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Pequenos Municípios Brasileiros: Viabilidade e Desenvolvimento

O estudo analisa a viabilidade e os direitos sociais nos pequenos municípios brasileiros, destacando que, apesar de sua população reduzida, eles arrecadam mais por habitante e atendem de forma mais eficiente os direitos sociais. A PEC 188/2019, que propõe a incorporação de municípios pequenos a vizinhos maiores, é contestada, pois os pequenos municípios promovem desenvolvimento local e políticas públicas eficazes. O trabalho defende que a avaliação dos municípios não deve se basear apenas em sua capacidade financeira, mas também em sua função social.

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Pequenos Municípios Brasileiros: Viabilidade e Desenvolvimento

O estudo analisa a viabilidade e os direitos sociais nos pequenos municípios brasileiros, destacando que, apesar de sua população reduzida, eles arrecadam mais por habitante e atendem de forma mais eficiente os direitos sociais. A PEC 188/2019, que propõe a incorporação de municípios pequenos a vizinhos maiores, é contestada, pois os pequenos municípios promovem desenvolvimento local e políticas públicas eficazes. O trabalho defende que a avaliação dos municípios não deve se basear apenas em sua capacidade financeira, mas também em sua função social.

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DOI: 10.17058/redes.v27i.

17018

Os pequenos municípios
brasileiros: viabilidade, direitos
sociais e desenvolvimento local
Reneo Pedro Prediger
Universidade Federal da Fronteira Sul – Cerro Largo – RS – Brasil
ORCID: [Link]

Sérgio Luís Allebrandt


Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul – Ijuí – RS –
Brasil
ORCID: [Link]

Roseli Fistarol Kruger


Fullness Consultoria e Gestão Ltda. – Ijuí – RS – Brasil
ORCID: [Link]

Patrícia de Carli
Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul – Palmeira das Missões – RS
- Brasil
ORCID: [Link]

Resumo
Existem, no Brasil, 5.570 municípios dos quais 1.253 possuem menos que 5.000 habitantes. A
PEC 188/2019 propõe a incorporação de parte destas localidades por municípios vizinhos e
com maior capacidade financeira. A receita própria dos municípios é o segundo critério
previsto na PEC. Este trabalho mostra que, por habitante, os municípios com população
inferior a 5.000 habitantes arrecadam mais que os municípios do grupo com população
maior. Mesmo as despesas administrativas destes municípios pequenos não são
significativamente maiores. Os direitos sociais dos cidadãos, previstos na Constituição
Federal, são atendidos de forma mais eficiente nos municípios menores, se considerados os
valores per capita. Em algumas das funções orçamentárias, como a saúde por exemplo, as
diferenças nos volumes de investimento são bastante elevadas. Os municípios pequenos
também atuam como promotores do desenvolvimento ao incentivar as atividades
econômicas e o fazem com investimentos maiores, mais uma vez usando o cidadão como
unidade. Não é adequado, deste modo, prejulgar e condenar municípios baseados apenas do
número de habitantes e nos valores que arrecadam. Os municípios, antes de tudo, são
proponentes e executores de políticas públicas onde o lucro financeiro não pode se constituir
em medida de avaliação.
Palavras–chave: Municípios. Incorporação de Municípios. Direitos Sociais. Incentivos
Públicos.

Redes (St. Cruz Sul, Online), v.27, 2022. ISSN 1982-6745


1
Os pequenos municípios brasileiros: viabilidade, direitos sociais e desenvolvimento local

The small brazilian municipalities: viability, social rights and local development
Abstract
There are 5,570 municipalities in Brazil, of which 1,253 have less than 5,000 inhabitants. The
Proposed Amendment to the Constitution no. 188/2019 proposes incorporating part of these
municipalities into neighboring municipalities with more significant financial capacity; the
municipality’s revenue is the second criterion provided for in this legislative instrument. Given
this context, this study sought to show that municipalities with fewer than 5,000 inhabitants
collect more than the municipalities of the group with a larger population per inhabitant.
Even the administrative expenses of these small municipalities are not significantly higher.
The social rights of citizens, which are provided for in the Federal Constitution, are more
efficiently served in smaller municipalities if the per capita values are considered. For
instance, in some of the budgetary functions (e.g., health), the differences in investment
volumes are quite high. Additionally, small municipalities act as promoters of development
by encouraging economic activities and do so with larger investments, once again using the
citizen as a unit. Therefore, it is not appropriate to prejudge and condemn municipalities
solely based on the number of inhabitants and the amounts they collect. The municipalities,
first and foremost, are proponents and executors of public policies where financial profit
cannot be constituted as an evaluation measure.
Keywords: Municipalities. Incorporation of Municipalities. Social Rights. Public Incentives.

Los pequeños municipios brasileños: viabilidad, derechos sociales y desarrollo local


Resumen
En Brasil, hay 5.570 municipios de los cuales 1.253 tienen menos de 5.000 habitantes. El PEC
188/2019 propone la incorporación de parte de estos municipios por municipios vecinos con
mayor capacidad financiera. Los ingresos propios del municipio son el segundo criterio
previsto en el PEC. Esta obra muestra que, por habitante, los municipios con una población
inferior a 5.000 habitantes recogen más que los municipios del grupo con una población
mayor. Ni siquiera los gastos administrativos de estos pequeños municipios son
significativamente mayores. Los derechos sociales de los ciudadanos, previstos en la
Constitución Federal, son atendidos de manera más eficiente en los municipios más
pequeños, si se consideran valores per cápita. En algunas de las funciones presupuestarias,
como la salud, por ejemplo, las diferencias en los volúmenes de inversión son bastante altas.
Los pequeños municipios también actúan como promotores del desarrollo fomentando las
actividades económicas y lo hacen con mayores inversiones, utilizando una vez más al
ciudadano como unidad. Por lo tanto, no es apropiado prejuzgar y condenar a los municipios
basándose únicamente en el número de habitantes y las cantidades que recaudan. Los
municipios, en primer lugar, son proponentes y ejecutores de políticas públicas donde el
beneficio financiero no puede constituirse como una medida de evaluación.
Palabras clave: Municipios. Incorporación de Municipios. Derechos Sociales. Incentivos
públicos.

1 Introdução

O Brasil conta, atualmente, com 5.570 municípios, incluindo o Distrito Federal.


Este número é resultado de diversas ondas emancipacionistas, as quais ocorreram
em maior ou menor intensidade, como pode ser observado na tabela nº 1, ao longo
do período republicano da história Brasileira. Uma explicação para tais oscilações
advém das diversas Constituições da República, vigentes nas épocas em que estes
municípios foram criados, as quais eram complementadas por diversos instrumentos
legais que simplificavam, ou restringiam, estes processos emancipatórios.

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Tabela 1. Crescimento absoluto e relativo no número de municípios no Brasil, por


intervalos constitucionais
Intervalo Constituição vigente Municípios Cresciment Total ao
Constitucional criados o relativo fim do
(%) intervalo
1891 – 1934 1891 – Primeira República 475 53,9 1.356
1934 – 1937 1934 – Segunda República 81 6,0 1.437
1937 – 1946 1937 – Estado Novo 217 15,1 1.654
1946 – 1967 Constituição Democrática de 1946 – 2.235 135,1 3.889
Estado Novo
1967 – 1969 1967 – Regime Militar 1 0,0 3.890
1969 – 1988 1969 – Regime Militar 233 6,0 4.123
1988 até hoje 1988 – Constituição Cidadã 1.447 35,1 5.570
Fonte: (NUNES, 2017)

Destacam-se, nestes diversos períodos, as Constituições de 1946 e a de 1988,


em função do grande número de municípios criados em suas vigências. São
consideradas, desta forma, Constituições “municipalistas” (NUNES; MATOS, 2019, p.
1). Uma diferença significativa, dentre tantas, entre a Constituição atual e as demais
é que, pela primeira vez, o município passou a ser considerado um dos entes
federativos integrantes da república (BRASIL, 1988), além de também simplificar o
processo de criação de novos municípios. O represamento existente desde a
instalação do Governo Militar, em 1964, foi rompido e, desta forma, verificou-se em
poucos anos o surgimento de um número significativo de novos municípios (NUNES;
MATOS, 2019; SOUZA, 2015).
Esta profusão de emancipações ocasionou reações que resultaram na
imposição de freios à novos processos emancipacionistas. Um dos primeiros foi
estabelecido pela Emenda Constitucional nº 15, de 1996, ao dar uma nova redação ao
parágrafo 4º do artigo 18:

§ 4º A criação, a incorporação, a fusão e o desmembramento de Municípios,


far-se-ão por lei estadual, dentro do período determinado por lei
complementar federal, e dependerão de consulta prévia, mediante
plebiscito, às populações dos Municípios envolvidos, após divulgação dos
Estudos de Viabilidade Municipal, apresentados e publicados na forma da
lei. (BRASIL, 1996)

O Congresso Nacional, por sua vez, também contribuiu para as dificuldades


impostas à novos processos de criação, incorporação, fusão e desmembramento de
municípios ao não estabelecer, ou regulamentar, o conjunto de novos instrumentos
legais apontados na Emenda Constitucional (CIGOLINI, 2017; NUNES; MATOS, 2019;
SOUZA, 2015; TOMIO, 2005). Esta indiferença do poder legislativo parece ser
proposital pois a superação destes obstáculos, caso aconteça, permite supor uma
leva significativa de novos municípios.
O Governo Federal, adicionalmente, também tem desempenhado um papel
preponderante para a não superação destes novos empecilhos. Apesar da aparente
letargia demonstrada pelo Congresso Nacional, a Presidência da República, em duas
oportunidades, vetou integralmente iniciativas definidas pelo poder legislativo as
quais estabeleciam critérios para a regulamentação necessária a partir da Emenda
Constitucional nº 15 (BRASIL, 2013, 2014).

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Os pequenos municípios brasileiros: viabilidade, direitos sociais e desenvolvimento local

A iniciativa mais recente, também originária no poder executivo, vem na


direção oposta das até aqui observadas. Em novembro de 2019 a Presidência da
República submeteu ao Congresso Nacional a Proposta de Emenda Constitucional
(PEC) 188/2019 a qual embutia o propósito de extinção de pequenos municípios não
sustentáveis financeiramente (SENADO FEDERAL, 2019). Esta intenção,
aparentemente, atendia a muitas manifestações que rotineiramente são apregoadas
em órgãos da imprensa (CID, 2020; SATURNO, 2019; TRISOTTO, 2019), por diversas
associações empresariais, industriais ou financeiras e, até mesmo, por instituições
públicas ou o próprio poder executivo federal (LIMA, 2020; MARTINS, 2020). Para tais
atores os pequenos municípios são um fardo para a nação, visto que dependem,
quase que exclusivamente, de transferências orçamentárias governamentais.
Consideram, ainda, que os principais interesses na criação de novos municípios, ou
manutenção dos atuais, residem em fatores econômicos e na disponibilidade de
novos cargos públicos a serem preenchidos, principalmente os de natureza política
(NUNES, 2017; REZENDE, 2011).
A submissão desta proposta também provocou, imediatamente, inúmeras
reações em sentido contrário, tanto por parte dos próprios municípios a serem
atingidos com a proposta, quanto de associações de municípios ou mesmo de outras
instituições (CNM, 2020). Apesar do possível corporativismo manifestado por estas
instituições elas representam, fundamentalmente, os interesses das comunidades
envolvidas, na tentativa de rechaçar os argumentos em que se enfatizam o excesso,
tanto no número de municípios quanto nos gastos realizados por estes.
A busca pelos direitos sociais, por meio da criação de um novo município,
estão presentes na maior parte das manifestações dos cidadãos envolvidos. Cigolini
(2017), Souza (2015) e Nunes (2017) relatam estudos de diversos pesquisadores1, cujas
conclusões podem ser dispostas em dois pontos principais:

a) Ausência de serviços públicos como educação, saúde, saneamento,


transporte, iluminação pública, energia elétrica e habitação. Estes fatores
estão, normalmente, associados com o descaso verificado na
administração pública e, ainda, à grande extensão territorial do município
de origem;
b) A existência de forte atividade econômica nas comunidades
emancipacionistas às quais, normalmente, estão relacionadas à existência
de infraestrutura de serviços públicos tão satisfatória não justificando
mais a subordinação ao município de origem.

A criação de municípios, deste modo, pode ser observada sob a perspectiva


das aspirações dos cidadãos, as quais relacionam-se de forma muito acentuada com
o artigo 6º da Constituição Federal de 1988, onde:

Art. 6º. São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho,


a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a
proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na
forma desta Constituição. (BRASIL, 1988)

1
Cigolini cita, em seu artigo, trabalhos desenvolvidos por Breameker (1992), Mello (1992) e Noronha
(1997). Souza e Nunes referem-se aos trabalhos realizados por Breameker.

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Este conjunto de posições polarizadas representam, obviamente, a


inexistência de consenso em relação às funções dos municípios,
preponderantemente àquelas de caráter social, muito embora as opiniões que julgam
o município como um ente financeiro, exclusivamente, sejam mais ruidosas. Este
trabalho pretende, em sentido oposto, mostrar os municípios, especialmente
àqueles considerados de pequeno porte, como entes sociais e principais executores
das políticas públicas voltadas ao atendimento dos direitos sociais previstos na
Constituição Federal e na promoção do desenvolvimento local. A intenção é mostrar
que, apesar de serem considerados pelo próprio Governo Federal e pela mídia, de um
modo geral, como não sustentáveis financeiramente e, desta forma, constituírem-se
em um peso para a nação, os pequenos municípios, quando confrontados com seus
opostos, são mais eficientes e transferem uma maior quantidade de recursos
públicos aos seus cidadãos.

Tabela 2. Distribuição municipal por faixa populacional - Brasil - 2019


Faixa populacional Municípios
< 5.000 Habitantes 1253
5.000 - 10.000 Habitantes 1199
10.000 - 20.000 Habitantes 1345
20.000 - 50.000 Habitantes 1100
≥ 50.000 Habitantes 673
Total 5570
Fonte: (IBGE, 2019)

O trabalho é de natureza quantitativa e baseia-se, fundamentalmente, na


execução orçamentária de 5.067 municípios brasileiros no ano de 2019, obtidas na
Secretaria do Tesouro Nacional (STN) que, por meio do Sistemas de Informações
Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro (Siconfi), armazena e disponibiliza
informações contábeis em uma base de dados denominada Finanças do Brasil
(Finbra) obtidas em diversos entes públicos, dentre eles os municípios. Para efeitos
de comparação, tanto da receita arrecadada quanto da despesa por função, os
municípios foram separados em diversos grupos, apresentados na tabela nº 2, com
destaque para os municípios com população menor que 50.000 habitantes 2 no
mesmo ano de 2019 adotando, para tanto, as estimativas populacionais produzidas
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Este artigo é composto por, além desta introdução, três outras seções. A
primeira delas apresenta a distribuição geográfica dos municípios brasileiros com
destaque para aqueles com população inferior à 5.000 habitantes. Na seção seguinte
os municípios são analisados sob o ponto de vista de sua sustentabilidade financeira,
como sugere a PEC 188/2019. Na última seção são observados o atendimento, por
parte dos municípios, aos direitos sociais dos cidadãos, conforme prevê a
Constituição Federal de 1988 além da verificação dos incentivos em relação à sua
economia, principalmente à agricultura, comércio, energia e indústria. As

2
Os municípios com população superior a 50.000 habitantes foram incluídos em uma única faixa em
função de que o objetivo principal do trabalho é a observação dos pequenos municípios bem como a
necessidade de que as diversas faixas populacionais não contenham um número de municípios
discrepantes entre si.

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Os pequenos municípios brasileiros: viabilidade, direitos sociais e desenvolvimento local

considerações finais encerram este texto de forma a analisar em conjunto as


principais informações apresentadas.

2 A distribuição geográfica dos pequenos municípios brasileiros

A distribuição dos municípios no território brasileiro, como pode-se observar


no mapa apresentado na figura nº 1, onde cada ponto representa uma localidade, não
é uniforme. As regiões sul, sudeste e nordeste são intensamente povoadas e contém
a maior parte dos municípios. As regiões norte e centro-oeste (ao menos uma parte
deste) do país, por sua vez, possuem um menor número de municípios. O mapa
também apresenta a intensa concentração de municípios em toda a faixa litorânea e
nas suas adjacências.
O mapa diferencia, adicionalmente, os municípios com base em sua população
estimada pelo IBGE para o ano de 2019 (IBGE, 2019). Os pontos representam a
centroide3 da malha geográfica de todos os 5.570 municípios do Brasil. O primeiro
grupo de municípios, representados pelos pontos em azul, referem-se àqueles cuja
população estimada é superior a 5.000 habitantes e são em número de 4.317 ou 77,5%
dos municípios brasileiros. Este conjunto de municípios é quase hegemônico na
região norte e em boa parte da região centro-oeste. Nas demais regiões geográficas
do país distribuem-se, principalmente, pela faixa litorânea. Nos estados da Bahia,
Maranhão, Ceará, Pernambuco e Alagoas a quase totalidade destes municípios
pertencem a esta categoria.
Os pontos em vermelho representam os 1.253 municípios com menos de 5.000
habitantes, alvos da PEC 188/2019 (SENADO FEDERAL, 2019), os quais correspondem
a 22,5% do total. Uma característica significativa, ao menos na história recente, mostra
que grande parte destes pequenos municípios são resultado da divisão de outros
municípios também com pequeno número de habitantes (CIGOLINI; CACHATORI,
2012; MAGALHÃES, 2007). Pode-se destacar, de imediato, o fato de que este
fenômeno não ocorre nos Estados do Acre, Amapá, Rio de Janeiro e Roraima e é
quase imperceptível nos estados do Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Pará, Mato
Grosso do Sul, Maranhão, Pernambuco, Alagoas e Rondônia onde a quantidade não
ultrapassa a cinco municípios com população inferior a 5.000 habitantes. Estes
estados, em conjunto, somam apenas 26 municípios.

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O centroide corresponde a um ponto cujas coordenadas são as médias das coordenadas dos pontos
que formam uma figura geométrica ou, ainda, o centro geométrico de uma figura (MICHAELIS, 2020).

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Figura 1. Municípios por faixa populacional - Brasil - 2019

Fonte: (IBGE, 2019)

A segunda metade dos Estados Brasileiros contém os 1.227 municípios


restantes o que, por si só, mostra que a existência de municípios com população
inferior a 5.000 habitantes não é, exatamente, um problema nacional. Os Estados de
Minas Gerais e do Rio Grande do Sul lideram em números absolutos: cada um com 231
municípios candidatos à extinção de acordo com a PEC 188/2019 (SENADO FEDERAL,
2019). Com números não tão expressivos, mas superando os 100 municípios cada,
estão os Estados de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Dos demais cabe referência
aos Estados de Goiás, Piauí, Tocantins e Paraíba, todos contabilizando mais de 50
municípios.
Este ranking sofre mudanças quando construído sob o ponto de vista relativo.
Além do fato destes 1.253 municípios representarem quase um quarto das
municipalidades brasileiras em alguns estados esta proporção é ainda maior. Os
Estados do Tocantins (49,64%) e Rio Grande do Sul (46,48%) poderão perder,
praticamente, a metade de seus municípios. Com índices um pouco menores, mas
ainda significativos, estão os estados de Goiás, Santa Catarina, Piauí, e Paraíba, todos
com coeficientes superiores a 30%. Finalmente, com percentuais superiores aos
verificado à nível nacional, estão os Estados do Rio Grande do Norte, Minas Gerais,
Paraná, Mato Grosso e São Paulo.

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Os pequenos municípios brasileiros: viabilidade, direitos sociais e desenvolvimento local

3 Os municípios e sua viabilidade econômica

As Administrações públicas no Brasil, em nível Federal, Estadual e Municipal,


têm sua execução orçamentária, de forma especial suas despesas, normatizadas pela
Lei Complementar 101, denominada de Lei de Responsabilidade Fiscal (BRASIL, 2000).
Um dos motivos para a existência de tal instrumento foi, sem sombra de dúvida, o
descontrole e o descompasso entre as receitas e os gastos públicos. Outro objetivo,
mesmo que indireto, é a garantia da viabilidade econômica de tais entes públicos.
Cabe citar também que a Lei não discrimina nem o tipo nem o porte do ente público.
A Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988) estabelece as alternativas,
pelos quais os entes públicos podem obter os recursos financeiros necessários para
a execução de suas funções. No caso dos municípios estão incluídas as receitas
próprias, decorrentes da cobrança de tributos específicos, além das transferências
de parte das arrecadações estadual e federal. Estas transferências, por força da
legislação, compõe a receita municipal e, com exceção das transferências voluntárias,
não se constituem em qualquer espécie de socorro financeiro, ou de benesse, de
parte dos governos de instâncias superiores aos municípios brasileiros.
Apesar de todo o arcabouço legal que se aplica às finanças públicas, do
consequente e necessário controle e verificação de parte dos poderes legislativos
municipais e dos órgãos fiscalizadores, são frequentes as manifestações de diversas
instituições e associações de classe, principalmente governamentais, políticas,
empresariais e financeiras, em relação aos pequenos municípios, ou, como
caracterizam, inviáveis economicamente. Um exemplo são as exposições de
motivos, presentes nas mensagens dos vetos presidenciais aos projetos de lei
aprovados pelo Congresso Nacional (BRASIL, 2013, 2014) e na PEC 188/2019 (SENADO
FEDERAL, 2019) que ressaltam, sobremaneira, o aumento de despesas sem a
reciprocidade da necessária arrecadação financeira, elevando o problema dos novos
municípios a uma simples questão envolvendo a responsabilidade fiscal nos entes
públicos.
Outra ocorrência na mesma direção, a qual será analisada nesta seção, é a
proposta governamental embutida na PEC 188/2019 (SENADO FEDERAL, 2019) a qual
estabelece o índice de sustentabilidade financeira como critério adicional, além da
população inferior a 5.000 habitantes, para a definição tanto dos municípios a serem
incorporados quanto dos municípios incorporadores. O texto proposto contém:

§ 1º A sustentabilidade financeira do Município é atestada mediante a


comprovação de que o respectivo produto da arrecadação dos impostos a
que se refere o art. 156 da Constituição Federal corresponde a, no mínimo,
dez por cento da sua receita. (SENADO FEDERAL, 2019)

Este índice de 10% de receita própria em relação à receita total de um


município é, sem necessidade de maiores explicações, totalmente aleatório, mesmo
combinado com o fator populacional do município em questão. O texto da Proposta
de Emenda Constitucional não apresenta os motivos pelos quais os municípios que
não atingissem, ou superassem, este percentual, seriam insustentáveis
financeiramente, ou sustentáveis, conforme o caso.
O gráfico, em formato de caixa, apresentado na figura nº 2 ilustra o
comportamento da relação existente entre a receita própria e a receita total, de

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acordo com a população municipal. O gráfico exibe adicionalmente, nos pontos em


vermelho, a média aritmética da relação estudada. Em todos os grupos de municípios
exibidos esta medida estatística situa-se acima da mediana, demonstrando, de certa
forma, estar sendo influenciada pelos valores atípicos.

Figura 2. Relação entre receita própria e receita total nos municípios Brasileiros -
2019

Fonte. (STN, 2019)

Os municípios com população inferior a 5.000 habitantes apresentam, de fato,


um menor índice de sustentabilidade financeira, caso se adote a definição constante
na PEC 188/2019. É possível observar, no gráfico, que a quase totalidade dos entes
municipais deste grupo situam-se abaixo do patamar de 10%. Poucos municípios
colocam-se acima deste índice e, portanto, não correm o risco de serem incorporados
por localidades vizinhas, caso a PEC seja aprovada.
Um quadro que, se não é igual aproxima-se bastante aos pequenos
municípios, é o apresentado por uma parcela de municípios com mais do que 5.000
habitantes. A grande maioria dos municípios das faixas com população inferior a
20.000 habitantes, em conjunto com boa parte daqueles com população entre
20.000 e 50.000 habitantes, tem a relação entre receita própria e receita total inferior
aos 10% estabelecidos pela PEC. Este índice, pelo menos da forma como foi proposto,
não se mostra adequado para a identificação de municípios inviáveis
financeiramente. Se assim fosse um número superior a 2.500 municípios seriam
passíveis de incorporação retornando a um quadro próximo àquele da primeira
república.
O gráfico da figura nº 3 propõe uma análise sob um ângulo distinto, embora o
objeto seja o mesmo: a receita própria dos municípios. A redução da arrecadação ao
nível individual, para cada habitante, mostra os vários grupos de municípios com
comportamentos praticamente idênticos. Nas cinco primeiras faixas populacionais,
englobando os municípios com menos de 100.000 habitantes, quase todos possuem
arrecadação própria per capita inferior a R$ 500,00. A semelhança entre estas

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Os pequenos municípios brasileiros: viabilidade, direitos sociais e desenvolvimento local

distribuições mostra que, na pior das hipóteses, os municípios menores têm o mesmo
nível de eficiência arrecadatória que os municípios com maior população. O gráfico
aponta, ainda, para a hipótese de que a inferioridade dos pequenos municípios, em
se tratando do índice de sustentabilidade financeira, pode ser em decorrência das
transferências governamentais que contribuem para a receita total do município. Os
volumes destas transferências, quando em valores absolutos, são significativos em
relação à pequena arrecadação municipal.

Figura 3. Receita própria por habitante nos municípios Brasileiros - 2019

Fonte. (STN, 2019)

As despesas administrativas, necessárias às administrações dos municípios,


constituem-se em um contraponto às questões levantadas quando das análises sobre
as receitas municipais. Os valores liquidados, relativos ao orçamento de 2019, nas
funções Administração e Legislativa, são mostrados no gráfico da figura nº 4, mais
uma vez de forma per capita. A primeira constatação é a de que, em todos os grupos
de municípios, as despesas com administração são muito maiores que as despesas
com a função legislativa. Evidencia-se, desta forma, que o custo com as Câmaras de
Vereadores, com exceção, talvez, dos municípios com menos de 10.000 habitantes, é
pequeno em relação às despesas administrativas.
Outro ponto evidente no gráfico é o fato de que quanto maior for a população
municipal menores serão os custos administrativos e legislativo, se tomados em
valores per capita. Neste sentido é verdadeira a premissa de que os pequenos
municípios dispendem valores mais elevados que os municípios com população
superior a 5.000 habitantes, tanto na administração municipal (função
Administração) como na Câmara de Vereadores (função Legislativa). Na função
Administração, entretanto, as diferenças são bem mais significativas. Duas breves
razões podem ser elencadas para tais comportamentos:
a) As administrações públicas exigem uma estrutura mínima para o seu
funcionamento. Além do Prefeito e Vice, definidos na Constituição Federal
de 1988, existe a necessidade de oferecimento de serviços à população. O

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conjunto de recursos, humanos e financeiros, empregados para a


execução destes serviços não é proporcional ao tamanho da população.
b) O número de vereadores segue uma escala discreta de acordo com a
Constituição Federal de 1988. Qualquer município, com qualquer
população terá, ao menos, nove vereadores. Este é o caso do grupo de
municípios com menos de 5.000 habitantes. Esta estrutura fixa para a
atividade legislativa certamente impulsiona o seu custo por habitante.
(BRASIL, 1988)

Figura 4. Despesas administrativas por habitante nos municípios Brasileiros - 2019

Fonte. (STN, 2019)

A comparação entre receitas próprias e despesas administrativas, em poucas


oportunidades, será favorável nos pequenos municípios, seja empregando seus
valores absolutos, seja usando os valores per capita. A observação, simultânea, dos
gráficos das figuras 3 e 4 deixa este fato em evidência. Tem-se, por um lado, 75% (ou
mais) dos municípios com população menor que 5.000 habitantes com receitas
próprias que não atingem R$ 500,00 por habitante. No outro lado, apenas nas
despesas da função “Administração” a quase totalidade destes municípios
dispendem um valor per capita superior a estes mesmos R$ 500,00.
Os municípios maiores que 5.000 habitantes, por sua vez, também
comprometem parte significativa de suas receitas, ou do total de suas despesas, com
as suas atividades administrativas e legislativas. As informações disponíveis no Siconfi
(STN, 2019) permitem estabelecer a proporção, em percentuais, existentes entre a
despesa administrativa dos municípios e suas receitas e despesas totais, e, além de
corroborar que este contexto ocorre com maior intensidade nos pequenos
municípios, ilustram também que as diferenças para os municípios maiores não são
expressivas.
Um exemplo concreto pode ser apresentado a partir da ordenação destas
relações, tanto a participação na despesa quanto o comprometimento da receita. A
linha demarcatória do primeiro quartil mostra que as despesas administrativas de 75%

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Os pequenos municípios brasileiros: viabilidade, direitos sociais e desenvolvimento local

dos municípios com menos de 5.000 habitantes compreendem, no mínimo, a 17,4%


de suas despesas totais enquanto para 75% do grupo de municípios maiores
(considerando todas as faixas populacionais) este índice é de 12,6%. A diferença,
olhando agora para a receita, é semelhante. 75% dos municípios menores
comprometem, no mínimo, 14% de sua receita total. Nos municípios do segundo
grupo, 75% deles consomem um valor superior a 10,9% da receita total. Não se pode
afirmar, sem análises mais específicas, a significância destas diferenças. Pode-se,
todavia, reconhecer que também são valores expressivos.
A análise destas questões por meio de um ponto de vista puramente
econômico pode conduzir a encaminhamentos inapropriados, como é o caso
específico da PEC 188/2019. É recomendado lembrar que os municípios, todos eles, a
partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, tornaram-se proponentes e
executores de políticas e serviços públicos, principalmente na área da saúde e da
educação. É fundamental, desta forma, que se observe o papel, principalmente dos
pequenos municípios, neste contexto. A próxima seção trata destes, e dos demais,
direitos dos cidadãos estabelecidos pela Constituição em vigor.

4 Os municípios, os direitos sociais e o estímulo às atividades econômicas

A definição, pela Constituição Federal de 1988, dos municípios como entes


federativos não significou apenas o seu reconhecimento, mas, sobretudo, trouxe
consigo um expressivo acréscimo de autonomia política, financeira e administrativa.
Esta autonomia acarreta, além de maior liberdade para auto-organização, um
conjunto mais amplo de responsabilidades, traduzidas em novas competências e
atribuições. Dentre estas incumbências está a formulação e implementação de
políticas que resultem no oferecimento de bens e serviços públicos aos cidadãos e
que, de forma prática e concreta, traduzem-se nos direitos sociais referenciados no
artigo sexto da Constituição (BRASIL, 1988).
Alguns pesquisadores, ao estudarem emancipações distritais, dedicaram
atenção à efetividade dos pequenos municípios em relação aos avanços sociais
nestas localidades. Souza (2018, p. 109), ao abordar esta questão, é enfático ao dizer
que “a emancipação proporcionou avanços e contribuiu para o desenvolvimento
local em vários pequenos municípios brasileiros”. Em outro trabalho, Klering, Kruel e
Stranz analisam indicadores de gestão, os quais

evidenciam que a descentralização da administração pública tem efeitos


bastante positivos na melhoria da performance ou qualidade de gestão dos
municípios. Pode-se confirmar assim que ser pequeno é interessante e
estratégico, em termos de melhoria da qualidade de vida, especialmente
para as populações locais diretamente interessadas em resolverem suas
necessidades, como para os respectivos estados e mesmo para o Brasil,
sendo que todos saem obtendo vantagens. (KLERING; KRUEL; STRANZ,
2012, p. 42)

A atenção que os municípios dedicam ao conjunto de direitos sociais


estabelecidos na Carta Magna pode ser medida de diversas formas. Este trabalho
empregou, a partir da base de dados Finbra (STN, 2019), as despesas liquidadas por
função orçamentária. Embora nem todas as funções orçamentárias relacionem-se
diretamente a estes direitos, algumas podem ser tomadas como proxies de forma a

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permitir o estudo em questão. Assim, das 28 funções orçamentárias previstas para as


despesas municipais, nove funções foram analisadas: Assistência Social, Desporto e
Lazer, Educação, Habitação, Saneamento, Saúde, Segurança Pública, Trabalho e
Transporte. As duas principais, saúde e educação, estão expostas no gráfico da figura
nº 5, o qual apresenta a distribuição percentil para cada uma das cinco faixas
populacionais estabelecidas.

Figura 5. Despesas em saúde e educação por habitante nos municípios Brasileiros -


2019

Fonte. (STN, 2019)

É possível visualizar, nas duas funções orçamentárias, que os maiores valores


per capita são dispendidos por municípios com menor população, especialmente
àqueles com menos de 5.000 habitantes. Não se pode estabelecer uma regra geral
em função de que existem muitas sobreposições, mas a aparência de escada, no
gráfico, em conjunto com um possível agrupamento de duas ou mais faixas
populacionais, indicam uma maior preocupação dos pequenos municípios tanto em
educação quanto no atendimento à saúde.
Em educação nenhuma das faixas populacionais se destaca completamente
das que as seguem. Embora a aparência do gráfico indique uma supremacia dos
municípios menores é necessário levar em consideração que o inverso também é
verdadeiro, isto é, muitos municípios com população maior investem mais em
educação, em valores per capita, que localidades com menos habitantes.
As despesas em saúde, no gráfico, chamam a atenção para três pontos
significativos. Em primeiro lugar um desgarramento dos municípios com população
inferior a 5.000 habitantes de modo que, em quase sua totalidade, apresentam
valores por habitante superior a qualquer outra faixa populacional. Exibe também,
para as demais faixas, o mesmo comportamento visto quando dos investimentos em
educação, isto é, as diferenças entre os grupos populacionais não são evidentes. Por
último pode-se verificar um comportamento diferente dos municípios maiores,
principalmente àqueles com população superior a 50.000 habitantes. Nestas faixas

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Os pequenos municípios brasileiros: viabilidade, direitos sociais e desenvolvimento local

populacionais há uma inversão na tendência de queda nos investimentos em saúde


por habitante.

Tabela 3. Distribuição de municípios por função orçamentária de natureza social,


grupos de investimentos e faixas populacionais - Brasil - 2019
Função Quartil Menor que Entre 5.000 Entre Entre Maior ou
orçamentária 5.000 Hab. e 10.000 10.000 e 20.000 e igual a
(* ) Hab. 20.000 50.000 50.000 Hab.
Hab. Hab.
Assistência 1 1,90% 11,23% 26,27% 32,28% 28,32%
Social (1264) 4 65,59% 20,65% 8,47% 3,80% 1,50%
Desporto e 1 9,82% 17,55% 27,54% 26,53% 18,56%
Lazer (1191) 4 44,97% 22,57% 15,52% 10,57% 6,38%
Educação 1 4,98% 19,94% 25,40% 24,92% 24,76%
(1264) 4 48,46% 19,37% 16,76% 11,30% 4,11%
Habitação 1 14,56% 13,27% 18,77% 22,65% 30,74%
(309) 4 42,39% 19,42% 14,24% 9,06% 14,89%
Saneamento 1 12,67% 19,07% 27,38% 25,61% 15,26%
(734) 4 28,16% 16,60% 15,92% 18,37% 20,95%
Saúde (1264) 1 0,55% 11,31% 31,88% 36,08% 20,17%
4 65,43% 15,35% 6,17% 6,33% 6,72%
Segurança 1 15,31% 18,88% 25,34% 22,96% 17,52%
Pública (588) 4 11,04% 8,32% 14,26% 25,81% 40,58%
Trabalho 1 8,04% 4,91% 11,61% 28,13% 47,32%
(224) 4 46,43% 18,30% 12,05% 10,71% 12,50%
Transporte 1 10,02% 19,83% 23,35% 27,27% 19,52%
(968) 4 57,07% 23,12% 13,00% 5,06% 1,75%
Fonte. (STN, 2019)
* Os números correspondem ao número de municípios em cada um dos quartis na respectiva função
orçamentária.

A tabela nº 3 apresenta as medidas separatrizes4, identificadas como quartis,


referentes ao emprego de recursos municipais, em valores per capita, em cada uma
das nove funções orçamentárias adotadas para análise do atendimento dos direitos
sociais definidos na Constituição Federal. O quartil 1, na tabela, representa o grupo
de municípios que menos dispenderam valores em cada função orçamentária,
enquanto o quartil número 4 engloba aqueles que mais empregaram seus recursos.
Os dados referentes à educação e saúde ratificam e complementam a
impressão obtida quando da análise do gráfico da figura nº 5. Em educação quase
metade dos municípios que se localizam no quarto quartil, isto é, dos que mais
aplicam recursos, possuem menos que 5.000 habitantes e quase 20% estão na faixa
populacional seguinte, com população inferior à 10.000 pessoas. No primeiro quartil,
daqueles que menos investem, por habitante, em educação apenas 5%,

4
Medidas separatrizes, no caso específico os quartis, são determinados pela ordenação crescente dos
valores em estudo e, este rol, separados em quatro partes contendo o mesmo número de
observações. A medida referente ao primeiro quartil identifica que 25% dos integrantes da população
estudada, ou amostra, apresentam valores inferiores a um determinado valor (do quartil) e,
consequentemente, 75% exibem valores superiores à medida correspondente.

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Reneo Pedro Prediger, Sérgio Luís Allebrandt, Roseli Fistarol Kruger, Patrícia de Carli

aproximadamente, são classificados como pequenos municípios. Na saúde os


municípios menores se destacam de maneira ainda mais acentuada. No último quartil
mais de 80% dos municípios integrantes possuem menos de 10.000 habitantes
ressaltando que a quase totalidade destes são da primeira faixa populacional, com
menos de 5.000. Estes mesmos municípios, no primeiro quartil, compõe menos de 1%
do total. O grupo municipal seguinte, entre 5.000 e 10.000 pessoas, compreende
pouco mais de 10% dos integrantes deste quartil, indicando que nas três faixas
populacionais que restam estão localizados a grande maioria das localidades que
menos concentram recursos orçamentários na área da saúde.
As demais sete funções orçamentárias apresentam modelos diversos. O
primeiro deles é que em apenas uma das funções, Segurança Pública, os municípios
com mais de 50.000 habitantes, no seu conjunto, dispendem valores superiores aos
demais grupos de municípios. Em outras funções o padrão verificado em educação e
saúde onde os pequenos municípios se destacam por investimentos maiores se
repete, como é o caso da Assistência Social, Desporto e Lazer, Transporte, Habitação
e Trabalho. Nas três primeiras, adicionalmente, são verificados poucos municípios
maiores que 50.000 habitantes entre aqueles que mais aplicam seus recursos
financeiros. Por fim, entre os municípios que menos aplicam recursos nestas áreas,
identificados no primeiro quartil, pode-se observar uma distribuição semelhante
entre os diversos grupos populacionais onde nenhum deles destaca-se em relação
aos outros.
O desempenho dos municípios com menor número de habitantes, nestas
funções orçamentárias que retratam o atendimento aos direitos sociais dos cidadãos
preconizados na Constituição Federal, é amplamente superior aos demais municípios.
Em algumas delas, como a saúde e educação, onde o ordenamento legal determina
parâmetros mínimos de investimentos para todos os entes federativos esta
ascendência é ainda mais significativa.
Os municípios dedicam parcelas de seus orçamentos em áreas onde a
legislação, de forma explicita, não os obriga, mas são vistos como importantes para
o desenvolvimento local. São os casos, dentre outros, dos incentivos concedidos à
agricultura, indústria, energia e comércio e serviços. Assim, além das questões
sociais, os municípios têm desempenhado importante papel na promoção do
desenvolvimento econômico, embora não se verifiquem, costumeiramente,
transferências de recursos dos níveis estaduais e federal de governo para estas
funções específicas. Os municípios, deste modo, para o alargamento das atividades
comerciais, industriais ou agropecuárias, têm empregado recursos próprios ou,
eventualmente, resultantes do apoio de parlamentares, pelo emprego de emendas
ao orçamento da República (DEGENHART; VOGT; ZONATTO, 2016; KLERING et al.,
2011; SIMÕES, 2004).
A Agricultura, para os municípios menores representa um novo destaque. A
grande maioria dos pequenos municípios investem mais recursos, por habitante,
nesta função. É também natural que isto aconteça pois, como mostra o mapa da
figura nº 1, os pequenos municípios, na sua maior parte, localizam-se no interior
Brasileiro e tem na agricultura o motor de suas atividades econômicas (SILVA NETO;
FRANTZ, 2003). De qualquer forma os valores dispendidos pelos municípios menores
são significativamente superiores aos dos outros grupos de municípios. A tabela nº4,
construída nos mesmos moldes da anterior, deixa este fato em evidência. Os grandes

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Os pequenos municípios brasileiros: viabilidade, direitos sociais e desenvolvimento local

municípios, consequentemente, quase não são percebidos entre os que mais atuam
nesta área.

Tabela 4. Distribuição de municípios por função orçamentária de natureza


econômica, grupos de investimentos e faixas populacionais - Brasil - 2019
Função Quartil Menor que Entre 5.000 Entre Entre Maior ou
orçamentária 5.000 Hab. e 10.000 10.000 e 20.000 e igual a
(* ) Hab. 20.000 50.000 50.000 Hab.
Hab. Hab.
Agricultura 1 6,74% 17,18% 25,22% 27,20% 23,66%
(1158) 4 59,97% 22,52% 12,42% 4,75% 0,35%
Comércio e 1 11,51% 17,55% 23,58% 21,51% 25,85%
Serviços 4 26,55% 21,56% 21,47% 20,34% 9,98%
(530)
Energia 1 15,40% 20,29% 31,05% 25,43% 7,82%
(409) 4 35,85% 20,49% 18,05% 16,59% 9,02%
Indústria 1 8,57% 16,19% 19,52% 22,86% 32,86%
(210) 4 43,81% 20,48% 15,71% 13,81% 6,19%
Fonte. (STN, 2019)
* Os números correspondem ao número de municípios em cada um dos quartis na respectiva função
orçamentária.

Nas despesas relacionadas às funções de energia e indústria também são


maioria entre os que mais empregam recursos. No primeiro caso os municípios com
população inferior a 5.000 habitantes representam mais de 35% do conjunto e,
quando incorporada a faixa populacional seguinte, esta proporção ultrapassa os 55%.
Na indústria estes números são ainda mais expressivos pois apenas a primeira faixa
populacional responde por quase 45% do todo. É importante salientar que nestas
duas funções orçamentárias os municípios maiores, com população superior a 50.000
habitantes, representam as menores parcelas. Finalmente, nos investimentos
municipais relacionados ao comércio não se pode vislumbrar nenhum grupo de
municípios que se destaque dos demais pois, nos dois quartis apresentados, há um
razoável equilíbrio.

5 Considerações finais

Este trabalho procurou desconstruir a ideia, preconcebida, de que os


pequenos municípios, notadamente aqueles cuja população é inferior a 5.000
habitantes, são inviáveis e, como propõe a PEC 188/2019, devem ser incorporados por
outros com maior capacidade financeira. Este prejulgamento, de parte de diversos
atores, leva em consideração apenas o resultado aritmético de sua capacidade de
arrecadação tributária. Deixam de considerar, por outro lado, o papel fundamental
de promotores e executores de políticas públicas.
O Brasil contava, de acordo com as estimativas para o ano de 2019, 1.253
municípios com menos de 5.000 habitantes e 4.317 com população igual ou superior
a este parâmetro. A PEC estabeleceu, como critério adicional, que estes municípios
menores, de forma a continuarem existindo, apresentassem um índice de
sustentabilidade financeira igual ou superior a 10%. Assim, em um passe de mágica,
mais de 1.000 municípios deixariam de existir. Tudo isto sem uma investigação mais

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Reneo Pedro Prediger, Sérgio Luís Allebrandt, Roseli Fistarol Kruger, Patrícia de Carli

profunda da atuação de cada município, até mesmo daqueles que exibem uma
população maior.
É correto afirmar que pouquíssimos municípios do grupo com menor
população ultrapassariam o limite de 10% na relação entre receita própria e receita
total. Ocorre, todavia, o mesmo fenômeno com os de maior população. Esta questão
envolvendo o quanto cada município consegue arrecadar obedece a uma lógica
puramente econômica, como se os municípios fossem entidades regidas por um
padrão puramente comercial. A Constituição Federal, entretanto, atribui aos
municípios, ao descentralizar as funções do Estado, um considerável conjunto de
responsabilidades.
As administrações dos pequenos municípios, é certo, pesam mais em seus
orçamentos do que os do grupo oposto. É preciso notar, contudo, que isto é uma
verdade quase que inconteste apenas se forem considerados em valores absolutos.
Com a execução orçamentária a nível de habitante este fato deixa de ser tão simplista
pois também se verifica nos maiores municípios. Assim o custo administrativo,
englobando os poderes executivo e legislativo, não pode ser um parâmetro de
avaliação único.
É evidente que, mais uma vez em valores absolutos, os municípios menores
possuem orçamentos mais reduzidos o que lhes impedem de realizar grandes
investimentos. Estão, por outro lado, mais próximos dos cidadãos e o pouco que têm
o transferem de forma mais eficiente para cada um de seus moradores. Os
denominados direitos sociais, explícitos na Constituição Federal, retratados por meio
de funções orçamentárias equivalentes, mostram perfeitamente uma melhor
distribuição dos recursos públicos disponíveis nos municípios.
Os pequenos municípios, ainda, executam suas funções como promotores e
indutores do desenvolvimento local. Em algumas áreas, como a agricultura por
exemplo, são muito mais incisivos. Em outras, como a indústria, comércio, serviços,
energia e ciência e tecnologia também superam os municípios com maior população
mesmo que esta superioridade seja menos impactante.
É possível que o saldo da equação receita própria menos despesas
administrativas, nos pequenos municípios, seja negativo. De outro lado estes
municípios transferem os recursos existentes, próprios ou recebidos de outras
esferas governamentais, em níveis mais elevados para cada um de seus habitantes.
Mesmo que esta conta esteja no vermelho existem maiores investimentos aos
cidadãos municipais.
Pode-se questionar o fato de que estas afirmações estão baseadas em valores
gastos pelos municípios e de forma per capita. Pode-se argumentar que os municípios
não empregam adequadamente seus recursos. É preciso notar, contudo, que estas
alegações devem valer para todos, pequenos e grandes municípios. A intenção de
condenar os pequenos municípios precisa ser fundamentada de forma mais
categórica. Corre-se o risco, entretanto, de chamar a atenção para problemas muito
maiores, não localizados, necessariamente, nos municípios com menor população.
Este trabalho empregou, como ponto de corte, o limite de 5.000 habitante
para a diferenciação dos pequenos municípios. Isto foi decorrência, pura e simples,
do parâmetro apontado na PEC188/2019. Não existem elemento que possibilitem
inferir o contrário para uma localidade com 5.001 moradores. Parâmetros numéricos,

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Os pequenos municípios brasileiros: viabilidade, direitos sociais e desenvolvimento local

e discretos, nem sempre são adequados para a tomada de decisões, ainda mais
complexas e importantes como a extinção de municípios.

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Reneo Pedro Prediger. Doutor em Desenvolvimento Regional pelo PPGDR/UNIJUI


(2020). Mestre em Ciência da Computação pelo PPGCC/UFRGS (1982). Professor
Adjunto na Universidade Federal da Fronteira Sul, campus Cerro Largo (RS). Rua
Jacob Reinaldo Haupenthal, 1.580. 97900-000 Cerro Largo (RS).
[Link]@[Link]

Sérgio Luís Allebrandt. Bolsista Produtividade em Pesquisa do CNPq. Professor


Titular e Coordenador do PPGDR/UNIJUÍ. Líder do Grupo Interdisciplinar de
Estudos em Gestão e Políticas Públicas, Desenvolvimento, Comunicação e
Cidadania (GPDeC). Doutor em Desenvolvimento Regional pelo PPGDR/UNISC
(2010). Mestre em Gestão Empresarial pela EBAPE/FGV (2001). Rua do Comércio,
3000. Prédio Épsilon. Campus Unijuí. Bairro Universitário, CEP: 98.700-000 – Ijuí,
RS, Brasil. allebr@[Link]

Roseli Fistarol Kruger. Bolsista PROSUC/CAPES. Doutora em Desenvolvimento


Regional pelo PPGDR/UNIJUI (2021). Mestre em Desenvolvimento pelo
PPGDR/UNIJUI (2016). Especialista em Gestão Empresarial e Controladoria pela
UNIJUI (2012). Sócia proprietária da Fullness Consultoria e Gestão Ltda. Rua Carlos
Guilherme Erig, 1705. Bairro Pindorama, CEP: 98.700-000 – Ijuí, RS, Brasil.
rfistarol@[Link]

Redes (St. Cruz Sul, Online), v.27, 2022. ISSN 1982-6745


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Reneo Pedro Prediger, Sérgio Luís Allebrandt, Roseli Fistarol Kruger, Patrícia de Carli

Patrícia de Carli. Doutoranda em Desenvolvimento Regional no PPGDR/UNIJUÍ


(Turma 2019), Mestre em Direito pelo PPGD/UNISC (2011). Especialista em Direito
Processual Civil (2018) e em Direito do Trabalho (2014) pela UNISC, Especialista em
Gestão Pública pela UFSM (2018), graduada em Direito pela UPF (2009). Assessora
Jurídica da Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul. Av.
Independência, n. 246, Bairro Vila Velha, CEP: 98.300-000, Palmeira das Missões –
RS, Brasil. patriciadecarli@[Link].

Submetido em: 06/10/2021 Aprovado em: 08/04/2022

CONTRIBUIÇÃO DE CADA AUTOR

Conceituação (Conceptualization): Reneo Pedro Prediger e Sérgio Luís Allebrandt


Curadoria de Dados (Data curation): Reneo Pedro Prediger
Análise Formal (Formal analysis): Reneo Pedro Prediger e Sérgio Luís Allebrandt
Obtenção de Financiamento (Funding acquisition): Sérgio Luís Allebrandt
Investigação/Pesquisa (Investigation): Reneo Pedro Prediger, Sérgio Luís Allebrandt, Roseli
Fistarol Kruger e Patrícia de Carli
Metodologia (Methodology): Reneo Pedro Prediger e Sérgio Luís Allebrandt
Administração do Projeto (Project administration): Reneo Pedro Prediger
Recursos (Resources): Reneo Pedro Prediger, Sérgio Luís Allebrandt, Roseli Fistarol Kruger
e Patrícia de Carli
Software: Reneo Pedro Prediger
Supervisão/orientação (Supervision): Sérgio Luís Allebrandt
Validação (Validation): Reneo Pedro Prediger, Sérgio Luís Allebrandt, Roseli Fistarol Kruger
e Patrícia de Carli
Visualização (Visualization): Reneo Pedro Prediger, Sérgio Luís Allebrandt, Roseli Fistarol
Kruger e Patrícia de Carli
Escrita – Primeira Redação (Writing – original draft): Reneo Pedro Prediger
Escrita – Revisão e Edição (Writing – review & editing): Reneo Pedro Prediger, Sérgio Luís
Allebrandt, Roseli Fistarol Kruger e Patrícia de Carli

Fontes de financiamento:
Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq)
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)

Redes (St. Cruz Sul, Online), v.27, 2022. ISSN 1982-6745


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