialismo, o
afetamento das atitudes de Donald Curtis, através daqueles gestos. Isso torna a
personagem estranha, simplória, e, de certa forma, a afasta do público. E tal
superficialidade é imediatamente ratificada: Curtis percebe Fio e, encantado com sua
formosura, a pede, sem titubear, em casamento!!! Chega a arrancar risadas. É uma
técnica usada por Miyazaki para afastar os antagonistas do “mal” absoluto, preferindo
caricaturizar a falta de caráter deles a fazer o espectador odiá-los desenfreadamente.

Percebendo que Marco está enrascado com os piratas e com o rival que voltou de
repente, Fio põe novamente a sua esperteza em prática: ela estende a Curtis um bloco
cheio de contas — são as dívidas que Marco tem com a Piccolo! E a garota completa,
propondo um duelo: “Pois bem, amanhã haverá uma disputa de hidroaviões entre você,
Sr. Curtis, e Marco. Caso você perca, terá que quitar todas essas contas. Se vencer, terá
o direito de se casar comigo. E então?” Marco, é claro, bufa de raiva devido à ousadia
de Fio, mas a garota é impávida e sela o acordo com o rival. E ela ainda toca o
sentimento de honra do bando de piratas! Eles decidem se tornar os árbitros do duelo,
porque, segundo o líder do bando, “este será um evento formal que exigirá toda a
cerimônia, pois o futuro desta graciosa garota estará em jogo!”

Deixados a sós depois disso, Marco esbraveja com Fio. Ela está meio entristecida, e diz
que, embora não tivesse demonstrado, sentiu medo de todo aquele bando armado.
Marco então percebe que Fio depositou nele a confiança, que a garota acredita
realmente que ele, piloto habilidoso, pode vencer o adversário guiando o avião que ela
projetou com todo o cuidado. Embora desesperadora, foi a solução que a sagacidade de
Fio pôde encontrar. Ele compreende, sorri, e aperta a mão de sua jovem companheira.

Ao cair da noite, enquanto Marco seleciona a munição para usar no dia seguinte, vemos
que Fio não consegue dormir. Aqui, Miyazaki começa a nos dar mais explicações que
nos ajudam a entender o significado da fisionomia alterada de Marco, bem como nos
encaminha, sem sobressaltos de roteiro, para o final do anime. Fio olha para a face de
Marco, que está contando as balas, e se espanta: a câmera subjetiva nos mostra que ela
vê não a típica cara de porco, e sim uma fisionomia humana — severa, mas humana!
Marco percebe que Fio ainda está acordada, e vira seu rosto para a câmera, visão
subentendida da garota. Mas agora a sua aparência porcina volta! Fio acha esquisito e
pergunta: “Por que você é um porco?” Marco responde de modo evasivo, e Fio diz:
“Posso te dar um beijo?” Ele estranha, mas a menina se explica: “Lembra da história do
sapo que virou príncipe depois de ser beijado por uma princesa?” (Miyazaki se refere a
uma clássica fábula de modo a enriquecer a sua). Marco apenas retruca, considerando a
pureza dela: “Não seja boba; guarde o seu beijo para quando lhe for realmente
importante”. A garota pára de insistir na pergunta e diz: “Conte-me uma história para
que eu possa dormir!”. Marco toma breve fôlego e começa: “Então vou contar para você
a minha história...”

Neste momento, entra a seqüência das recordações de Marco, que é uma parte essencial
para entender esse personagem. A narrativa de Marco nos é dada, em parte, pelas
animações. Ele, jovem piloto da Força Aérea Italiana durante a I Guerra (sua fisionomia
ainda era humana), parte, com seus colegas, para uma batalha aérea contra os ases da
Luftwaffe alemã. Enquanto os pilotos se engalfinham, ele é perseguido e atingido por
três aviões inimigos. Marco tenta fugir e, no frenesi da escapada, só se dá conta de si
quando se vê no meio de nuvens bem alvas e frias. Silêncio. Marco percebe, bem acima
dele, uma imensa nuvem, que se estende por toda a esfera celeste.

Essa nuvem é formada por incontáveis aviões de guerra, e cada qual contém o seu
piloto. Há naves quase totalmente destruídas, outras danificadas em pequenas partes,
outras aparentemente em perfeito estado. Cada piloto permanece, imóvel, em sua
respectiva cabine. É uma animação singela, porém dotada de belíssima poesia. Todos os
pilotos que morrem na guerra, não importa de que nação são oriundos, tampouco se
foram aliados ou inimigos uns dos outros em campo de batalha, juntam-se à nuvem e
voam, calmamente, para sempre. Na nuvem não cabem conflitos de nenhum tipo, e
todos se locomovem para a frente, tal qual uma procissão infinita.

Marco percebe algumas naves da Luftwaffe ao seu lado, subindo. São os pilotos que o
seu grupo de combate acabara de matar. E se surpreende quando vê, inclusive, os aviões
de seus amigos, tomando o mesmo rumo para cima. Em especial, Marco chama por um
deles, clamando para que ele não se fosse, não fizesse as pessoas ao seu redor mais
tristes: era o primeiro marido de Gina, morto ao seu lado. Marco grita em vão, enquanto
todos se integram à nuvem. Exceto ele próprio, que desce. Havia sobrevivido. Marco
ficou com cara de porco a partir de então.

Fio, depois de ouvir a história, especula: “Não devia ser a hora para que Deus o
chamasse”. Marco, de semblante fechado, encerra o assunto, embora sem grosseria. Fio
se levanta, e lhe dá um rápido beijo no rosto, e volta para dormir.

Assim, sabendo que a fisionomia de porco que Marco possui é um estado psicológico,
podemos considerar as várias hipóteses que Miyazaki nos deixa para explicarmos o
porquê da cara que ele possui.

A primeira delas: Marco sentiu-se tão entristecido por ter sobrevivido a uma guerra tão
atroz, tão chocado por ter testemunhado a extinção de vidas que lhe foram caras, que
acabou ganhando uma “mutilação”, por assim dizer, bastante simbólica. É como se a
inocência de sua juventude nunca mais pudesse voltar, depois de tanto sangue
derramado. Por isso, ele riscara sua face no retrato de 1912, dentro do hotel de Gina. Há
veteranos de guerra que nos relatam terem sofrido verdadeiras transformações de caráter
no front, indo a extremos que os fazem transmitir a nós diversos questionamentos sobre
os conceitos que a palavra “humanidade” pode abranger. Se tentarmos nos colocar na
pele desses combatentes, e se tentarmos despir da guerra o sentido relativo de heroísmo,
e do sentimento humano qualquer classificação de pieguice, é provável que consigamos
esboçar o que nos tornaríamos se fôssemos obrigados a enfrentar trincheiras e
tempestades para matar um semelhante, ou ver um amigo ser mortalmente ferido.

Podemos afirmar, também, que Marco ficou descontente com a humanidade, depois do
que ele viu na I Guerra. Ele diz a Fio em certa ocasião: “sua inocência ainda me faz dar
crédito ao ser humano”.

Sua aparência porcina seria, além de indicadora do enfraquecimento de sua própria


sensibilidade (testemunha de tanta carnificina e distante de qualquer sentimento de
compaixão e afeto durante os conflitos), um protesto contra a violência desmedida de
um confronto bélico, declarado por pessoas que defendem interesses muitas vezes vis e
mesquinhos. Sua juventude foi abalada, e ele manifesta a sua revolta sendo um porco
combatente dos toscos piratas, algo diferente do homem que luta, mata e morre para
“defender sua pátria” — expressão que esconde significados tão incertos. Ainda com
relação à idéia de “defender uma pátria”, é comum encontrarmos a seguinte leitura,
mesmo porque ela foi proposta pelo próprio Miyazaki: antes de estourar a I Guerra,
Marco sempre quis se casar com Gina, mas preferiu se preparar para lutar pela Itália,
enquanto outro amigo desposava sua amada. Nos conflitos aéreos, Marco perdeu seus
melhores companheiros, e viu Gina entristecer-se ao se tornar viúva. Então, ele passou
a se questionar sobre a idéia de morrer por uma pátria, e sob quais circunstâncias,
quando, com isso, deixamos tristes as pessoas que nos são mais queridas. Esse
questionamento o alterou tão profundamente que ele não poderia ser mais um homem
comum, mas um porco, alguma coisa obviamente distinta.

No dia seguinte, ocorre o duelo entre Marco e Curtis. O chefe da quadrilha Mamma
Aiuto está ridiculamente ajeitado em seu “terno de cerimônias”, e pede, à força de bala,
a atenção da multidão que veio testemunhar a disputa. Ele apresenta os dois “prêmios”:
um enorme saco de dinheiro, que será dado por Curtis a Marco caso este vença; e a
própria Fio — um pouco tensa com os flertes de Curtis (“nós nos casaremos assim que
eu terminar isso aqui”, diz ele), mas bem-humorada: topa até tirar uma fotografia com o
bando dos piratas (que oferece ramos de flores a ela). Embora envolvida na aposta, em
nenhum momento os “asquerosos” piratas coisificam a garota. Pelo contrário,
comentam, a todo momento: “fiquemos atentos ao combate entre aqueles cavalheiros,
pois dele depende a felicidade desta mocinha”. Está claro que a característica de
maldade, nos antagonistas criados por Miyazaki, não é, de modo algum, absoluta.
Marco e Curtis partem para o vôo, enquanto as pessoas em terra fazem suas apostas.
Fio, obviamente, torce pelo bom êxito do Porco Vermelho.

Os dois ases começam a se confrontar noutra bela seqüência animada. Curtis atira em
Marco, que desvia com habilidade. Quando este toma a vantagem sobre aquele, vemos
que não há tiros — Marco quer vencer Curtis pelo cansaço, e pretende encontrar um
bom momento para atirar no motor, sem correr o risco de matar o piloto. Curtis, porém,
atira a torto e a direito, mas fica indignado pelo fato de Marco não responder às suas
balas com outras. Eles voam lado a lado, e Curtis insulta o rival: “Não faça pouco de
mim, seu porco! Atire! Ou será que sua arma quebrou?” Marco responde com uma
breve rajada de balas, e os dois recomeçam a batalha. Fio e os piratas estão mirando os
céus com binóculos e lunetas. Fio torce com força por Marco, e os outros espectadores
se assustam com os rasantes que os adversários dão na platéia. As balas dos aviões
chegam a atingir os palanques cheios de observadores, mas ninguém fica ferido.

Enquanto isso, Gina ouve, num receptor de código morse que ela mantém escondido em
sua biblioteca, uma mensagem da Força Aérea Italiana, dizendo que tomaram
conhecimento da luta entre Marco e Curtis e que os aviões militares a serviço do
fascismo logo chegarão ao local e prenderão todos. Preocupada, Gina pede ao seu piloto
particular que a leve até o local da batalha. Ele recusa, dizendo que é perigoso, mas ela
insiste. Gina é delicada até na hora de impor a sua vontade; não é rude com seus
subordinados. Parte, com o piloto, em um monomotor de passeio.

Marco consegue mirar no motor de Curtis (há um enquadramento subjetivo, mostrando


a hélice do motor azul do rival), mas, na hora de atirar, sua alavanca de comando
emperra e se quebra. Curtis tenta levar vantagem, mas descobre que sua munição
acabou! A luta entre os dois passa a ser verbal:eles emparelham seus aviões em pleno
vôo e começam a trocar xingamentos. Marco quer acabar logo com aquilo. Para ele, não
há como insistir na batalha. Mas Curtis saca da cabine um revólver e atira em Marco!
Essa atitude, embora no princípio faça Marco dar risadas, o deixa nervoso, quando
percebe que uma das balas disparadas pelo ianque quase o acerta. Marco arremessa a
alavanca de tiro na cabeça do rival, e aí ambos começam a atirar coisas das respectivas
cabines um no outro. É bastante engraçado ver os rivais apelarem dessa maneira em
pleno combate. Funciona como se Marco se revoltasse com a insistência de Curtis em
resolver a disputa.

Ambos pousam seus aviões. A multidão se aglomera ao redor deles. Fio não pára de
gritar, incentivando Marco, e os piratas incentivam os adversários a continuarem o
combate. Marco e Curtis saem de suas cabines e resolvem sair no braço um com o
outro!

À medida em que eles trocam murros, seus rostos vão ficando cada vez mais
desfigurados. Curtis perde toda a sua pose, e a fisionomia de Marco fica mais estranha.
È uma verdadeira caricatura de uma disputa de boxe! Um dos piratas toma uma
frigideira e a faz de gongo; outro prepara cadeiras e bebida para Marco e Curtis.
Percebe-se, também pelas palavras que os pilotos trocam entre si, que Marco não luta
para conseguir dinheiro e pagar suas dívidas, e sim para evitar que Fio tenha que se
casar com aquele canalha.

Podemos dizer que Marco não quer que a coragem que Fio teve em propor aquele duelo
tenha sido em vazia, como foi a coragem que ele teve ao lutar na I Guerra. Marco não
quer perder Fio, já que perdeu seus companheiros. Não quer ter mais um motivo para
continuar com sua cara de porco. Curtis, entretanto, é duro, embora seja um esdrúxulo,
um playboy que, pelo visto, não conhece tanto o significado da perda como Marco. Os
dois lutam, mas estão cada vez mais abatidos e mais lerdos. Por fim, acertam-se
mutuamente, e caem na água. Um dos piratas, que virou um árbitro improvisado,
começa a contar até dez: o primeiro dos cavalheiros que reunir forças e se levantar
vencerá o confronto.

Gina chega, e vê os dois adversários caídos. Lança-lhes palavras sutis de reprovação.


Marco se levanta, cambaleante, e a platéia grita pelo vencedor. Gina acaba com o
estardalhaço, avisando a todos que a Força Aérea se aproxima para prender todos. Os
piratas entregam o enorme saco de dinheiro a Fio, e se despedem, sorrindo para a
menina, que virou um tipo de musa para eles. O líder ainda comenta: “Você merece ser
feliz, garota. Eu não gosto de jeito nenhum do cara-de-porco, mas de você eu gosto
muito!”. E todos os “malfeitores” vão-se embora, como se acabassem de deixar uma
grandiosa festa.

Fio está félicíssima, e corre para os braços de Marco. Mas este, sem demora, a arrasta
para dentro do avião de Gina, enquanto a garota protesta. Marco, com o rosto totalmente
inchado das pancadas de Curtis, pede a Gina que cuide da garota, e a leve de volta para
Milão. Gina sorri, mesmo depois de repreender seu amado pela “travessura” da qual ele
acabara de participar. Curtis se levanta, tonto, e ainda querendo lutar, mas Gina o avisa:
“Ei, por favor, pare! A luta já terminou!”.

Fio levanta seu corpo da cabine e dá outro beijo no rosto de Marco. Ela deixa seu
chapéu de palha cair, e o avião de Gina sai, acertando uma das asas na cabeça do Porco
Vermelho, que cai, desajeitado, na água. A partir daqui, o rosto de Marco não é mais
mostrado em momento algum, até o fim da animação. Ele pega o chapéu de palha e o
coloca em sua cabeça. Fio já transformou Marco, através de sua inocência de menina e
de sua esperteza ao lidar com as pessoas. Curtis se aproxima, e entre os dois não há
mais o sentimento de conflito. Não há raiva, de modo que Marco aconselha: “Vamos
embora, ou a esquadrilha chegará.” Curtis, de repente, se assusta, ao olhar para Marco:
“Ei!!! O seu rosto!!! O que houve com ele??? Deixe-me vê-lo novamente!!!”
Definitivamente, a graça de Fio devolveu a humanidade (também no sentido de
benevolência) a Marco.

A seqüência seguinte, a derradeira, mostra-nos o que acontece algumas décadas depois


(Miyazaki nos mostra que o tempo passou, ao colocar na tela aviões de modelos mais
sintéticos, movidos a jato). Toda a seqüência é narrada por Fio, que conta sobra a forte
amizade que surgiu entre ela e Gina. Talvez, como duas mulheres que se apaixonaram
por Marco (embora de modo distinto), elas encontraram afinidades entre si que as
tornou grandes companheiras. Fio conta que ninguém foi preso pela Força Aérea
Italiana na ocasião da disputa entre Curtis e Marco. A velha gangue Mamma Aiuto
parece existir agora só nas lembranças de seus integrantes, que envelheceram, porém
continuam freqüentando o Hotel Adriano. Curtis não se tornou presidente dos E.U.A.,
mas acabou como ator em Hollywood! Miyazaki nos mostra o cartaz de um dos filmes
por ele estrelado: Curtis parece canastrão com seus bigodinhos e sua cara de mau,
atuando em um filme de faroeste, junto de uma bela atriz (que, muito provavelmente, é
uma paródia das mocinhas dos filmes de western). Podemos ver que, de certa forma,
Curtis também se transformou: envia cartas para Fio depois de ter deixado de ser piloto.
Fio ainda diz que Gina, a cada ano que se passou, tornou-se mais e mais bela. O que
significa que ela não se livrou das cantadas dos outros homens, e que continuou sendo
querida pelas pessoas como sendo a mais bela, delicada e elegante mulher do Mar
Adriático.

Nos créditos, são mostrados bonitos esboços de ilustrações, mostrando a nave de Marco
voando pelos céus italianos. E, depois deles se acabarem, vemos o mesmo avião
vermelho voando bem rápido.
O paradeiro de Marco está em aberto para o público. Ele se casou com Gina? Voltou
para o Hotel Adriano? Saiu da Itália fascista? Eis o que é certo: ele não tem mais a sua
fisionomia de porco, e continuou pilotando. Agora, ele crê com mais força na
humanidade, pois viu a pureza de Fio e, finalmente, entendeu o amor de Gina. Poético
desfecho para esta grande obra do mestre Miyazaki.

REFERÊNCIAS
Os websites consultados a seguir serviram como rápida referência e como coleta de
dados elementares para compor o artigo.

1) Nausicä[Link] — Filmes do Studio Ghibli e informações gerais sobre eles. Disponível


em <[Link] Acesso em 11 jun. 2005

2) Studio Ghibli Home Page — página oficial do Studio Ghibli. Informações principais
em japonês. Disponível em <[Link] Acesso em 11 jun. 2005

Você também pode gostar