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Fragmenta Historica: Estudos e Documentos

O documento é uma ficha técnica da revista 'Fragmenta Historica', que aborda temas de História, Paleografia e Diplomática, com artigos e estudos de diversos autores. O editorial discute a importância de documentos históricos e a relevância de novas descobertas na área. A publicação inclui uma série de documentos históricos e análises relacionadas ao patrimônio e à administração régia em Portugal.

Enviado por

Rafael
Direitos autorais
© All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Fragmenta Historica: Estudos e Documentos

O documento é uma ficha técnica da revista 'Fragmenta Historica', que aborda temas de História, Paleografia e Diplomática, com artigos e estudos de diversos autores. O editorial discute a importância de documentos históricos e a relevância de novas descobertas na área. A publicação inclui uma série de documentos históricos e análises relacionadas ao patrimônio e à administração régia em Portugal.

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inaH

1
FICHA TÉCNICA
Título
Fragmenta Historica – História, Paleografia e Diplomática
ISSN
1647‐6344
Editor
Centro de Estudos Históricos
(financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia)
Director
João José Alves Dias
Conselho Editorial
João Costa: Licenciado em História pela FCSH/NOVA. Mestre em História Medieval pela FCSH/NOVA.
Doutorando em História Medieval na FCSH/NOVA
José Jorge Gonçalves: Licenciado em História pela FCSH‐NOVA. Mestre em História Moderna pela
FCSH/NOVA. Doutor em História Moderna pela FCSH/NOVA
Pedro Pinto: Licenciado em História pela FCSH/NOVA
Conselho Científico
Fernando Augusto de Figueiredo (CEH‐NOVA; CHAM – FCSH/NOVA-UAç)
Gerhard Sailler (Diplomatische Akademie Wien)
Helga Maria Jüsten (CEH‐NOVA)
Helmut Siepmann (U. Köln)
Iria Vicente Gonçalves (CEH‐NOVA; IEM – FCSH/NOVA)
João José Alves Dias (CEH‐NOVA; CHAM – FCSH/NOVA-UAç)
Jorge Pereira de Sampaio (CEH-NOVA; CHAM – FCSH/NOVA-UAç)
José Jorge Gonçalves (CEH-NOVA; CHAM – FCSH/NOVA-UAç)
Julián Martín Abad (Biblioteca Nacional de España)
Maria Ângela Godinho Vieira Rocha Beirante (CEH-NOVA)
Maria de Fátima Mendes Vieira Botão Salvador (CEH-NOVA; IEM – FCSH/NOVA)
Design Gráfico
João Carlos Timóteo
Índices
João Costa
Imagem de capa
Assinatura régia autógrafa de D. Manuel I, Foral de Vouga, Lisboa, [Colecção Particular], 1514.03.18.

2
SUMÁRIO
Imagem da capa: A assinatura régia: a tinta-ouro escreve o Rei, p. 7
João Alves Dias

ESTUDOS
Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva
(1519-1565), p. 11
Helga Jüsten
Património, Casa e Patrocínio: Uma Aproximação ao Senhorio do Infante D. Fernando (1530-
1534), p. 39
Hélder Carvalhal

MONUMENTA HISTORICA
Carlos Silva Moura, João Costa, José Jorge Gonçalves, Nunziatella Alessandrini, Pedro Pinto, Roger Lee
de Jesus, Tiago Machado de Castro
Escambo de uma casa na Rua das Alcáçovas em Évora por uma vinha em Xarrama (1307), p. 69
Venda de um quarto de casas junto à Alcáçova de Évora (1312), p. 71
Treslado em pública-forma de um contrato de aforamento de um pardieiro na cidade de Évora
feito por João César e Constança Vasques a Domingos Bueiro e Constança Eanes (1322|1376),
p. 73
Pública-forma de carta régia de D. Afonso IV sobre o cumprimento de uma verba do
testamento de D. Dinis (1336), p. 77
Testamento de Vasco Afonso, morador em Évora (1346), p. 81

LISBOA
2014

3
Emprazamento de pardieiro em Évora a Mestre João, físico de Córdoba (1374), p. 85
Instrumento de tomada de posse de Estêvão Vasques de Góis da Quintã de Pedra Alçada,
Monsaraz (1375), p. 87
Instrumento público de partilha dos bens de João Tomé (1383), p. 91
Partilha de herança de Nicolau Joanes, de Évora (1385), p. 95
Aforamento de vinhas no Calhariz (Lisboa, 1390), p. 97
Venda de herdade em Redondo (1397), p. 99
Encampação de vinha no Calhariz de Lisboa a João Eanes, pedreiro e mestre das obras do
concelho (1405), p. 101
Encampação de pardieiro no Redondo pertencente a Leonor Gonçalves da Silveira (1414), p. 105
Venda de uma herdade em Évora-Monte (1423), p. 107
Sentença de D. Afonso V num pleito entre o Cabido da Igreja de Santa Maria de Guimarães e
Fernão Vasques da Cunha (1438), p. 109
Inventário de todos os bens móveis e de raiz pertencentes à igreja de Nossa Senhora, matriz
da vila de Góis (1552), p. 117
Certidão da artilharia das fortalezas do Estado da Índia (1553), p. 129
Tombo de capelas instituídas na vila de Castelo Branco e seu termo (s.d.), p. 139
Testamento de Bartolomeu Ginori, homem de negócios em Lisboa e provedor da irmandade
da igreja de Nossa Senhora do Loreto de Lisboa (1723), p. 151
Relação do Forte Real de S. Filipe na Ilha de Santiago, Cabo Verde (1750), p. 159

ÍNDICES
Índice cronológico dos documentos publicados neste número, p. 174
Índice antroponímico e toponímico deste número, p. 175

4
EDITORIAL

Por vezes os milagres acontecem! Por isso podem ser classificadas de milagres as surpresas
extraordinárias e agradáveis que a vida vai proporcionando, depois de se perderem as esperanças.
Como pode um texto impresso revelar-se como inédito se já era édito desde que fora publicado?
Existem muitos preconceitos na História. Alguns historiadores defendem que só os documentos
manuscritos e que ainda se conservam inéditos podem revelar factos inteiramente desconhecidos ao
Homem hodierno. Entendem que o manuscrito revela uma comunicação pessoal (que nem sempre é
escrita para um destinatário – caso de um diário) e por isso até uma simples carta enviada a outro,
embora passe a ser propriedade do destinatário, não pode ser divulgada sem autorização do signatário,
nem o seu autor (a quem pertence a propriedade intelectual) a pode divulgar sem a autorização do
destinatário.
Todo o interessado conhece a estória de muy nobre Vespasiano emperador de Roma (um dos raros
livros impressos em Lisboa no ano de 1496) e as vicissitudes por que a edição passou por,
aparentemente, só ter sobrevivido um exemplar e mesmo esse se encontrar incompleto, dado lhe
faltarem os primeiros três fólios. O texto e a história são conhecidos a partir de outras fontes. O que se
tinha como desconhecido, e por isso inédito, eram as gravuras que acompanhavam os dois primeiros
capítulos e possivelmente a portada. Na época todos os interessados as viram mas depressa passaram
para o mundo do desconhecimento.
Uma investigadora do Centro de Estudos Históricos olhou com um outro olhar – para um outro livro,
também não inédito Cronica llamada el triunpho de los nueve preciados da la fama (Lisboa, Germão
Galharde, 1530) – e viu o que os outros até então não tinham identificado: uma das gravuras perdidas
(e que se julgavam desconhecidas para sempre) daquelas duas ou três que faltavam na obra impressa
mais de três décadas antes. Parafraseando Lavoisier: nada se perde tudo se transforma!
O outro milagre é a continuação da Fragmenta Historica. O Conselho Editorial recebeu vários artigos
mas nem de todos foi possível fazer a edição. Recorde-se que Fragmenta Historica não é apenas mais
uma revista de divulgação de trabalhos de História. Como diz o Editorial do primeiro número: a sua
base para os seus estudos é (e procuraremos que seja sempre a constante do futuro) o documento: puro,
duro, sólido e concreto. Os textos em língua estrangeira encontram-se limitados a investigadores para
quem a língua portuguesa não seja a sua língua materna e oficial e, mesmo esses, têm forçosamente de
ter como base o documento. Depois disso, todos os artigos são sujeitos a arbitragem científica externa –
e isto é uma injustiça para com os três jovens que constituem o Conselho Editorial pois, eticamente,
encontram-se impedidos de escrever artigos para uma revista onde seriam eles próprios a escolher a
equipa da arbitragem. Assim, a sua colaboração, como a do Diretor da Revista, está limitada à
divulgação de documentos, ao editorial, à escolha do documento que ilustre a capa e à sua explicação e,
tarefa difícil mas fundamental e importante: a elaboração de um índice analítico. Mas são uma equipa
que sabe conjugar Fraternidade, porque acreditam na História e no Homem.

João Alves Dias

5
6
IMAGEM DA CAPA
A assinatura régia: a tinta-ouro escreve o Rei

João José Alves Dias

Quase tudo já foi dito, redito e glosado (por vezes com erros grosseiros) quando se fala e escreve sobre
a reforma dos forais que Fernão de Pina coordenou e produziu seguindo as diretivas dos reis a que
serviu: D. João II e D. Manuel.
Analisada a documentação que sustentava a cobrança dos direitos reais1 em cada unidade
administrativa2 independente3, Fernão de Pina propunha uma redação final de tudo quanto tinha sido
apurado e – após a concordância do Chanceler Rui Boto – produziam-se dois documentos4 que eram

1
A documentação tinha origem diferenciada: nuns casos, os forais dados até ao século XIV (alguns hoje desconhecidos); em
outros, os foros – usos e costumes – estabelecidos e aceites pelo município (que por vezes se foram modificando e que
nem sempre subsistiram); noutros, ainda, a documentação base foi produzida com a realização de inquéritos, de sentenças,
de tombos e de contratos notariais produzidos entre os vizinhos de cada núcleo administrativo.
2
As delimitações das unidades administrativas poderiam variar, embora em escala diminuta, e ter ou não independência
territorial (separando-se, juntando-se ou autonomizando-se) em função das diferentes jurisdições: fiscais, administrativas,
judiciais e até senhoriais. Os mapas não se sobrepõem conforme muitas vezes se tem dito, escrito e representado – tenha-
se como exemplo a terra do Ribatejo no termo de Palmela (João José Alves Dias, O Foral de Aldeia Galega de 1514, Montijo,
Câmara Municipal, 2014). Lembrem-se as variações registadas no preâmbulo (protocolo) da documentação aquando do
endereço (inscriptio) na documentação (com origem diferente) enviada a uma mesma unidade administrativa.
3
Em função das diferentes Contadorias do Reino, porque era de direitos fiscais que se tratava. Por isso existirem
“concelhos”, “vilas” ou outras unidades (com diferentes designações) que aparentemente não foram contemplados com
forais. Luís Fernando de Carvalho Dias, no fim de cada um dos cinco volumes que publicou com o registo – ou memória –
que a Torre do Tombo guardou da produção dos forais, chama a atenção para os “concelhos” existentes entre 1527-1532,
que não têm o seu foral registado (o que não quer dizer que em um ou outro caso não tenha existido e que, por razões que
hoje nos escapam ainda, tão somente não tivesse sido copiado no registo). Na maioria das vezes, a administração dos
Direitos Reais – recorde-se mais uma vez que é disso que tratam os forais quinhentistas – dessas unidades, que
aparentemente escaparam, não se colocava por terem espaços «em comum» com outra, ou outras, unidades territoriais.
4
Ao contrário, também, do que se tem dito e redito – e ao arrepio do que a documentação aparentemente possa induzir –
não foram produzidos três forais idênticos (de um mesmo teor e aparência). Foram, sim, feitos, no máximo, três

7
apresentados na Chancelaria Régia que os selava, validava e ao mesmo tempo fazia com que
recebessem o sinal régio de autenticação5. Só depois desta confirmação régia é que Fernão de Pina
autografava o auto de encerramento do foral. Antes esse auto ficava em aberto porque caso houvesse
emendas ou acrescentos de última hora estes poderiam ser adicionados, mesmo depois da data. Se o
Rei não tivesse deixado em branco um espaço suficiente para as duas ou três linhas do autógrafo de
encerramento, Fernão de Pina não se coibia de o escrever no lugar certo mesmo que com isso tivesse
de escrever e de assinar sobre a assinatura régia (recorde-se, entre muitos casos, o do foral assinado a
15.1.1515 para as vilas de Alcochete e Aldeia Galega).

Um dia, olhando num ângulo em que se via a luz solar rasante à assinatura régia que autenticava um
foral, reparámos que a assinatura produzia reflexos desse mesmo raio, “ganhando” luz. Testado com
mais uns quantos, foi com alegria que confirmámos que pelo menos os originais dos forais produzidos
nos anos de catorze e quinze do século de quinhentos apresentavam todos – desde que não tivessem
sido mal restaurados – os mesmos reflexos. O ouro tinha sido a substância metálica usada – na
produção da tinta com que o monarca assinava – para dar à goma a fluidez e consistência necessárias.

documentos, ou melhor três versões ou formas do foral: uma, para a unidade administrativa; outra, para o senhor dos
direitos reais (donatário); e uma terceira, que ficava na Coroa, como sede da administração central nos seus vários ramos
(no caso presente a Fazenda e Contadoria) destinada à resolução de conflitos. Mas, no que respeita às unidades
administrativas em que os direitos reais fossem exclusivamente régios só se produziam duas formas dessa documentação,
uma para o «concelho» e outra para a Coroa. Mas (e existe sempre mais um mas, quer na História, quer nas estórias), em
qualquer dos casos, a forma física do foral (aparência final e diplomática) que ficava para a Coroa não era idêntica à que era
entregue à administração local e ao donatário; e, por vezes, poderia ainda haver diferenças, no que ao seu programa
decorativo diz respeito, entre o foral do donatário e o da unidade administrativa. Existem, ainda, formas aparentes de
forais coletivos, comuns a várias unidades administrativas, que apenas o foram na forma do donatário e coroa e que foram
individualizados quando entregues ao local a que respeitavam. [Estamos, em conjunto com Pedro Pinto, a organizar um
volume com toda a diplomática dos forais].
5
Face à doutrina exposta na nota anterior, muitas vezes, só existiu, de um mesmo foral, um exemplar completo dotado de
assinatura régia.

8
A mesma assinatura régia com diferentes ângulos de incidência de raio solar.

A assinatura – sinal régio – que acompanha os forais originais é um autógrafo escrito pelo monarca,
com uma tinta composta de ouro... A escrita apresenta-se-nos clara, como se de um fio de ouro se
tratasse e, por isso, pouco se realça no pergaminho hoje amarelecido pelo consumo do tempo. Mas ao
Sol o ouro ainda reluz!

Fontes
Foral de Alcochete e de Aldeia Galega do Ribatejo, 1515, Lisboa, Janeiro, 17 (Alcochete, Museu
Municipal de Alcochete, Pergaminho 319).
Foral de Vouga, 1514, Lisboa, Março, 18 (Lisboa, [Coleção Particular]).

9
10
ALGUMAS ACHEGAS SOBRE O MATERIAL TIPOGRÁFICO DA OFICINA DE
GERMÃO GALHARDE E DE SUA VIÚVA
(1519-1565)
Helga Jüsten
CEH – NOV

Resumo Abstract
O presente artigo pretende dar conta de uma The present article intends to summarize an
investigação em curso sobre a oficina do ongoing research about the printing office of
impressor Germão Galharde. Germão Galharde.
Com base no seu material tipográfico usado Based on his printing material used between
entre 1519 a 1565, ou herdado dos seus 1519 and 1565, inherited by the predecessors
antecessores Valentim Fernandes, João Pedro Valentim Fernandes, João Pedro de Bonhomini
de Bonhomini, tem sido possível, por um lado, and Hermão de Campos, it has been possible, on
atestar a continuidade e longevidade dos tipos, one side, to prove the continuity and long life of
das iniciais, das tarjas e das gravuras, como, por the type, initials, borders and woodcuts, as well
outro, demonstrar a inovação própria do as to demonstrate the innovation of the french
impressor francês. printer.
A base de dados do material tipográfico da The data-base of the printing material used by
oficina de Germão Galharde, em construção, Germão Galharde, being in progress, served to
tem permitido atribuir impressos sine notis, de ascribe sine notis imprints, of which we choosed
que escolhemos dois casos porventura mais two representative editions that will integrate
representativos de novos impressos que his production, printed in his own name or his
passaram a integrar a sua produção, em seu widow.
nome e de sua viúva.
The intention was, indeed, to stress the need of
Com efeito, sublinha-se a necessidade de haver a digitized documentary corpus in order to serve
um corpus documental digitalizado como as an auxiliary instrument during the
ferramenta auxiliar na observação presencial, na observation, in loco, the analysis and the
análise e na descrição das espécies. description of imprints.

Palavras-chave Keywords
Germão Galharde, 1519-1565, Material Germão Galharde, 1519-1565, Printing Material,
Tipográfico, Tipografia Portuguesa, Impressos Portuguese Typography, sine notis imprints,
sine notis, Corpus documental Documentary corpus

Artigo recebido em: 09.09.2014 | Artigo aceite para publicação em: 21.11.2014

© Fragmenta Historica 2 (2014), (11-38). Reservados todos os direitos. ISSN 1647-6344

11
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
No vasto universo de investigação sobre a Com efeito, e na sequência do nosso trabalho
História do Livro, em que diversas áreas de anterior7, optamos por seguir o percurso do
especialização se costumam cruzar, convém impressor, desde o seu início até à década de 60
situar o que se pretende abordar nestas do século XVI, centrado nas obras que nos
achegas, sempre provisórias, sobre uma das legou.
oficinas tipográficas portuguesas em
Deste modo, reunimos a área da bibliografia,
funcionamento entre 1519 e 1565.
com uma descrição detalhada dos impressos e
A ausência de novos dados biográficos sobre o das suas variantes, a tipografia, analisando o
impressor Germão Galharde, francês, inviabiliza, material tipográfico usado nas edições saídas de
por enquanto e à semelhança do que sucede cada oficina, designando como notícia
com os seus predecessores no ofício, tipobibliográfica o resultado de cada espécie
contributos inovadores que pudessem observada. O objectivo último, ou porventura o
desenvolver informações anteriores relativas “último fim do homem”, centra-se na vontade
aos primeiros tipógrafos activos em Portugal6. de disponibilizar, em simultâneo, as descrições
tipobibliográficas e um corpus documental
digitalizado do material tipográfico usado, desde
o início da tipografia portuguesa. Pretende-se,
portanto, que o acervo em elaboração permita,
numa sequência cronológica, analisar e
6 comparar a “vida útil” dos tipos, das iniciais e
Numa perspectiva cronológica seguem algumas
referências sobre os estudiosos da História do Livro e de restante iconografia dos impressos
bibliógrafos que, entre outros, se debruçaram sobre os portugueses.8
primeiros impressores portugueses:
António Ribeiro dos Santos, “Memória sobre as Origens
Para este trabalho escolhemos alguns exemplos
da Typographia em Portugal no Século XV”, in Memórias representativos de um fundo de investigação
de Litteratura Portuguesa, Tomo VIII, Lisboa, Typographia em curso, demonstrando curiosidades e
da Academia Real das Sciencias, 1856, 2ª ed.,. evidenciando a utilidade de imagens
Diogo Barbosa Machado, Bibliotheca Lusitana historica, digitalizadas do material tipográfico quando
critica e chronologica na qual se comprehende a notícia
dos authores Portuguezes, e das Obras, que compuserão
inseridas numa série cronológica.
desde o tempo da promulgação da Ley da Graça até o Partindo, pois, do corpus documental publicado
tempo prezente4 vols., Coimbra, Atlântida Editora, 1965-
anteriormente, é possível atestar a herança
1967, 3.ª ed..
Tito de Noronha, A imprensa portuguesa durante o século tipográfica que os antecessores,
XVI, Porto, Imprensa Portuguesa, 1874. designadamente Valentim Fernandes, mas
Venâncio Deslandes, Documentos para a História da também João Pedro de Bonhomini e Hermão de
Tipografia Portuguesa nos Séculos XVI e XVII, edição fac- Campos, passaram para a oficina de Germão
similada, introdução de Artur Anselmo, Lisboa, Imprensa
Galharde, que iniciou a sua actividade em 1519,
Nacional-Casa da Moeda, 1988.
J. J. Gomes de Brito, Notícia de Livreiros e Impressores em seguramente com a edição firmada de o Tratado
Lisboa na 2ª Metade do Século XVI, Lisboa, Imprensa de d’Arismetyca, impressa em Lisboa.
Libânio da Silva, 1911.
Sousa Viterbo, O movimento tipográfico em Portugal no
século XVI, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1924.
António Joaquim Anselmo, Bibliografia das Obras
Impressas em Portugal no Século XVI, Lisboa, Bibliotheca
Nacional, 1926.
7
José V. de Pina Martins, “Um opúsculo de medicina Helga Maria Jüsten, Incunábulos e Post-Incunábulos
desconhecido pelos bibliógrafos: Modus curandi cum Portugueses, (ca. 1488-1518), (Em Redor do Material
balsamo”, in Revista da Biblioteca Nacional, Lisboa, 2ª Tipográfico dos Impressos Portugueses), Lisboa, Centro de
série, vol. 2, nº 2, 1987, pp. 15-25. Estudos Históricos, Universidade Nova de Lisboa, 2009.
8
Artur Anselmo, Origens da Imprensa em Portugal, Lisboa, Como parênteses, serve para esclarecer que sempre
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981. excluímos do nosso objecto de investigação a imprensa
João José Alves Dias, No Quinto Centenário da Vita em hebraico pelo facto de não dominarmos a língua, o
Christi, Lisboa, Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, que, por si só, inviabiliza o acesso à essência, i.e., à leitura
1995. dos textos a descrever.

12
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

1. – Descobertas – ou curiosidades – do parque


gráfico anterior e que passou para a oficina de
Germão Galharde e de sua viúva
1.a) [Estoria do muy nobre Vespasiano
imperador de Roma], Lisboa, Valentim
Fernandes, 1496
Quando analisámos, há quase uma década, os
impressos de Valentim Fernandes, reparámos
em dois aspectos que se gravaram na memória.
O primeiro prende-se com o facto de faltarem
os fólios a1-a3 ao único exemplar conhecido da
Cronica llamada el triunpho de los nueve preciados
edição da [Estoria do muy nobre Vespasiano
de la fama (...), Lisboa, Germão Galharde, 1530,
imperador de Roma], Lisboa, Valentim
Fernandes, 20.4.1496, (cf. Jüsten, 16).9 Sublinha- 4º Libro, folio lvi, recto [cópia digital do exemplar
se que a experiência e o contacto com o livro da BNP, Res. 3736 V; [Link]. 14549]
antigo ensinam que fólios iniciais são arrancados Portanto, passados 34 anos, a gravura do
com frequência, nomeadamente quando
Vespasiano em falta surge, então, na edição da
apresentam gravuras, o que poderia ter
Cronica llamada el triunpho de los nueve
acontecido à edição em apreço. Mas, até há
preciados da la fama (...), impressa em Lisboa,
bem pouco tempo, a possibilidade de encontrar
por Germão Galharde em 26.6.1530. Com
outro impresso que usasse a série de 20
medidas [66 x 98 mm] idênticas às restantes
gravuras (cf. JAD. G. 10-29)10, introduzida por
gravuras da série inicial, a recém-descoberta
Valentim Fernandes em 1496, era apenas uma
junta-se, nesta Crónica e como se pode ver pelas
hipótese sem confirmação à vista, dado que a
imagens seguintes, às “irmãs” que, por herança,
edição sobreviveu apenas como exemplar único
passaram a integrar, com o fim da actividade
à guarda da BNP. No entanto, as “alegrias” do
firmada pelos impressores Valentim Fernandes,
bibliógrafo, como dizia Antonio Odriozola11,
João Pedro de Bonhomini e Hermão de Campos,
embora pouco frequentes, representam
o fundo iconográfico da oficina de Germão
momentos de estímulo e partilha intelectual.
Galharde e de sua viúva.
Com efeito, fica registada a descoberta de mais
uma gravura da série acima mencionada e que,
pela figura do Imperador em majestade,
representando provavelmente Vespasiano,
poderia ter constado da portada da edição de
1496, impressa por Valentim Fernandes.

9
Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...), pp. 183-186, 488-
491. JAD, G. 20 »
10
João José Alves Dias, No Quinto Centenário, [pp. 110-
116] e confrontar também Artur Anselmo, História da Cronica llamada el triunpho de los nueve preciados
Edição em Portugal. I. Das Origens até 1536, Porto, Lello de la fama (...), Lisboa, Germão Galharde, 1530,
& Irmão, 1991, p. 169.
11
Antonio Odriozola Pietas, “Alegrias y tristezas de la
investigación sobre impresiones españolas de los siglos
XV e XVI”, Separata de Homenaje a Pedro Sainz
Rodriguez, Madrid, Fundación Universitaria Española,
1986, pp. 67-91.

13
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
funcionamento das primeiras oficinas
tipográficas em Portugal.
Por isso, cabe-nos a grata tarefa de comunicar
que a gravura do 12º apóstolo, ou seja, o
apóstolo S. Filipe, afinal existia.

JAD, G. 18 »
Cronica llamada el triunpho de los nueve preciados
de la fama (...), Lisboa, Germão Galharde, 1530,
6º Libro, folio cxlviij, recto [cópia digital do
exemplar da BNP, Res. 3736 V; [Link]. 14549]
1.b) O compromisso da confraria de
Misericordia, Lisboa, [Valentim Fernandes e
Hermão de Campos], 20.12.1516
O segundo caso, motivo de uma perplexidade
quase inexplicável durante muito tempo,
prende-se com o facto de a edição de O
compromisso da confraria de Misericordia,
Lisboa, Valentim Fernandes e Hermão de
Campos, 1516, (Jüsten, 35)12 apresentar, no fl.
4r, as gravuras JAD, G.49 - G.59, i.e., as imagens
de apenas 11 apóstolos. Na identificação dos [cf. João José Alves Dias, No Quinto Centenário da
apóstolos, e pelos símbolos normalmente Vita Christi, Lisboa,
atribuídos13, faltava a figura do apóstolo S. Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1995,
Filipe, segurando o báculo com a cruz e, na (p. 123-124)]
outra mão, um livro.
Com efeito, a gravura de S. Filipe surge, pela
A ausência da 12ª imagem representando S. primeira vez, na edição da obra de Lourenço
Filipe, numa edição de Valentim Fernandes e Iustiniano, [Ho liuro da regra e perfeiçam da
Hermão de Campos, de 1516, não era fácil de conversaçam dos monges], Coimbra, Germão
explicar, a não ser por qualquer incidente Galharde, 28.4.1531, aproximando-se das
durante o processo de impressão. Aliás, contra a medidas [55 x 38 mm] quando comparadas com
vontade dos investigadores que gostariam de os restantes blocos de madeira, em boas
ter um acesso documentado e pormenorizado condições de conservação, i.e.: JAD, G.49,54-59.
ao universo da composição e impressão, Para além da dimensão do bloco de madeira, o
acontecimentos estranhos continuam a desenho do chão da recém-descoberta gravura
esconder-se nesse “vasto mundo” do de S. Filipe é comparável à gravura JAD, G. 52.
Neste impresso de Germão Galharde da obra de
12
Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...) pp. 255-259, 494 e Lourenço Iustiniano, [Ho liuro da regra e
João José Alves Dias, No Quinto Centenário, [pp. 123- perfeiçam da conversaçam dos monges],
124]. realizado em Coimbra, aos 28.4.1531, os 12
13
Otto Wimmer, Kennzeichen und Attribute der Heiligen, apóstolos enquadram-se, na perfeição, à volta
Innsbruck-Wien, Tyrolia-Verlag, 1983, pp. 13-14 e
Klementine Lipffert, Symbol-Fibel, Kassel, Johannes
Stauda-Verlag, 1956, p. 84.

14
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

de uma gravura do Calvário (cf. HMJ, G. 77)14,


proveniente da oficina de João Pedro de
Bonhomini e usada na impressão de Este he o
liuro e legenda dos santos martires, Lisboa, João
Pedro de Bonhomini, 17.8.1513.

Statutos e Constituicoes [sic] dos virtuosos e


reuerendos padres Conegos azuys,
Lisboa, Germão Galharde, 25.8.1540,
fl. 4v; [BNP, Res. 106 A]
Loureno Iustiniano, [Ho liuro da regra e perfeiçam
da conversaçam dos monges],
2. – O acervo gráfico – ou uma base de dados de
Coimbra, Germão Galharde, 28.4.1531, fl. 1v;
imagens digitalizadas – uma ferramenta para a
[BNP, Res. 166 A, [Link] 16678] identificação de impressos sine notis
Posteriormente, o mesmo conjunto de 12 Um percurso por diversas obras de referência na
apóstolos aparece ainda, embora com uma descrição bibliográfica das espécies, sempre
disposição diferente, na edição dos Statutos e concentrado na tipografia portuguesa, e tanto
Constituicoes [sic] dos virtuosos e reuerendos no que se refere a colecções públicas como
padres Conegos azuys, Lisboa, Germão privadas, reflecte a preocupação em transmitir
Galharde, 25.8.1540. pormenores de cada exemplar, quando
observado presencialmente. Assim, a
metodologia adoptada por parte de bibliógrafos
experientes, dedicados e pacientes, tem por
objectivo identificar e individualizar o respectivo
impresso – ou distingui-lo – quando comparado,
ou comparável, com outras espécies em
bibliotecas distantes.
Não restam dúvidas de que o apuramento na
14
Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...), pp. 274-277, 501. descrição gráfica dos impressos evoluiu com o

15
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
próprio aperfeiçoamento da análise ao longo da sua vida útil na mesma oficina,
bibliográfica, designadamente na segunda entendemos que, nesta segunda fase de
metade do século XX e numa área de investigação, seria necessário documentar o
investigação dedicada à tipobibliografia15. conjunto do acervo gráfico que, ao longo do
presente trabalho sobre a oficina de Germão
Contudo, e apesar do esforço na descrição do
Galharde, se nos gravou na memória visual.
material tipográfico das espécies observadas, o
Trata-se, porventura, de um imperativo ético na
resultado da representação ”visual” do
transmissão, às futuras gerações de
respectivo impresso surge sempre de forma
investigadores, de um manancial de imagens
subjectiva, quer pela qualidade da formulação
que, objectivamente e sem imodéstia, leva anos
quer pelos pormenores seleccionados. Com
a construir de forma fidedigna e inteligível.
efeito, a hipótese de transmissão objectiva do
conjunto da memória visual acumulada ao longo Apesar de a metodologia da análise bibliográfica
da vida, por diferentes bibliógrafos, é, afinal, definir regras para a observação das espécies,
uma miragem se comparada com a riqueza que sucede que ela não anula a margem de
se perdeu, definitivamente, nos “túmulos dos subjectividade na descrição dos impressos,
bibliógrafos”, com prejuízos enormes para a aconselhando-se o confronto com a realidade
investigação, se atentarmos na acumulação de objectiva da imagem representada e, de
saberes e na memória individual de pormenores preferência, digitalizada. Daí a necessidade de
que não se transmitiu aos vindouros. uma base de dados de acervos gráficos,
promovendo a partilha continuada da memória
Embora com as devidas cautelas relativamente à
individual, a fim de apoiar tanto a investigação
consulta digital dos impressos, disponibilizados
presente como transmiti-la a futuras gerações
electronicamente, é forçoso reconhecer que a
de investigadores.
consulta de imagens – em tempo real -
contribuiu significativamente para uma Com efeito, uma base de dados do acervo
investigação mais documentada do livro antigo. gráfico da tipografia portuguesa, acessível
Sem substituir, de todo, a consulta presencial electronicamente, além de permitir o confronto
dos exemplares, uma base digital de impressos na consulta de exemplares espalhados por
permite, contudo, voltar a ver e aferir bibliotecas diversas – nacionais, estrangeiras,
pormenores que, numa primeira consulta ao públicas ou privadas – representa uma
vivo, escaparam à atenção do investigador, por ferramenta elementar na identificação de
motivos vários de carácter subjectivo da impressos sine notis.
consulta.
Como a riqueza da memória visual, atendendo à
Dito isto, e tendo em atenção o primeiro estudo sua extensão, não exclui a subjectividade no
em que procurámos transmitir um corpus momento em que se observa um novo
documental restrito à primeira ocorrência do exemplar, e sem as imagens de espécies
material tipográfico, sem atender à sua evolução anteriormente observadas em presença,
sujeitamo-nos ao crivo da nossa capacidade
individual – e subjectiva – ao pretender
15
Para os impressos no espaço ibérico salientamos as identificar todos os pormenores da espécie em
obras de: apreço. Convenhamos que não é matéria
João José Alves Dias, “Nova Forma da Transmissão do
«Verbo» - A Imprensa”, in Portugal do Renascimento à
infalível.
Crise Dinástica, coord. de João José Alves Dias, vol. V da Mais difícil se torna no caso de impressos sine
Nova História de Portugal, dir. Joel Serrão e A. H. de
Oliveira Marques, Lisboa, Editorial Presença, 1998, pp.
notis, em que é necessário o recurso a imagens
489-504 e No Quinto Centenário da Vita Christi, Lisboa, do material de diversas oficinas tipográficas, em
Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, 1995. funcionamento numa determinada data, para
Julián Martín Abad, Post-Incunables Ibéricos, Madrid, uma determinação, sempre provisória, do local,
Olleros & Ramos, 2001. do editor e da data de impressão.
John Frederick Norton, A descriptive catalogue of printing
in Spain and Portugal (1501-1520), Cambridge,
Cambridge University Press, 1978.

16
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

Seleccionamos dois casos para documentar o impresso. Apenas recentemente, e como tem
que se acabou de afirmar. sucedido com outros apoios recebidos ao longo
da nossa investigação graças a partilhas
científicas fraternas, deslocámo-nos à Biblioteca
2.a) A muyto deuota oraçam da de Extremadura, em Badajoz, iniciando, com
Empardeada16 [OE] base na edição fac-similada da OE, o percurso de
identificação do impresso.
Formato: 16º
Relativamente ao conteúdo do impresso
Colação: a-b8, 16 fl. [32 p.]; Errata na assinatura
convém esclarecer que a obra intitulada A
eiij [= a3]
muyto deuota oraçam da Empardeada. Em
Proposta de identificação para o impresso sine lingoagem portugues, em diante identificada
notis: com a sigla OE, é constituída por quatro partes e
se inicia com o aparecimento de Jesu Cristo a
[Lisboa, Germão Galharde, entre 1537 e 1540]
uma mulher empardeada, “a qual fazia muy
Repertório: santa vida e cobiçaua muyto saber quantas
foram as chagas que nosso senhor Iesu christo
ES – Badajoz, Biblioteca de Extremadura, recebeo em seu corpo...”. Segue-se a oração
Biblioteca da Barcarrota† propriamente dita e que contém, pela
[exemplar adquirido, em 1995, após a diversidade de benesses “outorgadas” àqueles
descoberta, em 1992, durante a reabilitação de que a rezem ou “fezer rezar. se nam souber ler:
um imóvel em Barcarrota] ou a trouxer consigo rezando estes .xv. pater
noses [sic] ...”, matéria contrária à doutrina da
Igreja, o que explica o registo da OE no primeiro
A referência bibliográfica abreviada, colocada à Rol, i.e., Este he o rol dos liuros defesos,
cabeça, serve para a desenvolver, de seguida, impresso por Germão Galharde em Lisboa no
explicitando as várias etapas que nos levaram a ano de 1551.
formular a proposta de identificação da OE [sigla Na terceira parte surge “hum milagre [que]
para: A muyto deuota oraçam da Empardeada]. aconteceo logo como esta oraçam foy reuelada”
Da notícia sobre a descoberta da OE tivemos a um “jrmitam” que estava naquela montanha,
conhecimento em finais da década de 90 do onde se encontrava a “sancta empardeada”. O
século passado, ficando o registo na memória impresso termina com “as indulgencias e
sem haver, na altura, disponibilidade e perdões [do] sancto padre nicolao papa .v.”.
investigação suficiente para observar o
Portanto, a estrutura do texto segue “Ha muy
16
sancta e deuota oraçam da empardeada”,
Bibliografia sumária da notícia sobre o impresso: inserida nas Horas de nossa Senhora segundo
La muy devota Oración de la Emparedada, ed., trad, y
notas de Juan Manuel Carrasco González; estudio
costume Romaano17, com algumas variações na
preliminar de María Cruz García de Enterría, «Una ortografia e pequenas alterações na parte das
devoción prohibida: la Oración de la Emparedada», indulgências, coincidindo a divisão do texto,
Badajoz, Junta de Extremadura (La Biblioteca de quase na totalidade, com os parágrafos
Barcarotta, 2), 1997; {58 p.}. assinalados por iniciais de alfabeto lombardo de
Juan M. Carrasco González, “Portugal en la Biblioteca de
2 linhas, tanto num como noutro impresso.
Barcarrota: «La Oración de la Emparedada»”, in Anuario
de Estudios Filológicos, vol. XXVIII, Cáceres, Servicio de
Publicaciones de la Universidad de Extremadura, Ano
2005, pp. 21-34.
17
Arthur Askins, «Notes on Three Prayers in Late 15th cf. João José Alves Dias, Rezar em Português.
Century Portuguese (the Oração da Empardeada, the Introdução ao Livro de Horas de Nossa Senhora segundo
Oração de S. Leão, Papa and the Justo Juiz): Text History costume Romaano ... , vol. II, Lisboa, BNP, 2009, pp. 222-
and Inquisitorial Interdictions», in Península, Revista de 239 e Francisco Leite de Faria, “O Primeiro Livro em
Estudos Ibericos, 4, 2007, pp. 235-266, consultado em Português Impresso na França: As Horas de Nossa
2012 na página: Senhora por Frei João Claro”, in Colóquio sobre o Livro
[[Link] Antigo, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1992, pp. 93-112.

17
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
Com efeito, não se confirmam as conclusões de de Julián M. Abad, que reza mais ou menos
Carrasco González18 quando diz que nas “Horas assim: “a pressa é o maior inimigo do
de Nossa Senhora falta la parte «c», es decir, el bibliógrafo”. A precipitação circunscreve a base
episodio del ermitaño” e, no confronto das duas documental a um universo restrito que,
orações, concluir que “non son en todo frequentemente, se revela impreciso quando
coincidentes, lo que prueba un origen diferente comparado com as possibilidades de atribuição
para cada una y, en cierta medida, apoya de um impresso sine notis e que, pela natureza
nuestra idea de que ésta última fue traducida dedutiva, se considera sempre provisória.
del español”.
Com efeito, a oficina tipográfica de Germão
No que diz respeito ao material tipográfico Galharde, activa entre 1519 e 1565 em seu
usado na impressão da OE, voltamos a insistir na nome e da sua viúva, reunia o material
utilidade de dispor, para cada oficina tipográfica, tipográfico que se observa na impressão da OE,
de um corpus documental – em forma de base a saber, os tipos, as iniciais, o friso de tarjas e,
de dados – como ferramenta de trabalho. Para ainda, gravuras com desenho semelhante à
o caso em apreço não havia, em finais dos anos imagem da portada da OE.
90 do século passado e da nossa parte,
Para os tipos usados na impressão do folheto da
investigação suficiente sobre o material
OE, da família gótica rotunda, 83/85 G,
tipográfico da oficina de Germão Galharde, com
encontram-se caixas semelhantes a partir de
imagens digitalizadas, que permitisse situar
1537, nomeadamente na edição do Calendarium
cronológica global da sua produção, um recém-
Romanum, como se pode observar pelo
descoberto impresso sine notis como foi o caso
confronto das imagens seguintes, facto que
da OE. Recordei-me, na altura, de uma máxima
levou à atribuição de uma data a quo próxima
de 1537.

Calendarium Romanum, 153719 OE [ca. 1537 a 1540]

fl. 1v
fl. 3v [Biblioteca de Extremadura,
[BNP, Res. 1759 V, (inc.), [Link] 23151] Biblioteca da Barcarrota,
Badajoz]

19
A data do impresso foi estabelecida com base no
18
Juan M. Carrasco González, “Portugal en la Biblioteca exemplar, completo, da Biblioteca do Vaticano, BAV,
de Barcarrota: «La Oración de la Emparedada»”, p. 32. Stamp, Barb, [Link], 46, fl. 66v, ass. g10, recto.

18
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

Quando olhámos, pela primeira vez, para o fac- XVI no universo das edições firmadas pelo
símile do impresso, sucede que identificámos, impressor francês.
de imediato, uma inicial xilográfica que nos era
O facto de o duplo traço da moldura, do lado
conhecida, ou seja, a letra O, ocupando quatro
direito, da inicial da OE apresentar falhas,
linhas na OE. De uma série de impressos em que
quando comparado com a mesma inicial
a inicial xilográfica x4 – O [18 x 18 mm] foi usada
impressa em 1538, poderá induzir-nos numa
na oficina de Germão Galharde, escolhemos
fase posterior de impressão para a OE como
algumas ocorrências anteriores como
justificar uma execução deficiente nos prelos,
posteriores a fim de documentar a sua presença,
circunstância que, aliás, se denota no conjunto
não ocasional mas contínua, e com especial
do material tipográfico da Oraçam.
incidência na década de 30 do século

Inicial xilográfica, x4 – O [18 x 18 mm]


OE, [ca. 1537 - 1540] Impressos da Oficina de Germão Galharde

Breue doutrina, 1525 Breuiarium Stª Cruz, 1531


fl. VIII, v fl. 366v
[invertida]

Calendarium Romanum, Missale Bracharense,


1537 1538
fl. 48v fl. 39v
fl. 4v [invertida] [invertida]

A presença, na edição da OE, de iniciais de texto nas três obras referidas abaixo. Se
alfabetos lombardos, com dois tamanhos e, assumirmos que, nos três impressos em que a
sobretudo, com dois desenhos diferentes, H1 e letra H1 aparece, a pressão nos prelos foi
H2, levou-nos a procurar, no conjunto da idêntica, poder-se-á concluir que a Oraçam foi
produção de Germão Galharde, os impressos impressa depois do CR, 1537 e antes da PA,
com letras de tamanho idêntico, numa data 1540, dado que a haste vertical superior vai
aproximada e presumida da Oraçam, que perdendo nitidez. Para a letra H2 já não se
apresentassem um traço idêntico para as iniciais verifica a mesma degradação da haste vertical
do alfabeto lombardo. superior entre o ano de 1537 e 1540, ficando
por esclarecer o seu desgaste na impressão da
Assim, as letras H1 e H2 ocupam duas linhas de
OE. Como hipótese, pergunta-se se terá sido

19
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
usado um outro bloco com a letra H2, que a haste já se encontrava partida e o bloco
eventualmente de refugo do material impróprio para o uso nos impressos
tipográfico da Oficina de Germão Galharde, em autenticados?

Iniciais de alfabeto lombardo l2 – H


Calendarium Romanum (CR), 1537, R. Mendes, Practica dArismetica, (PA),1540

H1 H2

OE OE

H1 H2
fl. 1v fl. 13r e 16r

CR, 1537 CR, 1537

H1 H2
fl. 17, v fl. 50, v

PA, 1540
PA, 1540

fol. 95v
fol. 96r

Relativamente à tarja presente na portada da individuais, em número de 10, tanto na OE como


OE, ao lado da gravura, ela é constituída por dez no [Missale Bracharense] (MB), 1538,
pequenos blocos de madeira de folhas reparamos que a sua ordenação não é a mesma,
estilizadas. Ao confrontar o seu uso individual e embora muito semelhante.
observar a colocação diferente dos blocos tanto
A presença destes pequenos blocos de folhas
na edição de R. Mendes, Practica dArismetica,
estilizadas atesta-se, portanto, nas obras
(PA), 1540, como no impresso Breue Memorial
firmadas e saídas da Oficina de Germão
(BM), 1545, podemos concluir que existiam
Galharde desde o ano de 1538 até, pelo menos,
peças soltas que permitiam uma composição
ao ano de 1545 de acordo com o estado actual
variada.
da nossa investigação, como demonstram as
Aliás, se observarmos bem a fileira dos blocos reproduções seguintes.

20
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

Tarjas
[Missale Bracharense], (MB),1538, ex.: BNP, Res. 1633, [Link]. 14877; R. Mendes, Practica dArismetica,
(PA),1540, ex.: BNP, Res. 278 V, [Link]. 15193; Breue Memorial, (BM), 1545, ex.: BNP, Res. 92 P, [Link].
16741

OE

MB, 1538; fol. 85v

PA, 1540, fol. xiij, v


portada
[78x5 mm]

BM, 1545; fl. 16v

Relativamente à gravura impressa na portada da Com efeito, quando Carrasco González afirma
OE não encontrámos, na Oficina de Germão que “[f]inalmente, también el grabado de la
Galharde, qualquer registo, anterior ou portada se corresponde muy bien con las
posterior, no conjunto da produção localizada características un poco toscas y arcaizantes de
até ao momento. los primeros artistas portugueses usados por
este editor”20, remetendo para o impresso de
Contudo, e para uma avaliação mais
Modus curandi cum balsamo e a respectiva
documentada, aconselha a prudência recuar ao
introdução de J. V. de Pina Martins21, o autor do
material tipográfico que Germão Galharde
herdou dos seus antecessores, a saber, de
20
Valentim Fernandes, João Pedro de Bonhomini e Juan M. Carrasco González, “Portugal en la Biblioteca
Hermão de Campos. Sucede que, para além dos de Barcarrota: «La Oración de la Emparedada»”, p. 27.
21
tipos, iniciais e tarjas, as gravuras anteriores vão [Link] Pina Martins, “Um opúsculo de medicina
desconhecido pelos bibliógrafos editado em Lisboa por
surgindo na produção de Germão Galharde Germão Galharde: Modus curandi cum balsamo, Lisboa,
como demonstram as imagens no anexo. c. 1530”, in Revista da Bibloteca Nacional, série 2, vol. 2,
Jul.-Dez. de 1987, pp. 15-25.

21
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
estudo circunscreve, demasiado, o seu ângulo gravura impressa na obra Incipit Angeli custodis,
de visão e limita o campo de investigação. de 1544, saída dos prelos de Germão Galharde.
Aos defeitos na noção da dimensão
No que se refere à iconografia dos impressos
tridimensional associamos o tracejado, fino e
portugueses, desde a sua origem até mesmo a
curto, no preenchimento dos espaços em
primeira metade do século XVI, parece-nos que
branco, característica que aproxima a
o adjectivo genérico “tosco”, relativamente à
iconografia do Incipit Angeli custodis da gravura
execução das gravuras, adianta pouco sobre
da OE.
uma variedade de criação xilográfica que, até ao
ano de 1518, registava 268 blocos de madeira Por outro lado, e para documentar o que se
diferentes22. Neste universo iconográfico afirmou acima sobre a proveniência anterior da
coexistem traços de diversos artífices e artistas, iconografia de Germão Galharde, reproduzimos
anónimos na sua totalidade e com qualidades na Imagem 4 uma gravura proveniente da obra
artísticas distintas, o que, por si só, requer uma Flos sanctorum, impressa por Hermão de
investigação aprofundada e não realizada até ao Campos em 1513, que poderá ter servido como
momento. modelo, tanto para a representação do altar
como pela figura feminina ajoelhada.23
Assim, e pelas gravuras introduzidas por Germão
Galharde na sua produção entre 1519 e 1565, Concluímos a reprodução das imagens com um
escolhemos aquelas que pudessem esclarecer, exemplo de um impresso de Germão Galharde,
tanto pela sua representação como pelo traço de 1545, Imagem 5, colocando, ao lado, o bloco
de execução, algumas semelhanças pertinentes de madeira herdado de Hermão de Campos,
para a análise da gravura impressa na portada usado na citada obra de 1513.24
da OE.
Com efeito, e considerando a iconografia da
Na Imagem 1 do Anexo reproduzimos a gravura produção de Germão Galharde no seu conjunto,
da portada do Modus curandi cum balsamo, ca. parece-nos que a gravura impressa na portada
1530, pela coincidência na representação de um da OE se aproxima mais da execução, artesanal
altar, embora, como julgamos, com uma pela defeituosa noção tridimensional, do bloco
execução por um artífice distinto, atendendo ao de madeira do “anjo” saído dos seus prelos,
diferente tratamento da perspectiva porventura, em 1544, o que aproximava a
tridimensional quando comparada com a datação dos dois impressos e indiciava,
gravura da OE (Imagem 3). Considerando que eventualmente, a existência do mesmo artífice,
uma defeituosa perspectiva tridimensional na Oficina de Germão Galharde, num período
poderá revelar algo sobre um artífice menos compreendido entre os finais da década de
habilitado, juntamos, na Imagem 2, uma trinta e inícios de quarenta do século XVI.

23
Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...), p. 509.
22 24
Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...), pp. 478-520. Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...), p. 507.

22
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

Gravuras

Imagem 1 Imagem 2

Modus curandi cum balsamo, [ca. 1530], portada Incipit Angeli custodis, [1544], fl. 1v;
[BNP, Res. 5561 P, [Link] 14824] [BNP, Res. 82(2) A, [Link] 22943]

Imagem 4
Imagem 3

[cf. com a gravura


OE, portada
« Ho flos sanctorum, Hermão de Campos
[67 x 46 mm]
HMJ, G. 174]25

25
Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...), p. 509.

23
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)

Imagem 6
Imagem 5

« [gravura, Ho flos sanctorum, Hermão de


Breue Memorial (BM), 1545, portada,
Campos, 1513;
[BNP, Res. 92 P, [Link] 16741]
HMJ, G. 144 [76 x 70 mm]26
Imagem 7

BPE, Inc. 3
Juntamos esta última gravura apenas para demonstrar que existem semelhanças entre os blocos de
madeira usados, neste caso, pelos Cromberger, de Sevilha, e as Oficinas portuguesas referidas, sem, no
entanto, haver identidade na execução.

26
Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...), p. 507.

24
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

Partindo, pois, do pressuposto de que as Por outro lado, a objectiva falta de apuro
atribuições de qualquer impresso sine notis tipográfico dos folhetos clandestinos, e
serão, sempre, provisórias, consideramos, designadamente da OE, fez-nos lembrar uma
contudo, que a pesquisa documentada do observação pertinente de Eleutério Cerdeira, a
material tipográfico poderá circunscrever a propósito de outra contrafacção, quando chama
execução, neste caso da Oraçam da a atenção para “a provável intranquilidade em
Empardeada (OE), com recurso aos tipos, às que terá sido realizado este trabalho
iniciais e tarjas existentes na Oficina de Germão clandestino”.27
Galharde.
O facto de o impressor não assumir a
2.b) Glosa famosissima
paternidade da edição levanta, no entanto, uma
série de interrogações, atendendo, Formato: 4º
nomeadamente, à época em que a OE foi,
Colação: A20, 20 fl. {40 p.}
presumidamente, impressa, i.e., [entre 1537 e
1540]. A edição da OE, que ora conhecemos Proposta de identificação para o impresso sine
através do exemplar da Biblioteca de notis:
Extremadura, corresponderá àquela a que se
referia João de Barros, na sua Grammatica da [Lisboa, Germão Galharde, ca. 1541]
Lingua Portuguesa, editada em Lisboa por Luís Repertório:
Rodrigues no ano de 1540, quando, no fólio,
hiiij, recto dizia: “... nam sábem rezár huma P - *BPMP, Y1-3-37 (3)†
óraçam per ella, e pela tiráda sam mais jto com: Castigos e enxempros de Catom, Lisboa,
correntes que hum cego na óraçam da Germão Galharde, 1521; BPMP, Y1-3-37 (1);
emparedáda.”?
Despertador de peccadores, Burgos, 1541;
Na segunda metade da década de 30 do século BPMP, Y1-3-37 (2):
XVI circulava uma profusão de pequenos
folhetos, numa estimativa provisória de cerca de Glosa famosa sobre las coplas de Don Iorge
30, com material tipográfico da Oficina de Manrrique, Valladolid, Sebastian Martinez,
Germão Galharde, uns, como o Auto das 1564; BPMP, Y1-3-37 (4)
regateyras, identificado com uma tarja e Sobre a edição refere-se que o licenciado Alonso
inscrição de GERMAGALHA, outros, como o Auto de Cervantes procedeu, entre finais de 1500 e
de Sancto Antonio, impresso de forma inícios de 1501 à elaboração das suas glosas,
clandestina, mas usando uma gravura da mesma designadas como “famosissimas”, baseando-se
oficina que tinha surgido, anteriormente, na na obra maior de Jorge Manrique (1440? –
edição de Instituta ordinis beati Francisci, 1479), i.e., as suas Coplas que “hizo sobre la
Lisboa, Germam Galharte [sic],1530. muerte de su padre”.
Ocorre-nos como hipótese para o aumento de As Coplas de Jorge Manrique eram, de facto,
impressos clandestinos, na referida época, o “famosas”, conhecidas e apreciadas em
agravamento das questões de ortodoxia Portugal, designadamente pelo Rei D. João II
religiosa, que conduziu, a partir de 1547, aos que, conforme nos diz Garcia de Resende, na
Róis de Livros Proibidos, o primeiro manuscrito sua Crónica de D. João II, lhe “perguntou se
e, em 1551, com o título Este he o rol dos liuros sabia as trovas de dom Iorge Manrique, que
defesos, impresso por Germão Galharde. começão Recuerde el alma dormida” (...).28
A duvidosa ortodoxia religiosa da OE obrigaria,
com efeito, a cuidados redobrados, embora o
27
reduzido custo na impressão e um provável Eleutério Cerdeira, Duas Grandes Fraudes Camonianas,
êxito de venda acenassem com o lucro fácil de Barcelos, Companhia Editora do Minho, 1946, p. 57.
28
um folheto de inegável popularidade como Garcia de Resende, Crónica de D. João II e Miscelânea,
Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991, Cap.
demonstram as palavras de João de Barros. CCI, p. 269.

25
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
De acordo com a referência no prólogo, a Glosa por Valentim Fernandes. Posteriormente, em
famosissima surge durante o desterro de Alonso 1559, publicou a Viúva de Germão Galharde
de Cervantes “por espacio de tiempo de quatro uma outra edição, de glosador distinto, que se
anos (...) neste para mi tam estraño reyno de intitula Glosa sobre la obra que hizo don George
Portugal”, suplicando “muy humilmente esta manrique, a la muerte do maestro de Sanctjago.
obra (...) dirigida al muy ilustre (...) Señor don No entanto, apenas a primeira edição
Aluaro de stuñiga”.29 portuguesa, de 1501, e a presente sine notis
apresentam a mesma sequência no texto das
Do controlo bibliográfico efectuado sublinhamos
coplas e glosas, motivo pelo qual se julga ter o
que António Pérez y Gomez chama a atenção
impresso anterior servido como base para uma
para esta edição sine notis da Glosa famosissima
nova edição. É de referir, também, que uma
pelo facto de reproduzir a portada e, deste
edição da Glosa, atribuída por Norton, 79633 e
modo, fornecer alguns elementos do material
ABAD, Post-Incunables, 98534 ao impressor
tipográfico.30
sevilhano Jacobo Cromberger, com uma data
Anteriormente, Sousa Viterbo n’“A Litteratura próxima de ca. 1508-1510, segue a mesma
Hespanhola em Portugal”31 fez menção do sequência de texto das duas edições
exemplar da BPMP, remetendo para a espécie portuguesas acima referidas, conforme a cópia
com o número 757 no Catálogo de la Biblioteca digital do exemplar da BNE, R-4133.
de Salvá.32 Contudo, a informação relativa ao
Relativamente à atribuição provisória do
número 758 parece mais próxima da presente
impresso sine notis à oficina de Germão
edição pelo facto de destacar que “ademas de la
Galharde, apresentamos, abaixo, as imagens do
notable contraseña de llevar la presente edição
material tipográfico. Com efeito, os alfabetos
el título Glosa famosissima en la parte inferior
usados na impressão da presente edição faziam
[sublinhado nosso] de la portada” e que Salvá
parte do material da oficina de Germão
situa “hácia el 1525” no que respeita à data da
Galharde, havendo, para o tipo usado na
sua impressão.
impressão das coplas e glosas, uma primeira
Após o esclarecimento sobre a cota correcta do ocorrência na edição do Calendarium Romanum,
exemplar da BPMP, i.e. Y1-3-37 (3), foi possível com data de 1537, embora se registe a
iniciar, com base numa cópia integral e introdução de variantes para os tipos A, D e P.
completada com uma observação presencial
A única inicial presente no fl. 1v do impresso da
posterior, a análise com vista a uma atribuição
Glosa, representando a letra P e ocupando 8
provisória da edição à oficina de Germão
linhas, encontra-se, em 1541, na edição do
Galharde.
Cerimonial da missa, saída dos prelos da oficina
A presente edição sine notis da Glosa de Germão Galharde em Lisboa, embora se
famosissima, de Alonso de Cervantes, surgiu, encontre uma inicial D, da mesma série de
pois, na sequência de uma primeira edição, em iniciais xilográficas, na edição da Ordem do
Portugal, impressa em Lisboa no ano de 1501 juyzo, Lisboa, Germão Galharde, 1539.

29
Confrontar, igualmente, o estudo de Mário da Costa
Roque, Glosa Famosissima sobre las Coplas de Dõ Jorge
Marrique, Lisboa, Inspecção Superior das Bibliotecas e
Arquivos, 1963, pp. 16-18.
30
António Pérez y Gomez, Glosas a las Coplas de Jorgue
Manrique: Notícias Bibliográficas, Cieza, 1963, nº 13,
lámina 13.
31
Sousa Viterbo, A Litteratura Hespanhola em Portugal”,
33
in Historia e Memorias da Academia das Sciencias de John Frederick Norton, A descriptive catalogue of
Lisboa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1915, pp. 239-241. printing in Spain and Portugal (1501-1520), Cambridge,
32
Catálogo de la Biblioteca de Salvá, Tomo I, Valencia, Cambridge University Press, 1978.
34
Imprenta de Ferrer de Orga, 1872, pp. 268-269; Julián Martín Abad, Post-Incunables Ibéricos, Madrid,
[consultado através da página [Link]. – 08.2014]. Olleros & Ramos, 2001.

26
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

Título/Incipit: Glosa famosissima


Lugar de Impressão: [Lisboa, Germão Galharde ?]
Ano: [1537 (Tipos) – 1541? (Inicial)]

Portada, Lisboa, Valentim Fernandes,


Portada, [BPMP, Y1-3-37(3)]
150135

(P8) [35 x 35 mm]


Cerimonial da missa,
1541
[BPE, Res. 76]

fl. 1v, tipo de texto e inicial; P8 [35 x 34 mm]

35
cf. Reprodução fac-similada, in Glosa famosissima sobre las coplas de dõ Jorge Marrique, com um estudo de Mário da
Costa Roque, Lisboa, Inspecção Superior das Bibliotecas e Arquivos, 1963, assim como Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...),
pp. 204-208, 529.

27
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
No entanto, e para desfazer dúvidas sobre uma 1539, juntamos as iniciais usadas pelo referido
eventual hipótese de o impresso sine notis impressor que demonstram semelhanças entre
poder ter saído da oficina de Luís Rodrigues, os desenhos das letras, sem, contudo, conferir
contemporânea na cidade de Lisboa desde identidade.

Iniciais semelhantes, mas não idênticas

Vida de S. Bernardo, Lisboa, Luís Rodrigues, Vida de S. Bernardo, Lisboa, Luís Rodrigues,
1544 1544
[BNP, Res. 161 A] [BNP, Res. 161 A]

Foram, todavia, as tarjas na portada que impresso firmado por Germão Galharde. As
chamaram a nossa atenção quando olhámos tarjas com folhas estilizadas, Glosa, T. 6 e T.7,
para as reproduções constantes da citada obra surgiram na oficina de Germão Galharde, em
de A. Pérez y Gomez, já que eram, em parte, 1538, na impressão do Missale Bracharense, o
nossas conhecidas de edições saídas dos prelos que nos indicia uma data próxima para a
de Germão Galharde, pelo menos desde o ano impressão da Glosa famosissima. No entanto,
de 1523. Como se pode verificar pelas preferimos uma datação de [ca. 1541],
reproduções anexas, apenas uma das tarjas, baseando-nos na primeira ocorrência da inicial
Glosa, T.4, da parte inferior da portada, não foi P8, referida acima.
possível, até ao momento, associar a um

28
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

Tarjas

HMJ[II], T. 125, HMJ[II], Glosa, HMJ[II], T. 108, HMJ[II], Glosa, HMJ[II], Glosa,
Glosa, Tarja 1 Tarja 2 Glosa, Tarja 3 Tarja 4 Tarja 5
[122x15 mm; [140 x 7 mm] [84x18 mm; [12 x 105 mm] [16 x 148]
cf. Commentum in [cf. Portada, cf. Manipulus, [cf. Portada,
Plinij, 1529; Ordenações, 1523] Ordenações,
Modus, ca. 1530] 1533, 1533,
Livro 3º, TRBC, LA Livros 1º e 3º,
002 C; TRBC, LA 002 C]
Tractado Canto
mensurable,
1535]

HMJ[II], Glosa, Tarja 6 HMJ[II], Glosa, Tarja 7


[cf. Missale Bracharense, 1538] [cf. Missale Bracharense, 1538]

29
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
Das três gravuras presentes na portada famosissima, que se intitula Glosa nueuamente
conseguimos identificar, até ao momento, hecha por Pedro Daguilar (...), e pode ser
apenas a gravura, Glosa, G.3, num impresso, consultado através da cópia digital da BNP, Res.
igualmente sine notis, mas com recurso ao 218-9-V, [Link] 6963.
mesmo alfabeto de texto como na Glosa

Gravuras

portada portada portada


HMJ[II], Glosa, G.1 HMJ[II], Glosa, G.2 HMJ[II], Glosa,
[com falha na reprodução] [52 x 18 mm] G.3 [48 x 21 mm]
[56 x 41 mm] [cf. gravura na portada de:
Glosa nueuamente hecha por
Pedro Daguilar, s.l., s.e., s.d;
BNP, Res. 218-9V, [Link]
6963]

Com efeito, consideramos que a análise do 3.a) A Identificação de Fragmentos


material tipográfico usado na impressão da
Durante a observação presencial das espécies
presente Glosa famosissima permite uma
sucede, com alguma frequência, que as pastas
atribuição provisória à oficina de Germão
das encadernações escondem fragmentos de
Galharde, numa data próxima de [ca. 1541],
outras edições, nem sempre fáceis de identificar
atendendo aos tipos, às iniciais e um número
por diversos motivos, para além da presença de
considerável de tarjas usados em impressos
folhas impressas em documentação manuscrita.
firmados pelo impressor francês.
O caso porventura mais significativo foi a
presença de fragmentos contidos na pasta de
3. – O acervo gráfico como ferramenta na encadernação do Breue Memorial, impresso por
identificação de fragmentos e variantes, assim Germão Galharde em Lisboa no ano de 1521,
como para documentar o desgaste do Material que detectámos, em 2006, no exemplar da BNP,
Tipográfico

30
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

Res. 91 P. Na altura, e com base no corpus possível colocá-las lado ao lado numa
documental anteriormente elaborado36, observação presencial.
reparámos nos tipos e numa inicial que eram
semelhantes ao material tipográfico das oficinas
anteriores de Valentim Fernandes e de João 3.b) A Identificação de variantes
Pedro de Bonhomini. A partilha da descoberta
Com efeito, a dispersão de exemplares por
permitiu a João José Alves Dias37 desenvolver o
bibliotecas diferentes leva, frequentemente, a
estudo dos fragmentos e, assim, esclarecer e
uma identificação imprecisa de edições,
estabelecer uma nova sistematização na edição
nomeadamente quando a memória visual nos
das Ordenações Manuelinas impressas por
atraiçoa na detecção de pormenores que, afinal,
Valentim Fernandes e João Pedro de Bonhomini.
correspondem a diferentes estados na
impressão das espécies.
Não sendo caso único no conjunto da produção
de Germão Galharde, pretendemos destacar,
neste momento, apenas o caso do impresso
Instituta ordinis beati Francisci, saído em Lisboa
a 9.9.1530.
Na observação presencial de um dos exemplares
existentes no país, a saber, o do Arquivo
Histórico da Santa Casa da Misericórdia de
Lisboa, verificámos a notória presença, na
oficina de Germão Galharde, do material
tipográfico dos predecessores. No entanto,
Contudo, o caso em apreço serve para sublinhar apenas o confronto, inicialmente com base em
a importância de um acervo gráfico digitalizado cópias, permitiu corrigir a memória visual que
como apoio à memória visual do material identificou, e bem, uma tarja conhecida da
tipográfico, designadamente para fundamentar, oficina de Valentim Fernandes. No entanto, a
numa fase inicial de investigação, uma possível posição da referida tarja, JAD, T. 36,38 é
atribuição de fragmentos. Semelhante diferente quando comparamos o exemplar da
ferramenta ainda se revela de maior utilidade SCML, cota L.A., XVI, 582 com o da Biblioteca de
quando as espécies em análise pertencem a D. Manuel II, em Vila Viçosa, como demonstram
acervos diferentes, circunstância em que não é as seguintes imagens.

36
Posteriormente publicado: Helga Maria Jüsten,
Incunábulos e Post-Incunábulos Portugueses, (ca. 1488-
1518), (Em Redor do Material Tipográfico dos Impressos
Portugueses), Lisboa, Centro de Estudos Históricos –
Universidade Nova de Lisboa, 2009.
37
João José Alves Dias, Ordenações Manuelinas 500 anos
depois: Os dois primeiros sistemas (1512-1519), Lisboa,
38
Biblioteca Nacional de Portugal, Centro de Estudos Cf. Helga Maria Jüsten, Incunábulos (...), p. 466 e João
Históricos – Universidade Nova de Lisboa, 2012. José Alves Dias, No Quinto Centenário, p. 106.
31
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)

BDMII, PDVV, fl. 35v,


[SCML, cota LA. XVI, 582], fl. 35v Livros Antigos Portugueses (...)39, p. 440
Inversão da Tarja T. 36 = Variante

A identificação desta variante, seguida de uma A observação do conjunto da produção de


investigação mais aprofundada da edição da Germão Galharde entre 1519 e 1565, e desde
Instituta ordinis beati Francisci, permitiu, ainda, 1559 em nome da viúva, com base nos
localizar um exemplar nos EUA, bem como exemplares até ao momento localizados,
confrontar as duas espécies pertencentes a permite, certamente, avaliar não apenas o
acervos nacionais com o outro exemplar desgaste normal do material tipográfico como a
existente em França,39aguardando-se a introdução de novas caixas de tipos – ou
publicação dos resultados da análise pequenas alterações nas preexistentes – como
efectuada.40 de novas iniciais e molduras de tarjas e gravuras.
Por um lado, o registo documental cronológico
com base em imagens digitalizadas dos
3.c) Documentar o desgaste do material
impressos, pese embora o enorme dispêndio de
tipográfico
tempo na construção dessa base de dados,
proporciona uma visão de conjunto da oficina
de Germão Galharde e a consequente
39 formulação de hipóteses sobre o seu
MANUEL II, (D.), Livros antigos portugueses: 1489-1600
da biblioteca de Sua Magestade Fidelíssima, 3 vols., funcionamento. Por outro, o acervo digital
Braga, Oficinas da APPACDM, 1995. fornece dados que levam a interrogações sobre
40
Helga Maria Jüsten, “Um Impresso do Século XVI no a validade de determinadas informações sobre
Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de os impressos, colhidas com base em cólofons,
Lisboa: Instituta ordinis beati Francisci, Lisboa, Germam ou seja, de edições – aparentemente – firmadas.
Galharte, 9.9.1530”, in Cidade Solidária, nº (...), Lisboa,
SCML, 2014, em publicação.
Surgem, frequentemente, dúvidas quando

32
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

observamos o desgaste do material tipográfico – dedicados à “Iconografia do Livro Impresso


numa perspectiva diacrónica – e a data (Marcas Tipográficas e Filigranas de Papel)”,
constante de uma edição firmada. Por ora, reintroduzimos, com base no nosso acervo
fixemo-nos apenas nos casos em que o desgaste digitalizado, os casos então apresentados.
do material tipográfico, presente nas portadas Documenta-se, assim, a evolução de uma tarja
de determinados impressos, sugere uma data com a inscrição de GERMAM GALHARD que, a
diferente da impressa no cólofon. Convém partir de 1523, começa a surgir nos impressos
lembrar a esse propósito que o primeiro saídos da sua oficina. Não se trata, por
caderno era sempre o último a ser impresso, enquanto, de uma recolha exaustiva, nem de
para além de casos em que determinados apresentar conclusões definitivas sobre a
exemplares, que chegaram até nós, se datação de determinados impressos,
constituíram com recurso a cadernos de tiragens aparentemente firmadas. Por ora, ficam apenas
diferentes. Portanto, a substituição parcial de as interrogações, sublinhando-se a necessidade
cadernos não inviabilizava a manutenção da de comprovar qualquer afirmação com base
data inicial da impressão constante do cólofon. numa consulta do maior número possível dos
diversos exemplares existentes, a fim de excluir
Seguindo a metodologia exemplificada, por João
“ruídos” indevidos e provenientes de cópias
José Alves Dias, num Colóquio, realizado em
eventualmente imperfeitas.
Maio de 2011 na Fundação Calouste Gulbenkian,

Contra os Juyzos, 7.3.1523 [19x114 mm]; fac-símile do ex. da BGUC, R-14-10


desgaste no Liber scholastica, 1532 [João José Alves Dias, post. a 1534]; ex. da BNP, Res. 4645 P,
[Link] 15298

Oratio, 1.10.1534; ex. da BPE, Séc. XVI, Res. 6108


Tractado de canto llano, 1533; fac-símile do ex. da BL [João José Alves Dias, post. a 1535]

33
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)

Tractado de canto mensurable, 4.9.1535; ex. da BPE, Res. 402-A

F. Oliveira, Grammatica, 27.1.1536; ex. da BNP, Res. 274 V, [Link] 120

4. – O “Fecho da Abóbada”
Não pode haver, como julgamos, melhor
exemplo da longevidade do material tipográfico
da oficina de Germão Galharde do que o último
impresso, em nome da sua viúva, localizado até
ao momento, ou seja, a edição de Nao sam
Paulo, saída dos seus prelos, em Lisboa, a
8.4.1565.
A portada da referida edição, para além de
atestar o uso continuado dos tipos da família
gótica rotunda, fecha a “abóbada” por
recuperar, ainda, uma gravura do conjunto da
série com que começamos as nossas achegas. A
gravura JAD, G. 11, proveniente da oficina de
Valentim Fernandes e da edição da Estória do
muy nobre Vespasiano imperador de Roma,
começou a sua vida útil em 1496 e aqui fica para
testemunhar a longevidade do material
tipográfico dos primeiros impressores portugueses.

Lisboa, Agosto de 2014

34
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

Fontes e Bibliografia Modus curandi cum balsamo (…), [Lisboa,


Germão Galharde, ca. 1530];
1. Fontes Impressas
P - BNP, Res. 5561 P, [Link] 14824.
(ordenadas cronologicamente)
Edição fac-similada, Modus curandi cum
[Estoria do muy nobre Vespasiano imperador de
Balsamo, prefácio de José V. de Pina
Roma]. Lisboa, Valentin Fernandes,
Martins, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1988.
20.4.1496;
Breuiarium secundum vsum insignis monasterij
P – BNP, Inc. 571; [Link] 22002.
sancte crucis colimbriensis ordinis diui
O compromisso da confraria de Misericordia, augustini, Coimbra, Germanum galhardum,
Lisboa, Valentym Fernandez e Hermam de 8.4.1531 [sexto Idus Aprilis];
campos, 20.12.1516;
P – BGUC, R-3-16; [cópia digital em:
P – SCML, LA XVI, 114. [Link]].
Breue memorial dos pecados e cousas que Lourenço Justiniano, Santo, [Regra e perfeição
pertençem ha confissam (…), Lisboa, Germão da conversação dos monges], Inicpit ¶ Nom
Gaillarde, 25.2.1521; he pequena a obrigaçam de louuor, Coimbra,
Germão Galharde, 28.4.1531;
P - BNP, Res. 91 P; [Link] 109.
P - BNP, Res. 166 A, [Link] 16678.
Beja, Frei António de, Contra os juyzos dos
astrologos, Lisboa, Germam Galharde, Liber de scholastica disciplina (…), Lisboa,
7.3.1523; Germão Galharde, 1532 [?];
P – BGUC, R-14-10. P - BPE, Res. 309;
Beja, Frei António de, Breue doutrina e P - BPE, Res. 411 (incompleto)
ensinança de principes (…), Lisboa, Germam
P - BNP, Res. 4645//2P, (incompleto); [Link]
Galharde, 15.7.1525;
15298.
E – BNE, R-12331†
Aranda, Matheo de, Tractado de canto llano
Edição fac-similada: Frei António de Beja, nueuamente compuesto por Matheo de
Breve Doutrina e Ensinança de Príncipes, aranda maestro en musica. (…), Lisboa,
Reprodução fac-similada da edição de 1525, Germão Galharde, 26.9.1533 [?];
Introdução de Mário Tavares Dias, Lisboa,
P - BPE, Res. 402, (junto com Tratado de
Instituto de Alta Cultura, 1965.
canto mensurable)
¶ Incipit officium angeli custodis (…), Lisboa,
Edição fac-similada: José Augusto de Alegria,
Germanum Galharde, Die sexto Decembri,
Mateus de Aranda, Tractado de cãto llano
1529;
(1533), ed. fac-similada com Introdução e
P - BNP, Res. 82 (2) P, [Link] 22943. Notas do Cónego Dr. José Augusto Alegria,
Rei Musicae Portugaliae Monumenta II,
Cronica llamada el triunpho de / los nueue
Lisboa. Instituto de Alta Cultura, 1962.
preciados de la fama: (…), Lisboa, German
Galharde, 26.6.1530; Resende, L. André de, Oratio pro rostris
pronunciata, in Olisiponensi academia,
P - BNP, Res. 3736 V, [Link] 14549.
calend. Octobrib., Lisboa, Germani Galliardi
Instituta ordinis beati Francisci, Lisboa, Germam Galli [Germão Galharde], Mense Octobri.
Galharte, 9.9.1530; 1534;
P - SCMLx, L.A, XVI, 582, (incompeto); P – BPE, Séc. XVI, 6108; cópia integral
digitalizada e disponível através da página:
P – Palácio Ducal, Vila Viçosa, BDMII, 67
(incompleto), Variante.

35
FRAGMENTA HISTORICA Algumas Achegas sobre o Material Tipográfico da
Oficina de Germão Galharde e de sua Viúva (1519-1565)
Biblioteca Digital do Alentejo A muyto deuota oraçam da Empardeada. Em
[[Link]]: ID 330; lingoagem portugues, [Lisboa , Germão
Galharde ?, entre 1537 e 1540];
Fac-símile reproduzindo UK - BL, C.62b.38:
ES – Badajoz, Biblioteca de Extremadura,
Artur Moreira de Sá, Oração de Sapiência,
Biblioteca da Barcarrota.
Lisboa, Instituto de Alta Cultura, 1956.
Ortiz de Vilhegas, Diego, Cerimonial da missa
Aranda, Matheo de, Tractado de canto
rezada segundo custume Romão: e se
mensurable: y contrapuncto (…), Lisboa,
guarda na capella del rey de portugal dom
Germão Galharde, 4.9.1535;
Ioham terceyro deste nome (…), Lisboa,
P - BPE, Res. 402-A; Germam Galharde, 2.9.1541;
Edição fac-similada: Tractado de Canto P – BPE, Res. 76.
Mensurable, intro. e Notas do Cónego José
Servantes [sic], Alonso de, Glosa famosissim,
Augusto Alegria, Lisboa, Fundação Calouste
[Lisboa, Germão Galharde, ca. 1541]
Gulbenkian, Lisboa, 1978.
P - BPMP, Y1-3-37(3).
Oliveira, Fernão de, Grammatica da lingoagem
portuguesa, Lisboa, Germão Galharde, Libro da vida e milagres do glorioso e
27.1.1536; bemauenturado são Bernardo, Lisboa, Luís
Rodrigues, 8.8.1544;
P - BNP, Res. 274 V; [Link] 120,
P – BNP, Res. 161 A, [Link] 14551.
Edição fac-similada: Fernão de Oliveira,
Grammatica da lingoagem portuguesa Resende, Garcia de, Breue memorial dos
Lisboa, Biblioteca Nacional, 1988. pecados e cousas que pertençam a confissão.
(…), Lisboa, Germão Galharde, 15.3.1545;
CALENDARIUM ROMANUM. IN quo plurimi festi
dies sanctorum secundum comsuetudinem P – BNP, Res. 92 P, [Link] 16741.
Olisiponensis Ecclesie, Lisboa, Germão
Viagem & naufragio da Nao sam Paulo (…),
Galharde, 1537;
[Lisboa], Viúva de Germão Galhard,
Cidade do Vaticano, BAV, MAG, call number 8.4.1565;
[Link].46 [com as folhas em falta
UK – National Maritime Museum,
no exemplar da BNP Res. 1759 P];
Greenwich, Londres, No. C4583,
P – BNP, Res. 1759 P (incompleto), [Link]
Class. [Link] Sam Paulo.094DIA.
23151.
Missale iuxta antiquam almae bracharensis
ecclesiae consuetudinem, Lisboa, Germanum 2. Bibliografia
galhart, 16.7.1538 [17 Kalendas Augusti];
ANSELMO, António Joaquim, Bibliografia das
P – BNP, Res. 1633 A (incompleto); [Link] Bibliografias Portuguesas, Lisboa, Biblioteca
14877. Nacional, 1923.
Mendes, Rui, Pratica darismetica nouamente ANSELMO, Artur, História da Edição em
agora composta pelo licenciado ruy mendez Portugal. I. Das Origens até 1536, Porto,
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Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1981.
Statutos e constituicões [sic] dos virtuosos e
rreuerendos padres Conegos azuys, Lisboa, “Relações Tipográficas entre a França e
Germão Galharde, 25.8.1540; Portugal: A Edição das Coplas de Mingo
Revulgo impressa por Germain Gaillard em
P - BNP, Res. 106 A.

36
Helga Jüsten FRAGMENTA HISTORICA

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FRAGMENTA HISTORICA Índice Antroponímico e Toponímico

200
Por João Costa FRAGMENTA HISTORICA

201

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