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Diretrizes da Abordagem Policial em Santos

O documento apresenta diretrizes para a abordagem policial pela Guarda Civil Municipal de Santos, enfatizando a importância da formação contínua e do respeito aos direitos humanos durante as abordagens. Ele discute os fundamentos jurídicos, procedimentos a serem seguidos e a necessidade de uma atuação integrada com outros órgãos de segurança pública. Além disso, destaca a evolução das guardas municipais como atores essenciais na segurança pública e a importância de estratégias eficazes e respeitosas na atuação policial.

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Samuel Higor
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Diretrizes da Abordagem Policial em Santos

O documento apresenta diretrizes para a abordagem policial pela Guarda Civil Municipal de Santos, enfatizando a importância da formação contínua e do respeito aos direitos humanos durante as abordagens. Ele discute os fundamentos jurídicos, procedimentos a serem seguidos e a necessidade de uma atuação integrada com outros órgãos de segurança pública. Além disso, destaca a evolução das guardas municipais como atores essenciais na segurança pública e a importância de estratégias eficazes e respeitosas na atuação policial.

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DIRETRIZES DA ABORDAGEM

POLICIAL

[Link]ÇÃO
Prefeitura Municipal de Santos
Secretaria Municipal de Segurança
Departamento da Guarda Civil Municipal

Secretária Municipal de Segurança de Santos


Delegada Dra. Raquel Kobashi Gallinati Lombardi

Coordenador:
Dr. Luiz Eduardo Carvalho dos Anjos

COLABORADORES:
GCM 1ª Classe - Thalita Almeida Lourenço Ferraz
GCM 1ª Classe - Lázaro Teixeira Máximo Souza
GCM 1ª Classe - Matheus Cunha Santos
GCM 3ª Classe - Gustavo de Carvalho Linhares

Santos
2024
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...................................................................................................................................4
PREFÁCIO.........................................................................................................................................6
1. ABORDAGEM POLICIAL..............................................................................................................8
1.1 Conceito.......................................................................................................................................8
1.2 Fundamentos jurídicos.................................................................................................................9
1.3 Abordagem policial municipal.....................................................................................................14
2. PROCEDIMENTOS NA ABORDAGEM.......................................................................................16
2.1 Avaliação inicial..........................................................................................................................16
2.2 Comunicação..............................................................................................................................16
2.3 Busca pessoal............................................................................................................................17
2.4 Uso da força...............................................................................................................................17
2.5 Emprego de algemas.................................................................................................................18
2.6 Documentação...........................................................................................................................20
3. PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS...................................................................................22
3.1 Cidadania e Direitos Humanos...................................................................................................25
3.1.1 Policial: um cidadão qualificado..............................................................................................25
3.1.2 Policial: educador da cidadania...............................................................................................26
3.1.3 Direitos humanos dos policiais: humilhação versus hierarquia ..............................................26
3.2 Crianças e adolescentes............................................................................................................27
3.3 Racismo e discriminação racial..................................................................................................30
3.4 Pessoas com deficiência............................................................................................................32
3.5 População LGBT........................................................................................................................33
3.6 Pessoas idosas..........................................................................................................................36
3.7 População em situação de rua...................................................................................................38
4. EXERCÍCIO DA ATIVIDADE FISCALIZATÓRIA........................................................................42
4.1 Trata-se de abordagem?............................................................................................................42
4.2 Perturbação de sossego público................................................................................................43
4.3 Uso inadequado do equipamento público..................................................................................43
4.4 Fiscalização do comércio...........................................................................................................44
4.5 Pessoas em situação de rua e a posturas municipais...............................................................44
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................................46
INTRODUÇÃO

A presente cartilha tem como objetivo analisar as diretrizes da abordagem


policial, com enfoque na atuação da Guarda Civil Municipal (GCM). A segurança pública,
em especial no âmbito do município, tem se configurado como um dos principais desafios
da sociedade contemporânea, demandando um constante aprimoramento das práticas
policiais.
A Guarda Civil Municipal, instituição que emerge com força após a
promulgação da Constituição Federal de 1988, desempenha um papel fundamental na
garantia da segurança pública nos municípios brasileiros. Seu histórico, marcado por uma
evolução constante, reflete a necessidade de adaptação às novas demandas e desafios da
sociedade. Com o passar dos anos, a GCM tem conquistado cada vez mais espaço e
reconhecimento legal, consolidando-se como um órgão essencial para a segurança cidadã.
Decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) têm reforçado ainda mais o papel
estratégico das guardas municipais, delimitando suas atribuições e garantindo maior
segurança jurídica para sua atuação.
Neste contexto, a abordagem policial, entendida como o primeiro contato
entre o agente de segurança pública e o cidadão, é um processo multifacetado que exige
habilidades de comunicação, negociação e tomada de decisão. A análise minuciosa das
diversas etapas da abordagem, desde a avaliação inicial da situação até a documentação
do ocorrido, demonstra a complexidade dessa atividade e a necessidade de uma formação
continuada e especializada dos agentes, visando à otimização de suas ações e à garantia de
um atendimento eficiente e respeitoso à cidadania.
Diante desse cenário, este estudo busca aprofundar a compreensão dos
fundamentos jurídicos que embasam as abordagens policiais, analisando a jurisprudência
pátria e os principais instrumentos normativos que regulamentam a matéria. Além disso,
serão abordados os procedimentos a serem adotados pelos agentes durante as
abordagens, com destaque para a importância da avaliação inicial da situação, da busca
pessoal, do uso da força, da utilização de algemas e da documentação dos procedimentos.
Outro aspecto relevante a ser explorado diz respeito à proteção dos direitos
humanos durante as abordagens policiais. A diversidade da população brasileira exige que
os agentes de segurança pública estejam sensibilizados para as especificidades de cada
grupo social, garantindo tratamento isonômico e respeitoso a todos os cidadãos,
independentemente de sua raça, cor, sexo, orientação sexual, idade, religião, origem ou
condição física.
Nossa cartilha abordará a atividade fiscalizatória exercida pela GCM,
analisando a natureza jurídica das ações de fiscalização e os limites da atuação dos agentes
nessa esfera. A crescente complexidade dos desafios urbanos exige que as GCMs atuem de
forma integrada com os demais órgãos de segurança pública, buscando soluções
inovadoras para os problemas de segurança pública nas cidades brasileiras.
Com o objetivo de aprimorar a segurança pública e reduzir a criminalidade,
a Secretaria de Segurança do Município de Santos implementou as operações "Zona de
Segurança Máxima" e "Cerco Fechado". Essas iniciativas, que combinaram ações de
inteligência, policiamento ostensivo e ações sociais, demonstraram a importância de uma
abordagem proativa e integrada. As experiências exitosas de Santos, com a redução dos
índices de criminalidade e o aumento da sensação de segurança, servem como um modelo
para outras guardas municipais e demonstram a relevância de uma formação especializada
em abordagens policiais. Nesta cartilha, analisaremos os fundamentos teóricos e práticos
das abordagens, buscando oferecer subsídios para a implementação de estratégias
eficazes e respeitosas aos direitos humanos, como as observadas nas operações de Santos.
PREFÁCIO

A municipalização da segurança pública e a consolidação das polícias municipais.


Enxergar as guardas municipais apenas como guardiãs de patrimônios
públicos é uma visão ultrapassada e anacrônica. Hoje, elas despontam como atores
fundamentais na preservação da ordem pública e no enfrentamento da criminalidade,
atuando em sinergia com as polícias estaduais para proteger a sociedade.
O debate sobre a municipalização da segurança pública tem ganhado
espaço no Brasil, impulsionado pelas demandas sociais por respostas mais eficazes e
personalizadas no combate à criminalidade. O fortalecimento dos sistemas locais emerge
como uma estratégia essencial para reduzir os índices de violência, promovendo uma
aproximação mais direta entre as forças de segurança e as necessidades das comunidades.
A trajetória das guardas municipais foi marcada por avanços significativos
no âmbito do Estado democrático de direito. A promulgação da Lei Federal nº 13.022/14,
regulamentando o §8º do artigo 144 da Constituição Federal, foi um marco que ampliou
suas atribuições, permitindo-lhes atuar em áreas como a proteção dos direitos humanos,
preservação da vida, patrulhamento preventivo e manutenção da ordem pública. Com a
Lei nº 13.675/18, que instituiu o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), as guardas
foram integradas de forma definitiva como polícias municipais, formalizando sua
relevância no aparato de segurança pública.
O reconhecimento do papel das guardas foi reforçado em 2023, com o
julgamento da ADPF 995 pelo Supremo Tribunal Federal (STF), que consolidou sua posição
como órgãos de segurança pública, com poder de polícia em âmbito local. Decisões
recentes do STF e do Superior Tribunal de Justiça (STJ) validaram sua atuação em prisões
em flagrante, fortalecendo sua legitimidade e destacando sua indispensabilidade na
segurança urbana.
O Decreto nº 11.841/23 veio coroar esse processo de evolução,
reafirmando a importância das guardas municipais no patrulhamento preventivo e nas
ações de flagrante, ao mesmo tempo que incentiva a integração com órgãos estaduais e
federais. Esses avanços impõem um desafio de constante investimento em treinamento,
equipamentos e respaldo jurídico, para que as guardas possam exercer seu papel com
excelência e responsabilidade.
As Guardas Municipais assumem, assim, o protagonismo em um novo
modelo de segurança pública, aproximando-se das comunidades e contribuindo para a
construção de cidades mais seguras e acolhedoras. Este material foi elaborado com o
propósito de refletir sobre essa transformação e capacitar os agentes a desempenharem
suas funções com técnica, eficiência e compromisso social.

Raquel Kobashi Gallinati Lombardi


Secretária de Segurança Pública de Santos
Diretora da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil
Mestre em Filosofia pela PUC-SP
Pós-graduada em Direito de Polícia Judiciária pela Academia Nacional da Polícia Federal,
Processo Penal pela Escola Paulista da Magistratura e Ciências Penais pela UNIDERP
1. ABORDAGEM POLICIAL

1.1 Conceito
Abordagem policial é o procedimento ou conjunto de atos realizados por
agentes públicos de segurança, buscando verificar uma conduta suspeita, investigar, fazer
cessar uma violação à ordem pública ou até prevenir crimes.
Esse procedimento deve seguir princípios legais e éticos, assegurando a
inviolabilidade da integridade física e moral do indivíduo, bem como o pleno exercício de
seus direitos humanos. A utilização da força, quando necessária, deve ser estritamente
proporcional à resistência encontrada, sempre buscando a menor intervenção possível.
A palavra abordagem é originada do francês e significa:

Ato ou efeito de abordar, ou seja, de ir ou chegar a bordo

Forma de se aproximar

Maneira de tratar ou interpretar um assunto, uma


questão

Perspectiva, modo de encarar algo

A abordagem policial pode ser compreendida em diversos subtipos de


abordagem, observando a finalidade que o agente público visa atingir, citando-se as
seguintes modalidades:

Gênero
Abordagem:
Espécies/Finalidade

•Abordagem Fiscalizatória
Abordagem Policial
•Abordagem a pessoa sob
Abordagem de pessoa fiscalização de polícia.
infratora da lei
•ex.: Abordagem a ambulante.

Abordagem Policial:
Abordagem a pessoa em
atitude sob fundada
suspeita
Portanto, trata-se de um importante meio de obtenção de prova por parte
do Estado. A seguir, apresentamos um exemplo de abordagem policial: ao receberem
informações concretas sobre a subtração de um celular, os militares localizam um
indivíduo com características semelhantes ao descrito pelo denunciante. A partir da
fundada suspeita, realizam a abordagem e encontram uma arma de fogo.

Aponte o celular para assistir o vídeo

1.2 Fundamentos jurídicos


A partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, a segurança
pública, anteriormente fragmentada e pouco coordenada, foi instituída como DEVER
fundamental do Estado em todos os seus entes federativos. O artigo 144 da Constituição
Federal consagra a segurança pública como um direito fundamental, estabelecendo que é
dever do Estado garantir a preservação da ordem pública e a proteção das pessoas e do
patrimônio.

Art. 144. A segurança pública, dever do Estado, direito e


responsabilidade de todos, é exercida para a preservação da
ordem pública e da incolumidade das pessoas e do
patrimônio, através dos seguintes órgãos:

No plano da abordagem policial, as regras são estabelecidas pelo Código de


Processo Penal (CPP), que é o conjunto de normas e regras que disciplinam o processo
penal no Brasil, regulamentando como as autoridades devem se conduzir, desde o
momento que a infração penal é praticada estendendo-se até o término do processo
judicial (trânsito em julgado).
Dica Policial: O Código de Processo Penal é como se fosse um livro
de regras que os operadores de segurança devem respeitar. Qualquer
violação a essas regras poderá implicar no relaxamento da prisão.

O Nosso CPP não define o que seria abordagem policial, tampouco há


legislação que trate sobre o tema de forma especial. Entretanto, por meio da edição de
atos normativos internos, cada um dos órgãos de segurança busca definir seu próprio
conceito de abordagem policial. Como mero exemplo, citamos o Manual Técnico do
Estado de Minas Gerais (PMMG) que assim dispõe:

“A abordagem policial é o conjunto ordenado de ações


policiais para aproximar-se de uma ou mais pessoas, veículos
ou edificações. Tem por objetivo resolver demandas do
policiamento ostensivo, como orientações, assistências,
identificações, advertências de pessoas, verificações,
realização de buscas e detenções”.

Para melhor compreensão, cumpre ressaltar a existência de diversas


subespécies de buscas pessoais, conforme a categorização proposta pelo doutrinador
Renato Brasileiro:

1. Busca Pessoal em razão de Segurança: é a realizada em eventos como estádio de


futebol, aeroporto, etc., não é extraída do Código de Processo Penal.
2. Busca Pessoal de natureza Penal: é regulamentada pelo Código de Processo penal e
deve seguir aos parâmetros estabelecidos em lei.

A BUSCA PESSOAL é um procedimento utilizado pelo operador de segurança


pública que visa, através da revista pessoal, encontrar armas, drogas, objetos ilícitos ou
provas de alguma infração penal, desde que observadas as regras do art. 244 do Código de
Processo Penal, in verbis:

Art. 244. A busca pessoal independerá de mandado, no caso


de prisão ou quando houver fundada suspeita de que a
pessoa esteja na posse de arma proibida ou de objetos ou
papéis que constituam corpo de delito, ou quando a medida
for determinada no curso de busca domiciliar.
Isto posto, no Brasil, a Busca Pessoal é regulamentada pelo CPP, que
permite a realização dessa medida, independentemente de ordem judicial, desde que haja
fundadas razões para suspeita ou em casos de flagrante de delito.
Destaca-se que a legislação brasileira permite a busca pessoal sem
mandado, nos seguintes casos:

1- No caso de prisão
2- Quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma proibida ou
de objetos ou papéis que constituam corpo de delito.
3- Quando a medida for determinada no curso de busca domiciliar.

Prisão é a privação de liberdade de uma pessoa, seja pela prática de uma


infração penal em flagrante de delito, seja como consequência de uma ordem emanada do
Poder Judiciário, distinguindo-se a prisão cautelar ou prisão pena.

Dica Policial: Remetemos o operador de segurança à leitura das


formas de flagrantes de delito e de prisões existentes no Brasil. Aponte
para o QRCODE abaixo:

Espécies de flagrantes Espécies de prisões

Logo, conclui-se que sempre que houver prisão, o Operador de Segurança


DEVE fazer a busca pessoal para salvaguardar a integridade da guarnição, bem como a do
preso.

Quando houver fundada suspeita de que a pessoa esteja na posse de arma


proibida ou de objetos ou papéis que constituam corpo de delito.
A Fundada Suspeita trata-se de um conceito indeterminado, vago e
genérico, que não foi bem disciplinado pelo legislador.
A legislação brasileira não trouxe o conceito de FUNDADA SUSPEITA,
ocasionando diversas correntes interpretativas. Contudo, podemos definir de forma
sucinta como sendo A BASE LEGAL que permite ao policial a realização da busca pessoal ou
abordagem, sem mandado policial.
Esse é o tema mais polêmico e que traz mais insegurança jurídica aos
Operadores de Segurança.
As recentes decisões do Superior Tribunal de Justiça trouxeram um novo
requisito à fundada suspeita: O ELEMENTO OBJETIVO.
A fuga é fato objetivo capaz de gerar suspeita razoável.
O ato de fugir correndo representa um comportamento muito mais
expressivo do que gestos sutis, como desviar o olhar, mudar a direção ou alterar o passo
ao caminhar — ações que, por si só, são insuficientes para justificar uma suspeição e
autorizar uma busca pessoal.
A fuga repentina de um suspeito configura uma conduta intensa e
marcante, caracterizada como um fato objetivo — e não meramente subjetivo ou intuitivo.
Trata-se de um comportamento visível e, no mínimo gera uma suspeita razoável.
A busca pessoal ou revista, conforme recentes decisões do Superior
Tribunal de Justiça (STJ) deve ser realizada de forma objetiva e fundamentada pelas
circunstâncias do caso concreto. Essa abordagem evita que a medida seja pautada
exclusivamente na subjetividade do agente, protegendo o cidadão contra práticas
abusivas, como a chamada “pesca probatória”.
A pesca probatória ocorre quando a busca é realizada sem justificativa
plausível, com o objetivo de encontrar qualquer indício de crime de maneira aleatória e
sem relação direta com a situação específica. Esse tipo de conduta é incompatível com os
princípios do Estado de Direito, pois desrespeita os direitos fundamentais à intimidade e à
liberdade, além de violar o princípio da legalidade e o devido processo legal.
Assim, é essencial que a busca pessoal seja embasada em elementos
concretos e objetivos que indiquem uma suspeita razoável, garantindo que a abordagem
seja proporcional e legítima, respeitando os direitos do cidadão e assegurando a eficácia
do trabalho policial dentro dos limites da lei.
A jurisprudência assim dispõe sobre o tema:

A busca pessoal é legítima se amparada em fundadas razões, se devidamente


justificada pelas circunstâncias do caso concreto ( HC 7201 STJ de 24/02/2022)

O tema ficou bem definido no julgamento do Recurso Ordinário em Habeas


Corpus (RHC) 158580/BA, ocorrido na data de 19 de abril de 2022, da relatoria do Ministro
Rogério Schietti Cruz (STJ).
A ementa do julgado pode ser acessada pelo QRCODE abaixo:

Aponte o celular para acessar o conteúdo

Dica Policial: Apresentamos alguns exemplos de elemento objetivo


capaz de gerar a fundada Suspeita:

[Link] ao avistar a viatura;


2. Mudanças bruscas de direção ao avistar a polícia;

[Link] de esconder objetos ou se afastar de local, sobretudo em área


conhecida pela criminalidade;

[Link]ícios visuais de objetos ilícitos;


[Link] ou acessórios compatíveis com as informadas por vítimas ou
testemunhas de uma infração penal;

A atuação do Poder judiciário buscou afastar critérios frouxos e subjetivos,


haja vista a busca pessoal ser um dos principais institutos de obtenção de prova do Estado,
que impedem, ainda que momentaneamente, o direito à liberdade.
Quando a medida for determinada no curso de busca
domiciliar.

A Busca Domiciliar é uma medida judicial que permite às autoridades


ingressarem em uma residência ou local privado, sem estar diretamente ligado com
flagrante de delito, mas buscando provas ou objetos ligados a um crime.
Tal medida deve respeitar a alguns critérios:

1. Autorização Judicial;
2. Deve, via de regra, ser realizada durante o dia;
3. Motivação específica;
4. Proporcionalidade e respeito aos direitos;
5. Deverão ler e mostrar o mandado;

Esse meio de obtenção de prova é regulado pelo Código de Processo Penal,


nos artigos 245 a 250.

1.3 Abordagem Policial Municipal


Atualmente, a atuação da Polícia Municipal é pautada na sua competência
geral de proteção dos bens, serviços e instalações municipais, assim como no auxílio aos
demais órgãos de segurança pública, conforme disposto na Constituição Federal e no
Estatuto Geral das Guardas Municipais, não havendo disciplina específica sobre a
abordagem de pessoas e a obtenção de provas.
No julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental
(ADPF) 995, ocorrido em 28 de agosto de 2023, o Supremo Tribunal Federal decidiu no
sentido de que as Guardas Civis Municipais integram o Sistema Único de Segurança
Pública.
Conforme o voto do Relator, Ministro Alexandre de Moraes, as GCMs têm,
entre suas atribuições, o poder/dever de prevenir, coibir e inibir as infrações penais. Trata-
se de verdadeira natureza de segurança pública.
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Dica Policial: Para evitar nulidades, é importante correlacionar a


ocorrência ao patrimônio municipal.

Mudança de entendimento
A Corte Máxima (STF), declarou a inconstitucionalidade de interpretações
que excluam as Guardas Municipais do Sistema de Segurança Pública, conforme previsto
na ADPF 995, reformando decisão da 6ª Turma do STJ (Reclamação nº 62.455).
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Dica Policial: Para evitar nulidades, é fundamental que a descrição da


fundada suspeita esteja devidamente correlacionada aos fatos da
ocorrência.
2. Procedimentos na abordagem
Os procedimentos em uma abordagem policial devem seguir um protocolo
para garantir a segurança dos operadores, bem como salvaguardar a integridade física de
todos envolvidos.
Via de regra, cada corporação tem autonomia para criar seu Procedimento
Operacional Padrão (POP), adaptado a sua realidade.
No âmbito municipal de Santos, são observadas as seguintes diretrizes para
abordagem policial:

2.1 Avaliação Inicial


Reconhecimento: O Policial municipal deverá avaliar rapidamente a
situação, e identificar fatores de risco.
O policial municipal ao realizar uma abordagem, embora tenha amparo
legal, deverá ter e mente que o abordado possui direitos e garantias individuais a serem
respeitadas.
Ele deverá estar preparado para o pior, agindo com rigor, porém, sempre
observando o princípio da legalidade.
A seleção do indivíduo a ser abordado se dará sempre mediante “fundada
suspeita ou flagrante de delito”. Essa escolha nunca poderá ser aleatória.

2.2 Comunicação
O Policial Municipal deverá manter comunicação constante com o Centro
de Controle Operacional (CCO), para atualização das informações sobre o andamento da
ocorrência, solicitar o acompanhamento das câmeras de monitoramento e pedir reforço.
Segurança: garantir a segurança do local, para minimizar riscos a policiais,
vítimas e transeuntes.
2.3 Busca pessoal
Via de regra, a quantidade numérica de policiais municipais deverá ser igual
ou superior ao número de abordados. Tal regra, conforme o caso concreto, poderá admitir
exceções:

a) Identifique-se como policial, e verbalize o motivo da abordagem;


b) Assuma o controle da situação, emita ordens curtas e claras, evitando assim
dificuldade na compreensão por parte do abordado;
c) Caso o abordado reaja e tente agredi-lo, defenda- se projetando o corpo dele para
frente, recue de costas para uma posição mais segura.
d) realize as pesquisas necessárias (sistemas muralha paulista e agente de campo, por
exemplo), e faça as perguntas pertinentes;
e) caso seja constatada alguma ilegalidade o abordado deverá ser conduzido à
Delegacia de Polícia.

2.4 Uso da Força

O uso da força em uma abordagem policial deverá sempre partir da


premissa do uso diferenciado da força, ou seja, utilizar o nível de força proporcional à
resposta oferecida pelo sujeito.
Conforme a Lei 13.060/2014, os agentes policiais deverão priorizar o uso de
instrumentos de menor potencial lesivo, in verbis:

Art. 2º Os órgãos de segurança pública deverão priorizar a utilização dos instrumentos de


menor potencial ofensivo, desde que o seu uso não coloque em risco a integridade física
ou psíquica dos policiais, e deverão obedecer aos seguintes princípios:
I - legalidade;
II - necessidade;
III - razoabilidade e proporcionalidade.
Parágrafo único. Não é legítimo o uso de arma de fogo:
I - contra pessoa em fuga que esteja desarmada ou que não represente risco imediato de
morte ou de lesão aos agentes de segurança pública ou a terceiros; e
II - contra veículo que desrespeite bloqueio policial em via pública, exceto quando o ato
represente risco de morte ou lesão aos agentes de segurança pública ou a terceiros.
A atuação do operador de segurança deve ser pautada pela legalidade,
garantindo a segurança pública e a confiança da sociedade. A observância da lei
proporciona segurança jurídica ao profissional e contribui para um ambiente de trabalho
mais justo e respeitoso.
A intervenção policial deve ser proporcional à resistência ou ameaça. Essa
observância ajuda a reduzir o risco de excessos e abusos, pois os agentes são orientados a
utilizar a força necessária para conter a atuação.
Essa observância ajuda a reduzir o risco de excessos e abusos, pois os
agentes são orientados a utilizar a força necessária para conter a atuação.

2.5 Emprego de algemas

O uso de algemas é uma medida excepcional que, embora não proibido


expressamente pela Constituição, tem mecanismos de gerenciamento no Brasil. Trata-se
de uma prática comum pelos agentes de segurança pública, sobretudo em situações de
prisão.
No Brasil, o Supremo Tribunal Federal disciplinou que o uso de algemas
deve ser feito de forma excepcional, nos termos da Súmula Vinculante 11, conforme a
seguir:

Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de


fundado receio de fuga ou de perigo à integridade física
própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros,
justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de
responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente ou da
autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a
que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do
Estado. (grifo nosso).
É importante destacar que a Súmula Vinculante tem o caráter obrigatório
para as demais instâncias e para administração pública direta e indireta, nas esferas
Federal, Estadual e Municipal.
Além disso, existe o Decreto Federal nº 8.858/2016, que também disciplina o
uso das algemas.

Quadro Resumo
Critério de Consequências do uso
Hipóteses autorizativas Recomendações
licitude irregular
[Link]
[Link] machucar ou disciplinar, civil e penal do
[Link] de fuga; agente ou da autoridade;
deixar lesões;
Só é lícito nas
[Link] de resistência; 2. Nulidade da prisão ou
hipóteses que [Link]
do ato processual a que
autorizam constranger ou usar
3. Perigo à integridade se refere;
a algema de forma
física própria ou alheia;
irregular; 3. Responsabilidade civil
do Estado

Dica Policial: Sempre consulte a Súmula Vinculante nº 11 (STF) para


auxiliar na fundamentação do uso das algemas na documentação da
ocorrência policial.

Em maio de 2024, o STF estabeleceu a seguinte tese:

"Em se tratando de menor de idade, além das balizas fixadas


na Súmula Vinculante N° 11, a necessidade de utilização de
algemas apresentada pela autoridade policial deve ser
avaliada pelo Ministério Público e submetida ao Conselho
Tutelar, que se manifestará a respeito das providências
relatadas"

Naquela oportunidade, o Excelso Pretório estabeleceu 5 diretrizes que


norteiam a utilização de algemas nos caso de apreensão de menores:

I - Uma vez apreendido e não sendo o caso de liberação, o


menor será encaminhado ao representante do Ministério
Público competente (ECA/1990, art. 175), que deverá avaliar
e opinar sobre a eventual necessidade de utilização de
algemas apontada pela autoridade policial que estiver
realizando a diligência em questão;
II - Não sendo possível a apresentação imediata do menor ao
órgão ministerial, ele será encaminhado à entidade de
atendimento especializada, que deverá apresentá-lo em
vinte e quatro horas ao representante do Parquet (ECA/1990
art. 175, § 1º);

III - Nas localidades em que não houver entidade de


atendimento especializada para receber o menor
apreendido, ele ficará aguardando a apresentação ao
representante do Ministério Público em repartição policial
especializada e, na falta desta, em dependência separada da
destinada a maiores (ECA/1990, art. 175, § 2º), não podendo
assim permanecer por mais de vinte e quatro horas;

IV - Apresentado o menor ao representante do Parquet e


emitido o parecer sobre a eventual necessidade de utilização
das algemas, essa questão será submetida à autoridade
judiciária que deverá se manifestar de forma motivada sobre
a matéria no momento da audiência de apresentação do
menor; e

V - O Conselho Tutelar deverá ser instado a se manifestar


sobre as providências relatadas pela autoridade policial, para
decisão final do Ministério Público.

Dica Policial: A regra geral para o uso de algemas no Brasil é


estabelecida pela Súmula Vinculante nº 11, que deve ser interpretada
em conjunto com o Decreto nº 8.858/2016 e o artigo 199 da Lei de
Execuções Penais.

2.6 Documentação
A documentação é uma prática essencial em qualquer área de trabalho,
especialmente no contexto policial, pois consiste em registrar informações relevantes
sobre a ocorrência. Documentar os fatos é um dever do agente de segurança, garantindo a
transparência e preservando a conduta do operador de segurança pública.
Uma documentação bem elaborada previne desgastes para o policial no
pós-ocorrência, facilita o trabalho da Corregedoria e contribui para a tomada de decisões
com base em registros claros e objetivos. Além disso, proporciona respaldo legal,
comprovando a conduta adotada pela guarnição diante da situação enfrentada.
No âmbito da Guarda Civil Municipal de Santos, todos os fatos são
registrados em Boletim de Ocorrência, cuja cópia pode ser obtida pelo interessado junto
ao setor de Protocolo Geral da Prefeitura.
Alguns princípios que auxiliam na boa elaboração de um documento:

1. Seja claro e conciso;


2. Organize o texto;
3. Observe a norma culta para melhor credibilidade;
4. Inclua detalhes importantes da ocorrência;
5. Revise para evitar erros;
3. PROTEÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Por muitos anos, o tema “Direitos Humanos” foi erroneamente percebido


como antagônico ao de Segurança Pública. Essa oposição é fruto dos abusos cometidos no
Brasil entre 1964 e 1984, um período que aprofundou a divisão entre sociedade e polícia,
como se esta última não fizesse parte daquela.
A atividade policial, nesse contexto, foi equivocadamente associada à
repressão antidemocrática, à truculência e ao conservadorismo. Por outro lado, os
“Direitos Humanos” passaram a ser vistos como uma militância ideologicamente vinculada
à esquerda.
Com a redemocratização do Brasil, surgiu ainda outra distorção: os
defensores dos Direitos Humanos foram rotulados como “defensores de bandidos” ou da
impunidade.
Essas visões, claramente enviesadas e prejudicadas pelo preconceito, não
refletem a realidade.
Hoje, enquanto consolidamos nossa democracia, superar essa dicotomia é
essencial. A manutenção desses conceitos distorcidos impede a construção de uma
parceria efetiva entre Direitos Humanos e Segurança Pública, necessária para o
desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente civilizada.
A garantia dos direitos humanos é de fundamental importância para a
construção de uma sociedade justa e democrática. Os Guardas Civis Municipais, como
agentes de segurança pública, desempenham um papel crucial na proteção desses
direitos. Neste sentido devemos entender qual o papel das Guardas Civis Municipais na
proteção dos direitos humanos, bem como os desafios e perspectivas para o futuro.
A dignidade da pessoa humana, que constitui um dos princípios
fundamentais da República Federativa do Brasil, nos termos da nossa Carta Magna,
assegura a igualdade de direitos a todos perante a lei, na esfera individual ou na vida em
sociedade.
DIREITOS INDIVIDUAIS (Art. 5º da CF/88) DIREITOS SOCIAIS (Art. 6º da CF/88)

São direitos sociais a educação, a saúde,


Todos são iguais perante a lei, sem distinção a alimentação, o trabalho, a moradia, o
de qualquer natureza, garantindo-se aos transporte, o lazer, a segurança, a
brasileiros e aos estrangeiros residentes no previdência social, a proteção à
País a inviolabilidade do direito à vida, à maternidade e à infância, a assistência
liberdade, à igualdade, à segurança e à aos desamparados, na forma desta
propriedade. Constituição.

Para garantir que o direito individual não sobreponha ao direito coletivo, a


Administração Pública possui o poder de polícia para restringir a atividade individual
quando esta afetar a coletividade ou o bem estar social. O fundamento do poder de polícia
é o princípio da supremacia do interesse coletivo sobre o privado.

O que diz a lei?

Art. 78. Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que, limitando
ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou abstenção de
fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à ordem, aos
costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades econômicas
dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranqüilidade pública ou
ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. (Redação dada pelo Ato
Complementar nº 31, de 1966)

Parágrafo único. Considera-se regular o exercício do poder de polícia quando


desempenhado pelo órgão competente nos limites da lei aplicável, com observância do
processo legal e, tratando-se de atividade que a lei tenha como discricionária, sem
abuso ou desvio de poder. (Lei Federal nº 5.172/1966 - Código Tributário Nacional )

A abordagem policial nunca deve ser fundamentada por razões pessoais,


preconceito ou discriminação por raça, cor da pele, local de moradia, idade, religião,
orientação sexual, assim como histórico de conduta criminal. A pessoa que cometeu um
crime anterior não pode ser abordada pelo seu histórico a não ser que este esteja em
atitude suspeita no momento do ato de abordagem.
Vale destacar alguns dos direitos fundamentais insculpidos no Art. 5º da
Constituição Federal, de observância obrigatória na atividade policial das Guardas Civis
Municipais:

 Ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em


virtude de lei
 Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou
degradante
 São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas
 A casa é asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem
consentimento do morador, salvo em caso de flagrante delito
 É livre a locomoção no território nacional em tempo de paz, podendo
qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair
com seus bens
 Não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia
cominação legal
 A lei punirá qualquer discriminação atentatória dos direitos e liberdades
fundamentais
 A prática do racismo constitui crime inafiançável e imprescritível, sujeito à
pena de reclusão
 Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo
legal

Dica Policial: Lembre-se que o acesso à informação é essencial para a


existência de uma sociedade livre e democrática. Ofereça as
informações necessárias à imprensa, quando solicitado, atentando para
o fato de que a pessoa presa tem o direito de não permitir a captura de
sua imagem pela imprensa.

O que diz a lei?

O Artigo 5º da Constituição Federal, que trata das garantias individuais e da


liberdade, estabelece os seguintes limites para a prisão de uma pessoa:

X - São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem;

LXII - a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados


imediatamente ao juiz competente e à família do preso ou à pessoa por ele indicada;

LXIII - o preso será informado de seus direitos, entre os quais o de permanecer


calado, sendo-lhe assegurada a assistência da família e de advogado;

LXIV - o preso tem direito à identificação dos responsáveis por sua prisão ou por seu
interrogatório policial;

LXV - a prisão ilegal será imediatamente relaxada pela autoridade judiciária


É de suma importância adotar uma atitude crítica em relação à atuação
profissional própria e dos companheiros de trabalho, a fim de evitar atitudes
discriminatórias, reconhecendo a diferença entre pessoas sem classificá-las como “certo
ou errado”, “melhor ou pior”. Não se pode permitir que as preferências pessoais se
sobreponham ao dever legal de proteger a TODOS. O agente de segurança pública deve
proteger o direito das pessoas abordadas, da mesma forma que preserva os seus como
policial.
Como exemplo disso, em recente decisão da 16ª Vara Criminal do Tribunal
de Justiça bandeirante, foi reconhecida a ilegalidade da prisão desencadeada por
abordagem a pessoa em situação de rua, com base na própria condição de vulnerabilidade
social:

APELAÇÃO CRIMINAL nº 1523479-33.2019.8.26.0114 (TJSP)

“Dessa forma, a resposta ao caso concreto é simples: não é lícita a atuação de


guardas municipais quando saem em missão de abordar e revistar moradores de
rua, mormente quando surpreendidos dormindo e sem qualquer sinal de que
poderiam estar praticando crimes (...) ACORDAM, em sessão permanente e
virtual da 16ª Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo,
proferir a seguinte decisão: Deram provimento ao recurso defensivo para,
reconhecendo a ilegalidade da ação dos guardas municipais no caso concreto,
absolver JÉSSICA MAYARA PEREIRA RODRIGUES da imputação da prática dos
crimes de desacato e de lesão corporal, com fundamento no artigo 386, incisos III
e VII, respectivamente, do Código de Processo Penal. V.U., de conformidade com
o voto do relator, que integra este acórdão.”

Muitos casos de prisões consideradas arbitrárias são resultado de


motivações irregulares e/ou equivocadas, o que é atentatório aos direitos do cidadão. Por
essa razão, exige-se a máxima cautela do policial na administração do poder de polícia.

3.1 Cidadania e Direitos Humanos


3.1.1 Policial: um cidadão qualificado
O policial é, antes de tudo, um cidadão, e é na cidadania que encontra sua
essência e propósito. Contudo, ainda existem resquícios ideológicos que, em alguns
contextos, dificultam a compreensão do verdadeiro papel da polícia. O profissional de
Segurança Pública, no entanto, é um cidadão com qualificações especiais: ele simboliza o
Estado em sua presença mais imediata e acessível à população. Como a autoridade mais
frequentemente encontrada no cotidiano, desempenha o papel de “porta-voz” das
diversas esferas do poder.
Além disso, possui a exclusiva autorização para o uso legítimo da força e de
armas, dentro dos limites da lei, o que lhe confere uma posição singular, capaz de
influenciar diretamente a construção ou a destruição do tecido social. O impacto que esse
cidadão qualificado exerce sobre indivíduos e comunidades é significativo e carregado de
simbolismo, podendo, a depender de suas ações, promover o bem-estar ou o mal-estar da
sociedade.

3.1.2 Policial: educador da cidadania


A atuação policial transcende suas funções práticas e assume uma dimensão
pedagógica fundamental. Assim como ocorre em outras profissões voltadas ao serviço
público, o policial, por meio de sua conduta cotidiana, desempenha um papel educativo
que não apenas complementa, mas também precede suas atribuições técnicas.
Sob essa perspectiva, o policial se configura como um legítimo educador,
inserido nos paradigmas contemporâneos que reconhecem o papel formativo de
diferentes profissionais na construção da cidadania. Essa dimensão educativa, quando
conscientemente expressa por meio de atitudes e comportamentos exemplares, enaltece
a nobreza de sua função e reafirma seu compromisso com a construção de uma sociedade
mais justa, ética e consciente.
Além disso, a autoridade moral inerente ao policial confere a ele o potencial
de ser um dos mais relevantes promotores dos Direitos Humanos. Ao abraçar esse papel,
ele não apenas combate o descrédito social, mas também se posiciona como uma figura
central na consolidação dos valores democráticos e na promoção do bem-estar coletivo.

3.1.3 Direitos humanos dos policiais: humilhação versus hierarquia


O equilíbrio psicológico, indispensável para o exercício da função policial,
está intrinsecamente ligado à saúde emocional do ambiente institucional. Quando policiais
são submetidos a maus-tratos ou práticas abusivas dentro da corporação, é provável que
essa pressão emocional se manifeste em atitudes agressivas no trato com a população.
Embora a hierarquia seja fundamental para a organização e o
funcionamento da polícia, é imprescindível distinguir entre liderança legítima e abuso de
autoridade, entre disciplina e humilhação. A tolerância a práticas como o assédio moral ou
a violação dos direitos humanos dos policiais cria um ambiente que favorece o
comportamento de indivíduos com tendências autoritárias ou sádicas, permitindo que
utilizem seus cargos de liderança para agir de forma prejudicial e destrutiva.
A hierarquia verdadeira deve se basear na legalidade e na racionalidade,
distanciando-se do personalismo e de atitudes opressoras. O respeito aos superiores não
pode ser imposto pela humilhação ou pelo medo, mas sim construído por meio da
admiração e da confiança. Afinal, é impossível respeitar alguém que se teme ou despreza.
Para que a hierarquia seja eficaz e respeitada, ela precisa estar associada a
uma liderança genuína. Isso significa que os superiores devem adotar práticas que
promovam o respeito mútuo, baseadas em competência, transparência e regras claras,
sempre orientadas por objetivos coletivos e não por interesses pessoais. Uma liderança
autêntica inspira confiança, fortalece os laços institucionais e cria um ambiente que
favorece o desempenho de uma polícia comprometida com a justiça, os direitos humanos
e a construção de uma sociedade mais segura e equitativa.

3.2 Crianças e adolescentes


A criança e o adolescente gozam de todos os direitos consagrados na
Constituição Federal, além dos direitos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente
(Lei Federal nº 8.069/1990).
Conforme disposto em lei considera-se:

 Criança: Pessoa de até DOZE anos de idade incompleto


 Adolescente: Pessoa entre DOZE e DEZOITO anos de idade
 O Art. 103 do ECA especifica que menores de dezoito anos são
inimputáveis, portanto, não cometem ‘crime’ e sim ‘ato infracional’
 Ato Infracional: Conduta descrita como crime ou contravenção penal.
Ao ato infracional cometido por criança se aplicarão medidas protetivas
conforme previsto no art. 101 do ECA. São elas:

 Encaminhamento aos pais ou responsável, mediante termo de


responsabilidade;
 Orientação, apoio e acompanhamento temporários;
 Matrícula e frequência obrigatórias em estabelecimento oficial de
ensino fundamental;
 Inclusão em serviços e programas oficiais ou comunitários de
proteção, apoio e promoção da família, da criança e do adolescente
 Requisição de tratamento médico, psicológico ou psiquiátrico, em
regime hospitalar ou ambulatorial;
 Inclusão em programa oficial ou comunitário de auxílio, orientação e
tratamento a alcoólatras e toxicômanos;
 Inclusão em programa de acolhimento familiar
 Colocação em família substituta.
 Acolhimento institucional;

Ao ato infracional cometido por adolescente se aplicarão medidas


socioeducativas conforme previsto no art. 112 do ECA. São elas:

 Advertência;
 Obrigação de reparar o dano;

 Prestação de serviços à comunidade;

 Liberdade assistida;

 Inserção em regime de semiliberdade;


 Internação em estabelecimento educacional;

 qualquer uma das previstas no art. 101, I a VI, do ECA.

Condutas adotadas pelo agente de segurança pública.


O adolescente civilmente identificado não pode ser obrigado à identificação
pelos órgãos policiais, de proteção ou judiciais, salvo para confrontação se existir dúvida
fundada.
Quando apreendida cometendo ato infracional à criança ou adolescente
deve ser encaminhado imediatamente a Delegacia Especializada da Criança e do
Adolescente.

Algemação de adolescente
O Supremo Tribunal Federal, em decisão de maio de 2024, reforçou a
necessidade de maior controle sobre o uso de algemas em adolescentes apreendidos.
Além das restrições já estabelecidas na Súmula Vinculante nº 11, o STF determinou que a
decisão de algemar um menor deve ser avaliada pelo Ministério Público e submetida ao
Conselho Tutelar. Essa nova regra visa garantir que a medida seja utilizada de forma
excepcional e de acordo com o melhor interesse do adolescente, assegurando que a
medida seja proporcional à gravidade da infração e à necessidade de garantir a ordem
pública (vide item 3.5 da presente cartilha).

Transporte do menor infrator


O Artigo 178 do ECA dispõe que “o adolescente a quem se atribua autoria
de ato infracional não poderá ser conduzido ou transportado em compartimento fechado
de veículo policial, em condições atentatórias à sua dignidade, ou que impliquem risco à
sua integridade física ou mental, sob pena de responsabilidade”.

Dica Policial: Lembre-se que na atuação policial em ocorrência


envolvendo crianças e adolescentes, você também exerce o papel de
protetor do menor. Busque ter uma visão ampla da situação,
protegendo não apenas o ofendido, mas garantindo também os direitos
do infrator.

A criança e o adolescente têm o direito de ser educados e cuidados sem o


uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção,
disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família
ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas
socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los
ou protegê-los. (ECA Art. 18-A).
Aponte o celular para ler Estatuto da Criança e do Adolescente

3.3 Racismo e discriminação racial


O conceito de racismo advém da suposição de superioridade de
determinados grupos sobre outros em razão de nacionalidade, etnia e religião.
Já o termo “discriminação racial” indica a distinção, exclusão, restrição ou
preferência baseada na raça, cor, etnia ou nacionalidade, dificultando ou impedindo o
reconhecimento ou exercício da Igualdade de direitos.
Nossa Constituição institui que a prática do racismo é crime inafiançável e
imprescritível, sujeito à pena de reclusão.

O que diz a lei?

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil:


(...)
IV - Promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor,
idade e quaisquer outras formas de discriminação. (CF/1988)

Os crimes resultantes de preconceito de raça e cor estão descritos na Lei


Federal nº 7716/1989 (define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor),
dentre os quais estão os crimes de racismo e injúria racial.

Racismo – Lei 7.716/1989

Art. 20 - Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça,


cor, etnia, religião ou procedência nacional.

Injuria racial – Lei 7.716/1989

Art. 2º-A Injuriar alguém, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro, em razão


de raça, cor, etnia ou procedência nacional. (Incluído pela Lei nº 14.532, de 2023)
Dica Policial: A abordagem policial nunca deve se basear na cor de
pele, raça, etnia ou nacionalidade. Use termos como “cidadão/cidadã”
ao se comunicar com o abordado. O uso de termos pejorativos colocam
o agente às margens da lei, além de diminuir sua credibilidade diante
da pessoa alvo da abordagem.

A Suprema Corte apreciou o referido tema no julgamento do Habeas Corpus


nº 208.240, reconhecendo a Ilegalidade da revista policial feita em razão da cor da pele do
acusado.

No HC 208.240, a Defensoria Pública do Estado de São Paulo (defesa do réu) alegou que o fato de
sua pele ter a cor negra foi o principal motivo para que os policiais militares decidissem revistá-lo.
Afirma que essa conduta é discriminatória e invalida todas as provas do processo.

Leia na integra:

Atendimento de ocorrência de Racismo


Procedimentos:

 Fazer cessar a ação criminosa.

 Prender em flagrante o autor do crime de racismo.

 Conduzir preso, vítima e, quando possível, testemunhas para a


Delegacia.

 Conduzir preso e vítima separadamente.

 Lavrar o Registro de Ocorrência.


3.4 Pessoas com deficiência
As deficiências podem ter ordem física, motora, mental, intelectual e
sensorial (visual ou auditiva).

O que diz a lei?

LEI FEDERAL Nº 13.146, DE 6 DE JULHO DE 2015

Art. 4º Toda pessoa com deficiência tem direito à igualdade de


oportunidades com as demais pessoas e não sofrerá nenhuma
espécie de discriminação.

Quando falamos em igualdade de oportunidades pensamos na locomoção,


atendimento em locais públicos e liberdade de acesso.
Aqui estamos tratando de abordagem policial, então, além de garantir os direitos acima
citados, o policial tem o dever de garantir uma abordagem justa à pessoa com deficiência.
Surge então a seguinte pergunta: Você está preparado para tal
procedimento?
Na abordagem a pessoa com deficiência, esta não deve ser tratada como
inferior devido a sua condição pessoal, por outro lado, não se deve desprezar outras
circunstâncias que possam indicar seu envolvimento em ato criminoso.

Abordagem a cadeirantes

 Deve-se dar as ordens já descritas nos capítulos anteriores.


 Ao efetuar a busca pessoal tenha em mente que o ideal é este ser feita
por dois agentes, sendo que um deverá levantar o indivíduo da cadeira
para que a mesma seja verificada.
 Todo procedimento deve garantir a dignidade da pessoa e não a
constranger
 Tenha paciência e cautela
Abordagem a pessoas surdas
Quando se emite uma ordem de parada, espera-se que esta seja acatada,
porém, as abordagens a pessoas surdas exigem maior perspicácia e cautela por parte do
operador de segurança, sendo imprescindível o reconhecimento dessa peculiaridade o
mais rápido possível.
A abordagem a pessoa surda segue o mesmo procedimento operacional
padrão das demais abordagens, porém com a necessidade de uma comunicação
diferenciada. Se o agente e o surdo tiverem condições de se comunicar em libras, esta
deve ser a linguagem adotada. Quando não for possível a comunicação através da
linguagem de sinais, geralmente o surdo possui aptidão para efetuar a leitura labial, nesse
caso, o agente deve se comunicar sempre de frente para o mesmo e com a melhor dicção
possível.
Após identificar o abordado e dar as ordens necessárias para a busca
pessoal, segure sua mão enquanto permanece ao seu lado, para não assustá-lo ao
proceder a aproximação pelas costas.

Dica Policial:Lembre-se: não adianta gritar com a pessoa surda.


Gesticule de forma coerente e fale devagar. Ao conduzir uma vítima
surda para a delegacia, explique o que está acontecendo para que ela
entenda que não está sendo presa. No auxílio a pessoa surda, você pode
testar também a utilização da comunicação escrita.

3.5 População LGBT

Identidade de gênero
A identidade de gênero (IDG) diz respeito à experiência interna e individual
relacionada ao gênero com o qual a pessoa se identifica. A identidade de gênero não está
necessariamente relacionada com características biológicas tipicamente atribuídas aos
sexos masculino e feminino.

Orientação sexual
Há pessoas que se identificam com um gênero diferente daquele do seu
nascimento. Quando a identidade de gênero de uma pessoa corresponde ao seu sexo
biológico, dizemos que essa pessoa é cisgênera. Quando, por outro lado, a pessoa se
identifica com um gênero diverso daquele que lhe foi designado ao nascer, trata-se de
pessoa transgênero ou, simplesmente, trans.

Dica Policial: Use a palavra “homossexualidade” para se referir a


população LGBT. O termo “homossexualismo” foi usado até 1985 para
designar um comportamento como doença. A partir dessa data a
Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou o termo da Classificação
Internacional de Doenças. Portanto, nunca use a palavra
homossexualismo.

LGBTfobia é o preconceito em virtude da identidade de gênero ou


orientação sexual. Alcança, além da homofobia: lesbofobia (preconceito contra lésbicas);
gayfobia (preconceito contra gays); bifobia (preconceito contra bissexuais) e transfobia
(preconceito contra pessoas trans).
Ser LGBTfóbico é repudiar, odiar, discriminar, temer, ter aversão a lésbicas,
gays, bissexuais, travestis e transexuais. A LGBTfobia significa a intolerância em relação à
diversidade sexual e de gênero.
Demonstrações públicas de afeto não são ilegais desde que não sejam atos
obscenos de cunho sexual, isto serve tanto para pessoas homossexuais como
heterossexuais. O policial tem o dever de orientar e conscientizar a população quanto a
esta questão.

Procedimentos na abordagem a travestis e mulheres trans

Deve ser observada a vestimenta e acessórios utilizados, respeitando a


identificação de gênero da pessoa;
Deve ser utilizado termo feminino ao se dirigir a travestis e mulheres trans
(senhora, ela, dela);
Pergunte de que for a pessoa gostaria de ser chamada (nome social);
 Aceite o nome dado, sendo ele feminino, masculino ou neutro. Você não
tem o direito de julgar o nome;
 A busca pessoal deve ser feita preferencialmente por policial feminina.
Observados preceitos de segurança. Obs. Nada impede que o policial
pergunte a pessoa abordada se esta se opõe a ser revistada por policial
masculino;
 Na documentação da ocorrência deve conter o nome de registro e
também o nome social. Seja discreto e respeitoso ao solicitar tais
informações e evite falar em alto tom de voz o nome de registro, continue
usando o nome social ao se dirigir a abordada.
 A travesti e mulher trans., em caso de condução, devem ser transportadas
separadas de homens.
Procedimentos na abordagem a homens trans:

Os homens trans. utilizam vestimenta e acessórios masculinos.

 deve ser observada a vestimenta e acessórios utilizados, respeitando a identificação


de gênero da pessoa
 Deve utilizar termo masculino ao abordar um homem trans. (senhor, ele, dele)

 Pergunte de que forma a pessoa abordada gostaria de ser chamada (nome social)

 Aceite o nome dado, sendo ele feminino, masculino ou neutro. Você não tem o
direito de julgar o nome.

 Prioritariamente, o efetivo feminino deve realizar a busca pessoal no homem


transexual. Isso se deve ao fato de que, mesmo com a intenção em proceder
conforme a identidade de gênero a ser expressa pela pessoa abordada, há legislação
específica que regula a busca pessoal em mulheres. Assim, para obedecer ao
exposto no Artigo 249 do Código de Processo Penal (CPP), a busca pessoal em
mulheres deve ser feita por outra mulher.

 Na documentação da ocorrência deve conter o nome de registro e também o nome


social. Seja discreto e respeitoso ao solicitar tais informações e evite falar em alto
tom de voz o nome de registro, continue usando o nome social ao se dirigir ao
abordado.

 O homem transexual capturado ou detido deverá ser conduzido em separado dos


homens biológicos, pois há legislação específica relativa ao cárcere de mulheres. Em
consonância ao disposto no Artigo 766 do CPP, o homem transexual deve ser
mantido em separado, para prevenir violência transfóbica, assim como “a internação
das mulheres será feita em estabelecimento próprio ou em seção especial”.

Uso do Banheiro
Devem ser proporcionados banheiros de acordo com a identidade de
gênero das pessoas (banheiro feminino para aquelas que se identificam com gênero
feminino e banheiro masculino para aqueles que se identificam com gênero masculino) ou
ainda o banheiro de acordo com a preferência do(a) usuário(a), garantido-se a sua
segurança. Pessoas físicas ou jurídicas que se recusarem a permitir esse uso praticam
conduta discriminatória com base na Lei Estadual nº 10.948/01.
Lei na integra

O Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu por unanimidade, o direito à


mudança de nome e sexo de travestis e transexuais, diretamente nos cartórios e sem a
necessidade de realização de cirurgia de redesignação sexual (Ação Direta de
Inconstitucionalidade - ADI 4275).
Destaca-se, também, o Decreto Federal nº 8.727/2016, que reconhece o
uso do nome social de travestis e transexuais no âmbito da administração pública federal
direta, autárquica e fundacional, e veda o uso de expressões pejorativas ou
discriminatórias para se referir a essas pessoas.

Saiba mais sobre a comunidade LGBT

3.6 Pessoas idosas


De acordo com o Estatuto do Idoso, é considerada pessoa idosa aquela com
mais de 60 anos de idade.
O envelhecimento é um direito personalíssimo e a sua proteção um direito
social, nos termos da lei e da legislação vigente. É obrigação do Estado, garantir à pessoa
idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que
permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade.
O que diz a Lei?

LEI FEDERAL Nº 10.741, DE 1º DE OUTUBRO DE 2003.

Art. 10. É obrigação do Estado e da sociedade assegurar à pessoa idosa a


liberdade, o respeito e a dignidade, como pessoa humana e sujeito de direitos
civis, políticos, individuais e sociais, garantidos na Constituição e nas leis.

§ 2o O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física,


psíquica e moral, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da
autonomia, de valores, idéias e crenças, dos espaços e dos objetos pessoais.

Abordagem a pessoa idosa

 Utilize termos como senhor, senhora ou pergunte o nome. Não utilize


termos que possam ser considerados pejorativos, como tio, velho, coroa,
vovô.

 Faça com que a pessoa idosa entenda o que você diz. A pessoa idosa não
possui a mesma capacidade de audição e visão dos jovens, portanto
verbalize pausada e articuladamente.

 Cuide da integridade física da pessoa idosa abordada

 Lembre-se das limitações físicas da pessoa idosa. Sempre que houver


condição de segurança, evite colocá-la em uma posição desconfortável
durante a busca pessoal, como de joelho ou deitada.

 Quando for necessário algemar a pessoa idosa, faça com as mãos para
frente, se não trouxer prejuízo à segurança.

 Não conduza a pessoa idosa no compartimento fechado de segurança das


viaturas. Leve-a no banco de trás, no meio de dois patrulheiros, salvo no
caso de imperiosa necessidade de segurança para a guarnição.

Acsse o Estatuto do Idoso


3.7 População em situação de rua
Considera-se população em situação de rua o grupo populacional
heterogêneo que possui em comum a pobreza extrema, os vínculos familiares
interrompidos ou fragilizados e a inexistência de moradia convencional regular, e que
utiliza os logradouros públicos e as áreas degradadas como espaço de moradia e de
sustento, de forma temporária ou permanente, bem como as unidades de acolhimento
para pernoite temporário ou como moradia provisória. (Decreto Federal nº 7053/2009).
São diversos os fatores que podem levar uma pessoa a viver em situação de
rua, dentre eles fatores econômicos, desemprego, desamparo familiar, uso de drogas,
violência doméstica, problemas de saúde e mental, dentre vários fatores individuais e
particulares.
Pesquisa realizada pelo IPEA, com dados de 2015, aponta que existem
101.854 pessoas em situação de rua no Brasil. Esta realidade crescente tem tornado o
assunto uma grande discussão de âmbito nacional.
Esse debate, inclusive, está em andamento perante a Suprema Corte do país
(STF), através dos autos a Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 976,
na qual foi referendada uma decisão liminar que determinava o respeito, pelo Poder
Público, dos diretos das pessoas em situação de rua:

Decisão: O Tribunal, por unanimidade, referendou a decisão que concedeu parcialmente a


cautelar, tornando obrigatória a observância, pelos Estados, Distrito Federal e Municípios,
imediata e independentemente de adesão formal, das diretrizes contidas no Decreto
Federal nº 7.053/2009, que institui a Política Nacional para a População em Situação de
Rua, bem como as seguintes determinações: “I) A formulação pelo PODER EXECUTIVO
FEDERAL, no prazo de 120 (cento e vinte) dias, do PLANO DE AÇÃO E MONITORAMENTO
PARA A EFETIVA IMPLEMENTAÇÃO DA POLÍTICA NACIONAL PARA A POPULAÇÃO EM
SITUAÇÃO DE RUA, com a participação, dentre outros órgãos, do Comitê intersetorial de
Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para População em Situação de
Rua (CIAMP-Rua), do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), da Defensoria
Pública da União (DPU) e do Movimento Nacional da População em Situação de Rua. (...).
ADPF 976 (STF)
O decreto mencionado na decisão institui a Política Nacional para a
População em Situação de Rua, que prevê os direitos humanos inerentes a esse grupo
social, que também são de observância obrigatória pelos agentes de segurança pública.

De acordo com o preâmbulo da RECOMENDAÇÃO Nº 43, DE 23 DE


NOVEMBRO DE 2022, do Conselho Nacional dos Direitos Humanos:

“a aversão ao pobre, definida por Adela Corna (2017) como


‘aporofobia’, revela o olhar da sociedade capitalista que,
ofuscada pelo consumo e medo da ‘pobreza’, prefere
escamotear as causas principais da pobreza no mundo e
negar o direito à dignidade por parte de todas as pessoas
humanas, independentemente de sua condição
socioeconômica.”.

Por seu turno, a RESOLUÇÃO Nº 40, DE 13 DE OUTUBRO DE 2020 (Dispõe


sobre as diretrizes para promoção, proteção e defesa dos direitos humanos das pessoas
em situação de rua, de acordo com a Política Nacional para População em Situação),
editado pelo mesmo órgão, estabelece em seu artigo 24, que o domicílio improvisado da
pessoa em situação de rua é equiparado à moradia para garantia de sua inviolabilidade.

Papel do policial municipal na relação com a pessoa em situação de rua e a


sociedade
O direito humano da população em situação de rua à segurança pública
consiste na garantia de convivência social pacífica nos espaços e logradouros públicos em
igualdade de condições com as/os demais cidadãs/cidadãos, com preservação de sua
incolumidade, de sua privacidade e de seus pertences, assegurando atenção protetiva dos
órgãos e agentes públicos contra práticas arbitrárias ou condutas vexatórias ou violentas
(Art. 59 da Resolução nº 40, CNDH).
Vale lembrar que a “mendicância” deixou de ser tipificada como
contravenção penal a partir da Lei n° 11.983, de 16 de julho de 2009.
A Constituição Federal assegura que é livre a locomoção no território nacional em tempo
de paz, podendo qualquer pessoa, nos termos da lei, nele entrar, permanecer ou dele sair
com seus bens (Art. 5º, Inc. V).
Nesse tipo de ocorrência, é dever do operador de segurança orientar a
população quanto à legalidade dos fatos na situação de conflito.
A atuação da Guarda Civil Municipal em abordagens a pessoas em situação
de rua enfrenta desafios significativos, especialmente devido às expectativas da população,
que frequentemente demanda ações voltadas à “limpeza urbana” ou à criminalização
dessas pessoas.
Além disso, a GCM continua sendo pressionada a adotar posturas
repressivas, como a remoção forçada de indivíduos de seus locais de permanência, o que
colide com a lei e com as diretrizes dos órgãos de direitos humanos, do Ministério Público
estadual e da política nacional da SENASP/MJ.
Atualmente, existem procedimentos claros que definem as
responsabilidades no atendimento primário às populações em situação de rua. Esse
trabalho é prioritariamente realizado pelas equipes de assistência social e pelos órgãos
municipais responsáveis pelo abrigamento dessas pessoas.
A Guarda Civil Municipal pode oferecer apoio nas abordagens em situações
de risco à segurança dos servidores da assistência social, mas sem adotar posturas
repressivas ou criminalizantes.
É importante reforçar que a assistência social não é função da polícia. Cada
órgão atuando exclusivamente dentro de suas atribuições, os atendimentos a essa
população irão se tornar mais eficientes.
No entanto, a sociedade em geral carece de informações sobre qual órgão
deve ser acionado em situações que envolvem pessoas em situação de rua.
Por exemplo, uma cena comum que gera chamados para diferentes serviços é um grupo
de pessoas, frequentemente alcoolizadas, vivendo debaixo de um viaduto, local de alto
risco de acidentes. Esse grupo pode causar incômodos, como barulhos e brigas, e
apresentar problemas de saúde física ou mental. Em situações assim:

 Alguns acionariam a Polícia Militar (190), tratando essas pessoas


como “marginais” que deveriam ser presas;
 Outros chamariam os Bombeiros (193), a Defesa Civil (199) ou a
Guarda Municipal (153), preocupados com o risco de
atropelamentos;
 Outras pessoas acionariam o SAMU (192), ao perceberem condições
de saúde precárias, degradação física ou alcoolismo;
 Por fim, alguns acionariam o setor de abordagem social da Prefeitura
para encaminhá-los à rede de atendimento.
Se houver crianças, idosos ou gestantes no grupo, a situação se torna ainda
mais delicada, e o Disque Direitos Humanos (100) também poderia ser acionado.
Esse exemplo revela a complexidade das demandas apresentadas por essa
população e a necessidade de protocolos bem definidos, com procedimentos integrados e
uma comunicação eficiente entre os órgãos responsáveis.
Quando a ocorrência não é atendida e os direitos continuam sendo
violados, essas pessoas ficam desamparadas, à mercê do poder público.
Essa situação reflete um sistema que exige coordenação, informação e
formação profissional, o que reforça a necessidade de revisões estruturais para oferecer
uma abordagem mais eficiente, digna e respeitosa a essas populações vulneráveis.

Abordagem policial a pessoas em situação de rua:


A pessoa em situação de rua somente deve ser abordada nas hipóteses de
fundada suspeita ou descumprimento de normas estabelecidas em lei, à luz do que
preceitua o Art. 5º, inciso II, da Constituição Federal, segundo o qual “ninguém será
obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”.
Nas situações de conflito, deve ser resguardado o direito da pessoa em
situação de rua de permanecer em local público, desde que não esteja infringindo a lei.

Procedimentos na abordagem:

 Fique atento à segurança da equipe, calcule a quantidade de abordados para uma


atuação segura.
 Na vistoria do local, primeiramente, afaste o abordado dos materiais ali existentes
(papelões, colchões, cobertores e etc.).
 Na busca pessoal, aconselha-se o uso de luvas descartáveis para o contato com o
abordado, visando preservar a saúde do policial.
 Quando fizer a verificação nos pertences, seja cuidadoso, lembre-se que estes objetos
têm grande importância para aquela pessoa.
 Informe ao cidadão sobre a existência de abrigos ou albergues que podem acolhê-lo
de forma segura.

Dica Policial: Lembre-se que morar na rua não é crime. Como já


mencionado a abordagem policial deve ser sempre pautada pela
legalidade e uma pessoa não pode ser abordada sem fundada suspeita
ou cometimento de infrações.
4. EXERCÍCIO DA ATIVIDADE FISCALIZATÓRIA

Considera-se poder de polícia atividade da administração pública que,


limitando ou disciplinando direito, interesse ou liberdade, regula a prática de ato ou a
abstenção de fato, em razão de interesse público concernente à segurança, à higiene, à
ordem, aos costumes, à disciplina da produção e do mercado, ao exercício de atividades
econômicas dependentes de concessão ou autorização do Poder Público, à tranquilidade
pública ou ao respeito à propriedade e aos direitos individuais ou coletivos. (Art. 78 Código
Tributário).
As Guardas Civis Municipais têm como competências específicas,
respeitadas as competências dos órgãos federais e estaduais:
 Prevenir e inibir, pela presença e vigilância, bem como coibir, infrações penais ou
administrativas e atos infracionais que atentem contra os bens, serviços e
instalações municipais;
 Integrar-se com os demais órgãos de poder de polícia administrativa, visando a
contribuir para a normatização e a fiscalização das posturas e ordenamento urbano
municipal.

4.1 Trata-se de abordagem?


Sim, ao efetuar fiscalização administrativa o policial está abordando o
cidadão que infringe a legislação de cunho não criminal, dando ordem de parada,
solicitando identificação, advertindo ou aplicando sanções administrativas. São estes
passos da abordagem na atividade fiscalizatória.

Procedimento da abordagem administrativa:

 Dar ordem de parada e informar ao cidadão abordado, o motivo da abordagem.


Lembrando que desobedecer ordem legal de funcionário público é crime previsto
no Art. 330 Código Penal.

 Solicitar identificação. Recusar à autoridade, quando por esta, justificadamente


solicitados ou exigidos, dados ou indicações concernentes à própria identidade,
estado, profissão, domicílio e residência é contravenção penal prevista no Art. 68
da Lei das Contravenções penais.

 Efetuar a devida orientação, advertência ou lavratura de auto de infração


conforme legislação pertinente.
Dica Policial:O policial pode ser acionado para verificar uma
situação, que por parte de algum munícipe parece irregular, porém
cabe ao agente o discernimento de identificar o que infringe
legislações ou não. Nem sempre o agente tem o dever de agir. A
gestão de conflitos é algo que deve estar enraizado no profissional de
segurança pública municipal.

Posturas Municipais em Santos


O Código de Postura dos municípios tem como princípio normatizar a
conduta das pessoas que vivem em determinada região prezando pelo bem-estar social e
o convívio pacífico entre os cidadãos no espaço urbano.
As Guardas Civis Municipais utilizam este instrumento, muitas vezes, como
ferramenta para gerir conflitos da sociedade em relação ao sossego púbico, uso adequado
do espaço e equipamento público, fiscalização de comércio irregular.

4.2 Perturbação de sossego público


O Código de Posturas do Município de Santos prevê que é proibido
perturbar o sossego público ou da vizinhança com ruídos, algazarras e sons de qualquer
natureza. Ainda fala das competências da Prefeitura em fiscalizar a instalação de
equipamentos sonoros. O seu artigo 192, parágrafo 2º, especifica a competência da
Guarda Civil Municipal nesta fiscalização.

4.3 Uso inadequado do equipamento público


Zelar pelo equipamento público é de suma importância para diminuição de
gastos do município com zeladoria, e todos têm o dever de prezar pelos bens materiais do
município.
É proibido prejudicar de qualquer forma a limpeza dos passeios e
logradouros públicos em geral ou perturbar a execução dos serviços de limpeza dos
referidos passeios e logradouros. (Lei 3531/68 art.9º parágrafo 2º CDP Santos/SP).
No Código de posturas do município de Santos é prevista a proibição de
despejar resíduos de qualquer natureza nas praias, passeios, jardins e logradouros
públicos, nos canais e terrenos. Também é proibido a realização de piqueniques, colocação
de cadeiras e outros objetos e prática de esportes nos jardins de Santos.

4.4 Fiscalização do comércio


Nos termos do Art .427, da Lei nº 3.531/1968 (Código de Posturas
municipais de Santos/SP), nenhum estabelecimento comercial, industrial, prestador de
serviço ou similar, poderá instalar-se no Município, mesmo transitoriamente, nem iniciar
suas atividades, sem prévia licença de localização e funcionamento outorgada pela
Prefeitura.

4.5 Pessoas em situação de rua e as posturas municipais


A questão da população em situação de rua é um tema complexo, que exige
uma abordagem integrada e multidimensional das políticas públicas.
A Guarda Civil Municipal desempenha um papel essencial no apoio a
políticas sociais e na preservação da ordem pública. As legislações municipais aplicam-se a
todos, sem distinção de classe, raça, orientação sexual, religião ou local de moradia. Nesse
sentido, infrações como obstrução de vias públicas, perturbação do sossego ou descarte
inadequado de lixo devem ser tratadas com orientação e advertência, e as buscas pessoais,
quando necessárias, devem obedecer aos critérios de fundada suspeita ou flagrante delito.
O campo da Segurança Pública, no entanto, enfrenta desafios significativos
na interação com populações em situação de rua. Essas dificuldades incluem a falta de
padronização entre os órgãos de segurança, as pressões sociais por intervenções
repressivas e a escassez de políticas sociais efetivas para atender às necessidades dessa
população. A ausência de articulação entre as áreas de saúde, assistência social, habitação,
trabalho e educação resulta em lacunas que frequentemente deslocam responsabilidades
para o campo da segurança, de forma desordenada e ineficaz.
Por fim, o atendimento a pessoas em situação de rua deve ser
responsabilidade de uma ampla rede de serviços, coordenada por políticas sociais
municipais. A GCM, nesse cenário, deve atuar de forma subsidiária, com foco na garantia
da segurança dos profissionais envolvidos nas abordagens. Esse modelo requer protocolos
claros, formação específica e reconhecendo a dignidade e os direitos de todas as pessoas,
independentemente de sua condição social. Somente com essa integração será possível
construir políticas públicas que promovam, de fato, a inclusão e a cidadania para as
populações em situação de rua.

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas


usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os
nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos
lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”
FERNANDO PESSOA
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Polícia Militar do Estado de São Paulo. Bote perfeito. Disponível em:
[Link] . Acesso em: 15 de novembro de 2024.

Conselho Nacional de Justiça. Manual de Algemas e Outros Instrumentos de Contenção em Audiências


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SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA (STJ). Jurisprudência STJ - Informativos. Disponível em:


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