Aula 1
Análise Complexa
Na primeira parte da cadeira iremos focar-nos no estudo de funções complexas de variável com-
plexa. Como iremos ver, através do estudo de funções complexas iremos introduzir ferramentas
com vastas aplicações em matemática, fı́sica e engenharia. Por exemplo, a análise complexa
tem aplicações na resolução de equações diferencias, no cálculo de integrais, no estudo da esta-
bilidade de sistemas fı́sicos, na análise de sinais, entre muitas outras aplicações. Deste modo,
as ferramentas desenvolvidas nesta área da matemática são essenciais para qualquer engenheiro
ou fı́sico.
No entanto, antes de introduzir o conceito de funções complexas é importante relembrar o que
são números complexos.
Números complexos
Um número complexo é um par ordenado de dois números reais, (a, b) ∈ R2 . É comum escrever
um número complexo na forma a + bi em vez de (a, b). Notem que a ordem aqui é importante,
isto é, em geral (a, b) ̸= (b, a), daı́ (a, b) ser um par ordenado. Nesta notação um número real
def
é simplesmente (a, 0) e definimos i = (0, 1) como sendo a unidade imaginária.
O conjunto de números complexos C = {a + bi : a, b ∈ R} é dotado das operações de soma e
de produto, definidas através de:
(a + bi) + (c + di) = (a + c) + (b + d)i
(a + bi) · (c + di) = (ac − bd) + (ad + bc)i
É muito simples verificar que estas operações satisfazem as mesmas propriedades da soma e
produto dos números reais, como a comutatividade, associatividade ou existência de elemento
neutro. Notem que através destas definições é possı́vel verificar√que i2 = (0, 1) · (0, 1) = −1, isto
é, podemos identificar a unidade imaginária como sendo i = −1. Notem também que estas
definições para a soma e o produto de dois números complexos permitem-nos simplesmente
utilizar as operações aritméticas básicas que seguem dos números reais, com a única regra
adicional i2 = −1.
Historicamente, foi precisamente para fazer sentido de raı́zes quadradas de números negativos
que os números complexos foram introduzidos, visto que estas aparecem naturalmente em
soluções de equações cúbicas e quadráticas. Por exemplo, a introdução de números complexos
permite-nos resolver equações quadráticas do tipo:
√ √ √
2 −1 ± 1 − 4 −1 ± −3 −1 ± i 3
z +z+1=0⇔z = = =
2 2 2
A introdução de números complexos permite-nos encontrar n soluções para qualquer equação
polinomial de grau n.
1
Como já devem ter deduzido da discussão acima, um número complexo pode ser visto como
um ponto num plano (ou um vector do plano com ponto inicial na origem). Ou seja, podemos
pensar na soma de números complexos como sendo a adição de vectores. Deste ponto de vista
geométrico é útil definir o plano complexo com o eixo dos xx e dos yy designando, respetiva-
mente, o eixo real e imaginário (ver Fig. 1). Podemos também definir a parte real Re(z) e a
parte imaginária Im(z) de um número complexo z = a + bi ∈ C (com a, b ∈ R):
Re(z) = a , Im(z) = b
Complexo conjugado e módulo de um número complexo
O complexo conjugado ou simplesmente o conjugado z̄ (às vezes também escrito como z ∗ ) de
um número complexo z ∈ C é definido por:
a + bi = a − bi
Ou seja, o conjugado é a operação que transforma i → −i. Esta nova operação permite-nos
definir o módulo (ou magnitude) de um número complexo:
def √ √
|z| = z̄z = a2 + b2
Notem que |z| ∈ R≥0 visto que a e b são números reais. Dados z, w ∈ C temos as seguintes
propriedades (trabalho de casa!):
• z=z
• |z| = |z|
• z + w = z̄ + w̄
• z · w = z̄ · w̄
• 1
z
= z̄
|z|2
para z ̸= 0
• |z · w| = |z| · |w|
• |z + w| ≤ |z| + |w| (desigualdade triangular)
• |z + w| ≥ ||z| − |w||, |z − w| ≥ ||z| − |w||, |z − w| ≤ |z| + |w| (corolários da desigualdade
triangular)
É também fácil mostrar que
z + z̄ z − z̄
Re(z) = , Im(z) =
2 2i
A definição do complexo conjugado permite-nos dividir números complexos de forma muito
simples:
3 + 4i 3 + 4i 1 − 2i 3 + 8 + i(4 − 6) 11 − 2i
= = =
1 + 2i 1 + 2i 1 − 2i 1+4 5
Plano complexo e representação trigonométrica dos números comple-
xos
Para perceber melhor os conceitos mencionados em cima, é útil visualizá-los no plano complexo,
ver Fig.1.
2
Figura 1: Esquerda: Plano complexo. Direita: Representação do conjugado no plano complexo.
É fácil ver da Fig.1 que um número complexo pode também ser representado por coordenadas
polares: p
z = x + iy = r(cos θ + i sin θ) , r = |z| = x2 + y 2 ≥ 0 (1)
Nesta representação, r ∈ R+0 é simplesmente o módulo de z, enquanto que θ ∈ R é o ângulo
entre o vetor que liga o ponto (x, y) à origem e o eixo real (medido no sentido direto ou seja no
sentido anti-horário). Este ângulo é denominado por argumento de z, ou mais simplesmente
arg(z).
Notem que o valor de arg(z) não é único, visto que este é determinado a menos de um múltiplo
inteiro de 2π. Isto é, a Eq. (1) é invariante se fizer a transformação θ → θ + 2kπ, com k ∈ Z.
No entanto, arg(z) é único em cada intervalo 2π. Desta forma, é por vezes útil mencionar
um intervalo especı́fico. Chama-se argumento principal de um número complexo z ̸= 0 ao
elemento de arg(z) que pertence ao intervalo ] − π, π]. Por questões de clareza iremos denotar
o argumento principal de z por Arg(z), isto é1
arg z = Arg(z) + 2kπ, com k ∈ Z e Arg(z) ∈ ] − π, π]
O argumento principal definido desta forma pode ser calculado, dado um número complexo
z = x + iy, utilizando
arctan xy , se x > 0
y
arctan + π, se x < 0 e y ≥ 0
x
arctan y − π, se x < 0 e y < 0
x
Arg(z) =
π/2, se x=0ey>0
−π/2, se x = 0 e y < 0
indefinido, se x = 0 e y = 0
[Para facilitar a compreensão destas escolhas recordem a representação gráfica da função arctan(w),
com w ∈ R, ver Fig. 2]
Em geral, para um número complexo z = |z|eiθ defini-se:
• θ pertence ao argumento principal se restringido ao intervalo ] − π, π].
• θ pertence ao argumento mı́nimo positivo se restringido ao intervalo ]0, 2π]
• Para α ∈ R, diz-se que θ pertence ao ramo α do argumento se restringido ao intervalo
]α, α + 2π].
1
Esta notação não é consistentemente utilizada em toda a literatura, mas é das mais comuns.
3
1.5
1.0
0.5
arctan[w]
0.0
-0.5
-1.0
-1.5
-20 -10 0 10 20
w
Figura 2: Gráfico da função arctan(w).
É útil reescrever a representação trigonométrica de um número complexo utilizando a fórmula
de Euler :
def
eiθ = cos θ + i sin θ
No caso em que θ = π temos a famosa identidade de Euler, eiπ = −1. Esta notação justifica-se
pelo facto de cos θ + i sin θ ter as propriedades que se esperam de uma função exponencial.
De facto pode-se mostrar usando apenas trigonometria que, para quaisquer θ, ϕ ∈ R e k ∈ Z,
temos (trabalho de casa!):
• ei(θ+ϕ) = eiθ eiϕ
• eiθ e−iθ = 1
• 1
eiθ
= e−iθ
• eikθ = (eiθ )k
[Nota: A última equação é a fórmula de De Moivre escrita com exponenciais complexas. Podem
prová-la utilizando apenas trigonometria através da prova por indução.]
Recorrendo a fórmula de Euler podemos então definir a forma polar de um número complexo
z = reiθ
Com esta representação polar torna-se extremamente simples de fazer algumas operações com
números complexos. Por exemplo se z = reθ e w = ρeϕ :
Conjugado: z̄ = re−iθ
Multiplicação: z · w = rρei(θ+ϕ)
z r i(θ−ϕ)
Divisão: = e
w ρ
Olhemos para o exemplo especı́fico de multiplicar um número complexo por i. Podemos escrever
i = eiπ/2 (ver painel esquerdo da Fig. 3). Portanto z · i = rei(θ+π/2) , isto é, no plano complexo
estou simplesmente a fazer uma rotação de 90◦ . Por outro lado, multiplicar por 2i, por exemplo,
significa que estou a fazer uma rotação de 90◦ e a multiplicar o módulo por 2 (ver painel direito
da Fig. 3).
Raı́zes de um número complexo
Da fórmula de De Moivre introduzida em cima é possı́vel calcular raı́zes de ı́ndice n ∈ N, de
um número complexo z = reiθ não nulo, definidas como o conjunto
√n
z = {w ∈ C : wn = z} .
4
Figura 3: Esquerda: Unidade imaginária no plano complexo. Direita: Multiplicação por 2i.
Escrevendo w = ρeiϕ temos
√
wn = ρn einϕ =⇒ ρ = n
r, nϕ = θ + 2kπ , k ∈ Z .
Escrevendo explicitamente o conjunto de soluções para ϕ temos
θ 2π θ θ 2π θ 2(n − 1)π θ 2nπ θ 2(n + 1)π
..., − , , + ,..., + , + , + ,...
n n n n n n n n n n n
θ 2π θ θ 2π θ 2π θ θ 2π
⇔ ..., − , , + ,..., − + 2π, + 2π, + + 2π, . . .
n n n n n n n n n n
√
Devido à periodicidade em 2π da exponencial complexa, vemos que o conjunto de n z é apenas
formado por n números complexos distintos, isto é, podemos escrever:
√ √ i(θ+2kπ)
n
z= n
re n , k = 0, 1, . . . , n − 1
Exemplos:
1. Obter todas as soluções da equação z 5 = 2.
Podemos escrever 2 = 2ei·0 e portanto o conjunto de soluções é
z = {21/5 , 21/5 e2iπ/5 , 21/5 e4iπ/5 , 21/5 e6iπ/5 , 21/5 e8iπ/5 } =
= {21/5 , 21/5 e2iπ/5 , 21/5 e4iπ/5 , 21/5 e−4iπ/5 , 21/5 e−2iπ/5 }
No último passo subtraiu-se o argumento das últimas duas soluções por 2π.
2. Obter todas as soluções da equação z 3 = −1.
Podemos escrever −1 = eiπ e portanto o conjunto de soluções é
z = {eiπ/3 , ei(π+2π)/3 , ei(π+4π)/3 } = {eiπ/3 , −1, ei5π/3 } = {eiπ/3 , −1, e−iπ/3 }
onde mais uma vez√subtraiu-se o argumento da última solução por 2π. Visto que cos(π/3) =
1/2 e sin(π/3) = 3/2, podemos reescrever estas soluções como
( √ √ )
1+i 3 1−i 3
z= , −1,
2 2
Uma representação gráfica destas soluções pode ser vista na Fig. 4.
5
√
3
Figura 4: Representação de −1 no plano complexo.
Funções complexas de variável complexa
Como já devem ter deduzido da discussão em cima, é possı́vel estender a noção de funções
no caso em que temos variáveis complexas. De facto, todas as funções elementares que foram
introduzidas no caso da análise real, como por exemplo funções polinomiais, exponenciais,
logarı́tmicas, trigonométricas, etc... podem ser estendidas para o caso em que a variável é
complexa. Funções complexas de variável complexa são funções com a forma
f :A→C
com A ⊂ C é um subconjunto de C (notem que A pode ser simplesmente todo o conjunto C).
A função f podem em geral ser escrita na forma
f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y)
onde u, v são funções reais de variáveis reais x, y, designadas por parte real e imaginária de f ,
respetivamente.
Vejamos alguns exemplos de tais funções:
Funções polinomiais:
São funções f : C → C definidas através de expressões do tipo
f (z) = a0 + a1 z + . . . an z n , com ai ∈ C
Funções racionais:
São funções definidas pelo quociente de duas funções polinomiais, ou seja, f : A → C toma
a forma
p(z)
f (z) = , com p(z), q(z) polinómios
q(z)
e A = C\{z ∈ C : q(z) = 0}, isto é, A não contém pontos onde q(z) se anula.
Exponencial complexa:
Através da fórmula de Euler já sabemos como definir a função exponencial complexa. Para
uma variável complexa z = x + iy, com x, y ∈ R, a exponencial complexa é a função
f : C → C definida por
def
f (z) = ez = ex (cos y + i sin y)
onde utilizamos ez = ex+iy = ex eiy . Notem que a exponencial complexa satisfaz ez+2ikπ =
ez , com k ∈ Z, e portanto a função exponencial complexa é periódica com perı́odo 2πi.
Utilizando trigonometria e as propriedades da exponencial real, é possı́vel demonstrar que
6
esta função satisfaz as propriedades (trabalho de casa!):
• ez+w = ez ew com z, w ∈ C
• (ez )−1 = 1
ez
= e−z
• ekz = (ez )k com k ∈ Z
• ez = ez̄
Logaritmo complexo:
Tendo definido a exponencial complexa podemos pensar em construir uma função complexa
logarı́tmica de base e (ou logaritmo natural), que pode ser definida como a função f :
C\{0} → C dada por
f (z) = Log(z) = {w ∈ C : ew = z}
Isto é, define-se o logaritmo de z ∈ C\{0} como sendo o conjunto de todas as soluções w
da equação ew = z.
Para resolver esta equação notemos que dado w = x + iy, com x, y ∈ R, e z = |z|ei arg(z) ,
com |z| > 0, temos
( (
x
e = |z| x = ln(|z|)
ew = ex eiy = |z|ei arg(z) =⇒ ⇔
eiy = ei arg(z) y = arg(z) = Arg(z) + 2kπ , k ∈ Z
[Nota: No último passo, escreveu-se a solução explicitamente em termos do argumento
principal de modo a enfatizar o facto de não existir uma única solução. Além disso, utilizou-
se o facto de ex ∈ R, ln(|z|) ∈ R e portanto pode-se usar as propriedade habituais da função
exponencial e logarı́tmica real.]
Deste modo, podemos definir o logaritmo de um número complexo z como sendo
Log(z) = ln(|z|) + iArg(z) + 2ikπ , k ∈ Z
Notem que o logaritmo de um número complexo não é único, visto que k pode ser qualquer
número inteiro. À escolha k = 0, com Arg(z) ∈ ] − π, π], denomina-se por ramo principal
do logaritmo complexo a .
a
Para evitar confusão aqui iremos usar a notação Log, com “L” maiúsculo, para denotar a função
logaritmo complexa com valor não único. Iremos também usar log com “l” minúsculo, para denotar a
função logaritmo complexa no ramo principal e ln para denotar o logaritmo natural de um número real
(calculado no ramo principal).
Potências de expoente complexo:
A definição da exponencial complexa e do logaritmo complexo permite-nos definir a potência
de expoente complexo w para qualquer número complexo z ̸= 0 através da fórmula habitual:
def
z w = ewLog(z)
Exemplo: 2i = eiLog(2) = ei(ln(2)+2ikπ) = e−2kπ ei ln(2) com k ∈ Z. Note-se que um número
elevado a uma potência imaginária é igual a um conjunto de número complexos com mag-
7
nitudes diferentes. Se escolher o ramo principal do logaritmo, k = 0, temos 2i = ei ln(2) .
Funções trigonométricas:
As funções trigonométricas são definidas como:
def eiz − e−iz def eiz + e−iz
sin(z) = , cos(z) =
2i 2
Se z ∈ R estas definições reduzem-se à definição do sin e cos real, como se pode facilmente
verificar utilizando a fórmula de Euler.
Para qualquer z, w ∈ C temos as seguintes propriedades (trabalho de casa!):
• sin2 (z) + cos2 (z) = 1
• cos(z + w) = cos(z) cos(w) − sin(z) sin(w)
• sin(z + w) = sin(z) cos(w) + sin(w) cos(z)
• sin(z + 2πk) = sin(z) , se k ∈ Z
• cos(z + 2πk) = cos(z) , se k ∈ Z
Funções hiperbólicas:
As funções hiperbólicas são definidas como:
def ez − e−z def ez + e−z
sinh(z) = , cosh(z) =
2 2
Se z ∈ R estas definições são iguais ao caso já conhecido da análise real.
Para qualquer z, w ∈ C temos as seguintes propriedades (trabalho de casa!):
• cos(iz) = cosh(z) e sin(iz) = i sinh(z)
• cosh2 (z) − sinh2 (z) = 1
• cosh(z + w) = cosh(z) cosh(w) + sinh(z) sinh(w)
• sinh(z + w) = sinh(z) cosh(w) + sinh(w) cosh(z)
• sinh(z + 2iπk) = sinh(z) , se k ∈ Z
• cosh(z + 2iπk) = cosh(z) , se k ∈ Z
Não é fácil visualizar uma função complexa através do seu gráfico, ao contrário do que acontece
com as funções reais de uma variável real. No entanto, a função complexa de variável complexa
tem uma interpretação simples: corresponde a uma transformação do plano ou seja uma regra
que move os pontos do plano, ver Fig. 5.
Funções analı́ticas
Tendo definido funções complexas de variável complexa é natural procurar definir noções já
existentes em análise real, como a continuidade ou a existência de derivada da função. Nesta
8
Figura 5: Mapa de uma função complexa. Ver website [Link]
scims/Complex_analysis/[Link] (de onde esta figura foi tirada) para vários exem-
plos.
secção vamos ver como esses conceitos permitem definir a noção de funções analı́ticas, isto é,
funções que são localmente diferenciáveis.
Tal como para funções reais, pode-se definir a derivada (complexa) de uma função complexa
de variável complexa como sendo dada por 2
f (z0 + δz) − f (z0 )
f ′ (z0 ) = lim
δz→0 δz
Se este limite existir e for independente de como o limite é tomado, dizemos que a função é
diferenciável em z0 ∈ C.
Definindo δz = δx + iδy, com δx, δy ∈ R, tomar o limite δz → 0, implica que ambos δx, δy → 0.
Existem portanto várias formas de tomar este limite. Posso por exemplo primeiro tomar δx → 0
e só depois δy → 0 ou vice-versa. Requerer que o limite mencionado na nossa definição para
f ′ (z0 ) seja independente do caminho tomado é portanto uma restrição bastante forte que como
iremos ver permite encontrar condições genéricas que uma função complexa tem que satisfazer
para ser diferencı́avel num dado ponto.
No entanto, antes de tudo, é necessário definir o conceito de limite e continuidade de uma
função no plano complexo.
Limite e continuidade de uma função complexa
De forma a definir limites e continuidade relembremos alguns conceitos que aparecerão frequen-
temente no estudo de funções complexas:
Disco e conjunto aberto:
Um disco aberto (também se utiliza o termo “bola aberta”) de raio r centrado em z0 ∈ C
é o conjunto de pontos
Dr (z0 ) = {z ∈ C : |z − z0 | < r}
Podemos também definir um disco perfurado (punctured disk em inglês) de raio r centrado
em z0 como sendo o conjunto de pontos
Dr∗ (z0 ) = Dr (z0 )\{z0 } = {z ∈ C : 0 < |z − z0 | < r}
df def
2
Uma notação alternativa para a derivada de uma função é a chamada notação de Leibniz, dz = f ′ (z)
9
Isto é, no disco perfurado retiramos o ponto z0 do conjunto. Ver Fig. 6.
Conjunto aberto:
Um conjunto A ⊂ C diz-se aberto se para todo o z ∈ A existe um r > 0 tal que Dr (z) ⊂ A.
Isto é, o conjunto A é aberto se todos os pontos de A podem ser rodeados por um disco
aberto que está contido em A. Ver Fig. 7.
Figura 6: Esquerda: Representação de um disco aberto contendo todos os pontos a uma
distância r de z0 (incluindo z0 mas excluindo a fronteira do disco). Direita: Representação
de um disco perfurado em torno de z0 .
Figura 7: Esquerda: Exemplo de uma região aberta. Direita: Exemplo de uma região que não
é aberta, visto que discos abertos em torno de pontos na fronteira de B não estão inteiramente
contidos em B.
Com estes conceitos à mão podemos então definir o limite e a continuidade de uma função
complexa:
Limite de uma função complexa:
Seja f (z) uma função complexa definida num disco perfurado em torno de z0 , então dizemos
que
lim f (z) = ω0
z→z0
se f (z) convergir para ω0 , independentemente do caminho tomado entre z e z0 . Formal-
mente, isto é equivalente a dizer
∀ϵ>0 , ∃δ>0 ∋ |z − z0 | < δ =⇒ |f (z) − ω0 | < ϵ
[por palavras: dizemos que limz→z0 f (z) = ω0 se, para qualquer ϵ > 0, existe um δ > 0 tal
que, se |z − z0 | < δ, então |f (z) − ω0 | < ϵ.]
Se escrevermos f (z) explicitamente em termos da sua parte real e imaginária f (z) = f (x +
iy) = u(x, y) + iv(x, y), e definirmos ω0 = u0 + iv0 , podemos também escrever
lim f (z) = ω0 ⇔ lim (u(x, y), v(x, y)) = (u0 , v0 )
z→z0 (x,y)→(x0 ,y0 )
10
Exemplo:
z̄
Demonstre que limz→0 z
não existe.
Para tomar o limite podemos escrever z = x + iy, tal que
z̄ x − iy x2 − y 2 − 2ixy
= =
z x + iy x2 + y 2
e portanto
x2 − y 2
z̄ 2xy
lim ⇔ lim 2 2
,− 2
z→0 z (x,y)→(0,0) x +y x + y2
Para tomar este limite tanto posso tomar o limite x → 0 e depois y → 0 ou vice-versa. Vejamos
o que acontece em cada caso. Temos
2
x − y2
2
2xy x
lim lim 2 2
,− 2 2
= lim , 0 = (1, 0)
x→0 y→0 x +y x +y x→0 x2
e
x2 − y 2
2
2xy y
lim lim 2 2
,− 2 = lim − 2 , 0 = (−1, 0)
y→0 x→0 x +y x + y2 y→0 y
Visto que limz→0 z̄z aproxima-se de valores diferentes, dependendo do caminho tomado entre z
e z0 , este limite não existe.
A definição de limite permite-nos então introduzir a definição de continuidade de uma função
complexa de uma forma completamente análoga ao caso de uma função real:
Continuidade de uma função complexa:
Seja A ⊂ C, f : A → C e z0 ∈ A. A função f diz-se contı́nua em z0 se
lim f (z) = f (z0 )
z→z0
Notem que definindo f (x + iy) = u(x, y) + iv(x, y), a continuidade de f num ponto equivale
à continuidade das funções reais u e v no mesmo ponto.
Notem também que na definição de limite consideramos f (z) definida num disco perfurado
em torno de z0 , visto que para a noção de limite de f (z) quando z → z0 , f (z) não tem que
estar definida em z0 . Se a função f (z) estiver definida em z0 e limz→z0 f (z) = f (z0 ), então
a função é contı́nua.
Reparem que as definições introduzidas em cima são equivalentes ao que aprenderam quando
estudaram análise real em R2 . Portanto todas as propriedades do limite e continuidade a que
estão habituados se mantém. Por exemplo, o limite de um produto (ou soma) de funções é o
produto (soma) dos limites; a soma, produto ou composição de funções contı́nuas é contı́nua,
etc...
Uma diferença importante entre a análise complexa e a real no entanto diz respeito ao com-
portamento de funções logaritmo complexas e funções complexas de potências de expoente não
inteiro, que são, genericamente, não contı́nuas no seu domı́nio. Para mais detalhes podem ver
os Exemplos 5.7 e 5.8 das notas [Link]
notas_ACED.pdf, mas vejamos o caso da função logaritmo como exemplo.
11
Como vimos em cima, pode-se definir uma função logaritmo complexa de valor único f :
C\{0} → C, escolhendo o ramo principal do logaritmo complexo por exemplo
f (z) = ln(|z|) + iArg(z) , Arg(z) ∈ ] − π, π]
É fácil perceber que a parte real da função, Re(f (z)) = ln(|z|) é contı́nua, visto que a função
real é contı́nua para qualquer |z| > 0. No entanto a parte imaginária Im(f (z)) = Arg(z) é
descontı́nua no semi-eixo real negativo (isto é, se escrever z = x + iy, x, y ∈ R, o semi-eixo
real negativo é definido por x ≤ 0, y = 0), onde Arg(z) “salta” de π para −π. Por exemplo,
assumindo x < 0:
lim f (x + iy) = lim− ln(|x + iy|) + iArg(x + iy) = ln(|x|) − iπ ̸= f (x) = ln(|x|) + iπ
y→0− y→0
O domı́nio de continuidade da função logaritmo no ramo principal é portanto C\{x+0i : x ≤ 0}.
Aos pontos que são necessários “cortar” do domı́nio para que a função se torne contı́nua, neste
caso todo o semi-eixo real negativo, dá-se o nome de corte de ramificação (branch cut em
inglês).
Note-se que a escolha do branch cut na função logaritmo é arbitrária e pode-se sempre “mover”
o corte escolhendo outro ramo. De facto, de modo análogo se mostra que, para cada α ∈ R, o
ramo α do logaritmo,3
logα (z) = ln(|z|) + i argα (z), argα (z) ∈ ]α, α + 2π],
é contı́nua em C\ z = xeiα , x ∈ R+
0 . Por exemplo, para α = 0, o domı́nio de continuidade da
função logaritmo é C\{x + 0i : x ≥ 0}.
Derivada de uma função complexa
Voltemos à nossa definição de derivada:
def df (z) f (z0 + δz) − f (z0 ) f (z) − f (z0 )
f ′ (z0 ) = = lim = lim .
dz z=z0
δz→0 δz z→z 0 z − z0
Se este limite existe então dizemos que f (z) é diferenciável em z0 . Se f é diferenciável em todos
os pontos z0 de um conjunto aberto A, com A o domı́nio de f , então dizemos que f é analı́tica
(ou holomorfa4 ) em A. Uma função analı́tica em todo o plano complexo diz-se inteira (entire
function em inglês).
Exemplos:
1. Seja f (z) = z. Então
f (z) − f (z0 ) z − z0
f ′ (z0 ) = lim = lim =1
z→z0 z − z0 z→z 0 z − z0
para todo o z0 ∈ C. E portanto f (z) = z é uma função inteira.
3
Para evitar confusões o ı́ndice α serve para recordar que as funções estão a ser definidas no ramo α da
função logaritmo.
4
Os termos “função analı́tica” ou “função holomorfa” são normalmente utilizados sem distinção. No entanto,
estritamente falando, o termo “função holomorfa em z0 ” quer dizer que a função é diferenciável em z0 e o termo
“função analı́tica em z0 ” quer dizer que a função pode ser expandida em termos de uma série de potências
convergente em z0 . No entanto, como iremos discutir mais à frente, os dois conceitos são equivalentes e por isso
iremos somente utilizar o termo “função analı́tica” daqui para a frente.
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2. Seja f (z) = z̄, mostre que f (z) não é diferenciável em z = 0. Temos
z̄
f ′ (0) = lim
z→0 z
Do exemplo que vimos em cima, sabemos que o limite limz→0 zz̄ não existe. Portanto a
função f (z) = z̄ não é diferenciável em z = 0 (apesar de ser contı́nua nesse ponto como
facilmente podem verificar). De facto, facilmente conseguem verificar estendendo este
exemplo a qualquer outro ponto em z ∈ C, que f (z) = z̄ não é diferenciável (no sentido
complexo) em todo o C.
Acabamos de ver um exemplo de uma função contı́nua num ponto que não é diferencı́avel nesse
ponto. No entanto uma função f diferencı́avel em z0 é necessariamente contı́nua em z0 . É fácil
perceber porquê, visto que, por definição, se f é diferencı́avel em z0 então
f (z) − f (z0 )
lim
z→z0 z − z0
existe. Visto que limz→z0 (z − z0 ) = 0, então também temos que ter limz→z0 (f (z) − f (z0 )) = 0
de modo a que o limite em cima exista. Segue diretamente que a função é contı́nua em z0 se
for diferencı́avel em z0 , visto a definição de continuidade introduzida anteriormente.
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