CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES
TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS
GNÓSTICO
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Cláudio Gonçalves Pacheco
Professor efetivo da Universidade Estadual de Goiás, na Unidade Universitária Palmeiras
de Goiás, e Auditor Fiscal de Receitas Estaduais do Estado de Goiás
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES
TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS
GNÓSTICO
1ª Edição
Belém-PA
RFB Editora
2024
© 2024 Edição brasileira
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Prof. Dr. Ednilson Ramalho Janaina Karina Alves Trigo Ramos-CRB
Diagramação e capa 8/9166
Worges Editoração Produtor editorial
Revisão de texto Nazareno Da Luz
Autor
Catalogação na publicação
Elaborada por Bibliotecária Janaina Ramos – CRB-8/9166
P116c
Pacheco, Cláudio Gonçalves
Cultura Woke: origem, fontes teórico-filosóficas e seu viés gnóstico / Cláudio
Gonçalves Pacheco. – Belém: RFB, 2024.
Livro em PDF
82p.
ISBN 978-65-5889-712-5
DOI 10.46898/rfb.406bbf33-41bd-4055-98cb-611db9baf489
1. Movimentos culturais e sociais. I. Pacheco, Cláudio Gonçalves. II. Título.
CDD 306.4
Índice para catálogo sistemático
I. Movimentos culturais e sociais
SUMÁRIO
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO................................................................................................................................. 7
CAPÍTULO 2
ORIGEM DO MOVIMENTO WOKE......................................................................................... 15
CAPÍTULO 3
FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E GNOSIOLÓGICA QUE BUSCAM EXPLICAR O
FENÔMENO WOKE...................................................................................................................... 19
3.1 O woke como um caso decorrente da desordem familiar .............................................. 20
3.2 O movimento woke como expressão do eu psicológico revolucionário ���������������������� 21
3.3 O fenômeno woke como uma manifestação gnosiológica.............................................. 23
3.4 O fomento da cultura woke pelas diretrizes da ONU..................................................... 28
3.5 O fenômeno woke como uma nova religião..................................................................... 31
3.6 O woke como um movimento revolucionário do marxismo cultural �������������������������� 33
CAPÍTULO 4
PRINCIPAIS PAUTAS SOCIOECONÔMICAS E POLÍTICO-CULTURAIS ENCAMPA-
DAS PELO MOVIMENTO WOKE............................................................................................. 35
4.1 O racismo................................................................................................................................ 36
4.2 A inclusão do ativismo LGBTQ+ e de questões de gênero no movimento woke........45
4.3 O movimento woke e sua pauta em defesa do feminismo interseccional ������������������� 49
CAPÍTULO 5
REPERCUSSÕES NEGATIVAS ATRIBUÍDAS AO MOVIMENTO WOKE �������������������� 53
5.1 Influência da cultura woke no meio acadêmico e educacional como um todo............54
5.2 O vitimismo em colisão com a valorização do mérito..................................................... 58
5.3 Consequências da rápida expansão do movimento woke.............................................. 65
5.4 O sequestro do movimento woke pela política progressista.......................................... 70
CAPÍTULO 6
CONCLUSÃO.................................................................................................................................. 73
REFERENCIAL BIBLIOGRÁFICO............................................................................................. 76
CAPÍTULO 1
INTRODUÇÃO
Cláudio Gonçalves Pacheco
V isando entender os motivos da enorme ascensão e expansão do fenômeno
woke, buscou-se investigar sua origem, seus fundamentos e as razões de sua
onipresença em diferentes espectros do saber humano e de alcance em diferentes campos
de nossa vida social. O quipã intelectual insistente despertou o anseio quase obsessivo para
discorrer sobre esse tão intrigante tema, que consumiram horas, dias e até meses na leitura
e análise de vários estudiosos, como sociólogos, psicólogos, pensadores que já trataram
deste assunto, para que se permitisse conhecê-lo em sua perspectiva holística e também
com lentes que pudessem precisar as minúcias. Os esforços não foram em vão, mas, dada a
natureza do tema, jamais se teve a presunção de esgotá-lo.
Fruto dessa inquietação teimosa e da insaciável vontade de melhor conhecer o mote
da agitação social provocada pelo fenômeno woke, logo nas primeiras prospecções literárias
coligidas, constatou-se que, com o surgimento das redes sociais no apagar das luzes do
século XX e seu extraordinário crescimento no início do século XXI, sobrevieram também as
transformações significativas relacionadas de como as pessoas passaram a se comunicar e
compartilhar seus sentimentos, desejos, anseios e perturbações ordinárias da alma humana.
Em face desse aumento exponencial da interconectividade digital entre as pessoas, nessa
nova ágora virtual, o movimento woke encontrou terreno fértil nas plataformas digitais
para amplificar seus ideais, possibilitando que seus valores fossem difundidos e ganhassem
repercussões em toda a parte do globo. Essa difusão de seus princípios inevitavelmente
apequenou a liberdade de expressão, já que as vozes discordantes da narrativa woke são
censuradas e canceladas do debate.
A mídia social possibilitou a arena ideal para que a cultura woke difundisse o seu
combate às injustiças sociais. Hashtags como #BlackLivesMatter e #MeToo disseminaram
como um rastilho de pólvora, dando a conhecer as suas manifestações de repúdio às discri-
minações negativas sistêmicas, sensibilizando e atraindo para sua causa o público em geral,
como as mídias tradicionais, ganhando apoio também nos meios universitários, na esfera
privada e nos órgãos governamentais nacionais e internacionais. Obviamente, toda essa
repercussão e conquistas não vieram sem causar questionamentos e polêmicas em torno
de seus propósitos nem sempre alvissareiros, haja vista que uma de suas primeiras vítimas
é a própria liberdade de expressão, que outrora os vitimizados do woke tiveram os seus
prantos emudecidos pela ausência deste áureo princípio e agora são os seus detratores e
censores da liberdade de manifestação.
As poderosas plataformas de mídia social como o Facebook, Twitter (hoje, rede
social X) e YouTube, em nome de coibir os discursos de ódio e a desinformação nas redes,
8
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
criam políticas e diretrizes rigorosas que, não raras vezes, acendem os sinais vermelhos da
censura e da proibição da liberdade de expressão.
Uma prática emblemática usada pelos adeptos do movimento woke, que atenta
contra a liberdade de expressão e a livre manifestação do pensamento e de ideias, trata-se da
denominada “cultura do cancelamento”. Essa forma de atuar da cultura woke consiste em
relegar ao ostracismo social e profissional as pessoas e as organizações que não se adequem
aos seus princípios, provocando o banimento e provocações coordenados a todos aqueles
que não se sujeitam às suas pautas.
Em nosso ordenamento pátrio tem disposições legais de responsabilização para
quem posta discurso odioso e de discriminação negativa que, se da postagem houver crime
de infâmia, difamação ou calúnia, todo aquele que vier a ser vítima desses crimes pode
denunciar o agressor por um desses condenáveis desvios de comportamento. Assim, as
redes sociais não é um espaço sem leis, pois todos aqueles que desrespeitarem os limites
impostos pela lei estarão sujeitos às imputações legais cabíveis, não encontrando na prática
do cancelamento cultural justificativas quando abusivas e que soa mais como uma inegável
censura que coarcta a liberdade de expressão e a livre manifestação de pensamento.
Desse modo, encontrar o ponto de equilíbrio entre a mídia social, a cultura woke e
a liberdade de expressão consistirá num desafio a ser enfrentado nas relações interpessoais
do século XXI. De forma análoga ao pensamento de Immanuel Kant, a instituição, o órgão
ou movimento cultural, que não admitem críticas, não são dignos de sincera estima, visto
que não suportam o exame livre e público1.
As redes sociais vêm sendo utilizadas como um facilitador para um contato direto
entre diferentes pessoas de sorte a poderem expressar as legítimas experiências das minorias,
vítimas históricas do racismo, da injustiça social, onde possam narrar ao vivo suas dores,
as quais muitas vezes ignoradas pelas instituições públicas ou privadas tradicionais. Esse
contato direto com público do mundo inteiro possibilitou que as vozes historicamente ne-
gligenciadas do mainstream2 fossem ouvidas, contribuindo decisivamente para que o termo
woke ganhasse a musculatura teórica que ora alcançou na contemporaneidade.
A despeito de todo esse sucesso de ampla divulgação nas redes sociais, fato é que
toda esta ampla disseminação de seus ideais não implicou só em perspectivas positivas,
mas um palco como as redes sociais, onde inúmeras experiências individuais são publi-
cizadas em profusão estonteante, acarreta a perda de uma visão do todo, que dificulta
1 OS PENSADORES: História das grandes ideias do mundo ocidental - Manuscrito de Kant; Biblioteca Nac. Braidense. Vol. II - São
Paulo: Editora Abril Cultural, 1972, p. 503.
2 Mainstream: adj. corrente em voga, tendência atual. (Cf. Michaelis: moderno dicionário inglês-português, português-inglês. - São
Paulo: Companhia Melhoramentos, 2000, p. 405).
9
Cláudio Gonçalves Pacheco
reunir uma posição clara e definida do real conceito do termo o woke que abarque o maior
número de insatisfação social. Outra externalidade negativa, já citada acima, apontada por
muitos críticos refere-se à cultura do cancelamento, como ferramenta de luta associada ao
movimento woke, onde pessoas e instituições são denunciadas com práticas político-sociais
contrárias à pauta woke e, como forma de retaliação, são ostracizadas3.
O filósofo e ensaísta francês, Jean-François Braunstein, no início da introdução de
seu livro “La religion woke”, observa que na loucura hodierna que se tornou a “cultura”
woke encontram-se as surpreendentes e absurdas afirmações de que os “Homens estão
grávidos”, “mulheres têm pênis”, “mulheres trans são mulheres”, “todos os brancos são
racistas”, “todos os negros são vítimas”, “se você diz que não é racista, você é”, “a biologia
é virilista”, “a matemática é racista”, “Churchill é racista”, “Schoelcher é um proprietário
de escravos”, etc. Essas sentenças integram a base do pensamento woke que almeja ditar o
comportamento e a forma de pensar das pessoas nas sociedades ocidentais. Essas assertivas
brotam de teorias que estruturam o modo de ser woke, tais como a “teoria de gênero”, a
“teoria crítica da raça” ou a “teoria interseccional”, as quais têm se revelado algo próximo
de um evangelho que vicejam no seio das universidades do Ocidente.4
O pensamento woke sustenta a tese que o gênero consiste numa “opção” e o que
tem importância é a consciência da pessoa em se sentir como homem ou mulher ou qualquer
outra forma de ser. O culto à raça, que se supunha superado pelos avanços ético-morais da
humanidade nesta questão, logo agora quando a cultura e os últimos estudos científicos, no
pós Segunda Guerra Mundial, colocaram de lado essas absurdas e insustentáveis teorias da
raça humana, volta à tona e em alto estilo no wokeísmo, como sendo condição de existência
na sociedade e, na perspectiva do movimento, os brancos são por definição racistas, todavia,
os “racializados” estão salvaguardados da pecha de racistas. Quanto à interseccionalidade,
esta serve como um paradigma para classificar todas as identidades de pessoas que são
vítimas das injustiças sistêmicas, as quais devem estar em permanente luta contra todos os
responsáveis por discriminalizá-las.5
Parece que tudo está sistematizado e esquematizado no pensamento woke, como
denuncia Braunstein:
[...] o homem branco ocidental, heterossexual, por definição sexista, racista e
colonialista, é o “bode expiatório perfeito”. Quem não aceita essas teorias wokeísta
é denunciado nas redes sociais e, se possível, afastado de seus empregos, seja na
universidade ou fora dela. A mídia, assim como boa parte dos políticos, abraçam
3 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence. Center Street.
Edição do Kindle, 2023, p. 45-52.
4 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition) (p. 6). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 6.
5 Ibid., p. 6.
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CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
essas teorias com entusiasmo e o que começou como uma simples curiosidade
americana rapidamente se tornou o discurso oficial das nossas elites.6
Seria um alívio pensar que essa cultura woke das elites ocidentais estivesse restrita
aos cursos de letras e humanas, embora a influência nesses cursos tenha sido mitigada nos
EUA e na Europa, disseminando-se em pleno vigor nos cursos de ciências e medicina, nestas
regiões do hemisfério norte. No Brasil, essa pandemia woke está em pleno vigor em todos os
cursos7. O wokeísmo já transcendeu as fronteiras das universidades na França e nos Estados
Unidos, estando presente no ensino primário e colegial, graças às ideologias de gênero e da
teoria crítica racial, observa Jean-François Braunstein.8
Os professores, adeptos do movimento woke, são ativistas empolgados, pretendem
construir uma nova engenharia social, para tanto doutrinam as crianças, sem o consentimen-
to dos pais, alegando que o gênero é uma escolha pessoal de cada um e que a compleição
física é um mero detalhe e que não deve ser levado em consideração na sua opção de gênero.
Ensinam também aos alunos brancos se sentirem culpados pela sua cor, sendo necessaria-
mente racista e os racializados vítimas automáticas suas.9
O que se desponta dessa irracionalidade generalizada devastadora, que acaba com
tudo por onde passa, é que, por mais bestial que seja, não é prudente desconsiderar o seu
poder de destruição e procurar compreender as causas de sua vertiginosa disseminação e
que persistirá se popularizando, caso não se façam debates, estudos e pesquisas com todas
as pessoas interessadas a não serem vítimas fáceis das teses distópicas do que se tornou o
movimento woke e que ainda, por mais extravagantes que sejam, suas ideias vão continuar
crescendo por um bom tempo.
Jean-François Braunstein, como muita lucidez, observa que, por mais que seja
hilária a forma como dois dos maiores críticos da cultura woke a definem, como Douglas
Murray que a denomina como loucura coletiva e Gad Saad que a conceitua como “síndrome
parasitária de avestruz (OPS)”, “psicose partilhada”, ainda que possam ser descrições
válidas, não produziram resultados convincentes para explicar como as teorias woke
encontraram terreno fértil nas universidades para se desenvolverem, sobretudo se se levar
em conta que os acadêmicos são pessoas que cultuam a liberdade de pensamento e são
educados a terem um senso crítico a ponto de admitirem a ideia de gênero apartado do
corpo ou aceitarem a concepção de raça depois de tantas conquistas científicas acerca da
espécie humana. Embora, reconheça-se que ideias estapafúrdias, que ofendem o bom senso,
6 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition) (p. 6). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 6-7.
7 Gustavo CASTAÑON: Universidade pública: Os wokes e o complexo de Sherazade. Disponível em: [Link]
[Link]/opiniao/artigos/os-wokes-e-o-complexo-de-sherazade/?#success=true. Acesso em 07 FEv.2024.
8 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition) (p. 6). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 7.
9 Ibid., p. 7.
11
Cláudio Gonçalves Pacheco
tem uma mística profunda e elitista que exerce um forte poder de atração, que, não rara
vezes, “... as ideias mais malucas são as mais influentes”.10
A ideologia woke não é um modismo passageiro, que não deve ser subestimado
seu real poder para destruir todas as admiráveis conquistas que a humanidade construiu ao
longo de milênios, como a paz, a liberdade, a lei, a civilidade, o espírito público, o direito à
propriedade, a coesão familiar, tudo o que depende da cooperação de todas as pessoas para
manterem-se de pé, visto que não podem ser garantidas isoladamente11.
Há militantes alucinados com a causa. Não são meros acadêmicos, mas são soldados
aguerridos a serviço de um ideal que dá sentido e significado às suas razões de existirem.
Como podem professores e estudantes universitários, que dedicaram suas vidas no estudo
do pensamento grego e simplesmente passam alegar que esses valores são criações da
supremacia branca virilistas? Ou então, docentes e discentes, pesquisadores profundos da
lógica, da matemática, passam a considerá-los discriminatórios e deixam facilmente suas
convicções científicas de lado para abraçarem o culto ao wokeísmo? Brausntein salienta que
os wokeístas negam a ciência, desconsideram a linguagem comum e se opõem ao fato de
existir uma realidade compartilhada. Em arremate, observa que a cultura woke “... não se
trata simplesmente de uma nova ideologia, mas de um novo credo, de uma nova religião.”12
Ed West observa que o ponta pé inicial para Revolução Woke não aconteceu com
“Black Lives Matter” (BLM), mas com a admissão da China na Organização Mundial do
Comércio, no governo de Bill Clinton, em 11 de dezembro de 2001. Esse acordo, na realidade,
significou a transferência de muitas indústrias norte-americanas para solo chinês, visando
maiores lucros com a diminuição dos custos com mão de obra mais barata e com subsídios
governamentais estrangeiros e outras benesses fiscais. Essa transferência da base manufa-
tureira norte-americana aumentou a riqueza dos já ricos, mas causou desemprego a muitos
desesperados americanos.13
Em 2007, com o lançamento do primeiro iPhone, possibilitou que muitos americanos
da classe alta pudessem expressar sua intolerância com as pessoas que tivessem ideias
divergentes da suas, que passaram também a ser fabricados na China. West sustenta que é
impensável a revolução woke acontecer sem surgimento dos smartphones, algo comparável
ao primeiro cisma cristão da Reforma Protestante sem a invenção da prensa móvel de
Gutenberg, no século XVI.14
10 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 8-9.
11 Roger SCRUTON. Como ser um conservador (Portuguese Edition). Record. Edição do Kindle, p. 7-8.
12 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 14-16.
13 Ed. WEST; MIGUEL, Felipe (org). Como o Acordo Comercial com a China Levou à Revolução Woke - Vinte anos depois, quem são
os grandes vencedores da globalização? Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 89-96.
14 Ed. WEST; MIGUEL, Felipe (org). Como o Acordo Comercial com a China Levou à Revolução Woke - Vinte anos depois, quem são
os grandes vencedores da globalização? Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 89-96.
12
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
Digno de nota é a postura cínica e financeiramente interesseiras de empresas como a
Apple, Nike e outras empresas multinacionais, simpáticas, ativistas e doadoras de verbas à
causa e às pautas do movimento woke, nos países de democracias sadias, mas escancarada-
mente covardes e traidoras às pautas progressistas quando em solo Chinês, pois se negam
colocarem os slogan woke em seus produto para não desagradar o governo. São wokeístas
por conveniência financeira.15
É isto que causa mais perplexidade pela atitude contraditória e paradoxal dos
ativistas woke, pois justamente a cultura ocidental, pela sua liberdade de expressão,
liberdade de pensamento e ideias, onde tem plena liberdade para manifestarem as mais
infantis microagressões, é a cultura que querem destruir. Já nos ambientes antidemocráti-
cos, os ativistas se portam como anões morais.
No próximo capítulo, disserta-se sobre a origem imediata da cultura woke, vez
que as reflexões mais profundas em relação às fontes teórico-filosóficas e gnosiológica que
procuram explicar o seu fenômeno, são tratadas no capítulo 3, para nos capítulos subse-
quentes discorrer sobre suas principais bandeiras e suas influências, no mínimo, levianas
para buscar a paz, o progresso e a homeostase social.
15 Ed. WEST; MIGUEL, Felipe (org). Como o Acordo Comercial com a China Levou à Revolução Woke - Vinte anos depois, quem são
os grandes vencedores da globalização? Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 89-96.
13
CAPÍTULO 2
ORIGEM DO MOVIMENTO WOKE
Cláudio Gonçalves Pacheco
A ntes de se adentrar no estudo do movimento woke, faz-se necessário definir
o vocábulo “woke”. A palavra “woke” decorre de uma variação de “awake”,
adjetivo que significa acordado, desperto etc.1 Literalmente, “woke” é uma palavra de origem
afro-americana que significa “acordado” ou “alerta”. Numa acepção lata, o termo “woke”
tornou-se mundialmente conhecido como uma expressão para denotar uma disposição de
espírito voltada a estar consciente ou alerta em relação às questões de injustiça social ou
racial. Uma sentinela de vigília constante que alerta para todo tipo de opressão, sobremodo
a opressão racial. A onda “woke” incita a todos para que reconheça e resista aos sistemas
e práticas de discriminação negativa que voluntária ou involuntariamente subsistem nos
diferentes aspectos da vida social, política e econômica.2
No dicionário Collins, tem-se que “woke” é “alguém muito consciente de injustiças
políticas e sociais.” Jean-François Braunstein observa que, em 2017, a Oxford English
Dictionary adotou o termo woke e o definiu da forma que segue: “Originalmente: bem
informado, atualizado. Atualmente, principalmente: atentos à discriminação e à injustiça
racial ou social; “Muitas vezes aparece na expressão ‘fique acordado’”.3 Assim, o vocábulo
woke deriva da gíria afro-americana “stay-Woke”, que evoca um estado de consciência
crítica a ficar desperto ou acordado em relação às injustiças sociais enfrentadas por pessoas
negras.
Há quem observa que o termo passou a ser usado nos idos de 1930, exortando os
afros-americanos a ficarem alerta em relação às discriminações raciais e injustiças socioe-
conômicas infligidas à comunidade negra norte-americana.4 Outras fontes observam que,
muito antes de ser considerado no principal ativismo sócio-político e cultural moderno,
a expressão “woke” era utilizada no dialeto afro-americano, denominado como AAVE
(African American Venacular English), para descrever um estado de consciência acerca
das questões de discriminação racial. Cogita-se que a expressão “Stay Woke” (Permaneça
acordado) veio à tona nos idos de 1960 e 1970, quando dos movimentos dos direitos civis
nos EUA, como sendo uma forma de conclamar as pessoas a estarem vigilantes às injustiças.5
O termo passou a ter ampla notoriedade com as plataformas de música e mídia
social. Credita-se à música “Master Teacher” de Erykah Badu, em 2008, como uma das
primeiras referências ao termo, ao cantar “I stay Woke”. Desde então, o termo vem sendo
1 Felipe MIGUEL (organizador). A revolução Woke: Origens e Consequências. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG,
2022, p. 8.
2 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 21-22.
3 Ibid., p. 23-4.
4 Felipe MIGUEL (organizador). A revolução Woke: Origens e Consequências. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG,
2022, p. 8.
5 André Gonçalves FERNANDES: O Admirável Mundo Novo do globalismo e do identitarismo. Disponível em: [Link]
[Link]/opiniao/artigos/admiravel-mundo-novo-globalismo-identitarismo/?ref=busca. Acesso em 14 Jan.2024.
16
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
utilizado e popularizado nas redes sociais, sobretudo no Twitter, atual plataforma de rede
social X, onde a hashtag #stayWoke passa a ser relacionada com questões de justiça social e,
pejorativamente, denotado como um ser politicamente correto.6
Em sua forma genuína, a cultura woke propugna por uma postura ativa em face da
discriminação racial e a injusta estrutura social. Todavia, atualmente, o movimento woke
tem abarcado outras demandas de insatisfação e inquietação social que acaba por obscurecer
a legítima luta pelos direitos civis dos afro-americanos na busca por tratamento isonômico e
por justiça. Também, hodiernamente, a popularidade do termo “woke” se deve aos artistas
de hip-hop e poetas que o divulgaram na metade da década de 2000 em diante, todavia, seu
uso e significado vêm de longa data e de um processo bem mais complexo, que decorreu
desde o movimento de direitos civis, denominado “Black Power”, ocorrido nas décadas de
1960 e 1970, exortando às pessoas por uma consciência política ativa.7
O termo teve projeção renovada com o movimento “Black Lives Matter” (BLM),
iniciado em 2013, logo após a absolvição do policial, George Zimmerman, que matou
Trayvon Martin.8 Os organizadores, apoiadores e simpatizantes do movimento aproveita-
ram do termo “woke” para sensibilizar a opinião pública contra a truculência da abordagem
policial para com os afro-americanos. Também pegou carona no movimento, o repúdio à
desigualdade social, preconceito e a luta pelos direitos civis. Alicia Garza redigiu uma carta
de amor em exortação a comunidade negra norte-americana e a postou no Facebook, logo
após a absolvição de George Zimmerman, externando seu pesar e indignação com a injustiça
racial. Em seguida, Patrisse Cullors, amiga de Alicia, repostou a carta dela nas hashtag #Bla-
ckLivesMatter. Outra amiga de ambas, Opal Tometi, fez o registro de domínio e as contas
nas Internet. A partir de então, surgiu o slogan do movimento BLM e, em 2020, o movimento
ganhou notoriedade mundial.9
O movimento afro-americano denominado “Black Lives Matter” (BLM), ao adotar
o termo woke em sua proposta de contestação social, passou a atuar como uma referência
de resistência e denúncia de toda e qualquer forma de discriminação racial infligidos aos
afro-americanos, jogando luz sobre questões de racismo sistêmico, tais como a brutalidade
policial e desigualdades socioeconômicas sofridas pela comunidade negra.
6 Gabriel de Arruda CASTRO: “Como a “cultura woke” pode ajudar a reeleger Donald Trump”. Disponível em: [Link]
[Link]/opiniao/artigos/como-a-cultura-woke-pode-ajudar-a-reeleger-donald-trump/?ref=busca. Acesso em 05 Fev.2024.
7 Paulo CRUZ: Thomas Merton, a luta antirracista e o dever cristão. Disponível em: [Link]
paulo-cruz/thomas-merton-a-luta-antirracista-e-o-dever-cristao/?ref=busca. Acesso em 14 Jan.2024.
8 Felipe Miguel, na introdução da obra “A revolução Woke: Origens e Consequências.”, observa que o termo woke foi recuperado com
o movimento Black Lives Matter, o qual originou em repúdio ao assassinato de Michael Brown pela polícia Ferguson, no Missouri, em
2014. (Cf. Felipe MIGUEL (organizador). A revolução Woke: Origens e Consequências. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir,
MG, 2022, p. 8.)
9 Tom Slater: Como o Black Lives Matter se tornou um grande negócio. Disponível em: [Link]
como-o-black-lives-matter-se-tornou-um-grande-negocio/. Acesso em 28 Jan.2024.
17
Cláudio Gonçalves Pacheco
Esse reforço ou amplificação da cultura woke, catapultado pelo BLM, é observado
pelo engajamento de celebridades da música, do esporte e da cultura de modo geral, bem
como de políticos, na defesa da causa do movimento, influenciando pessoas comuns
a também se alinharem com as discriminações raciais sistêmicas, dando popularidade à
expressão e o desenvolvimento de uma filosofia woke que aglutinou não só as questões de
injustiças sociais contra os afro-americanos, mas também as discriminações sofridas pelas
diversas minorias sociais.
Essa amplificação do movimento woke em relação a outras contestações das
estruturas sociais vigentes, se por um lado reuniu todas as vítimas das injustiças sociais,
contra as desigualdades socioeconômicas persistentes, aumentando a consciência crítica das
pessoas e uma ativismo racial sempre alerta, por outro lado trouxe consigo externalidades
negativas, como a tribalização em detrimento das singularidades pessoais, o vitimismo, a
cultura do cancelamento e a simplificação em relação às questões sociais complexas de nós
contra eles, bem como a falsidade e insensibilidades de certos grupos que se aproveitam do
movimento em benefício próprio.
Tendo em vista a forma abusiva e inflacionária, que o termo tem sido usado,
oportuniza discussões controvertidas a respeito do movimento. Há quem10 diz que o
“woke” vem se distanciando de sua proposta inicial e se resvalando para sua banalização em
detrimento de sua significativa importância para o crescimento ético-moral da humanidade
como um todo. Essa vulgarização por parte de certo grupos sociais do movimento aproxima
perigosamente de postura de superioridade moral e se tornando um grupo social progres-
sista elitista. Embora haja toda essa celeuma em torno do movimento “woke”, reconhece-se
a sua enorme contribuição em relação a exortar as pessoas a estarem sempre vigilantes e
terem uma postura de repúdio em relação às injustiças sociais e raciais.
No capítulo que segue, levantam-se as fontes teórico-filosóficas que possivelmen-
te fundamentam ou tentam esclarecer o movimento woke, ou então, apenas se trata de
um movimento que não passa de outra manifestação gnóstica, dentre tantas outras que
existiram e outras que ainda existem; aquelas fontes buscando legitimá-lo; esta manifesta-
ção despindo-o de qualquer rigor científico.
10 Brendan O'Neill: A bandeira LGBTQIA+ se tornou um símbolo woke. Disponível em: [Link]
-122/a-bandeira-lgbtqia-se-tornou-um-simbolo-woke/. Acesso em 28 jan.2024.
18
CAPÍTULO 3
FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E GNOSIOLÓGICA
QUE BUSCAM EXPLICAR O FENÔMENO WOKE
Cláudio Gonçalves Pacheco
O movimento woke tem sido alvo de críticas por se encontrar envolto a contro-
vérsias e contradições. Para muitos defensores, o movimento woke tem uma
proposta de combate intransigente em relação às injustiças sociais, contudo, há outras vozes
que, a despeito do woke buscar a isonomia social e objetivar a inclusão dos marginalizados
da sociedade, veem na onda woke uma postura extremista contrária às suas próprias pautas
inclusivas, que, em realidade, mais contribui para o acirramento das divisões, seja por sua
radical postura de cancelamento de cultura, seja por seu modo tribal de nós contra eles.
Dessa forma, evidencia-se em atitude reacionária que impede, obstaculiza o debate livre
de ideias, sem preconceitos, o que é altamente prejudicial para a liberdade de pensamento,
dada a implacável censura à liberdade de expressão, que vai da forma politicamente correta
do uso de artigos e de pronomes, à supressão de palavras e expressões, que são mais mi-
croagressões que desviam a nossa atenção na construção de uma verdadeira consciência
crítica de nossos reais e prementes problemas, tais como a fome, as recorrentes pandemias,
a corrupção endêmica, para ficarmos só nestes.
O que se verifica na cultura woke, parafraseando Vivek Ramaswamy, é um
sentimento patológico de vitimização, colocando todos numa vala comum de vítimas. Nessa
perspectiva, hoje em dia, há vítimas negras, vítimas brancas, vítimas indianas, vítimas de
gênero, vítimas de origem, vítimas progressistas, vítimas conservadoras. Não há ninguém
que não possa reivindicar a sua condição de vítima, tendo lugar até a condição de vítima de
si mesma.1
3.1 O WOKE COMO UM CASO DECORRENTE DA DESORDEM FAMILIAR
Mary Eberstadt, em seu ensaio “A Fúria dos Sem Pai”, observa que todos os
distúrbios sociais ocorridos nos EUA2 talvez as causas não estejam na cultura do cance-
lamento do woke, no racismo, na brutalidade policial, na pandemia da corona vírus, nas
milícias de extrema direita, no BLM, no Antifa, tendo em vista que o contingente dos mani-
festantes sempre aumenta. O que explica essa fúria toda? O racismo talvez não seja a causa
também. Eberstadt, com base em seus estudos e de outros colegas seus da área, sugere que
muitos desses protestos e motins sejam causados por jovens crescidos em famílias ausentes
da figura paterna, de referenciais familiares que uma família tradicional tinha, como irmãos
e irmãs filhas de mesmos pais, tios, tias, avós maternos e paternos. Um levantamento feito
1 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence. Center Street.
Edição do Kindle, 2023, p. 8.
2 Essas convulsões sociais também são verificadas em outros países do Ocidente, sejam nos da União Europeia, sejam nos países lati-
no-americanos.
20
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
dos líderes e ativistas desses movimentos constatou que normalmente são pessoas nascidas
em lares sem a figura paterna ou criados por avós, até mesmo criados na ausência materna.3
Essas erupções sociais são aumentadas com jovens crescidos na ausência do pai.
Nos EUA, em cada quatro crianças hoje, uma não tem na sua casa um pai. Em relação aos
afro-americanos, corresponde a cerca de 65% das crianças. A maioria de jovens encarcera-
dos foi criados em famílias sem pai. A biografia de assassinos quase sempre tem anotações
dos cônjuges genitores. Crianças crescidas em lares com laços familiares rompidos são
propensas a não ter qualquer profissão de fé religiosa, desinteressadas com a política e
desapegadas aos valores de patriotismo. A linguagem utilizada pelos ativistas do BLM faz
apologia à ausência paterna. Encontra-se numa seção do website do BLM a declaração que
segue: “Nós rejeitamos o requisito de estrutura familiar nuclear prescrito pelo Ocidente,
apoiando uns aos outros como famílias extensas e ‘aldeias’ que cuidam coletivamente umas
das outras, especialmente nossos filhos, em grau no qual mães, parentes e filhos sentem-se
confortáveis.”4
3.2 O MOVIMENTO WOKE COMO EXPRESSÃO DO EU PSICOLÓGICO
REVOLUCIONÁRIO
Numa outra perspectiva teórica para compreender o fenômeno woke, o historiador
e teólogo, Carl R. Trueman, em seu ensaio “A Ascenção do “Homem Psicológico”5, defende a
tese que, com o surgimento do “homem psicológico”, nascido no século XVIII com a filosofia
de Jean-Jacques Rousseau, com os acréscimos do pensamento de Hegel, Marx, Nietzsche,
Freud, Reich e Marcuse e outros, surge o culto do “eu”, cujo propósito de vida pessoal
deste novo eu está centrada e condicionada no sentimento de liberdade individual. Este eu
é uma construção psicológica. Nesse sentido, uma pessoa do sexo feminino, a despeito de
sua realidade biológica ser um corpo de mulher, mas se psicologicamente entender que é
um homem, a sua realidade biológica deve ceder ao sentimento psicológico. Este é o novo
tipo de individualidade no Ocidente do “homem psicológico”.6
Esse psicologismo deita raízes no pensamento de Rousseau, para quem todos
devem ser externamente conforme se sintam internamente. A individualidade e a felicidade
verdadeiras devem ser encontradas no interior, na sensação de bem-estar psicológico.
Antes dessa virada psicológica, o sentido de bem-estar interior e de realização pessoal
3 Mary EBERSTADT; MIGUEL, Felipe (org). A Fúria dos Sem Pai. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 97-107.
4 Mary EBERSTADT; MIGUEL, Felipe (org). A Fúria dos Sem Pai. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 97-107.
5 A denominação “Homem Psicológico” foi dada pelo sociólogo Philip Rieff (Cf. Carl R. TRUEMAN; MIGUEL, Felipe (org). A Ascenção
do “Homem Psicológico”. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022).
6 Carl R. TRUEMAN; MIGUEL, Felipe (org). A Ascenção do “Homem Psicológico”. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir,
MG, 2022, p. 59-64.
21
Cláudio Gonçalves Pacheco
eram encontrados através dos frutos colhidos do bem praticado para as pessoas, isto é, a
felicidade estava direcionada para o exterior. Hoje esta felicidade é alcançada na medida e
na proporção do sentimento e de saciedade desse eu interior. Assim, a noção de satisfação
é apontada para dentro, em benefícios de meus próprios sentimento imediatos e não do
bem praticado ao próximo. E, em nome desse individualismo exacerbado, valores como
liberdade de expressão, família, religião, tradição etc., considerados princípios básicos de
bem-estar social, agora são denunciados como meios de opressão e ferramentas de ódio.7
Em que pese grande parte das teorias de Freud tenha sido superadas, a que sustenta
que os seres humanos, num nível bem profundo, são modelados por seus desejos sexuais.
Desse modo, após as reflexões de Freud, o sexo passou a ser o que você é e não somente o
que você faz. A revolução proposta centra seu foco no desmantelamento da moral sexual
baseada na monogamia, na heterossexualidade normativa e na promoção da atividade
sexual na adolescência. O eu psicológico revolucionário é uma construção elitista, visto que
poucos tiveram acesso a esses pensadores, líderes e promotores do complexo intelectual do
liberalismo progressista.8
Já para Patrick J. Deneen, as origens do movimento woke não é uma manifesta-
ção do “marxismo cultural” de Antonio Gramsci, filosofia que sucedeu o marxismo raiz,
como a maioria dos liberais clássicos sustenta, mas, ao contrário, a cultura woke é fruto
do liberalismo de transgressão, legado por John Stuart Mill. Deneen observa que o livro
“On Liberty” de Mill deveria ter o título de “Sobre o Progresso” ou “Como a Liberdade
Conduz ao Progresso”, pois tudo o que Mill defende em seu livro consiste na libertação dos
indivíduos transgressores dos grilhões sociais, culturais e tradicionais, bem como de todos
os costumes que aprisionam o indivíduo, visto que, enquanto as pessoas estiverem acor-
rentadas por esse “despotismo do Costume”, o progresso humano e da sociedade estariam
travados. Ou seja, Mill é bem wokeísta.9
A cultura woke propõe mudar obviamente os valores culturais, buscando marcar
divisa ideológica a partir do uso de uma linguagem artificial, que o mero uso de um pronome
seja considerado agressivo a alguém. Esse modus operandi de atuar dos ativistas da onda woke
está no cerne de uma bestial e fantasmagórica opressão que imputam à linguagem natural
e promovem toda uma campanha voltada a reformá-la de forma artificial, identitária e que
mais revela o seu caráter de afirmação com espectro ideológico progressista. Desse modo,
7 Ibid., p. 60-64
8 Ibid., p. 61-64.
9 Patrick J. DENEEN; MIGUEL, Felipe (org). As Origens Liberais da Revolução Woke. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir,
MG, 2022, p. 121-124.
22
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
constata-se o firme propósito de condenar virtudes sociais tradicionalmente reconhecidas
em vícios políticos, tidos como opressivos.
Então, a vigília e o policiamento da linguagem passam a ser determinante da nova
sociedade inventada que se funda e se edifica com os eus psicológicos. Se antes o que se tinha
como opressivo seria uma sociedade que não lhe possibilitasse a liberdade de pensamento,
liberdade religiosa, liberdade de condições de ter um trabalho digno, todavia, agora, para o
eu psicológico é mais uma insatisfação com o não atendimento de desejos pessoais internos,
que tem um conteúdo menos palpável, tangível e estável. Hoje, a opressão é um mal-estar
consigo mesmo, na medida em que a pessoa não consiga ser externamente aquilo que sente
internamente. Diante desse cenário dantesco, o que fazer? Estar cônscio que o problema a
ser enfrentado tem uma natureza profunda; em segundo lugar, todos temos culpa nesse
estado de coisas em uma certa medida.10
3.3 O FENÔMENO WOKE COMO UMA MANIFESTAÇÃO GNOSIOLÓ-
GICA
De outro giro teórico, Patrick J. Deneen observa o forte espírito gnóstico no
movimento woke. Explica que o gnosticismo consiste na crença de que o mundo real é
um lugar degradado, imperfeito e ruim. Esse mundo perverso pode ser corrigido por seres
humanos eleitos, dotados de um conhecimento transcendental, divino e untados com óleos
consagrados para reparar as imperfeições e salvar a humanidade, criando um mundo
melhor aqui ou no além.11
A “esquerda reformista” de outrora se transformou hodiernamente numa agremiação
política messiânica radical, pregando seu gnosticismo que irá resgatar a humanidade das
ruínas da civilização cristã através da revolução woke, tendo como pressuposto revolu-
cionários a destruição da família natural; o conceito de sexualidade vinculada a uma
vontade interior abstraída da realidade sexual biológica, ainda que seja preciso se valer de
recurso tecnológico para satisfazer esse desejo psíquico; a justificativa do crime como fruto
da ordem social injusta; a intenção deliberada de impor o domínio biopolítico em toda as
dimensões da vida humana, cuja crise da pandemia foi só um pretexto para manifestar seu
gnosticismo arraigado de abominação do mundo físico, tendo como forma de demonstra-
ção de repudiá-lo pelo uso de máscaras, a exigência de distanciamento entre as pessoas e a
adoção da coerção médica para escapar da morte.12
10 Carl R. TRUEMAN; MIGUEL, Felipe (org). O Impacto do Homem Psicológico – E Como Responder. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. -
Editora Descobrir, MG, 2022, p. 65-71.
11 Patrick J. DENEEN; MIGUEL, Felipe (org). Rússia, América e o Perigo do Gnosticismo Político. O Que Eric Voegelin Pode Nos
Ensinar. Sobre a Crise Internacioanl Atual. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 191-200.
12 Patrick J. DENEEN; MIGUEL, Felipe (org). Rússia, América e o Perigo do Gnosticismo Político. O Que Eric Voegelin Pode Nos
Ensinar. Sobre a Crise Internacioanl Atual. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 191-200.
23
Cláudio Gonçalves Pacheco
N. S. Lyons, em seu artigo “A Guerra da Realidade: Gnósticos. Simplesmente
Gnósticos. Até o fim”, observa que, em nosso mundo, sempre houve uma guerra gnóstica
para demonizar a realidade e desenvolver um conhecimento esotérico salvífico para dela
escapar. O que muitos denominam de política e de “guerra cultural”, em verdade, nada
mais é uma vetusta guerra teológica em relação à metafísica da realidade.13
Antes porém, para melhor compreender o sempre constante conflito de gnosti-
cismos, ora sucessivos, ora simultâneos, sublinhe-se que gnosticismo vem de Gnosis que,
em grego, significa “conhecimento”. Assim, “... ser gnóstico é reivindicar possuir um tipo
especial de conhecimento: o conhecimento de que o mundo não é a realidade que supõe
ser.”14 Na verdade, gnosticismo basicamente é religião, já que só os eleitos podem ter acesso
ao conhecimento revelado aos gnósticos. O gnosticismo começou com as seitas místicas
judaicas em oposição aos rabinos15, proliferando em muitas outras seitas com o cristianismo
fundacional e aparecendo outros seguimentos gnósticos mesmo depois da emancipação da
religião cristã16.
A despeito de existirem muitas derivações do gnosticismo, todas guardam um
núcleo comum de crenças e fundamentos, tais como: o mundo real é falso, é aparente e
foi criado por forças demoníacas; a matéria é impura; os seres humanos foram despejados
neste mundo ilusório contra o seu querer, onde padecem; só determinadas pessoas eleitas e
iluminadas, conhecedoras do reino espiritual, têm acesso ao conhecimento secreto (Gnosis)
e que podem se livrar do mundo físico imundo e transcendê-lo, até mesmo corrigindo o
mundo material etc. Constata-se, e hoje mais do que nunca, o gnosticismo sempre esteve
presente, volta e meia aparece um novo que visa suplantar um rival, num eterno nascer e
renascer.17
Hodiernamente, são várias as manifestações gnósticas, como o feminismo que é
uma forma de gnosticismo que busca se desenvencilhar do patriarcado e de sua própria
condição biológica humana, um sonho “biolibertário. O movimento LGBT também que,
na ideologia de gênero, procura abstrair da natural condição binária sexual, de modo bio-
libertariamente. Lyons sustenta que atualmente a força atrativa do gnosticismo imerge em
um projeto político mais profundo, visto que a maioria dos jovens da geração Z18 é menos
13 N. S. LYONS; MIGUEL, Felipe (org). A Guerra da Realidade. Gnósticos. Simplesmente Gnósticos. Até o Fim. Trad. Felipe Miguel.
1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 173-190.
14 Ibid., p. 175.
15 Rabino: 1. líder religioso de comunidade judaica; 2. mestre, profundo conhecedor da doutrina rabínica. (Cf. Dicionário Houaiss da
língua portuguesa. 1ª ed. Editora Objetiva, Rio de Janeiro/RJ, 2001, p. 2371)
16 N. S. LYONS; MIGUEL, Felipe (org). A Guerra da Realidade. Gnósticos. Simplesmente Gnósticos. Até o Fim. Trad. Felipe Miguel.
1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 175-190.
17 Ibid., p. 176-185.
18 Geração Z: são os nativos digitais. Depois de “... Esgotadas todas as letras do alfabeto, surgem agora os “power pupils”, os “alunos empoderados”,
conceito ainda novo no Brasil, mas que define os estudantes com um interesse diferenciado pelo aprendizado e pelo conhecimento. Integrantes da
geração Z, numa referência aos nascidos entre 1994 e 2010, são estudantes conscientes de suas habilidades, talentos e com espírito empreendedor. São
jovens capazes de largar o cargo dos sonhos em uma companhia multinacional pelo projeto de viver um tempo conhecendo o mundo com a mochila nas
costas, apenas pela experiência e realização pessoal que a iniciativa pode lhes proporcionar.” (Cf. Danielle Blaskievicz: Alunos empoderados: Nativos
24
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
propensa à crenças religiosas, se apegando mais a um gnosticismo científico, onde a ciência,
a tecnologia e a razão são os fundamentos de suas crenças.19
James Lindsay, citado por Lyons, diferencia gnosticismo científico de ciência,
observando que “... a ciência é “por definição antignóstica,” porque - se praticada como
pretendido - busca descrever a natureza como ela é, por meio de razão empírica. Ou seja, a
ciência observa evidências no mundo físico e só então baseia as suas conclusões teóricas - o
seu conhecimento - nessas observações da realidade. Depois disso, podemos usá-la para
alcançar algum progresso relativo “correlacionando as nossas vidas com a realidade como
ela é, e, assim, ter maior sucesso nas nossas interações com a realidade.”20
Por seu turno, o gnosticismo científico subverte a lógica científica acima, visto que
“... coloca as conclusões da Teoria (a sua Gnose) à frente da observação empírica do mundo.
... A teoria fica acima da realidade e fornece o entendimento correto... O socialismo só pode
ser devidamente compreendido pelo Homem Socialista, que é um Gnóstico Científico.”21
Se o mundo real não corresponde a teoria do gnosticismo científico, então, o mundo está
errado e este mundo deve ser reinventado segundo a teoria da seita gnóstica.
Tem também o gnosticismo de luxo, que é representado pela elite pensante, que
está apartada do mundo físico da vida, apenas conectando com o trabalho produtivo dela
na condição de consumidora. Os representantes da elite pensante não estão alheios tão só
ao seu entorno, mas da própria realidade em si. O grande problema é que os adeptos do
gnosticismo de luxo podem influenciar na produção da nova ordem política e, com isso,
podem puxar nós todos para as mais férteis e deletérias elucubrações, alterando conti-
nuamente narrativas e normas, tornando-as líquidas e triunfantes, destruindo todos os
limites lógicos e conceituais estabelecidos, tornando incerto até mesmo o significado de ser
humano.22
A reação antignóstica pode descambar para um radicalismo e colocar em xeque a
confiança nas autoridades estabelecidas, que já têm até nome, isto é, Clown World, ou seja,
“Mundo de Palhaços”. As consequências advindas da reação antignóstica podem ser impre-
visíveis, resvalando perigosamente para o ressurgimento populista e a volta do conserva-
dorismo retrógrado e de um tradicionalismo pueril e reacionário.23 Essa reação antignóstica
pode ser facilmente identificada com uso de termos e expressões próprias, como “Based”, o
digitais, os integrantes da geração Z são conscientes dos seus talentos e capacidades. Disponível em: [Link]
-matriculas/2018/alunos-empoderados-4ps0xexd9u7tx0et2mwt8vp80/?ref=busca. Acesso em: 14 Jan.2024.)
19 N. S. LYONS; MIGUEL, Felipe (org). A Guerra da Realidade. Gnósticos. Simplesmente Gnósticos. Até o Fim. Trad. Felipe Miguel.
1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 173-190.
20 Ibid., p. 180 e s.
21 Ibid., p. 185 e s.
22 Ibid., p. 183-90.
23 N. S. LYONS; MIGUEL, Felipe (org). A Guerra da Realidade. Gnósticos. Simplesmente Gnósticos. Até o Fim. Trad. Felipe Miguel.
1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 185-190.
25
Cláudio Gonçalves Pacheco
qual exorta as pessoas a “caírem na real” ou buscar fundamento na realidade, ou o uso de
expressões como “Touch Grass”, que quer significar uma reconexão com o mundo físico,
buscando desconectar do mundo virtual e se atendo mais às emoções e dando mais valor às
situações prementes da vida. Literalmente, “Touch Grass” significa “...Tocar a Grama,” isto
é, tocar o solo, o mundo físico, concreto e real.”24
Em que pesem essas considerações, é preciso reconhecer que precisamos voltar à
realidade e esse retorno não passa pela política, mas quem irá definir o que é realidade? Fato
é que não deve ser a conceituada pelo gnosticismo de luxo do woke, mas uma reconexão
com a realidade que atenda as aspirações crescentes das pessoas de carne e osso.
Na mesma concepção teórica de N. S. Lyons de considerar o movimento woke como
mais uma manifestação gnóstica do que um fenômeno cognitivo fundado em bases teó-
rico-científicas sólidas, tem-se o estudo do professor de filosofia, Edward Feser, que, em
seu artigo “Os Sucessores Políticos da Heresia Gnóstica”, de modo singular, observa que
a produção humana objetivando o progresso, como a ciência, o esforço pela justiça social
e igualdade entre os homens, na realidade, reflete a crise do Ocidente que é um desdobra-
mento da crise da Igreja.25
Os movimentos sociais, como o liberalismo, socialismo, comunismo, modernismo,
pós-modernismo progressista, cientificismo, wokeísmo, globalismo e todos os ismos
imagináveis, são manifestações laicas, ligadas por duas características, a saber: i) são
propostas gnosiológicas nascidas no seio da civilização cristã que visam suplantar o cristia-
nismo; e ii) são projetos heréticos em sentido lato, ainda que se socorram de fundamentos
cristãos para sustentá-las, como a dignidade humana, igualdade entre os homens, fraterni-
dade etc. Em verdade, todos esses movimentos socioculturais padecem de uma mentalidade
gnóstica desenvolvida no transcorrer dos séculos que as unem em sentido e em modo de
visão de mundo, tais como: i) o mal é onipresente e o mundo é, em essência, mau, que
deve ser destruído para se construir um new world; ii) existe tão só um conhecimento eleito
para extirpar esse mau (pode ser o comunismo ou o capitalismo ou cientificismo, fique à
vontade para escolher qual ismo de ativismo você se simpatiza); iii) existem forças malignas
maniqueístas que governam e que estão em seu estupor que só os eleitos purificados
darão a espada de Dâmocles final para derrotá-las e instaurar uma nova ordem; iv) esses
gnósticos vivem em uma realidade paralela, num mundo dos sonhos, dado ao subjetivismo,
à irracionalidade e paranoia de conjeturarem a presença do mal em todos os lugares; v) a
24 N. S. LYONS; MIGUEL, Felipe (org). A Guerra da Realidade. Gnósticos. Simplesmente Gnósticos. Até o Fim. Trad. Felipe Miguel.
1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 186.
25 Edward FESER; MIGUEL, Felipe (org). Os Sucessores Políticos da Heresia Gnóstica. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir,
MG, 2022, p. 163-172.
26
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
patente contradição da moral gnóstica baseada numa prática oscilante entre os extremos
do moralismo exacerbado e da libertinagem, no qual o comportamento mais depravado é
passível de ser perdoado.26
Na ordem do dia, encontram-se os gnosticismos modernos, como o iluminismo que
visou destruir a Igreja e a religião católica, pondo em seu lugar a filosofia materialista e a
vida intelectual em curso na direção do naturalismo. A religião foi tida como o ópio do povo
e que visa aplacar os ânimos dos oprimidos do opressor burguês. Esses novos gnosticismos
deram origem ao fascismo, nazismo e comunismo. Atualmente a nova mentalidade gnóstica
encontra-se no gnosticismo woke, tendo uma de suas manifestações a Teoria Crítica da Raça
(CRT)27 e as inúmeras discriminações interseccionais. A diferença da CRT em relação ao
marxismo e ao nazismo é que a lógica racista do woke ainda não foi posta em prática como
um programa político em larga escala. Será?28
Não há diferenças entre os engenheiros intelectuais do marxismo e nazismo com
as manifestações das teorias “lógicas” delirantes de um Ibram Kendi ou de uma Robin
DiAngelo, pois ambos competem entre si para ver quem deve levar o prêmio de maior
paranoia, irracionalidade e fanatismo maniqueísta ou outro modo qualquer de gnosticismo.
Ambos advogam a tese que a origem onipotente e onipresente do mal no mundo e o “poder
racista” está fundada na “supremacia branca”, no “privilégio branco” ou na “branquitude”.
Como observam os críticos da CRT, se alguém se der o trabalho de trocar as expressões
“supremacia branca” e “branquitude” por “judaísmo” e “povo judeu”, verificar-se-á, de
forma estarrecedora, a semelhança com a propaganda nazista de Joseph Goebbels. Os
livro de Kendi e DiAngelo são best sellers a despeito da fragilidade argumentativa, não se
submetem ao crivo da refutabilidade popperiana, nenhuma evidência é passível de contes-
tação.29
Obviamente, insiste-se, claro que há racismo no mundo, como há no capitalismo
a exploração da classe trabalhadora, mas ambas as perspectiva teórica estão longe de
serem determinantes como visão de mundo, como verdades incontestes. Em oposição ao
extremismos da gnose woke surge em represália a lunática teoria QAnon30. E, em arremate,
26 Edward FESER; MIGUEL, Felipe (org). Os Sucessores Políticos da Heresia Gnóstica. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir,
MG, 2022, p. 163-172.
27 Na língua inglesa: Critical Race Theory (CRT)
28 Edward FESER; MIGUEL, Felipe (org). Os Sucessores Políticos da Heresia Gnóstica. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir,
MG, 2022, p. 165 e s.
29 Edward FESER; MIGUEL, Felipe (org). Os Sucessores Políticos da Heresia Gnóstica. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir,
MG, 2022, p. 163-172.
30 ‘‘ O QAnon surgiu nesse mesmo caldo de cultivo. Tratado como um movimento gestado a partir de uma teoria de conspiração
produzida pela extrema direita americana, o fenômeno nasceu em um desses fóruns frequentados pelos celibatários involuntários. Um
suposto whistleblower, com acesso aos segredos inconfessáveis da política norte-americana e seus atores, postou em um fórum repleto
de celibatários involuntários uma série de histórias bem amarradas que tratavam de uma grande conspiração para derrotar o recém-
-empossado Donald Trump, envolvendo bruxaria, corrupção, pedofilia e uma série de outros ingredientes que temperaram a mente
alucinada dos membros dos fóruns. Antes que se chamar QAnon, o delator – são se sabe se é a mesma pessoa – testou outras teorias
pelos nomes de CIAAnon, FBIAnon e WHAnon, tentando-se fazer parecer ser alguém da CIA, do FBI ou da própria Casa Branca. A
versão assinada pelo Q anônimo (é o que quer dizer a sigla) caiu no gosto do pessoal que tratou de disseminá-la nas redes sociais. (Cf.
Leonardo Coutinho: QAnon e outras patologias.’’ Disponível em: [Link]
27
Cláudio Gonçalves Pacheco
se alguma coisa a história da Alemanha de Weimar nos ensinou é que uma guerra entre
gnosticismo nunca termina bem.
3.4 O FOMENTO DA CULTURA WOKE PELAS DIRETRIZES DA ONU
Sob o ponto de vista de um movimento político cosmopolita, o ex-diplomata nor-
te-americano, Todd Huizinga, no ensaio “A Governança Global Woke: A ONU, os Novos
Direitos Humanos e o Dinheiro”, chega à conclusão do quanto as diretrizes da Organização
das Nações Unidas (ONU), voltadas à política de Governança Global, divulgadas por suas
inúmeras repartições, que são regulamentos que criam novos direitos humanos, não por
coincidência, estão impregnadas nas bandeiras do movimento woke.31
O projeto de governança global da ONU, tomado à primeira vista pelo valor de
face, leva-se a crer que se trata de um programa orientado a melhorar a vida humana ao
redor do mundo. Contudo, ao se fazer as primeiras imersões em seus relatórios de pesquisa
e estudo, verifica-se que, por detrás dos slogans pomposos e retóricos, uma proposta de
poder ilimitado emerge que almeja conceber o valor verdade e o valor justiça com vista
a promoção dos direitos humanos em escala universal. Se o processo de governança de
política global dos direitos humanos se der de forma subtil e dissimulado, as elites interna-
cionais agradecem.32
A governança global foi concebida pela ONU, sob forte liderança dos governos
democratas dos EUA e pela UE, com a justificativa de promover a “paz mundial”. O novo
ordenamento jurídico dos direitos humanos e o projeto de governança global da ONU
visavam a promoção da paz mundial. Agora, o foco principal é divulgar um conjunto de
direitos humanos sob o argumento de que todas as pessoas de todas as partes do mundo
tenham esse rol de direitos garantidos, o qual está fortemente conectado com a ideologia
woke, sobretudo em relação aos direitos sexuais.33
Basicamente, esses direitos sexuais tutelam o direito ilimitado de liberdade de
prática sexual e o direito das mulheres jovens e adultas de abortarem. A ONU desenvolveu
três programas sob os acrônimos SDSR, OSIG e ESA, visando o objetivo de desenvolvimen-
to sustentável no mundo. O SDSR, que significa Saúde e Direitos Sexuais e Reprodutivos, foi
o primeiro dos três programas. Em linhas gerais, O SDSR objetiva proteger a saúde sexual e
os direitos sexuais e reprodutivos com a política explícita pró-aborto. Os programas OSIG
non-outras-patologias/?ref=busca. Acesso em: 03 Jan.2024.)
31 Todd HUIZINGA; MIGUEL, Felipe (org). A Governança Global Woke: A ONU, os Novos Direitos Humanos e o Dinheiro. Trad.
Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 131-143.
32 Todd HUIZINGA; MIGUEL, Felipe (org). A Governança Global Woke: A ONU, os Novos Direitos Humanos e o Dinheiro. Trad.
Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 131-143.
33 Todd HUIZINGA; MIGUEL, Felipe (org). A Governança Global Woke: A ONU, os Novos Direitos Humanos e o Dinheiro. Trad.
Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 131-143.
28
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
e ESA são mais atuais. O OSIG, acrônimo que significa “Orientação Sexual e Identidade
de Gênero”, tem por objetivo tutelar os direitos LGBT e resguardar o direito das pessoas
decidirem a própria identidade de gênero, sobrepondo-os sobre os direitos tradicionais da
sociedade, cultuados ao longo de sua história, como o direito do casamento heterossexual,
direito a uma família tradicional harmônica e o direito à moral sexual fundada na tradição.
O especialista independente da ONU em questões LGBT, na sustentação do programa da
OSIG, Victor Madrigal-Borloz, em junho de 2021, em seu relatório, sentenciou que a mudança
de gênero é um direito internacional, sob a perspectiva pós-moderna de gênero espontâneo,
fluido, líquido, a despeito da constatação da realidade empírica física do corpo.34
Por último, a ESA, que significa “Educação de Sexualidade Abrangente”, consiste no
mais atual dos novos direitos humanos fomentado por toda a estrutura sistêmica da ONU.
A ESA advoga a educação sexual das crianças a partir dos cinco anos de idade. A ESA, sob
a retórica de defender os direitos humanos, objetiva desenvolver um programa de sexua-
lização de crianças sob a perspectiva woke de pessoa humana, alegando que existe uma
distinção entre sexo biológico e gênero, reforçando que o gênero não guarda referência com
o sexo biológico, que o amor pode se manifestar por diferentes práticas sexuais, bem como
visa assegurar o acesso aos adolescentes e adultos a serviços de aborto sem a necessidade
do consentimento dos pais. O desenvolvimento sustentável proposto no programa da ESA
implica necessariamente a adoção do aborto com condição sene qua non.35
De todo exposto, constata-se que, quando a liberdade não mais está fincada na
verdade consensualmente aceita, mas a partir da liberdade subjetiva individual que cada
pessoa tem de verdade, a substância e densidade do valor liberdade perde a completa racio-
nalidade e sua existência é artificial e não natural.
E, numa “coincidente” sinergia com as diretrizes da ONU, consignadas acima,
Todd Huizinga, em outro ensaio seu36, sustenta que assistindo o advento e a proliferação de
um novo capitalismo, um capitalismo ecosustentável, isto é, está a se falar no “capitalismo
woke”, o qual propõe uma revolução que não visa destruir a economia de livre mercado,
mas adestrá-la centrifugamente, ou seja, um novo paradigma moral, no qual as pessoas ficam
livres e solitárias, sem que uma força centrípeta as une em suas comunidades e culturas. O
sistema comercial, cujas trocas se davam de forma voluntárias e guiadas pela lei da procura
e oferta, passa agora a serem transações econômicas orientadas, fomentadas e lastreadas sob
os objetivos da justiça social e do direito ambiental.
34 Todd HUIZINGA; MIGUEL, Felipe (org). A Governança Global Woke: A ONU, os Novos Direitos Humanos e o Dinheiro. Trad.
Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 131-143.
35 Todd HUIZINGA; MIGUEL, Felipe (org). A Governança Global Woke: A ONU, os Novos Direitos Humanos e o Dinheiro. Trad.
Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 131-143.
36 Todd HUIZINGA; MIGUEL, Felipe (org). Wirtschaftswuder para o Século 21: A Era do Capitalismo Plenejado. Trad. Felipe Miguel.
1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 145-149.
29
Cláudio Gonçalves Pacheco
As Big Tech, como Google, Facebook, Microsoft, Apple e as demais satélites, bem
como as grandes empresas financiadoras como a BlackRock, só concederão patrocínio,
doação e financiamento aos empreendimentos empresariais, de pesquisas e filantrópicas se
estiverem alinhados com as pautas do movimento woke. Assim, esse “capitalismo woke”
não é amigável e inofensivo, pois todas as empresas, instituições públicas e privadas que
não se curvarem e promoverem os valores woke serão discriminadas e não terão acesso
aos auspiciosos incentivos financeiros dos super-ricos imperialistas do mundo, reunidos
na mega gestora de investimentos BlackRock. E tragicomicamente conclama: Capitalistas
woke de todo o mundo, uni-vos!37
Essa onda woke comporta-se como gafanhotos culturais, devorando tudo por onde
passa. A lógica insana é a de que nada permaneça em pé. Nesse sentido, com apoio no
pensamento filosófico do católico polonês do século XXI, Ryszard Legutko, e nas observações
do pensador, historiador e estadista calvinista holandês do século XIX, Guillaume Groen
van Prinsterer, Todd Huizinga explica que também a democracia liberal hodierna está
caminhando de forma radical para um liberalismo progressivo38, que devasta a história e
a tradição da sociedade livres do Ocidente, como o comunismo soviético revolucionário e
totalitário fez em décadas passadas.39
Nossa democracia liberal presta vassalagem a homo novus concebido no Ocidente
que devora a sua própria história e crença religiosa. Esse homo novus, despido de suas vestes
culturais, tradicionais e históricas, não tem elegância, refino, beleza e alma espiritual que
desperta o encanto, nenhuma estrutura lógico-racional e espiritual que se possa lhe dar
apoio, é simples culto do nada. Esse novo homem sem Deus prega que não existe liberdade
sem a entrega do corpo e da alma ao estado. Os norte-americanos e os povos da UE abdicaram
de suas leis e liberdade fundadas na potestade divina para se apegarem às leis e liberdade
da Revolução Francesa fundada no totalitarismo da vontade geral do povo, sem Deus. A
elite governante dos democratas dos EUA e da UE, totalmente pós-cristã, está se curvando
ao totalitarismo da cultura woke radical.40
37 Todd HUIZINGA; MIGUEL, Felipe (org). Wirtschaftswuder para o Século 21: A Era do Capitalismo Plenejado. Trad. Felipe Miguel.
1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 145-149.
38 Liberalismo progressivo quer aqui significar o sentimento de se libertar das instituições que aprisionam o ser humano, como família,
religião, cultura, o direito à propriedade, à tradição etc., em consonância com o pensamento filosófico de Jean-Jacques Rousseau. Já o
liberalismo clássico consiste ou propugna por se libertar dos grilhões do Estado, liberdade de mercado, liberdade econômica, liberdade
de pensamento, de expressão, neste último caso, como proposto por M. de Voltaire, em sua célebre frase: “Desaprovo o que você diz,
mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo”. O liberalismo clássico pode ser entendido hoje como o liberalismo conservador. (Cf.
Ramaswamy, Vivek. Nação das Vítimas: Política de Identidade, a Morte do Mérito e o Caminho de Volta à Excelência. Rua Centro. Edição
do Kindle, 2023.)
39 Todd HUIZINGA; MIGUEL, Felipe (org). Descrença: A Raiz das Tendências Totalitárias na Democracia Liberal? Trad. Felipe
Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 157-162.
40 Todd HUIZINGA; MIGUEL, Felipe (org). Descrença: A Raiz das Tendências Totalitárias na Democracia Liberal? Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. -
Editora Descobrir, MG, 2022, p. 157-162.
30
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
3.5 O FENÔMENO WOKE COMO UMA NOVA RELIGIÃO
Reconhecendo mais como uma profissão de fé religiosa, é a análise que Michael
Shellenberger faz do movimento woke, em seu artigo “Por que o Fenômeno Woke É uma
Religião - Apresentando a Taxonomia da Religião Woke”. Para sustentar sua tese, destaca
algumas características do fenômeno woke que se parece mais como uma religião do que
uma teoria em defesa dos direitos humanos consistente, sobremodo com a ascensão das
mídias sociais e as transformações nas mídias tradicionais de notícias na última década. As
plataformas de mídia sociais, como Facebook, Twitter (rede social X), Instagram e outras, ao
monetizarem seus usuários pelos compartilhamentos e curtidas das informações populares
extremas postadas e ao punirem com o bloqueio outros usuários que postam informações
impopulares com opiniões contrárias, fomentam supostas certezas momentâneas, estimulam
dogmatismo com a censura de temas tabus e são refratárias à liberdade de opiniões ao
coibirem postagem de pontos de vista divergentes do mainstraem.41
Shellenberger, contudo, questiona: só porque o movimento woke comporta-se como
uma ideologia dogmática e hipócrita não deveria fazer dele uma religião, haja vista que sua
ideologia não se funda em crenças transcendentais, nem se apega a uma entidade mitológica
ou sobrenatural. Todavia, para confirmar a sua tese de que o fenômeno woke é uma religião,
ele e seu amigo Peter Boghossian, professor de filosofia, desenvolveram uma Taxonomia da
Religião Woke. A taxonomia da Religião Woke, criada por ambos, compreende:
[...] sete áreas temáticas (Racismo, Mudanças Climáticas, Trans, Crime, Doença
Mental, Drogas e Sem-teto) discutidas em Woke Racism, Apocalypse Never, San
Fransicko, pesquisa de Peter e os escritos de outros críticos da ideologia woke. E
abrange dez categorias religiosas (Pecado Original, Demônios Culpados, Mitos,
Vítimas Sagradas, Os Eleitos, Crenças Sobrenaturais, Fatos Tabu, Discurso Tabu,
Rituais Purificadores, Discurso Purificador). Ficamos surpresos com a facilidade de
preencher cada categoria e com as fascinantes semelhanças e diferenças entre elas.42
Essa referida taxonomia tem razoabilidade, pois identifica um conjunto comum
de mitos e crenças, que contribui para esclarecer o motivo de existirem tantas pessoas
propagando e mantendo essas entidades sobrenaturais ainda que comprovadamente falsas.
É bem verdade que esse sistema taxonômico não irá dissuadir os crentes da ideologia woke,
mas poderá servir para conscientizar muitas outras pessoas que estão desorientadas e ainda
não têm uma opinião formada acerca do irracionalismo inerente ao wokeísmo e, como
muitos, estão à procura de uma explicação plausível.
41 Michael SHELLENBERGER; MIGUEL, Felipe (org). Por que o Fenômeno Woke É uma Religião? Apresentando a Taxonomia da
Religião Woke. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 217-222.
42 Michael SHELLENBERGER; MIGUEL, Felipe (org). Por que o Fenômeno Woke É uma Religião? Apresentando a Taxonomia da
Religião Woke. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 222.
31
Cláudio Gonçalves Pacheco
James R. Wood, em seu artigo “Reformando a Nossa Religião Civil Sucessora”,
também concebe o movimento woke como uma religião, mas não na perspectiva que Michael
Shellenberger o entende. Wood observa que o liberalismo clássico, que deu suporte teórico
as estrutura políticas e econômicas dos EUA, tem sido criticado pelos próprios conserva-
dores e pós-liberais. Todavia, as questões sociais, que mais nos desafiam, vêm da esquerda
que defende um sistema de mitos emergentes que tem em sua órbita as crenças da justiça
social, da política de identidade, da interseccionalidade e o antirracismo. Esse sistema da
ideologia woke mina as bases de diversos valores fundantes do liberalismo clássico como a
liberdade de expressão, a pluralidade de ideias, a meritocracia, o tratamento isonômico de
todos independente de raça, cor, origem, credo etc. Contudo, ao denominar o movimento
o woke como uma ideologia, encobre o seu verdadeiro fenômeno que é de ordem religiosa,
ainda que contraditoriamente uma religião civil secularizada.43
A despeito dessa sua natureza, Wood admite que há no movimento woke algo que
seja socialmente construtivo. Nesse sentido, enumera três razões positivas do movimento. A
primeira, centra-se na denúncia do mal presente em sistemas e estruturas sociais decorrentes
do pecado inerentes às intenções dos indivíduos; segundo, o movimento woke questiona
a crença do indivíduo e do valor meritocracia, observando que somos seres gregários e
precisamos um dos outros e os sucessos ou fracassos não pode deixar de levar em conside-
ração as condições sociais, biológica e do meio ambiente que determinam nossas vidas; e,
terceiro, o movimento woke aponta o dedo para as chagas não curadas de nossa sociedade
e os verdadeiros cristão não podem desconsiderá-las simplesmente.44
Reconhece-se os problemas da mente woke de atribuir o bem e o mal a agentes
humanos ou a instituições sociais, limitando-os no binarismo de oprimidos e opressores.
Esse obscurantismo cega os ativistas do movimento à refutação racional, tornando-os,
de forma preocupante, a estarem propensos a identificar absurdos bodes expiatórios. A
implacável justiça woke divide o mundo entre nós e eles, onde estes não são dignos de mi-
sericórdia e de reconciliação. A religião woke é reformável? Todos devem ser conclamados
a se reconciliarem, de forma honesta, sincera e humilde na solução de problemas e erros. A
reforma não deve ser buscada na esfera política, mas na união, na sociabilidade, na reconci-
liação, no perdão sob as bênçãos de Deus que a todos perdoa e acolhe.45
43 James R. WOOD; MIGUEL, Felipe (org). Reformando a Nossa Religião Civil Sucessora. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora
Descobrir, MG, 2022, p. 233-238.
44 James R. WOOD; MIGUEL, Felipe (org). Reformando a Nossa Religião Civil Sucessora. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora
Descobrir, MG, 2022, p. 233-238.
45 James R. WOOD; MIGUEL, Felipe (org). Reformando a Nossa Religião Civil Sucessora. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG,
2022, p. 233-238.
32
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
3.6 O WOKE COMO UM MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO DO
MARXISMO CULTURAL
Na perspectiva filosófica do pensador e jornalista Mark Dooley, o movimento woke
e toda a sua agenda revolucionária, como a Teoria Crítica da Raça (CRT), nada mais é do
que uma revolução cujas bases teórico-filosófica estão fincadas no pensamento marxista de
Antonio Gramscy, filósofo, escritor, socialista e político italiano, que propunha um processo
revolucionário lento, mas constante. O impacto de suas ideias surtiu efeito sobretudo na
América e na Europa, propondo uma reengenharia social no modo liberal progressista mais
radical possível que visava o enfraquecimento de instituições sociais e culturais arraigadas
na sociedade, como a destruição da família, religião e cultura.46
Assim, contrariamente, a revolução comunista proposta por Karl Marx, que
defendia que a base socioeconômica consiste na força motriz da história, Gramsci entendia o
contrário, para ele a superestrutura cultural e ideológica tem a mesma importância, ou seja,
não é possível transformar uma sociedade sem que mude a forma como ela tem consciência
de si mesma. É preciso mudar essa consciência intelectual e, com isso, o modo de pensar na
sociedade. Por intelectual, Gramsci não se refere o estudioso centrado em reflexões teóricas
abstratas, “.. mas aquele que ... exerce funções organizacionais em sentido amplo, tanto no
campo da produção, quanto no cultural, e no político-administrativo.”47
Por detrás de um padre, de um agente público, dos articulistas e celebridades da
imprensa tradicional, existe toda uma rede administrativa que dita o roteiro intelectual
que será replicado nas igrejas, nas diversas seções do aparato administrativo e judicial do
Estado, nas redações dos jornais e revistas, no cinema, teatro e na música. Sem o trabalho
meticuloso e gradual dos intelectuais nos bastidores, todas essas instituições sem o intelectual
não teriam a munição que lhes desse sentido e unidade ideológica e identidade. Desse
modo, esses formadores de opinião devem produzir, sustentar e manipular sutilmente a
consciência popular através da infiltração de uma classe de intelectuais socialistas nas ins-
tituições religiosas, culturais, educacionais e cívicas da sociedade, criando uma consciência
contra-hegemônica capitalista.48
As [...] As armas do revolucionário comunista nos dias atuais não são militares, mas
sim as armas culturais para combater o modo de ser da civilização burguesa, exigindo para
isto o pleno conhecimento das regras culturais de cada país. Ninguém questiona o sucesso e
46 Mark DOOLEY; MIGUEL, Felipe (org). A Longa Marcha de Antônio Gramsci. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG,
2022, p. 117.
47 Mark DOOLEY; MIGUEL, Felipe (org). A Longa Marcha de Antônio Gramsci. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG,
2022, p. 115-120.
48 Mark DOOLEY; MIGUEL, Felipe (org). A Longa Marcha de Antônio Gramsci. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG,
2022, p. 115-120.
33
Cláudio Gonçalves Pacheco
o predomínio do denominado “marxismo cultural” a la Gramsci em todas as instituições dos
países ocidentais.49 As instituições acadêmicas hodiernas não interessam na promoção dos
valores e princípios da cultura, arte e filosofia greco-romana que formataram pensamento
Ocidental, mas trocaram esses valores de erudição e busca da verdade científica pela cultura
de pautas baseadas no politicamente correto da argamassa ideológica do movimento woke.
No capítulo que segue, discorre-se acerca das principais pautas socioeconômicas e
político-culturais defendidas pelo movimento woke, sem jamais ter a pretensão de exaurir
sua densa repercussão nos diversos ramos de influência, mas tão só contribuir para auxiliar
na compreensão deste fenômeno.
49 Mark DOOLEY; MIGUEL, Felipe (org). A Longa Marcha de Antônio Gramsci. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG,
2022, p. 115-120.
34
CAPÍTULO 4
PRINCIPAIS PAUTAS SOCIOECONÔMICAS E
POLÍTICO-CULTURAIS ENCAMPADAS PELO
MOVIMENTO WOKE
Cláudio Gonçalves Pacheco
N esta seção, ocupa-se em dissertar acerca das principais bandeiras socioeco-
nômicas e político-culturais presentes no movimento woke, começando pela
questão racial, depois tratando do processo de inclusão do ativismo LGBTQ+ e do feminismo
interseccional, entre outros aspectos de tensionamento popular dele decorrente.
4.1 O RACISMO
Dentre todas as pautas encampadas pelo movimento woke, seja o feminismo, a de-
sigualdade social, as questões de gênero, talvez a bandeira racial, que deu origem a todas
as demais, seja a mais controvertida, visto que destoa da racionalidade e mais se aproxima
de uma profissão de fé religiosa do que uma teoria fundada em pressupostos e princípios
minimamente lógicos, que mais provocam divergências e não consenso. Paradoxalmente, os
ativistas woke consideram-se “antirracistas”, contudo, dadas as definições e visões radicais,
ao invés de contrabater comportamentos racistas, têm uma verdadeira ideia fixa pela raça.
Num momento em que as teorias racistas perderam por completo suas credibilida-
des científicas, os militantes da cultura woke, que auto se intitulam “racialistas”, deram a
luz a uma nova “doutrina teórica”, a saber, a “Teoria Crítica da Raça ou CRT”, que sustenta
que todas as interações sociais da vida humana devem ser consideradas sob a perspectiva
da raça. Não considerar a cor da pele na problemática racial seria a forma mais expressiva
e agressiva de racismo. Quem não aceitar e não partir do pressuposto de que as pessoas
são tratadas e diferenciadas em função de sua cor é, na sua essência, o verdadeiro racista.
Os racialistas do movimento woke visam contrabater a desigualdade racial não com vista
a dissuadir quem tenham esse comportamento injusto e abjeto, mas praticando discrimina-
ções contra quem os discrimina.1
Jean-François Braunstein2 observa que a teoria crítica racial, que por um bom tempo
se restringiu ao meio universitário norte-americano, iniciando nos cursos de direito, vem se
alastrando agora desde o jardim de infância até às academias e que o mesmo vem acontecendo
na França, todavia, o antirracismo ajustou-se à sua realidade e, no lugar do negro discrimi-
nado, tem-se os imigrantes das ex-colônias francesas como vítimas do racismo sistêmico.
Vivek Ramaswamy3, por seu turno, consigna que a Teoria Crítica da Raça - (CRT)4 foi de-
senvolvida originalmente na Escola de Frankfurt, que se notabilizou como um movimento
filosófico, no limiar dos anos 1900, que visou aplicar as teorias marxista aos sistemas socioe-
1 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 112-4.
2 Ibid., p. 113.
3 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence. Center Street.
Edição do Kindle, 2023, p. 82.
4 Critical Race Theory (CRT)
36
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
conômicos, cujas diversas manifestações dimensionais da CRT partem de um referencial
comum que é dividir o mundo entre opressores e suas vítimas.
Jean-François Braunstein observa que esse novo antirracismo da cultura woke
ganhou notoriedade popular com Black Lives Matter, cujos principais corifeus de divulgação
do movimento são a socióloga branca Robin DiAngelo, o ativista antirracista e historiador
Ibram X. Kendi, o jornalista Ta-Hehisi Coates e Layla Saad, autora britânica da mídia social.
São escritores, com muitos livros best-sellers, que mais se assemelham à livros de autoajuda
e de salvação pessoal, voltados as pessoas brancas, de leitura obrigatória pelos wokeístas,
inclusive pelo Ministério da Defesa dos EUA, pelos sindicatos de professores, além de
incontáveis universidades e empresas. Esses autores atuam como tutores de diversidade,
sendo convidados a darem palestras com cachês nada módicos.5
Digno de mencionar também o ensaísta e escritor Joseph Bottum, que concedeu
entrevista ao jornalista da Spiked6, Sean Collins, em 21 de agosto de 2020. Na oportunidade,
Bottum discorre acerca da “culpa branca” que é inerente ao mero fato de ter nascido branco,
a qual tem essência lógica e psicológica com o Pecado Original, com um pequeno diferencial,
na culpa branca não há salvação para as pessoas brancas, ainda que se arrependam de seu
pecado. De onde advém o ritual proposto pelo ativismo woke, no qual pessoas brancas,
num ritual de expiação dos pecados, lavam os pés de negros, reconstituição simbólica
do martírio através do ritual do lava-pés, como forma de reconhecimento de seu pecado
original. Decorre daí, a cultura da proscrição e do ostracismo. A cultura do cancelamento
consiste na mais nova e contagiosa ideia religiosa da proscrição, em relação às pessoas que
são obrigadas a reconhecer a sua culpa.7
Como bem observa Braunstein, esses antirracistas do woke, com sua profissão de
fé racialista, como eles próprios se autodenominam, caem numa flagrante contradição ao
não propugnarem destruir a noção pseudocientífica da raça como outrora os verdadeiros
antirracista tradicionais se empenharam. Num momento em que a cultura do ocidente,
no pós Segunda Guerra Mundial, logrou-se de vez dar um basta nesta nefasta teoria de
raça humana, os ativistas do woke a revigoram na sociologia numa ideia fixa de culto à
raça. Há pouco tempo, os antirracistas tradicionais sustentavam que aquele que leva em
conta a “raça” de uma pessoa, de plano, era racista, obrigando-se a tratar a todos de forma
5 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 114.
6 Spiked é a revista que quer mudar o mundo e também fazer reportagens sobre ele. Editado por Tom Slater e lançado em 2001, é
irreverente onde outros se conformam, questionando onde outros se afundam na sabedoria recebida, e radical onde outros se apegam ao
status quo.
(...) O nosso lema é “questionar tudo” – ou, como disse o New York Times , somos “a publicação britânica frequentemente mordaz,
que gosta de perfurar todo o tipo de balões ideológicos”. Disponível em: [Link]
-show/. Acesso em: 31 Jan.2024.
7 Sean COLLIN: A nova religião dos antirracistas. Disponível em: [Link]
-antirracistas/?logged. Acesso em: 31 Jan.2024.
37
Cláudio Gonçalves Pacheco
isonômica e indiferentemente a sua compleição física, sob pena de ser responsabilizado por
tal conduta, haja vista que a noção de raça não havia suporte científico.8
Para os antirracistas wokeístas, como Robin DiAngelo acentua, realmente não
existe a noção de raça sob a perspectiva biológica, todavia, o conceito de raça trata-se de
uma construção social, que norteia todos os aspectos de nosso convívio interpessoal, seja
na dimensão econômica, cultural, social e sentimental. A raça é onipresente. A tendência
na contemporaneidade é expandir a todas às situações da vida e que tudo tem uma causa
racista e, assim, fazer uma revisão da história ocidental demonstrando que toda construção
cultural, técnica e científica não foi mais do que uma projeção de uma civilização racista e
sexista. O que causa mais perplexidade é constatar que boa parte dos universitários compre
essa ideia e, quem ouse a contrabatê-la, é condenado nas redes sociais, acusado de racista ou
de defender a supremacia branca, sendo, não raras vezes, demitido de seu trabalho.9
O que mais causa espanto e pavor nessa paranoia coletiva é que, antigamente, quem
viesse definir qualquer ser humano em razão de sua cor e pele era indiciado, processado
e, se provado, culpado de racismo. Agora, na cultura woke fazer discriminação racial com
pessoas brancas não é crime, pois nasceu culpado por ser branco e gozar do “privilégio
branco” é o seu pecado original. Em contrapartida, todas as pessoas de cor não são racista.
Mas, na visão woke de Ibram X Kendi, as pessoas brancas são racistas e culpadas, ainda que
conscientemente entendem que não são. Kendi sustenta que a discriminação dos brancos
consiste na única forma de se materializar a igualdade. Nessa medida, o racismo sistêmico
não se apoia na ideia abjeta de superioridade de uma “raça” em relação a outra, trata-se
de algo que não guarda relação com a vontade manifestada por uma pessoa ou por uma
comunidade de pessoa que se julga superior a outrem. As pessoas brancas que dizem que são
racista, são racista; mas, se verdadeiramente, as pessoas brancas dizem que não são racistas
e nunca tiveram qualquer comportamento ou ação racista, mesmo assim, são racistas, pois
decorre de seu Pecado Original de nascerem brancas.10
Os arautos ativistas do racialismo woke rechaçam e inadmitem a causa dos antirra-
cistas clássicos, os quais bravamente combateram pela existência de um mundo “daltônico”.
Um exemplo clássico desse antirracismo fóssil e obsoleto pode ser evocado na célebre frase
humanitária de Martin Luther King, a saber: “Meu sonho é que um dia meus quatro filhos
vivam em um país onde não sejam julgados pela cor da pele, mas pelo seu caráter.”11 Para
os ativistas woke não julgar alguém pela cor da pele não tem validade alguma, não tem a
8 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 115-6.
9 Ibid., p. 115.
10 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 115-129.
11 Ibid., p. 127.
38
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
menor importância, não é mais considerado como um avanço ético-moral, espiritual e civi-
lizacional do ser humano, mas, ao contrário, é uma postura racista, pois o ideal de exemplar
antirracista é todo aquele que julga as pessoas pela cor da pele.
Braunstein traz as considerações de perplexidades do linguista negro John
McWhorter em relação ao antirracismo dos cultores do movimento woke. McWhorter
lamenta o fato de que as teorias racialistas dão cabo à emancipação individual e retornam
ao pensamento “tribal”. McWhorter denomina o racialismo woke de “elitismo”, que é a
doutrina dos “eleitos” a ponto de considerar o racismo branco tão avassalador que reduz as
pessoas negras ao nada, de não existirem individualmente, pois as pessoas brancas são as
eleitas, por isto são supremacistas brancos.12
Como para os novos antirracistas woke, que veem racismo em tudo, como confessa
Layla Saad que conta nos dedos de uma mão quando foi flagrantemente vítima de racismo,
mas foram incontáveis, às vezes, que sofreu racismo sutil. Na mesma condição de sutileza
encontra-se o que a cultura woke denomina de “racismo ambiental”, que, embora invisível,
se propaga pelo ar que se respira. Como bem sentencia Braunstein, se se tem racismo sutil
ou invisível, é porque não tem mais existência real, ou está encaminhando para o desapa-
recimento, nas sociedades que estão em processo avançado de indiferença à raça. Tanto é
verdade que, nos EUA, as vítimas negras alvejadas por tiros de policiais é de 60 a 80 por
cento menor do que nos anos de 1960. Os supremacistas brancos da Ku Klux Klan, em 1920,
eram entre três a oito milhões nos idos de 1920. Atualmente, os membros desta detestável
organização não passam de 8 mil.13
As pessoas acusadas de racistas pelos ativistas da cultura woke, com base na
Teoria Crítica da Raça, ainda que não haja prova de serem ou que não se comportaram por
qualquer ação racista ou sequer tivessem falado quaisquer palavras de cunho racista, são
racistas mesmo assim. Nada disso é relevante, basta que sejam pessoas brancas ou que se
comportem como brancos para serem racistas. Desse modo, como a Teoria Crítica da Raça
goza do status da irrefutabilidade e, então, sob a análise da perspectiva filosófica de Karl
Popper14, toda e qualquer teoria, afirmação ou enunciado que não submete ao crivo da ve-
rificabilidade, da refutabilidade, da falseabilidade, da testabilidade ou que transfere para o
futuro ou para o transcendente a sua verificabilidade ou refutabilidade não tem validade
científica. Isto é, a Teoria Crítica da Raça não é ciência, é religião, astrologia, futurologia etc.,
mas não ciência.
12 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 117.
13 Ibid., p. 117-119.
14 Karl POPPER. Conjeturas e refutações. Trad. Benedita Bettencourt. Coimbra: Almedina, 2006, p. 1-96.
39
Cláudio Gonçalves Pacheco
Ou seja, a Teoria Crítica da Raça do movimento woke é rica em significados, mas
absurdamente pobre em referência. A noção de conceito fora bem tratado no pensamento
de Quine, ao observar que o “... significado é aquilo que a essência se torna quando se
divorcia do objeto de referência e se casa com a palavra”15. Explica-se. Bem sabemos que
cavalo alado, dragão, minotauro etc., são vocábulos repletos de significados, são ricos se-
manticamente falando, mas completamente destituídos da realidade fática, isto é, não têm
correspondência com o mundo real das coisas. Nesta mesma condição encontra-se a Teoria
Crítica da Raça, nela não há qualquer relação biunívoca com a realidade, não na dimensão
racialista que o woke queira imprimir.
Outra questão bastante cara para os antirracistas woke refere-se ao uso de certas
palavras ou expressões que denotam discriminação racial e que devem ser evitadas, se se
não quiser ser tachado de racista. Palavras ou expressões do português como denegrir,
moreno, ovelha negra, a coisa está preta, inveja branca, programa de índio, serviço de preto
buraco negro etc. devem ser banidas de nossos dicionários16. Vivek Ramaswamy argumenta
que esse controle da linguagem limita a nossa criatividade discursiva, sendo danoso para o
nosso desenvolvimento intelectual. O sentimento de vitimização pela linguagem pode dar
ensejo que as próprias palavras em si e não os seus reais significados ganham a luta sobre
os valores e ideias.17
Para Ramaswamy, as palavras não são agressivas em si. Relata que, quando estava
no ensino médio um colega seu o empurrou escada abaixo só porque havia feito várias
perguntas em sala de aula. Isso sim é violência, pois não tive escolha de machucar ou não.
Todavia, quando um antirracista progressista profere insulto racial contra mim, cabe a eu
sentir-se ofendido ou não. Para Ramaswamy, nessas situações, bato de ombros e prefere
seguir o seu caminho.18
Outra marca registrada do movimento woke é a cultura do cancelamento, seja
porque a pessoa ou a empresa disse ou insinuou qualquer palavra, frase ou gesto que seja
ofensivo ao culto woke sobre raça, gênero, sexo, feminismo, classe etc., sofre o cancela-
mento nas redes sociais ou outra forma qualquer de banimento, sem qualquer direito ao
retratamento. Em relação ao cancelamento em virtude de ofensa racial, Vivek Ramaswamy,
confesso admirador das contribuições de David Hume para o conhecimento filosófico, ficou
15 W. V. QUINE. Relatividade e ontológica e outros ensaios. Os Pensadores. 1ªed. – São Paulo: A. Cultural e Industrial. 1975, p.
255/264.
16 E o uso da expressão “Deu um branco agora!”? Alguma pessoa de cor da pele branca sentiria também discriminada racialmente por
quem a proferisse? Claro que não! Esta expressão como as citadas acima não podem ser descontextualizadas para alegar discriminação
racial. Isto é excesso de vitimismo.
17 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 4). Center
Street. Edição do Kindle, p. 3.
18 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 4). Center
Street. Edição do Kindle, p. 7.
40
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
perplexo e decepcionado ao saber que Hume foi a bola da vez na paranoia do cancelamento
woke, sobretudo no auge dos ânimos exaltados pelos movimentos Black Lives Matter. Os
ativistas do woke exigiram que a Universidade de Edimburgo trocasse o nome de um de
seus edifícios, isto é, da Torre David Hume para que a nomeasse de 40 George Square, tudo
porque, numa nota de rodapé de seu ensaio “Of National Characters”, Hume suspeitava
que as raças não-brancas eram naturalmente inferiores às brancas em virtude destas terem
realizado maiores conquistas.19
David Hume é considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos.
Immanuel Kant observou que o ceticismo de Hume o despertou de seu sono dogmático.
Hume defendeu a teoria da evolução pela seleção natural, sem concluí-la. Charles Darwin
tinha-no como um de seus escritores prediletos. Albert Einstein confessa que se não houvesse
lido o “Tratado sobre a Natureza Humana” de Hume, jamais teria chegado a desenvolver a
teoria da relatividade, pois foi de seu ceticismo da existência de um tempo universal objetivo
a ignição intelectual que faltava para desenvolvê-la. Hume sustentava que o tempo consistia
numa ilusão criada por impressões subjetivas.20
Essa paranoia de cancelamento woke, como um movimento da ideologia de
esquerda global, já vem há muito ecoando no Brasil. Assim, em virtude da Lei Municipal
n. 8.205/2023 do Município do Rio de Janeiro, o busto, em homenagem ao Padre Antônio
Vieira, instalado no jardim da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio),
desde 2011, no município do Rio de Janeiro, será removido. O monumento foi doado pela
Câmara Municipal de Lisboa, em retribuição à doação do busto do escritor Machado de
Assis, que ocorrera em 2008 à Universidade Católica Portuguesa. Aludida lei proíbe manter
ou inaugurar monumentos em homenagem a “escravocratas, eugenistas e pessoas que
tenham perpetrado atos lesivos aos direitos humanos”.21
A vereadora Mônica Benício, do Partido Socialista e Liberdade (PSOL), uma das
autoras do projeto, em matéria publicada na Folha de S. Paulo, sentencia: “Não vamos mais
aceitar a naturalização e, pior, a exaltação de figuras que promoveram o racismo e o fascismo
ao longo da história e hoje têm os seus crimes atenuados pelo revisionismo praticado pela
extrema direita”.22
19 Ibid. p. 46-7.
20 Ibid. p. 47-8.
21 A Lei Municipal n. 8.205, de 28 de novembro de 2023, de autoria dos Vereadores Chico Alencar e Mônica Benício, em seu artigo 1º
estabelece que “Fica vedado, no âmbito do Município do Rio de Janeiro, manter ou instalar monumentos, estátuas, placas e quaisquer
homenagens que façam menções positivas e/ou elogiosas a: I - escravocratas; II - eugenistas; e III - pessoas que tenham perpetrado atos
lesivos aos direitos humanos, aos valores democráticos, ao respeito à liberdade religiosa e que tenham praticado atos de natureza racista.
Parágrafo único. As homenagens referidas no caput e seus incisos já instaladas em espaço público deverão ser transferidas para ambiente
de perfil museológico, fechado ou a céu aberto, e deverão estar acompanhadas de informações que contextualizem e informem sobre a
obra e seu personagem.”
22 Luciano Trigo: O cancelamento do Padre Antônio Vieira. Disponível em: [Link]
go/o-cancelamento-do-padre-antonio-vieira/. Acesso em: 01 Fev.2024.
41
Cláudio Gonçalves Pacheco
O escritor, jornalista e tradutor, Luciano Trigo observa que a personalidade de
Padre Antônio Vieira foi enxovalhada como fascista e racista de extrema direita. Consigna
que:
No século 17, por sua defesa dos cristãos-novos e judeus, Vieira entrou em confronto
com a Inquisição. Hoje ele volta a ser perseguido, por novos inquisidores. Um dia,
quem sabe, seus livros serão queimados em praça pública, em nome do amor e em
defesa da democracia. ...
Ora, Vieira foi um homem do seu tempo, e vale lembrar que no século 17 inexistiam
os conceitos de fascismo e de direita e esquerda. Por sua vez, a relação de Vieira com
os escravos africanos já foi exaustivamente investigada, e a conclusão de todos os
estudiosos sérios foi a óbvia: é hipocrisia, má-fé e desonestidade intelectual julgar
alguém que viveu no mundo do século 17, quando não existia sequer a ideia de
abolicionismo (que só surgiria no final do século 18, na Europa), com critérios e
valores do século 21.23
Otto Maria Carpeaux, em sua obra “História da Literatura Ocidental – Vol. II”,
observa que o Pe. Antônio Vieira detinha uma erudição enciclopédica, como pregador e
como epistológrafo, salientando que Vieira se destacou como um brilhante jornalista, em
defesa de uma política corajosa, sendo mais audacioso que outros escritores de seu tempo.
Vieira possuía eloquência torrencial em favor dos judeus e dos índios escravizados, contra
os impostos injustos, pregando nova política colonial, razoável e mercantilista.24 Pe. Antônio
Vieira nasceu em Lisboa em 1608 e morreu no Brasil em 1697. Alfredo Bosi também consigna
que Vieira deixou uma obra documental com 200 sermões e 700 cartas, sendo geralmente
conhecido como um dos principais defensores dos direitos dos povos indígenas, especial-
mente no Brasil, onde, no século XVII, se insurgiu contra a exploração e escravização das
tribos indígenas, suscitando o ódio da Inquisição, que o persegue a ferros por dois anos,
proibindo-lhe o uso de sua palavra em todo Portugal.25
E, agora, está sendo perseguido e censurado tenazmente pelos ativistas do woke,
numa caça desenfreada a todos que suas mentes turvas e doentias elegem como opressor
da vez. Nem mesmo o jacobino Maximilien Robespierre teria a obsessão febril que os ora
arautos e moralistas exacerbados da Revolução Woke têm.
Segundo a Vereadora Mônica Benício, há uma lista de estátuas que terão que ser
removidas, na qual se inclui a estátua do Marechal Luís Alves de Lima e Silva (Duque de
Caxias), considerado por historiadores como racista e acusado de massacre de negros. Há
também a estátua do General Humberto de Alencar Castelo Branco, acusado por violações
aos direitos humanos, conforme a referida vereadora consignou no jornal Folha de São
Paulo.26
23 Luciano Trigo: O cancelamento do Padre Antônio Vieira. Disponível em: [Link]
go/o-cancelamento-do-padre-antonio-vieira/. Acesso em: 01 Fev.2024.
24 Otto Maria CARPEUAX. História da literatura ocidental. Vol. II. 3ª ed. - Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2008, p. 924.
25 Alfredo BOSI. História concisa da literatura brasileira. 4ª ed. - São Paulo: Cultrix, 2006, p. 25, 43-45.
26 CNN Portugal: Brasil vai retirar busto de padre António Vieira após lei contra defensores da escravatura. Disponível em: https://
42
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
Infelizmente, com uma postura de uma suposta e vanglória de uma impecável
superioridade moral que os racialistas wokes lhes auto atribuem, apagam-se reputações
de personalidades históricas. Atirem a primeira pedra aquele que não tenha um pecado
sequer, preconiza a máxima cristã. Mas os ativistas woke são incólume ético-moralmente e
o perdão, a misericórdia não fazem parte de seu paradigma de super-homens e supermu-
lheres morais, embora renegam estas duas virtudes centrais do cristianismo que é o perdão
e a misericórdia.
De forma simplista, o sentimento de vitimização, em escala cada vez mais crescente,
poderia ser resolvida com a máxima cristã de perdoai uns aos outros como a ti mesmo, já
que não há neste mundo quem não possa reivindicar a condição de vítima e, assim sendo,
por consequência lógica, todos são opressores. Essa solução cristiana seria eficaz se o empo-
deramento de vítima fosse igual para todos, mas não é, visto que o complexo de vitimização
é interseccional e hierarquizado. Existem vítimas que são mais vítimas que outras, e suas
reivindicações são maiores, dificultando o perdão mútuo, tornando impossível que cada um
abandonasse a suas queixas.
Aliás, Vivek Ramaswamy sugere uma hierarquia de vitimização. Ele alega que, no
topo da escala interseccional de vitimização encontra-se a mulher negra gay, disputando o
segundo lugar de mais oprimido estariam a mulher chinesa heterossexual, o homem branco
gay. Contudo, se todos levarem às últimas consequências a ideologia de vitimização, a
destruição completa de todos será algo inevitável. Assim, ainda que uns possam ser mais
injustiçado pela opressão sistêmica que outros, o perdão, o reconhecimento mútuo da
humanidade que há em cada um, é a única saída que nos manterá vivos.27
As queixas da comunidade negra são legítimas contra o comportamento policial. O
BLM tornou-se um promissor produto industrial que viceja nas academias, na indústrias de
belas artes e nos RH’s das grandes empresas e na grande mídia tradicional. Esta aprisionada
num mundo paralelo e autoreferenciado, engaiolada nos condomínios fechados, ávidas por
isolar do mundo a sua volta. O racismo sistêmico quer significar que envolve todo um modo
de ser da sociedade e sua eliminação passa por uma reengenharia de mudança de todas
nossas perspectivas de vida e com a demolição do sistema e reedificá-lo no nível mais básico
possível28.
Os reitores das universidades dobram-se contritos enfrente do altar do racismo
sistêmico, mais pelo medo do ostracismo, do cancelamento, do que da consciência da
[Link]/padre-antonio-vieira/estatua/brasil-vai-retirar-busto-de-padre-antonio-vieira-apos-lei-contra-defensores-da-escra-
vatura/20231130/6568301bd34e65afa2f82168. Acesso em: 01 Fev.2024.
27 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 4). Center
Street. Edição do Kindle, p. 189-198.
28 RENO, R. R.; MIGUEL, Felipe (org). O Roteiro Woke. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 45-57.
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Cláudio Gonçalves Pacheco
isonomia humana de reconhecimento do próximo. Os estudos de diferentes pesquisadores
verificaram que a preocupação com o racismo nos EUA tornou-se mais um sentimento dos
brancos de classe média alta, normalmente liberais progressistas, do que da comunidade
negra, a qual alega ter problemas mais prementes a se preocupar como a segurança nos
bairros onde vivem. A queixa dos branco é mais um luxo de ricos e o problema dos negros é
um problema real e premente. Quanto ao culto woke entre os brancos trata-se mais de uma
superstição religiosa dos brancos do que um problema real mesmo. Isto não quer significar
que as discriminações contras as minorias não sejam sérias e são problemas sim que
merecem especial atenção. Contudo, essas discriminações estão longe de serem as ameaças
mais prementes e letais à saúde da sociedade.29
Ao evoluirmos humanamente e passarmos a enxergar nós mesmos e as demais
pessoas como verdadeiramente iguais, atingimos um grau de excelência, pois nos tornamos
conscientes que demos um grande passo por termos conseguido ver as pessoas como elas
realmente são. Desse modo, por meio dessa lente, perdoar o preconceito de outra pessoa
não é um enorme auto-sacrifício, mas passamos a reconhecer ou compreender que nem você
nem as outras pessoas jamais podem ser definidas pelo mal que alguém ou outras pessoas
fizeram a você. Perdoar a intolerância de alguém não significa que você esteja desistindo
de uma queixa que legitimamente você é titular desse direito, mas ter a clareza de entendi-
mento que o mal que lhe fizeram a você consiste na menor parte de quem eles são, que eles
somente fizeram uma confusão ao definir você pegando a menor parte de quem realmente
você é. Se as pessoas puderem reconhecer que aquela pequena parte de nós está muito longe
do núcleo ou da essência que realmente somos.30
Com base nos ensinamento de Vevek, não é crível que tomemos apenas a pequena
parte de uma pessoa para odiá-la, seja a sua parte da pele negra, seja a sua parte de orientação
sexual gay, seja a sua parte de pele branca, seja sua parte de seu sexo ou gênero, seja a sua
a parte de ideologia política progressista ou conservadora, quando nem sequer você se deu
o trabalho em conhecer quem realmente essa pessoa seja. Quando alguém se liberta de sua
condição de vítima, concomitantemente esse alguém se libertará de seus meros opressores.
A Teoria Crítica da Raça (CRT), ao sustentar que o racismo é sistêmico no sentido
de que todos são culpados ou cúmplices, ainda que uma determinada pessoa em particular
nada o fez de racismo pra ser responsabilizado, assim, não ser racista é impossível, deixa
de ser uma tese que possa ser submetida ao crivo da verificabilidade para ser um axioma,
que deve ser admitido como verdade absoluta sem a possibilidade de questionamento e, se
29 RENO, R. R.; MIGUEL, Felipe (org). O Roteiro Woke. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 45-57.
30 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 4). Center
Street. Edição do Kindle, p. 203-4.
44
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
todos são culpados, não há uma gradação de culpa, não existe uma dosimetria que distinga
a complexidade de uma culpa de outra, visto que até mesmo o pronunciamento de uma
palavra pode ser considerado como atitude racista, considerado uma “agressão verbal”.
Perspectivas teóricas demasiadas abrangentes e revolucionárias, como a CRT se propõe a
ser, têm o condão de serem mais profissão de fé religiosa do que teoria científica.
Então, o que se propõe para esse desvario todo? Espera-se que possamos envidar
toda a dedicação possível para, em conjunto, darmos cabo a esse problema, de sorte que o
debatemos de forma respeitosa e desarmada, pois o custo do não-diálogo e do não combate
às sentenças retóricas dos promotores da CRT pode ser desastroso para todos.
4.2 A INCLUSÃO DO ATIVISMO LGBTQ+ E DE QUESTÕES DE GÊNERO
NO MOVIMENTO WOKE
Como observado, o termo woke está ligado originariamente a um estado de alerta
de autoconsciência acerca dos sistemas de opressão e discriminação racial dos afro-ame-
ricanos, nos idos das décadas de 1960 e 1970 e que, recentemente, foi reavivado com o
movimento Black Power e do Black Lives Matter.
Com o natural evoluir social, a acepção do termo woke foi ressinificado e expandido
para incluir uma gama cada vez maior de questões relacionadas ao valor justiça social que,
para além da pauta racial, abrigou também questões LGBTQ+ e de gênero, seja para ganhar
visibilidade popular, seja por influências de outras minorias também vítimas das discri-
minações negativas sistêmicas. Essa inclusão foi fruto da pressão dos movimentos sociais
contemporâneos, que exigiram um alargamento das reivindicações woke.
No século XXI, viu-se um crescer de movimentos sociais que combatem a opressão
sistêmica e as recorrentes microagressões. Os movimentos LGBTQ+ e Black Lives Matter
tiveram papel decisivo no woke no sentido de jogar luz em temas sensíveis de discriminação,
antes relegados. Esse acréscimo contribuiu para uma maior visualização e, por conseguinte,
mais adesão ao movimento woke que de repente passa de estar alerta, acordado com questões
de discriminações raciais para incluir assuntos relacionados ao gênero, sexualidade, classe
e deficiência.
Essa maior exposição e acréscimo de seu painel de questões socioeconômica e
cultural, no sentido de enfatizar e problematizar todo tipo de opressão e injustiça, suscitam
denúncias de que o movimento foi sequestrado e desnaturado de sua proposta original a
ponto de inflacioná-lo, perdendo sua verdadeira essência, sobretudo por quem o usa mais
45
Cláudio Gonçalves Pacheco
como autopromoção de superioridade moral do que comprometido com reais mudanças
sociais.
Assim, o processo de evolução do woke buscou retratar as inquietações sociais
e políticas que emergiram da história nos últimos anos. O termo woke encontra-se num
contínuo processo de ressignificação alimentado por novas demandas sociais por mais
justiça social pari passu abrindo flancos para crítica e objeções, ainda que o woke transcende
o seu conceito para significar uma proposta legítima de contestação das injustiças sociais
sistêmicas em prol de justiça e inclusão.
A busca pela justiça social configura outra forma de luta da ideologia woke, a qual
almeja a criação de uma sociedade onde todos possam ter iguais condições de oportunida-
des e de acesso aos recursos materiais e intelectuais para se desenvolverem em sua dimensão
física e espiritual, com vista instituição de um viver social mais equânime.
Dessa forma posta, constata-se que a cultura woke não se trata de um movimento
insular, mas faz parte de uma gama de ideologias que tem pontos comuns de insatisfa-
ção social relacionada à desigualdade e à discriminação opressiva sistêmica. Essa união
de esforços entre o woke, o feminismo interseccional e o movimento por justiça social em
prol da igualdade de direitos, de oportunidades e de acesso aos recursos disponibilizados
pela sociedade para todas as pessoas, visa a promoção digna de todos, sem preconceitos de
origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Todavia, a despeito dessas salutares moções para o convívio harmônico e sadio no
seio social, não rara vezes, a prática de suas ações na materialização de seus objetivos possa
ser condenáveis por infligir aos seus adversários as mesmas injustiças que sobre si recaem.
Prova disso, oportuno o relato de Brendan O’Neill, da Spiked, em seu artigo “A
bandeira LGBTQIA+ se tornou um símbolo woke”, publicado em 22 de julho de 2022,
observa que, na Inglaterra, nos dias de hoje, pobre de quem no comércio, banco ou prédio
oficial, ouse não hastear a bandeira do Orgulho LGBTQIA+, sobretudo no mês do Orgulho
LGBTQIA+. Salienta que esse movimento está deixando de ser um movimento voluntarista
por igualdade, para se tornar um emblema de governantes descolados e intolerantes. Essa
onda LGBTQIA+ já está atravessando as fronteiras da racionalidade e se alojando numa
completa histeria.31
O’Neill, da Spiked, em seu artigo, destaca que “... a junta paroquial de Ockbrook and
Borrowash, em Derbyshire, ganhou um problema quando se recusou a hastear a bandeira.
31 Brendan O'NEILL: “A bandeira LGBTQIA+ se tornou um símbolo woke”. Disponível em: [Link]
-122/a-bandeira-lgbtqia-se-tornou-um-simbolo-woke/. Acesso em 28 jan.2024.
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CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
‘Conselho de Derbyshire esnoba a bandeira do Orgulho LGBTQIA+ e gera revolta’, noticiou
uma reportagem da BBC ano passado.”32 É isso aí, se você não se curvar ao arco-íris, com
certeza irá parar no noticiário, arremata.
O que se constata com a bandeira do Orgulho LGBT é que ela deixou de significar
uma manifestação de reconhecimento pela igualdade das pessoas homossexuais para se
tornar uma sinalização de virtude que indivíduos e instituições advogam ter. E o que é
mais relevante nessa neurose generalizada é a evidência de um estampado culto à política
identitária, à moda woke.
A histeria linguística também em voga, observa Brendan O’Neill, está impactando
o modo como compreendemos o mundo em volta e como é possível conhecer a verdade.
Em seu artigo “A guerra linguística contra as mulheres: como a palavra “mulher” se tornou
proibida na sociedade woke”, o jornalista aborda a questão da guerra linguística contra as
mulheres, ressaltando que o uso da palavra “mulher” passou a ser proibida pela comunidade
woke. O’Neill relata que dois machos biológicos venceram o primeiro e o segundo lugares
numa competição de ciclismo feminino. Observa que o Ministério Público inglês (Crown
Prosecution Service, ou CPS) contratou uma consultora trans sobre diversidade, a qual
sugeriu que a palavra “mulher”, “woman” em inglês, fosse substituída por “womxn”,
no português algo como “mulhxr”. Consigna também que um estudo da King’s College
London sugeriu que nos documentos oficiais, como o censo, com vista a evitar celeumas
relacionadas a sexo/gênero, os formulários tivessem, por exemplo, a seguinte pergunta à
pessoa: “você menstrua?”, em vez de “você é mulher?”.33
Salienta O’Neill que “Quando alguém tão mundialmente influente quanto Michelle
Obama usa a palavra impronunciável “womxn”, como aconteceu nos “Stories” de sua conta
de Instagram, você sabe que não são só universitários malucos com tempo livre e cabelo
pintado de roxo que entraram no túnel da fluidez de gênero. Não, do mundo dos esportes
à política, do sistema judicial à burocracia estatal, a ideia de que o sexo pode ser alterado e
que a linguagem deve ser alterada para evitar que a minoria trans seja ofendida se tornou
a ortodoxia.”34
Esse contorcionismo e misoginia linguísticos acarreta sérias consequências para
o mundo real, pois, como o aludido jornalista observa, ao narrar casos de estupros de
“mulheres trans” contra mulheres lésbicas, sublinha que uma suposta vítima de estupro
32 Brendan O'NEILL: “A bandeira LGBTQIA+ se tornou um símbolo woke”. Disponível em: [Link]
-122/a-bandeira-lgbtqia-se-tornou-um-simbolo-woke/. Acesso em 28 jan.2024.
33 Brendan O'NEILL: “A guerra linguística contra as mulheres: como a palavra ‘mulher’ se tornou proibida na sociedade woke.”
Disponível em: [Link] Acesso em 28 jan.2024.
34 Brendan O'NEILL: “A guerra linguística contra as mulheres: como a palavra ‘mulher’ se tornou proibida na sociedade woke.”
Disponível em: [Link] Acesso em 28 jan.2024.
47
Cláudio Gonçalves Pacheco
relatou à BBC as circunstâncias do acontecido e se referiu o agressor por “ele” e “dele”.
Contudo, a BBC alterou os pronomes masculinos por pronomes neutros. Para O’Neill,
trata-se de uma questão bastante preocupante, pois, se uma emissora pública britânica se
preocupa mais em defender possíveis estupradores do que dizer a verdade, resta claro que
a neurose linguística tomou conta e a verdade foi posta em segundo plano.35
Como o movimento woke é um movimento globalista, essa linguagem “neutre” do
politicamente correto aportou-se no Brasil há um bom tempo, mas agora, com os políticos
do espectro ideológico de esquerda no poder, transborda todo o seu radicalismo. A Aliança
Nacional LGBTI+ e a Associação Brasileira de Famílias Homotransafetivas (Abrafh)
propuseram uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra a Lei 21.362/2023, do Estado
do Paraná, a ADI 7564, a qual proíbe o uso de linguagem neutra que contrarie as “... formas
de flexão de gênero e de número das palavras da língua portuguesa em contrariedade às
regras gramaticais nacionais.”36
Segundo as aludidas entidades, “... a linguagem neutra propõe a abolição das
terminações que indiquem gênero feminino ou masculino nas palavras, por considerá-las
“sexistas” ou “discriminatórias”. Ao invés de usar professor ou professora, por exemplo,
defendem o uso de “professore” ou “professor@” ou “professorx”.” Os linguistas, em
sentido oposto, observam “... a linguagem neutra pode ser um instrumento de desagrega-
ção social, em vez de inclusão, pois afeta negativamente deficientes visuais e cognitivos.”37
O escritor e analista político, Flávio Morgenstern, em seu artigo intitulado “A
linguagem ‘neutre’ não é ‘inclusive’ - e nem é uma linguagem”, observa que o uso da
linguagem neutra está sendo imposta no lugar da língua portuguesa por pessoas da elite
política, no marketing e em debates universitários autorreferentes. Todavia, só “... não está
na boca do povo”. Questiona o jornalista a legalidade de se usar essa língua artificial e
inexistente e se o governo pode oficialmente fazer o uso dela, pois é contrária à lei, à cultura
e à lógica. A polêmica acirra-se pelo fato não de se usá-la por ser uma língua neutra, mas
resta evidente que se trata de uma linguagem ideológica. Assim, quem escreve ou pronuncie
“eleites”, todes, amigxs, delus, deputad@s, com propósitos de inclusão, em verdade, não
só está mudando um significante por outro, mas, em realidade, está fazendo propaganda
política e de cunho totalitário, pois é top-down, que vem de cima para baixo, não orgânica,
35 Brendan O'NEILL: “A guerra linguística contra as mulheres: como a palavra ‘mulher’ se tornou proibida na sociedade woke.”
Disponível em: [Link] Acesso em 28 jan.2024.
36 Gabriele BONAT: Defensores da pauta LGBT pedem suspensão de lei que proíbe linguagem neutra no Paraná. Disponível em:
[Link]
busca. Acesso em: 15 Jan.2024.
37 Gabriele BONAT: Defensores da pauta LGBT pedem suspensão de lei que proíbe linguagem neutra no Paraná. Disponível em:
[Link]
busca. Acesso em: 15 Jan.2024.
48
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
mas inequivocamente refere-se a uma linguagem ideológica, com forte viés de imperialismo
cultural, tal qual se dão nas ditaduras.38
O culto à vitimização na cultura woke tornou-se tanto uma obsessão que todos
passam a pisar em ovos ao dialogar-se uns com outros, policiamos nossas falas no sentido de
saber quais pronomes a serem usados, quais palavras ou expressões podem ser ditas, bem
como quais figuras históricas podem ser ou não cultuadas, com o vigilante receio de sermos
acusados de preconceituosos. Esse desvario woke molda a nossa forma de comunicarmos
que empobrece o diálogo, vez que não podemos expressar certas ideias e pensamentos de
forma livre, sincera, ainda que sejam proposições genuinamente verdadeiras referendadas
por provas evidentes e substantivas. Não se pode mais expressar e compartilhar algumas
reflexões e opiniões, não importando o quão sinceras sejam a veracidade de seus argumentos,
se ofender qualquer perspectiva de vitimização progressiva, não podem ser ditas.
4.3 O MOVIMENTO WOKE E SUA PAUTA EM DEFESA DO FEMINISMO
INTERSECCIONAL
O conceito de interseccionalidade no movimento woke consiste na possibilidade
ou na constatação de determinada pessoa ocupar a condição de vítima em pelo menos duas
classes interseccionadas de discriminação, como raça, sexo, gênero, classe socioeconômica,
origem etc., seja por sofrer discriminação de raça e gênero ao mesmo tempo, raça e classe so-
cioeconômica, raça e sexo etc. O wokeísmo político atual, que a cultura woke denomina de
“pós-modernismo aplicado”, inicia-se com a interseccionalidade. Atribui-se à jurista afro-a-
mericana Kimberlé Crenshaw de criar o termo interseccionalidade, quando da publicação
de seus dois artigos em 1989 e 199139 40, ambos tiveram repercussão internacional, tornando
um ícone global.41
Nesse sentido, cabe mencionar as conexões entre a cultura woke e outros movimentos
ligados aos direitos civis, como o feminismo interseccional e os que dizem diretamente às
questões relacionadas à justiça social. A atitude woke de ser propugna por um permanente
38 Flávio MORGENSTERN: “A linguagem 'neutre' não é 'inclusive' - e nem é uma linguagem. Disponível em: [Link]
revista/edicao-149/a-linguagem-neutre-nao-e-inclusive-e-nem-e-uma-linguagem/. Acesso em 28 jan.2024.
39 O primeiro artigo de Kimberlé Crenshaw intitula-se “Desmarginalizando a interseção de raça e sexo: uma crítica do feminismo
negro à doutrina antidiscriminação, à teoria feminista e às políticas antirracistas”, que estuda os diversos casos de mulheres negras
que processaram grandes empresas americanas. O segundo, com o título de “Mapeando as margens. Interseccionalidade, políticas de
identidade e violência contra mulheres negras”, que faz um estudo de campo em abrigos para mulheres vítimas de espancamento,
situados em comunidades minoritárias, na cidade de Los Angles. (Cf. Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition).
La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 135.)
40 Ange-Marie Hancock, considerada uma das mais atuais historiadora do movimento interseccional, alega que o surgimento do
pensamento interseccional ocorreu bem antes dos artigos publicados por Kimberlé Crenshaw. Na realidade, em sua perspectiva, o débito
da interseccionalidade para com o pós-modernismo teve influência considerável muito antes das obras de Foucault, Deleuze, Derrida e
Jameson. (Cf. Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 144.)
41 Jean-François BRAUNSTEIN. La religión Woke (Spanish Edition). La esfera de los Libros, S.L.. Edição do Kindle, p. 134-140.
49
Cláudio Gonçalves Pacheco
estado de alerta e de consciência crítica frente às injustiças sociais, ao tratamento isonômico
de condições e a busca constante pela dignidade da pessoa humana. Trata-se de uma visão
de mundo que incita as pessoas historicamente marginalizadas a terem consciência de suas
condições de vida, da forma desigual e injusta e de opressão sistêmicas vividos pelos grupos
minoritários. E, uma vez estando cônscios dessa situação, incentiva à tomada de posição
contínua por justiça e de contestação e mudança do status quo vigente.
Nessa perspectiva de postura, o feminismo interseccional, como extensão do
movimento feminista, busca evidenciar as inúmeras formas de opressão relacionadas à
sexualidade, ao gênero, à raça e à classe social. Desta forma, o feminismo interseccional visa
demonstrar que as várias discriminações negativas se inter-relacionam na vivência humana,
compartilhando com o movimento woke o seu propósito de contestação contra todo tipo de
opressão e desigualdade.
Como observado acima, o movimento woke tem se desenvolvido com o acolhimento
de diversas questões de cunho progressista, tais como o feminismo interseccional, meio
ambiente equilibrado, tutela dos direitos LGBT+ e outras, ainda que essas questões sejam
reconhecidas a sua importância por outras perspectiva ideológica de cunho liberal conserva-
dora. Contudo, a ideologia progressista sofre forte influência do pensamento pós-moderno
e às análises críticas relacionadas às questões de raça e gênero. Todavia, sobram críticas ao
movimento por advogar uma postura de intransigência às opiniões dissonantes e cultivar
um ambiente de cancelamento que desestimula a liberdade de discussão.
O woke, como assaz argumentado, caracteriza-se por um sistemático combate a
opressão de sexo e gênero e propugna pela inclusão de todas as representações sociais mar-
ginalizadas. Assim, obviamente, não poderia deixar de fora a tutela dos direitos sexuais das
mulheres e o movimento feminista em geral.
Para o movimento feminista, as questões de classes consistem em fonte primacial
de opressão para com as mulheres e que a cultura woke de forma relevante tem contribuído
para atrair a atenção da sociedade no sentido de conscientizá-la de suas reivindicações.
Contudo, quando o woke centra demasiado na desconstrução de gênero e em grupos iden-
titários, a luta pelas liberdades sexuais das mulheres fica comprometida.
Um caso emblemático do ativismo woke em defesa do movimento feminista, que
ganhou repercussão internacional, trata-se da entrevista realizada pela jornalista Helen
Lewis com o pensador, psicólogo (clínico e acadêmico) e escritor Jordan B. Perterson,
best-seller internacional do livro “12 regras para a vida; um antídoto para o caos”.42 Jordan
42 Jordan Peterson debate com uma feminista acerca do seja o patriarcado”. Disponível em: [Link]
xA3Bsis
50
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
desmitificou a tese falaciosa que a sociedade é dominada pelo sexo masculino, argumentan-
do com base em dados estatísticos, observa que as feministas se apegam a uma amostragem
ínfima e seletiva de homens de sucesso como representando o todo da sociedade, mas que,
em realidade, esses dados são superiores tanto em relação às mulheres quanto a grande
maioria de homens.
Na entrevista a feminista Helen Lewis observa que, no seu entendimento, o
Patriarcado consiste num sistema de dominância masculina sobre a sociedade. Jordan
Pertenson indaga a entrevistadora: “Bem, sob qual aspecto a nossa sociedade é dominada
pelos homens?” A entrevistadora responde que a maior parte da riqueza e de capital pertence
aos homens, bem como a maioria do trabalho não remunerado é destinada às mulheres.
Jordan Perterson contra-argumenta a entrevistadora alegando que essa proporção é ínfima,
insignificante. Peterson sustenta que uma grande parte das pessoas que passa necessidade
são homens; que a maioria das pessoas na prisão são homens; a maioria dos moradores
de rua são homens; a maioria das vítimas de crimes violentos são homens; a maioria dos
suicidas são homens; a maioria das pessoas que morre em guerras são homens; e que os
homens estão com desempenho pior nas escolas. E questiona, “... onde está a dominância,
precisamente falando?” Peterson observa à entrevistadora que a construção de sua tese
feminista está se atendo a uma ínfima amostra de homens bem-sucedidos e usando dessa
afirmação que a estrutura inteira da sociedade ocidental seja assim, mas nada disso tem
correspondência com a realidade.43
Em reforço à tese de Jordan Peterson, Ana Caroline Campagnolo, professora, his-
toriadora e Deputada Estadual por Santa Catarina, observa que é raro encontrar mulheres
desempenhando trabalhos árduos e perigosos, prestando serviços em canteiros de obras,
extração vegetal, aterros sanitários, plataformas de petróleo, usinas nucleares e diversas
outras atividades. Sustenta ainda que, em realidade, o que se vê são privilégios femininos,
como o da dispensa de irem à guerra, que, na sua concepção, que é o suprassumo dos pri-
vilégios.44
No próximo capítulo, parte-se para as últimas reflexões levantadas neste trabalho
em relação à cultura woke, dentre tantas outras existentes e que também despertam bastante
interesse e reflexões por estarem repletas de controvérsias45, mas por questões outras
deixaram de ser discutidas aqui, todavia, noutra oportunidade, podem vir a ser debatidas.
Assim, disserta-se sobre a influência do movimento woke no meio acadêmico e educacional;
43 Jordan Peterson debate com uma feminista acerca do seja o patriarcado”. Disponível em: [Link]
xA3Bsis
44 CAMPAGNOLO, Ana Caroline. Guia de bolso contra mentiras feministas. Campinas, São Paulo: Vide Editorial, 2021, p. 12. (Edição
do Kindle.)
45 A título exemplificativo, cite-se a questão da cultura woke versus religião.
51
Cláudio Gonçalves Pacheco
a questão do vitimismo em colisão com a valorização do mérito; e, ao final, a questão do
sequestro do movimento woke pela política progressista.
52
CAPÍTULO 5
REPERCUSSÕES NEGATIVAS ATRIBUÍDAS AO
MOVIMENTO WOKE
Cláudio Gonçalves Pacheco
N este aparte, discute-se acerca do quanto o movimento woke foi desnaturado
de seus pressupostos iniciais, o que de certa forma algumas questões desse
jaez já foram discorridas en passant nos tópicos precedentes, mas que agora se detém com
mais afinco nas reflexões sensíveis que essa onda político-ideológica se envolveu e que,
muito embora se reconheça sua importância para o despertar de uma consciência crítica
em relação às contínuas injustiças socioeconômicas, tem sido alvo de contundentes e
ponderáveis críticas na forma como o movimento tem evoluído.
5.1 INFLUÊNCIA DA CULTURA WOKE NO MEIO ACADÊMICO E
EDUCACIONAL COMO UM TODO
A liberdade de discussão acadêmica consiste no princípio de ouro para o aprimora-
mento intelectual e contínuo evoluir do pensamento científico para a sociedade. Todavia, o
movimento woke, com sua cultura de cancelamento, com seu fomento ao vitimismo e isola-
cionismo tribal, pode está dando um golpe fatal na liberdade de pensamento e na livre ma-
nifestação de ideias. O que se constata de uns tempos para cá, é que as instituições de ensino
superior, idealizadas como um ambiente de liberdade de opiniões, lugar de livro fluxo de
pensamento e de combate ao obscurantismo, notadamente ao religioso, deram a luz recente-
mente, entre o crepúsculo do século XX e as primeiras décadas do XXI, uma religião tão ou
mais hermética do que aquelas que visavam combater, a saber: a religião woke.1.
Tanto Karl Popper quanto Thomas Kuhn2, epistemólogos do conhecimento científico,
são unânimes em dizer que o discurso científico não é uníssono, portanto, sobretudo para
Popper3, a bem do próprio progresso da ciência, os resultados científicos devem estar sempre
sob testes de verificabilidade e falseabilidade. Assim, de forma analógica, toda e qualquer
reflexão sócio-político-econômio e cultural posta em discussão nas academias devem estar
sendo sempre avaliada sob o escrutínio dos mais distintos stakeholders4, com vista à contínua
depuração e refinamento de seus resultados.
Contudo, docentes e discentes, que não se perfilham à cartilha woke, são discri-
minados, estigmatizados, perseguidos, quando não expulsos/jubilados das instituições de
ensino superior. O linguista negro John McWhorter descreve de “Medievais que vão ao
1 Jean Marcel Carvalho França: Wokismo: uma religião universitária? Disponível em: [Link]://[Link].
br/opiniao/artigos/wokismo-uma-religiao-universitaria/?ref=busca. Acesso em 05 Fev.2024.
2 Thomas KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. – São Paulo,
Perspectiva, 2009, p. 9-123.
3 Karl POPPER. Conjeturas e refutações. Trad. Benedita Bettencourt. Coimbra: Almedina, 2006, p. 1-96.
4 Stakeholder: “é uma pessoa ou grupo que possui participação, investimento ou ações e que possui interesses em uma determinada
empresa ou negócio. O inglês stake significa interesse, participação, risco. Enquanto holder significa aquele que possui. Stakeholder também
pode significar partes interessadas, sendo pessoas ou organizações que podem ser afetadas pelos projetos e negócios da empresa. Como
exemplos de stakeholders imaginamos que estes estão relacionados aos projetos, e por isto, seriam gerentes, o patrocinador, a equipe e o
cliente do projeto em questão, mas na prática, existem diversas outras partes interessadas, dentre as quais podemos citar: concorrentes,
fornecedores e investidores, por exemplo.” Esse conceito de stakeholder foi extraído do Portal Administração - Tudo sobre administração.
Disponível em: [Link] Acesso em: 29 jan.2024.
54
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
Starbucks” de devotos da seita woke, que “... repetem dogmas, expulsam hereges e rejeitam
a razão, uma religião que está se tornando imposta pelo estado, universidades e corporações
do Ocidente, apesar de ser rejeitada pela maioria dos cidadãos”5.
Segundo denuncia o jornalista norte-americano Michael Shellenberger, a reitora de
Harvard, Claudine Gay, notabilizou-se nesta instituição de ensino superior ao desenvolver
uma espécie de linguagem de manipulação. Gay desenvolveu e supervisionou a criação
de um “Glossário de Termos de Diversidade, Inclusão e Pertencimento (DIB) ... para servir
como ponto de partida para comunicação e aprendizado”. O propósito visou estabelecer
limites entre docentes e discentes acerca das formas adequadas e inadequadas de pensar,
iguais às denunciadas por George Orwell no “novilíngua” e “crimepensamento”. Esse
glossário orienta os professores e alunos de Harvard no sentido de quais são os modos
corretos e incorretos de pensar e falar. O radicalismo das ideias é extremo, embora, como
os corifeus woke defendem, o conteúdo do glossário é claro e objetivo ao afirmar que não
há espaço para discussão, seus preceitos devem ser obedecidos sem qualquer possibilidade
de debate acerca de seus postulados. O glossário propugna por uma hierarquia racista e
sexista, onde as “vítimas” desfrutam de uma superioridade moral aos seus “opressores”,
e os dois grupos de “vítimas” e “opressores” são apartados e estabelecidos em função da
raça, sexo e outros determinantes genéticos. O totalitarismo woke do glossário de Harvard,
uma das instituições mais exclusiva do mundo, demoniza o mérito, o capacitismo, sendo
promotora de ideias acientíficas de “apropriação cultural”.6
Shellenberger consigna que os ativistas e líderes woke, nas instituições de elite
que lecionam, atuam sob o domínio de um dogma antissocial que é desumanizante, que se
servem de uma linguagem esotérica falsa que manipulam emoções e pessoas. Observa que,
num nível interpessoal, a melhor forma de lidar com esses ativistas narcisistas é ignorá-los.
Acresce que aqueles que, ainda não foram contaminados por esses comportamentos anti-
liberais, hipócritas e irracionais da cultura woke, devem envidar esforços argumentativos
no sentido de um “... retorno aos padrões educacionais clássicos liberais, incluindo merito-
cracia, liberdade de expressão e pluralismo, ou o que hoje é chamado de “diversidade de
pontos de vista”.7
5 Kyle Smith: As “beatas” da religião woke. Disponível em: [Link]
as-beatas-da-religiao-woke/?ref=busca. Acesso em: 05 Fev.2024.
6 Michael Shellenberger: Mentiras monstruosas: Harvard, New York Times e associações científicas sucumbem ao identitarismo.
Disponível em: [Link]
cas-sucumbem-ao-identitarismo/?ref=busca. Acesso em 07 Fev.2024.
7 Michael Shellenberger: Mentiras monstruosas: Harvard, New York Times e associações científicas sucumbem ao identitarismo.
Disponível em: [Link]
cas-sucumbem-ao-identitarismo/?ref=busca. Acesso em 07 Fev.2024.
55
Cláudio Gonçalves Pacheco
O movimento woke, tomado por um senso monopolista de defesa da justiça social
e de defesa dos direitos humanos, sobretudo das minorias, advoga como o único a ter um
discurso autêntico para tratar de questões complexas e sensíveis relacionadas aos direitos e
garantias fundamentais. Qualquer posição contrária à sua perspectiva de visão de mundo
em relação a essas pautas é considerada como atentatória à incolumidade desses valores
e, não raras vezes, tacha as pessoas que têm entendimentos diversos de preconceituosas e
logo promove o cancelamento ou o ostracismo social e a ridicularização das pessoas que
ousarem discordar do paradigma woke.
Nos centros acadêmicos, esse radicalismo do movimento woke provoca consequên-
cias danosas para o progresso do conhecimento científico e do nível intelectual sadio de toda
sociedade, que pode levar anos para serem revertidas para um ponto de centro da sensatez.
Essa forma de agir da grei wokeísta impossibilita a plurimanifestação do pensamento que
enriquece o debate acadêmico e promove o empobrecimento da liberdade de pesquisa, na
medida em que os projetos de extensão e pesquisa são só admitidos se estiverem alinhados
com a temática e visão delas com modo de pensar wokeísta, menoscabando a imparcialida-
de, a lisura e transparência na escolha das melhores proposta de estudo e pesquisa.
O professor de Filosofia e Psicologia na Universidade Federal de Juiz de Fora,
Gustavo Castañon, observa que o aprimoramento do discurso woke de “combate às
opressões e ao preconceito” tem o condão de intimidar professores covardes que se curvam
a essa prática fascista de ameaçá-los com o desprezo e a desonra social, embora esses
docentes entendem que a universidade pública é o ambiente para a produção e difusão do
conhecimento, ainda que o silêncio e a inércia têm destruído com a concessão de bolsas de
estudos a discentes pobres e capazes, “... passando a concedê-las em proporções cada vez
maiores àqueles alunos “oprimidos”, que por coincidência são os que entram na universi-
dade para fazer política com eles e para reproduzir essa fábrica irrelevante de papel sujo e
lamento ressentido. Armados com esse discurso, alunos incapazes de executar uma mísera
operação lógica ou formular adequadamente um argumento se tornam pessoas dotadas de
uma “lógica diferente” perseguidas pela “elite branca e eurocêntrica”.8
O que não é aceitável no estudo científico é admitir que seus resultados sejam aceitos
como dogmas e que não possam ser submetidos ao crivo da verificabilidade, do contrário,
seus resultados seriam aceitos por fé e se tornaria religião e não ciência. Toda a comunidade
acadêmica, sobretudo o corpo discente, é prejudicada nessa performance cultural, uma vez
que não lhe são disponibilizadas outras perspectivas de pensamento, estreitando o horizonte
8 Gustavo CASTAÑON: Universidade pública: Os wokes e o complexo de Sherazade. Disponível em: [Link]
[Link]/opiniao/artigos/os-wokes-e-o-complexo-de-sherazade/?#success=true. Acesso em 07 FEv.2024.
56
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
cognitivo acerca do tema sob investigação científica, o que desfavorece um ambiente de
debate crítico sobre o assunto, formando acadêmicos com uma visão parcial e distópica
acerca do mundo real.
Nessa conjuntura segregacionista da cultura woke em que se encontram as insti-
tuições de ensino superior, que inibe a promoção de um debate franco, aberto e honesto,
reconhece-se que tanto a comunidade universitária e a sociedade de que dela depende têm
um desafio ingente a ser enfrentado para a promoção de um verdadeiro e salutar progresso
da pesquisa científica e da formação intelectual eclética para toda a comunidade interessada
no progresso do conhecimento humano.
A busca de um equilíbrio na forma como as questões são discutidas, como os
dilemas socioeconômicos e a cultura no ambiente acadêmico se faz premente, com vista à
promoção e tutela dos direitos humanos para todos e não só para determinadas parcelas
da sociedade, de sorte a possibilitar a liberdade de pensamento e a livre manifestação de
ideias, garantindo um convívio harmônico entre as perspectivas do saber no ambiente uni-
versitário e consequentemente uma produção acadêmica diversificada e dinâmica, criando
as condições indispensáveis para que todas as diferentes vozes sejam ouvidas e toda a ma-
nifestação do pensamento sejam verificada e sustentada a sua robustez, sua validade ou
invalidade do estudo científico sob discussão.
Os princípios e valores de repúdio às injustiças sociais, a desigualdade socioe-
conômica, as discriminações de raça, gênero, origem alavancados pela cultura woke têm
ganhado bastante capilaridade popular que transcendem as fronteiras da consciência social
e política. No âmbito educacional, sobremodo na promoção de elevar o nível ético-moral da
sociedade e na transformação da consciência crítica e independente das pessoas, verifica-se
que o movimento woke tem tido influência na formulação da grade curricular do ensino
superior e nos programas educacionais como um todo9.
O que se percebe nas instituições de ensino superior, com acentuado destaque para
as públicas, ao invés de se prestigiar a liberdade de ensino para os acadêmicos, com vista a
estimularem a tirar suas próprias conclusões e reflexões acerca das questões socioeconômica
e cultural em voga, doutrina-os a fixarem presos a uma gaiola teórica e ideológica predeter-
minada, com suas crenças e cultos preconcebidos, que se aproximam de dogmas, profissão
de fé, distanciando-os da verdadeira ciência, que é plural, em contínuo aperfeiçoamento
de seus resultados. Dessa forma, o que se verifica é a uma formação acadêmica que não
9 Gabriel de Arruda CASTRO: Feminismo, desconstrução e ideologia de gênero: a nova agenda da Unesco para a educação.
Disponível em: [Link]
nesco-educacao/?ref=busca. Acesso em: 13 Jan.2024.
57
Cláudio Gonçalves Pacheco
possibilita o desenvolvimento de um intelecto crítico e construtivo que todo meio univer-
sitário deveria proporcionar e fomentar aos discentes e a toda comunidade universitária10.
As universidades e as faculdades ao redor do mundo têm considerado a relevância
de se inserir nos currículos temas relacionado à discriminação racial, de gênero e sexual,
bem como questões relacionadas às disparidades socioeconômicas. É inconteste que o
ambiente universitário e estudantil em geral não poderiam passar ao largo dessas questões
que há muito tem causado perturbações sociais e gerado grandes injustiças, oportunizando
o debate franco, sincero e honesto no meio acadêmico.
O acirramento dessa forma de agir com o monopólio do discurso acarreta a morte
do mérito acadêmico e compromete a evolução intelectual dos universitários. A excelência
de resultados no ensino superior deve ser um fim a ser almejado, contanto que os meios
a serem utilizados, seja através da inclusão social, do combate às desigualdades socioe-
conômicas e do repúdio às microagressões, não podem ser perseguidos com o sacrifício
do mérito acadêmico, porque significaria a própria morte do progresso técnico-científico,
ético-moral, cultural e espiritual da humanidade, perdendo o sentido e o a razão de ser do
ambiente acadêmico.
A procura por um contínuo equilíbrio entre os princípios e valores que o movimento
woke busca conscientizar e a promoção de outros princípios tão importantes quanto, como
a liberdade de expressão, a livre manifestação do pensamento e de ideias, é o norte a ser
seguido. Um ambiente acadêmico sadio, onde vicejam o convívio harmônico e salutar entre
concepções divergentes, ambas mutuamente inclusivas e visam o bem-estar e o progresso
humano, seja em sua dimensão física, seja em sua dimensão intelecto-espiritual, promove o
intercâmbio de saberes e conhecimentos, que auxilia na solução de problemas e no fomento
às inovações decorrentes das interações interpessoais entre distintos sujeitos, que possibilita
na formação acadêmica, profissional e cidadã dos discentes e docentes envolvidos, bem
como de toda a sociedade.
5.2 O VITIMISMO EM COLISÃO COM A VALORIZAÇÃO DO MÉRITO
Verifica-se nessa onda do movimento woke que todos têm uma condição de vítima
para dizer que é sua. Dentre as várias reflexões suscitadas em sua obra “Nation of Victims:
Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence”, no tocante ao estado
de vitimização generalizado, Ramaswamy observa que todos têm uma história de oprimido
10 Anamaria CAMARGO: Concorrência na formação docente: mais capacitação, menos doutrinaçãoÉ preciso acabar com o monopólio
do MEC sobre a formação e certificação docentes; a concorrência entre diferentes currículos formará professores mais capacitados.
Disponível em: [Link]
trinacao-ep351sdgrnuzan3xucs81i8xm/?ref=busca. Acesso em: 13 Jan.2024.
58
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
e uma história de vítima para ser alegada. Oprimidos e vítimas são primos próximos e que
concorrem entre si, sendo fácil transitar de um estado para outro. Padece dessa loucura
contemporânea tanto progressistas quanto conservadores e todas as demais classes de
vítimas e oprimidos. Contudo, há uma sutil e fundamental distinção entre o oprimido e a
vítima no enfrentamento de suas condições. O oprimido combate e supera as forças contra
si mobilizadas, enquanto a vítima convence os outros para que supere pra si as suas ad-
versidades. O oprimido quer provar pra si mesmo que é capaz de vencer por si mesmo as
adversidades; ao passo que a vítima exige às pessoas a sua volta que cuidem de suas difi-
culdades.11
Oportuno transcrever as sempre recorrentes palavras atribuídas ao Xeque Rashid
bin Saeed AI Maktoum, o fundador de Dubai, que muito se assemelha à realidade de boa
parte das sociedades ocidentais:
Meu avô andava de camelo, meu pai andava de camelo, eu andava de Mercedes,
meu filho andava de Land Rover, e meu neto vai andar de Land Rover, mas meu
bisneto vai ter que andar de camelo novamente. Tempos difíceis criam homens
fortes, homens fortes criam tempos fáceis, tempos fáceis criam homens fracos e
homens fracos criam tempos difíceis.12
Essa narrativa histórica, que mais reflete uma máxima popular, calha como uma
luva no dilema hoje vivenciado na jornada enfrentada entre o oprimido e a vítima.
Tanto nos EUA quanto nos demais países do Ocidente, guardadas as suas devidas
proporções, a expectativa de vida das pessoas aumentou desde o século XIX pra cá13. Nos
EUA, 43% das famílias pobres possuem dois ou mais carros. Cada casa norte-americana
possui pelo menos uma TV conectada à Internet, um computador ou tablet conectado à
Internet e um smartphone. Aproximadamente, 82% das famílias pobres norte-americanas
têm um ou mais smartphones14. Nos EUA, nenhuma família teve um membro que passou
fome. Quase todos norte-americanos têm seguro saúde, podendo obter cuidados médicos,
quando houver necessidade.15
Contudo, toda essa prosperidade dos norte-americanos e a considerável parcela das
pessoas do Ocidente, guardadas as devidas proporções, podem se dar o luxo de sentirem
vítimas interseccionais e ao invés de serem oprimidas. Nossos ascendentes dos séculos XIX
e XX tinham que se preocupar com a sobrevivência e a construção de um mundo melhor
11 Ibid. p. 18-19.
12 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 21). Center
Street. Edição do Kindle, p. 20.
13 No Brasil, a expectativa de vida para homens e mulheres é respectivamente 72 e 79 anos. (Cf. IBGE: “Em 2022, expectativa de
vida era de 75,5”. Disponível em: [Link]
38455-em-2022-expectativa-de-vida-era-de-75-5-anos. Acesso em 01 Fev.2024.)
14 A Internet já é acessível em 90% dos domicílios brasileiros. O número de domicílios que tinha telefone móvel celular aumentou de
94,4% para 96,3%, no período de 2019 para 2021. (Cf. IBGE: Informações atualizadas sobre tecnologia da informação e comunicação.
Disponível em: [Link]
-[Link]. Acesso em 01 Fev.2024.
15 Ibid. p. 21.
59
Cláudio Gonçalves Pacheco
para seus descendentes. Atualmente, estamos focados em nos preocupar com as microagres-
sões, enquanto nossos antepassados estavam preocupados mais com a própria subsistência
premente do dia-a-dia. Quando a obsessão das gerações hodiernas com as microagressões
passa a ser tudo o que se tem para conhecer e discutir, elas se avultam e se tornam agressões
ordinárias. Hoje, a “Geração Mimimi”, no dizer de Luiz Felipe Pondé16, preocupa-se com o
uso de pronomes neutros, desinência de adjetivos e substantivos neutros para evitar ofender
determinado grupo identitário, enquanto muitas pessoas em volta do mundo a fome é real,
sendo a preocupação central em suas vidas indignas.
Vivek Ramaswamy, com muita propriedade, sustenta que essa política identitária
cresce quando as pessoas se reconhecem pertencentes a uma identidade tribal por conta
da ausência de uma identidade nacional. Observa que, na década de 1970, um grupo de
estudiosos de esquerda sobre o direito, denominado “Estudos Jurídicos Críticos”, sustentava
que o direito, na verdade, nada mais era do que uma política dissimulada, uma forma dos
donos do poder, os fortes, controlarem e subjugarem os fracos.17
Ramaswamy observa que há uma tendência de se criar identidades grupais, com
suas respectivas mentalidade de vitimização e, na maioria das vezes, são queixas legítimas
e suas agruras e dificuldades são reais. As pessoas que são conscientes de suas dificuldades
devem procurar encontrar qual a melhor forma de superar essa situação adversa, mas para
os vitimizados hodiernos procurarem um opressor é muito mais confortável ou atribuírem
a essa ou aquela pessoa as suas desventuras. A mentalidade de vítima criada pela cultura
woke é que os vitimados procuram um inimigo para punir; ao passo que a mentalidade
de um oprimido busca dentro de si quais as opções de saídas possíveis, encontráveis no
mundo, que possam mudar para melhor aquilo que causa opressão.18
Ramaswamy pondera que, quando a pessoa concebe as adversidades ou males do
mundo como sendo decorrentes das estruturas hierárquicas de poder, como os teóricos
críticos da raça fazem, colocando os brancos no topo da pirâmide, seguidos pelos asiáticos,
depois pelos latinos e, na base, estando os negros e nativos, essa pessoa tende a pensar e
agir no sentido de que a saída melhor a ser realizada será a de inverter o sentido da escada
de opressão, colocando-a de cabeça para baixo. E essa forma de raciocinar e se comportar
vale também para as hierarquias de empregador x empregado, heterossexual x LGTBT+,
homem x mulher etc. A tendência natural não é envidar esforços para eliminar ou mitigar a
hierarquia existente, mas invertê-la. Se a lógica de ação é atacar a discriminação com outra
16 Luiz Felipe PONDÉ: “Geração Mimimi”. Disponível em: [Link] Acesso em: 05
Fev.2024.
17 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 4). Center
Street. Edição do Kindle, p. 54-83.
18 Ibid., p. 112-113.
60
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
discriminação, que jamais chegará a um ponto sensato de harmonia, você é levado a crer
que a justiça só é possível atravessando o rubicão ético-moral, ultrapassando limites com
fraturas morais e até mesmo legais.19
Immanuel Kant defendeu uma máxima ética, como um imperativo categórico, que
deveria ser empregada para todas as pessoas, tempos e lugares, qual seja: “Aja de modo
a tratar a humanidade, seja em sua própria pessoa ou na de qualquer outro, sempre e ao
mesmo tempo como um fim, e nunca meramente como um meio.”20 Isto é: “... nunca use um
ser humano como um mero meio para atingir um fim; nem mesmo se use como um mero
meio para atingir um fim.”21 O que se observa então nos complexos de vitimização é que os
ativistas do woke, quais sejam, vítimas negras, vítimas brancas, vítimas indianas, vítimas
de gênero, vítimas de origem, vítimas progressistas, vítimas conservadoras, estão usando
suas próprias dores como um simples meio para alcançar um fim, o que atenta contra o
imperativo categórico kantiano citado.
No referido imperativo categórico de Kant não se extrai dele que só sirva para corrigir
distúrbio ético-morais ou mazelas mentais de outras pessoas, mas também é aplicável para
os próprios problemas que uma pessoa possa ter. Assim, nos complexos de vitimização,
sob a perspectiva kantiana, a pessoa, que usa a sua condição de vítima para atingir um fim
financeiro ou obter empoderamento, usa a sua própria condição de ser humano como um
meio para se chegar ao fim almejado. Desse modo, essa pessoa trata indignamente a si
própria como pessoa humana, ao mercantilizar a sua própria dor. A pessoa que se vê como
vítima e requer que outras pessoas assim a vejam, em verdade, está desrespeitando a sua
própria humanidade.22
O complexo de vitimização se encaixa no comportamento preguiçoso como uma
luva. Dessa maneira, quando se verificam os argumentos de políticos e ativistas pro-
gressistas em prol do perdão dos empréstimos estudantis, para não revelar o verdadeiro
incentivo cru e nu à preguiça, eles usam o subterfúgio da narrativa de vitimização, seja o
racismo sistêmico ou qualquer outro sentimento de injustiça sistêmica. O que parece ser
uma proposta política nobre, na realidade, esses políticos estão defendendo o seu próprio
interesse para subsistir politicamente.23
19 Ibid., p. 148-150.
20 Frederick COPLESTON . Uma história da filosofia, vol. 3: do iluminismo francês a Nietzsche. Trad. Eduardo Levy, Lucas Bernardes,
Pedro de Almeida, Ricardo Harada e Ronald Robson - Campinas, SP: Vide Editorial, 2022, p. 303.
21 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 4). Center Street. Edição do
Kindle, p. 150.
22 Ibid., p. 150-153.
23 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 4). Center
Street. Edição do Kindle, p. 158-166.
61
Cláudio Gonçalves Pacheco
Estudos desenvolvidos por Thomas Piketty, realizados com dados extraídos nos
últimos dois séculos, dão conta que a taxa de retorno do capital investido gira em torno
de 5 por cento, em contrapartida o crescimento do PIB (taxa de crescimento econômico)
que é consideravelmente menor. Esse distanciamento crescente de riqueza perpetua-se com
a herança, dando origem à formação de uma oligarquia informal. Para tentar deter essa
disparidade, que acarreta desigualdade, Piketty sugere a atuação de duas forças principais:
a primeira, a redistribuição deliberada da riqueza pelo governo e, a segunda, com o
crescimento econômico elevado. Ao final de seu estudo, Piketty, que com a simpatia dos
progressistas, defende uma maior tributação sobre a riqueza, notadamente sobre a herança.24
Vivek Ramaswamy observa que os estudos realizados em humanos e nos animais
evidenciaram que não é a desigualdade em si que as pessoas se opõem, mas sim a desigual-
dade injusta. Se houvesse uma política pública que garantisse a igualdade de oportunida-
des para todos os cidadãos, haveria um sentimento de justiça entre as pessoas, ainda que
houvesse desigualdade de riqueza.25
Os estudos de Piketty constataram que o retorno da taxa de investimento de capital
continuaram crescendo mesmo com a desaceleração do crescimento econômico, nas últimas
décadas, o que não soube explicar porque isso se deu assim. Isto é, naturalmente, a desace-
leração da economia deveria vir com uma diminuição do retorno da taxa de investimento de
capital. Ramaswamy dá a sua resposta atribuindo à ocorrência, no final da década de 1990 e
no período pós-2008, de uma política monetária branda aliada a uma política fiscal graciosa,
com financiamentos governamentais para aquisição de moradias na década de 2000, que
consistiram em fatores decisivos para o fenômeno da continuação de altos retornos de
aplicações sobre o capital e com o minguado crescimento econômico. Esse artificialismo da
política monetária inflacionou os ganhos de capital dos ricos sem repercussão no aumento
da produtividade.26
Esse cenário de desigualdade econômica injusta acirra-se com a cultura da preguiça
e da vitimização, com as pessoas concorrendo entre si para obterem mais benefícios gover-
namentais,27 com isso o crescimento econômico descamba para uma vertiginosa queda. A
cultura da vitimização do movimento woke, onde cada grupo de vítimas reivindica para
si maior parcela do bolo, acelera a desigualdade de riqueza, ao invés de ter a atitude de
oprimido e fazer o bolo crescer.28
24 Vivek Ramaswamy. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 21). Center Street.
Edição do Kindle, p. 176 e s.
25 Ibid., p. 177 e s.
26 Ibid., p. 178 e s.
27 De forma análoga ao que observa Vivek Ramaswamy, aqui no Brasil, tem-se o programa bolsa família, auxílio presidiário, tudo que
estimula a preguiça, ao invés de incentivar as pessoas a trabalharem.
28 Vivek Ramaswamy. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 21). Center Street.
Edição do Kindle, p. 179 e s.
62
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
A meritocracia é um valor positivo ou negativo? É um valor positivo, mas a meri-
tocracia contém um paradoxo que precisa de correção para que seja isento de críticas, haja
vista que, se não for corrigido, ela guarda sementes de sua própria destruição. Mas essa
correção não deve ser a sugerida por John Rawls em sua teoria da justiça.
A genialidade de John Rawls postulou uma forma de rejeitar a meritocracia e, ao
mesmo tempo, usufruir de seus benefícios. Isto é, em sua teoria da justiça, estende uma
mão para o capitalismo e outra para o comunismo, que se transformou no capitalismo pro-
gressista da ideologia de esquerda. Rawls parte da premissa anticapitalista que, por mais
que uma pessoa trabalhe arduamente e detenha uma habilidade singular, isto não lhe dar o
direito ou justifique que tenha mais posses do que outras pessoas. As posses adquiridas de
seu árduo esforço ou de seu talento natural só serão justificáveis se você fizer a distribuição
dos frutos de seu trabalho com as pessoas que estão em pior situação.29
Os políticos de esquerda têm uma verdadeira obsessão pelo imposto progressivo
sobre a riqueza. Embora não será demonstrado aqui, visto que não é a proposta da discussão,
mas essa política tributária dos progressistas mais a ruína a vidas dos miseráveis que querem
melhorar e só aumentaria mais a riqueza daqueles que querem tributar.
O paradoxo da meritocracia pode ser corrigido com base na primeira proposta de
Thomas Piketty e não na sua segunda proposta. A primeira, recomendável, é a que cria
impostos sobre a herança. A segunda, é condenável, pois propõe tributar a riqueza dos
esforçados e talentosos, ou seja, prestigia o mérito das pessoas punindo-as. A livre trans-
ferência de bens, riquezas num sistema baseado na meritocracia dará ensejo à criação de
uma desigualdade injusta, pois não é justo que os filhos, que não contribuíram com um
centavo sequer pelo que herdaram, isto é, não merecedores, recebam tudo o que os pais por
seus próprios talentos e esforço conquistaram. Nesse cenário de transferência livre, cria-se
aristocracia hereditária que corrói a igualdade de oportunidades que é vital para uma me-
ritocracia sadia.30
Thomas Piketty defende um imposto global sobre a riqueza de 90% sobre todos os
ganhos de investimento de capital acima de um milhão de dólares. Essa proposta causaria
uma quebra generalizada no mercado, que infligiria mais danos à classe média e aos pobres
do que aos ricos. Se essa proposta viesse acontecer, os ricos diminuiriam os valores de seus
bens patrimoniais, pois são avaliados subjetivamente, e ocultariam seus bens financeiros,
causando uma crise financeira que diminuiria a capacidades das empresas levantarem
empréstimos para seus empreendimentos; as pessoas simples com aplicações em bolsas,
29 John RAWLS. Uma teoria da justiça. Trad. Almiro Pisenta e Lenita M. R. Esteves. – São Paulo: Martins Fontes, 1997.
30 Thomas PIKETTY. O capital no século XXI. Trad. Mônica Baumgarten de Bolle. 1ª ed. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.
63
Cláudio Gonçalves Pacheco
que são as maiores, teriam que amargar com os seus investimentos em queda livre. Só para
ficarmos nessas duas consequências, mas os desastres dessa política tributária de Piketty
seriam de proporções catastróficas.31
É bem verdade que Thomas Piketty e Emmanuel Saez concordam que John Rawls
foi longe demais na penalização do mérito, pois sustentam que as pessoas merecem lucrar
com seu trabalho e com o seu talento natural.32
A proposta de Vivek Ramaswamy é a mais sensata, racional e viável, mas que
esqueceu de colocar em sua equação o fator corrupção. Peketty, em sua pesquisa, defende
um imposto com alíquota de 59% sobre heranças e propriedades, o que é aceitável para
Ramaswamy. Este, de forma correta, observa que a meritocracia estaria salva de sua
degeneração em aristocracia com desigualdade injusta se fosse desenvolvida uma política
tributária que aplicasse um imposto sobre a herança e eliminasse todos os impostos pro-
gressivos sobre o rendimento que penalizam as pessoas que se esforçaram arduamente e
criaram um patrimônio e que têm todo o direito dele usufruir enquanto estiverem vivas.
Nada é mais prejudicial ao caráter de uma pessoa quando se dá tudo na vida a ela numa
bandeja de graça. Ao contrário, todo cidadão deve trabalhar para o bem da nação e não ali-
mentar-se dela.33
Há quem diga que o imposto sobre herança fique em torno de 59%. A teoria que
sustentam esse percentual é aceitável. Contudo, as teorias de tributação de Peketty e
Ramaswamy, que advogam essa alíquota, não colocaram na equação o grau de corrupção
que os contribuintes de um determinado país convivem. Se tomarmos como exemplo a
corrupção do Estado brasileiro atual, nos três níveis de governo, essa alíquota é demasiada-
mente injusta e causará sentimento de revolta na população.
Sob um purismo teórico-justributário, pode-se objetar que não se deve “confundir
alho e bugalho”, isto é, fazer a confusão entre a política pública tributária com a política
pública criminal, pois são campos de ação de gestão pública que não se conectam. Todavia,
ousa-se discordar, visto que são ações de governo que estão intimamente interligadas, pois
a moral tributária, com encargo fiscal justo, está intrinsecamente relacionada com o combate
à corrupção34. A própria “curva de Laffer” também corrobora a efetividade da tributação,
visto que cargas tributárias excessivas ensejam a retirada de recursos financeiros disponíveis
no mercado, estimulam sonegação fiscal e à corrupção endêmica.35
31 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 21). Center
Street. Edição do Kindle, p. 209-232.
32 Ibid., p. 212 e s.
33 Ibid., p. 216 e s.
34 Klaus TIPKE. Moral tributária do estado e dos contribuintes. Trad. Luiz Dória Furquim. – Porto Alegre: Sérgio Antônio Fabris Ed.,
2012, p. 72-98.
35 Matthijs ALINK; Victor van KOMMER. Manual de Administração Tributária. Trad. Vinícius Pimentel de Freitas. 1ª ed. Amsterdam
64
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
O que será mais injusto, transferir uma herança para filhos que não mereceram
herdar os bens de pais meritórios ou transferir para os políticos e para toda a estrutura ad-
ministrativa de um Estado corrupto? Entre transferir os bens patrimoniais e financeiros para
o Estado, que vão enriquecer ilicitamente com o espólio transferidos a políticos corruptos,
todos os pais, em sã consciência, preferem transferir para os seus filhos, ainda que não
tenham merecidos por mérito, com os esforços deles, do que ver todo o suor e mérito de
uma vida inteira parar na matula de ladrões. Desse modo, causaria uma desigualdade
econômica mais injusta e perversa, com o enriquecimento ilícito e criaria uma classe de
tecnocratas abastada, que se supõe seja mais ou tão perniciosa quanto a cultura da preguiça
e da vitimização que se quer debelar, caso se aprove uma alíquota de 59% sobre a herança.
No caso brasileiro, alíquota máxima de 8% já é por demais demasiada alta.
5.3 CONSEQUÊNCIAS DA RÁPIDA EXPANSÃO DO MOVIMENTO
WOKE
Se é um tema que tem atraído a atenção e instigado muitos estudiosos, como
pensadores, cientistas políticos, sociólogos, psicólogos e outras pessoas interessadas no
assunto, a dedicarem tempo precioso de suas análises, pesquisas e reflexões, esta mosca
nada inofensiva e perturbadora é o denominado movimento woke.
Um desses expert no assunto é N. S. Lyons36, em seu artigo “Não, a Revolução Não
Terminou”, ele contesta os conservadores antiwoke e os liberais moderados que alegam que
o movimento woke está tendo seus últimos suspiros. Observa que seus prognósticos não
levam em conta os principais fatores que projetaram essa cultura de crenças ideológicas,
que precisam ser despidas para verificarem, que não, a revolução não acabou e que, na
realidade, está mais forte do que nunca e que está distante de seu fim.37
Assim, para a desventura de Lyons, ele destaca 20 motivos que provam o pleno
vigor da onda woke, que são preocupantes. Dentre esse elenco, num esforço de síntese,
comentam-se algumas, ainda que as demais sejam também inferências plausíveis. Inicial-
mente, naquilo que denominou de ideologia woke ou ideologia sucessora, observa que,
normalmente, as pessoas não desistem de seus credos religiosos facilmente, pois, por mais
que possam ser absurdas e ridículas suas crenças metafísicas, entendem-nas como justiça
social.38
- Holanda: IBFD, 2016, p. 61-70.
36 N. S. Lyons (“é o pseudônimo de um ensaísta que trabalha na comunidade de política externa na capital dos Estados Unidos e escreve
regularmente na plataforma Substack [Link]
37 LYONS, N. S.; MIGUEL, Felipe (org). Não, a Revolução Não Terminou. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022,
p. 19-43.
38 Ibid., p. 19-43.
65
Cláudio Gonçalves Pacheco
Salienta que o liberalismo progressista, com vista a maximizar a autonomia
individual, passou a exigir que o Estado criasse um rol, cada vez mais, de direitos, com o
intuito de desvencilhar o indivíduo dos grilhões e restrições impostas pela tradição, pelas
divisas geográficas, pela religião, comunidade, família e pela sua própria natureza. Segue-se
daí que a cultura woke criou para si uma ideologia amorfa, caótica e contraditória, visto que,
de um lado, postula um coletivismo tribal ou grupal de nós contra eles, com identidades de
sexo, raça, gênero etc., por outro lado, brada por uma autonomia ilimitada no que tange às
escolhas e preferências individuais.39
As redes sociais, com suas plataformas digitais, têm sido a mola propulsora para
transformações culturais e políticas, havendo pensadores que atribuem os fatores tecnoló-
gicos como determinantes para sua ampla difusão. As pessoas otimistas, que acreditam que
a maioria das pessoas são sensatas, não se deixam levar pelo pensamento estupidificante
do movimento woke. Lyons, com base no filósofo Nassim Taleb, observa que não é a
população majoritária que estabelece as novas regras sociais, mas sim a ditadura da minoria
com facas nos dentes e sangue nos olhos, que a maioria não levou a sério, quando mal se dão
conta, estão sob o domínio da minoria que ascendeu ao poder e passou a ditar suas normas
bizarras e autoritárias. 40
A manifestação da cultura woke não surgiu do nada, mas foi fruto de um longo e
planejado movimento, haja vista que a instituição de novas ideias e a destruição dos princípios
e valores existentes levam um bom decurso de tempo, normalmente de duas a três gerações.
Os dados estatísticos, levantados da pesquisa Gallup, dão conta que percentuais acima de
50% a mais dos americanos da Geração Z são simpáticos às pautas da agenda woke e que o
governo deveria envidar esforços para resolver os problemas suscitados pelo woke. Lyons
sublinha que Jonathan Haidt e Greg Lukianoff publicaram um ensaio onde propuseram
que os jovens da Geração Z desenvolveram física e psicologicamente “mimados”, sendo
frágeis emocionalmente, por isto que se ressentem por qualquer “microagressões”, criam
“espaços seguros” e “avisos de gatilho” e, as elites intelectuais, supereducadas, oriunda
de uma burguesia hipercompetitiva, mas que não conseguiram o seu reconhecimento
social, aproveitam dessa juventude vulnerável para acirrar suas queixas e inculcarem-nas o
sentimento vitimista.41
As grandes corporações empresariais, com vista não amargarem prejuízos, aderem
ao movimento woke com subvenções a todas as instituições que promovam a cartilha
39 LYONS, N. S.; MIGUEL, Felipe (org). Não, a Revolução Não Terminou. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022,
p. 19-43.
40 Ibid., p. 25 e s.
41 Ibid., p. 27 e s.
66
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
woke, bem como desenvolvem treinamento com seus funcionários com consultores de
Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI - Diversity, Equity and Inclusion) para serem “poli-
ticamente corretos” para não serem processadas ou canceladas pelo ativismo woke. Hoje em
dia, 100% das empresas norte-americanas têm em sua estrutura administrativa esse depar-
tamento para, no caso de serem processadas, alegarem que fizeram o dever de casa e, assim,
não podem ser responsabilizadas e sim o funcionário faltante. As grandes fundações, como
Fundação Ford, Mackenzie Scott, JPMorgam, Bill e Milinda Gates etc., despejam bilhões de
dólares na promoção da cultura woke. Lyons salienta que Ibram X. Kendi, Robin DiAngelo
e outros wokeístas, na defesa da Teoria Crítica da Raça ou o racialismo woke, tudo deve
estar sob a supervisão do estado, na fora dele e nada deve ser admitido contra o estado. A
dramática e desesperadora verdade é que a ideologia woke é Leviatã e o Leviatã é woke. De
tudo e por tudo, fato é constatar que a revolução woke não acabou.42
Verifica-se também que as redes sociais tiveram importância significativa na am-
plificação do conceito woke. Constata-se que a troca de informações no ambiente digital
ocorre numa velocidade incrível, consistindo na ágora virtual formidável para a troca de
informações, conhecimento e formação de opinião.
Nesse sentido, as redes sociais atuam como um amplificador bastante eficiente para
que qualquer movimento tenha voz. Por meio das plataformas digitais, ideias, conceitos
e notícias são propagados numa velocidade espantosa com alcance em escala global. O
movimento woke encontrou nesse ambiente digital o meio ideal para a expansão de suas
propostas e conceito. Assim, o termo woke, que surgiu de forma tímida na década de 1960
como sentimento de repúdio da comunidade negra americana contra a injustiça social e a
discriminação racial, com o advento das redes sociais, expandiu-se como um movimento
sociocultural de reivindicação de justiça social no mundo inteiro.
Com a criação da hashtag #StayWoke, o conceito woke ganhou reforço significati-
vo. Esta hashtag tem atuado como uma forma de exortação a estar alerta em âmbito global
contra as injustiças sociais persistentes e assim buscar meios para contra atacá-las e, se
possível, eliminá-las. Em torno desta hashtag, as pessoas estão se organizando e vêm sendo
estimuladas a externarem suas visões e experiências de sofrimento como vítimas do racismo
e da discriminação estrutural e compartilhando suas idiossincrasias em resposta às injustiças
sofridas. A hashtag serve como elo entre comunidades distintas para o enfrentamento das
injustiças sociais, o que tem atraído o interesse dos principais meios de comunicação.43
42 LYONS, N. S.; MIGUEL, Felipe (org). Não, a Revolução Não Terminou. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022,
p. 19-43.
43 Korn traduções: “Woke: Entenda o significado desse termo”. Disponível em: [Link]
Acesso em: 03 Jan.2024.
67
Cláudio Gonçalves Pacheco
A despeito de todo esse sucesso de ampla divulgação nas redes sociais, fato é que
toda esta ampla disseminação de seus ideais não implicou só em perspectivas positivas, mas
um palco como as redes sociais, onde inúmeras experiências individuais são publicizadas
em profusão estonteante, acarreta a perda de uma visão do todo, que dificulta reunir uma
posição clara e definida do real conceito do termo o woke que abrace o maior número de
insatisfação social. Outra externalidade negativa apontada por muitos críticos refere-se à
cultura do cancelamento, como ferramenta de luta associada ao movimento woke, onde
pessoas e instituições são denunciadas com práticas político-sociais contrárias à pauta woke
e, como forma de retaliação, são ostracizadas44.
Em conclusão, se por um lado as redes sociais serviram como uma vitrine para
divulgar as pautas do movimento woke e dar uma maior robustez conceitual, passando
a ter contornos mais amplos e complexos em busca da justiça social e de denúncia e
combate à discriminação racial, de gênero, de sexo e das minorias, por outro lado, seus
críticos denunciam a filosofia woke por criar tribos em detrimento da singularidades, a
cultura do cancelamento do nós contra ele e atentar contra a liberdade de expressão, de livre
pensamento e de ideias.45
Um número cada vez maior de celebridades e influenciadores da cultura pop
têm aderido ao conceito woke e dando suas contribuições na divulgação das propostas
do movimento para que mais e mais pessoas também se indignem e se oponham contra
a opressão social sistêmica, a discriminação racial, de gênero e as minorias desassistidas.
Como personalidade públicas que são, têm lugares de fala e são seguidas por milhões de
pessoas, atuando como verdadeiros formadores de opinião, que têm o poder de influenciar
comportamentos segundo suas crenças e sua forma de expressar.
Contudo, fato é reconhecer que não são todas as celebridades e influenciadores,
simpatizantes do movimento woke que abracem a causa de forma sincera, consciente
e autêntica, no intuito de propagar e debater ideias, lutar por mais justiça social e pela
efetiva materialização dos direitos humanos, como seus legítimos porta-vozes, mas que, na
realidade, se valem do discurso do movimento para se autopromoverem e, não rara vezes,
se apropriam da linguagem woke com interesses financeiros, sem realmente desejarem as
mudanças sociais que verdadeiramente eliminem ou mitiguem as desigualdades sociais e
as discriminações raciais, de gênero e de sexo.
44 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence. Center Street.
Edição do Kindle, 2023, p. 45-52.
45 André Gonçalves FERNANDES: “O Admirável Mundo Novo do globalismo e do identitarismo”. Disponível em: [Link]
[Link]/opiniao/artigos/admiravel-mundo-novo-globalismo-identitarismo/?ref=busca. Acesso em: 14 Jan.2024.
68
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
Tom Slater observa que, uma década depois do registro na redes sociais, com a onda
antirracista, com o estouro da política identitária nos EUA, racial e globalista, o movimento
BLM, primeiramente, angariou uma quantia impressionante de dinheiro. Sublinha Slater
que pairam controvérsias acerca da “mansão do Black Lives Matter”, um imóvel avaliado
no valor de US$ 6 milhões, adquirido de forma dissimulada pela Black Lives Matter Global
Network Foundations, que se notabiliza como a organização principal do BLM. Acrescenta
que, com o assassinato de George Floyd, aumentou substancialmente o número de doações
empresariais ao BML, tais como Amazon, Microsoft, Airbnb e Unilever, chegando em 2020
com a soma final na casa de US$ 60 milhões. 46
Depois de denúncias acerca da exploração lucrativa do BLM, com a compra do
imóvel de US$ 6 milhões, a diretora-executiva do BLMGNF, Patrisse Cullors, demitiu-se
do cargo, pois ela e outros estavam lucrando com o movimento em detrimento daqueles
que realmente estão na base do movimento e lutam contra o racismo e a desigualdade
econômica.47
O BLM passou a ser o maior movimento antirracista de projeção internacional na
história moderna, todavia, despido de objetivo político que possa verificar ou atribuir a
ele. Com uma narrativa própria e isolada de visar “erradicar a supremacia branca e criar
poder local para intervir na violência infligida às comunidades negras pelo Estado e pelos
justiceiros”, em realidade, o que se constata é a divulgação de ideias falsas acerca de uma
polícia racista que aterroriza as comunidades afro-americanas, contudo, mais revelam
desvarios identitários férteis que não se baseiam em evidências. Longe de querer sequer
insinuar que o racismo não tenha existência real, tem. Há comunidades negras norte-ameri-
canas que ainda hoje sofrem com o legado do racismo e toda desigualdade econômica dele
decorrente. Mas, a cada dia, verifica-se que o Black Lives Matter tem piorado as coisas.48
A proposta do BLM de exortar o não financiamento da polícia, após o assassinato
de George Floyd, implicou na diminuição das forças policiais nas regiões com índice de cri-
minalidade elevado. Tom Slater observa que, depois disso, “... Os assassinatos dispararam.
Os tumultos - disfarçados de protestos pela mídia mainstream - devassaram comunidades
negras e urbanas dos Estados Unidos. Uma atmosfera tóxica de censura e cancelamento
dificultou até mesmo que se criticasse o que está acontecendo.”49
46 Tom Slater: Como o Black Lives Matter se tornou um grande negócio. Disponível em: [Link]
como-o-black-lives-matter-se-tornou-um-grande-negocio/. Acesso em 28 Jan.2024.
47 Ibid., p. 2.
48 Tom Slater: Como o Black Lives Matter se tornou um grande negócio. Disponível em: [Link]
como-o-black-lives-matter-se-tornou-um-grande-negocio/. Acesso em 28 Jan.2024.
49 Tom Slater: Como o Black Lives Matter se tornou um grande negócio. Disponível em: [Link]
como-o-black-lives-matter-se-tornou-um-grande-negocio/. Acesso em 28 Jan.2024.
69
Cláudio Gonçalves Pacheco
Essa deificação de George Floyd faz sentido? Alastram-se por todo território norte-
-americano inúmeras estátuas consagrando a memória dele e excomungando socialmente
quem que ouse danificar algum dos monumentos que o homenageie. Certo é que jamais
se justifica o assassinato de George Floyd. Contudo, Floyd pode ter sido vítima de seu
próprio comportamento desregrado, visto que viveu uma vida que a forma como dera fim
a sua existência seria a crônica da morte anunciada. Sabe-se que ele teve oito condenações
criminais, sendo acusado ou preso por pelo menos dezenove anos, ainda que se possa
questionar esses número, fato é que discutir o seu passado nada recomendável tornou-se
um tabu. Há condenação por crime de assalto a mão armada em que apontou o revólver
para uma grávida. Quando de sua morte, Floyd estava sendo procurado e preso por mais
de um crime e que não cooperou com os policiais para ceder à prisão.50
Assim, se por um lado a divulgação nas plataformas digitais das pautas woke tem
o condão de dar a conhecer ao mundo de suas legítimas queixas, por outro lado, abre-se
um flanco atrativo para que aproveitadores se beneficiem financeiramente do movimento,
sejam pessoas, instituições públicas ou privadas, em detrimento de defender as pessoas
realmente vítimas do establishment econômico, social e cultural vigente.
5.4 O SEQUESTRO DO MOVIMENTO WOKE PELA POLÍTICA PRO-
GRESSISTA
Os ideais da cultura woke de combate sistemático à injustiça racial encontraram
terreno fértil na política progressista. Não é de causar espanto esse casamento perfeito entre
os ideais do movimento woke com as correntes ideológicas das políticas de esquerda que
trazem no seu DNA a proposta de uma engenharia social de alteração radical da configura-
ção social estabelecida, como a invenção da roda no campo das estruturas da sociedade, não
considerando a tradição, a cultura e a história dos povos como formas legítimas e naturais
também para o desenvolvimento de instituições sociais válidas para o progresso humano,
como a família, a religião, a comunidade e outras.
Essa associação se dá, primeiro, em virtude dos progressistas buscarem em seus
discursos políticos o monopólio das pautas wokeístas de contestação das discriminações
raciais, de gênero e de combate às desigualdades sociais, muitas vezes são meras ideologias
que se distanciam de suas práticas no dia-a-dia; segundo, o sequestro da bandeira identitária
de reivindicações socioeconômicas do movimento woke pelas políticas progressistas de
esquerda passou nortear os seus discursos políticos em defesa de grupos minoritários rela-
cionados à cor da pele, orientação sexual, de gênero e de identidade étnica em detrimento
50 Michael ANTON; MIGUEL, Felipe (org). Sem Precedentes. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 83-4.
70
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
das particularidades individuais e das complexas interações humanas, ignorando outros
valores também importante num debate sério e sincero, como valores de mérito e igualdade
de oportunidades; e, terceiro, constata-se a promoção de uma cultura de silenciamento
encampada pelo ideal woke de ser. Assim, qualquer perspectiva de mundo que não esteja
alinhada com o pensar woke é excluída, tipificada como postura odiosa e contrária ao
progresso da sociedade. Obviamente, essa forma de pensar e de agir impede a liberdade de
expressão, que é considerado um dos princípios fundantes das sociedades democráticas.51
O reconhecido analista do Partido Democrata dos EUA, James Carville, concedeu
uma entrevista à Vox52, no dia 27 de abril de 2021, na qual respondeu as perguntas feitas
pelo jornalista Sean Illing. Na oportunidade, Carville fez contundentes críticas ao seu
próprio partido. Observou que os democratas estão tomando um caminho preocupante e,
no tocante à onda woke, consignou que o “Wokeness é um problema e todos sabem disso.
É difícil falar com alguém hoje – e falo com muitas pessoas no Partido Democrata – que não
diga isso. Mas eles não querem dizer isso em voz alta.”53 Ao ser questionado por Sean Illing
porque as pessoas do Partido Democrata não querem falar disso, Carville adverte: “Porque
eles serão derrotados ou cancelados”.54
Vivek Ramaswamy observa que a entrevista de Carville teve grande repercussão,
não por ter sido extraordinariamente perspicaz, mas por ter sido um dos primeiros político
representante da esquerda norte-americana a reconhecer publicamente que a cultura woke
tem atravessado os limites fronteiriços da sensatez e da razão, tornando-se um problema
que deve ser enfrentado.55
É de se questionar se a inserção dos ideais da cultura woke pela política progres-
sista realmente traz ganhos para a materialização dos direitos humanos, pois o fomento à
tribalização e o incentivo na criação de grupos sociais de nós contra eles criam a polarização
que impossibilita o diálogo plural e construtivo para o próprio evoluir dos direitos funda-
mentais de sorte a proporcionar um ambiente sadio de discussões sociais, onde diferentes
visões possam dar o seu contributo em prol de um evoluir ético-moral da sociedade como
um todo.
51 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence. Center Street.
Edição do Kindle, 2023, p. 1-7.
52 A Vox é website informativo, formado por uma equipe de mais 100 jornalistas e especialistas que pesquisam, reportam e produzem
artigos, vídeos e podcasts sobre política, cultura, Supremo Tribunal, extremismo político, biodiversidade, inteligência artificial, crise
climática e diversos outros assuntos do dia-a-dia que são contextualizados. Disponível em: [Link]
Acesso em: 03 Fev.2024.
53 Livre tradução do texto em inglês: “Wokeness is a problem and everyone knows it. It’s hard to talk to anybody today — and I talk to
lots of people in the Democratic Party — who doesn’t say this. But they don’t want to say it out loud.”. (Cf. VOX: Wokeness is a problem
and we all know it. Disponível em: [Link] Acesso em: 03
Fev.2024.)
54 Livre tradução do texto em inglês: “Because they’ll get clobbered or canceled.” (Cf. VOX: Wokeness is a problem and we all know it.
Disponível em: [Link] Acesso em: 03 Fev.2024.)
55 Vivek RAMASWAMY. Nation of Victims: Identity Politics, the Death of Merit, and the Path Back to Excellence (p. 4). Center
Street. Edição do Kindle, p. 195.
71
CAPÍTULO 6
CONCLUSÃO
Cláudio Gonçalves Pacheco
D entre os diversos valores que informam a densidade axiológica do princípio
democrático, destacam-se alguns como a igualdade de todos, justiça, liberdade
de manifestação, liberdade de pensamento, pluralidade de ideias, tolerância de ideologias
antagônicas, respeito e reconhecimento da minoria, direito à participação etc. Em que pese
a importância de todos esses valores na formação do espírito democrático, eles seriam mera
vox flatulus, sussurros sem a mais remota substância, sem que estejam impregnados da ideia
de perdão.
Martin Luther King, de forma reiterada, fez alusões ao perdão como uma manifes-
tação cristã. Perdão não quer significar submissão. Os ativistas da política identitária até
podem admitir, reconhecer e conceder o perdão, mas só depois que seus oponentes sejam
derrotados, se possível eliminados. Os ativistas do woke, com sua política de identidade
em oposição a máxima cristã de perdão ao inimigo, de amor ao próximo, extraem dos
jovens aristocráticos o que há de pior dentro de seus eus. Constata-se que os céticos são
mais propensos a se sentirem dotados de uma superioridade moral do que aqueles que
professam alguma fé religiosa. O perdão não tem lugar na ideologia woke, levando em
conta o que se vê de ostentação de superioridade moral estampada nas redes sociais, que
saem dos teclados em brasas fumegantes pelo mundo afora. O perdão é irreconciliável com
nossos instintos, todavia, é isso que faz dele sagrado, divino1.
Verifica-se que todas as teorias dos liberais progressistas, passando pelo materialis-
mo, a Teoria Crítica da Raça (CRT) e as teorias de gênero ora mais em voga, têm a obtusidade
de tornar as complexas relações factuais humanas estridentes em chavões simplistas como
a surrada expressão de que a civilização ocidental é umbilicalmente racista, ainda que
seja fartos os relatos históricos de haverem escravos brancos por outras civilizações não
ocidentais, assim como os próprios negros africanos escravizavam os seus próprios povos.
Mas isso para o progressismo woke não são fatos históricos, são mera narrativas do conser-
vadorismo.
Outra forte cruzada do progressismo woke refere-se à caça às bruxas de grandes
figuras humanas do passado, que a arrogância moral de seus ativistas procuram apagar,
cancelar e dão de ombros ao não se darem ao trabalho de pelo menos compreender que não
se pode julgar o passado com os olhos do presente e, assim, desmerecer e destruir toda a
riqueza cultural de nosso passado.
Como discorrido em linhas volvidas, tem-se que uma das mais expressivas críticas
à cultura woke e que se apresenta bastante evidente nos adeptos do movimento refere-se
1 Ed. WEST; MIGUEL, Felipe (org). Pode Haver Perdão Depois do Cristianismo? Como um “Dia do Amor” poderia ajudar a cultura
política. Trad. Felipe Miguel. 1.ª Ed. - Editora Descobrir, MG, 2022, p. 126-129.
74
CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
ao que muitos denominam de virtue signaling, que significa a ostentação de virtude, uma
postura de comportamento que denota superioridade moral de seus ativistas em relação aos
outros. Essa prática fica bem caracterizada quando corporações defendem opiniões políticas
progressistas que são facilmente verificadas quando usam símbolos linguísticos e imagens
próprias utilizadas por todos aqueles imersos e perfilhados com os referenciais axiológicos
sustentados e defendidos pelo woke.
Consignou-se que, no movimento woke, a prática do cancelamento de cultura, que
se não é possível de plano criticá-la, é, no mínimo, ponto de controvérsia. A cultura do can-
celamento tem por escopo reprimir, condenar e excluir pessoas, notadamente conhecidas do
público em geral, celebridades, que, às vezes, de forma que se pode dizer leviana cometem
deslizes que colidem com visões de mundo do woke e que postam ou expressam atitudes
reprováveis. Contudo, se por uma perspectiva a reprimenda às pessoas, que assim se
comportem, seja até justificável, por outro lado, essa forma de banimento carrega consigo
uma inevitável pena assaz exagerada, já que não lhes é dado a chance de retratamento, do
perdão, de tolerância e de se reeducar.
Acresce-se a tudo isto ao fato do wokeismo, nessa vibe, se tem valor de inserção
das minorias e de combate às diversas discriminações negativas (raciais e socioeconô-
micas), por outro lado menoscaba outro valor fundante das sociedades ditas democráti-
cas, que é a liberdade de expressão. Quando o movimento woke condena e imputa penas
severas a todos que tenham desvios de comportamento ou discursos que ofendam seus
valores, acaba por inibir a liberdade de expressão na medida em que não reconheça outras
formas de entendimento, também válidos e legítimos. Desse modo, os valores da cultura
woke contrariam referenciais axiológicos caros das sociedades abertas onde a liberdade de
expressão, a liberdade de pensamento e a livre manifestação de ideias são vigas ou balizas
mestras que as sustentam e as mantenham de pé.
Por fim, constata-se que essa forma de ativismo do woke, de nós contra eles, ao se
defender microagressões, estaria minando ou corroendo colunas estruturais da sociedade
e que, ao invés de combater as desigualdades, passa fomentá-las. Configura um dilema a
ser enfrentado entre fomentar a discussão acerca das injustiças sociais sistêmicas e como
debelá-las entre os estudantes e, de outro, aceitar como única visão ideológica de luta e
contestação desse status quo como sendo o protagonizado pelo movimento woke. Esse ideal
de avanço social, segundo as pautas do woke de silenciar as vozes discordantes, corre o
risco de provocar o efeito contrário, já que monopoliza o debate segundo sua agenda de
pensamento único.
75
Cláudio Gonçalves Pacheco
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CULTURA WOKE: ORIGEM, FONTES TEÓRICO-
FILOSÓFICAS E SEU VIÉS GNÓSTICO
É com a grata satisfação que apresento ao público este livro que trata de questões rela-
cionadas às discriminações negativas sistêmicas, como o racismo, o ativismo LGBTQ+, as
questões de gênero e sexo, o feminismo interseccional, ambiental e dentre outras discrimi-
nações infligidas às diversas minorias sociais, que julgo serem as pautas mais sensíveis e
caras à cultura woke, nunca tão em voga na contemporaneidade.
O estímulo primeiro desse trabalho foi jogar luz, de forma despretensiosa, sobre a face
oculta da lua, não vista por muitos em temáticas de direitos humanos, que, sob o crivo
de lentes bibliográficas discordantes da narrativa woke, nem sempre estão acessíveis ao
público em geral e ao corpo discente nas academias, sejam públicas ou privadas.
En passant, abordo questões relacionadas à moral tributária vinculada ao desprestígio que
os wokes dispensam ao valor mérito, oportunidade em que externo o meu tenaz repúdio
à tributação progressiva e à tributação sobre a herança, ainda que reconheça a consistência
lógica da tributação sobre o espólio ou mesmo sobre a doação, tão só a critico se realizada
sem colocar na equação o grau de corrupção de cada governo, pois quanto maior for esta,
menor e tendente à zero deverá ser aquela.
Sob um purismo justributário, pode-se objetar que não se deve “confundir alho e bugalho”,
isto é, fazer a confusão entre a política pública tributária com a política pública criminal,
pois são campos de ação de gestão pública que não se conectam. Todavia, ouso discordar
daqueles que assim pensam, como John Rawls e Thomas Piketty, mas postulo a inserção
do grau de corrupção na equação da aludida lógica tributária sobre a herança com espeque
no pensamento de Vivek Ramaswamy, Ludwig von Mises e sobremodo em Klaus Tipke,
notadamente em sua obra “Moral tributária do estado e dos contribuintes.”
Selecionei um considerável referencial bibliográfico para a feitura deste trabalho, todavia,
tive que deixar de ler e mesmo consignar na obra inúmeras resenhas produzidas e textos
próprios, pois apressei a editoração para não perder o prazo de inserção no Relatório
de Atividades Docentes da Universidade Estadual de Goiás, que expira em 3 de março
próximo. Assim, quando possível, numa próxima edição, desejarei trazer novas considera-
ções e reflexões acerca da cultura woke.
Então é isto, espero que apreciem.
Fevereiro/2024.
Cláudio Gonçalves Pacheco
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adm@[Link]
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