HISTÓRIA DO
BRASIL
COLÔNIA
Celiane Ferreira da Costa
Revoltas separatistas
no Brasil colonial
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
Descrever as etapas do movimento separatista na Bahia e seus prin-
cipais líderes.
Reconhecer o processo separatista ocorrido em Pernambuco e seus
principais articuladores.
Diferenciar os movimentos separatistas ocorridos na Bahia, em Per-
nambuco e em Minas Gerais.
Introdução
As revoltas nativistas ocorridas no século XVII e início do século XVIII na
colônia portuguesa na América enunciaram dois importantes movimentos
que viriam a eclodir no final do século XVIII, conhecidos como movimentos
de pré-independência ou separatistas: a Inconfidência Mineira, em 1789, e
a Conjuração Baiana, em 1798. Em ambos movimentos havia a pretensão
de se separar de Portugal e adotar uma república como forma de governo.
Nenhum dos dois chegou a se concretizar. Outro importante movimento
que aconteceu no Brasil foi a Revolução Pernambucana, em 1817. Esse
movimento se diferencia dos outros dois citados por ter passado da fase
de conspiração e ter conseguido assumir o poder de Pernambuco, ainda
que por pouco tempo.
Neste capítulo, você verá de que forma se desenvolveu a Conjuração
Baiana, verificando seus principais líderes e objetivos. Estudará também
como se deu o processo da Revolução Pernambucana e quais foram as
principais diferenças entre a Inconfidência Mineira, a Conjuração Baiana
e a Revolução Pernambucana.
2 Revoltas separatistas no Brasil colonial
1 Conjuração Baiana — 1798
Até o final do século XVIII, Salvador era o mais importante centro urbano da
colônia portuguesa. Com cerca de 50 mil habitantes, fora capital da colônia até
1763, quando a administração foi transferida para o Rio de Janeiro. Localizada
em um ponto privilegiado do litoral, Salvador desenvolveu-se por um longo
tempo como entreposto comercial. A seu porto chegavam mercadores da
Europa, da África e da Ásia, e por ele eram exportados produtos da colônia,
como açúcar, tabaco e algodão.
A população baiana era composta de muitas pessoas de origem africana,
a maioria delas escravizada. A elite branca era formada por fazendeiros e
grandes comerciantes, donos de muitos escravos. Além dos escravizados,
havia entre as camadas mais baixas da população muitos mestiços de cor
parda e brancos pobres.
Nos fins do século XVIII, a cidade atlântica do Salvador já estava abarrotada
de gente. Esta era uma característica comum das cidades coloniais, sobretudo
das portuárias. [...]
Esta superpopulação relativa explica-se tanto pelo grande contingente de popu-
lação branca pobre, portuguesa, excedente da metrópole europeia, como pela
população brasileira, extremamente diversificada pela cor e pela condição civil,
como também pelo grande contingente de africanos trazidos pelo intenso tráfico
de escravos que se fazia nesta cidade (ARAÚJO, 2004, documento on-line).
A partir de meados do século XVIII, as ideias iluministas de liberdade
começaram a chegar ao conhecimento dos habitantes. Da mesma forma que
se deu Minas Gerais, elas eram trazidas principalmente por jovens da elite que
haviam estudado na Europa. “A França, no século XVIII, começou a surgir aos
olhos dos que nasciam no Brasil, como um ponto de interesse para a solução
de muitos dos problemas que afligiam a colônia” (HOLANDA, 2010, p. 456).
As ideias iluministas chegavam aos habitantes de Salvador por meio de livros,
jornais e panfletos vindos da Europa.
Essas ideias haviam influenciado a Revolução Francesa de 1789, que
combateu o absolutismo dos reis e instalou na França o regime republicano.
Pessoas de diferentes níveis sociais começaram a discutir os ideais de liberdade,
igualdade e fraternidade. “O Brasil, sob a influência das ideias enciclopedistas
daquele século, vivia sob uma grande agitação humana. Serviam-se os patriotas
brasileiros desse movimento emancipador de que a França tomava a dianteira”
(LINHARES, 2001, documento on-line).
Revoltas separatistas no Brasil colonial 3
Outras influências importantes para a Conjuração Baiana foram a indepen-
dência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Haitiana, iniciada em 1791 e
que preocupava a coroa portuguesa. “O descontentamento acarretou a circu-
lação das ‘abomináveis ideias francesas’, as quais, adicionadas ao movimento
de independência do Haiti, liderado por Toussaint-Louverture, revolviam as
mentes dos baianos” (FROTA, 2000, p. 218). A luta pela independência do
Haiti inspirou a população de origem africana, predominante em Salvador, a
tentar se separar de Portugal.
No final do século XVIII, a situação econômica da Bahia era precária, em
razão da prolongada crise do açúcar. A partir de 1770, a lavoura canavieira
voltou a prosperar, mas beneficiando apenas grandes comerciantes e senhores
de engenho. A população, de modo geral, vivia em péssimas condições. A
política tributária opressiva do reino português em relação ao Brasil e as
arbitrariedades de D. Fernando José de Portugal, o governador da Bahia desde
1788, completavam o quadro desolador.
A conspiração se liga ao quadro geral das rebeliões surgidas em fins do
século XVIII e tem a ver também com as condições de vida da população
de Salvador. A escassez de gêneros alimentícios e a carestia deram origem
a vários motins na cidade, entre 1797 e 1798. No sábado de aleluia de 1797,
por exemplo, os escravos que transportavam grandes quantidades de carne
destinada ao general-comandante de Salvador foram atacados pela multidão
faminta e seu fardo dividido entre os atacantes e as negras que vendiam
quitutes na rua (FAUSTO, 2004, p. 119).
Ainda em 1797, vários motins aconteceram, em que populares invadiam
e saqueavam armazéns. A situação da maior parte da população beirava
a miséria, em razão da falta de empregos e da sobrecarga dos impostos
recolhidos pela metrópole. Além disso, a obrigação de importar produtos
manufaturados, já que o Brasil era proibido de fabricá-los, encarecia esses
produtos. O racismo contra os afrodescendentes também prejudicava a vida
em sociedade.
Em princípios de 1798, a forca onde se aplicavam as penas de morte amanhe-
cera destruída pelo fogo, sem que fosse possível descobrir quem fora o autor
da façanha. Nos quartéis, os incidentes entre oficiais e a própria soldadesca
não constituíam um fato isolado. [...] Havia, na Bahia, portanto ambiente
apropriado à circulação de ideias como aquelas que vinham da França como
novidades revolucionárias, e apareciam como lição exemplar para a solução
dos problemas regionais (HOLANDA, 2010, p. 458).
4 Revoltas separatistas no Brasil colonial
Em 1797, os intelectuais baianos criaram uma sociedade secreta chamada
Cavaleiros da Luz para divulgar ideias revolucionárias. Os membros dessa
sociedade começaram a planejar um movimento separatista.
Alguns historiadores defendem que a Cavaleiros da Luz foi a primeira loja maçônica
do Brasil, fundada pelo francês Antoine René Larcher, comandante da fragata francesa
La Preneuse (HOLANDA, 2010; FROTA, 2000). De acordo com a historiadora Patrícia
Valim, professora de história do brasil colonial na Universidade Federal da Bahia, os
historiadores que defendem tal teoria baseiam-se na publicação de Francisco Borges
de Barros. “O historiador publicou, em 1928, no volume XV dos Anais do Arquivo, às
páginas 44 e 45, a história da loja ‘Cavaleiros da Luz’, afirmando categoricamente a
fundação da loja maçônica, sem, contudo, apresentar prova documental” (VALIM, 2007,
documento on-line). Ainda de acordo com Patrícia Valim, essa questão da primeira loja
maçônica no Brasil não foi resolvida e muitos historiadores seguem afirmando que a
Cavaleiros da Luz teria de fato sido a primeira.
O movimento separatista ganhou a adesão de pessoas de diversas camadas
sociais. Entre elas, havia pequenos comerciantes, soldados, alfaiates, artesãos,
negros libertos, escravizados, mestiços e homens brancos pobres. Sobre os
participantes do movimento, Frota (2000, p. 218) aponta que eram:
Alguns intelectuais, entre eles o cirurgião Cipriano José Barata de Almeida,
seu irmão José Raimundo, o professor de gramática Francisco Moniz Bar-
reto de Aragão, o Padre Francisco Agostinho Gomes, proprietário de uma
biblioteca de filosofia francesa revolucionária, e militares, os tenentes José
Gomes de Oliveira Borges e Hermógenes de Aguilar Pantoja, reuniam-se na
casa do farmacêutico João Ladislau de Figueiredo Melo, bem como outros, de
menor prestígio social, com o alfaiate João de Deus do Nascimento, o liberto
Manoel Faustino dos Santos, que tinha alcunha de Lira, e os soldados Lucas
Dantas Torres e Luís Gonzaga das Virgens.
A Conjuração Baiana também aparece referenciada em livros técnicos
e didáticos como Conjuração ou Revolta dos Alfaiates, tendo em vista o
envolvimento de vários desses profissionais. Sobre a condição social dos en-
volvidos, Boris Fausto destaca que mesmo “[...] entre os brancos, predominava
a origem popular, com a importante exceção do médico Cipriano Barata, que
Revoltas separatistas no Brasil colonial 5
iria participar de vários movimentos revolucionários no Nordeste” (FAUSTO,
2004, p. 119). Alguns homens ricos da Bahia também se sentiram atraídos
pelo movimento, pela possibilidade de romper com Portugal e estabelecer o
livre-comércio com outras nações.
Reunidos, os conspiradores discutiam ideias iluministas e traçavam planos
para a revolta. Porém, conforme foi evoluindo o movimento, começaram a
surgir desacordos entre os participantes, principalmente em torno de duas
questões importantes: a abolição da escravidão e a eliminação dos privilégios
da aristocracia. Como grande parte dos envolvidos na conspiração eram negros
ou mulatos e outros pertenciam à elites, foi ficando cada vez mais evidente
que seus interesses eram francamente opostos. De modo geral, os conjurados
defendiam:
o fim do domínio português na Bahia;
a proclamação de uma República em que todos tivessem igualdade de
tratamento;
a abertura do porto de Salvador para o livre-comércio;
a diminuição dos impostos e o aumento dos soldos e da oferta de
alimentos;
liberdade religiosa;
abolição da escravatura;
fim do preconceito contra os negros.
De acordo com Sérgio Buarque de Holanda (2010, p. 460), fazia parte das
aspirações da Conjuração “[...] a pena de morte para os sacerdotes que, do
púlpito e nos confessionários, pregassem ou atuassem contra a revolução”.
Segundo Ciro Flamarion Cardoso (2016, p, 105), “[...] a ideologia do movi-
mento revelava forte anticlericalismo, bem como um sentimento antieuropeu”.
Na madrugada de 12 de agosto de 1798, vários panfletos foram espalhados
em diversos pontos de Salvador, com 11 textos diferentes que continham as
reivindicações dos conjurados.
A primeira manifestação de revolta da plebe urbana de Salvador contra a
grande prisão coletiva que se tornara a cidade ocorreu no dia 12 de agosto de
1798. Pela manhã, apareceram 11 manuscritos colados em pontos diversos
da cidade, contendo propósitos revolucionários. Dez deles foram retirados
e encaminhados às autoridades que iniciaram o processo repressivo, com a
prisão de suspeitos e abertura de uma devassa. Um outro boletim não chegou
até nós (ARAÚJO, 2004, documento on-line).
6 Revoltas separatistas no Brasil colonial
Depois de publicados os boletins, iniciou-se um processo para descobrir
quem havia produzido os textos. As palavras usadas pelos conjurados, liber-
dade e república, atemorizaram as autoridades dos dois lados do Atlântico;
elas sabiam que esses ideais tinham inspirado a Independência dos Estados
Unidos (1776), a Revolução Francesa (1789) e as lutas pela independência
do Haiti (iniciadas em 1791). Isso explica por que a reação do governador da
Bahia, D. Fernando Jose de Portugal foi imediata: mandou que fossem feitas
investigações para apurar quem estava envolvido na conjuração.
O primeiro preso foi o escrevente Domingos da Silva Lisboa, que após uma
duvidosa análise da caligrafia dos boletins, teve “[...] a prisão [...] decretada
‘ainda que esse indício fosse remoto e falível’” (VALIM, 2007, documento
on-line). No entanto, dias depois, dois novos manifestos foram encontrados,
sendo um deles destinado ao governador D. Fernando. Os manifestos serviram
para isentar Domingos da Silva Lisboa da culpa. Buscando evidências nas
petições da Secretaria de Estado, foram encontrados três documentos que
comprovavam que os manifestos haviam sido escritos por Luiz Gonzaga das
Virgens, “[...] homem igualmente pardo e soldado do Primeiro Regimento de
Linha da Praça da Salvador e Quarta Companhia de Granadeiros” (VALIM,
2007, documento on-line). Luiz Gonzaga foi preso no dia 23 de agosto de
1798. Nos dias seguintes, novas denúncias foram apresentadas ao governador.
A 25 de agosto, o Coronel Carlos Baltasar da Silveira, do Regimento de Artilharia,
comunicou a D. Fernando que um ferrador, de nome José da Veiga, lhe dissera
que fora convidado pelo alfaiate pardo João de Deus para ir ao campo do Dique,
a fim de participar de um pronunciamento revolucionário. Outra denúncia no
mesmo dia, falando do mesmo João de Deus e no mesmo campo do Dique, deu a
certeza de que a ação revolucionária estava a vir a furo (HOLANDA, 2010, p. 461).
A reunião que aconteceria no campo do Dique no dia 26 de agosto foi
abortada. “Uma das razões foi haver entre os partícipes quem reconhecesse
os denunciantes e desconfiasse de suas presenças” (VALIM, 2007, documento
on-line). Ao longo de seis meses, várias outras pessoas foram presas,
[...] [d]entre elas, algumas apenas prestaram esclarecimentos, outras foram
consideradas culpadas a priori, pois que ocorreu foi a clivagem social para
que houvesse diferenciação entre os acusados (VALIM, 2007, documento
on-line, acréscimo nosso).
Alguns dos presos se livraram da prisão por pertencerem à elite ou por
falta de provas.
Revoltas separatistas no Brasil colonial 7
Na relação dos 33 presos e processados, amplia-se mais ainda o leque social
dos democratas: 11 escravos, cinco alfaiates, seis soldados da tropa de linha,
três oficiais militares, um negociante, dois ourives, um bordador, um pedrei-
ro, um cirurgião, um carapina e um professor. A lista final dos executados
é bem menor e socialmente mais restrita: os soldados Luís Gonzaga das
Virgens e Veiga e Lucas Dantas do Amorim Torres; os alfaiates João de
Deus do Nascimento e Manoel Faustino dos Santos Lira (ARAÚJO, 2004,
documento on-line).
As penalidades aplicadas reproduziram cruelmente a divisão da sociedade
da época: os revoltosos das camadas mais próximas da elite colonial tiveram
as penas mais leves. Já os mais pobres receberam condenações pesadas, sendo
enforcados e esquartejados. O Quadro 1 apresenta os principais participantes
da Conjuração, suas ocupações e as respectivas penas aplicadas.
Quadro 1. Principais envolvidos na Conjuração Baiana e suas punições
Conjurado Ocupação Pena aplicada
Cipriano José Barata de Almeida Cirurgião Absolvido e solto
Francisco Moniz Barreto de Professor Um ano de prisão
Aragão
Hermógenes de Aguilar Pantoja Tenente Um ano de prisão, reduzido
depois para seis meses
João de Deus do Nascimento Alfaiate Enforcado
Manuel Faustino dos Santos Lira Alfaiate Enforcado
Lucas Dantas de Amorim Soldado Enforcado
Luís Gonzaga das Virgens Soldado Enforcado
Fonte: Adaptado de Holanda (2010).
Boris Fausto faz uma análise das penas aplicadas e relacionas às punições
ao temor de que pudesse acontecer no Brasil um processo de “haitinização”,
a exemplo do que acontecia na Ilha de São Domingos. De acordo com Fausto
(2004, p. 119–120), as penas aplicadas não foram proporcionais à ação e às
possibilidades de êxito dos conjurados:
8 Revoltas separatistas no Brasil colonial
A dureza se explica pela origem social dos acusados e por um conjunto de
outras circunstâncias ligadas ao temor das rebeliões de negros e mulatos. A
insurreição de escravos iniciada em São Domingos, colônia francesa nas Anti-
lhas, em 1791, estava em pleno curso e só iria terminar em 1801, com a criação
do Haiti como Estado independente. Por sua vez, a Bahia era uma região onde
os motins de negros iam se tornando frequentes. Essa situação preocupava
tanto a coroa como a elite colonial, pois a população de cor (negros e mulatos)
correspondia, em números aproximados, a 80% da população da capitania.
Não por coincidência, os quatro condenados à morte por enforcamento eram
descritos no processo como sendo pardos. Os condenados foram enforcados
no dia 8 de novembro de 1799. Após o enforcamento, foram esquartejados e as
partes de seus corpos foram expostos em várias regiões da cidade de Salvador.
A historiadora Patrícia Valim publicou em 2009 um artigo sobre a punição imposta
aos conjurados. Nesse artigo, ela detalha como foram os últimos dias dos quatro
condenados à morte. O artigo foi publicado da revista Topoi e você pode buscar
o artigo pelo título “Da contestação à conversão: a punição exemplar dos réus da
Conjuração Baiana de 1798”.
Duramente reprimida, a Conjuração Baiana serviu para demonstrar que não
havia conciliação possível entre os interesses da metrópole e as aspirações da
população colonial. Preocupada com os levantes no Brasil, a coroa portuguesa
começou a oferecer altos cargos na administração pública, dinheiro ou privilégios
às pessoas que denunciassem conspirações, consideradas crimes de traição à coroa.
2 Revolução Pernambucana — 1817
No início do século XIX, o porto de Recife, em Pernambuco, continuava sendo
um dos mais movimentados do Brasil, principalmente em razão das exportações
de açúcar e de algodão. Entretanto, a antiga prosperidade da província havia
entrado lentamente em declínio desde a segunda metade do século XVII.
Isso porque, após serem expulsos de Pernambuco em 1654, os holandeses
passaram a produzir açúcar em suas possessões no Caribe e a concorrer com o
Revoltas separatistas no Brasil colonial 9
açúcar brasileiro no mercado internacional. Com a concorrência holandesa, os
preços do produto começaram a cair, prejudicando a economia pernambucana.
Na produção algodoeira, o cultivo americano, mais competitivo, também
diminuiu o espaço para o produto brasileiro, além de contribuir para a queda
do preço nos mercados internacionais. Além disso, no começo do século
XIX o Nordeste foi afetado por uma intensa seca no ano de 1816, fenômeno
constante na região (HOLANDA, 2010, p. 245).
Tais fatos prejudicaram a elite latifundiária agroexportadora da região,
gerando demissões, desemprego e, até certo ponto, fome. Toda essa situação
contribuiu para aumentar a inquietação e o descontentamento, não só nas
classes inferiores como também nos grupos dominantes.
Além da crise econômica, outro fator que incomodava muito os pernam-
bucos era a permanência da família real no Brasil e o crescente número de
portugueses na colônia.
O afluxo de comerciantes e funcionários lusos foi intenso nos anos que se
seguiram à instalação do governo lusitano no Rio de Janeiro, cidade que
começou a ser percebida como ‘portuguesa’ por excelência pelos habitantes
de outras partes do Brasil (CARDOSO, 2016, p. 107).
A família real portuguesa chegara ao Brasil em 1808. Fugindo das tropas
napoleônicas, a corte portuguesa, estimada em 15 mil pessoas, se instalara
no Rio de Janeiro, cidade que passava a ganhar cada vez mais importância no
cenário político, à medida que os portugueses iam dominando os mais altos
cargos da administração.
Ao transferir-se para o Brasil, a coroa não deixou de ser portuguesa e favorecer
os interesses portugueses no Brasil. Um dos principais focos de desconten-
tamento estava nas forças militares. Dom João chamou tropas de Portugal
para guarnecer as principais cidade e organizou o Exército, reservando os
melhores postos para a nobreza lusa. O peso dos impostos aumentou, pois
agora a Colônia tinha de suportar sozinha as despesas da corte e os gastos
das campanhas militares que o rei promoveu (FAUSTO, 2004, p. 127–128).
Assim, no começo do século XIX o aumento dos impostos para o finan-
ciamento do luxo da corte portuguesa, bem como os custos da manutenção
dos funcionários públicos, agravou a situação da capitania e aumentou a
insatisfação da população.
Os habitantes da capitania se sentiam sufocados pelos preços abusivos
dos gêneros de primeira necessidade. Além disso, havia muita revolta contra
10 Revoltas separatistas no Brasil colonial
o recrutamento forçado de homens para compor as tropas reais. Tudo isso
contribuiu para que os pernambucanos se organizassem com a intenção de
romper com as amarras que os prendiam ao governo português.
A elite pernambucana havia enviado seus jovens para estudar na Europa, fa-
zendo com que tivessem contato com ideias iluministas e liberais, que norteavam
os movimentos políticos da época e já haviam influenciado outros movimentos
revoltosos na colônia, como em Minas Gerias (1789) e na Bahia (1798).
A expansão das ideias, bebidas nos princípios da Revolução Francesa, ideias
condensadas no espírito dos pensadores do século XVIII, fazia-se com mais
impetuosidade em Pernambuco. A rudeza e avidez do sistema colonial lusitano
criavam condições favoráveis à sua proliferação” (HOLANDA, 2010, p. 246).
Essa elite influenciada pelos ideais iluministas passou a organizar reuniões
com grupos compostos por padres, agentes públicos, senhores rurais, eruditos
e comerciantes dispostos a combater o domínio português na região.
Alguns historiadores destacam a influência da maçonaria no processo
revolucionário pernambucano. Guilherme Frota sustenta que a Revolução
Pernambucana foi “[...] uma consequência direta da atuação da maçonaria”
(2000, p. 233). Ciro Flamarion Cardoso (2016, p. 107) destaca que, além da
Revolução Francesa, a revolução de 1817 teve influência “[...] das quatro lojas
maçônicas então existentes em Pernambuco”. Sergio Buarque de Holanda
(2010, p. 237) prefere se referir a essas agremiações como sociedades secretas:
Parece, todavia, que essas sociedades, na época organizadas em forma de
areópagos ou academias, não se enquadravam na estrutura das lojas maçô-
nicas. Eram núcleos, necessariamente secretos, em face de sua finalidade
emancipacionista e de opressão ao aparelho repressivo colonial.
O historiador Augusto César Acioly, que pesquisa, entre outros assuntos, a maçonaria
no Brasil, publicou em 2004, no V Encontro Nordestino de História, o artigo “As luzes
da maçonaria sobre Pernambuco”, em que é possível verificar a influência dos maçons
na Revolução Pernambucana de 1817. No artigo, Acioly discute brevemente sobre qual
teria sido a primeira loja maçônica no Brasil, mas ressalta que não é esse o objetivo
principal do texto. A referência completa pode ser encontrada na seção Leituras
Recomendadas, ao fim deste capítulo.
Revoltas separatistas no Brasil colonial 11
Fato é que essas “sociedades secretas” passaram a atrair a elite pernambu-
cana, letrada e altamente idealista, “que esperava tirar proveito das condições
precárias do povo”. Segundo Holanda, faziam parte dessas reuniões o padre
João Ribeiro Pessoa, Antônio Carlos Ribeiro de Andrada (Ouvidor-Mor de
Olinda), o padre Miguel Joaquim de Almeida e Castro (conhecido também como
padre Miguelinho) e o comerciante espírito-santense Domingos José Martins.
O comerciante Domingos José Martins chegou em Recife em 1814 e assumiu
a liderança do movimento republicano de independência. Era na sua casa que
aconteciam as principais reuniões conspiratórias. Além dos cidadãos citados
acima, participavam das reuniões: José Inácio Ribeiro de Abreu e Lima (o
padre Roma), Joaquim do Amor Divino e Caneca (o Frei Caneca), Antônio
Gonçalves da Cruz (conhecido como “Cabugá”, um rico cidadão de Recife),
o advogado José Luís de Mendonça, os Capitães Domingos Teotônio Jorge
Martins Pessoa e José de Barros Lima (conhecido como Leão Coroado),
Manoel Correia de Araújo (senhor de engenho) e Antônio de Morais Silva
(Capitão-Mor da vila de Santo Antônio do Recife) (FROTA, 2000).
Nessa época, Pernambuco era governada por Caetano Pinto de Miranda
Montenegro, que assumiu o controle da capitania em 1804. As notícias das
reuniões realizadas na casa de Domingos José Martins chegavam aos ouvidos
do governador, mas eram ignoradas.
O Governador teve conhecimento desses conciliábulos, mas infenso às soluções
arbitrárias, e algum tanto cético quanto à capacidade subversiva de homens
de ação meramente intelectual, não lhes deu, a princípio, grande atenção. As
denúncias feitas precisavam os planos dos conjurados, cujos nomes eram cita-
dos; planos de emancipação política e de República. Mas contam que o crédulo
magistrado se limitava a responder aos que o advertiam da gravidade da situação:
“Os pernambucanos se divertem, nada podem fazer” (HOLANDA, 2010, p. 247).
No entanto, repetidas denúncias tiraram o governador do seu estado de
apatia. No dia 1º de março de 1817, o Ouvidor da Comarca do Sertão, José da
Cruz Ferreira, denunciou que os pernambucanos tramavam uma conspiração
contra o poder real e os bens dos portugueses. No dia 6 de março, após ouvir
de várias pessoas os detalhes e pormenores da conspiração, Caetano Pinto
determinou a prisão dos líderes do movimento, dez pessoas no total. O Ma-
rechal José Roberto foi incumbido de prender os civis, enquanto o Brigadeiro
Manuel Joaquim Barbosa de Castro prenderia os militares. “A missão de José
Roberto foi cumprida sem mais consequências, o mesmo não acontecendo
com a dos militares” (HOLANDA, 2010, p. 248).
12 Revoltas separatistas no Brasil colonial
O Capitão de Artilharia José de Barros Lima, por alcunha Leão Coroado,
coadjuvado por seu genro, José Mariano de Albuquerque Cavalcanti, Tenente
do mesmo regimento, matou o Brigadeiro Manuel Joaquim Barboza de Castro,
ao receber deste a voz de prisão, por ser considerado um dos elementos pro-
motores de agitação na Província de Pernambuco. [...] [A] reação inesperada
de José de Barros Lima, imediatamente apoiado por todo o regimento de que
fazia parte, precipitou a revolta (MOURÃO, 2009, p. 20).
Outra morte que decorre desse episódio foi a do Tenente-Coronel Alexandre
Tomás, ajudante de ordens do governador, que fora enviado para o quartel onde
estava acontecendo a revolta. Lá chegando, o Tenente-Coronel foi recebido a
balas e morreu. Temendo por sua vida, o governador refugiou-se no Forte de
Brum, uma das fortalezas da cidade, ao passo que os conspiradores anterior-
mente presos acabaram libertados. “A 7 de março, Caetano Pinto assinou uma
capitulação, sendo-lhe permitido embarcar no dia 10 para o Rio de Janeiro”
(FROTA, 2000, p. 234). Assim, no dia 7 de março de 1817, a cidade de Recife
estava sob comando dos revoltosos.
O líder da revolta, Domingos José Martins, organizou uma junta, à guisa do
governo provisório, com seus companheiros de luta, da qual fez parte um
representante de cada grupo de interesse contrário à dominação da coroa
portuguesa: ligado aos eclesiásticos, o padre e professor João Ribeiro Pes-
soa; ligado ao grupo militar, Domingos Teotônio Jorge; pela magistratura, o
advogado José Luís de Mendonça; ligado aos proprietários de terra, coronel
Manoel Correia de Araújo; do grupo dos comerciantes, o próprio Domingos
José Martins (MESGRAVIS, 2015, p. 167).
Formado o governo provisório, a primeira medida adotada indicava o
caráter liberal que se pretendia adotar: foi instituída a liberdade de expressão,
de imprensa e de religião (embora o catolicismo fosse declarado religião
oficial). Além disso, foram abolidos os tributos que encareciam os gêneros de
primeira necessidade e decidiu-se que em um ano seriam convocadas eleições
para uma Assembleia Constituinte.
Note-se, entretanto, que a escravidão não foi abolida. Isso demonstra que os
grupos envolvidos na revolução não tinham os mesmos objetivos.
Para as camadas pobres da cidade, a independência estava associada à ideia
de igualdade mais para cima do que para baixo. [...] Para os grandes proprie-
tários rurais, tratava-se de acabar com a centralização imposta pela coroa e
tomar em suas mãos o destino, se não da colônia pelo menos do Nordeste
(FAUSTO, 2004, p. 128).
Revoltas separatistas no Brasil colonial 13
Boris Fausto ainda pontua que não necessariamente as posições radicais
eram assumidas pelos mais pobres, enquanto os ricos eram mais conserva-
dores. O comerciante Domingos José Martins era um defensor da abolição da
escravatura (2004, p. 128–129). Foi redigido então um projeto de constituição
chamada de Lei Orgânica, cuja autoria é atribuída, por vezes, à Frei Caneca.
Inspirada na Constituição norte-americana e nos ideais da Revolução Francesa,
a Lei Orgânica estabelecia:
a independência de Pernambuco;
a adoção da forma republicana de governo;
a liberdade de consciência religiosa e de imprensa;
a instituição de uma nova bandeira;
a abolição dos tributos que aumentavam os preços dos gêneros de
primeira necessidade;
a manutenção da escravidão e o regime de propriedade.
Além disso, a Lei Orgânica “[...] fixava a tese da soberania popular e mos-
trava-se bastante liberal quanto às prerrogativas concedidas aos estrangeiros
que se naturalizassem” (HOLANDA, 2010, p. 250). A lei orgânica, no entanto,
não previa direitos fundamentais e inalienáveis ao povo, “[...] [n]esse ponto, a
Lei Orgânica traz algumas contradições. Não prevê direitos fundamentais. Não
prevê a proteção da propriedade, por exemplo, algo tão caro a uma revolução
de origem burguesa” (CUNHA, 2017, documento on-line, acréscimo nosso).
A notícia da instalação de um governo republicano e patriótico em Recife
logo chegou às províncias da Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e à comarca
de Alagoas, que na época pertencia à Pernambuco. Paraibanos, potiguares e
cearenses seguiram o exemplo pernambucano e também tomaram o poder em
suas respectivas províncias, passando a se autogovernar.
Aderiu ao movimento a capitania da Paraíba, por causa da anuência do Te-
nente-Coronel Francisco José da Silveira, um dos que detinha o poder legal,
seguindo-lhe a do Rio Grande do Norte, com liderança do Coronel André
Albuquerque Maranhão. O governo revolucionário mandou logo para o Ce-
ará o seminarista José Martiniano de Alencar, que apenas provocou ligeiro
motim no Crato, preso pelo Capitão-mor José Pereira Filgueiras. Na Bahia,
onde havia simpatizantes, o Conde dos Arcos não teve dúvida em fuzilar o
Padre Roma, emissário dos pernambucanos, no Campo da Pólvora [...], atual
Praça Pedro II (FROTA, 2000, p. 234–235).
14 Revoltas separatistas no Brasil colonial
Além de obter a adesão de outras províncias, buscou-se o apoio inter-
nacional. Para tanto, foram enviados negociantes à Inglaterra, aos Estados
Unidos e à Argentina, sem, contudo, lograr êxito nas missões (HOLANDA,
2010, p. 251).
A República Pernambucana durou apenas dois meses. A fim de combater
os rebeldes, o governo de D. João VI organizou tropas para atacar Pernambuco
e as demais capitanias por terra e por mar. Em maio, Recife foi cercada por
tropas enviadas da Bahia e do Rio de Janeiro. “O Vice-Almirante Rodrigo
Lobo reforçou o bloqueio de Recife — já fracamente iniciado — com a fragata
Tetis, as corvetas Aurora e Benjamin e uma escuna, enquanto se preparava, no
Rio, a expedição terrestre sob o comando do General Luís do Rego Barreto”
(HOLANDA, 2010, p. 252).
Domingos Teotônio, aclamado ditador nesses dias agitados, ainda tentou
uma reação, mas preferiu abandonar Recife, com quase dois mil homens,
que se dissolveram na marcha para o interior. As forças legais entravam em
Recife em 20 de maio. Alguns rebeldes foram encaminhados para Salvador,
à exceção do Padre João Ribeiro, que se suicidou enforcando-se em uma
árvore (FROTA, 2000, p. 235).
Uma junta militar foi organizada para julgar os envolvidos na Revolução.
Restabeleceu-se, então, a antiga ordem social e étnica, que privilegiava os
brancos e ricos de Pernambuco e discriminava pobres, mestiços e negros. As
penas aplicadas aos líderes de 1817 foram variadas. “Sucedem-se as execu-
ções, realizadas com requintes de crueldade, muito de acordo com a drástica
legislação do absolutismo” (HOLANDA, 2010, p. 253).
Doze homens foram condenados à morte. O advogado José Luís de Men-
donça, o comerciante Domingos José Martins e o padre Miguelinho foram
fuzilados no dia 12 de junho de 1817. Os capitães Domingos Teotônio Jorge
Martins Pessoa e José de Barros Lima e o padre Pedro de Souza Tenório
foram enforcados no dia 10 de julho. O Tenente Antônio Henriques Rabello
foi enforcado e esquartejado em Pernambuco, no dia 5 de julho. No dia 21 de
agosto, Francisco José da Silveira, José Peregrino Xavier de Carvalho e Amaro
Gomes da Silva Coutinho foram enforcados e esquartejados em Pernambuco.
Os últimos executados foram Inácio Leopoldo de Albuquerque Maranhão e
Antônio Pereira de Albuquerque, enforcados e esquartejados em Pernambuco
no dia 6 de setembro de 1817 (MOURÃO, 2009).
Os mais eminentes participantes da Revolução, o Ouvidor-Mor de Olinda,
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada, o Capitão-Mor Antônio de Morais Silva
e o rico cidadão Antônio Gonçalves da Cruz, o Cabugá, e cerca de outros
Revoltas separatistas no Brasil colonial 15
100 membros da elite foram presos e enviados para a Bahia, condenados à
morte. Em fevereiro de 1821, os envolvidos na Revolução Pernambucana que
permaneciam presos na Bahia foram libertados por ordem do rei de Portugal,
D. João VI, que buscava aplacar os ânimos dos nordestinos (MESGRAVIS,
2015, p. 169).
A rebelião foi vencida, mas os pernambucanos acumulavam um trunfo:
Pernambuco foi a primeira província do Império Português a declarar sua
independência. A insatisfação crescia tanto no Brasil quanto em Portugal, cuja
população não se conformava com a manutenção da corte no Rio de Janeiro.
Em pouco tempo, a insatisfação de brasileiros e portugueses colocaria em
xeque a dinastia de Bragança.
3 Os movimentos de emancipação
No século XVIII, Portugal era um país com uma economia frágil se compa-
rada às das potências europeias da época: Inglaterra, França e Holanda. Com
escassas manufaturas e campos agrícolas pouco produtivos, a economia por-
tuguesa era dependente das riquezas de suas colônias, em especial do Brasil.
Estudiosos portugueses do século XVIII já alertavam sobre a necessidade de
Portugal modernizar sua economia para libertar-se da dependência externa.
As medidas adotadas pelo Marquês de Pombal (1750–1777) não foram
suficientes para impedir a crise do domínio colonial português na América,
que expressava, mais que a fragilidade portuguesa, a falência do Antigo
Regime. Os ideais iluministas e a independência dos Estados Unidos (1776)
tiveram grande influência nos movimentos de contestação que surgiram na
colônia no final do século XVIII e início do século XIX.
As Conjurações Mineira e Baiana, no fim do século XVIII, mostrariam que
o colapso do mercantilismo e do antigo sistema colonial era um movimento que
os reinos ibéricos já não conseguiam deter. Em 1817, a capitania de Pernambuco
foi palco de uma revolução que conseguiu declarar independência de Portugal,
ainda que por um curto período. Esses três movimentos, a Inconfidência
Mineira (1789), a Conjuração Baiana (1798) e a Revolução Pernambucana
(1817), são chamados de movimentos de emancipação por terem proposto a
ruptura com o domínio português e a criação de República.
Esses três movimentos tinham alguns objetivos comuns, sendo o principal
deles a proclamação de uma república. Mas havia também algumas diferenças
entre os movimentos. Acompanhe no Quadro 2 as principais semelhanças e
diferenças entre os três movimentos.
16 Revoltas separatistas no Brasil colonial
Quadro 2. Comparação entre os movimentos de emancipação no Brasil
Inconfidência Revolução
Mineira Conjuração Pernambucana
Baiana (1798)
(1789) (1817)
Situação eco- Queda na extração Carestia, escassez e Queda no preço
nômica da de ouro e aumento aumento dos preços do algodão e do
capitania do controle colonial. de alimentos. açúcar no mercado
internacional; crise
de fome provocada
pela seca intensa de
1816.
Insatisfações Proibição à existên- Carestia de ali- Monopólio do
que levaram cia de manufaturas mentos e pobreza, comércio exercido
à revolta na capitania das descontentamento pelos portugueses,
Minas Gerais, des- com o exclusivo co- alto preço pago pe-
contentamento com mercial metropoli- los produtos e altos
a elevada tributa- tano, transferência cargos adminis-
ção, informação de da capital de trativos dominados
que as autoridades Salvador para o Rio pelos portugueses.
executariam a de Janeiro.
derrama.
Grupos Membros da elite Mesmo idealizada Membros da elite
sociais local (contratadores, pela elite baiana, a local (senhores de
envolvidos mineradores, fun- conjuração reunia engenho, comerci-
cionários públicos, setores das camadas antes, magistrados
advogados, militares populares, como e militares), clérigos,
de alta patente, mulatos, escravos, classe média e po-
padres, etc.). negros libertos, pulares (ainda que
alfaiates, pedreiros, em menor número).
soldados, etc.
Influência Ideais iluministas Independência dos Independência dos
ex terna e Independência Estados Unidos, Estados Unidos e
dos Estados Unidos Revolução Francesa Revolução Francesa.
(1776). (1789) e o processo
de Independência
do Haiti.
(Continua)
Revoltas separatistas no Brasil colonial 17
(Continuação)
Quadro 2. Comparação entre os movimentos de emancipação no Brasil
Inconfidência Revolução
Mineira Conjuração Baiana Pernambucana
(1798)
(1789) (1817)
Reivindicações Separação entre Igreja O fim do domínio Governo inspirado na
dos e Estado, perdão das português na Bahia, Revolução Francesa,
conjurados dívidas com a coroa, igualdade de raça e elaboração de uma
liberdade econômica, cor, fim da escravidão Constituição que
liberação do Distrito e dos privilégios de expressasse princípios
Diamantino, incentivo classe, aumento de do liberalismo, a liber-
à instalação de manu- salários dos solda- dade de imprensa, a
faturas na capitania e dos e liberdade de soberania popular e a
a fundação de uma comércio. tolerância religiosa.
universidade em Vila
Rica.
Proposta de Independência da Proclamação de uma Independência de
governo região das Minas república democrá- Pernambuco, com
Gerais e proclamação tica na Bahia, com adesão posterior de
de uma república capital em Salvador. outras capitanias, e
com capital em São proclamação de uma
João del Rei. república com capital
em Recife.
Desfecho do A revolta não chegou Com a ajuda de Os revoltosos assu-
movimento a acontecer. Em troca delatores, alguns de- miram o controle da
do perdão das dívidas les membros da elite capitania e proclama-
com a coroa portu- baiana que participa- ram uma república,
guesa, contratadores ram da conspiração, contando com a ade-
como Joaquim as investigações são das capitanias da
Silvério dos Reis dela- levaram os principais Paraíba, Rio Grande
taram o movimento. envolvidos à prisão. do Norte e Alagoas.
Os sentenciados Os membros da elite Após dois meses da
foram punidos com o foram absolvidos, os proclamação de inde-
degredo perpétuo e escravizados foram pendência, o controle
Joaquim José da Silva açoitados e dois sol- de Recife foi reto-
Xavier (Tiradentes) foi dados e dois alfaiates mado pelo governo
enforcado e depois foram enforcados e central. Os principais
esquartejado, em esquartejados em líderes foram executa-
1792. 1799. dos, sendo poupados
os membros da elite,
que foram presos e
absolvidos por ordem
régia em 1821.
18 Revoltas separatistas no Brasil colonial
O que se depreende a partir da análise desse quadro é que os três mo-
vimentos tiveram influência iluminista e da Independência dos Estados
Unidos; houve envolvimento dos membros das elites locais, sendo que a
Conjuração Baiana contou ainda com adesão de camadas populares, in-
cluindo escravos libertos; todos eram movimentos de emancipação locais,
visto que nenhum dos três propunha a independência de toda a colônia; as
punições levavam em consideração a posição social dos envolvidos, sendo os
mais ricos poupados de penas mais severas; por ser a única a contar com a
participação de camadas populares, apenas a Conjuração Baiana propunha a
abolição da escravidão.
Esses movimentos de emancipação constituem um capítulo das inquieta-
ções que se observavam no Brasil no século XVIII e início do século XIX.
“A Revolução Francesa, ou os princípios que ela tornaria realidade material,
exercia fascínio sobre os povos do Novo Mundo” (HOLANDA, 2010, p. 462).
Os inconfidentes mineiros, os conjurados baianos e os revolucionários per-
nambucanos eram fruto de uma ideologia liberal. O contexto político e as
condições econômicas e sociais justificavam a aceitação dos princípios dos
pensadores iluministas e dos revolucionários franceses.
A independência, no entanto, não viria a partir de um movimento revo-
lucionário, conforme ficaria claro em 1822. O processo de independência do
Brasil foi articulado pelo próprio herdeiro do trono português, que assumiria
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