História da Arte
Prof. Marcus Tadeu Daniel Ribeiro
Gótico
Arquitetura e escultura
O estilo ogival que se seguiu ao Românico, surgido em meados do século XII e estendendo-se até o Renascimen-
to, foi o Gótico. Aparecido na França, o estilo expandiu-se pela Europa, marcando definitivamente uma época de
hegemonia do pensamento cristão, através de uma estética que não apenas representava esses valores religiosos,
como também encenava a própria experiência humana de transcendência dos valores materiais e elevava-se,
através de uma linguagem mística, aos céus.
Índice
Índice ........................................................................................................... 1
Gótico: um estilo “bárbaro”......................................................................... 1
O tempo gótico ............................................................................................ 2
A geografia de um estilo.............................................................................. 5
Fases do Gótico ........................................................................................... 6
O “gótico internacional”...................................................................................8
Características.............................................................................................. 8
Características formais ...................................................................................10
A escultura................................................................................................. 15
Vocabulário ............................................................................................... 19
Gótico: um estilo “bárbaro”
O nome gótico foi usado pela primeira vez pelos humanistas do Re-
nascimento, período histórico iniciado no século XV. Alguns auto-
res atribuem a um “equívoco” dos renascentistas o fato de se ter
chamado de “gótico” um estilo que, a rigor, nada tinha a ver com a
arquitetura e a arte dos godos, povo nômade que pouco conhecimen-
to tinha sobre as técnicas construtivas que permitiriam o surgimento
das catedrais góticas, com aquela verticalidade impetuosa que as ca-
racterizou para a eternidade. Os godos eram, aliás, pagãos.
Todos sabemos que mais de sete séculos separaram a invasão dos
godos na Europa1 da época em que surgiu o Gótico como estilo ar-
tístico. A palavra “gótico”, na verdade, tinha uma conotação depre-
1
A presença dos visigodos, chefiados por Alarico, em Roma data de 410 d.C. Visigodo era uma das facções
político-militares do povo godo. A outra facção denominava-se ostrogodo.
Gótico 2
ciativa: “godo” era sinônimo de “bárbaro” ou, em outras palavras,
representava tudo aquilo estranho à civilização romana. Para os an-
tigos romanos, “bárbaro” era o que derivava de culturas diferentes
da do Império Romano.
Os homens na Renascença italiana não associavam exatamente a arte
“gótica” à presença dos godos na Europa ocidental, mas procuravam
exprimir, com esse adjetivo, um sentido pejorativo a uma arte que
havia antecedido o Renascimento, estilo que se pautou por uma rup-
tura com os padrões estéticos medievais, ao tempo que buscava res-
gatar os valores da cultura greco-romana como paradigma filosófico
da nova época que o Renascimento inaugurava.
Não foi essa a única vez que um estilo artístico seria denominado através de uma expressão
depreciativa. Depois do “Gótico”, outros ainda surgiriam com esse sentido: o “Maneirismo”,
por exemplo, foi um termo empregado por críticos em relação a essa fase artística, procu-
rando-se destacar certo artificialismo ou mesmo afetação estética que os pintores, esculto-
res e arquitetos dessa fase revelavam em suas obras; o “Barroco” tem também um sentido
negativo, pois que foi utilizado por historiadores da arte franceses para denominar um estilo
que eles consideravam “imperfeito” – antigamente a palavra “barroco” era utilizada apenas
para designar “pérolas irregulares”; o “impressionismo” e o “fauvismo” são estilos que seri-
am denominados a partir de uma visão depreciativa por parte de seu criador.
O tempo gótico
O Gótico foi o último estilo artístico da Idade Média, período histó-
rico que se encerra com o Descobrimento das Américas (1492)2.
Historicamente, o estilo é fruto de transformações sociais e políticas
que ocorreram durante a Idade Média, quando as cidades (burgos)
crescem e alcançam grande importância no panorama econômico e
social de então, quando se consolida o poder real e quando a influ-
ência sempre crescente da Igreja sobre a organização político-social
de sua época constitui-se em elemento histórico determinante para a
compreensão da sociedade e da cultura daquele período.
Do Românico ao Gótico: natureza da mudança
Se o Românico é uma corrente artística marcada pelas relações feudais e pela hegemonia da
vida campesina, o Gótico reflete, além do prestígio da nobreza e do próprio Clero, o surgi-
mento social do burguês – o habitante do burgo – e as expectativas religiosas do povo católi-
co.
No plano estético, percebe-se que, enquanto o Românico demonstra-se uma arte cujo as-
pecto robusto e estável exprimia a determinação e as convicções da fé, o Gótico apresenta-
se como uma linguagem mística, cujo dinamismo “verticalizante” busca representar o su-
blime do ideal e do imaginário cristãos: o desapego aos valores mundanos e a elevação espi-
ritual aos céus.
2
O ano de 1453 costuma ser apontado como data oficial do término da Idade Média, quando os turcos tomam a
cidade de Constantinopla, sede do Império Romano do Oriente. Poderia ser adotada também a data de
1492, que representa uma referência cronológica de expressão muito significativa, nem tanto pelo
encerramento de uma fase histórica, mas por ser o início de uma nova época que caracterizaria a
realidade sócio-econômica européia, com o desenvolvimento do capital comercial.
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Nem sempre nos damos conta de como é difícil, ao observador con-
temporâneo, entender a diferença que há entre os tempos medievos e
os atuais. Mas bem poderíamos tentar compreender a forma pela
qual o homem daquele tempo percebia o mundo em que vivia e de
que maneira ele se diferenciava da mentalidade de nossa época. En-
quanto o homem contemporâneo vê-se como um cidadão de um Es-
tado-nação, ao qual sente-se incorporado por laços de identidade co-
letiva, o vassalo dum feudo ou habitante de um burgo medieval via-
se como súdito de um rei e, acima de tudo, um cristão.
A noção de territoriedade desse homem da Idade Média não ultra-
passaria os limites do feudo ou do burgo em que vivia, não fosse o
misticismo espiritual que a fé plasmava, nas convicções de cada um,
com a visão de transcendência da vida sob a ótica cristã.
A fé católica não era uma prática facultada às convicções pessoais
do livre pensamento de cada um, como ocorre nos dias atuais. O ca-
tolicismo era um referencial filosófico e cultural que servia de base
organizadora para a vida social daquela época, de uma forma que
hoje já não mais se pode verificar com a mesma intensidade e proje-
ção política que se via naqueles tempos.
A prática católica ensejava, pela organização litúrgica da celebração
cristã, ritos e práticas religiosas comuns em diversas sociedades di-
ferentes: instituía cantos, difundia-se através de uma língua oficial –
o latim –, participava ativamente da organização social da população
e celebrava, enfim, uma verdade universal. A fé católica era não a-
penas uma prática adstrita aos círculos religiosos, mas um referenci-
al cultural que permeava várias sociedades.
Durante a Idade Média na Europa Ocidental, a fé católica pratica-
mente desconhecia fronteiras políticas... Durante a Idade Média, o
maior contexto humano ligado por algum tipo de sentimento de i-
dentidade coletiva orbitava em torno das doutrinas da Igreja Católi-
ca, que eram fortemente agregadoras, pela força da fé, de princípios
filosóficos e culturais comuns – língua, ritos etc –, de um contingen-
te humano que desconhecia os limites políticos dos reinos – a Igreja
tinha importância política profunda e fundamental na distribuição do
poder político pela Europa ocidental –, estabelecia o pacto do ho-
mem com Deus, diante do qual todos assumiam um mesmo signifi-
cado espiritual.
É por isso que as igrejas continuavam a ser, tal qual haviam sido na
fase românica, as construções de maior destaque no cenário das edi-
ficações que o gênio humano fazia elevar do chão. Por meio de blo-
cos de pedra maciços, às vezes talhados com precisão, às vezes cin-
zelados com inesperada delicadeza, o homem gótico eternizou-se
por meio das imensas catedrais que legou para a posteridade.
A reforma da Abadia de Saint-Denis (1135-1155), com a reconstru-
ção do coro* e do deambulatório* dentro de uma nova concepção
Figura 1 - Catedral de Saint artística, além de outras transformações feitas na nave*, constitui-se
Denis
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num marco para a história do Gótico, pois foi nessa edificação em
Figura 2 - Deambulatório da
Catedral de Saint Denis – Dis-
ponível em
[Link]
vander-
griff04/[Link]
l - Acesso em 28 ago. 2006
Figura 3 - Nave central da Catedral de Saint Denis
que o estilo aparece com seus postulados estéticos já delineados pela
primeira vez: certa verticalidade presente na nave central é uma ca-
racterística herdada da arquitetura cisterciense (ver Românico) e
marca o gosto que então se difundia; o emprego de vitrais lanceola-
dos (ver “Fases do Gótico”) no coro e ao longo da nave central per-
mite a iluminação da catedral duma forma que ainda não era co-
mum; o uso de arcos ogivais* nos vãos situados entre as colunas
cruciformes*, cujo alinhamento longitudinal marca a divisão da na-
ve central em relação às colaterais, tipifica o vocabulário gótico; a
abóbada que encima a nave central é de cruzaria*, embora guarde
ainda certo gosto pelo movimento disciplinado do arco pleno, que
mal chega a ser quebrado pela sutil deflexão que o arco sofre em seu
ponto mais alto.
O Gótico passaria a ser difundido em outros recantos da França e
noutros países, constituindo-se num estilo arquitetônico pelo qual a
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época medieval melhor se faria representar para a posteridade. Em-
bora o Românico tenha tido maior e mais rápida difusão na Europa
meridional e setentrional, nenhum outro estilo, como o Gótico,
adquiriria nomeada tão duradoura. A Igreja triunfara na sua ambição
de levar o Evangelho cada vez mais longe. A mensagem de que era
pregoeira, a “boa nova”, conquistaria parte muito significativa da
humanidade. O Gótico foi um estilo que concorreria na divulgação
dessa mensagem religiosa.
É dentro desse contexto que se deve entender, não apenas a unidade
com que o estilo se difundiu Europa afora, mantendo certa integri-
dade na Arquitetura, mas também a abrangência do chamado “Góti-
co Internacional”, estilo escultórico, pictórico* e decorativo que se
difundiu por extensa área da Europa ocidental.
A geografia de um estilo
Figura 4 - Mapa dos países em que o gótico se fez presente.
O Gótico difundiu-se por várias regiões européias desde meados do
século XII até o XVI. Durante o século XII, a área de expansão
restringiu-se ao norte da França e ao sul da Inglaterra, época em que
se destacou a construção de igrejas ou catedrais como Saint-Denis,
Notre Dame de Paris, Laon, Angers, Poitier, Bourges (França) e
Canterbury, Wells e Lincoln (Inglaterra). Ao longo do século XIII,
construíram-se edificações religiosas como as de Saint-Chapelle
(Paris), Reims, Amiens, Beauvais, Troyes, Toulouse e Estrasburgo
(França), Westminster, Salisbury e York (Inglaterra), Barcelona,
Cuenca, Toledo, Burgos e Leon (Espanha), Assis e Orvieto (Itália)
Trier, Colonha, Frankfurt, Münster e Naumburg (Alemanha),
Utrecht (Países Baixos). Nos fins do século XIII e ao longo do XIV,
aparecem as igrejas e catedrais de Rouen e Dijon (França), Siena,
Florença e Milão (Itália), Nuremberg (Alemanha) Praga (Rep.
Tcheca).
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A Catedral de Cantuária, primeira catedral gótica inglesa, começou a
ser construída em 1174, sendo do traço do arquiteto francês
Guillaume de Sens; a Catedral de Lincoln foi iniciada em 1192; a
Abadia de Westminster, em 1254; a Catedral de Saint Trinity, em
Gloucester. O gótico alemão não apenas abrange o território hoje
formado pela Alemanha, como demais áreas de influência
lingüística germânica. A Catedral de Colônia tem sua pedra
fundamental implantada em 1248 e a Catedral de Santo Estêvão, em
Viena, foi também construída no gosto gótico.
Fases do Gótico
O Gótico teve três fases distintas: ele se inicia pelo Gótico Primiti-
vo ou Lanceolado, em meados do século XII, com um aspecto mais
severo e enunciando os postulados estéticos do estilo (Abadia de Sa-
int-Denis); o Gótico Clássico ou Radiante, marcado pela utilização
de estruturas esbeltas, permitindo o alargamento das janelas e a ex-
pansão da arte dos vitrais (Sainte-Chapelle); e o Gótico Flamejante,
de espírito mais decorativista, com ornatos que imitam chamas de
fogo (Catedral de Milão). Essa última fase do Gótico é também
chamada de Gótico tardio ou Decorado.
Na Península Ibérica, o Gótico tardio apresentou derivações peculia-
res ao país em que vicejou: em Portugal, o Manuelino (Torre de Be-
lém, Convento dos Jerônimos, em Lisboa e Convento de Cristo, em
Tomar); na Espanha, o Isabelino.
Muito embora o Gótico tenha sido substituído pelo Renascimento i-
Figura 5 - Saint Chapelle – taliano a partir do século XV, ele se fará presente ainda de forma
Disponível em muito marcante em outras regiões européias como Gótico Tardio. O
[Link] Manuelino tem seu apogeu no século XVI, quando a Itália já conhe-
photos/paris/saint
_chapelle.html cia nomes como os de Rafael e Leonardo.
Portugal: o gótico tardio e o Manuelino
Em Portugal, o Gótico manifesta-se em várias edificações, como no Mosteiro da Batalha,
seguindo a gramática arquitetônica do estilo, se bem que com algumas concessões que ali
se faz na proporção entre a altura e a largura do pano da fachada do imóvel, mas ainda as-
sim revelando um projeto de forte personalidade. É o Gótico tardio nas terras portuguesas,
aí inspirado no gênero decorativista que floria no norte da Itália e em Borgonha, na França.
Outras construções de menor importância marcaram a difusão do estilo durante o século
XIV naquele país, mas é sem dúvida no Manuelino, que transcorre durante os últimos anos
do século XV e início do seguinte, que o Gótico, em sua feição com maior sensibilidade à
decoração, revela-se mais criativo, refletindo o momento histórico que o reino atravessa. O
Manuelino, termo derivado do nome do rei Dom Manuel I, mantém o caráter decorativista
da fase tardia do estilo, mas incrusta, no vocabulário arquitetônico que o compõe, elemen-
tos figurativos ligados à temática náutica. Sem dúvida alguma, o Mosteiro dos Jerônimos, a
Torre de Belém (Lisboa) e o Convento de Cristo, em Tomar, constituem-se nas manifesta-
ções mais representativas desse movimento.
A origem histórica do conjunto arquitetônico hoje conhecido como Convento de Cristo de
Tomar, data do século XII, que se inicia como um convento religioso da ordem dos Templá-
rios, passando para a Ordem de Cristo em 1320. Nos séculos XV e XVI o Convento de Cristo
recebeu várias modificações, por iniciativa do Infante D. Henrique, de D. Manuel I e de D.
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João III. A construção primitiva foi a charola octogonal (séc. XII), uma espécie de rotunda, à
qual, no século XVI, adaptaram-se a capela-mor manuelina e todas as demais benfeitorias
artísticas existentes hoje no imóvel. Vários arquitetos e artífices concorreram na elaboração
da edificação, como foi o caso dos mestres Diogo de Arruda, João de Castilho, Diogo Torral-
va e Filipe Terzi.
A janela do Capítulo é uma das mais características construções manuelinas. Situada no
segundo pavimento do Convento de Cristo, em Tomar (Portugal), a obra é marcada por um
decorativismo épico. Sua execução foi iniciada em 1510, sendo obra de Diogo de Arruda,
cuja imagem parece estar ali retratada na figura de um atlante. Na janela do capítulo, po-
dem-se ver elementos extraídos do vocabulário náutico, numa composição decorada com
requinte, onde se percebe o emprego de mais de um tipo de pedra, oferecendo assim ao es-
pectador uma impressão de textura e planos diferentes.
Figura 6 - Janela do capítulo
do Convento de Cristo de
Tomar
Ao lado vê-se a portada de
entrada do Convento de
Cristo de Tomar, localida-
de que fica situada na
região do Alentejo.
A decoração constitui-se
no elemento central desse
estilo, que nasce do gosto
decorado da etapa final do
Gótico.
Disponível em
[Link]
v/photo/cor/[Link] -
Acesso em 28 ago. 2006
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O “gótico internacional”
Conforme já ficou assinalado anteriormente, na pintura e na escultu-
ra, houve uma fase do Gótico que ficaria conhecida na História da
Arte com o nome de “Gótico Internacional”. Essa fase, já do final do
Gótico, difundiu-se por área hoje ocupada por países como França,
Alemanha, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Espanha, Itália e República
Tcheca. Ela se formou do caldeamento de influências artísticas recí-
procas, patrocinadas pelo Duque Jean de Berry, irmão mais novo de
Carlos V, rei da França, e grande mecenas das artes. O estilo durou
aproximadamente entre os anos de 1375 e 1430, ficando caracteri-
zado pelo extraordinário requinte palaciano que recobriu as pinturas
e esculturas de sua época, por certo apuro naturalista no tratamento
formal e pela vivacidade cromática de que o estilo se fez herdeiro,
pela influência da arte nórdica.
Vários nomes ilustram essa importante fase da história da pintura
gótica, devendo ser mencionado os de Sasseta (Stefano di Giovan-
ni), Mestre das Horas de Rohan, Os irmãos Limbourg, advindos dos
Países Baixos e que faleceram todos vitimados, ao que parece, pela
Figura 7 - Irmãos Limbourg - Peste Negra em 1416, Gentile da Fabriano, e ainda outros, que sou-
Agosto (Les très riches heures beram promover a união da virtuosidade da pintura e escultura fran-
du Duc de Berry), 1412-6) 22,5
x 13,6 cm, Musée Condé,
cesas com a elegância da interpretação pictórica italiana, pela heran-
Chantilly Disponível em, ça direta de, por exemplo, Simoni Martini.
[Link]
Vários artistas de diversas procedências desenvolveram trabalhos
com elementos estéticos comuns, o que os identificava dentro duma
única escola, apesar de procederem de localidades diferentes. Veja-
se, por exemplo, o famoso díptico de Wilton, cuja autoria e mesmo a
nacionalidade de seu autor são ainda hoje desconhecidas pelos espe-
cialistas no assunto. A obra, que retrata o rei Ricardo, tem a delica-
deza e o requinte das pinturas que pontuaram aquela fase artística.
Características
Duas características gerais podem ser apontadas no Gótico.
A primeira característica é a linguagem mística presente em prati-
camente todas as manifestações artísticas dessa fase – arquitetura,
escultura, pintura e iluminura. Na arquitetura, essa linguagem místi-
ca manifesta-se através de formas que expressam desapego em rela-
ção à realidade e à concretude do mundo material, seja através da
impulsão vertical observada nas edificações religiosas da fase radi-
ante, seja na desmaterialização do objeto arquitetônico durante a fa-
se flamejante, com sensibilidade à imitação das chamas de fogo (o
Flamejante borgonhês) ou ao decorativismo de inesperada delicade-
za no rendilhado das pedras (o Manuelino português e o Isabelino
espanhol), das construções da fase final do gótico.
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Figura 8 - Catedral de Milão, do gótico flamejante. (Disponível em
[Link] - Acesso em 28 ago. 2006
A segunda característica geral exprime o sentido de unidade que as
obras apresentam: a) no programa arquitetônico da edificação e b)
na interdependência que a arquitetura tem com outras formas de ar-
te, especialmente a escultura e a pintura.
No primeiro caso, observa-se que o programa arquitetônico da edifi-
cação, especialmente a religiosa, mantém uma unidade para o obser-
vador que a vê, ao longe, e dela se aproxima, seus sentidos arrebata-
dos pelo viso monumental da edificação, que parece lançar-se para
os céus, numa harmonia perfeita de linhas que convergem para o in-
finito. Ao adentrar a nave central, essa sensação de unidade se man-
tém presente ao se demonstrar, aos olhos desse observador, o con-
curso de todos os elementos arquitetônicos na composição de um
aspecto majestoso e místico: a abóbada que paira a dezenas de me-
tros de altura, apoiada sobre paredes de inesperada delicadeza, vaza-
das por grandes vãos, que aumentam a luminosidade da nave central
com a policromia dos vitrais.
No segundo caso, a unidade da obra gótica manifesta-se pela acen-
tuada hierarquização que o estilo apresenta, sobrepondo a arquitetu-
ra a todas as demais formas de arte. A escultura, por exemplo, su-
bordina-se à arquitetura, compondo relevos nos tímpanos* das ar-
quivoltas* das portadas, nas fachadas, nos capitéis*, nos elementos
decorativos e nos demais locais em que ela possa exercer sua função
ilustrativa da palavra de Deus. A pintura, por sua vez, até o século
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XIV, quando começa a adquirir maior autonomia, desempenhava,
dentro da edificação religiosa, função semelhante à da escultura,
servindo de ilustração, nos retábulos e nos afrescos, às passagens e
símbolos que a religião professava ou que a prática litúrgica impu-
nha. É oportuna a lembrança de que, durante aquele fase da História,
as celebrações litúrgicas ocorriam, na maior parte do tempo, com o
pároco virado para o altar e de costas para o público. Os dípticos* e
os trípticos* que compunham os retábulos* localizados no altar
mantinham, com a comunidade, uma relação funcional imprescindí-
vel à prática do rito católico.
Assim, na arquitetura gótica, seus elementos constitutivos mais mar-
cantes – os arcos ogivais, as abóbadas, os arcobotantes – mantêm,
com o todo, uma relação indissolúvel. A obra gótica é sempre com-
preendida em sua totalidade, seja na verticalidade do pano da facha-
da, seja na forma com que o interior da igreja organiza-se como ar-
cabouço místico de um espaço de culto religioso.
De qualquer forma, o fundamento da estética gótica é a construção
de uma linguagem mística, que em nenhuma outra característica
formal encontra-se tão bem definida como na impulsão vertical da
edificação, metáfora de uma obra arquitetônica que celebra a eleva-
ção do homem aos céus.
Figura 9 - Portada gótica em
Navarra – Disponível em Características formais
[Link]/actuali
dad/[Link]
A portada, semelhante à da fase anterior, tem a arquivolta ogivada
de forma escalonada (enxalço) e encontra-se presente na maioria das
catedrais dessa fase. Entre a arquivolta e o dintel (viga horizontal
sobreposta ao vão da porta), vê-se o tímpano, normalmente adorna-
do com esculturas em relevo, que relatam, nas construções religio-
sas, passagens bíblicas. Os colunelos agregados às laterais da porta-
da também apresentam-se ricamente decorados de esculturas ados-
sadas*, com motivos religiosos.
Os arcobotantes são elementos estruturais situados no lado de fora
da igreja, que se ligam à base da abóbada, tendo por função concor-
rer na sustentação do empuxo resultante dos esforços horizontal e
vertical exercidos pela abóbada sobre a parede da edificação. O ar-
cobotante é uma evolução do contraforte, elemento estrutural incor-
porado à parede das igrejas românicas, que ajudava na sua sustenta-
ção. O arcobotante, assim, passou a desincumbir a parede da função
estrutural que ela desempenhara nas igrejas românicas, permitindo a
construção de paredes mais finas e rasgadas por vãos de janela mai-
Figura 10 - Arcobotante - ores do que havia sido na fase artística anterior. Foi exclusivamente
Disponível em
[Link] em decorrência do desenvolvimento da ciência da sustentação das
[Link]/[Link] igrejas góticas através do arcobotante que permitiu o surgimento da
fase clássica desse estilo, também denominada radiante, marcada
por ambientes iluminados pela policromia que a luz do sol adquiria
ao atravessar os vitrais multicoloridos que preenchiam os vãos da
janela.
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Os arcobotantes eram, no mais das vezes, adornados, na parte supe-
rior dos contrafortes, com pináculos, elementos que não tinham
qual-quer função estrutural, mas promoviam o acabamento daquela
peça arquitetônica com um adorno muito presente nas edificações
góticas.
Os vitrais foram utilizados largamente a partir do início do século
XIII: em Canterbury (1180), Chartres (1205), Saint-Germain-de-
Prés (1243). Na França, principalmente, esse tipo de arte difundiu-se
com maior intensidade, sendo a igreja de Saint Chapelle um marco
típico, mas não único. Na Alemanha (Münster-1221) e em Espanha
(Toledo-1226) foram copiados modelos de vitrais franceses.
O vitral é uma técnica de pintura em pedaços de vidro, cortados se-
gundo um projeto de um pintor ou artesão e ligados por filetes de
chumbo, sendo o painel envidraçado preso no caixilho da janela. O
vitral, embora não fosse uma invenção desse período artístico, teve,
Figura 11 - Nossa Senhora com no Gótico, seu apogeu, passando a adornar tanto as edificações reli-
o Menino Jesus - Vitral da Cate- giosas quanto as residências de burgueses enriquecidos, que compe-
dral de Chartres
tiam, com os nobres, na construção de espaços condignos à condição
de vida dos ricos proprietários de então.
Mas foi realmente nas catedrais góticas onde esse tipo de arte mais
se fez presente, já que agora as paredes, sem o ônus de serem, ao la-
do das colunas, elementos imprescindíveis à sustentação do templo
religioso, pois que agora surgiram os arcobotantes, podiam ser aber-
tas por vãos maiores na largura e na altura.
Figura 12 - Rosácea da Catedral de Saint Denis
A iluminação gerada pelos vitrais não é homogênea, mas multicolo-
rida, criando uma atmosfera mágica na ambientação do espaço ar-
quitetônico, com a policromia causada pela invasão da luz solar den-
tro do templo através dos painéis de vidro tingidos de matizes dife-
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rentes. O vitral é uma mistura de imagem e luz. Ele narra passagens
bíblicas, da mesma forma que os afrescos e as esculturas, mas ilumi-
na também o espaço, especialmente aqueles postos por detrás do al-
tar-mor, parte da igreja onde os raios do sol nascente incidem pri-
meiro3.
As rosáceas são um tipo muito especial de vitral. Dominando a fa-
chada principal da igreja e concebidas de forma circular, simbolizam
o sol, imagem que se associa a Cristo, e a rosa, símbolo de Maria.
Muito embora apareçam também nas fachadas laterais da igreja,
como é o caso da de Notre-Dame de Paris, as rosácea geralmente
situam-se no frontispício da edificação e, por essas, a luz solar intro-
duz-se no templo, tingida pelas cores dos vidros policromados e, du-
rante o pôr do sol de certas épocas do ano, pode percorrer o altar-
mor, causando um aspecto cênico de surpreendente encantamento.
A noção de verticalidade nas igrejas góticas é uma característica
Figura 13 - Catedral de Char-
marcante do estilo. Alguns fatores concorrem para se obter essa im-
tres com a rosácea na fachada pressão. O desenvolvimento das técnicas de construção, desde a é-
principal, marcada pela vertica- poca do Românico, vinha permitindo os homens da época medieval
lidade. Disponível em
[Link]
erigirem edificações com impressionante fausto e esplendor. Assina-
places/[Link] le-se que, na fase anterior, quando a arquitetura cirterciense, de que
é exemplo típico o Mosteiro de Alcobaça (Portugal), espalhava-se
Europa afora, a tendência às soluções arquitetônicas suntuosas apre-
goava, para os tempos que se avizinhavam, as múltiplas possibilida-
des oferecidas pela Engenharia, com reflexo direto na Arquitetura.
As abóbadas foram uma solução técnico-arquitetônica desenvolvida
já em fases anteriores, mas que teve, na gótica, sua difusão mais a-
brangente. Durante o período gótico, abandonam-se definitivamente
as abóbadas de berço, adotando-se as de arestas, derivadas da inter-
seção de duas abóbadas de berço ou ogivais.
As abóbadas, cuja resistência havia sido incrementada com a pre-
sença das arestas, fato que não ocorreu de forma significativa na fase
românica, alcançaram grandes alturas, cobrindo largos vãos e acen-
tuando o sentido de verticalidade da edificação. Durante a segunda
metade do século XII, as igrejas construídas têm, também nas abó-
badas, a marca da verticalidade e da busca de grandes alturas. A a-
bóbada de Notre Dame de Paris paira a aproximadamente 30 metros
do solo, a de Chartres, 36,5 m, a de Amiens, 42,5 e a de Beauvais,
48 – uma altura correspondente a um prédio de 15 andares. As abó-
badas assim suspensas sobre paredes de frágil solidez, acentuada-
mente recortadas pelos vãos das janelas e rosáceas, assemelham-se à
concretização dum milagre, porque não se pode ver, de dentro das
igrejas, o elemento estrutural responsável por seu sustento: os arco-
botantes.
3
Era costume, desde o início da era cristã, construírem-se as igrejas com a parte do coro, ou seja, o local onde se
localiza o altar-mor, voltada para leste.
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Gótico 13
A Catedral de Chartres é
uma das mais importantes
edificações erigidas no
mundo ocidental durante a
Idade Média. Sua impor-
tância não decorre apenas
de suas dimensões gigan-
tescas, mas do requinte
com que seus elementos
construtivos são concebi-
dos.
A as abóbadas de aresta
de Chartres encontram-se
espalhadas por todas ex-
tensão da nave central,
como também do deambu-
latório, local destinado à
prática da adoração das
relíquias ali expostas.
Os trabalhos dos canteiros
na elaboração dos lavores
que adornam a parte in-
terna da edificação são
muito requintados e rara-
mente são encontrados em
outras edificações euro-
péias dessa época.
!"
A altura que essas edificações atingiam em seu exterior era ainda
mais prodigiosa, especialmente naquelas igrejas providas de torres
sineiras, como é o caso das da Catedral de Chartres, cujo ápice atin-
ge mais de cem metros de altura.
Mas não é apenas a altura física, às vezes vertiginosa, dessas edifi-
cações que basta para imprimir o sentido de verticalidade pela qual o
estilo ficaria conhecido. A verticalidade não é o produto tão-
somente de uma técnica de engenharia, que permitiria, através de i-
novações tecnológicas inéditas, alcançarem-se grandes alturas nos
templos erigidos pela ciência humana: ela era também, e sobretudo,
fruto de uma construção estética. Construíam-se não apenas objetos,
mas formas.
Na fachada, os coruchéus* das torres sineiras*, que, pela sua con-
formação pontiaguda, são denominados de “agulhas”, simulam, no
olhar do observador, a noção de afunilamento que se experimenta ao
Prof. Marcus Tadeu Daniel Ribeiro
Gótico 14
olharem-se linhas paralelas de grande extensão que se afastam de
nossas vistas. Duas retas paralelas parecem encontrar-se no infinito.
As agulhas parecem volumes que se perderam da vista céu adentro.
Figura 14 - Catedral de Beauvais - Arcobotantes e coro. Preponderância de
linhas verticais.
Ainda na fachada, as linhas horizontais são menos perceptíveis. As
linhas horizontais, que representam o estático, o horizonte terreno
como símbolo da ligação da terra com o céu, diminuem de impor-
tância no traçado do pano da fachada, onde predominam as linhas
verticais.
No interior da edificação, o aspecto da verticalidade dependia não
apenas da altura das abóbadas, como também da proporção entre o
vão da nave central e a altura da abóbada. Quanto maior fosse essa
proporção, maior seria o sentido de verticalidade que o observador
experimentaria. Na catedral de Colônia, a impulsão vertical acentua
a linguagem místico-religiosa da edificação, pela organização do
espaço arquitetônico onde predomina o sentido vertical da
edificação. Enquanto a Catedral de Chartres, cuja abóbada flutua a
36,5 metros de altura, possuía uma relação de proporção entre o vão
e a altura da abóbada correspondente a 1:2,6, a de Colônia era de
1:3,8, com uma altura de 42,97 metros. A abóbada da catedral de
Colônia é apenas seis metros mais alta do que a de Chartres, embora
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Gótico 15
seis metros mais alta do que a de Chartres, embora tenha uma apa-
rência de ser muito mais alta.
A verticalidade da igreja gótica e a dos arranha-céus contemporâneos
Os primeiros arranha-céus construídos nos países em que o capitalismo obteve maior su-
cesso apresentaram, curiosamente, uma certa tendência ao “revivalismo*” gótico. O Prédio
da Woolworth (NY-EUA, 1913) e o da Chrysler (NY-EUA, 1930), cada um no estilo artístico
típico de sua época, fizeram remissões à gramática arquitetônica gótica, de que é exemplo o
emprego de torres que se afunilam e da utilização de gárgulas nesses prédios gigantescos.
Em 1997, na cidade de Kuala Lumpur, capital da Malásia, inaugurou-se o Petronas Twin
Tower, considerado o maior arranha-céu do mundo. O projeto é do arquiteto argentino Ce-
sar Pelli. Mais uma vez, o vocabulário gótico está presente nessa obra arquitetônica, com o
afunilamento dos dois prédios que compõem o imóvel e que evocam torres sineiras de uma
catedral gótica As remissões não acabam por aí: entre as duas torres há um passadiço a-
poiado sobre duas vigas oblíquas, que simulam o frontispício de uma igreja gótica.
Mas há diferenças que devem ser ponderadas. A verticalidade das igrejas góticas distingue-
se sobremodo da dos “arranha-céus” contemporâneos. Nas igrejas góticas, a verticalidade
decorre da concepção mística do objeto arquitetônico – vivia-se a época da hegemonia da
filosofia cristã, onde a igreja servia de metáfora concreta de elevação do homem aos céus.
Os arranha-céus, todavia, são altos edifícios formados por andares padrões que se repetem
vertical e continuamente uns sobre os outros – vive-se a época da produção em série e da
acumulação do capital. As igrejas góticas representam o desapego do mundo material e a
encenação da ascensão espiritual do homem aos céus. Os arranha-céus, por sua vez, são
símbolos da acumulação materialista (sua altura) e da padronização industrial (a repetição
massificada de unidades arquitetônicas).
As edificações góticas referem-se assim à espiritualidade, enquanto que os edifícios con-
temporâneos são uma apoteose do mundo material (a palavra “arranha-céu”, aliás, não dei-
xa muito espaço para se pensar fora do campo dos valores concretos e materiais. O edifício,
literalmente, “arranha o céu”)
A escultura
As esculturas desempenhavam papel relevante dentro das edifica-
ções religiosas dessa fase. Tal qual nas igrejas românicas, as escul-
turas góticas apresentam uma função didática, juntamente com
os vitrais e as pinturas parietais*, levando a palavra do Evangelho ao
fiel iletrado.
Algumas esculturas dessa fase denotam um avanço em relação ao
estilo anterior, quanto à capacidade do escultor de interpretar o cor-
po humano dentro de uma concepção mais real, ou seja, mais
próxima das suas proporções naturais.
Veja-se, por exemplo, o grupo escultórico intitulado “Ekkehard e
Uta”, da Catedral de Naumburg, (c. 1250-60), (Disponível em
[Link] de autor ig-
norado, acima representado. Trata-se de uma obra feita em plena era
gótica onde o escultor representou, com ar de serena dignidade, o
casal mecenas ao qual se deve a construção da Catedral de Naum-
burg. As fisionomias das duas obras não têm a marca da impessoali-
dade que tipifica as esculturas sacras existentes nas igrejas dessa é-
Figura 15 - Autor ignorado -
poca. Tanto a altivez de Ekkehard quanto a recatada beleza de Uta,
Ekkehard e Uta, c. 1250-60, que procura esconder o rosto com a gola de sua capa, estão ali repre-
Catedral de Naumburg, Alema-
nha
Prof. Marcus Tadeu Daniel Ribeiro
Gótico 16
sentados pelas mãos de um escultor que soube captar a essência da
personalidade desses dois mecenas.
Mas, uma análise do conjunto de obras produzidas na fase gótica
revela-nos que essa capacidade de representação da anatomia huma-
na dentro de suas proporções nem sempre se dava facilmente, ocor-
rendo mais como exceção do que como regra. Mesmo a utilização
do retrato é pouco desenvolvido nessa fase da História da Arte.
É verdade que houve, também na escultura, tanto quanto na pintura
dessa época, a chamada fase do “gótico internacional”, em que certo
requinte na interpretação dos temas abordados aponta para algumas
concessões naturalistas, marcadas pelo detalhismo da arte do Norte
da Europa.
A Virgem de Notre-Dame (Paris) é um exemplo dessa preocupação
em construir uma escultura requintada, com detalhes e sofisticações
verificadas tanto no material empregado quanto nos seus aspectos
formais. Mas alguns aspectos marcam o trabalho escultórico dessa
época com inconfundível especificidade.
A abordagem não naturalista do corpo humano e demais objetos
Figura 16 - Nossa Senhora, retratados continua sendo determinante entre os artistas dessa fase.
estilo gótico internacional, Cate- A representação naturalista que havia marcado a estatuária grega e a
dral de Notre Dame, Paris. romana só seria resgatada plenamente à época do Renascimento.
Durante a época medieval, apenas como forma de indício ou de leve
sugestão ela aparece numa ou noutra escultura do período, como na
dos mecenas da Catedral de Naumburg.
Figura 17 - Estátuas de jamba da Catedral de Chartres.
O que prevalece, em maior monta, é a representação do corpo hu-
mano de forma estilizada, abreviado em seus detalhes anatômicos e
exprimindo uma atitude beata, uma mensagem espiritual da qual es-
se personagem é pregoeiro, um sentimento religioso, enfim, que sua
postura enseja. É a atitude religiosa o que importa; é o teor imaterial
da condição humana ante Deus que é valorizado na representação do
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Gótico 17
ser humano pelo artista gótico. O corpo humano, em sua dimensão
carnal, é desconhecido dessa fase.
Vejam-se, como exemplo, as esculturas da portada da Catedral de
Chartres. Mal se percebe, por baixo do drapejamento das vestes dos
santos, o volume e o peso de seus corpos. Breves referências corpó-
reas são adornadas por elementos religiosos para as identificar como
santos. Seus pés mal se apoiam sobre os colunelos, em cujos capitéis
vêem-se passagens bíblicas. Os corpos parecem flutuar entre os a-
dornos que compõem a portada. O mundo terreno escapa à realidade
mística que a catedral gótica anuncia com sua presença irreal e líri-
ca.
A escultura gótica é um trabalho artístico arraigado não apenas à
temática religiosa, mas principalmente à fé. É a interpretação do
mundo real e imaginário pelo olhar emocionado da crença religiosa,
onde as formas de representação das coisas e de seus significados
Figura 18 - Esculturas de Char- são mostrados, através de uma linguagem de marcante expressivida-
tres – Disponível em <
[Link] de e emoção.
tatu-
es_portail_notre_dame_paris_1 A escultura gótica é o testemunho do ato criativo a serviço de uma
[Link] Acesso em 28 ago. 2006 idéia, a serviço da fé. Da mesma forma que a edificação religiosa
dessa fase cumpria uma função ideológica, a escultura também se
volta para sua função religiosa. Tal qual ocorria na fase românica,
a escultura gótica integrava-se ao corpo da igreja para ilustrar a
mensagem que o rito católico reafirma.
A portada central da Catedral de Notre Dame de Paris ilustra a har-
monia com que a escultura e a arquitetura se fundem na fase gótica.
A temática do portal é o Juízo Final. No tímpano vê-se um Cristo
Juiz, ladeado por Nossa Senhora e por São João, como também por
dois anjos simbolizando a Paixão. Os enxalços são esculpidos com
anjos e santos. No dintel, vê-se uma alegoria representando os ví-
cios, enquanto que há, sobre esse, um friso com motivos que simbo-
lizam a virtude. As esculturas que adornam os colunelos laterais es-
tão encimadas por baldaquinos e demonstram habilidade do seu au-
tor no cinzelamento das feições e do panejamento dos santos. A por-
tada é densamente povoada de relevos e esculturas que se organizam
de forma alegórica e narrativa.
Figura 19 - Autor ignorado. A “Mater Dolorosa” representada acima é também um bom exemplo
Mater Dolorosa (Pietá), início do
séc. XIV, madeira, 88 cm, Pro- da escultura gótica. Revelando um envolvimento emocional, a es-
vinzialmuseum, Bonn (Alema- cultura não se preocupa com pormenores anatômicos ou conven-
nha) cionalismos estéticos. Tudo nessa Pietá é dor. Olhá-la é desvendar a
preocupação de seu autor em representar o sofrimento de Nossa Se-
nhora, o significado da Paixão de Cristo, a dimensão da Salvação
cristã. Não há tanto intenção nessa obra de arte de se buscar o belo
quanto de se representar sentimentos humanos que permeiam a vida
de nobre significado.
Por isso, também no trabalho de cinzelamento duma escultura, o
homem gótico reflete a época de exaltação a Deus, quando se
demonstra menos preocupado com a representação dos detalhes que
configuram a natureza humana e terrena dos personagens retratados,
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Gótico 18
do que com o significado espiritual e religioso que a escultura
evoca.
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Gótico 19
Vocabulário
Abóbada de aresta (ou “abóbada de cruzaria”)– É a abóbada formada da interseção de du-
as outras abóbadas de berço ou ogivais, tendo normalmente como geratriz um arco ogival.
Abside – Recinto semicircular ou poligonal, geralmente abobadado, em que termina o corpo
de uma edificação religiosa, destinado a abrigar o altar-mor ou os altares secundários situ-
ados nos extremos do transepto. A abside teve origem entre os romanos, tendo seu uso di-
fundido-se durante a época do imperador Constantino I (280-337), imperador romano do
oriente (306-337), sendo bastante utilizado nas igrejas românicas e góticas. (ver Figura “A-
badia”)
Arco ogival – Segundo observou a Regina M. Real4, o arco ogival, tão típico da arquitetura
gótica, é aquele “formado do ângulo de dois arcos que se cruzam. Podem ser descritos de
três maneiras: quando os dois centros estão na interseção da curva (a linha reta servindo de
base), temos a ogiva equilátera; os centros colocados fora, determinam a ogiva em lança; ou
a pouca distância um do outro, temos o arco pleno-quebrado”.
Arquivolta – Adorno arquitetônico presente na parte superior das portadas das igrejas ro-
mânicas ou góticas, formado por um conjunto de vários arcos plenos ou ogivais concêntri-
cos. Arcadura.
Capitel – Acabamento adornado superior da coluna ou pilastra.
Colunelos – Coluna pequena.
Coro – Parte da igreja localizada no recinto do altar-mor onde os clérigos permanecem du-
rante as cerimônias e atos litúrgicos. Nas igrejas abaciais, o coro encontra-se no interior da
abside e é contornado pelo deambulatório. Após a Renascença, o coro foi transferido para
um pavimento superior localizado sobre a porta de entrada da igreja (ver Figura “Abadia”)
Coruchéu – Também chamado de pináculo, é o acabamento superior, às vezes em forma de
pirâmide, de elementos arquitetônicos, como torres sineiras ou frontões. O coruchéu foi
muito usado no estilo ogival.
Cruciforme – Em forma de cruz.
Deambulatório – Nas igrejas destinadas à prática da peregrinação, deambulatório é o cor-
redor lateral semicircular que contorna o coro situado dentro da abside, por onde passam
os fiéis para verem as relíquias guardadas na igreja. (ver Figura “Abadia”)
Díptico – Painel duplo articulado por uma ou mais dobradiças, pintado ou esculpido, e que
tem normalmente função votiva, especialmente para adornar altares.
Esculturas adossadas – São esculturas presas nas paredes, mas sem se caracterizar como
um relevo. As esculturas que adornam o portal da Catedral de Chartres são exemplos típi-
cos de esculturas adossadas.
Nave (ou “corpo da igreja” ou “nave central”) – Parte central da igreja que se estende da en-
trada até o transepto, onde normalmente estão localizados os assentos para os fiéis. (ver
Figura “Abadia”)
Nave colateral – Nave secundária e paralela à nave central das igrejas. (ver Figura “Abadia”)
Pinturas parietais – Pinturas feitas em paredes, normalmente com a técnica de afresco.
4
REAL, Regina M. Dicionário de Belas-Artes – termos técnicos e matérias afins, Rio de Janeiro, Fundo de
Cultura, 1962, Vol. I, pág. 64
Prof. Marcus Tadeu Daniel Ribeiro
Gótico 20
Retábulo – Obra de madeira, pedra ou estuque normalmente colocada atrás do altar (a pa-
lavra significa “atrás da mesa”) composta de talha, nichos, colunelos etc., que tem por fun-
ção apresentar uma imagem religiosa cristã (um santo ou uma passagem bíblica).
Revivalismo – (do inglês revival, “reflorescimento”) Nome usado comumente para designar
estilos que se desenvolveram a partir da recuperação de fases da História da Arte já supe-
radas no tempo: O neogótico, o neo-românico, o neomanuelino são exemplos típicos do que
se chama “revivalismo” artístico.
Tímpano – Superfície delimitada por um frontão ou pela arquivolta da portada de uma edi-
ficação qualquer. Nos tímpanos podem ser vistos esculturas em baixo-relevo, vãos (óculo,
[Link].) ou ornamentos. Observar imagem da portada da Catedral de Notre Dame de Paris,
onde, no seu tímpano, Cristo está representado.
Torre sineira – Torre da edificação religiosa na qual se encontram os sinos.
Transepto – Nas igrejas com planta em cruz latina, o transepto é a área formada pelo braço
dessa cruz, que cruza perpendicularmente o corpo da igreja. As igrejas podem ter um (cruz
latina) ou dois transeptos (cruz de Lorena).
Tríptico – Painel triplo articulado por duas ou mais dobradiças, pintado ou esculpido, e que
tem normalmente função votiva, especialmente para adornar altares.
Critique essa apostila. Sua opinião vai ajudar-me a aperfeiçoá-la continuamente.
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Desde já, agradeço
Marcus Tadeu Daniel Ribeiro
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