CAPÍTULO VIII
Incentivos Fiscais e Eqüidade no
Financiamento da Saúde em Portugal *
Carlos Gouveia Pinto **
José Carlos Gomes Santos ***
VIII.1 - Introdução
e existe uma característica comum às diferentes propostas de
reforma dos sistemas de saúde na Europa, essa é, sem dúvida, a
maior importância que é dada aos agentes privados na provisão
de cuidados de saúde, o que compreende o financiamento, a gestão e a
prestação de serviços.
Justificado como uma via para a melhoria da eficiência e tornado ur-
gente por razões de ordem orçamental, o aumento dos encargos supor-
tados pelos consumidores de cuidados de saúde originou (e tal é reco-
nhecido mesmo pelos políticos) problemas graves de acesso e de acei-
tação social da política de saúde. Uma das principais medidas que foram
tomadas para diminuir estas conseqüências foi a admissão da pos-
* Versões anteriores deste trabalho foram apresentadas no 2o Congresso Europeu de
Economia da Saúde, realizado em Paris de 16 a 18 de dezembro de 1992, e no 3o
Encontro da Associação Portuguesa de Economia da Saúde, Coimbra, 16 de abril de
1993. A sua elaboração foi parcialmente financiada pela JNICT (Projeto
PCSH/C/ECO/225/91). Os autores agradecem ao Dr. Pedro Pita Barros, da Faculdade de
Economia da Universidade Nova de Lisboa, os comentários que fez ao texto e que muito
ajudaram a melhorar o seu conteúdo. É óbvio que tal não implica que deixe de ser válida
a ressalva habitual.
** Do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa.
*** Do Centro de Estudos Fiscais, Ministério das Finanças, Instituto Superior de
Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa.
191
sibilidade de dedução no imposto pessoal sobre o rendimento (IRS) da
totalidade da parte não reembolsada dos dispêndios privados em saúde.
Polêmica do ponto de vista da eficiência 1 esta opção parece totalmente
contrária ao objectivo da eqüidade, que deve ser um dos principais fins,
quer da política fiscal, quer da política de saúde [Stiglitz (1988)].
Neste trabalho procurar-se-á mostrar que as deduções fiscais apresen-
tam um perfil regressivo. Assim, em última análise, estes incentivos
ampliam o efeito penalizador do aumento dos preços dos cuidados de
saúde para os grupos socioeconómicos mais carenciados.
Para tal, após se descrever, na secção seguinte, as principais caracterís-
ticas do financiamento da saúde e do imposto sobre o rendimento das
pessoas físicas em Portugal (introduzido pela reforma fiscal de 1989),
discutem-se, na terceira secção, os objectivos e os efeitos dos incentivos
fiscais. Na quarta e quinta seções apresentam-se a metodologia adop-
tada e os resultados empíricos alcançados. Finalmente, na última parte
são sintetizadas as principais conclusões.
VIII. 2 - O Financiamento da Saúde em Portugal
O sistema de saúde português está baseado no Serviço Nacional de
Saúde (SNS), devendo ser, de acordo com a Constituição da República
a
(2 revisão, 1989), universal, geral e tendencialmente gratuito. Embora
assegurando a provisão de todos os tipos de cuidados, o SNS não é, po-
rém, universal, dado que subsistem, herdados do regime anterior a 1979,
esquemas obrigatórios de cobertura de riscos de doença de base
ocupacional que cobrem, nomeadamente, os funcionários públicos e os
empregados bancários, e a que recorre cerca de um quarto da população
[Freixinho (1990)]. Os beneficiários destes subsistemas têm uma grande
liberdade de escolha, podendo aceder aos serviços públicos nas mesmas
condições do resto da população e, ainda, escolher o prestador da sua
preferência, sendo, neste caso, reembolsados parcialmente das despesas
efectuadas.
Mas a provisão gratuita dos cuidados nunca foi uma característica do
SNS. Os medicamentos foram sempre pagos, ainda que parcialmente,
1 Ver, por exemplo, Feldstein e Friedman (1977).
192
pelos usuários, tendo essa parcela aumentado significativamente a partir
de meados da década de 80 [Pinto (1988)]. Representando os gastos em
medicamentos cerca de 20% da despesa total (pública e privada) em
saúde [OCDE (1990)/Credes, 'Éco-Santé'], é fundamentalmente a esse
aumento (conjugado com o acréscimo acentuado dos preços destes
bens) que se deve a diminuição da parte do financiamento público no
total, entre 1980 e 1987 (ver Quadro 1).
Embora Portugal seja o país europeu da OCDE em que o financiamento
público da saúde é mais baixo, continua a ser esta a principal fonte de
financiamento do consumo da totalidade dos cuidados de saúde. Mesmo
os que são majoritariamente tutelados pelos agentes privados (e. g. con-
sultas de especialidades, meios complementares de diagnóstico e cuida-
dos de estomatologia [Pereira (1989)] são, na sua maior parte, financia -
dos pelo Estado, seja directamente (por convenção), seja indirectamente
por meio, nomeadamente, do reembolso das despesas efectuadas pelos
subsistemas, quase todos eles integrados no sector público.
Após 1987, a política de saúde foi orientada no sentido da contenção da
despesa pública. Como conseqüência, baixaram as comparticipações nos
preços das consultas e medicamentos e foram introduzidas taxas
moderadoras nos serviços públicos, em especial nas urgências e nos in-
ternamentos. Uma vez que o financiamento público da saúde é baseado
em receitas fiscais, pretendia -se por esta via reduzir o défice orçamental
e desviar uma parte significativa dos doentes do SNS para o setor pri-
vado desde que, simultaneamente, as despesas privadas não reembolsa-
das fossem, em alguma medida, estimuladas. A admissão da possibili-
dade de dedução da totalidade desses gastos no âmbito do IRS foi en-
tendida como uma forma adequada para atingir este objectivo.
Este incentivo às despesas privadas não constitui, no entanto, uma ino-
vação absoluta no âmbito da legislação fiscal portuguesa. Antes da re-
forma já era admitida a dedução dos preços das consultas, das despesas
cirúrgicas e de internamento, mas não dos gastos em medicamentos no
rendimento declarado para efeitos de Imposto Complementar. Este im-
posto tinha, porém, uma importância “menor” no conjunto do sistema
fiscal português, contribuindo apenas com cerca de 6% das receitas dos
impostos diretos. Em contrapartida, não eram permitidas quaisquer de-
duções àquele título no Imposto Profissional ou no Imposto de Capitais,
193
que constituíam, no seu conjunto, 70% das receitas da tributação direta
[Gomes Santos e Carvalho (1987)].
O IRS é, pelo contrário, um imposto do tipo unitário e global sobre o
rendimento que explica hoje em dia cerca de 60% dos impostos diretos e
25% das receitas fiscais totais (não incluindo as contribuições para a
Seguridade Social). Das suas receitas, mais de 70% provêm de rendi-
mentos sujeitos a englobamento obrigatório e, como tal, beneficiários de
deduções de caráter personalizado e alvos de taxas progressivas [Gomes
Santos (1991)]. Pode-se, pois, concluir que o efeito de incitação fiscal às
despesas privadas em saúde foi consideravelmente ampliado com o novo
sistema.
QUADRO 1
Despesas de Saúde nos Países da CEE (em % do PIB)
1980 1987
Países Despesas Despesas % do Despesas Despesas % do
Totais Públicas Total Totais Públicas Total
Bélgica 6,6 5,4 81,8 7,2 5,5 76,4
Dinamarca 6,8 5,8 85,3 6,0 5,2 86,7
França 7,6 6,2 81,6 8,6 6,7 77,9
Alemanha 7,9 6,2 78,5 8,2 6,3 76,8
Grécia 4,3 3,5 81,4 5,3 4,0 75,5
Irlanda 8,5 7,8 91,8 7,4 6,4 86,5
Itália 6,8 5,6 82,4 6,9 5,4 78,3
Luxemburgo 6,8 6,3 92,6 7,5 6,9 92,0
Holanda 8,2 6,5 79,3 8,5 6,6 77,6
Espanha 5,9 4,4 74,6 6,0 4,3 71,7
Grã-Bretanha 5,8 5,2 89,7 6,1 5,3 86,9
Portugal 5,9 4,2 71,2 6,4 3,9 60,9
Fonte: OCDE (1990).
194
As conseqüências decorrentes dos incentivos fiscais são, contudo,
complexas. Se, por um lado, o estímulo à eficiência pode ser posto em
causa, em particular, pelo “risco moral” que lhes está associado [Arrow
(1963)], por outro lado os seus efeitos sobre a eqüidade parecem ser, à
primeira vista, regressivos. Essa regressividade deverá ser, porém, de-
monstrada. É isso que se propõe fazer nas seções seguintes.
VIII.3 - Incentivos Fiscais e Eqüidade
Os incentivos fiscais constituem, pela sua própria natureza, exceções às
regras gerais de tributação. A justificação mais freqüentemente avan-
çada para a sua adopção baseia -se na existência de externalidades
(positivas) e, em conseqüência, na necessidade de induzir comporta-
mentos cooperativos dos agentes envolvidos.
No sector de serviços de saúde, isso se justifica quando o consumo des-
ses cuidados é considerado insuficiente do ponto de vista social. Por-
tanto, somente quando a curva da procura compensada tem inclinação
negativa [Culyer (1989)] esta política terá o efeito desejado. Adicio-
nalmente, a magnitude dos seus efeitos depende da elasticidade da pro-
cura. Ora, variando esta com o tipo de cuidados (ambulatório versus
hospitalização) e com as características socioeconómicas das famílias,
as conseqüências podem ser substancialmente diferentes para os diver-
sos estratos sociais.
Se todos os estudos publicados sobre este tema (referentes unicamente
aos EUA) apontam para elasticidades-preço negativas, indicando, por-
tanto, um comportamento normal da procura, já os valores estimados
para o parâmetro variam acentuadamente de estudo para estudo.
Acresce que, na quase totalidade dos trabalhos publicados, as estimati-
vas referem-se a apenas um tipo de bem ou serviço, e, mesmo assim, os
valores são geralmente apresentados sob a forma de intervalo. 2
Em sistemas baseados num serviço nacional de saúde é muito mais di-
fícil estimar as elasticidades da procura, dado o papel diferente que neles
desempenham (e o significado que assumem) os preços. Contudo, em
2 Uma revisão exaustiva das estimativas das elasticidades da procura de cuidados de saúde
pode ser encontrada em Besley (1991).
195
Portugal houve tentativas de identificação do impacto da sua varia ção
sobre o bem-estar dos consumidores agrupados por estrato socio-
económico.
Com base nos resultados desses estudos, parece poder afirmar-se que o
aumento da parte não comparticipada dos preços dos cuidados afeta so-
bretudo os grupos de menor rendimento [Pereira e Pinto (1993)]. Por
outro lado, considerando apenas os gastos privados em medicamentos,
que eram responsáveis por cerca de 53% do total das despesas privadas
em cuidados de saúde em 1987 (INS/87), Pinto (1988) mostrou que as
famílias do grupo socioeconómico mais baixo residentes na área metro-
politana de Lisboa retraíram estes gastos em cerca de 40% entre 1980 e
1985, em conseqüência de uma diminuição em dez pontos percentuais da
taxa de comparticipação do SNS neste tipo de bens, no mesmo período.
Assim, estes elementos apontariam para uma maior elasticidade da
procura de cuidados por parte das famílias de estatuto socioeconómico
mais baixo comparativamente com as de estatuto mais elevado.
Pareceria, portanto, que os incentivos fiscais seriam adequados para
amortecer os efeitos regressivos do acréscimo dos preços, em particular
dos serviços prestados em ambulatório. No entanto, esta conclusão é
a priori prejudicada por dois factores.
Em primeiro lugar, as famílias dos estratos socioeconómicos mais baixos
são, muito provavelmente, na sua maioria, constituídas por indivíduos
isolados e idosos cuja fonte principal de rendimento é constituída por
pensões.3 Ora, mais de 90% dos pensionistas recebiam, em 1990,
pensões de valor inferior ao salário mínimo nacional [Instituto de Gestão
Financeira da Segurança Social (1990)] e, em conseqüência, encon-
travam-se abaixo do limite a partir do qual a declaração do seu rendi-
mento para efeitos fiscais era legalmente exigível. Acresce que mesmo
a maioria dos que o declaram acabam por não pagar imposto, devido à
dedução específica da categoria H e das deduções à colecta, indepen-
dentemente dos benefícios fiscais específicos associados à declaração
das despesas com cuidados de saúde. Assim, para estes casos não
existe, na prática, a possibilidade de dedução das despesas com saúde.
3 Esta asserção é discutida em Pinto, [Link].
196
Por outro lado, a “poupança fiscal” associada ao incentivo (consubs-
tanciado na possibilidade de dedução à base colectável dos encargos
com os cuidados de saúde) varia segundo a taxa marginal de imposto
aplicável. Se o bem fôr normal (ou, por maioria de razão, se fôr
superior), a “poupança” será tanto maior quanto mais elevada fôr aquela
taxa; portanto, o seu impacto é regressivo.
Tudo aponta, portanto, para a regressividade dos incentivos fiscais deste
tipo.
Antes, porém, de apresentar os resultados, é oportuno discutir breve-
mente a metodologia adotada. É o que faremos no ponto seguinte.
VIII.4 - Metodologia, Variáveis e Dados
Neste estudo, a avaliação do impacto sobre a eqüidade decorrente da
dedução fiscal das despesas privadas em cuidados de saúde foi efectu-
ada de acordo com a metodologia desenvolvida por Wagstaff e van
Doorslaer (1990). Assim, a medida da sua progressividade foi realizada
recorrendo aos índices de concentração de Gini, Suits e Pfähler.4
O índice de Gini é o mais usualmente utilizado em análises deste tipo,
pelo que não nos deteremos a explicá-lo. Já os índices de Suits (1977) e
de Pfähler (1987) relacionam-se, ao contrário do que é comum, com
curvas de concentração relativa. Estas curvas estão representadas na
Figura 1. A principal diferença entre este tipo de curvas e as curvas de
concentração usuais é o fato de se representarem em abscissas as pro-
porções acumuladas de rendimento ilíquido, e não de agregados famili-
ares. Isso implica que o eixo de referência seja a repartição original do
rendimento representado pela diagonal e, conseqüentemente, seja rela -
tivamente a esta repartição que o impacto redistributivo do sistema de
financiamento é avaliado.
A curva C* reflecte a relação entre a porcentagem acumulada do rendi-
mento ilíquido das famílias e as proporções acumuladas dos valores da
variável em análise que, no caso vertente, consideraremos ser a
4 Também se poderiam utilizar os índices de Kakwani e de Reynolds-Smolenski (ver
Wagstaff e van Doorslaer, op. cit.). Isso não é feito para não sobrecarregar o texto, com
benefícios menores para as conclusões.
197
“poupança fiscal”, definida como o montante de redução de imposto re-
sultante da apresentação de despesas em cuidados de saúde na declara-
ção de IRS. Assim, se C* situar-se acima da diagonal, os valores desta
variável aumentam mais que proporcionalmente do que o rendimento
ilíquido (caso apresentado na Figura 1) e, portanto, as deduções fiscais
são “progressivas”.5 Conclusão inversa se retirará se C* situar-se
abaixo da diagonal, enquanto que, se coincidir com esta última, o sistema
é proporcional . Definindo-se o índice de Suits como
*
s=J c
onde J*c mede a área entre C* e a diagonal, s será positivo ou negativo
consoante as porcentagens acumuladas da variável evoluírem mais ou
menos proporcionalmente do que as porcentagens acumuladas de ren-
dimento.
FIGURA 1
Índices de Suits e de Pfähler
5 Note-se que se concluiria em sentido contrário se o objecto da análise fosse a repartição
das despesas com serviços de saúde.
198
O índice de Pfähler distingue-se do de Suits pelo facto de medir a redis-
tribuição do sistema de financiamento, e não apenas o grau de afasta-
mento da variável em análise da proporcionalidade. Para tal obtém-se a
curva L*, que relaciona as porcentagens acumuladas de rendimento lí-
quido (obtido por dedução dos impostos, líquidos de subsídios, ao ren-
dimento ilíquido) com as homólogas do rendimento bruto. Se o sistema
fôr progressivo, L* situar-se-á acima da diagonal e, designando por JL a
área delimitada por L* e pela diagonal, JL será negativo. O contrário se
passará se o sistema fôr regressivo (caso apresentado na Figura 1). De-
signando por p o índice de Pfähler, virá
p = - JL
de forma que o índice seja positivo quando o sistema é progressivo.
Para efectuar a padronização dos agregados familiares (para ter em
conta a sua dimensão), estes foram classificados por escalão de rendi-
mento, tendo-se em seguida utilizado a expressão E = G/S , em que E
representa o rendimento ilíquido por adulto equivalente, G o rendimento
ilíquido médio, S a dimensão média dos agregados e a elasticidade de
equivalência [Buhmann et al. (1988)]. Deste modo, o rendimento
equivalente mede a capacidade de pagamento média.
A “poupança fiscal” por escalão de rendimento foi obtida multiplicando a
taxa marginal média de tributação em cada escalão pelas despesas
médias em saúde declaradas.6 Esta taxa foi obtida tendo em considera-
ção a taxa média efectiva de tributação em cada escalão e o sistema de
taxas marginais de IRS em vigôr em 1989. Por seu turno, a taxa média
de tributação foi determinada com base no rendimento bruto declarado
(sem padronização), uma vez que a lei fiscal já prevê ponderações dife-
rentes (splitting e deduções à coleta) consoante o estado civil e o nú-
6 Em versões anteriores deste artigo utilizou-se a taxa média efetiva de imposto para
calcular esta “poupança” em vez da taxa marginal (ou uma sua aproximação) que agora
se adopta. Embora a utilização da taxa média se possa justificar quando se prevê que os
resultados não serão significativamente afectados devido, designadamente, ao montante
a deduzir ser uma proporção relativamente pequena do rendimento e a não diferenciação
das taxas marginais para a esmagadora maioria dos escalões de rendimento, o que parece
ser o caso, a adopção da taxa marginal (mesmo que “aproximada” pela taxa média) é
mais correcta do ponto de vista teórico.
199
mero de dependentes, para o cálculo do imposto devido. Tal procedi-
mento corresponde ao que se pode considerar uma “padronização fiscal”
implícita.7
Os resultados que se apresentam na secção seguinte foram obtidos para
= 0,6, considerado o valor mais plausível para Portugal [Pereira e
Pinto (1993)]. No entanto, uma vez que as conclusões poderiam vir
modificadas pelo valor atribuído a este parâmetro, efectuaram-se simu-
lações para diferentes valores de .
Para determinar o efeito distributivo do incentivo fiscal, utilizaram-se os
dados resultantes do tratamento informático das declarações de IRS dos
titulares de rendimentos do trabalho dependente e/ou pensões,
abrangendo mais de 1,3 milhão de agregados (incluindo indivíduos ca-
sados e não casados, com ou sem dependentes) que foram tomados
como amostra representativa. O ano de referência do rendimento foi
1989 [Gomes Santos (1991)].
Infelizmente não foi possível dispôr de informações relativas à totalidade
dos contribuintes devido à maior complexidade de tratamento das
declarações dos indivíduos que apresentaram igualmente rendimentos
provenientes do exercício de profissão liberal ou da actividade comercial
ou industrial (declarações “modelo 2”). Também não se teve acesso ao
Inquérito aos Orçamentos Familiares de 1989/90, pelo que não foi
possível incluir na análise os agregados isentos de tributação. Muito
provavelmente, se toda a população estivesse incluída, o efeito regres-
sivo detectado na análise empírica seria muito mais elevado.
Apesar de tudo, a amostra retida representa mais de 60%, quer do total
das declarações de IRS, quer do rendimento ilíquido declarado por todos
os contribuintes relativamente ao ano de 1989.
7 Um exercício mais rigoroso envolveria calcular a taxa média de imposto antes e após a
dedução fiscal, de modo a identificar os escalões que mais se beneficiam com esta
dedução. Contudo, isso exigiria o tratamento das declarações de rendimento individuais,
o que não é possível.
200
VIII.5 - Resultados
Atendendo às características subjacentes ao imposto pessoal sobre o
rendimento, não surpreende que, tal como se evidencia no Quadro 2, o
efeito do IRS se revele progressivo. Tal deve-se, nomeadamente, à pro-
gressividade das taxas marginais de tributação e à existência de dedu-
ções à coleta de montante fixo, à semelhança do que também se passa
na maioria dos países em matéria deste tipo de imposto. Assim, nos
quatro escalões de rendimento mais baixo (correspondendo, grosso
modo, aos três primeiros decis) concentram-se 15% do rendimento ilí-
quido equivalente e 3% das receitas fiscais, enquanto os agregados in-
cluídos nos noves últimos escalões (correspondentes ao decil de rendi-
mento mais elevado) são titulares de mais de 27% do rendimento e pa-
gam cerca de 52% do total do IRS. Em conseqüência, o valor obtido
para o índice de Suits é positivo.
Também o índice de Pfähler calculado para o rendimento líquido
(rendimento bruto menos pagamento de IRS) é positivo, o que significa
que esta variável está mais eqüitativamente distribuída que o rendimento
ilíquido equivalente. Esta situação encontra-se representada na Figura 2,
em que a curva do rendimento líquido se encontra acima da curva do
rendimento equivalente, assumido como referência e, conseqüentemente,
representado na diagonal.
FIGURA 2
Curvas de Concentração Relativa
201
No que se refere às despesas privadas em cuidados de saúde deduzidas
em IRS, a sua distribuição por classes de rendimento é mais concentrada
do que a do rendimento ilíquido equivalente. De fato, os quatro primeiros
escalões são responsáveis por 6% das despesas declaradas enquanto
detêm 15% do rendimento; pelo contrário, as famílias dos nove últimos
escalões apresentam 38,5% das despesas e possuem cerca de 27% do
rendimento bruto. Conseqüentemente, o índice de Gini assume um valor
superior para estas despesas do que para o rendimento ilíquido, e o
índice de Suits assume valor positivo. Assim, o bem “cuidados de saúde
privados” pode ser considerado como um bem superior (nas condições
da amostra).
Significativa é, também, a análise da distribuição por escalões de ren-
dimento da “poupança fiscal” decorrente do abatimento, na base tribu-
tável do IRS, da totalidade das despesas com saúde não reembolsadas.
Conforme o previsto, a dedução tem um efeito regressivo. De fato, tanto
as curvas quanto os índices de concentração mostram que esta variável
torna o IRS menos progressivo. Assim, todos os índices são positivos,
traduzindo o fato de os agregados pertencentes aos escalões de
rendimento mais elevado obterem benefícios fiscais (a título de dedução
das despesas de saúde) relativamente maiores que os auferidos pelas
famílias dos escalões mais baixos. Na realidade, as famílias dos nove
últimos escalões, sendo titulares de cerca de 27% do rendimento,
recebem 45% dos benefícios fiscais, enquanto os agregados dos quatro
primeiros escalões possuem 15% do rendimento e recebem 5,5% dos
benefícios da dedução. Conseqüentemente, como se pode ver na Fi-
gura 2, a curva de concentração situa-se para a direita da diagonal,
indicando que esta poupança teve por efeito uma moderação da pro-
gressividade do imposto.
Acresce que a repartição do “ganho fiscal” resultante da dedução por
escalão de rendimento apresenta um perfil mais regressivo que a
“progressividade” das despesas privadas em cuidados de saúde. Com
efeito, os valores apresentados pelos índices de concentração para as
despesas de saúde são inferiores aos dos índices homólogos da
“poupança fiscal” (ver Quadro 2). Do mesmo modo, pode observar-se
na Figura 2 que a curva de concentração da poupança fiscal se situa
para a direita da que corresponde às despesas em saúde. Conseqüente-
mente, se estas despesas são globalmente regressivas, considerando-se
202
não apenas os trabalhadores por conta de outrem e pensionistas não
isentos, mas a totalidade da população [Pereira e Pinto (1993)], então a
dedução fiscal acentua essa regressividade.
QUADRO 2
Características do Imposto Pessoal sobre Rendimento
(Em Porcentagem)
Escalões Utilidades Rendimento Despesas IRS Rendimento “Poupança
Rendimento Fiscais Equivalente de Saúde Líquido Fiscal”
Bruto
<500 12,08 4,73 1,05 0,34 5,72 0,94
601-700 6,00 3,37 1,64 0,87 3,93 1,47
701-800 6,22 3,85 2,29 1,15 4,46 2,05
801-900 6,35 4,36 2,90 1,55 5,00 2,60
901-1000 6,64 4,95 3,45 2,14 5,58 3,09
1001-1200 13,15 10,94 8,40 5,90 12,07 7,53
1201-1400 10,40 10,02 9,00 7,05 10,69 8,06
1401-1700 10,48 11,81 12,68 10,24 12,16 11,37
1701-2000 6,70 8,96 10,35 9,54 8,83 9,28
2001-2300 4,44 6,81 8,60 8,35 6,46 7,71
2301-2700 3,92 6,85 9,29 9,59 6,24 8,33
2701-3200 2,97 5,95 8,51 9,64 5,12 7,63
3201-3800 2,08 4,88 7,10 9,25 3,89 8,49
3801-4500 1,30 3,58 5,16 7,81 2,63 6,17
4501-5500 0,82 2,70 3,75 6,58 1,82 6,17
5501-7000 0,41 1,67 2,21 4,49 1,03 3,63
7001-10000 0,19 1,03 1,67 3,07 0,57 2,74
10001- 0,05 0,37 0,67 1,23 0,18 1,40
15000
> 15000 0,01 0,16 0,14 0,64 0,05 0,33
Total 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00 100,00
Índices
Gini - 0,1514 0,2506 0,3415 0,1087 0,2929
Suits - - 0,1169 0,2240 - 0,1667
Pfähler - - - - 0,0504 -
Obs.: Os índices foram calculados pelo método da aproximação linear [Murteira e Black
(1983)].
203
Os testes de sensibilidade efectuados utilizando os valores = 0,4 e
= 0,7 mostram, por sua vez, que uma elasticidade mais elevada
(reflectindo uma diminuição das economias de escala do consumo fa-
miliar) induz um abaixamento da desigualdade na repartição do rendi-
mento equivalente e, conseqüentemente, uma maior regressividade da
“poupança fiscal” (ver Quadro 3). O inverso se passa com = 0,4. Em
qualquer caso, as diferenças nos valores dos índices são praticamente
irrelevantes.
QUADRO 3
Análise de Sensibilidade
Elasticidade de Equivalência
Índices
0,60 0,70 0,40
Gini 0,1515 0,1463 0,1613
Concentração Despesas Saúde 0,2506 0,2506 0,2506
Concentração IRS 0,3415 0,3415 0,3415
Concentração Rendimento Líquido 0,1087 0,0966 0,1294
Pfahler 0,0504 0,0581 0,0381
Concentração "Poupança Fiscal" 0,2929 0,2929 0,2929
Suits 0,1667 0,1717 0,1568
A literatura existente sobre o impacto dos incentivos fiscais sobre o
consumo de cuidados de saúde (nomeadamente em sistemas em que o
financiamento é baseado nos seguros) prova que são geradores de ine-
ficiência [Feldstein e Friedman (1977)]. Nos sistemas do tipo SNS este
efeito não foi ainda avaliado, mas o seu impacto sobre a eqüidade parece
ser, de forma inquestionável, o de contribuir para o amortecimento da
progressividade do imposto pessoal sobre o rendimento.
De acordo com a evidência empírica produzida, o impacto deste tipo de
incentivos fiscais é, mesmo, mais regressivo que o do acréscimo das
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despesas privadas em cuidados de saúde, consideradas como a única
variável significativamente regressiva do financiamento do SNS [Pereira
e Pinto (1993)].
205
VIII.6 - Conclusões
A literatura existente sobre o impacto dos incentivos fiscais sobre o
consumo de cuidados de saúde (nomeadamente em sistemas em que o
financiamento é baseado nos seguros) prova que são geradores de ine-
ficiência [Feldstein e Friedman (1977)]. Nos sistemas do tipo SNS este
efeito não foi ainda avaliado, mas o seu impacto sobre a eqüidade parece
ser, de forma inquestionável, o de contribuir para o amortecimento da
progressividade do imposto pessoal sobre o rendimento.
De acordo com a evidência empírica produzida, o impacto deste tipo de
incentivos fiscais é, mesmo, mais regressivo que o do acréscimo das
despesas privadas em cuidados de saúde, consideradas como a única
variável significativamente regressiva do financiamento do SNS [Pereira
e Pinto (1993)].
Assim, se é um facto que o seu efeito global não é muito signific ativo,
dado o reduzido montante assumido pela dedução (pelo menos em 1989,
primeiro ano em que vigorou o novo sistema), pode-se, no entanto,
concluir que, se o objectivo da sua introdução foi o de compensar (ainda
que parcialmente) as conseqüências sobre a eqüidade decorrentes do
acréscimo das despesas privadas em saúde, então o resultado é per-
verso.
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