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Curso de Identidade de Gênero: Módulo 1

O curso sobre Identidade de Gênero aborda a contextualização histórica e os princípios que definem a identidade de gênero, incluindo discussões sobre transgeneridade, cisgeneridade e identidade não binária. O módulo também destaca a violência e discriminação enfrentadas pela população LGBTQIAPN+, especialmente pessoas trans, e as recentes conquistas legais no Brasil em relação a direitos civis. Além disso, o curso inclui depoimentos e recursos complementares, como podcasts e textos, para enriquecer a discussão sobre o tema.

Enviado por

elainemenez
Direitos autorais
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Curso de Identidade de Gênero: Módulo 1

O curso sobre Identidade de Gênero aborda a contextualização histórica e os princípios que definem a identidade de gênero, incluindo discussões sobre transgeneridade, cisgeneridade e identidade não binária. O módulo também destaca a violência e discriminação enfrentadas pela população LGBTQIAPN+, especialmente pessoas trans, e as recentes conquistas legais no Brasil em relação a direitos civis. Além disso, o curso inclui depoimentos e recursos complementares, como podcasts e textos, para enriquecer a discussão sobre o tema.

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CURSO

IDENTIDADE
DE GÊNERO
Módulo

1
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA

Presidente
Ministro Luís Roberto Barroso

Corregedor Nacional de Justiça


Ministro Luis Felipe Salomão

Conselheiros
Ministro Caputo Bastos
José Rotondano
Renata Gil de Alcantara Videira
Mônica Autran Machado Nobre
Daniela Pereira Madeira
Alexandre Teixeira
Guilherme Guimarães Feliciano
Pablo Coutin ho Barre to
João Paulo Santos Schoucair
Daiane Nogueira de Lira
Luiz Fernando Bandeira de Mello Filho

Secretári a-Geral
Adriana Alves dos Santos Cruz

Secretário de Estratégi a e Projetos


Gabriel da Silveira Matos

Diretor-Geral
Johaness Eck

Secretári a de Comuni cação Social


Taciana Giesel

Coordenador de Multimei os
Gabriel Reis

Capa e Diagramação
Jeovah Herculano Szervinsk Junior

Revisão de texto
Carme m Menezes
Caroline Iltchenco Zanetti

2024
CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA
SAF SUL Quadra 2 Lotes 5/6 - CEP: 70070-600
Endereço eletrônico: [Link]
CURSO

IDENTIDADE
DE GÊNERO
Módulo

1
Ementa
Apresentaremos, inicialmente, breve introdução contextualizando historicamente os
princípios que nortearam conceitualmente o que se denomina identidade de gênero.
Daremos continuidade ao módulo expondo distinções conceituais acerca da
autodefinição de gênero, discussões sobre transgeneridade e cisgeneridade e
identidade não binária (teoria queer). Buscaremos apontar diferenças entre identidade de
gênero e perspectiva de gênero, indicando precedentes nas temáticas de identidade de
gênero e da perspectiva de gênero com alguns enfoques da teoria crítica feminista.
Apresentaremos discussões sobre orientação sexual e distinções acerca do olhar social em
relação ao ser mulher, ser homem,ou pessoa não binária.
Complementando as questões teóricas, incluímos o podcast com a entrevista com o
ministro Sebastião Alves Reis Júnior, do Supremo Tribunal Federal (STF),
apresentando dados publicados no livro Trans Lúcida. A obra, organizada pelo
magistrado, é dedicada ao tema da população LGBTQIAPN+, em particular, das
pessoas transgênero recolhidas em estabelecimentos penais. A obra Trans Lúcida ajuda a
retirar da invisibilidade um segmento que, possivelmente, é o que sofre a maior gama
de preconceitos na sociedade. «O livro foi muito importante na vida de pessoas que são
tratadas com desimportância», resumiu. Contribuindo, igualmente, com as discussões
sobre identidade de gênero, apresentamos diálogo com Maria Luiza da Silva, primeira
mulher trans da Força Aérea Brasileira. Ela compartilha detalhes sobre sua história,
relatando que foi vítima de discriminação ao ser aposentada compulsoriamente nos anos
2000. Nesse período, ela foi afastada de suas funções por ser considerada “incapaz” para
o serviço militar por uma junta médica da corporação após iniciar processo de
redesignação sexual. Disponibilizamos outros depoimentos em formato de podcasts,
lista de filmes e textos complementares sobre o tema.
Dados Palestrante
Doutora em história cultural e identidades pela Universidade de Brasília
(UnB) e pela Universidade de Montreal. Especialista em gênero e
políticas públicas. Realizou pesquisas/consultorias no Civil Service
College/Ascot/Londres, na Escola Nacional de Administração Pública
(Enap), na UnB e em outras instituições. Autora dos livros: Mulheres no
Topo de Carreira: Flexibilidade e Persistência, Memórias Femininas da
Construção de Brasília; Trabalho de Mulher: Mitos, Riscos e
Transformações, em coautoria com a procuradora do trabalho Adrianne
Reis. Diretora de filmes documentários: Poeira e Batom – 50 Mulheres na
Construção de Brasília; A Corrida das 5.300 mulheres, Mulheres dos
Cafés no Brasil, entre outros. Coordenadora do Instituto de Pesquisa
Tânia Fontenele Aplicada da Mulher. E-mail: taniafontenele@[Link].
Sumário
EMENTA................................................................................ 5
Dados Palestrante ................................................................. 6
IDENTIDADE DE GÊNERO............................................ 9
Princípios conceituais do que se
denomina identidade de gênero ............................................13
Definições conceituais.......................................................... 17
Cisgênero e Transgênero .......................................................18
Trans não binários .................................................................. 19
Orientação sexual................................................................... 20
Origens históricas da Teoria Queer ......................................21
Reflexões sobre os temas tratados no curso Identidade de
gênero................................................................................ 23
Referências complementares ................................................. 24
Área de anexos ...................................................................... 25
Referências .............................................................................27
Indicações de leituras ............................................................ 29
Identidade de Gênero
Introdução
Olha
Não somos mais, nem menos O
seu olhar não me define Somos
luz e somos plenos
É o criador que me redime
Diferentes, mas iguais
Alegres, tristes, como toda a gente
Com dias de luta e dias de paz
Um pouco de tudo que a alma sente.
Você que desvia o seu olhar
Com estranheza e desamor No
fundo se nega a aceitar Os
desígnios do Criador.
Eu não dependo do que dizes
Mas um sentimento acolhedor
Faria todos mais felizes.
Seu olhar não me define
Poema de Luís Roberto Barroso (2023)1

Na sociedade brasileira a busca por equiparação de direitos políticos, sociais e humanos


está na pauta de reivindicações de grupos sociais considerados minoritários há décadas.
Organismos internacionais, instituições públicas e privadas vêm criando espaços de
discussão e negociação de metas para que sejam minimizadas as desigualdades de gênero,
raça, orientação sexual ou religiosa.
Cabe ressaltar que no Brasil, desde os anos 1960, houve algumas mudanças estruturais,
de caráter legislativo e judiciário, porém enfraquecidas pelas reduzidas alterações
culturais. Talvez o maior avanço, tenha sido dar visibilidade à ausência de equidade de
gênero e da diversidade. As tentativas, na sociedade brasileira, de alcançar equidade de
gênero, condição em que os seres humanos – homens, mulheres, homossexuais, transexuais e
outros grupos visualizados pelo sexo biológico ou por orientação sexual estão longe de
serem alcançadas conforme atesta Eva Blay2 . O que evidentemente não é pouco, pois pode
encurtar a busca por soluções. Concordamos com a pesquisadora Eva Blay que aponta a
comprovação de que a resposta vem sendo negativa às seguintes questões: Temos direito
sobre nossos corpos? Temos direito à liberdade? Igualdade no trabalho? Na cidadania? Na
participação política? A uma vida sem violência contra as mulheres e outras pessoas?

1. Reis Junior, 2023.


2. Renomada feminista brasileira. Atua na área de Sociologia e Direitos Humanos. Desenvolveu trabalhos na ONU como
Interegional Adviser for the Development of Women. Entre suas publicações, destaca-se o livro Assassinato de Mulheres e Direitos
Humanos (Editora 34, 2008). In: Transcedênci a – Prosa, Poesia e Direito. Organização: Sebastião Reis Júnior. 1ª. Ed. São Paulo,
Amanuense, 2023.
10 | CURSO IDENTIDADE DE
GÊNERO

Ao tentarmos refletir sobre essas questões, estaremos efetivamente lidando com a


realidade social vivida por pessoas e grupos sociais que são estigmatizados pelo fato de
serem o que querem ser. Conforme apresentamos no início dessa breve introdução sobre
identidade de gênero, o poema Seu Olhar não Me Define busca traduzir os sentimentos
de uma pessoa se autodefinindo para além das normas sociais:
Olha, não somos mais, nem menos. O seu olhar não me define. Somos luz e somos
plenos. É o criador que me redime. Diferentes, mas iguais. Alegres, tristes, como toda a
gente. Com dias de luta e dias de paz. Um pouco de tudo que a alma sente. Você que
desvia o seu olhar. Com estranheza e desamor. No fundo se nega a aceitar. Os desígnios
do Criador. Eu não dependo do que dizes [...]
O poema procura expressar os sentimentos das pessoas trans que ainda são
invisibilizadas, marginalizadas e que precisam ser tratadas sem julgamentos: “Você que
desvia o seu olhar. Com estranheza e desamor. No fundo se nega a aceitar [...] Eu não
dependo do que dizes.
Cabe ressaltar que, no Brasil, a população de travestis e transexuais é um dos grupos
sociais mais fortemente estigmatizados na nossa realidade, vítima de graves violências. O
Brasil é o país onde há mais mortes de transexuais no mundo, seguido do México, que
apresenta população menos de um terço dos nossos números de mortes. No Brasil, o
tempo médio de vida de uma pessoa transexual é de 35 anos.
Grupos organizados vêm lutando para evidenciar e denunciar essa triste realidade. De
acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil segue
sendo o país que mais assassinou pelo 14.º ano consecutivo. A maior parte das vítimas são
jovens (entre 13 e 29 anos de idade), negra, empobrecida, costuma ter a prostituição como
fonte de renda e reivindica ou expressa publicamente o gênero feminino. A regra é que
haja uso excessivo de violência e crueldade, sendo que os suspeitos, em geral, não
possuem relação direta ou afetiva, conforme dados do Dossiê: Assassinatos e Violências
contra Travestis e Transexuais Brasileiras em 2022 divulgados pela Antra.
O Observatório de Mortes e Violências LGBTI+ de 2021 evidencia que, sem
qualificação e oportunidades, travestis e transexuais tornam-se vítimas comuns de
violência, muitas vezes de maneira fatal: a cada 27 horas, uma pessoa desse grupo foi
assassinada no Brasil. Apenas entre homicídios e latrocínios, foram registrados 285
episódios fatais naquele ano.
Na tentativa de denunciar as inúmeras violações de direitos contra essas pessoas, segundo
o ministro Luís Roberto Barroso, o Supremo Tribunal Federal (STF) acertou em reconhecer
o direito de se defender coletivamente proposto pela Associação Brasileira de Gays,
Lésbicas e Transgêneros ao ingressar diretamente com ação para tutela de direitos da
população LGBTQIAPN+ (Barroso, 2023). Outra importante reivindicação proposta pela
Antra, no que tange a redução da transfobia, é a destinação de vagas específicas para pessoas
trans em programa de geração de emprego e
CURSO IDENTIDADE DE GÊNERO|
11

renda, bem como a criação de incentivos fiscais para empresas que têm vínculo
com o Estado para a contratação especialmente de transvestis e mulheres trans.
É fato que, especialmente em períodos mais recentes, o mundo progrediu, e nunca se
debateram tanto as situações vivenciadas por essas pessoas, mas precisamos avançar.
Ainda há, pelo menos, 69 países que criminalizam práticas homossexuais, e, somente
em 2018, a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a transexualidade do rol de
transtornos mentais descritos na Classificação Internacional de Doenças (CID).
No caso brasileiro, a exemplo de outros países, a ausência de legislações mais modernas
sobre o tema levou o Poder Judiciário a declarar diversos direitos importantes para o
público LGBTQIAPN+. No âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF), podemos citar o
reconhecimento do direito de estabelecimento de união estável por casais homoafetivos
e, mais recentemente, a equiparação dos crimes de homofobia e transfobia ao delito de
racismo.
Da mesma forma, historicamente, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem sido
vanguarda na definição de temas fundamentais para as pessoas LGBTQIAPN+. Desde 2009, o
Tribunal da Cidadania já tinha precedentes no sentido da possibilidade de alteração de
registro civil para pessoas submetidas à cirurgia de transgenitalização e, em 2017, evoluiu
para entender que, independentemente da realização de cirurgia de adequação sexual, é
viável a alteração do nome e do gênero constantes no registro civil de pessoas transgênero,
desde que comprovada judicialmente essa condição.
Já em 2022, o STJ ampliou as proteções previstas na Lei Maria da Penha para os casos
de violência doméstica ou familiar contra mulheres transgênero. Na visão dos ministros
da 6.ª Turma, sendo a vítima mulher, independentemente de seu sexo biológico, e tendo
havido o cometimento da violência em ambiente doméstico, deve ser aplicada a lei
especial.
São exatamente esses precedentes judiciais que, sobretudo em razão do vácuo
legislativo, promovem atualizações normativas também no campo dos direitos
LGBTQIAPN+. Esse foi o caso do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que, em
outubro de 2020, após decisões do STF, editou a Resolução n. 348/2020, a qual passou a
prever diretrizes e procedimentos com relação à população carcerária LGBTQIAPN+.
O normativo prevê o reconhecimento de pessoas desse grupo a partir de autodeclaração, que deve
ser colhida pelo juiz em audiência, em qualquer fase do processo. Entre os direitos
previstos na resolução, está o respeito ao tratamento pelo nome social, de acordo com a
identidade de gênero; a manifestação de preferência sobre o local de cumprimento da pena,
a ser decidida pelo magistrado; o atendimento psicológico e psiquiátrico, especialmente
voltado à prevenção do suicídio; e o tratamento hormonal e a testagem regular para o vírus
HIV.
12 | CURSO IDENTIDADE DE
GÊNERO

Duda Salabert,3 ativista e uma das primeiras deputadas federais trans eleitas na história
do nosso país (juntamente com Erika Hilton), ressalva importante conquista recente em que
a possibilidade de alteração do nome e do gênero no registro civil, sem necessidade de
ação social ou da realização de transgenização, conforme foi destacado na
fundamentação da relatora, ministra Nancy Andrighi, no primeiro julgado do STJ sobre a
alteração do prenome e do designativo de sexo no registro civil de transexual, sem
alteração averbada em 2009. No Recurso Especial (REsp) 1.008.398/SP,4 a transsexual
teve o seu pleito deferido, pois havia realizado a cirurgia de transgenitalização:
Conservar o “sexo masculino” no assento de nascimento do recorrente, em favor da
realidade biológica e em detrimento das realidades psicológica e social, bem como
morfológica, pois a aparência do transexual redesignado, com tudo que se assemelha ao
feminino, equivaleria manter o recorrente em estado de anomalia, deixando de
reconhecer o seu direito de viver dignamente.
Cabe ressaltar que o entendimento de que questões centrais no estudo dos corpos e dos
gêneros referem-se ao papel das culturas, dos sistemas de significação e suas relações de
poder, uma vez que esses elementos sociais se encontram implicados na constituição dos
sujeitos, levando o estabelecimento de conexões com os estudos culturais nas vertentes
pós-estruturalistas, bem como com algumas proposições de Michel Foucault (Ribeiro,
2010; Quadrado, 2010).
O Brasil passou a ser referência mundial em termos de direitos reconhecidos para a
comunidade LGBTQIAPN+, sendo um dos primeiros países a proibir as “terapias de
conversão”, popularmente conhecida como “cura gay”, desde 1999. Apesar de ser
exemplo mundial em termos de legislação, segue sendo o país mais violento e com menos
oportunidades para as pessoas transgêneros e travestis. Passo importante foi dado,
recentemente, para os direitos e para o reconhecimento da cidadania da população
LGBTQIAPN+: o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu criminalizar a homofobia e a
transfobia, em uma decisão de 2019. Contudo, mudanças culturais que vão em direção à
inclusão e ao respeito à diversidade ainda são um desafio no país.

3. Fala da deputada federal Duda Salabert, no seminário Mulheres em Ação: contra o Preconceito e Desigualdade de Gênero,
promovido pelo Instituto de Estudos Jurídicos Aplicados (IEJA), realizado no dia 29/3/2023.
4. STJ, Terceira Turma, REsp.n. 1.008.398/SP, relatora ministra Nancy Andrighi, julgado em 15/10/2009. DJe de 18/11/2009.
CURSO IDENTIDADE DE GÊNERO|
13

Princípios conceituais do que se


denomina identidade de gênero

Falar em gênero implica a priori discorrer sobre uma identidade de gênero, a qual diz
respeito à percepção subjetiva de ser masculino ou feminino, conforme os atributos,
comportamentos e papéis convencionalmente estabelecidos para homens e mulheres no
contexto social. Evidencia-se aqui compreensão de gênero que é problematizada e
complexa por excelência na sua totalidade conceitual e histórica, a qual leva em
consideração processos sociais articulados a partir de relações que se organizam social,
política, cultural e economicamente em determinado tempo e espaço. Nessa seara, as
categorias feminismo, sexualidade e trabalho, entre outras, emergem como elementos
essenciais para a compreensão e a construção das relações sociais de gênero na
atualidade.
O interesse por gênero, classe e raça, como categoria de análise, demonstra o
compromisso de pesquisadoras e pesquisadores com a inclusão da voz dos sujeitos
excluídos, assinalando que as desigualdades de poder se estabelecem no mínimo a partir
desses três eixos principais: gênero, classe e raça. Portanto, gênero é um conceito que não
pode ser compreendido se não for articulado com a ideia de classe e com questões de
cunho étnico-racial. O conceito como tal se articula a diversos contextos e suas
especificidades. O sujeito deve ser considerado como singular, mas envolto pela
realidade sociocultural de seu tempo, em um espaço determinado que contém em si uma
história própria, mas que também é coletiva, e, portanto, não pode ser considerada de
maneira isolada das demais questões.
A elaboração do conceito de gênero dá-se em meados da década de 1980, sendo
construído por teóricas feministas em diversas vertentes que já observavam a
“vulnerabilidade dos termos mulher ou mulheres, ao trazerem em seu bojo uma força de
legitimação apoiada no corpo biológico desse sujeito” (Veiga; Pedro, 2019, p. 330). Nesse
momento, tal conceituação busca atrair olhar mais crítico sobre as relações socialmente
constituídas, que partem da “contraposição e do questionamento dos convencionados
gêneros feminino e masculino, suas variações e hierarquização social” (Veiga, Pedro,
2019, p. 330). Segundo as autoras, tais relações construídas historicamente são marcadas
por assimetria social entre homens e mulheres que perpassa os espaços e as hierarquias
do poder em determinadas sociedades, refletindo nos campos socioculturais, políticos e
econômicos.
Nesse sentido, Simone de Beauvoir, em seu clássico livro O Segundo Sexo (1970),
apresentava uma crítica ao discurso biológico universalizante construído na sociedade: “A
mulher determina-se e diferencia-se em relação ao homem e não este em relação a ela, a
fêmea é o inessencial perante o essencial. O homem é o sujeito, o absoluto; ela é o outro”
(Beauvoir, 1970, p. 10). Tal diferença é continuamente explorada pela autora na obra que
ainda coloca o que é “ser mulher”:
14 | CURSO IDENTIDADE DE
GÊNERO

É muito simples, dizem os amadores de fórmulas simples: é uma matriz, um ovário; é


uma fêmea, e esta palavra basta para defini-la. Na boca do homem o epíteto «fêmea»
soa como um insulto; no entanto, ele não se envergonha de sua animalidade, sente-se,
ao contrário, orgulhoso se dele dizem: “É um macho!” O termo “fêmea” é pejorativo,
não porque enraíze a mulher na Natureza, mas porque a confina no seu sexo. E se esse
sexo parece ao homem desprezível e inimigo, mesmo nos bichos inocentes, é
evidentemente por causa da inquieta hostilidade que a mulher suscita no homem;
entretanto, ele quer encontrar na biologia uma justificação desse sentimento.
(Beauvoir, 1970, p. 25).
A contundência das afirmativas citadas, juntamente à afirmação de que “não se
nasce mulher, torna-se” (Beauvoir, 1970, p. 5), apontava que o sexo biológico não
garantia a constituição de uma pessoa em correspondência com o gênero socialmente
construído. Aldenise Cordeiro Santos e Ada Augusta Celestino Bezerra sublinham que “a
história das mulheres foi contada pelos homens, até o momento de sua escrita” (Santos;
Bezerra, 2017, p. 3); ambas as autoras reverberam também uma preocupação de Beauvoir,
a de que “toda a história das mulheres foi feita pelos homens [...] O próprio feminismo teve
dificuldade de autonomia refletindo um drama social mais profundo” (Beauvoir, 1970, p.
151).
Para Rose Marie Muraro e Leonardo Boff (2002), a questão de gênero deve ser vista com
renovado interesse, contribuindo para o avanço sobre as discussões que se firmavam
sobre a diferença entre os sexos. No entanto, os autores sublinham que:
Não basta constatar as diferenças. É imprescindível considerar como elas foram
construídas social e culturalmente. Em particular, como se estabeleceram as relações
de dominação entre os sexos e os conflitos que suscitam; a forma como se elaboraram os
distintos papéis, as expectativas, a divisão social e sexual do trabalho; como foram
projetadas as subjetividades pessoais e coletivas. (Muraro e Boff, 2002, p. 18)
Nesse sentido, para Muraro e Boff (2000, p. 18) gênero possui uma função analítica
semelhante “àquela de classe social; ambas as categorias atravessam as sociedades históricas,
trazem à luz os conflitos entre homens e mulheres e definem formas de representar a
realidade social e de intervir nela”. Segundo os autores é relevante situar a questão de gênero
“no imenso processo biogênico e antropogênico, pois assim percebe-se melhor a sagrada
unidade da vida e o lugar nela ocupam a sexualidade e as relações de gênero”.
Gayle Rubin, no ensaio O Tráfico das Mulheres: Notas sobre a Economia Política do
Sexo (1975), propõe discussões em torno do que denominou “sistema sexo- gênero”,
pontuando e estimulando a ruptura teórica que viria na década posterior com os
preceitos apresentados pela historiadora Joan Wallach Scott, em 1988, no livro Gender
and the Politics of History – obra que passou a ser considerada um dos marcos
fundamentais para estudos de gênero como categoria de análise, especialmente, no
campo historiográfico. Joan W. Scott professora emérita do Institute for Advanced Study
– School of Social Science (Princenton) e reconhecida internacionalmente pelo seu
trabalho precursor na área dos Estudos de Gênero na
CURSO IDENTIDADE DE GÊNERO|
15

história. Seu trabalho ganhou maior visibilidade no Brasil com a tradução para o
português e a publicação do texto Gênero: uma categoria útil de análise, em 1990.
Largamente utilizado como ferramenta a uma historiografia que seja feita, também, nas e a
partir das margens, o conceito é revisitado também noutros trabalhos da autora, que
reivindica uma discussão sobre as próprias limitações nas apropriações realizadas por
pessoas interessadas na temática (Scott, 2012).
Para Joan W. Scott (1995, p. 86), “o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais
baseado nas diferenças percebidas entre os sexos: é uma forma primeira de significar as
relações de poder”. Dessa forma, o caráter relacional das definições de feminino e
masculino e a rejeição da noção de determinismo biológico, de acordo com Scott (1995,
p. 65), torna este uma categoria analítica, tal qual raça e classe, promovendo assim a
inclusão dos “oprimidos” na/pela história, como também tem possibilitado a análise da
natureza de tais opressões. Scott acrescenta:
Minha definição de gênero tem duas partes e diversas subpartes. Elas estão ligadas entre si,
mas deveriam ser distinguidas na análise. O núcleo essencial da definição repousa sobre a
relação fundamental entre as duas proposições: o gênero é um elemento constitutivo de
relações sociais percebidas entre os sexos e o gênero é um primeiro modo de dar
significado às relações de poder. [...] O gênero, então, fornece um meio de decodificar
o significado e de compreender as complexas conexões entre as várias formas de
interação humana. (Scott, 1995, p. 86).
A ideia de se utilizar do conceito de gênero para contribuir para a análise da história teve
boa receptividade por muitas historiadoras brasileiras. Viam nele, graças ao seu caráter
relacional, “possibilidades de rompimento da lógica essencialista e binária das
identidades sociais e sexuais, eixo fundante da inferioridade feminina na tradição
androcêntrica e patriarcal” como bem defende Diva Muniz (2015, p. 35). Buscando a
afirmação do feminino como sujeito, na tentativa de ampliar os espaços e dar maior
visibilidade às mulheres, o movimento de mulheres utilizou- se frequentemente dos
estudos de gênero como categoria analítica das relações sociais em suas produções e
discussões para dar força aos embates travados também nas lutas políticas e identitárias.
E é nesse sentido que entendo o uso dessa categoria neste trabalho. De acordo com Jane
Flax (1991), a problematização das relações de gênero, sem dúvida, configura-se no mais
importante avanço da e na teoria feminista no final do século XX, estabelecendo novo
paradigma para a compreensão da História.
Para Matos (1997), gênero é uma categoria que procura destacar que os perfis
masculinos e femininos se definem um em função do outro. Não se deve esquecer, ainda,
que as relações de gênero são elemento constitut ivo das relações sociais baseadas nas
diferenças hierárquicas que distinguem os sexos e são, portanto, forma primária de
relações significantes de poder. Sendo uma de suas preocupações
16 | CURSO IDENTIDADE DE
GÊNERO

evitarem-se as oposições binárias fixas e naturalizadas, os estudos de gênero procuram


mostrar que as referências culturais são sexualmente produzidas, por meio de símbolos,
jogos de significação, cruzamentos de conceitos, relações de poder, conceitos
normativos e relações de parentesco econômicas e políticas. (Matos, 1997, p. 97- 98).
É inegável que o uso do gênero como instrumento de análise gerou locomoções no
sistema de pensamento quanto à percepção de caráter normatizador que moldou o
“feminino e masculino”, ou melhor, os lugares atribuídos socialmente e culturalmente a
ambos historicamente. Segundo Cláudia Lima Costa (1998, p. 134), seria a “negação
epistemológica de qualquer tipo de essência à mulher”. No caso da história, o uso do
gênero possibilitou, ainda, “incorporar a dimensão sexual que habita nossas práticas
sociais cotidianas, até então ignoradas e/ou desconsideradas pelos estudos históricos”
(Rago, 2000, p. 37).
Importante reconhecer a relevância da problematização apontada por Cláudia Lima
Costa (1998, p. 135), para quem o uso do gênero foi simplificado, pois “ficou, por assim
dizer, focado nas relações entre homem e mulher, e não nas relações de poder que
estruturam o sistema de desigualdade e opressão”. Dessa forma, Diva do Couto Gontijo
Muniz aponta que há um consenso entre historiadoras e feministas que, contrariamente
ao buscado, reafirmou-se o “binarismo de gênero” e a “domesticação do gênero” o que
acabava por comprometer seu uso ante “o estilhaçamento do binarismo, do modo
dominante de produção do conhecimento e da estruturação das relações sociais” (Muniz,
2015, p. 35).
Para Judith Butler (2003, p. 165), o gênero “seria um meio discursivo, um conjunto de atos
reiterados no sentido de regular a sexualidade, seguindo padrões heterossexuais construídos
para simularem uma aparência de natureza”, sublinhando que “o gênero não é a interpretação
cultural do sexo” e questiona se “teria o sexo uma história?” (Butler, 2007, p. 25). Segundo a
filósofa (2007, p. 25), se “o caráter imutável do sexo é contestável, talvez o próprio constructo
chamado “sexo” seja tão culturalmente construído quanto o gênero; a rigor, talvez o sexo
sempre tenha sido gênero, de tal forma que a distinção entre sexo e gênero se revela
absolutamente nenhuma”. Nesse sentido, Alcilene Cabral de Nascimento (2019, p. 632)
instrui-nos que “a condição de ser homem ou mulher não se restringe ao sexo e nem
gênero, ultrapassando esses limites”.
A questão da igualdade de gênero vem sendo debatida socialmente com maior ênfase,
havendo, em alguns casos, a retomada de temas que vinham sendo tratados desde os
primeiros movimentos feministas da década de 1960, tais como o crescente
protagonismo feminino social, notadamente na ocupação de postos de comandos em áreas antes
reservadas para homens, levantando questionamentos quanto à importância da equidade de
gênero nas organizações e na política, e quanto à violência contra a mulher (feminicídio),
desencadeando movimentos de luta no Brasil e em outros países. Outras questões que os
movimentos feministas apontavam como fundamentais, como os direitos sexuais, a
ampliação dos debates sobre a heteronormatividade e o direito ao aborto, passaram a ser
discutidas mais amplamente nas pautas políticas e, em certo sentido, atualmente vêm
sofrendo retrocessos.
CURSO IDENTIDADE DE GÊNERO|
17

Definições conceituais

A sociedade insiste em naturalizar a ideia de que só existe homem ou mulher e impõe


que as pessoas sejam um ou outro, a partir de seus órgãos genitais. Com isso,
instituições como a família, a escola, a igreja e o trabalho passam a “moldar” as pessoas
para se tornarem exclusivamente homens ou mulheres. Como se as diferenças biológicas
– macho e fêmea – e a possibilidade tradicional de procriação humana (relações sexuais
procriativas) fossem as únicas capazes de definir os interesses afetivos e sexuais das
pessoas.
No entanto, a identidade de uma pessoa não é definida apenas pela biologia (genitália), há
também processos psicológicos (como a pessoa se percebe) e processos sociais (como
essa pessoa é percebida pela sociedade). A identidade de gênero, então, refere-se a
como a pessoa se reconhece e como ela quer ser reconhecida pelos demais. Há pessoas
que se reconhecem como mulheres, outros indivíduos que se entendem como homens e
outras pessoas que não se encaixam nessa ideia de homem ou de mulher.
Os humanos são plurais e os seus desejos também. Os interesses, tanto afetivos quanto
sexuais, são múltiplos. Há diversas formas de viver e de expressar a sexualidade, uma
diversidade sexual muito além da heterossexual. As pessoas amam e sentem atração de
diferentes formas e todas são naturais e válidas. Fazem parte da complexidade inerente aos
seres humanos.
No Brasil e em muitos outros países, as pessoas que possuem identidades de gênero e/ou
sexuais diversas dos grupos hegemônicos, sofrem com a falta de acesso a direitos
básicos e enfrentam violências cotidianas. Grupos sociais articulados contra os
preconceitos e na defesa de ser o que se quiser ser como a comunidade LGBTQIAPN+
se faz presente para que esses indivíduos possam ter núcleo de apoio mútuo, espaço em
que possam nutrir senso de pertencimento, bem como comunidade de referência para a
defesa e para a luta de seus direitos.
Para as pessoas transexuais e travestis, o direito ao uso do nome social é de extrema
importância, pois, por vezes, as suas documentações podem não ter sido retificadas, ou seja,
os seus documentos podem não estar atualizados com a mudança de nome e de gênero.
Por esse motivo, sempre pergunte como essa pessoa prefere ser chamada(o). Note que
até aqui NÃO estamos falando em sexualidade, mas de como a pessoa se percebe e
deseja ser percebida pela sociedade.
18 | CURSO IDENTIDADE DE
GÊNERO

Cisgênero e Transgênero

Há casos em que a identidade de gênero de uma pessoa está em conformidade com o gênero
que lhe foi imposto ao nascimento. Em outros casos, a pessoa sente-se pertencente a
outra identidade de gênero, diferente daquela que lhe foi atribuída ao nascimento. De
maneira geral, em relação à identidade de gênero, os seres humanos podem ser cisgêneros
ou transgêneros. Assim, podemos dizer que uma pessoa é definida como transgênero
quando sente desconforto com seu sexo biológico.
Considerando que a pessoa se sente confortável com a identidade de gênero que lhe foi
atribuída ao nascimento, denomina-se que a pessoa é cisgênero. Por outro lado, quando a
pessoa não se sente confortável com a identidade de gênero que lhe foi atribuída ao
nascimento e se identifica com outro gênero, tem-se uma pessoa transgênero.
Na dúvida sobre a identidade de gênero de uma pessoa, pergunte como ela deseja ser
chamada. Preferencialmente chame a pessoa transexual ou travesti pelo seu nome social.
Cabe aos homens trans, às mulheres trans e às travestis usarem o banheiro em que se
sintam mais seguras(os).
Cabe ressaltar a não utilização do termo “transexualismo”. O sufixo “ismo” denota uma
doença ou transtorno psiquiátrico. Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS)
publicou resolução em que retira a transexualidade como uma das categorias de transtornos
mentais, por entender que se trata apenas de uma identidade, como qualquer outra. Por esse
motivo, deve-se utilizar o termo “transexualidade”, que indica identidade de gênero:
“associados a uma identidade de gênero diversa daquela que lhe foi atribuída. Quando se
refere às mulheres trans ou travestis, a maneira correta é a utilização de um pronome
feminino. O mesmo é válido para os homens trans, cujo tratamento deve ser feito
utilizando um pronome masculino. As travestis foram historicamente estigmatizadas, por
esse motivo, ressalta-se que suas identidades devem ser reconhecidas e respeitadas. Para
um ambiente de trabalho saudável e respeitoso, lembre-se que existem palavras com
conotação pejorativa que devem ser evitadas como “traveco” . Cabe lembrar que essa
terminologia é extremamente ofensiva para mulheres trans. Atentar que a utilização
desses termos pode estar discriminando a sua colega de trabalho e incorrendo em crime
de transfobia.
CURSO IDENTIDADE DE GÊNERO|
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Trans não binários

Há pessoas transgênero que não se identificam nem como homem, nem como mulher.
Esses indivíduos rejeitam essa noção binária de masculino e feminino. Essas pessoas
são chamadas de pessoas trans não binárias.
A pessoa trans não binária pode assumir o gênero neutro, transitar entre gêneros ou
mesmo mesclá-los ( dentre outras possibilidades). Costuma-se dizer que o não binário é
um termo “guarda-chuva”, capaz de abrigar dentro de si uma infinidade de identidades de
gênero. O nome genderqueer (ou gênero queer) também é utilizado para nomear toda a
multiplicidade de identidades não binárias.
20 | CURSO IDENTIDADE DE
GÊNERO

Orientação sexual

É a atração afetiva, emocional e/ou sexual que se manifesta em relação à outra pessoa.
Não se deve utilizar a expressão “opção sexual”, pois os desejos afetivos e sexuais das
pessoas não se trata de uma escolha bem como não são passíveis de mudança. O mais
correto é utilizar a expressão «orientação sexual» para se referir à sexualidade das pessoas.
As suas relações podem ser biafetivas, heteroafetivas ou homoafetivas. Atende que a
utilização do termo “homossexualismo” é preconceituoso.
 Heterossexual ou heteroafetivo: pessoa que sente atração afetiva e/ou sexual por pessoas
do sexo/gênero oposto.
 Bissexual ou biafetivo: pessoa que sente atração afetiva e/ou sexual por pessoas de
ambos os sexos/gêneros.
 Homossexual ou homoafetivo: (gays e lésbicas): pessoa que sente atração afetiva
e/ou sexual por pessoas do mesmo sexo/gênero.
 Assexual: pessoas que não experimentam interesse sexual. Assexuais podem ou não
sentir vontade em ter relacionamentos amorosos.
 Pansexual: é o indivíduo que sente atração por pessoas independentemente do gênero
delas, de como se expressam para o mundo e de sua orientação sexual. Assim, a pessoa pan
pode se sentir atraída por pessoas heterossexuais, homossexuais, bissexuais, entre outras.
Significa que não se leva em conta a identidade de gênero para definir por quem se sente
atração ou se quer ter um relacionamento.
CURSO IDENTIDADE DE GÊNERO|
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Origens históricas da Teoria Queer

O que hoje chamamos de queer, em termos tanto políticos quanto teóricos, surgiu como
impulso crítico em relação à ordem sexual contemporânea, possivelmente associado à
contracultura e às demandas daqueles que, na década de 1960, eram chamados de novos
movimentos sociais.
Os três primeiros “ novos” movimentos sociais foram o movimento pelos direitos civis
da população negra no Sul dos Estados Unidos, o movimento feminista da chamada
segunda onda e o então movimento homossexual.
De forma geral, esses movimentos afirmavam que o privado era político e a
desigualdade ia além do econômico. Alguns, mais ousados e de forma vanguardista, também
começaram a apontar que o corpo, o desejo e a sexualidade, tópicos antes ignorados, eram
alvos e veículo pelo qual se expressavam relações de poder. A luta feminista pela
contracepção sob o controle das próprias mulheres, dos negros contra os saberes e
práticas racializadores e dos homossexuais contra o aparato médico-legal que os
classificava como perigo social e psiquiátrico tinha em comum demandas que colocavam
em xeque padrões morais. Assim, conforme Richard Miskolci (2012, p. 22).
Em termos políticos, o queer começa a surgir nesse espírito iconoclasta de alguns
membros dos movimentos sociais expresso na luta para desvincular a sexualidade da
reprodução, ressaltando a importância do prazer e a ampliação das possibilidades
relacionais.
Intelectualmente, segundo Richard Miskolci (2012, p. 22), esse impulso crítico inicial
originou obras acadêmicas dispersas em vários países, como o Brasil, a França e os
Estados Unidos. Entre os percursores da Teoria Queer, é importante citar Guy
Hocquenglen, pensador francês que, no início dos anos 1970, publicou Le désir
homossexuel, um livro sobre o papel do medo da homossexualidade na definição da
ordem político-social do presente e alguns artigos da antropóloga Gayle Rubin, em
especial seu ensaio Thinking Sex de 1984.
Após origem dispersa, e ainda pouco explorada, a política e a Teoria Queer como
conhecemos hoje se cristaliza historicamente na segunda metade da década de 1980, nos
Estados Unidos, quando o surgimento da epidemia de Aids gerou um dos maiores
pânicos de todos os tempos, associado, no caso norte-americano, a uma recusa estatal em
reconhecer a emergência de saúde pública. Ao contrário do Brasil, em que o
enfrentamento da epidemia aproximou Estado e movimento social em meio à
redemocratização vivida depois de 20 anos de governo militar, lá nos Estados Unidos
houve verdadeiro choque entre as demandas sociais e a recusa do governo conservador
de Ronald Regan em adotar quaisquer medidas.
A epidemia de Aids evidenciou os valores conservadores e os grupos sociais interessados
em manter as tradições se voltaram contra as vanguardas sociais. Dessa
22 | CURSO IDENTIDADE DE
GÊNERO

forma, parte do movimento gay e lésbico tornou-se muito mais radical, criticando os
próprios fundamentos de sua luta política. A Aids, portanto, foi um catalizador
biopolítico que gerou resistências mais astutas e radicais, materializadas no ACT UP,
uma coalização ligada à questão da Aids para atacar o poder e no Queer Nation, de onde
vem a palavra queer, a nação anormal, a nação esquisita, a nação bicha.
Vale lembrar que queer é um xingamento em inglês. Em português, dá a impressão de algo
inteiramente respeitável, mas é importante compreender que é um palavrão, um
xingamento, uma injúria. A ideia por trás da Queer Nation era a de que parte da nação foi
rejeitada, foi humilhada, considerada abjeta, motivo de desprezo e nojo, medo de
contaminação. É assim que surge o queer, como reação e resistência a novo movimento
biopolítico instaurado pela Aids.
Importante enfatizar que a problemática queer não é exatamente da homossexualidade, mas da
abjeção. Segundo Julia Kristeva (1992, p. 4), o abjeto não é simplesmente o que
ameaça a saúde coletiva ou a visão de pureza que delineia o social, mas, antes, o que
perturba a identidade, o sistema, a ordem.
Enquanto o movimento homossexual apontava para adaptar os homossexuais às
demandas sociais, para incorporá-los socialmente, os queer preferiram enfrentar o
desafio de mudar a sociedade de forma que ela lhes seja aceitável. Os queer criticavam
os valores hegemônicos, mostrando como eles engendram as experiências da abjeção, da
vergonha, do estigma.
Richard Miskolci (2012, p. 25) resume que o antigo movimento homossexual
denunciava a homossexualidade como sendo compulsória, o que podia ser também
compreendido como uma defesa da homossexualidade. O novo movimento queer voltava
sua crítica à emergente heteronormatividade, dentro da qual até gays e lésbicas
normalizados são aceitos, enquanto a linha vermelha da rejeição social é pressionada
contra outros, aquelas e aqueles considerados anormais ou estranhos por deslocarem o
gênero ou enquadrarem suas vidas ao modelo heterorreprodutivo.
O queer, portanto, não é uma defesa da homossexualidade, mas é a recusa de valores
morais violentos que instituem e fazem valer a linha da abjeção, essa fronteira
rígida entre os que são socialmente aceitos e os que são relegados à humilhação e o
desprezo coletivo.
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GÊNERO

Referências complementares

Anexo sugerimos algumas entrevistas com depoimentos, trechos filmes e


apresentação musical.
2. LGBT+60: Corpos que Resistem
3. Conversando com João W. Nery e Márcia Rocha - Sobre não-binarismo
4. Vídeo Travesti fala sobre a repressão da ditadura militar
5. MARTINHA | LGBT+60
6. Chico Buarque - Geni e o Zepelim
7. Come Back to the Five and Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean
8. Entrevista Ministro Sebastião Reis Júnior – Livro Trans Lúcida – Registro fotográfico
e de depoimentos sobre Mulher Trans em regime carcerário em SP.
9. Relato de vida de Maria Luiza dos Santos primeira mulher trans das Forças Aéreas
Brasileira.
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Área de anexos:

1. Visualizar o vídeo JOÃO NERY | LGBT+60: Corpos que Resistem

2. Visualizar o vídeo Conversando com João W. Nery e Márcia Rocha – Sobre não
binarismo

3. Vídeo Travesti fala sobre a repressão da ditadura militar

4. Vídeo MARTINHA | LGBT+60: Corpos que Resistem


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GÊNERO

5. Visualizar o vídeo Chico Buarque – Geni e o Zepelim (Ao Vivo) do YouTube

6. Visualizar o vídeo Come Back to the Five and Dime, Jimmy Dean, Jimmy Dean full HD
do YouTube

7. Entrevista Ministro Sebastião Reis Júnior - Livro Trans Lúcida

8. Relato de vida de Maria Luiza dos Santos – primeira mulher trans das Forças Aéreas
Brasileira
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Referências

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Maria Pedro; AREND, Maria Fávero (orgs.). Diversidades: dimensões de gênero e
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BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio
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KRISTEVA, Jilia. Power of horror: essay on abjection. New York: Columbia University
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MISKOLCI, Richard. Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças. 2. ed. rev. e
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Ouro Preto, 2015. Série Cadernos Diversidade.
MUNIZ, Diva do Couto Gontijo. Feminismos, epistemologia feminista e história das
mulheres: leituras cruzadas. OPSIS, Catalão, v. 15, n. 2, p. 316-329, 2015.
MURARO, Rose Marie; BOFF, Leonardo. Feminino e masculino: uma nova consciência
para o encontro da diferença. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
NASCIMENTO, Alcileide Cabral de. Historiografia e gênero. In: COLLING, Ana Maria
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RAGO, Margareth. Descobrindo historicamente o Gênero. Cadernos Pagu, Campinas/
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REIS JUNIOR, Sebastião (org.). Translúcia. 1ª ed. São Paulo, Amanuense, 2023.. 1. ed. São
Paulo: Amanuense, 2023.
RIBEIRO, Regina Costa; QUADRADO, Raquel Pereira. Gênero e diversidade na escola:
notas para a reflexão da prática docente. In: RIAL, Carmen; SILVIA, Joana Maria Pedro;
AREND, Maria Fávero (orgs.). Diversidades: dimensões de gênero e sexualidade. Ilha
de Santa Catarina: Mulheres, 2010. p. 401-419.
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GÊNERO

SANTOS, Aldenise Cordeiro; BEZERRA, Ada Augusta Celestino Bezerra. O segundo


sexo de Simone de Beauvoir: estudo acerca da construção do conceito de Mulher. In:
Encontro Internacional de Formação de Professores . Sergipe: Universidade
Tiradentes, 2017.
SCOTT, Joan W. Género y história. México: FCE, 2008.
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SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade,
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VEIGA, Ana Maria; PEDRO, Joana Maria. Gênero In: COLLING, Ana Maria Losandro;
TEDESCHI, Antônio. Dicionário crítico de gênero. 2. ed. Dourados/MS: Universidade
Federal de Grande Dourados, 2019.
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Indicações de leituras

ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE TRAVESTIS E TRANSEXUAIS DO BRASIL (ANTRA).


Dossiê assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2021 .
Brasília: Distrito Drag, ANTRA, 2022.
BENTO, Berenice Alves de Melo. O que é transexualidade . São Paulo: Brasiliense,
2018.
BENTO, Berenice Alves de Melo. Transviad@s: gênero, sexualidade e direitos
humanos. Salvador: EDUFBA, 2017.
GAUDENZI, Paula. Intersexualidade: entre saberes e intervenções. Cadernos de Saúde
Pública [online], v. 34, n. 1, 2018, p. 2-11.
LANZ, Letícia. O corpo da roupa: a pessoa transgênera entre a transgressão e a
conformidade com as normas de gênero. Dissertação de mestrado, Curitiba,
Universidade Federal do Paraná, 2014.
LOURO, Guacira Lopes. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Trad. Tomaz
Tadeu da Silva. 4. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.
LOURO, Guacira Lopes. Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria
queer. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2018.
OVERVIEW (Asexuality). The asexual visibility and education network (AVEN).
Disponível em: . Acesso em: 3 mar. 2022.
PRECIADO, Beatriz. Manifesto contrasexual. Barcelona: Anagrama, 2011.
REIS, Toni (org.). Manual de Comunicação LGBTI+. 2. ed. (online). Curitiba: Aliança
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RUBIN, Gayle. Thinking sex: notes for a radical theory of the politics of sexuality. In:
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VIEIRA, Helena et al. Transfeminismo: explosão feminista: arte, cultura, política e
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WITTIG, Monique. El pensamento heterossexual y otros ensaios. Madrid: Eagles,
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