Prólogo
Esta é uma daquelas histórias que não podem ser contadas, uma vez que seu campo de
ocorrências vai além dos limites dos sentidos. Não obstante, seria uma grande
covardia com o mais nobre dos sentimentos humanos não tentar registrá-la de alguma
forma para que seja um dia, quem sabe, decifrada por um coração atento e uma mente
suficientemente diligente. Não acredito que tal façanha seja impossível. Observando
cuidadosamente o passado chegamos a conclusão que realidades muito naturais para
todos hoje, seriam inimagináveis em qualquer cenário pretérito. A ideia de que a
comunicação se faz por meio de suportes muito específicos, frequentemente
associados a objetos concretos, é uma das barreiras às quais a humanidade precisará
ainda atravessar até alcançar finalmente o estado de realização. Algum progresso
foi feito, é bem verdade. A quebra do grande paradigma vertical da comunicação
social resultante do surgimento das chamadas novas mídias é um bom exemplo. Mas o
que interessa aqui não é tanto o fluxo initerrupto de dados entre os mais diversos
tipos de suportes eletrônicos, e sim, precisamente, o ruidoso silêncio que surge no
interstício entre um bit e outro, ou quando duas consciências se conectam, qual
duas estrelas supermassivas que se orbitam formando um poderoso campo
gravitacional, ao mesmo tempo em que seu brilho mútuo é grande o suficiente para
criar a repulsão necessária ao equilíbrio do sistema. Pelo menos era o que
pareceria a princípio. É nesse campo de possibilidades que emerge do silêncio a
mais bela melodia e, conquanto existam, nenhum intrumento tenha sido efetivamente
tocado. A mais bela e sileciosa melodia do amor, é que vos pretendo contar. Acaso
em algum período da história ou da pré-história, alguma alma mortal conseguiu
comunicar esse sentimento? A mim parece que em todos os casos ele apenas foi
palidamente tangenciado, e nós comemos pelas bordas os seus frutos. Mas o amor
mesmo, caro leitor, seja lá qual tenha sido a linguagem utilizada, só se comunicou
entre duas almas que se amaram.
Capítulo Primeiro
Era uma cidade muito pequena. Uns diziam ter 46,2km de diâmetro, outros 51,2, mas a
verdade é que possuía exatos 39km em pontos equidistantes, nos eixos vertical e
horizontal, leste-oeste, norte-sul. Mais tarde se descobriu, no entanto, que essa
extensão era variável, chegando a 1234km, dependendo da estação do ano. E mais, que
podia-se mover de um ponto a outro em questão de segundos, conhecendo certos
atalhos. A acuidade visual da paisagem era de uma nitidez que não existia em nenhum
outro lugar da Terra, desde que se estivesse com os óculos que, a moradores e
visitantes, se presenteava a todos tão logo nasciam ou atravessavam o umbral da
entrada. Sua arquitetura fazia lembrar àquelas de antigas civilizações, quando
ainda não se tornara não mais que ruínas. A luz do Sol brilhava tanto mais a meia
noite, quando em sonhos todos que ali estavam a dormir podiam ver vívidamente a
inversão ontológica da realidade. O que significa dizer que não havia distinção
entre sonho e realidade, porque os sonhos também eram parte da realidade, bem como
os mitos e a ciência gozavam de um valor relativo e complementar, cada qual
ocupando seu lugar na totalidade da vida. O terreno era acidentado e quase não se
via a cor da terra, já que a grama, e todas as demais espécies de plantas, cresciam
fartamente nessas terras muito férteis. Quero dizer afinal que as ondulações do
território resultantes de longos processos de transformação geomorfológica não
constituiam de forma alguma empecílio de trânsito para os moradores, pois, tanto
aquela vegetação servia de inspiração aos olhos por sua beleza, quanto aos
processos de purificação do ar, o que conferia uma energia extra aos andantes, de
modo a sequer perceber-se subindo e descendo ladeiras. Havia mesmo um ditado local
que dizia que para descansar é preciso caminhar e o maior esforço está em manter-se
inerte.
Conta-se que pelos idos do vigésimo primeiro mês do sexto ano de sua fundação
oficial um grande encontro ocorrera. Um jovem em busca de respostas sobre o seu
passado se deslocou do bairro em que morava na zona norte em direção a zona sul,
uma região comumente associada às elites e aos intelectuais, muito provavelmente
porque ali o sol brilha com maior intensidade em determinados períodos do que em
qualquer outra região em qualquer época do ano. Os que vem do norte geralmente são
tão providos de recursos quanto um deserto de vida. O que não significa que ela não
exista. Cactos, lagartos e algumas espécies de aves ainda são capazes de sobreviver
com muito pouco, tanto mais se houver um mísero e disputato oásis nas redondezas.
Era o caso, pois dessa água muitos bebiam. De sorte que sua pureza era tanta, que
um pequeno gole bastava para o suprimento vital de toda a semana. Assim, tendo
bebido dessa fonte maravilhosa de vitalidade e farto da sede pelos próximos sete
dias, o jovem operário vestiu sua bolsa a tiracolo e partiu em regeneradora
caminhada rumo às terras onde o sol brilha mais e os rios correm na vertical.
Chegando, sem saber muito bem a lição que o aguardava, notou desde a entrada que
haviam pinturas e grades em todas as paredes. Em tempos passados, o prédio teria
sido utilizado como uma espécie de colônia de férias reservada a que todos os que
cumpriam corretamente as funções sociais para as quais haviam nascido deviam se
hospedar. Naquele tempo, todos eram obrigados a serem livres para viver como bem
entendessem, exceto a nobreza e as elites que, absortos em suas riquezas e
obrigações, viviam uma vida de restrições. Já então, uma associação de palhaços
estabelecera um tipo de instituição moderadora das atividades burocráticas dos
circos para os quais trabalhavam, informação que não acrescenta quase nada a essa
história, salvo o fato de que a obrigação da liberdade já não era mais praticada. A
auto restrição em benefício do próximo se tornara uma demanda aceita por quase
todos, entendendo-se que dessa forma haveria mais equilíbrio na vida em comunidade.
E o que importa dizer? Bem... aquela construção marcaria simbólica e
definitivamente a vida do jovem rapaz. Um dos auditórios do antigo prédio foi
cedido pelos palhaços para a execução de um concerto sinfônico que seria executado
concomitantemente por ouvintes, músicos e regente. Parece estranho, não?! No
entando, como em todo sistema homeostático as partes são interdependentes, assim
também se compreendia a arte, que não se fazia apenas pela relação entre criador,
matéria-prima e suporte, mas ainda, e fundamentalmente, pela platéia, que partindo
de suas próprias experiências, compunham juntos a multiplicidade de sentidos da
obra, e tudo desenbocava em experiência e conhecimento para todos.
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A maneira como o espetáculo fora conduzido impactou sobremaneira o jovem. A
maestrina era a própria beleza encarnada. Bem, na verdade, observando em detalhes,
ela não cumpria exatamente certos requisitos formais exigidos por sociedades como a
nossa. Mas tinha algo, qualquer coisa no jeito operar sua batuta, no olhar profundo
como um oceano com que conduzia aos músicos, e, principalmente, no ter sempre um
novo acorde, um novo ritmo e uma nova melodia saídos de seus movimentos, que
pareciam nunca se esgotarem. Era como uma grande montanha impossível de ser
escalada, como são todos os maestros, aliás, porque ao enfrentar-se essas
grandiosidades da natureza, a cada passo dado, a equação de reserva energética [a
cada movimento menor], os obstáculos [a cada instante mais difíceis] e inclinação
[cada vez mais vertical], o objetivo final se coloca, contraditoriamente, mais
distante, mesmo que o trajeto adiante esteja mais curto. A maior contribuição que
então ele foi capaz de fazer à execução da peça foi o silêncio, pois que, como
qualquer bom ouvinte sabe, a inércia é parte da música tanto quanto o movimento. De
silêncio em silêncio, apreendeu um tanto de novos acordes e seguiu viagem.
(De saída, notou da assinatura na lista de presença que ambos haviam nascido no
mesmo ano. Uma informação curiosa. Como poderia ser que duas árvores da mesma
espécie e plantadas ao mesmo tempo crescessem de forma tão desigual? Certamente
aquela predominância do Sol no sul favoreceria mais aos que ali viviam. De qualquer
modo, acostumado ao terreno acidentado da cidade e às ondulações regereneradoras do
tônus vital com que aprendera a conviver, deu pouca importância a este fato e
voltou para casa.) RETIRAR
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O céu estava particularmente azul naquele dia. Não era, no entanto, o tom que
importava. A forma com que esta região do campo perceptivo exerce fascínio nos
seres humanos resulta de uma estranha relação que se estabelece entre o que pode
ser percebido e o que não pode ser alcançado. Ele sempre esteve aí, diante dos
nossos olhos, mas ao mesmo tempo sempre em lugar nenhum; intangível, distante, sem
começo e nem fim. Um filósofo alemão disse certa vez que sentido da visão
representa a própria natureza olhando para si mesma. De onde teriam tirado essa
ideia, os homens que se afirmaram estar separados da Grande Mãe? A síntese da vida
se nota, ironicamente, numa estreita faixa do espectro eletromagnético total do
universo, como que numa janela com sete vidros de cada uma das cores do arco-íris;
os globos oculares, dentre todos os órgãos que possibilitam ao Ser o acesso ao
mundo exterior, o mais sensível, foram elaborados nos organismos vivos pela própria
Luz ao cabo de incontáveis unidades de tempo ao longo da evolução. Está em todo
canto, havendo que veja ou no âmago dos cegos. Não haveria cor no mundo se não
houvesse luz para revelá-la, nem olhos para vê-la. Na verdade, a imagem só pode
mesmo existir na possibilidade de que estas três instâncias estejam
irredutivelmente articuladas: o olho que vê, algo que existe e a luz que remove os
véus que separam uns e outros. A percepção fascinante do mistério da abóboda
celeste é a verdade, ainda oculta à Luz da consciência, de sua origem comum. O céu
se afasta para que, à sua procura, mergulhemos no fundo de nós mesmos e aí o
encontremos no averso da existência.
A vida na zona norte, lugar em que, como já se disse, é escassa, impunha o mesmo
jogo de ausências aos seus habitantes. A fome é a presença de uma ausência que
procura se corporificar na constante do tempo, até que o afago da morte liberte a
consciência de seus impulsos vitais. Viver ali é estar morto. O digno leitor
poderia justificadamente perguntar: acaso não é assim em todos os lugares, em todas
as direções para as quais se olhe no horizonte? Para morrer não basta estar vivo e
viver não é senão morrer um pouco todos os dias? De pronto responderei: sim. Mas,
note que a Terra no princípio não era mais do que uma rocha amorfa flutuando no
espaço, e que foi graças ao dinamismo provocado pela energia solar incidente nessa
matéria inerte que ela foi gradativamente sublimando suas densas moléculas, que se
tornaram nuvens que se condensaram no alto e choveram, e se sutilizaram de novo a
partir da terra e assim por diante. Uma terra em que a luz do Sol não chega, é uma
terra morta. Na zona norte o calor é intenso, a luz é parca. E a vida,
consequentemente, embora exista, só se desenvolve com muito Labor.
Já era fim de tarde quando, chegando em casa, o jovem rapaz, ainda sob efeito da
experiência que tivera na zona sul, se perdeu em devaneios observando o Sol poente.
"Como a natureza era capaz de conceber tamanha beleza como aquela que acabara de
ver? Haveria uma forma de contemplá-la todos os dias do resto de sua apagada vida?
Quanta prepotência. Com que direito?! Você é apenas um pobre coitado morador da
zona norte... Não se atreva a sonhar com o que não pode alcançar!" - Disse, em
repreensão a si mesmo.
Foi então que se deu conta. Nessa cidade, os sonhos e a realidade concreta eram
apenas duas faces da mesma moeda. Quem sabe no anverso da vida pudesse encontrá-la
e dizer tudo que, por força das circunstâncias, não lhe era lícito até então.
Meditou como de costume e dormiu.