Achille Mbembe: “A era do humanismo está terminando”
“Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século
XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o
capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o
humanismo e o niilismo”, escreve Achille Mbembe. E faz um alerta: “A crescente
bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização”.
Achille Mbembe (1957, Camarões francês) é historiador, pensador pós-colonial e cientista
político; estudou na França na década de 1980 e depois ensinou na África (África do Sul,
Senegal) e Estados Unidos. Atualmente, ensina no Wits Institute for Social and Economic
Research (Universidade de Witwatersrand, África do Sul). Ele publicou Les Jeunes et
l'ordre politique en Afrique noire (1985), La naissance du maquis dans le Sud-Cameroun.
1920-1960: histoire des usages de la raison en colonie (1996), De la Postcolonie, essai
sur l'imagination politique dans l'Afrique contemporaine (2000), Du gouvernement prive
indirect (2000), Sortir de la grande nuit – Essai sur l'Afrique décolonisée (2010), Critique
de la raison nègre (2013). Seu novo livro, The Politics of Enmity, será publicado pela Duke
University Press neste ano de 2017.
O artigo foi publicado, originalmente, em inglês, no dia 22-12-2016, no sítio do Mail &
Guardian, da África do Sul, sob o título "The age of humanism is ending" e traduzido para
o espanhol e publicado por [Link], 31-12-2016. A tradução é
de André Langer.
Eis o artigo.
Não há sinais de que 2017 seja muito diferente de 2016.
Sob a ocupação israelense por décadas, Gaza continuará a ser a maior prisão a céu
aberto do mundo.
Nos Estados Unidos, o assassinato de negros pela polícia continuará ininterruptamente e
mais centenas de milhares se juntarão aos que já estão alojados no complexo industrial-
carcerário que foi instalado após a escravidão das plantações e as leis de Jim Crow.
A Europa continuará sua lenta descida ao autoritarismo liberal ou o que o teórico cultural
Stuart Hall chamou de populismo autoritário. Apesar dos complexos acordos alcançados
nos fóruns internacionais, a destruição ecológica da Terra continuará e a guerra contra o
terror se converterá cada vez mais em uma guerra de extermínio entre as várias formas
de niilismo.
As desigualdades continuarão a crescer em todo o mundo. Mas, longe de alimentar um
ciclo renovado de lutas de classe, os conflitos sociais tomarão cada vez mais a forma de
racismo, ultranacionalismo, sexismo, rivalidades étnicas e religiosas, xenofobia,
homofobia e outras paixões mortais.
A difamação de virtudes como o cuidado, a compaixão e a generosidade vai de mãos
dadas com a crença, especialmente entre os pobres, de que ganhar é a única coisa que
importa e de que ganhar – por qualquer meio necessário – é, em última instância, a coisa
certa.
Com o triunfo desta aproximação neodarwiniana para fazer história, o apartheid, sob
diversas modulações, será restaurado como a nova velha norma. Sua restauração abrirá
caminho para novos impulsos separatistas, para a construção de mais muros, para a
militarização de mais fronteiras, para formas mortais de policiamento, para guerras mais
assimétricas, para alianças quebradas e para inumeráveis divisões internas, inclusive em
democracias estabelecidas.
Nenhuma das alternativas acima é acidental. Em qualquer caso, é um sintoma de
mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o
novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda
Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do
comunismo, esse mundo acabou.
Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI
não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo
neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o
niilismo.
O capitalismo e a democracia liberal triunfaram sobre o fascismo em 1945 e sobre o
comunismo no começo dos anos 1990 com a queda da União Soviética. Com a
dissolução da União Soviética e o advento da globalização, seus destinos foram
desenredados. A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça
para a civilização.
Apoiado pelo poder tecnológico e militar, o capital financeiro conseguiu sua hegemonia
sobre o mundo mediante a anexação do núcleo dos desejos humanos e, no processo,
transformando-se ele mesmo na primeira teologia secular global. Combinando os
atributos de uma tecnologia e uma religião, ela se baseava em dogmas inquestionáveis
que as formas modernas de capitalismo compartilharam relutantemente com a
democracia desde o período do pós-guerra – a liberdade individual, a competição no
mercado e a regra da mercadoria e da propriedade, o culto à ciência, à tecnologia e à
razão.
Cada um destes artigos de fé está sob ameaça. Em seu núcleo, a democracia liberal não
é compatível com a lógica interna do capitalismo financeiro. É provável que o choque
entre estas duas ideias e princípios seja o acontecimento mais significativo da paisagem
política da primeira metade do século XXI, uma paisagem formada menos pela regra da
razão do que pela liberação geral de paixões, emoções e afetos.
Nesta nova paisagem, o conhecimento será definido como conhecimento para o mercado.
O próprio mercado será re-imaginado como o mecanismo principal para a validação da
verdade. Como os mercados estão se transformam cada vez mais em estruturas e
tecnologias algorítmicas, o único conhecimento útil será algorítmico. Em vez de pessoas
com corpo, história e carne, inferências estatísticas serão tudo o que conta. As
estatísticas e outros dados importantes serão derivados principalmente da computação.
Como resultado da confusão de conhecimento, tecnologia e mercados, o desprezo se
estenderá a qualquer pessoa que não tiver nada para vender.
A noção humanística e iluminista do sujeito racional capaz de deliberação e escolha será
substituída pela do consumidor conscientemente deliberante e eleitor. Já em construção,
um novo tipo de vontade humana triunfará. Este não será o indivíduo liberal que, não faz
muito tempo, acreditamos que poderia ser o tema da democracia. O novo ser humano
será constituído através e dentro das tecnologias digitais e dos meios computacionais.
A era computacional – a era do Facebook, Instagram, Twitter – é dominada pela ideia de
que há quadros negros limpos no inconsciente. As formas dos novos meios não só
levantaram a tampa que as eras culturais anteriores colocaram sobre o inconsciente, mas
se converteram nas novas infraestruturas do inconsciente. Ontem, a sociabilidade
humana consistia em manter os limites sobre o inconsciente. Pois produzir o social
significava exercer vigilância sobre nós mesmos, ou delegar a autoridades específicas o
direito de fazer cumprir tal vigilância. A isto se chamava de repressão.
A principal função da repressão era estabelecer as condições para a sublimação. Nem
todos os desejos podem ser realizados. Nem tudo pode ser dito ou feito. A capacidade de
limitar-se a si mesmo era a essência da própria liberdade e da liberdade de todos. Em
parte graças às formas dos novos meios e à era pós-repressiva que desencadearam, o
inconsciente pode agora vagar livremente. A sublimação já não é mais necessária. A
linguagem se deslocou. O conteúdo está na forma e a forma está além, ou excedendo o
conteúdo. Agora somos levados a acreditar que a mediação já não é necessária.
Isso explica a crescente posição anti-humanista que agora anda de mãos dadas com um
desprezo geral pela democracia. Chamar esta fase da nossa história de fascista poderia
ser enganoso, a menos que por fascismo estejamos nos referindo à normalização de um
estado social da guerra. Tal estado seria em si mesmo um paradoxo, pois, em todo caso,
a guerra leva à dissolução do social. No entanto, sob as condições do capitalismo
neoliberal, a política se converterá em uma guerra mal sublimada. Esta será uma guerra
de classe que nega sua própria natureza: uma guerra contra os pobres, uma guerra racial
contra as minorias, uma guerra de gênero contra as mulheres, uma guerra religiosa contra
os muçulmanos, uma guerra contra os deficientes.
O capitalismo neoliberal deixou em sua esteira uma multidão de sujeitos destruídos,
muitos dos quais estão profundamente convencidos de que seu futuro imediato será uma
exposição contínua à violência e à ameaça existencial. Eles anseiam genuinamente um
retorno a certo sentimento de certeza – o sagrado, a hierarquia, a religião e a tradição.
Eles acreditam que as nações se transformaram em algo como pântanos que necessitam
ser drenados e que o mundo tal como é deve ser levado ao fim. Para que isto aconteça,
tudo deve ser limpo. Eles estão convencidos de que só podem se salvar em uma luta
violenta para restaurar sua masculinidade, cuja perda atribuem aos mais fracos dentre
eles, aos fracos em que não querem se transformar.
Neste contexto, os empreendedores políticos de maior sucesso serão aqueles que
falarem de maneira convincente aos perdedores, aos homens e mulheres destruídos pela
globalização e pelas suas identidades arruinadas.
A política se converterá na luta de rua e a razão não importará. Nem os fatos. A política
voltará a ser um assunto de sobrevivência brutal em um ambiente ultracompetitivo.
Sob tais condições, o futuro da política de massas de esquerda, progressista e orientada
para o futuro, é muito incerto. Em um mundo centrado na objetivação de todos e de todo
ser vivo em nome do lucro, a eliminação da política pelo capital é a ameaça real. A
transformação da política em negócio coloca o risco da eliminação da própria
possibilidade da política.
Se a civilização pode dar lugar a alguma forma de vida política, este é o problema do
século XXI.