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Ação do PSB no STF sobre Segurança Pública

O documento aborda diversas decisões judiciais relacionadas a direitos humanos, segurança pública e questões sociais no Brasil. Destaca a necessidade de planos para reduzir a letalidade policial, a proteção de pessoas em situação de rua e a inconstitucionalidade de decretos que favorecem interesses pessoais. Além disso, discute a legalidade da interrupção de gravidez de fetos anencéfalos e a incompatibilidade da prisão especial para portadores de diploma de nível superior com o princípio da isonomia.

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Ana Beatriz Sena
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Ação do PSB no STF sobre Segurança Pública

O documento aborda diversas decisões judiciais relacionadas a direitos humanos, segurança pública e questões sociais no Brasil. Destaca a necessidade de planos para reduzir a letalidade policial, a proteção de pessoas em situação de rua e a inconstitucionalidade de decretos que favorecem interesses pessoais. Além disso, discute a legalidade da interrupção de gravidez de fetos anencéfalos e a incompatibilidade da prisão especial para portadores de diploma de nível superior com o princípio da isonomia.

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635 O Partido Socialista Brasileiro A elaboração e encaminhamento ao STF, pelo Estado do Rio de Janeiro, em

ajuizou ADP no STF pedindo para prazo de até 90 dias, de um plano para redução da letalidade policial e
que fossem reconhecidas e sanadas controle de violações de direitos humanos pelas forças de segurança,
as graves lesões a preceitos contendo medidas objetivas, cronogramas específicos e a previsão dos
fundamentais da Constituição recursos necessários para a sua implementação;
praticadas pelo Estado do Rio de  O emprego e a fiscalização da legalidade do uso da força sem feitos à luz
Janeiro na elaboração e dos Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas de Fogo pelos
implementação de sua política de Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei.
segurança pública, notadamente no Criação de um grupo de trabalho sobre Polícia Cidadã no Observatório de
que tange à excessiva e crescente Direitos Humanos localizado no CNJ;
letalidade da atuação policial,  Nos termos dos Princípios Básicos sobre a Utilização da Força e de Armas
voltada sobretudo contra a de Fogo pelos Funcionários Responsáveis pela Aplicação da Lei, só se
população pobre e negra de justifica o uso da força letal por agentes de Estado em casos extremos
comunidades. quando, (i) exauridos todos os demais meios, inclusive os de armas não-
letais, ele for (ii) necessário para proteger a vida ou prevenir um dano sério,
(iii) decorrente de uma ameaça concreta e iminente;
Relações:  As investigações de incidentes que tenham como vítimas
Caso Favela Nova Brasília; crianças/adolescentes terão a prioridade absoluta;
Decreto Estadual 27.795/2001 e  No caso de buscas domiciliares por parte das forças de segurança do Estado
Decreto 46.775/2019 do Rio de Janeiro, sejam observadas as seguintes diretrizes constitucionais,
sob pena de responsabilidade disciplinar, civil e penal do agente policial: (i)
a diligência, no caso de cumprimento de mandado judicial, deve ser
realizada somente durante o dia, vedando-se, assim, o ingresso forçado a
domicílios à noite; (ii) a diligência, quando feita sem mandado judicial, deve
estar lastreada em causas prévias e robustas que indiquem a existência de
flagrante delito, não se admitindo que informações obtidas por meio de
denúncias anônimas sejam utilizadas como justificativa exclusiva para a
deflagração de ingresso forçado a domicílio; (iii) a diligência deve ser
justificada e detalhada por meio da elaboração de auto circunstanciado,
que deverá instruir eventual auto de prisão em flagrante ou de apreensão
de adolescente por ato infracional e ser remetido ao juízo da audiência de
custódia para viabilizar o controle judicial posterior; e (iv) a diligência deve
ser realizada nos estritos limites dos fins excepcionais a que se destinam,
proibindo-se a prática de utilização de domicílios ou de qualquer imóvel
privado como base operacional das forças de segurança, sem que haja a
observância das formalidades necessárias à requisição administrativa;
 Obrigatória a disponibilização de ambulâncias em operações policiais
previamente planejadas em que haja a possibilidade confrontos armados,
sem prejuízo da atuação dos agentes públicos e das operações;
 A determinação de que o Estado do Rio de Janeiro, no prazo máximo de
180 (cento e oitenta) dias, instale equipamentos de GPS e sistemas de
gravação de áudio e vídeo nas viaturas policiais e nas fardas dos agentes de
segurança, com o posterior armazenamento digital dos respectivos
arquivos;
976 Pessoas em situação de rua. Foi determinado, liminarmente, que os Estados, o Distrito Federal e os
A ação foi apresentada pela Rede Municípios passem a observar, de forma imediata e independente de adesão
Sustentabilidade, pelo PSOL e pelo formal, as diretrizes instituídas pela Política Nacional para a População em
Movimento dos Trabalhadores Sem Situação de Rua (Decreto nº 7.053/2009).
Teto - MST, sob o argumento de que
O relator concedeu, ainda, o prazo de 120 (cento e vinte) dias para que o
essa população específica está
governo federal elabore um plano de ação e monitoramento para a efetiva
submetida a condições desumanas
implementação da política nacional para essa população, com a participação,
de vida devido a omissões
dentre outros órgãos, do Comitê intersetorial de Acompanhamento e
estruturais das três esferas
Monitoramento da Política Nacional para População em Situação de Rua
federativas do Executivo e do
(CIAMP-Rua), do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), da
Legislativo.
Defensoria Pública da União (DPU) e do Movimento Nacional da População em
Situação de Rua, com medidas para o fortalecimento de políticas públicas
Estado de coisa inconstitucional voltadas à moradia, trabalho, renda, educação e cultura, que respeitem as
concernente às condições especificidades dos diferentes grupos familiares e evitem sua separação,
desumanas de vida da população destacando a elaboração de um diagnóstico atual da população em situação de
em situação de rua: omissões rua, com identificação do perfil, da procedência e de suas principais
estruturais do P. Público. necessidades, entre outros elementos a amparar a construção de políticas
públicas voltadas ao segmento.
Temas:
Além disso, pela decisão, Estados e Municípios devem adotar medidas que
- Aporofobia
garantam a segurança pessoal e dos bens da população em situação de rua
- Arquitetura hostil/de exclusão
dentro dos abrigos institucionais existentes, inclusive com apoio para seus
- Política Higienista
animais. Ademais, fica proibido o recolhimento forçado de bens e pertences, a
- Housing First
remoção e o transporte compulsório das pessoas em situação de rua, bem
- Controle de políticas públicas pelo
como o emprego de técnicas de arquitetura hostil contra essa população.
Poder Judiciário
Também, os Poderes Executivos distrital e municipais, no prazo de 120 dias,
devem realizar diagnóstico pormenorizado da situação, nos seus respectivos
territórios, com a indicação do quantitativo de pessoas em situação de rua por
área geográfica, quantidade e local das vagas de abrigo e de capacidade de
fornecimento de alimentação.
995 Guardas Municipais são órgãos As guardas municipais têm entre suas atribuições o poder-dever de prevenir,
integrantes da segurança pública: inibir e coibir infrações penais ou administrativas e atos infracionais que
interpretação conforme à atentem contra os bens, serviços e instalações municipais. "Trata-se de
Constituição ao artigo 4º da Lei atividade típica de segurança pública exercida na tutela do patrimônio
13.022/14 e ao artigo 9º da municipal", ressaltou.
13.675/18
Ele lembrou o julgamento do RE 846854 (Tema 544), quando o Tribunal
reconheceu que as guardas municipais executam atividade de segurança
pública essencial ao atendimento de necessidades inadiáveis da comunidade.
“Não há nenhuma dúvida judicial ou legislativa da presença efetiva das guardas
municipais no sistema de segurança pública do país”, concluiu.

Ao seguir o relator, Zanin afirmou é ampla a jurisprudência do STF que


reconhece que as guardas municipais executam atividade de segurança pública,
e esse entendimento está em harmonia com a Lei 13.022/2014 (que estabelece
o estatuto geral das guardas municipais) e da Lei 13.675/2018 (que instituiu o
Sistema Único de Segurança Pública).

54 Interrupção de gravidez de feto De acordo com o entendimento firmado, o feto sem cérebro, mesmo que
anencéfalo. biologicamente vivo, é juridicamente morto, não gozando de proteção jurídica
e, principalmente, de proteção jurídico-penal. "Nesse contexto, a interrupção
da gestação de feto anencefálico não configura crime contra a vida - revela-se
conduta atípica", afirmou o relator.

O primeiro ponto debatido pelo relator em seu voto foi a separação entre
Estado e Igreja. Segundo Marco Aurélio, a CF/88 consagrou não apenas a
liberdade religiosa - inciso VI do artigo 5º -, como também o caráter laico do
Estado - inciso I do artigo 19.

Se, de um lado, segundo S. Exa., a CF, ao consagrar a laicidade, impede que o


Estado intervenha em assuntos religiosos, "seja como árbitro, seja como
censor, seja como defensor", de outro, a garantia do Estado laico obsta que
dogmas da fé determinem o conteúdo de atos estatais.

No que tange ao direito à vida, Marco Aurélio foi enfático: não é dado invocar
o direito à vida dos anencéfalos. "Anencefalia e vida são termos antitéticos.
Conforme demonstrado, o feto anencéfalo não tem potencialidade de vida."
Segundo o ministro, não existindo possibilidade de o feto se tornar uma pessoa
humana, não surge justificativa para a tutela jurídico-penal, com maior razão
quando eventual tutela esbarra em direitos fundamentais da mulher.

Ao contrário do que sustentado por alguns, o ministro frisou não ser possível
invocar, em prol da proteção dos fetos anencéfalos, a possibilidade de doação
de seus órgãos. Para Marco Aurélio, não se pode obrigar a manutenção de uma
gravidez apenas para viabilizar a doação de órgãos, sob pena de "coisificar a
mulher e ferir, a mais não poder, a sua dignidade". O relator ainda destacou a
impossibilidade de se aproveitar os órgãos de um feto anencéfalo.

527 LGBTS E LOCAL DE CUMPRIMENTO Proposta pelos LGBTS – parâmetros de acolhimento de encarcerados: Perda do
DE PENA objeto, em razão da resolução 348/20 do CNJ, que estabeleceu que cabe ao juiz
decidir o local de pena mais apropriado.

Sob o aspecto psíquico, Marco Aurélio destacou parecer incontroverso que


impor a continuidade da gravidez nestas condições pode conduzir a quadro
devastador a família toda e, sobretudo, a mulher.

"Enquanto, numa gestação normal, são nove meses de acompanhamento,


minuto a minuto, de avanços, com a predominância do amor, em que a
alteração estética é suplantada pela alegre expectativa do nascimento da
criança; na gestação do feto anencéfalo, no mais das vezes, reinam sentimentos
mórbidos, de dor, de angústia, de impotência, de tristeza, de luto, de
desespero, dada a certeza do óbito."

"Está em jogo o direito da mulher de autodeterminar-se, de escolher, de agir


de acordo com a própria vontade num caso de absoluta inviabilidade de vida
extrauterina. Estão em jogo, em última análise, a privacidade, a autonomia e a
dignidade humana dessas mulheres. Hão de ser respeitadas tanto as que optem
por prosseguir com a gravidez - por sentirem-se mais felizes assim ou por
qualquer outro motivo que não nos cumpre perquirir - quanto as que prefiram
interromper a gravidez, para por fim ou, ao menos, minimizar um estado de
sofrimento." (grifos nossos)

"Vale ressaltar caber à mulher, e não ao Estado, sopesar valores e sentimentos


de ordem estritamente privada, para deliberar pela interrupção, ou não, da
gravidez. Cumpre à mulher, em seu íntimo, no espaço que lhe é reservado - no
exercício do direito à privacidade -, sem temor de reprimenda, voltar-se para si
mesma, refletir sobre as próprias concepções e avaliar se quer, ou não, levar a
gestação adiante. Ao Estado não é dado intrometer-se." (grifos nossos)

"Os tempos atuais, realço, requerem empatia, aceitação, humanidade e


solidariedade para com essas mulheres. (...) somente aquela que vive tamanha
situação de angústia é capaz de mensurar o sofrimento a que se submete. Atuar
com sapiência e justiça, calcados na Constituição da República e desprovidos
de qualquer dogma ou paradigma moral e religioso, obriga-nos a garantir, sim,
o direito da mulher de manifestar-se livremente, sem o temor de tornar-se ré
em eventual ação por crime de aborto."

964 Declarou inconstitucional o Decreto O indulto é um dos mecanismos políticos de extinção da punibilidade previstos
do presidente que concedeu expressamente pela atual ordem constitucional e cuja utilização é vedada para
indulto visando interesse pessoal crimes específicos. A partir de um complexo sistema de freios e contrapesos,
ele é considerado como importante instrumento de política criminal, voltado a
atenuar possíveis incorreções legislativas ou judiciárias em prol da reinserção e
ressocialização de condenados que a ele façam jus.

Diante de sua natureza jurídica de ato de governo ou ato político (espécie do


gênero ato administrativo), o indulto reveste-se de ampla discricionariedade,
contudo, disso não resulta a sua impossibilidade absoluta de ser questionado
perante o Poder Judiciário, em especial para verificar se o seu objeto está de
acordo com os ditames constitucionais. Na linha da jurisprudência desta Corte,
é possível realizar o controle de constitucionalidade de decreto de indulto,
notadamente quanto a possível ocorrência de desvio de finalidade.

Na espécie, o então Presidente da República, utilizando-se de sua competência


constitucional, editou decreto de indulto individual em favor de parlamentar
federal que no dia imediatamente anterior foi condenado, pelo Plenário do STF,
à pena de oito anos e nove meses de reclusão, em regime inicial fechado, pela
prática dos crimes de ameaça ao Estado Democrático de Direito e de coação no
curso do processo. Nesse contexto, verificado que o benefício foi concedido de
modo absolutamente desconectado do interesse público — mas em razão do
mero vínculo de afinidade político-ideológico entre o chefe do Poder Executivo
e o beneficiário — há evidente desrespeito aos princípios norteadores da
Administração Pública, principalmente o da impessoalidade e da moralidade
administrativa.

Com base nesses entendimentos, o Plenário, em apreciação conjunta, por


maioria, julgou procedentes as ações para declarar a inconstitucionalidade do
Decreto presidencial de 21 de abril de 2022.

334 Prisão especial para quem possua Em seu voto pela procedência do pedido, o ministro Alexandre de Moraes
diploma de nível superior é explicou que o instituto da prisão especial, na forma atual, não é uma nova
incompatível com a Constituição modalidade de prisão cautelar, mas apenas uma forma diferenciada de
Federal (fere princípio da recolhimento da pessoa presa provisoriamente, segregada do convívio com os
isonomia). demais presos provisórios, até a condenação penal definitiva.

A regra processual, que existe na legislação brasileira desde 1941, para o


relator, dispensa um tratamento diferenciado, mais benéfico, ao preso
especial. “Apenas o fato de a cela em separado não estar superlotada já
acarreta melhores condições de recolhimento aos beneficiários desse direito,
quando comparadas aos espaços atribuídos à população carcerária no geral –
que consiste em um problema gravíssimo em nosso país, podendo extrapolar
em até quatro vezes o número de vagas disponíveis”, ressaltou.

Situação mais vulnerável

De acordo com o ministro, a Constituição Federal, o CPP e a Lei de Execuções


Penais (LEP) legitimam o tratamento diferenciado na forma de recolhimento de
determinados presos em razão de circunstâncias específicas. É o caso da
diferenciação em razão da natureza do delito, da idade e do sexo da pessoa
condenada e a segregação de presos provisórios de presos definitivos de
acordo com a natureza da infração penal imputada.

Nesses casos, a medida visa evitar, por exemplo, violências decorrentes da


convivência de homens e mulheres na mesma prisão, a influência de presos
definitivos contra pessoas ainda presumidamente inocentes e, ainda, proteção
a crianças e adolescentes que tenham cometido atos infracionais. “Em todas
essas hipóteses, busca-se conferir maior proteção à integridade física e moral
de presos que, por suas características excepcionais, estão em situação mais
vulnerável”, observou.

Medida discriminatória

Contudo, a seu ver, esse raciocínio não se aplica à prisão especial para quem
tem diploma universitário. “Trata-se, na realidade, de uma medida
discriminatória, que promove a categorização de presos e que, com isso, ainda
fortalece desigualdades, especialmente em uma nação em que apenas 11,30%
da população geral tem ensino superior completo e em que somente 5,65% dos
pretos ou pardos conseguiram graduar-se em uma universidade”. Ou seja, “a
legislação beneficia justamente aqueles que já são mais favorecidos
socialmente, os quais já obtiveram um privilégio inequívoco de acesso a uma
universidade”.

779 Legítima defesa da honra. Com esse entendimento, o Supremo Tribunal Federal decidiu nesta terça-feira
Inconstitucionalidade da tese da (1º/8), por unanimidade, que é inconstitucional o uso da tese da legítima defesa
legítima defesa da honra da honra em casos de feminicídio, tanto na fase processual quanto pré-
processual, bem como perante o Tribunal do Júri, sob pena de nulidade do ato
e do julgamento.

O Supremo já havia formado maioria contra a tese em junho. Na sessão desta


terça-feira, o julgamento foi finalizado e os ministros acompanharam uma
alteração proposta por Dias Toffoli, relator do caso.

Toffoli incluiu em seu voto trecho segundo o qual não fere a soberania do
Tribunal do Júri o provimento de apelação contra absolvições fundadas na tese
da legítima defesa da honra.

Votaram na tarde desta terça as ministras Cármen Lúcia e Rosa Weber,


presidente do STF. Para Cármen, a tese da legítima defesa da honra admite
como aceitável que se mate mulheres, sem que os agressores sejam punidos.

"É preciso que isso seja extirpado inteiramente. Mais que uma questão de
constitucionalidade, que tem como base a dignidade humana, estamos falando
de dignidade no sentido próprio, subjetivo e concreto de uma sociedade que
ainda hoje é sexista, machista, misógina e mata mulheres apenas porque elas
querem ser o que elas são: mulheres donas de suas vidas", disse a ministra.

Para Cármen, é um bom momento para que o Judiciário retire do cenário


jurídico a "possibilidade de se ter como aceita a morte provocada por um
homem, sem pena alguma [a ele imposta]".

"A jurisprudência há de se fazer coerente com o tempo em que vivemos. Um


tempo de dignidade humana descrita constitucionalmente, mas de
indignidades desumanas que prevalecem, especialmente contra alguns
grupos".

Segunda a votar nesta terça-feira, a ministra Rosa Weber afirmou que a tese da
legítima defesa da honra traduz expressão de uma sociedade "patriarcal,
arcaica e autoritária".

"Não há espaço no contexto de uma sociedade democrática, livre, justa e


solidária, fundada no primado da dignidade da pessoa humana, para a
restauração de costumes medievais e desumanos do passado, pelos quais
tantas mulheres foram vítimas da violência e do abuso por causa de uma
ideologia patriarcal fundada no pressuposto da superioridade masculina."

"Atualmente, sob a égide da ordem constitucional de 1988, a sociedade


brasileira comprometida com o princípio da dignidade da pessoa humana e
com o repúdio à violência e à todas as formas de discriminação, já não mais
tolera que nenhuma pessoa seja privada do direito à vida", concluiu.

ADPF
A decisão foi tomada na ADPF 779, ajuizada pelo PDT. Na ação, a legenda pede
para que seja afastando o entendimento da legitima defesa da honra e que se
dê interpretação conforme a Constituição ao artigo 483, III, § 2º, do Código de
Processo Penal.

Ao votar em junho, Toffoli afirmou que a tese não se enquadra na legítima


defesa estabelecida pelo artigo 25 do Código Penal: "Entende-se em legítima
defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta
agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem".

O relator destacou que quem usa violência contra a mulher para reprimir um
adultério não está protegido por essa excludente de ilicitude. Afinal, essa
pessoa não está se defendendo de uma agressão injusta, mas atacando uma
mulher "de forma desproporcional, covarde e criminosa".

Ele também ressaltou que a honra é um atributo personalíssimo, que não pode
ser abalada em virtude de ato atribuído a terceiro. Quem tiver sua honra lesada
pode buscar compensação por outros meios, como ações cíveis, disse Toffoli.

"A legítima defesa da honra é recurso retórico odioso, desumano e cruel, usado
por acusados de feminicídio para imputar às vítimas a causa de suas próprias
mortes ou lesões, contribuindo para a perpetuação da cultura de violência
contra as mulheres no país", disse.
279 Assistência jurídica municipal Prestação desse serviço público para auxílio da população economicamente
gratuita. vulnerável não tem por objetivo substituir a atividade prestada pela Defensoria
Pública. O serviço municipal atua de forma simultânea. Trata-se de mais um
espaço para garantia de acesso à jurisdição (art. 5º, LXXIV, da CF/88)
Os municípios detêm competência para legislar sobre assuntos de interesse
local, decorrência do poder de autogoverno e de autoadministração. Assim,
cabe à administração municipal estar atenta às necessidades da população,
organizando e prestando os serviços públicos de interesse local (art. 30, I, II e
V). Além disso, a competência material para o combate às causas e ao controle
das condições dos vulneráveis em razão da pobreza e para a assistência aos
desfavorecidos é comum a todos os entes federados (art. 23, X).

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, nesta quarta-feira (3), que os


municípios podem instituir serviço de prestação de assistência jurídica à
população carente. A maioria dos ministros votou pela improcedência da
Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 279, em que
foram questionadas leis do Município de Diadema (SP). Para a Corte, as normas
são constitucionais, porque garantem maior acesso à justiça.

A ADPF 279 foi ajuizada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) contra


dispositivos da Lei municipal 735/1983, que criou a assistência judiciária de
Diadema, e da Lei Complementar municipal 106/1999, que dispõe sobre a
estrutura e as atribuições da Secretaria Municipal de Assuntos Jurídicos.
Acesso à Justiça

Em sua manifestação na sessão, o vice-procurador-geral da República,


Humberto Jacques de Medeiros, sustentou que a existência de uma defensoria
municipal é incompatível com a Constituição, mas a oferta de serviços de
assistência jurídica às pessoas necessitadas não é monopólio da União e dos
estados. Segundo ele, permitir ao cidadão mais de uma via de acesso à Justiça
potencializa o direito de defesa.

Estrutura insuficiente

No mesmo sentido, o procurador de Diadema, Fernando Marques, defendeu


que a Constituição Federal não atribui o monopólio do atendimento jurídico à
defensoria pública, cujos serviços não conseguem fazer frente às demandas
existentes. O representante da Associação dos Procuradores e Advogados do
Município de Diadema, Pedro Tavares Maluf ponderou que suprimir a
assistência judiciária não vai fortalecer as defensorias, mas prejudicar as
pessoas que se valem dos serviços prestados pelo município.

Enfraquecimento

Em nome da Associação Nacional das Defensoras e dos Defensores Públicos


(Anadep), Ilton Norberto Robl Filho defendeu a importância do modelo
constitucional que atribui às defensorias a prestação de assistência judiciária
com dotação orçamentária própria. Representada por Bruno Arruda, a
Defensoria Pública da União (DPU) manifestou preocupação com o serviço
público em questão, que, a seu ver, enfraquece a instalação de defensorias
públicas no interior do país.

Vulnerabilidade social

A maioria do Plenário acompanhou o voto da relatora, ministra Cármen Lúcia,


pela improcedência da ação. Apesar de entender a preocupação das
defensorias públicas em relação ao tema, ela salientou que não houve
desrespeito à autonomia da instituição, à necessidade de permanente
aperfeiçoamento nem ao trabalho desempenhado pelos defensores públicos.

Os votos que seguiram a relatora destacaram que o município não criou uma
defensoria local, apenas disponibilizou um serviço público de assistência
jurídica complementar voltado aos interesses da população de baixa renda,
minorando a vulnerabilidade social e econômica e incrementando o acesso à
justiça.

Direitos fundamentais

Para Cármen Lúcia, o município tem competência para ampliar a possibilidade


da prestação de assistência judiciária aos que necessitarem. “Precisamos de um
sentimento constitucional que possa aumentar a efetividade constitucional dos
direitos fundamentais”, disse.

Ao observar que existem apenas 10 defensores públicos em Diadema, a


ministra salientou que não ainda não viu, no país, uma comarca com
atendimento suficiente e sem fila. “Nenhuma deu conta da necessidade que se
apresenta”, afirmou.

Ela ressaltou que a intenção da Constituição Federal é a de que toda pessoa


necessitada tenha acesso ao serviço gratuito de assistência judiciária, que é
socialmente adequado, necessário e razoável. Além disso, assinalou que os
recursos utilizados são do próprio município.

Acompanharam a relatora a ministra Rosa Weber e os ministros Dias Toffoli,


Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Ricardo
Lewandowski, Gilmar Mendes e Luiz Fux, presidente do STF.

Divergência

Ficou vencido o ministro Nunes Marques, para quem as leis questionados


violam o pacto federativo e o modelo de assistência judiciária gratuita
instituído pela Constituição da República, que, a seu ver, atribuiu apenas à
União, aos estados e ao Distrito Federal a tarefa de instituir e manter
defensorias públicas. Em seu entendimento, se for prestado pelo poder
público, o serviço de assistência judiciária gratuita deve ser implementado por
meio da defensoria, que não se insere no âmbito de competência municipal.

347 Sistema penitenciário brasileiro – 1. Há um estado de coisas inconstitucional no sistema carcerário brasileiro,
Estado de Coisas Inconstitucionais. responsável pela violação massiva de direitos fundamentais dos presos. Esse
estado de coisas demanda a atuação cooperativa das diversas autoridades,
instituições e comunidade para a construção de uma solução satisfatória.

2. Diante disso, União, estados e Distrito Federal, em conjunto com o


Departamento de Monitoramento e Fiscalização do Conselho Nacional de
Justiça (DMF/CNJ), deverão elaborar planos a serem submetidos à
homologação do Supremo Tribunal Federal, no prazo de seis meses,
especialmente voltados para o controle da superlotação carcerária, da má
qualidade das vagas existentes e da entrada e saída dos presos.

3. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) realizará estudo e regulará a criação de


número de varas de execução penal proporcional ao número de varas criminais
e ao quantitativo de presos.

828 Suspensão de despejos e No contexto da pandemia da COVID-19, o direito social à moradia (art. 6º, CF)
desocupações, em razão da está diretamente relacionado à proteção da saúde (art. 196, CF), tendo em vista
pandemia, de áreas coletivas – que a habitação é essencial para o isolamento social, principal mecanismo de
famílias + vulneráveis contenção do vírus. O Ministro Luís Roberto Barroso, a partir dessa
fundamentação [veja aqui na íntegra] alinhada aos marcos normativos
internacionais de proteção dos direitos humanos, no último dia 03 de junho,
deferiu parcialmente uma medida cautelar referente à ADPF 828, apresentada
pelo PSOL, em abril deste ano, suspendendo, por 6 (seis) meses, medidas
administrativas ou judiciais que resultem em despejos, desocupações,
remoções forçadas ou reintegrações de posse de natureza coletiva em imóveis
que sirvam de moradia ou que representem área produtiva pelo trabalho
individual ou familiar de populações vulneráveis. Nos casos de locações
residenciais em que o locatário seja pessoa vulnerável, a mesma decisão
suspendeu pelo prazo de 6 (seis) meses a possibilidade de concessão de
despejo liminar sumário, sem a audiência da parte contrária (art. 59, § 1º, da
Lei nº 8.425/1991). Algumas distinções foram estabelecidas para casos
relativos a ocupações recentes, que assim como as demais ressalvas à
abrangência da cautelar deverão ser analisadas nos casos concretos. A decisão,
que ainda irá a plenário no STF, é uma vitória da Campanha Despejo Zero, uma
articulação em defesa da vida, da moradia e dos direitos humanos, composta
por mais de 100 entidades e organizada em dezenas de núcleos espalhados por
todo país e com abrangência internacional.

Determinou a observância, por parte do Sistema de Justiça, de uma série de


quesitos, a fim de que possam ser cumpridos os mandados de reintegração de
posse em ocupações coletivas.
Aqui estão os itens a serem considerados nessas situações:
"(a) Os Tribunais de Justiça e os Tribunais Regionais Federais deverão instalar,
imediatamente, comissões de conflitos fundiários que possam servir de apoio
operacional aos juízes e, principalmente nesse primeiro momento, elaborar a
estratégia de retomada da execução de decisões suspensas pela presente ação,
de maneira gradual e escalonada; (b) Devem ser realizadas inspeções judiciais
e audiências de mediação pelas comissões de conflitos fundiários, como etapa
prévia e necessária às ordens de desocupação coletiva, inclusive em relação
àquelas cujos mandados já tenham sido expedidos. As audiências devem contar
com a participação do Ministério Público e da Defensoria Pública nos locais em
que esta estiver estruturada, bem como, quando for o caso, dos órgãos
responsáveis pela política agrária e urbana da União, Estados, Distrito Federal
e Municípios onde se situe a área do litígio, nos termos do art. 565 do Código
de Processo Civil e do art. 2º, § 4º, da Lei nº 14.216/2021; (c) As medidas
administrativas que possam resultar em remoções coletivas de pessoas
vulneráveis devem (i) ser realizadas mediante a ciência prévia e oitiva dos
representantes das comunidades afetadas; (ii) ser antecedidas de prazo
mínimo razoável para a desocupação pela população envolvida; (iii) garantir o
encaminhamento das pessoas em situação de vulnerabilidade social para
abrigos públicos (ou local com condições dignas) ou adotar outra medida eficaz
para resguardar o direito à moradia, vedando-se, em qualquer caso, a
separação de membros de uma mesma família."
Anota este CAOPJDH que o item "a" já se encontra em funcionamento no
Estado do Paraná, em que o Poder Judiciário, após intervenção do MPPR, criou
em 23 de outubro de 2019, a Comissão de Conflitos Fundiários (CFF) do TJPR
(comissã[Link]@[Link]), que tem buscado soluções consensuais para
os conflitos fundiários urbanos e rurais, seja na fase pré-processual, seja após
a propositura da ação judicial. O objetivo principal do órgão, composto por três
juízes, três desembargadores e uma servidora do Tribunal, é promover o
diálogo entre os interessados e realizar visitas técnicas nas áreas em litígio, com
a elaboração de relatório circunstanciado sobre as condições da ocupação e da
comunidade, que servirá de subsídio para uma eventual composição entre as
partes ou para a decisão a ser proferida pelo juiz da causa. Esse mecanismo
judicial está à disposição dos (as) Colegas de MPPR, que podem solicitar ao juízo
responsável pela ação de reintegração de posse que encaminhe os autos à
citada Comissão do TJPR.
O item "b" se mostra coerente com o conteúdo do Ofício Circular Conjunto nº
02/2022 da PGJ e da Corregedoria-Geral do MPPR, no sentido de que os
Membros do MPPR participem das inspeções realizadas pela Comissão de
Conflitos Fundiários do TJPR. Esse ato judicial deve ser realizado em todas as
fases processuais - até mesmo durante o cumprimento de sentença já
transitado em julgado - e não é substituído pela audiência de mediação.
Por fim, o item "c" consagra o direito à relocalização, que este CAOPJDH por
diversas vezes já noticiou aos Colegas de MPPR, bem como determina que
devem ser os representantes ouvidos e cientificados do cumprimento das
medidas de reintegração de posse, o que deverá ser feito em prazo
minimamente razoável.
O direito à relocalização, garantido pela Resolução nº 10 do Conselho Nacional
de Direitos Humanos e pelo Direito Internacional dos Direitos Humanos, visa a
garantir o encaminhamento das pessoas em situação de vulnerabilidade social
- leia-se, todas as pessoas sem acesso à moradia ou terra - a locais com
estrutura para dignamente receber as pessoas despejadas, de modo que as
famílias sempre deverão ser mantidas unidas. Logo, enviar pessoas para
espaços inaptos à moradia, tais como ginásios ou escolas, não satisfaz esse
requisito jurídico imprescindível para o cumprimento das ordens de
reintegração de posse, nos termos do Direito Internacional dos Direitos
Humanos recepcionado pelo Brasil e da decisão do STF em comento.

186 Ações afirmativas Constitucionalidade das políticas de ações afirmativas


135 IMPROCEDENTE – Lei de anistia é
constitucional (perdoou aqueles
que haviam cometido crimes
políticos e conexos no período da
ditadura militar
442 Descriminalização do aborto A ministra Rosa Weber, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), votou
pela descriminalização da interrupção voluntária da gravidez (aborto), nas
primeiras 12 semanas de gestação. Ela é a relatora da Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 442, que começou a ser
julgada na madrugada de hoje (22), em sessão virtual. O julgamento foi
suspenso por pedido de destaque do ministro Luís Roberto Barroso, e, com isso,
prosseguirá em sessão presencial do Plenário, em data a ser definida.

A discussão sobre a descriminalização do aborto foi provocada no STF pelo


Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), autor da ação, e chegou a ser objeto de
audiência pública em 2018 convocada pela ministra Rosa Weber. O objetivo era
debater o tema com especialistas e representantes de entidades
governamentais e da sociedade civil.

Extrema delicadeza

Em voto de 129 páginas, a ministra considera que os artigos 124 e 126 do


Código Penal não estão de acordo com a atual Constituição Federal. Na sua
avaliação, é desproporcional atribuir pena de detenção de um a quatro anos
para a gestante, caso provoque o aborto por conta própria ou autorize alguém
a fazê-lo, e também para a pessoa que ajudar ou realizar o procedimento.

A ministra ressalta que o debate jurídico sobre aborto é “sensível e de extrema


delicadeza”, pois suscita “convicções de ordem moral, ética, religiosa e
jurídica”. Apesar dessas conotações discursivas, porém, Rosa Weber considera
que a criminalização do aborto voluntário, com sanção penal à mulher e ao
profissional da medicina, “versa questão de direitos, do direito à vida e sua
correlação com o direito à saúde e os direitos das mulheres”.

Início da vida
Um dos pontos destacados pela ministra é que a falta de consenso sobre o
momento do início da vida é fato notório, tanto na ciência quanto no campo da
filosofia, da religião e da ética. Para Rosa Weber, o argumento do direito à vida
desde a concepção como fundamento para a proibição total da interrupção da
gestação, como defendem alguns setores, “não encontra suporte jurídico no
desenho constitucional brasileiro”.

Ela lembra que a discussão sobre direito à vida e suas formas de proteção não
é nova no Supremo: ela esteve presente tanto no julgamento da Lei de
Biossegurança (ADI 3510), sobre o uso de embriões humanos para pesquisas
com células-tronco, quanto no da interrupção da gravidez de feto anencéfalo
(ADPF 54). Nesse julgamento também foi debatida a liberdade reprodutiva e a
autonomia da mulher na tomada de decisões.

Direitos reprodutivos

O Estado, portanto, segundo a ministra, tem legítimo interesse (e deveres) na


proteção da vida humana configurada no embrião e no nascituro conforme a
legislação civil, por exemplo. Todavia, essa proteção encontra limites no Estado
constitucional, e a tutela desse bem não pode inviabilizar, a priori, o exercício
de outros direitos fundamentais também protegidos pela legislação nacional e
tratados internacionais de direitos humanos, incluindo-se os direitos sexuais e
reprodutivos das mulheres.

Saúde pública

A ministra destacou que, em diferentes países onde o aborto foi


descriminalizado, houve redução do número de procedimentos, associada à
ampliação do uso de métodos contraceptivos. Após citar vários dados e casos
julgados em outros países, ela concluiu que há uma tendência contemporânea
do constitucionalismo internacional de considerar o problema da saúde sexual
e reprodutiva das mulheres como uma questão de saúde pública e de direitos
humanos. A principal nota é a interdependência dos direitos - à liberdade e à
vida digna em toda sua plenitude, física, mental, psicológica e social.

Proporcionalidade

“O aborto não se trata de decisão fácil, que pode ser classificada como leviana
ou derivada da inadequação social da conduta da mulher”, afirmou a ministra.
Para ela, a discussão normativa, diante de valores constitucionais em conflito,
não deve violar o princípio constitucional da proporcionalidade, ao punir com
prisão a prática do aborto. Essa medida, a seu ver, é “irracional sob a ótica da
política criminal, ineficaz do ponto de vista da prática social e inconstitucional
da perspectiva jurídica”.

Autodeterminação

Segundo Rosa Weber, após oito décadas de vigência da norma no Código Penal
(1940), é hora de colocar a mulher “como sujeito e titular de direito”, e não
como uma cidadã de segunda classe, que não pode se expressar sobre sua
liberdade e autonomia.

“Não tivemos como participar ativamente da deliberação sobre questão que


nos é particular, que diz respeito ao fato comum da vida reprodutiva da mulher,
mais que isso, que fala sobre o aspecto nuclear da conformação da sua
autodeterminação, que é o projeto da maternidade e sua conciliação com
todos as outras dimensões do projeto de vida digna”, ressaltou a ministra.

Rosa Weber lembrou que, na época da edição da lei, a maternidade e os


cuidados domésticos compunham o projeto de vida da mulher. “Qualquer
escolha fora desse padrão era inaceitável, e o estigma social, certeiro”. Por
outro lado, a criminalização do aborto visava tutelar de forma digna a vida
humana, mas não produziu os efeitos pretendidos.

Diálogo institucional

A relatora destacou que, apesar da competência do Congresso Nacional para


legislar sobre o tema, o Poder Judiciário é obrigado, constitucionalmente, a
enfrentar qualquer questão jurídica a ele apresentada sobre lesão ou ameaça
a direitos seja da maioria ou das minorias. “Na democracia, os direitos das
minorias são resguardados, pela Constituição, contra prejuízos que a elas
possam ser causados pela vontade da maioria. No Brasil, essa tarefa cabe ao
Supremo Tribunal Federal”, frisou.

Ela explicou que não cabe ao STF elaborar políticas públicas relacionadas à
justiça reprodutiva ou escolher alternativas normativas às adotadas pelos
Poderes Legislativo e Executivo, como as relacionadas às políticas de saúde
pública das mulheres. “Não obstante, compete-lhe o diálogo institucional, por
meio das técnicas processuais pertinentes, sejam elas para a coleta de dados e
informações, como as audiências públicas, sejam as técnicas decisórias
instauradoras da conversação democrática, como o apelo ao legislador”.

Diante disso, a ministra, na parte final de seu voto, fez um apelo a esses Poderes
para a implementação adequada e efetiva do sistema de justiça social
reprodutiva, com “a remoção dos entraves normativos e orçamentários
indispensáveis à realização desse sistema de justiça social reprodutivo”.

973 O Supremo Tribunal Federal (STF) deu início, nesta quarta-feira, 22/11, ao
julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF)
973 pelas Vidas Negras.

A ação foi construída pela Coalizão Negra Por Direitos, coletivos e entidades do
movimento negro e antirracista, e ajuizada por sete partidos políticos. Ela pede
que a Corte reconheça uma série de violações de direitos da população negra
no país, implantando um Plano Nacional de Enfrentamento ao Racismo
Institucional.

O julgamento será exclusivo para a leitura do relatório e realização das


sustentações orais, e representantes da Coalizão Negra estão entre as
organizações que poderão apresentar seus argumentos no plenário do STF.

Em reunião com o ministro Luís Roberto Barroso, no último dia 9/11, o grupo
apresentou algumas preocupações como o hiperencarceramento de jovens
negros pela política de drogas, a violência policial contra pessoas negras, as
condições de saúde e segurança alimentar da população negra.
Os representantes sugeriram ainda, ações em relação à violência contra as
pessoas negras no campo, sobretudo quilombolas, e propuseram que a ADPF
973 seja renomeada para “ADPF pelas Vidas Negras”.
132 Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), ao julgarem a Ação Direta de
Inconstitucionalidade (ADI) 4277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental (ADPF) 132, reconheceram a união estável para casais do mesmo
sexo. As ações foram ajuizadas na Corte, respectivamente, pela Procuradoria-
Geral da República e pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral.

O julgamento começou na tarde de ontem (4), quando o relator das ações,


ministro Ayres Britto, votou no sentido de dar interpretação conforme a
Constituição Federal para excluir qualquer significado do artigo 1.723 do
Código Civil que impeça o reconhecimento da união entre pessoas do mesmo
sexo como entidade familiar.

O ministro Ayres Britto argumentou que o artigo 3º, inciso IV, da CF veda
qualquer discriminação em virtude de sexo, raça, cor e que, nesse sentido,
ninguém pode ser diminuído ou discriminado em função de sua preferência
sexual. “O sexo das pessoas, salvo disposição contrária, não se presta para
desigualação jurídica”, observou o ministro, para concluir que qualquer
depreciação da união estável homoafetiva colide, portanto, com o inciso IV do
artigo 3º da CF.

Os ministros Luiz Fux, Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa, Gilmar Mendes,


Marco Aurélio, Celso de Mello e Cezar Peluso, bem como as ministras Cármen
Lúcia Antunes Rocha e Ellen Gracie, acompanharam o entendimento do
ministro Ayres Britto, pela procedência das ações e com efeito vinculante, no
sentido de dar interpretação conforme a Constituição Federal para excluir
qualquer significado do artigo 1.723 do Código Civil que impeça o
reconhecimento da união entre pessoas do mesmo sexo como entidade
familiar.
Na sessão de quarta-feira, antes do relator, falaram os autores das duas ações
– o procurador-geral da República e o governador do Estado do Rio de Janeiro,
por meio de seu representante –, o advogado-geral da União e advogados de
diversas entidades, admitidas como amici curiae (amigos da Corte).

Ações
A ADI 4277 foi protocolada na Corte inicialmente como ADPF 178. A ação
buscou a declaração de reconhecimento da união entre pessoas do mesmo
sexo como entidade familiar. Pediu, também, que os mesmos direitos e deveres
dos companheiros nas uniões estáveis fossem estendidos aos companheiros
nas uniões entre pessoas do mesmo sexo.

Já na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 132, o


governo do Estado do Rio de Janeiro (RJ) alegou que o não reconhecimento da
união homoafetiva contraria preceitos fundamentais como igualdade,
liberdade (da qual decorre a autonomia da vontade) e o princípio da dignidade
da pessoa humana, todos da Constituição Federal. Com esse argumento, pediu
que o STF aplicasse o regime jurídico das uniões estáveis, previsto no artigo
1.723 do Código Civil, às uniões homoafetivas de funcionários públicos civis do
Rio de Janeiro.

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