UM ROMANCE DE
Andrew Matthews D. O.
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Título original
Os Cabeças-Ocas de Wall Silver
Primeira publicação em
Tatuí, São Paulo, Brasil.
2024
1ª Edição
Todos os direitos da obra
Os Cabeças-Ocas de Wall Silver
reservados ao Autor
Andrew Matthews D. O.
Copyright do texto © Andrew Matthews D. O., 2023
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação
(CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
B333m Matthews, Andrew – 2004
Os Cabeças-Ocas de Wall Silver / Andrew Matthews D. O.
-- 1. ed. --
Torre de Pedra, SP : Ed. do Autor, 2020.
ISBN: 978-65-00-03804-0
1. Ficção brasileira 2. Suspense - Ficção 3. Romance
I. Título II. Andrew Matthews
20-37202
CDD - 869.3
CDU -
821.134.3(81)
Índices para catálogo sistemático:
1. Ficção : Literatura brasileira B869.3
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Para Purcy, que tomava banho enquanto eu
criei esta história, mas que nunca verá o
final dela.
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Prólogo
E
ram olhos amargos em um rosto doce e delicado.
Lágrimas penosas caíam em uma feição deslumbrante.
Dentre os cabelos loiros era escrita uma dor aguda cujo
sofrimento lhe trazia pesar. Seus últimos suspiros faziam o
arfante rapaz sobre ela gemer do mais tenebroso remorso que
sua alma poderia experimentar. Senti que meus pés formigavam
sobre a grama gelada; estava descalça e vestida apenas com um
pijama leve, com o vento gélido transpondo minhas pernas e me
fazendo tinir. Não sabia quem eram aqueles diante de mim, e
não fazia ideia de onde estava. Eu tinha feito aquilo?
— Angelina... — o rapaz susteve a cabeça mórbida e
apática de sua amada entre os braços cobertos pela cota de
malha. — Não, meu amor, por favor...
Tive a impressão de ver mais uma lágrima correndo pelo
rosto da dama antes que desfalecesse em um último e amainado
expirar, causando um grito amargo no homem, que veio do
fundo de seu peito, na mais aguda dor.
Suspirei profundamente, eu nunca fora a melhor
testemunha para esse tipo de coisa, mortes não eram algo a se
ver dessa maneira, como um evento banal. O petricor invadiu
minhas narinas quando finalmente expirei e tomei coragem para
algumas palavras irresolutas.
— Eu... sinto muito — tentei pronunciar, mas ouvi
minhas próprias frases como se estas fossem uma língua
desconhecida, a ponto de nem eu mesma compreender. —
Onde... onde eu estou? Quem é você e porque ela está morta? O
que está acontecendo?
Minha voz hesitante cedeu quando um estrondo profundo
preencheu nossos interiores. Uma criatura nos espreitava com
olhos famintos, mas vinha ao longe, assistindo tudo aquilo como
um espetáculo de circo.
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Os olhos azuis anil do rapaz se acenderam em uma fúria
cálida, como se deles saíssem o mais puro sentimento de ira. Ao
erguer-se, percebi que os pés da mulher moribunda estavam
envoltos em uma névoa que a escondia até a linha da cintura,
como se tivesse envolvido a si mesma com uma pequena nuvem.
Isso apenas acentuou minhas dúvidas. Ele seguiu em minha
direção, arquejando em cólera como se aquela fosse a última
batalha de sua vida. Tentei me afastar, erguer as mãos e
explicar alguma coisa, porém minha voz parecia ter sido levada
no vazio do cenário ainda misterioso para mim. Estávamos no
nada, no “lugar nenhum”, mesmo que eu olhasse em volta, ainda
sim nada enxergava, como se apenas sentisse.
Nas mãos enluvadas em couro surgiu uma espiral
crescente em um brilho purpúreo que dava forma a uma lâmina;
uma espada nua e longa como uma lança.
Alguns passos atrás, meus pés vacilaram sobre o que
deduzi ser uma pedra, me levando sem reação ao frígido solo
que pinicava por através de minhas roupas. Dirigiu-se a mim
vagarosamente com passos taciturnos e firmes, a espada em
mãos, o ódio na alma, e um desejo sanguinário por uma justiça
que nem mesmo eu compreendia.
Do outro lado, a criatura soava em um sibilar profundo,
seus olhos elípticos em um tom esmeralda brilhando em
contraste com a única luz vinda da claraboia onde estávamos,
cobertos em uma fumaça gerada por sua boca fumegante com
as mais horríveis presas que eu jamais vira. A primeiro
momento, parecia-se mais com o resultado de uma história de
amor macabra entre um homem, um lobo e o bicho-papão.
Por um instante, me dei conta de que o embate não me
envolvia, e que de alguma maneira eu estava intangível e
invisível; isso foi confirmado quando o rapaz me atravessou em
uma marcha morosa e triunfal.
Enfim a última encarada, a qualquer segundo o primeiro
golpe seria desferido e uma batalha épica teria um irromper
digno de partir os céus. Até que uma voz esganiçada chegou aos
meus ouvidos, dizendo:
— Jess! Jess! Jessica!
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Capítulo i
Um Ronin de três metros e cinquenta.
M
etade dos pés da coisa estavam envoltos em tiras de
couro, como na tentativa de criar uma sandália para
mais de um metro e noventa de sola. Seu queixo caído
continha duas vorazes presas, que se moviam enquanto arfava
em uma respiração ruidosa; os olhos pequenos, redondos, e de
um amarelo vivo nos fitavam como quem sabe de todos os
nossos pecados. Tinha cabelos — por mais incrível e sem
sentido que pareça — longos e negros presos em um coque
atado com uma fita vermelha sangue.
— Pra trás! — disse Wallace segurando um graveto
bifurcado que encontrou quando rolou em esquiva do último
ataque, que quase lhe tirara o pescoço. — Eu estou armado!
Um tapa da mão colossal do monstro fez o galho voar por
quilômetros, deixando-nos ainda mais vulneráveis.
— Ótimo! — o sarcasmo em sua voz estridente trazia um
medo perceptível. — Eu realmente tava pensando em te deitar
apenas no soco mesmo, obrigado. Aí, nosso tempo meio que tá
acabando, acho melhor ir mais rápido aí, né não?
Uma pergunta válida. Estivemos no saguão de entrada
tempo o suficiente para vislumbrar alguma porta quebrada ou
semiaberta, mas parecia que todas as possibilidades haviam sido
vedadas; senti por um momento como se uma camada espessa
de concreto calçasse todo o interior do colégio. Às nossas costas
deveria estar a grande porta de carvalho que dá acesso ao pátio
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da frente, mas em meio ao desespero nos encontramos com uma
parede sólida e imóvel. Uma névoa embaciada nos impedia de
ver mais que dois metros adiante.
— A porta de entrada era exatamente aqui, não podemos
ter errado o caminho! — protestei, enxugando suor da testa.
— Certo, Sócrates, você pode refletir sobre o paradeiro
das portas errantes depois, que tal nos livrar do Frankenstein de
baixo orçamento por agora? — o braço de Wallace se estendeu
num gesto que entendi como uma tentativa de proteção; embora
ele tenha se esquecido que sou bons vinte centímetros maior
que ele.
— E você por acaso tem uma ideia me... ABAIXE! —
perdemos as pontas de alguns fios de cabelo quando a catana
mastodôntica zuniu acima de nossas cabeças.
O ogro estava agora a poucos dois metros de nós, o
tronco imenso e largo como um armário velho. Podíamos ver as
escamas cuidadosamente posicionadas de sua armadura, tanto
quanto sentir o aroma pútrido de seu hálito abominável. Seu
nariz achatado no formato de uma pequena noz, fungava em
uma coriza verde melequenta.
— Jessica Halley... — rugiu ele em uma voz rouca que
parecia estar sobreposta por mais dois pares de vozes macabras.
A certeza de que aqueles eram meus últimos momentos
era evidente. Minha testa escorria em suor que caía entre meus
olhos dificultando minha visão. Sentia meu peito tremer ao
comportar meu coração aflito. Wallace murmurava alguma coisa
a respeito de morrer sem nunca ter beijado na boca, enquanto
olhávamos para nossa perdição.
Despertei em um sobressalto. Algumas horas antes.
Naquele mesmo dia, lá estava eu em um suéter com o
escrito Baby girl junto ao travesseiro de pescoço que se
enrodilhara em minha perna esquerda, no banco de trás da
Doblô de tio Harald. Reconheci o odor mavioso de lavanda e
cravo vindos de um pequeno pinheiro no retrovisor, pelo qual
minha tia Elizabeth — Betty — me chamara por duas vezes antes
de despertar.
— Jessica, meu bem, nós já chegamos — a voz aguda e
melodiosa parecia ainda ecoar em minha mente.
— Essa sem sombra de dúvidas é sua parente, Betty, não
moveu um músculo enquanto dormia, mesmo com os barulhos
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ensurdecedores da rodovia — meu tio ria enquanto interrompia
Cheek to cheek ao desligar o rádio e seguir, após abrir a porta,
para o quintal.
— Não é pra tanto, ela só deve estar cansada da viagem.
Você está bem, querida? Está pálida e suando...
— Sim... — menti esfregando a testa que latejava em um
pulsar persistente. — Eu tô legal, foi só um pesadelo.
— Bom, tenho uma surpresa para você, cabeça de
abóbora — o porta-malas chacoalhou quando dúzias de minhas
malas pesadíssimas foram removidas. — Espero que goste da
reforma. Fizemos algumas mudanças, mas ainda é nossa boa e
velha casinha.
— Ele ensaiou esse discurso o caminho todo de ida. Tem
falado sobre desde o ano passado. Estava tão ansioso que mal
dormiu noite passada — soprou ela, piscando para mim em um
riso discreto. Retribuí o sorriso e me espreguicei em um longo
bocejo.
Descemos da Doblô. Minhas narinas se dilataram ao
odor de grama recém cortada enquanto o vento fresco
acariciava meu rosto; aquela visão, era perfeita, exatamente
como eu havia planejado.
Quando eu tinha cinco anos, dei de presente ao meu tio
um desenho de uma casa amarela de janelas azuis que continha
uma enorme flor rosa ao redor de uma janela quase ao topo —
algo não tão sofisticado a se julgar o fato de eu desde cedo saber
usar apenas giz de cera. Me lembro que por alguma razão ele
ficou tão emocionado a ponto de estar determinado pelos
próximos anos a erguer aquela construção; que seria sua meta
antes que se aposentasse. E lá estava ela.
A blandícia do vento trazia não só um cheiro nostálgico de algo
assando nos fornos, como também as memórias de onze anos
atrás, me fazendo ter arrepios de nostalgia sempre que
suspirava. A varanda aberta permitia que pequenas folhas
voassem cá e acolá como em uma valsa de memórias e utopias.
Num suspiro de alívio, meu coração pensou que a turbulência
dos últimos meses seriam aliviadas pelos seguintes.
Tão inocente.
Minhas narinas foram preenchidas com um odor
maravilhoso, mas um pequeno detalhe dissolveu minha
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animação. Doce, assado, forno e tia Elizabeth são sem sombra
de dúvidas palavras que não combinam. Por alguma razão
desconhecida, seus bolos sempre saem com um formato
pitoresco e incomum, totalmente não-comestíveis e mais
parecidos com um mini vulcão em erupção. E para melhorar
ainda mais, alguma coisa bizarra sempre acabava acontecendo.
Era como se seus feitos culinários fossem um imã de desastre
gastronômico.
Uma das suas histórias mais famosas foi no mesmo aniversário
onde meu desenho foi entregue. Lembro-me de presenciar uma
explosão de abacaxi com creme em duas dúzias de convidados.
Acredito que todos nós sabemos quem foi a responsável pelo
bolo. E o mais impressionante disso tudo é que, não existe
explicação lógica — simplesmente, acontece.
Desde que entrei e tirei os chinelos de dedo, já esperava
ter uma bela surpresa de primeiro dia quando chegasse à
cozinha. Sentamo-nos à mesa, e em instantes uma travessa
retangular deslizou pelo centro da toalha xadrez; tia Betty
ergueu a tampa com as mãos calçadas em luvas enquanto meu
tio murmurara algo do tipo “Seja o que Deus quiser”. Para alívio
deles e meu tédio, nada explodiu.
Ele enxugou algumas gotas de suor na testa enrugada e
riu um pouco depois de um suspiro breve.
— Cookies, Betty? Dessa vez você me surpreendeu.
— A mim também, esperava mais um de seus bolos
explosivos — acrescentei perigosamente.
Embora ela tivesse um sorriso no rosto, percebemos que
nos fuzilava com um olhar afiado. Tio Harald despachou dois
biscoitos à boca, provavelmente para não arriscar mais nenhum
comentário comprometedor.
— Não aja como se isso fosse um milagre! Eu também
sei inovar. Semana passada eu fiz um muffin que ficou divino! —
embezerrada, pôs as luvas na bancada ao lado direito e com um
grunhido esnobe testou sua receita, a aprovando.
Meu tio baixou a cabeça em uma expressão que dizia
algo como Não olhe pra mim, por favor.
— Estão ótimos! — adiantei-me em tomar mais um par.
— Idênticos aos...
— Da sua mãe?
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— Isso! Até melhores, eu diria, ela nunca acertava o
ponto da massa e eles acabavam ficando massudos. Mas, espera,
como...
Seus olhos verdes encontraram os meus de mesma cor.
Um sorriso satisfeito se esticou em seu rosto, como quem estava
só esperando por essa pergunta.
— Bom, digamos que eu saiba disso porque fui eu quem
ensinei sua mãe, esqueceu?
Meu queixo caiu. Tio Harald grunhia risonho enquanto
eu fitava curiosa as feições de ambos.
— Sua mãe não era tão boa na cozinha até que eu
ensinasse uma coisa ou outra, sabe? — ela piscou se inclinando.
— Boa parte do que ela sabe fazer, foi esta bela mulher que vos
fala, que se fez de tutora — empinou o nariz estufando o peito,
obstinada.
— A senhora ensinou tudo a ela?
— Sim, senhorita — respondeu risonha.
— Deveria tê-la ensinado a namorar alguém que
prestasse também, eu acho... — tomei mais um naco de biscoitos
antes que percebesse os sorrisos desbotando-se dos rostos de
ambos.
Eu e meu dom de estragar tudo com a primeira coisa que vem à
mente.
Tia Betty suspirou lentamente. As rugas lhe traziam um
ar tênue de experiência, mas não deformavam seus traços de
quem um dia fora uma beldade. A camisa verde xadrez
evidenciava a cor vívida de seus olhos, fazendo ser impossível
não olhar para ela. Ela sabia que aquilo era revolta, e não o que
eu realmente pensava.
— Jess...
— Não, tá... tudo bem, sério — senti minhas orelhas
queimarem, como se a atenção de ambos pesasse toneladas. —
Sei que minha mãe sempre teve um dedo podre. Eu só... me
desculpa, tá legal? Eu não quis dizer isso...
— Sua mãe, Jess, bom... — engoliu em seco antes de
continuar. — Ela era jovem, preocupada, estudiosa; dessas
garotas cujo primeiro namorado fora um personagem literário. E
seu pai era o típico galã adolescente dos anos setenta: alto,
loiro, forte, bonito, bem-sucedido e com um enorme...
— Elizabeth? — censurou tio Harald erguendo uma das
sobrancelhas.
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— Coração — prosseguiu um pouco corada. — Enfim,
querida. Eles eram perfeitos no começo, mas as coisas tomaram
rumos diferentes depois que ela se formou na universidade.
— A verdade é que a vida de advogado tem seu preço,
Jessica, e o dela, infelizmente, foi o tempo. E... todos sabemos
que isso tem um peso gigantesco entre casais com pouca
comunicação, como ambos sempre foram — agora preenchia sua
xícara com um pouco mais de chá. — Ronald pode ter sido um
péssimo marido, Jess, mas sem sombra de dúvidas foi um pai
mais que presente.
Ele tinha razão. Em todas as minhas primeiras vezes
estivera presente e torcendo por mim. Meu primeiro gol no
campeonato de handebol, minha primeira apresentação de Natal
do colégio, minha audição para a peça Romeu e Julieta — onde
me recusei a fazer a cena final do beijo, o que causou revolta no
público; mas você me entenderia se visse que aquele Romeu não
era tão boa pinta quanto na obra original —, e em muitos outros
eventos importantes. Já minha mãe quase sempre mandava um
torpedo ou e-mail com suas congratulações. Então, queira ou
não, ele é quem mais estava presente para o que der e vier. Meu
pai e eu tínhamos uma relação muito boa, a ponto de eu o
considerar meu único porto seguro.
Ainda assim, a pouco menos de um mês, havíamos recebido a
notícia de que ele engravidara uma modelo irlandesa, e que
depois de sua última viagem “à trabalho”, não tornaria mais.
Deixou para mim apenas um fino colar de ouro com um pingente
de um cristal brilhante, que levei dali em diante no pescoço por
onde quer que andasse, como forma de lembrar dele.
A súbita separação quebrou meu coração em mil pedaços,
embora não se afigurou da mesma forma em minha mãe, que,
em contrapartida, apenas se afundou ainda mais em pilhas
inúmeras de relatórios e casos. Estava em foco o principal
motivo de estarmos ali, comendo cookies, na casa dos meus tios,
quatro horas de viagem da metrópole. De acordo com minha ela,
eu logo daria início à minha “nova vida” e me manteria fora de
toda a pressão do divórcio. Ao menos era isso que dizia o e-mail,
junto com um “Não namore e não se apaixone”.
A conversa certamente atingira um ponto sensível, pois
nada mais foi dito. Meus tios logo se dispersaram em atividades
domésticas, como varrer o chão e secar a louça —
aparentemente esse era seu jeito de ignorar um assunto pesado
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e viver sem o elefante no meio da sala. Sempre achei admirável
a maneira como dividiam proporcionalmente as tarefas de forma
a terem-nas concluído em rasos trinta minutos — o que cinco
clones de mim demorariam um par de horas. Subi a escadaria
rumo ao segundo andar, já que faxinas inesperadas nunca foram
minha melhor definição para comitê de boas-vindas. Os toques
de meus pés pelo carpete eram abafados a cada degrau
percorrido, trazendo em ritmo compassado vários devaneios na
tentativa de não pensar em como conversas como aquela
poderiam voltar a ocorrer.
Porém antes que um pensamento fosse formado, fui
atacada no último degrau abruptamente sem nenhuma chance
de reação. A coisa agarrou minhas pernas em um abraço
terrível, mas estranhamente quentinho, enquanto eu tentava
desvencilhá-lo. Bradei em desespero vendo que não iria me
libertar tão fácil, chacoalhei minha perna freneticamente até
que tio Harald chegou, riu, e então tive a oportunidade de ver o
que era.
— Pelo jeito já conheceu o Bolota.
Tia Betty interpôs sua fala, vinda da cozinha.
— O nome dele é Fofinho, quantas vezes eu...
— Fofinho? — protestou ele — De onde você tirou esse
nome, mulher? Ele lá tem cara de...
— E Bolota?! Por acaso todos os seus apelidos têm
sempre que ser ofensivos, Harald?
— Posso escolher o nome oficial? — questionei, levando
ao colo e assim vendo do que se tratava a pequena e felpuda
criaturinha. Aquele estranhamento me causou curiosidade.
Em meus braços eu tinha um farto e “corpudinho” —
como minha tia o chamava quase o tempo todo — Pug. Seus
olhos evidenciavam-se numa cor estranhamente semelhante a
verde, embora tivessem um ar exausto, como se a própria
existência e seus passinhos desengonçados o cansassem
simplesmente por estar ali. Pelagem cor creme, uma carinha
escura acompanhada de um focinho achatado e gelado, e o que
mais me chamou atenção: sua patinha esquerda, ou melhor, a
ausência dela.
— Ora, bom, nós... — meu tio fora interceptado por um
olhar de desaprovação, portanto apenas alongou seus
suspensórios, coçou a careca e prosseguiu, talvez mudando de
ideia. — Nós estávamos justamente esperando para que você
desse um nome a ele, heh...
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Sua rugas se contraíram ao redor de seu nariz de batata,
acima de um sorriso amarelo e desgostoso. Obviamente, Bolota,
sob sua concepção, era um nome muito melhor, independente
das outras opções.
— Ainda vou decidir — olhei a bola de pelos em mãos,
que me observava com olhinhos de jabuticaba verde atentos
acompanhados de um sorriso canino de língua de fora. — Onde o
encontraram?
Minha tia riu de forma sarcástica, com um Há! que
passava um ar de Longa história, você não acreditaria.
Aproximou-se do corrimão, e apoiando-se nele, prosseguiu:
— Seu tio o encontrou...
Ele a interrompeu tossindo.
— Okay, okay... nós o encontramos caído e doente no
quintal de casa a uma semana atrás. Ligamos para todos os
contatos possíveis e espalhamos cartazes, mas aparentemente
ele não possui dono, ou este é desumano a ponto de abandoná-lo
por conta de sua condição física. Então seu tio...
Mais uma tosse a sobrepôs, mais intensa.
— Eu dei a ideia de mantê-lo aqui, caso você topasse
cuidar dele conosco.
— Claro que topo, sabe que meus pais nunca me
deixaram ter um — respondi o esfregando atrás das orelhas, o
que pareceu agradá-lo a julgar por como se estirou em mim com
a língua pra fora.
— Bom, seja lá qual for o nome que der a ele — tia Betty
o olhou feroz, o que contraiu os ombros de meu tio. — Sua tia e
eu pensamos ser uma ótima maneira de você ter uma companhia
enquanto não estivermos aqui.
Fiquei legitimamente feliz. Uma companhia peluda seria,
sem sombra de dúvidas, um ótimo pontapé inicial para quem
quer começar uma vida nova com o pé direito. Tentei acariciá-lo
por alguns instantes, o que aparentemente o agradou, a julgar
pelo modo do qual chacoalhou o cotoco de rabo e estendeu uma
língua babada. Sua respiração era ruidosa em quase todos os
momentos, o que frequentemente o cansava.
Algo derrubou algumas latas do lado de fora da casa — um gato,
talvez —, o que animou seu interesse a ponto de fazê-lo saltar de
meu colo em direção ao corrimão, onde deslizou com sua
barriguinha até cair próximo de tia Betty, que com um grito
agudo se afastou, deixando-o disparar desengonçadamente aos
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latidos roucos em direção à cozinha. Meus tios fizeram o mesmo
— acho que não deixar o cachorro sair de casa era uma das
coisas da qual Bolota/Fofinho não havia aprendido ainda.
Já no andar de cima, passei meus olhos pelo corredor,
ainda conferindo mais alguma mudança na parte visual. Todavia,
daquele ponto em diante tudo permanecera como sempre foi.
No teto, três pequenos lustres alumiavam em uma luz
amarelo-alaranjado, preenchendo um corredor que se estendia
junto a um carpete cor bege. Em ambos os lados duas ou três
mesinhas acompanhavam vasos de flores de plástico, das quais
eu sempre mantive distância quando pequena — descobri da
pior maneira que seu gosto não atendia a meu paladar.
Atravessei alguns quadros e fotografias em preto e branco,
algumas pessoas desconhecidas e outras não; sabia que meu
quarto seria a segunda porta à esquerda, mas não podia deixar
de explorar um pouco mais o ambiente à minha volta, o ar da
dúvida e um instinto curioso se apossaram de meu peito, me
trazendo o viciante sabor da incógnita.
O colar abaixo de minhas roupas Baby girl estremeceu.
Um calafrio transpôs minha espinha me trazendo uma sensação
obscura de perigo iminente, enquanto um ranger de dobradiças
chamou minha atenção para além dos meus ombros em um
sonido agudo e penoso. A porta atrás de mim estava semiaberta,
como se alguém a tivesse feito — o que era esdrúxulo
considerando que minhas três únicas companhias estavam no
andar de baixo. Em um impulso parvo de coragem, rumei ao
cômodo, analisando seu interior.
A claraboia trazia à camada visível de poeira um aspecto
umbrífero revelando apenas um único item.
Um livro.
Mesmo sendo uma amante da leitura e confederada
ativa nos clubes do livro, não compreendia a razão pelo qual
aquele se conservara aberto sobre uma escrivaninha, e é claro
— nunca iria esquecer desse detalhe —, flutuando sobre uma
pequena camada de uma rala névoa cor púrpura em seu próprio
eixo. Não consegui trazer à memória nenhum momento do qual
meus tios lessem algo mais que rótulos de pasta de amendoim
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ou o jornal — com o único e determinado objetivo de resolver as
palavras cruzadas antes do outro. Restava uma única pergunta:
A quem pertencia àquilo?
Ao me aproximar, notei ponteiras de um ouro refinado e
brilhante, que guardavam páginas amareladas que se folheavam
em alta velocidade, causando uma sequência de estalos
consecutivos; era como se, de alguma maneira, aquilo tivesse
vida própria. O cômodo era o famigerado “cantinho da
bagunça”, mas se tornara bem mais atrativo a partir do
momento em que tentei tocar o objeto e ele subitamente fechou-
se de maneira a erguer uma nuvem de poeira na altura de meus
olhos. Enquanto os coçava, espiei com o olho bom uma escrita
na capa em uma língua morta, que dizia:
Omnes tuas vires in minimo universo.
Antes que eu pudesse me perguntar o que aquilo
significava, fui impedida por uma dor súbita no calcanhar
esquerdo, como se tivesse sido picada por duas pequenas
agulhas.
— Harald, não precisa procurar aí fora, Jessica já o
encontrou! — minha tia Betty foi respondida por alguns
resmungos vindos de longe. — Ora, seu corpudinho sem
vergonha, como foi que veio parar aqui?
O Pug agora se encontrava sacolejando seu cotoco de
rabinho festivamente junto aos meus pés, como se tivesse
acabado de matar algum rato gordo e fedorento ou
simplesmente era feliz em ter sido encontrado. Pensei que talvez
ele tivesse estranhado a presença do livro mágico, e por isso me
atacou cogitando a possibilidade de eu ser alguma bruxa
maligna ou algo do tipo. Mas foi nesse momento que a voz da
razão me atingiu como um piano em filmes comédia pastelão:
Por que raios ele faria isso? Ele é só um cachorro!
Meu primeiro impulso foi me virar na intenção de
questionar a existência daquele artefato místico aleatoriamente
escondido na casa de duas pessoas tão comuns a ponto de
acreditar que as TVs tinham um botão com função “estragar”,
mas antes que pudesse esboçar qualquer ação, minha tia me
guiou pelos ombros até a porta mesmo com alguns protestos de
minha parte.
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— Mas o que tanto te atrai nesse quarto velho, hein?
— Tia, tem um livro estranho, ele meio que vira suas
páginas sozinho, é magico, tem umas coisas escritas nele... —
nesse momento percebi a falta de sentido em minha última
frase.
— Realmente sua imaginação tem ficado mais fértil a
cada ano, não é? Ora, não se preocupe. Terá livros o suficiente
para você onde vai ficar.
— Mas...
— Vamos logo, ande!
Já devia imaginar que não acreditariam. Quando mais
nova, mentia com a mesma frequência que respirava, tentando
ganhar a atenção dos adultos com histórias mirabolantes sobre
ter visto elefantes cor de rosa sobrevoando prédios enormes
enquanto It’s my life ecoava em todos os quatro cantos do
planeta em um show de tirar o fôlego — eu era uma criança
estranha. Com o tempo e algumas poucas sessões de terapia —
que a orientadora do colégio nos obrigou a fazer em um projeto
social — ouvi inúmeras vezes que aquilo era uma forma de
conseguir aprovação ou coisa do tipo. Fazer o que, não é?
Relutante, me virei, e sufocando um suspiro me dei
conta de que o livro sumira, deixando apenas a escrivaninha
empoeirada, sem nem sinais do objeto. Estava determinada a
voltar lá, quando possível, e averiguar com mais calma e
discrição. Teria tia Betty visto aquilo? Ou talvez... não, ela seria
tudo o que posso imaginar, menos uma ocultista macabra —
exceto por seus bolos dinamite, era definitivamente inofensiva.
Minha tia tinha razão. No quarto onde fui levada, havia
não apenas livros, como também prateleiras suspensas por toda
a extensão do cômodo, recheadas com clássicos e uma seleção
minuciosamente escolhida com alguns dos meus excêntricos
preferidos. Uma cama espaçosa e convidativa estava
posicionada ao centro, rodeada de duas pequenas cômodas de
madeira enfeitadas respectivamente com um globo terrestre e
uma réplica de um crânio — que estava lá devido ao meu não
misterioso apreço por Hamlet.
Minha primeira reação foi dar o enlace mais genuíno
daquele ano em tia Betty, em pura alegria e emoção pela
dedicação em tentar ao menos fazer com que toda aquela
bagunça fosse um pouco aliviada. Ela retribuiu com um beijo em
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minha testa, e meu tio Harald nos abraçou, me dando a
sensação de estar finalmente em um lugar seguro.
Mal sabia eu que aquilo não duraria muito tempo. A começar
por aquela noite, quando me deitei, e sonhei novamente.
Capítulo ii
Fico trancada com Wall Silver
S
eus pés engolfados em uma greda mórbida que o subia
pela cota, já danificada por todo um embate, oscilavam cá
e lá quando disferia mais um feroz golpe contra a lâmina
curva que aparava cada uma de suas investidas sem muito
esforço.
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— Vamos! Lute! — Rugiu o rapaz, erguendo a espada
longa em uma velocidade exorbitante e partindo a mais um
impacto. Suas energias aparentemente haviam sido drenadas de
seu corpo em fadiga.
Aquilo que esquivou de seu ataque trazia uma presença
mórbida, cujo cruzar de olhares me fazia criar um arrepio na
espinha sempre que passavam por mim. Não era um humano,
mas também não era um monstro. Flutuava pelo chão como um
fantasma, enquanto seu adversário chapinhava com pesar a
cada passo.
O manto negro permanecia rente ao seu corpo, sendo
disperso apenas quando chegava aos pés — ou onde os tais
deveriam se encontrar, visto que estavam cobertos por uma
densa fumaça. Seus olhos na verdade eram cavidades, e suas
feições bruxuleavam entre um crânio e um rosto magro, fino e
pálido. Meus olhos contemplavam a própria Morte, com sua
aura sombria exalando a autoridade das trevas. Enquanto
assistia ao embate, a cada vez que transpassavam meu corpo —
claro, eu estava intangível e invisível como um fantasma —,
vislumbrava, quando a Morte passava por mim, uma prévia de
minha vida em milésimos de segundo. Nas mãos da úmbria
entidade, se estendia uma foice cintilante como o luar ia e vinha
aparando as investidas da espada longa.
— Você tirou tudo de mim!
O homem arquejou e apoiou sobre sua espada, pendendo
para frente, exausto.
— Criança, os planos divinos são mais do que sua
concepção pode compreender — as palavras eram frias, mas ao
fundo notei compaixão, de algum modo. — Você interferiu na
linha do destino, portanto as consequências serão equivalentes.
Mais uma investida veio ao encontro do ceifador, mas
em uma emanação, pôs uma mão esquelética ao ombro do
homem.
— Pare, Valente.
A espada atingiu o solo num tilintar junto a seus joelhos
fadigados, em um amargo gosto de derrota. Mesmo não tendo
sido atacado, o homem mantinha em seu semblante uma ferida
mais dolorosa que em sua carne; ferira seu ego.
Em seus ombros robustos repousava uma capa
esfarrapada e maltrapilha, que ao longe lhe dava um aspecto
pitoresco semelhante a um ouriço gigante. Caía sobre uma cota
de malha sobre um arfante tronco magro e moribundo, dono de
23
dois braços esbeltos, porém trêmulos. O tom cerúleo de seu
olhar cruzou o meu, arrepiando-me por completo.
— Em breve você e todos os que o acompanham terão
seu devido descanso — sentenciou a presença.
A Morte novamente tocou o ombro do homem, e um
brado agudo e feminino soou por através de meu ombro.
— Não!
O som do metal tiniu, e ouvi apenas o impacto de carne ao chão,
e de sangue sendo derramado.
Ao meu lado, pouco distante da fatalidade, estava um
garoto, de cabelos brancos como a neve, olhos do mesmo tom
aquático do homem. Foi tudo o que vi dele excedendo uma
camiseta preta desbotada com um raio e um escrito:
Os Cabeças-ocas.
Despertei.
D’Artagnan — como batizei o Pug — permanecia
dormindo em um pequeno tapete ao lado de minha cama,
enrolado em seu próprio corpinho. As cortinas se agitaram
quando tia Betty as esticou.
— Bom dia, meu bem, preparada para o pontapé inicial?
— Pôs um par de pantufas ao lado do Pug, e com um beijo em
minha testa se afastou até a porta. Sempre achei
impressionante como alguém na casa dos cinquenta conseguia
ter toda aquela disposição acordando às cinco enquanto eu, na
flor da idade, morria em desânimo.
— Ah, hum... sim, claro. Eu só... tô acordando ainda.
— Ótimo! — bateu palminhas em um jeito jovial de
saltitar, como os adultos “dinâmicos” fazem quando querem
parecer animados. — Estamos te esperando lá embaixo, não se
atrase, seu tio sai em meia hora. Amo você.
Mandou um beijo pelo ar e seguiu trovando pelas
escadas.
Percebi o quão estranho se fazia a semelhança entre os
sonhos — mesmo para mim, cujo histórico possui conjecturar os
roteiros mais improváveis para histórias —; cruel e trágico,
como se não tivesse presenciado uma fantasia, mas sim o
24
desenrolar da própria realidade. Todavia, isso não era um tema
banal a se conversar com os vizinhos no café da tarde; a
personificação de causas naturais e espadas do tamanho de
lanças não eram assuntos dos quais abririam apetite com muita
facilidade.
Decidi escrever tudo o que me lembrei em uma pequena
agenda cor de caqui que deixei à cabeceira da cama, para que,
se aquilo um dia me rendesse uma história, não viesse a
esquecer. Uma vez terminadas minhas notas, calcei as pantufas
e segui em direção ao armário.
Qualquer estilista desaprovaria meu visual para o primeiro dia:
uma camiseta cor bege abaixo de um suéter cáqui de mangas
longas acima de calças jeans mais largas que meu tamanho. E
por último e não menos importante, um par de All Stars cor
roxo.
Sempre gostei de ser excêntrica em tudo o que faço, a
ideia de ser como todo mundo me dá arrepios — no geral, se eu
estou contente, é isso que importa.
— Bom dia, cabeça de abóbora — tio Harald espreitou
através do jornal enquanto cantarolava junto a uma vitrola velha
vinda da sala.
— Bom dia... — soltei um bocejo ao me sentar.
— Dormiu bem? Oh, acho que sim, ouvi seus roncos a
noite inteira — as maçãs de seu rosto se contraíram em um
sorrisinho.
— Ei! Eu não ronco, tá legal? — protestei em um tom
leve e descontraído, interrompido quando algo no jornal fisgou
sua atenção.
Seus olhos saltaram das órbitas em uma surpresa que me fez
derrubar minha xícara — ainda vazia, graças a Deus.
— Céus... Betty, veja isso! Mas nem por mil cabras
mancas eu esperava ler sobre o Festival da Colheita outra vez!
Minha tia se curvou ao seu ombro e soltou um riso
abismado.
— O que é o Festival da Colheita? — perguntei tentando
partir um biscoito com as mãos; e falhando.
— Na nossa época, era uma festa onde toda a cidade se
juntava para comemorar o sucesso e fartura das plantações. Foi
lá, inclusive, que conheci seu tio.
— “Na sua época”?
25
— Durante o mandato do prefeito Noose, tivemos o corte
de vários eventos regionais. Por anos o Festival não aconteceu,
uns dez eu chuto. Mas agora, depois de muito tempo, com uma
ordem do novo prefeito, teremos o retorno das festas regionais
— tio Harald espremeu os olhinhos rodeados de rugas. — Isso
sim é o que eu chamo de criatividade!
— Parece legal — respondi dissimulando interesse.
— “Os Cabeças-ocas”!?! Mas que raio de nome é esse? —
tia Betty voltou sua atenção para o nome em negrito na página.
Estalei os olhos em um sobressalto ao ouvir aquele nome, a
sensação tomou meu corpo como um choque dos pés à cabeça.
— Deixe-me ver... “Esse ano, contamos com a
participação especial da banda Os Cabeças-ocas para abertura
do evento”... blá blá blá... balela jornalística... “Com um
repertório de chacoalhar o esqueleto, os quatro integrantes são
uma banda ascendente até então desconhecida, porém com um
repertório...” Hum... nada de interessante... “ mesmo após a
saída do ex-vocalista Agnus Smith”, ora, Smith? Conheço esse
nome de algum lugar. Bom, me parece que é alguma dessas
bandinhas de garagem, Betty.
— Desde o Elvis, esse evento nunca mais foi o mesmo —
tomou uma jarra de suco e a levou para o balcão, murmurando.
Eram nomes familiares... Isso! O que estava nas roupas
do garoto de cabelo branco! Mas como aquilo poderia existir de
verdade? Ou melhor, o que os Cabeças-ocas teriam relacionado
à narrativa do homem, da Morte e da falecida? Seriam eles
algum grupo criminoso? Uma seita macabra ou um bando de
extremistas que sacrificam bebês doninha para invocar um
dragão ancestral com fome de homens?
Certo, isso já é exagero.
Durante o café, por algum tempo, me pus a ponderar
possibilidades, aproveitando para inventar mais algumas ideias
para uma provável peça de teatro — coisa de roteirista. Nada
vinha em mente quando chacoalhei com uma colher de chá o
suco de laranja, nem quando amassei um par de torradas com
manteiga. Nenhuma peça parecia se encaixar, mas, ao menos,
estava tudo registrado em minha agenda. Por fim, concluí que
não era nada importante.
Saímos cinco minutos depois, após uma sessão de
abraços e beijos de minha tia e uma verificação completa de
26
todo material escolar etiquetado por minha mãe com minhas
iniciais. Pelo andar da carruagem, nada passara despercebido —
embora ela tivesse uma impressão de ter esquecido algo.
— Qualquer coisa, pode nos chamar. Os nossos números
estão em seu...
— Tia, tá tudo bem, okay? É só o primeiro dia de aula, o
que de tão ruim pode acontecer?
Ela comprimiu os lábios, mas depois os curvou em um
doce sorriso.
— Você tem razão. Eu só estou preocupada com sua
proteção e bem-estar, querida, prometi para sua mãe que...
Segurei gentilmente suas mãos e sorri, cuidando para
que ficasse menos tensa e falasse mais devagar.
— Calma, respire, vai ficar tudo bem. Vocês já fazem
muito por mim. Eu só vou lá, copiar um par de palavras chatas e
voltar como se tivesse aprendido alguma coisa, relaxa.
Minha brincadeira não abrandou seu semblante a início,
porém após um breve suspiro, cedeu.
Aos poucos a casa amarela se encolhia, e uma estrada se
expandia à frente da Doblô. As casas de formas pitorescas
ficaram para trás, dando lugar a alguns prédios e comércios
próximo ao centro da cidade. O céu exibia um tom acinzentado e
sem vida, assim como os pedestres.
Marilyn é enorme, porém nunca perdeu sua essência do
interior — parecida com aqueles adultos patéticos que fazem
piadinhas de duplo sentido como se fossem garotos da quinta
série — Velhos mal-humorados, um trânsito infernal, pessoas
gritando por causa de sua revolta a respeito do preço dos
tomates e alguns moradores de rua soltando Eleanor Rigby à
plenos pulmões. Aparentemente os pré-requisitos para se viver
nela incluem ter pouca sanidade e andar com uma carranca pra
cima e pra baixo.
Tio Harald, em contrapartida, parecia sereno em meio
ao trânsito repleto de primatas, como um único homem sóbrio
presente ao volante. Rimos enquanto ele acariciava sua careca
relembrando os anos dourados onde um pomposo Black Power
era motivo do furto do coração de várias donzelas — segundo o
que apenas ele dizia.
Sempre foi um homem gentil e sensível aos mínimos
detalhes; eu diria, sem exageros, que é o completo oposto de
27
minha tia, que é extrovertida e impulsiva. Sua companhia
exalava paz, tanto que, em meio a suas histórias, adormeci.
Num sonho, ou algum tipo de desvario sem sentido,
pude contemplar uma pequena criatura acompanhando o
movimento da Doblô enquanto descíamos a avenida Saint
Mango. Peluda, como envolta em um enorme cachecol branco,
transpunha de um telhado a outro sem o mínimo esforço,
fazendo um som estranho — PUÁ — sempre que seu corpinho
atingia seu objetivo. Esfreguei os olhos, recobrando meu vigor,
porém fui interrompida quando arremessada ao banco da frente,
esmagada entre minha mochila e as costas de tio Harald.
— Podem passar, andem! — massageou as têmporas,
ofegante. — Céus... essa foi por um triz...
Aparentemente, em meio a meu transe, alguns membros do time
de basquete — a julgar por suas roupas largas, como as de um
homem morto — Quase receberam um Strike em meio à rua, o
que eu obviamente pagaria para ver.
— Olha, Jess, sei que tudo isso é muita coisa pra
assimilar, e que a primeiro momento você pode ter a impressão
de que estamos te entupindo de informações, mas acredite em
mim, o quanto antes encher a cabeça com coisas boas, melhor.
Sabe como é, oficina vazia, mente do... espere, está errado...
— Eu tô bem, tio, sério, é só... — me recompus, ajeitando
as roupas. — Obrigada pela carona.
Lhe dei um beijo na bochecha, retribuído com uma
risadinha, e desci do automóvel, que se afastou após uma
buzinada.
O prédio era composto de paredes altas de uma cor
pastel, uma construção aparentemente antiga, porém
fascinante, facilmente soube que sua pintura não era renovada a
anos. Uma enorme faixa pendente, que continha o escrito
“Festival da Colheita! A maior comemoração cultural da
região!”, estava sendo pendurada por um grupo de garotos
suados segurando um par de escadas. As janelas planas e
reflexivas traziam um sol estalado aos nossos olhos, me fazendo
os semicerrar vez ou outra conforme adentrava o pátio. O
gramado se dividia em um caminho central de paralelepípedos,
bifurcados ao estacionamento e a quadra, respectivamente.
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Os olhares se atraíram a mim como um imã em uma caixa de
pregos, me sentia um vagalume em um covil de morcegos, por
causa de um detalhe um tanto incomum.
Sempre me envergonhei de minha altura. Invejava
meninas que tinham seus airosos um metro e cinquenta,
pezinhos de princesa e mãozinhas de bailarina, pois no meu
caso, tudo era diferente; sempre mantive um andar
desengonçado e pernas excessivamente longas para minha
idade, o que atraía todo tipo de comentário indesejado.
Alcançar algumas prateleiras a mais parece atrativo até diversos
apelidos pravos, como girafa, vara de cutucar estrela, linha de
trem em pé, entre outros, surgirem. Normalmente eu apenas
encaro cabisbaixa meus tênis roxos e finjo que estou sozinha
entre dezenas de dunas no Saara — isso explicaria o porquê
minha testa suava e minhas pernas tremiam a cada passo
adentro que eu dava.
Há quem ache bonito, e essa com certeza não sou eu.
— Mary Sue! Vejam, meninas, olhem o presente que o
destino nos mandou.
Reconheci aquela voz odiosa com o sangue fervendo.
Aquela, entre todas as pessoas, era a última que eu gostaria de
ver — ainda que o mundo fosse infestado de abelhas carnívoras
ou coisa do tipo. Cerrei os punhos e me virei para encarar minha
maior e mais exasperante rival, Antonieta Stone.
— O destino tem um péssimo senso de humor, pelo jeito
— forjei um sorriso, a julgar por sua expressão, nada
convincente.
— Já faz um bom tempo, não é? — um par de olhos
malignos amendoados e escuros como a noite eram escondidos
entre uma sombra roxa e duas sobrancelhas afiadas.
Dentre todos os meus estresses anteriores, esta
miserável fora a mais azucrinante. Tudo naquela bruaca me
irritava, aqueles cabelos curtíssimos verdes marca-texto, um
tom sempre irônico e roupas muito mais rasgadas do que
deveriam. Nunca me arrependeria de voltar com marcas nos
punhos daquela maquiagem escura e gótica depois de lhe dar
umas boas palmadas.
— Olha, vamos abandonar o passado, okay? Eu não...
29
— Relaxa, senhorita perfeitinha, eu vim em paz. Só
queria dizer que sinto muito pela coitada da sua mãe, sabe?
Deve ser algo extremamente doloroso e...
Senti fumaça pelos ouvidos como em uma panela de
pressão, porém meu constante aperfeiçoamento na arte de não
esmurrar as pessoas mostrou-se mais eficiente, me permitindo
apenas engolir em seco.
— Vê se fecha essa latrina! — reprimi um suspiro contra
minha vontade.
Uma sombra caiu sobre mim, a luz do sol sumira como
em um eclipse. Suas mãos eram quadradas e maciças como de
um celta determinado a matar guardas pretorianos — Todo o
seu físico condizia com isso, por sinal, junto a uma camiseta
tamanho família da Hello Kitty. Ombros largos e marcados como
cebolas, um pescoço espaçoso e bruto que sustentava uma
pequena e enraivecida carranca, de cabelos lisos e espessos
presos a um coque minúsculo que mais parecia uma pequena
vassourinha. Minha surpresa maior foi reconhecer suas feições
femininas e um pouco de maquiagem avermelhada nas
bochechas — a cereja do bolo, obviamente.
Aparentemente não era uma garota de muitas palavras,
pois apenas me encarou em uma expressão sedenta por
pancadaria.
— Pelo visto não é tão corajosa agora, não é, Halley? Tá
tremendo feito vara verde.
Ela tinha razão, minhas pernas pareciam ter perdido o
senso de direção, indo para os lados mesmo quando as forçava a
ficar imóveis. Estava me borrando de medo.
— Não tenho ressentimento nenhum de você, Antonieta,
por isso...
— Não banque a...
— Eu ainda estou falando, com licença — a sombra roxa
criou um arco em torno dos olhos arregalados da gótica.
Aparentemente poucas pessoas realmente desafiavam sua
autoridade — É uma enorme coincidência, infeliz eu diria,
termos parado no mesmo colégio de novo depois de tudo o que
aconteceu. Mas eu tô aqui pra ter uma vida nova, entende?
Somos grandinhas o suficiente pra não entrar em nenhuma
discussão idiota.
Antonieta estalou as palmas, espalhafatosa, e as outras
duas meninas, incluindo a gigante, acompanharam. A atenção
30
do pátio se focou em nós, senti meu rosto queimar, minhas mãos
suarem, mas me mantive olhando fixamente para baixo, onde
minha rival retomava o fôlego após uma demorosa gargalhada.
— Palmas para a nossa estrela! Realmente eu tô
impressionada em como se saiu bem em dizer tudo isso. Foi
decorado? É bem a sua cara. Sempre querendo se esconder
atrás de boas maneiras. Acho que é por isso que te escolheram
para a Julieta, ao invés de mim, sabendo que ensaiei e decorei
durante um ano todo o maldito roteiro. Pois você, ruivinha
aguada, tem um dom nato para dissimular a todos em sua volta.
— Eu acho que ela já entendeu, Annie — a terceira
garota, que mais lembrava uma miniatura de uma modelo, com
cabelos ondulados caindo em canudos sobre seus ombros, deu
um passo à frente e tocou o ombro da “cabelo de grama”. —
Pega leve com ela, é o primeiro...
— Não me diga o que fazer, Brittney — os lábios roxo
escuro se comprimiram em uma feição de repugnância. Brittney,
cabisbaixa, desviou o olhar âmbar enquanto se afastava
segurando as mãos, envergonhada.
Com a ponta dos pés, minha nêmesis ficou em minha
altura. Ao se aproximar de meu ouvido, sussurrou:
— Esse é meu império agora, Halley. Você sempre teve
os holofotes pra você, mas agora está no meu território. E eu
vou fazer você sentir na pele o inferno que me causou durante o
fundamental — pude sentir seu hálito de quem mantinha uma
dieta a base de açúcar. — E adivinha... seu papaizinho não vai
estar mais aqui pra limpar sua barra.
Antes que pudesse ao menos pensar em uma resposta,
olhei por cima de seu ombro, e num momento de abelhudice vi a
criatura que nos seguia na Doblô espiando atrás de uma
macieira ao fundo do pátio, onde alguns garotos estavam em
rodinha. Tive certeza de que minhas sobrancelhas saltaram, o
que atraiu a atenção das três; porém, quando a maior se virou
para ver, a estranha monstruosidade deu-se o trabalho de sumir.
O obstáculo formado pelas três não iria ceder tão cedo.
Sabia que aquilo era uma tentativa de mostrar a toda a escola
como a garota nova era descontrolada e ridícula, por isso, por
mais que estivesse rangendo os dentes e enfurecida, soltei a
pressão de meus punhos e suspirei compassadamente.
— Olha, você tem razão, okay? Vai ser um inferno
mesmo, né? Mas que tal deixarmos as formalidades pra depois?
31
Eu preciso.... usar o banheiro, isso! heh... — juntei os joelhos e
os tremi. Pareceram acreditar.
— Se mijou, HÁ HÁ! — rugiu a dinossaura de coque
espetado. Enquanto murmúrios e risadinhas nos rodeavam
vindos das dezenas de adolescentes em volta.
Até os garotos do cartaz estavam rindo. Minha provável
reputação tinha sido arruinada em meros dez minutos.
Antonieta sorriu em uma satisfação maquiavélica.
Erguendo o queixo passou por mim, esbarrando propositalmente
em meu ombro.
— Fica esperta.
Mal aguardei a poeira baixar para correr em direção à
arvore onde avistei a criatura, dessa vez com mais riqueza de
detalhes.
Vi, quando espreitei sobre o ombro de Antonieta, que
era elíptica, na forma de uma bola de futebol americano, com
um par de orelhas pontudas e uma pelagem aparentemente
abafadiça. Um par de olhos escuros e brilhantes e uma boca de
dentes arredondados da qual saia uma fraca luz azul — como
reconheci tudo aquilo em tão pouco tempo? Ótima pergunta.
Minha cabeça latejou, e apenas um nome veio à minha mente.
Spectrobominus.
Sabia que eram criaturas polares frequentemente
tímidas ao contato humano, porém extremamente curiosas e
dóceis. Podem ser facilmente convencidas a fazer tarefas
específicas se submetidas a uma educação adequada ou uma
proposta tentadora a ponto de os deixar apreensivos. A
inquisição interna a respeito dessas coisas levou poucos
segundos, até que percebesse a ausência do Spectrobominus
atrás da bendita árvore.
Nada entre os arbustos, nada próximo ao muro de
tijolinhos vermelhos, nada no meio dos nerds jogando baralho de
cartas japonesas. Era como se tivesse evaporado, sumido,
escafedido, em um piscar de olhos.
Repeti sozinha: “Okay, Jessica, você está ficando louca.
Mas não se preocupe, as melhores pessoas são, não é?”.
Não. Não era ilusão ou alguma parte de minha fértil
imaginação — embora tudo o que eu quisesse naquele momento
32
fosse acordar toda babada em minha saudosa cama quente e
começar o dia do jeito certo. O Spectrobominus agora seguia de
perto Antonieta e sua escolta rumo à entrada. Aquilo só podia
ser brincadeira de mau gosto. Estranhei o fato de todos estarem
tão distraídos conversando, a ponto de não perceberem a bola
de pelos os acompanhando, em pulinhos desajeitados.
Circunspectamente, pé ante pé, andei próximo do trio
com um cuidado dobrado para não ser acometida por outra
encarada, enquanto a criatura se pendurava às costa da
megalodonta, incrivelmente, sem que a menina o notasse.
Escalou uma mochilinha cor de rosa com uma margarida no
fecho, e mostrando uma língua azul, permaneceu lá.
Um retinir metálico de um sino reuniu os adolescentes
na escada, colégio adentro. O Spectrobominus pendurado na
mochila da enorme menina, vez ou outra olhava para mim com
uma expressão que entendi como “Você não me pega!”.
Não deveria surtir o efeito que teve — o som do PUÁ a
cada passinho já estava me irritando profundamente —, e me
aproximar das costas de Antonieta em um momento tão infeliz
quanto aquele, onde a criatura enredou as garrinhas nos cabelos
fluorescentes da gótica e os puxou violentamente,
arremessando-a em minha direção.
O pentelho sumiu novamente, evaporando em uma
pequena névoa de mesma cor de sua pelagem, me deixando cara
a cara com minha contendora.
— Sabia que era uma covarde, Halley, mas isso já é
demais...
Uma massa escura se dirigiu ao meu rosto em uma
velocidade exorbitante. Uma mão, maciça e quadrada. Apaguei.
Ironia. Figura de linguagem na qual o significado real é
expressado pela forma oposta ao que é dito literalmente, muitas
vezes com objetivo de transmitir sarcasmo, humor, crítica... e
nesse caso, o caos. Era irônico eu ter perguntado “O que de tão
ruim pode acontecer?” e agora estar estirada como uma
massinha de modelar em uma mesa rodeada de crianças
catarrentas.
Mal havia dado início à “nova vida” e jazia desacordada
em meio ao pátio de um colégio cheio de desconhecidos.
Obviamente Antonieta sairia impune, pois, até onde todos viram,
eu a puxei pelos cabelos em um ato covarde e a grande heroína
desmesurada agira em legítima defesa, a salvando da novata
33
malvada. Minha cabeça parecia explodir só de lembrar — na
realidade, parecia explodir por completo, como se meu cérebro
estivesse brincando de encher balões dentro de minha caixa
craniana —, percebi que já não sentia o cheiro de grama e suor
do pátio, e sim um doce e enjoativo. Estava em outro lugar; um
com bem menos ruídos, pessoas e meninas de quase dois metros
com os punhos do Mike Tyson.
— Lógico que eu sou cuidadoso, Quedna, se lembra
daquele gatinho que se perdeu aqui ano passado e a professora
Yun me deixou responsável? — uma voz aguda, ardida e
estridente fazia minhas têmporas pulsarem.
— Se refere ao que fugiu em uma semana e foi
destroçado pelo Pitbull da rua Drewmark? Sim, me lembro bem
da cena — outra voz, um tanto mais madura e anasalada o
respondia.
— Você é muito pessimista, mulher, foram os três dias
mais felizes da vida dele se quer saber. Ele era um espírito livre,
e morreu como um épico herói viking. Pode ir buscar o
analgésico, eu cuido da... esqueça, ela acordou!
Esfreguei os olhos e recuei de dor quando toquei a
lateral do meu rosto, que latejou, inchada. Meu queixo parecia
ter sido colado, descolado e remendado com cola de contato.
Haviam me posto deitada, senti alguém sentado próximo a meus
pés, enquanto a voz aguda estalava próximo a meu rosto. Minha
visão alvejou, e aos poucos reconheci onde estava.
O armário de acrílico repleto de caixas com cruzes
vermelhas, as paredes azul bebê, uma pequena cômoda e
algumas samambaias como decoração, macas e uma mesinha,
tudo me trazia dicas. Ao menos o colégio novo tinha uma
enfermaria, o que pelo jeito seria muito útil dali pra frente.
— Acorda pra cuspir, ô cabeça de fogueira, o chefe quer
falar com “nóis” dois daqui a pouco.
— Conosco — respondi me erguendo e levando comigo o
travesseiro, ainda desorientada.
— É o que?
— Conosco... você disse “com nóis”, mas se diz
“conosco” — uma dor irrefreável percorreu minha testa.
— Bom, com nosco ou sem nosco, seja lá o que isso seja,
estamos encrencados. Tem alguma ideia do que escrever na sua
advertência? Pensei em algo tipo “Por favor, não me expulse.
Motivo: Sou bonito.”
34
Percebi que era um garoto, mas não qualquer garoto, e
sim o garoto do meu sonho. Mesmo com algumas piscadelas,
ainda sim minha visão não clareava, o que me impediu de me
mover bruscamente. Porém, uma coisa era certa: Ele estivera
em meus sonhos.
Não, não desse jeito que está pensando, ele literalmente
esteve lá — e pasme, vestido exatamente da mesma maneira,
como se tivesse sido arremessado em um triturador. Com
esforço procurei não esboçar nenhuma reação.
Era dono de olhos azuis brilhantes — um deles com um
hematoma roxo —, uma fresta dividia seus dentes da frente, lhe
dando uma fisionomia infantil assim como os cabelos espetados
e brancos, de um brilho pouco índigo. Seus dedos estalaram
diante de meus olhos enquanto lia “Os Cabeças-ocas”
estampado em sua camiseta.
— Ih, essa aqui tá mais pra lá do que pra cá, Quedna.
— Vá para sua cadeira, Wallace, me deixe trabalhar.
— Me traz um café depois?
— Sou enfermeira, não empregada.
— Sua função não é manter o bem-estar de seus
pacientes?
A mulher ignorou seu comentário, analisando-me
minuciosamente através de seus óculos retangulares apoiados
sobre um nariz enorme e fino. Tinha uma aparência
intimidadora a primeiro momento, pois se assemelhava muito a
qualquer uma das bruxas más de O Mágico de Oz; todavia, era
habilidosa e delicada, e durante todo o tempo em que estive lá,
super educada e gentil. Não duvidei de mais nada quando levou
uma bolsa com gelo à minha têmpora, causando uma dor
imediata seguida de um alívio que me fez suspirar.
— Bom, não foi nada demais, ainda vai roubar os
corações de alguns garotos — concluiu ela esboçando um riso e
tirando suas luvas de látex. —, mas fique longe de confusões,
mocinha.
— Eu tento, mas as vezes parece que elas vêm até mim.
Vou ficar uma semana de molho em sal grosso pra ver se isso
passa — respondi me pondo de pé.
— Eu sei como é, ferrugem, o pessoal sempre me mete
em confusão por coisa besta.
Ambas olhamos para ele, Quedna erguendo uma das
sobrancelhas, seu sarcasmo me contagiando.
— Você é a definição de confusão, Wallace Silver.
35
Fomos interrompidos por uma sequência de firmes
batidas na porta, vindas de uma mão pequena e roliça
pertencente a uma mulher de cabelos curtos na altura das
orelhas. A julgar pelo casaco e saia rosa desbotada, era alguém
da coordenação — ou seja, estávamos mesmo encrencados.
— Então são esses os desordeiros de hoje? — disse após
fazer um barulho com os lábios vermelhos e arrebitados. —
Bom, queridos, me sigam, por gentileza.
— Quero meu café sem açúcar, por favor — Wallace se
virou para a enfermeira.
— Eu NÃO sou sua empregada!
Sem muito se importar, ele deu de ombros e seguiu em
direção à porta. Tomada por uma ansiedade, fiz o mesmo,
acenando para Quedna, que retribuiu ao fechar a porta da
enfermaria atrás de nós.
Os cabelos da coordenadora eram minuciosamente
alinhados em um corte em formato de algodão doce, pomposo e
com um topete alto, de uma cor vermelho escuro, quase
marrom, que combinavam com toda uma expressão exótica.
Andava estufada, como um soldado de um metro e cinquenta. O
que não tinha de estatura, certamente havia sido compensado
em autoconfiança embrenhada em uma etiqueta impecável.
— Ora, mais do que tudo é importantíssimo ressaltar a
gravidade de tais atos, uma vez ressaltado o código de conduta
exigido pela... — a postura firme e imponente da mulher à nossa
frente não condizia com sua fisionomia gordinha e apertada em
uma roupa obviamente mais justa que seu tamanho.
— Ela sempre fala assim, formalmente? — sussurrei para
o garoto.
— É estrangeira, veio de um país de colarinhos brancos,
sabe? Gente que come e caga arroz e feijão, mas acha que é
muita coisa. A gente a deixa pensar que faz alguma coisa de
importante só pra que ela não perca o emprego, mas no fim o
que ela faz é andar por aí e ser chata.
— Eu ouvi isso, Sr. Silver — podou ela com uma
elegância intrêmula.
— Sinal que seus ouvidos tão funcionando bem, né ô
Romilda. Mas fala aí, vão nos fazer limpar as prateleiras de novo
ou só uma bronquinha de quinze minutos como da última vez?
36
Contive um riso, o que pareceu trazer cólera aos
olhinhos suínos de Romilda. Suas bochechas redondas e rosadas
caíram.
— Vocês vão para a sala do Diretor Wood, causadores de
balbúrdia.
Os olhos azuis claros se reviraram no rosto de Wallace —
acho que é assim que ele se chama. Erguendo uma das
sobrancelhas, pôs as mãos atrás da nuca.
— Ih, Pica-Paua, prepara o psicológico, essa conversa
não vai dar em nada.
Meus dedos se tornaram estalactites. Parecia ter
esquecido como se respira, o suor escorria pela testa a ponto de
as mangas do meu suéter ficarem ensopa de tanto me enxugar.
Tentei olhar em volta para aliviar a tensão.
O corredor era calçado em porcelanato, refletindo-nos
conforme passávamos pelas salas, onde olhares compridos
queimavam nossas costas através das janelas. Os armários, cada
um com sua numeração, mantinham sua impecabilidade, embora
eu duvidasse do interior devido aos cheiros que exalavam de
alguns. Paredes de um tom azul bebê, lâmpadas de led no teto,
nada de tão anormal. Ainda.
— Foi a Martão Martelo, não foi?
— O que? — me recompus, tentando compreender quem
me fizera a pergunta. Wallace parecia amar minha expressão de
dúvida.
— Martão Martelo, aquela menina do tamanho de um
armário que anda com duas gatonas do...
— Esse é o nome dela?
— Não, claro que não, besta! Ela recebeu esse apelido
por causa do... — apontou para meu hematoma inflamado com
um risinho tampado por uma palma.
— Okay, eu já entendi — minhas sobrancelhas pesaram
sobre os olhos, enquanto bufei.
— Fica mal não, apanhar de alguém é meio que um rito
de passagem por aqui. Teve uma vez que o Tontom esbarrou no
Butch cachorro-sarnento, e levou um soco bem no... ei! Olha por
onde anda, velhote!
Rodos, vassouras e outras coisas tremeram quando o
carrinho amarelo freou. Um esfregão enorme pingava entre os
olhos pequenos de um homem de rosto retangular que nos
37
encarava rabugento. Marrento, de cabelos longos e grisalhos,
corcunda, andando com seus quadris e pés largos, e dono de
uma linda plaquetinha polida com o nome “Sr. Binks” — a julgar
pelo estado de sua camisa, aquilo era a única parte
constantemente lavada do uniforme —, esse era quem estava a
poucos centímetros de nós com um olhar opaco.
Em resposta à afronta de Wallace, apenas grunhiu e
seguiu rangendo as rodinhas trêmulas do carrinho por todo o
porcelanato. Em determinado momento, quando virei o rosto
para o vê-lo ir embora, percebi que me fitava, com um brilho
sombrio e amedrontador em meio às diversas rugas que
espiravam de um nariz pequeno e triangular. Voltei meus olhos
para Romilda e apressei os passos.
— Velho cabeçudo! olha só o que ele fez com minhas
roupas! — o rapaz chacoalhava e torcia a barra de sua camiseta.
— Não consegue enxergar com esses olhinhos de fuinha? Que
negócio é esse?! Eu ainda quebro esse cara...
Sem sombra de dúvidas meu dia não poderia ficar pior.
Pensei no quão embriagados minha mãe e meus tios estiveram
quando me transferiram para aquele colégio — não que em
Marilyn tivesse outra opção, sabendo que aquele era o único. O
universo tem um jeito tão fofo de me fazer sofrer.
Chegamos à sala tão temida. Romilda batia os pés
impacientemente como uma lebre enquanto dava mais batidas
firmes na porta. Um “Pode entrar, está aberto!” nos concedeu
passagem para o interior.
Nossos tênis resvalavam cuidadosamente sobre o chão
laminado da nada comum sala, contrastando com o tamanco da
mulher à frente. Subiu a nossos narizes algo que lembrava
salgadinhos e alguma dessas bebidas energéticas — nossas
suspeitas foram confirmadas assim que localizamos as várias
latinhas amassadas pelos cantos. Nas laterais junto às paredes
verde musgo se encontravam, displicentes, cômodas e quadros
de tamanhos e cores variados, decorados por saquinhos
amarfanhados de doces e guloseimas, sem contar as inúmeras
papeladas inacabadas e provavelmente esquecidas.
Para resumir, imagine um quarto de um adolescente
médio fã de futebol que está começando a descobrir sua
necessidade de usar desodorante; agora, se conseguir, aumente
isso em umas cinco vezes. O único ponto sério no cômodo era
38
uma estante de livros que envolvia o fundo, deixando apenas um
espaço para um quadro impressionista. Prendíamos a respiração
sempre que o cheiro azedo retornava.
Nunca, em sã consciência, diria que aquela era a sala de
um homem cuja função é gerir toda uma fundação educacional.
O único som vinha de uma melodia produzida por um
sintetizador oito bits oriundo de um Atari despojado em dois ou
três livros de Geografia volume cinco. E deleitando-se nele,
vimos, arcado sobre uma cadeira, pendendo os calcanhares
sobre a escrivaninha poluída visualmente, o diretor Wood.
— Hã... sentem. Vamos logo com isso — balbuciou sem
nem tirar os olhos de um televisor de tubo ao lado em uma
cadeira de escritório.
Fizemos como ordenou, lado a lado, enquanto Romilda
se posicionava do lado oposto ao videogame.
— Senhor, nós... — fui interrompida por um SHHH
partido por um indicador.
— Falta só mais uma nave e... DROGA!
Romilda limpou a garganta, o que chamou a atenção do
diretor, num sobressalto imediatamente acariciou as têmporas e
alongou os ombros acima das orelhas.
Tive a impressão de já o conhecer, ou, ao menos, tinha
um rosto extremamente comum. Uma barba por fazer em uma
fisionomia esbelta e quadrada evidenciada por um par de olhos
claros e sem vida, que casualmente eram cobertos por uma
franja rebelde vinda de um cabelo escuro e liso. Era magro,
porém tinha mãos firmes como quem já fora mais vívido. Sua
aparência geral me lembrava esses caminhoneiros dos quais
varam semanas sem dormir, o que facilmente julgaria por suas
olheiras profundas.
— Certo... — estralou os dedos um por um. — Suponho
que ambos tenham feito alguma burrice para estar aqui. E já
que me impediram de derrotar a Nave mãe, agora eu tenho um
tempo livre. Vamos começar com você, senhorita...
— Jessica Halley, senhor diretor — completou Romilda,
prontamente erguendo uma pasta com documentos,
aparentemente meus. — Ela veio da metrópole por transferência
ainda hoje.
Os olhos do homem se iluminaram de maneira
horripilante, pouco arregalados. Apoiou-se sobre seus cotovelos
em minha direção, cortando distância.
39
— Alô?! — Wallace balançou uma palma antes dos olhos
de Wood. — Eu também tô aqui.
— Claro, eu só queria saber se ela, uh... era realmente a
aluna nova, é... importante ter certeza disso — içou as abas do
terno bege e endireitou a coluna, pouco desconfortável.
— Permita-me explanar o ocorrido, senhor diretor. Essa
jovem se envolveu em um embate com a aluna...
— Martão Martelo?
— Essa mesma! — confirmou Wallace.
— Reconheci pelo hematoma, essa garota tá ficando com
a mão pesada.
— Senhor, creio que prefira manter a seriedade, não é?
— Romilda o censurou, já com ambas as bochechas redondas
rosadas e expirando pelas narinas arreganhadas.
— Certo, certo... — Wood pigarreou, e acenou com as
mãos para que eu começasse a falar. — Conte-me o que
aconteceu, só não enrole, não tenho o dia todo.
Não tinha nada a perder, portanto apenas segurei a
pressão, respirei fundo e comecei.
O diretor jogou um dos joelhos acima do outro e levou
uma das mãos ao queixo, pensativo. Contei a ele toda a
situação, ainda trêmula e fazendo pausas constantes para
respirar, não escondendo sobre a criatura e como ela causara
toda a confusão com Antonieta. As sobrancelhas quadradas de
Romilda estalaram, como se estivesse ouvindo o depoimento de
uma recém-internada em um manicômio. Seu olhar de horror
era, como o de Wallace, cortante a ponto de me fazer suar de
nervoso. Comecei a questionar minha saúde mental.
Diretor Wood, por outro lado, ouviu atentamente, fitando seus
sapatos perfeitamente polidos que refletiam a nós e distorcia
nossos rostos. Alargou o colarinho e sua gravata laranja de
bolinhas verdes sobre uma camisa fina amarelada e nos
observou com uma expressão exausta.
— Você realmente é muito...
— Esquisita? — Wallace interrompe.
— Criativa, eu diria. Eu realmente acho essa sua história
muito... interessante, de fato, mas... — Wood se ajeitou em sua
cadeira. Parecia estar caçando palavras eufêmicas para que não
me ofendesse. — Eu, bom... Você, Silver, por qual razão estou
vendo essa sua cara de rato de novo?
— Então, sabe o John Arroto?
40
— Primo da Thalita Ford, do oitavo A?
— Amigo do George do clube de xadrez.
— Hum... — o diretor esfregou o maxilar. —sei.
Eu e Romilda nos encaramos, sem entender nada,
voltando os olhos de um para o outro à espera de algo que
fizesse sentido.
— Ele me viu hoje na entrada e sem mais nem menos
gritou: “E aí, Wallace, você tá sempre andando por aí com essa
roupa de palhaço?”, aí eu respondi: “Não, Rolha de poço, eu só
estou vestido que nem seu pai. Mas ainda não está totalmente
igual, pois pra isso eu precisaria sumir!”. E depois... assim, soco
vai, soco vem... cê tinha que ver o outro cara.
Percebi naquele momento que Wallace tinha o dom de
imitar pessoas, fazendo o mesmo timbre e expressão facial.
Wood riu sucinto. Tomando novamente o controle do videogame,
apoiou os pés à escrivaninha e recomeçou a fase. Algo em seu
jeito desmazelado me preocupava. Como alguém que mal sabia
prender os botões de um terno poderia garantir a qualidade do
ensino, ou mesmo trazer melhoras, ou até...
— Então, vice-diretora Romilda... — o título parecia
conceder à mulher um surto de orgulho interno por seu cargo,
pois estufou o peito e sorriu confiante. — Leve-os à sala do
Professor Godofredo e dê a ambos uma detenção de duas horas,
mas só porque estou de bom humor hoje, e também, pelo fato de
ser o primeiro dia da Srta. Halley. Aproveite essa colher de chá,
Jessica, não acontecerá de novo.
A expressão de decepção no rosto arredondado de Romilda foi
notória, os lábios finos e excessivamente vermelhos se
contraíram, porém, a mulher assentiu e seguiu marchando até a
porta. Obviamente ser brando com “arruaceiros” como nós não
era parte de seu criterioso método pedagógico.
Dezesseis anos de um histórico escolar exemplar
arruinados por uma pequena criatura mística da qual eu por
incrível que pareça tenho conhecimento aprofundado. Sem
sombra de dúvidas eu teria o que contar quando fosse mais
velha, a menos que um peixe gigante zumbi me devorasse.
Credo. Tentei me manter calma enquanto passávamos pelos
corredores novamente rumo à detenção. Minha respiração
cedeu assim que imaginei a bronca repetitiva vinda de tia Betty;
porém antes que formulasse mais alguma coisa, estávamos
atravessando a porta.
41
Era uma sala isolada das demais em uma parte sem
saída, pouco mais escura, não diferente de qualquer outra sala
de aula, porém, vazia de quaisquer cartaz, quadro, armário ou
enfeite; apenas cadeiras e uma mesa.
Deitado sobre uma cadeira vinte vezes menor que ele,
cujas pernas curvavam-se para fora, estava um homem de
poucos cabelos e muita barriga, cujos botões da camisa deviam
ser de uma marca excepcionalmente forte a julgar o quanto
estavam estirados. Um fio de saliva caía abaixo de bochechas
flácidas, descendo até um exemplar de um romance latino ainda
nas primeiras páginas — aparentemente livros eram seu
sonífero. Sua fisionomia, no geral, parecia com a de uma
preguiça gigante, mole e sonolenta.
— Acorda pra cuspir, ô tanquinho de bater concreto!
Um tapa na mesa agitou o mustache de Godofredo, que
despertou mais desorientado que pato em galinheiro.
— Wallace, vá para sua cadeira em silêncio! — Romilda
avermelhou as orelhas, sua paciência era testada a cada
gracinha do garoto. — Senhorita Halley, creio que é de seu
conhecimento as regras da sala de detenção.
— Sim, senhora, eu...
— Ela vai ficar bem. Tá comigo tá com... — Wallace foi
cortado por um olhar flamejante da vice-diretora. — Tá okay...
Não tá mais aqui quem falou.
Ele ergueu os ombros e se dirigiu à sua carteira com os
braços abertos. Fiz o mesmo, e lá estávamos, confinados.
A vice-diretora passou aos sussurros algumas
orientações ao vagaroso professor, que apenas assentiu, vez ou
outra balbuciando as últimas palavras de Romilda, em um
movimento minimalista com seu tronco quase sem pescoço. As
carteiras tremeram quando a porta bateu, nos trazendo um
choque junto ao retorno do silêncio sepulcral, apenas quebrado
pelo ronco da preguiça gigante de terno.
Minutos viraram horas, horas viraram dias, dias viraram
semanas; estive entediada logo aos primeiros cinco minutos, já
que não havia relógio além de um pequeno prateado grudado ao
pulso roliço de Godofredo. Meu colega mantinha sua atenção em
fazer bolinhas de papel do tamanho de miçangas e arremessar
na direção do homem adormecido, aparentemente mirando em
seu umbigo que ficava evidente em uma abertura de sua camisa.
42
— Não era pra ele nos dar alguma tarefa ou coisa do
tipo? — murmurei pouco mais alto que o ronco.
Wallace arregalou os olhos retinente. Depois de quase despertar
seu alvo, se virou para mim e disse em tom baixo:
— Não dê ideia! Tudo o que temos que fazer aqui é
esperar a hora passar.
— Mas e se ele acordar? E se nos der um texto enorme
para copiar ou repetir a mesma frase mil vezes, e...
— Vira essa boca pra lá, palita de fósfora! Esse aí é um
saco de batatas, vive dormindo, ou pelo menos foi assim em
todas as oitocentas e quatro vezes em que vim pra cá. É só
esperar a hora passar, e, se dermos sorte, podemos sair alguns
minutos antes sem que ele perceba.
Ergui uma das sobrancelhas, não queria acreditar,
porém contra fatos não haveria argumentos. O homem jazia,
praticamente, em um fio de baba cadente que formava já uma
poça próximo a seus pés.
— Que tipo de emprego te paga pra dormir?
— Segurança de asilo, talvez — respondeu Wallace,
aparentemente gastando mais neurônios do que de costume
para formular a resposta. — Mas aí, por que não me fala mais
sobre você enquanto isso? Já que estamos trancados aqui
mesmo.
— Eu não tô muito na vibe de conversa.
— Qual é!? Você me bisolhou durante todo o corredor
como se eu fosse um daqueles coelhinhos de Páscoa de eventos
da prefeitura. Assim, eu sei que sou irresistível, mas já tiveram
fãs mais discretas.
As laterais de minha boca se contraíram em desprezo
enquanto meu cenho se franzia, porém não pude deixar de
lembrar do sonho e de como aquilo despertara minha
curiosidade. Estaria eu ao lado do causador de tudo aquilo?
Quem era Wallace Silver, e que relação ele teria com os
Cabeças-ocas? Deslizei a língua pelos dentes, pensativa.
— O que é isso em sua camiseta? — tive a coragem de
irromper.
— Ah, isso? — apontou um raio branco dentro de um
círculo e o escrito. — É a logo da minha banda, sabe? É
provisório, ainda não pensamos em qual vai ser o oficial, mas
isso quebra o galho. Tô andando pra cima e pra baixo na
intenção de nos divulgar pro Festival da Colheita.
43
Uma coisa era certa, esse garoto falava demais.
— Uh, superlegal... — fingi interesse enquanto afastava
uma mecha para trás da orelha.
— É legal pacas! Pode ser nossa oportunidade de
finalmente ficar famosos e honrar o legado do Agnus!
Um estrondo subgrave nos fez chacoalhar alguns
centímetros em nossas carteiras. O odor metálico subiu junto a
uma fumaça tenra que se espalhava, diminuindo nossa
visibilidade. Logo, o alarme de incêndio soou, despertando
Godofredo, que em um susto, se pôs de pé, recolhendo seu livro
e correndo desajeitadamente, tropeçando em suas calças cor de
bosta largas, em desespero, nos trancou na sala pelo lado de
fora.
Wallace esmurrou a porta por alguns minutos antes de
chutar uma das cadeiras em cólera, mas dessa vez, com razão. O
professor havia esquecido totalmente de nossa existência na
hora do pânico — como é bom se sentir cuidada.
— MELECA! Godofredo miserável! Nos tire daqui!
— Ele não vai nos ouvir!
— O que?!
O alarme tinia amolado e enervante, levando pouco de
nossa capacidade auditiva. Em instantes estávamos berrando
como dois chimpanzés de circo.
Um par de olhos amarelos encontraram os meus por um
momento, me obrigando a olhar duas vezes para a porta. Porém,
parado e nos observando, estava apenas Sr. Binks, carregando
um molho de chaves e caçando com seus dedos espessos como
baguetes, a que destrancaria nossa sala. Nunca pensei que ver
aquela cara velha e enrugada me traria tanta felicidade.
Ao abrir da porta corremos para junto dele, que nos
conduziu sem dizer uma palavra. Grunhia sempre que uma
curva nos esperava à frente, ou quando tínhamos de nos
esquivar de algum estudante desesperado que frequentemente
aparecia e desaparecia em meio à fumaça.
Wallace apenas o seguia e atingia com o ombro armários
e portas que surgiam abertas no caminho. Eu, por outro lado,
andei pouco afastada de ambos. Porém foi ali que me dei conta
de uma coisa.
Estávamos indo para a parte interna do prédio, enquanto
todas as pessoas corriam na direção oposta. Qual seria o motivo
44
do zelador não reunir os outros que passavam por nós? Por que
conseguia se locomover com tanta velocidade em meio à
fumaça? Estava ele realmente nos levanto para a saída?
Nos deparamos com uma escadaria semicircular, aquela
era a entrada — suspirei aliviada, me sentindo culpada por
pensar mal do pobre idoso; mas creio que depois de um dia nada
normal como esse, qualquer um suspeitaria.
Alguns degraus abaixo, Sr. Binks virou-se para nós com
um olhar sério e altivo. Levou suas enormes mãos ao peito, e
com algumas batidinhas tentou sinalizar algo que demoramos
compreender.
— Isso são horas de brincar de mímica, coroa?!
— Ele não fala?
Binks revirou os olhos, parecia estar se contendo de
alguma forma. Tive plena certeza de ver o contorno de seus
olhos ficar verde quando grunhiu impaciente.
— Wallace... — dei um passo atrás, sentindo meu peito
tremer ao conter meu coração. — Tem algo muito errado...
— Larga de história, ô leprechaun, ele tá perdido! É
óbvio que estamos sem saída.
O zelador novamente tocou o próprio peito com o
indicador, em um afã por compreensão. Cada vez que rezingava,
mais eu tinha a impressão de notar em seu rosto manchas
esverdeadas que subitamente desapareciam.
A fumaça se converteu em uma névoa mais rala, o que
atraiu a atenção do homem de modo a lhe deixar apreensivo.
Não tinha certeza do que era, mas por alguma razão
compartilhava de seu desespero. Se aproximou de nós em um
passo à frente, do qual recuamos na mesma medida enquanto
gesticulava aflito tentando se comunicar.
— Fale logo, homem! Parece que um gato comeu sua
língua! — Wallace instintivamente tomou a dianteira.
— Jessica Halley! — proferiu, arregalando os olhos como
se tivesse acabado de condenar a todos nós.
Desde que pronunciou essas palavras, sua boca
discorreu em crescer até atingir um tamanho suficiente para
engolir nós dois. Seu uniforme azul se despedaçou enquanto
músculos verdes e inchados surgiam e uma armadura de couro
se tornava evidente. As mãos já grandes apalpavam seu queixo
tentando impedir duas enormes presas salientes como as de um
mamute. De todas as coisas estranhas daquele dia, aquela tinha
45
se consagrado. Estávamos diante um ogro vestido em uma
armadura samurai.
— Mas o que raios é isso?! — o garoto ao meu lado
esganiçou a voz, esbarrando em mim, trêmulo.
Minha testa latejava, o olho roxo aparentemente me
trazia uma sensação de pré-explosão que me tirava o equilíbrio.
Foi então que um clarão me trouxe o nome:
Omnivorax
Conhecidos por viverem em bandos, os Omnivorax
mantém o posto de criaturas mais próximas aos homens dentre
todas as criaturas não completamente racionais. Podendo variar
de dois a cinco metros dependendo de sua região, normalmente
são criaturas pacíficas e reclusas, a menos que sejam atacados,
quando então fazem jus a seu nome, que significa “Devorador de
homens”.
Minhas pernas bambearam, a visão turva acompanhou
um delíquio que me fez derrubar um vaso contendo uma planta,
que se espatifou espalhando pedaços de porcelana e cascalho
pelo piso de concreto.
— Toma isso, cara de espinafre!
— Wallace, não! — tentei interrompê-lo de atirar um
pedaço de cascalho vindo do vaso, porém não tive vigor para
impedir a representação caricata de Davi e Golias.
O ogro fora atingido ao centro da testa oleosa e glauca,
o que o deixou alguns instantes perplexo. Nos arrepiamos ao ver
os pequenos olhinhos de cor acinzentada se tornarem amarelo
vivo, como uma chama que ardia em sede de sangue humano.
Me levantei cambaleando, enquanto sentia a respiração
fedorenta e ruidosa da criatura que estendia o braço em direção
às costas, buscando algo que crescera em suas mãos até se
tornar uma catana gigantesca.
— O que você fez?! — berrei para Wallace.
— Um “de nada” seria bem mais...
— Esse é um Omnivorax, seu idiota, ele agora não vai
parar de nos atacar até te devorar!
— Isso é mais uma das suas histórias de louco? Eu tô
ficando lelé que nem você?! — puxou os cabelos frenético.
Estapeei sua bochecha tentando fazê-lo voltar a si.
— Escuta aqui, cabeça-oca, eu não sou louca, isso é re...
CUIDADO!
46
Nos separamos quando uma enorme lâmina partiu o piso
entre nós em uma rachadura que desestabilizou o parapeito do
segundo andar, trazendo sobre nossas cabeças poeiras e
pedrinhas vez ou outra. Caímos de traseiro no chão, observando
a forma monstruosa do ogro bufar e se erguer em meio à névoa;
olhando desesperadamente em volta ao mesmo tempo em que
caçava Wallace.
E aqui estamos nós de novo, no ponto em que tudo se
iniciou. Mal sabia eu que, dali pra frente, era só para trás. Tudo
se tornou sem sentido quando Ele chegou.
Capítulo iii
Um mago vasculha minha gaveta de
meias
47
N
ão fazia ideia de que meu tio Harald estava dirigindo à
escola naquele exato momento, nem que um grupo de
rapazes procurava por Wallace do lado de fora, berrando
seu nome sem nada encontrar.
Estávamos muito ocupados tentando não virar picadinho para
saber — e presos, pelo jeito.
Meus miolos pediam arrego a cada pulsar latejante de
minhas têmporas, conforme nos esquivávamos das investidas,
escondendo-nos em bancos, colunas e vasos. O monstro causara
um caos no saguão, o partindo com rachaduras enormes que
iam até o refeitório.
Nossas costas se chocaram contra a parede, estávamos
encurralados, os braços volumosos se ergueram em uma
preparação para o golpe seguinte, e último. Porém, antes que
baixasse bruscamente seus cotovelos e desferisse uma pancada
que nos esmagaria como massinha de modelar, um raio de
energia vermelha o atingiu na costela, arremessando a fera
contra uma das colunas e derrubando parte do corredor do
segundo andar.
Da névoa, triunfante, surgiu um par de mãos magras de
dedos compridos, enredados por um tecer de fios fluorescentes
e vermelhos como em um novelo de lã que se movia autônomo;
porém algo me chamou atenção de modo que não consegui
desviar o olhar, as mãos tinham seis dedos em cada. Um manto
de cor turquesa se desenrolava sobre braços firmes atados a
uma capa de mesma cor que cobria uma figura alta e imponente.
Sua barba cinza e emaranhada simetricamente lhe trazia uma
aparência curiosa e pitoresca, junto a uma extravagância além
do compreensível. Um par de olhos flamejantes em escarlate
fitavam o ogro caído como na espera de um contragolpe, vez ou
outra desaparecendo sobre o refletir de óculos redondos sobre
um nariz comprido e aquilino.
— Okay, agora eu detinivamente estou louco — Wallace
deixou cair o queixo.
— É “Definitivamente”, babaca! Mas... quem é ele?
O ronin se pôs de pé, e rugindo furiosamente correu em
tremores de solo ao encontro da figura mágica. O golpe da
catana transpassou uma nuvem, da qual em instantes o outro se
materializou, atingindo com o a espada uma das colunas de
sustentação. Correntes de várias direções prenderam o ogro por
48
seus pés e mãos, imobilizando-o com uma resistência capaz de
partir solos. Vociferou retumbante, porém não se soltou.
— Não contem nada a ninguém sobre o que viram! —
bradou a figura rouca e fraca, porém ecoando sobre o saguão,
deixando cair uma enorme gota de suor de sua careca até a
barba.
Uma porta se abriu atrás de nós, enquanto fomos
arremessados no gramado próximo ao estacionamento por
algum tipo de vento muito forte; a passagem se fechou assim
que erguemos o olhar de onde viemos. Ao sentir o pinicar da
grama em meu corpo, fiquei imóvel por alguns minutos, porém
alguns gritinhos de Wallace trouxeram-me de volta.
— Wall! — chamou alguém sobre nossos ombros,
acompanhado por mais passos.
Se aproximou de nós um grupo de garotos. Tomando a
dianteira estava um, pouco menor que Wallace — se é que isso é
possível —, vestido da mesma maneira no estilo baby boom,
cujos cabelos castanhos e secos como palha caíam pouco abaixo
das orelhas, presos em uma bandana vermelha que cobria uma
pele bronzeada e suada. Nos observou analiticamente, com um
par de olhos escuros, onde as cores das íris e pupilas se
misturavam, lembrando uma bola oito de bilhar. Seu rosto
infantil, que mais se assemelhava a um morango, a julgar pela
vermelhidão permanente nas bochechas, não era a coisa mais
assustadora que vira naquele dia, porém, não pagaria para ver.
O garoto se aproximou lentamente de Wallace, me
fazendo ficar indecisa, para o caso de estourar uma guerra
punk, se o pátio da frente ou o fundo do estacionamento seriam
esconderijos adequados. Mas para minha surpresa, Wallace
apenas suspirou em um choque de peitos quando o garoto da
bandana o abraçou, com força, em uma emoção da qual eu
poderia jurar que lhe rendeu um quase choro.
— Ficamos te procurando feito loucos, seu babaca! — ao
se afastar, deu um leve soquinho no braço do amigo, que
esfregou o local. Aparentemente doera mais que o esperado.
— Eu sei, miolo mole, mas precisamos dar o fora daqui, e
rápido!
A princípio, o amigo de Wallace franziu a testa em
dúvida, mas em segundos deu ordem aos outros que seguissem
o Chefe para onde quer que ele fosse.
49
Assim, as botas gastas, e meu tênis roxo, trotearam por todo o
gramado, ainda sob tremores que nos faziam apressar os passos
até que chegássemos à entrada principal, onde uma figura
familiar nos esperava pouco à frente do portão, cobrindo com
uma mão estendida parte da claridade do sol. Era tio Harald,
que ao me ver, inclinou a cabeça e revelou um sorriso, mais
confuso do que legitimamente feliz.
— Jess, o que está acontecendo aqui?
— O que o senhor tá fazendo aqui, tio?! — soei mais
estúpida do que preocupada.
— Não fale nesse tom comigo, mocinha. Bom, eu vim
trazer seu lanche que Betty esqueceu na mesa da cozinha. Em
meio a tanta preocupação, ela...
— Sem tempo pra lanchinho, por favor, me tira desse
lugar! Tem um monstro gigante lá dentro, e um mago que tá
lutando com ele... e... e...
— Jess, o que você está falando? Monstro, que mons...
Os pelos em meu antebraço se eriçaram
simultaneamente ao silenciar dos ruídos e canto dos pássaros,
também acompanhados do vento e do som das folhas nas
macieiras que decoravam o pátio do lado de fora. Todos estavam
paralisados, como quem foi congelado, em uma horripilante
brincadeira de Estátua, mas sem qualquer música ridícula
infantil. Apenas eu parecia poder me mexer.
Erguendo pouco os olhos, mesmo com o pescoço rígido pelo
pavor, vi um símbolo gigantesco se erguer acima da linha do
teto na enorme construção, algo desconhecido, embora eu — por
alguma razão — lembrasse com detalhes o que era. Um símbolo
arcano, um círculo preenchido por repetições de triângulos em
várias direções, cintilando como neon num verde fluorescente.
Seguido disso, ouvi a frase:
OBLIVIUS DOMINUS
Instantaneamente os olhos dos que estavam comigo
piscaram em uma luz branca, como lâmpadas que queimam em
curto-circuito, trazendo-os de volta à realidade num suspiro
coletivo. Uma friagem percorreu-me, tirando a voz, até que tio
Harald irrompeu meu silêncio dizendo:
— Vamos para o carro.
50
Não ousei questionar, me pus a correr em direção à
Doblô parada paralela à escola, porém o grupo de garotos me
ultrapassou e preencheu o banco de trás tão rápido quanto um
grupo de piranhas rumo à um pedaço suculento de carne,
saltando uns sobre os outros criando um montinho de gente.
— Tio, o que eles estão...
— Jessica, entre no carro, agora — sua voz brandia
muito mais grave que o normal, em um tom apático, quase como
um zumbi.
Permaneceu ainda estático quando os pneus cantaram
em um estalido que ecoou pela rua, agora estranhamente
quieta. Era como se aquele selo arcano tivesse exercido algum
poder sobrenatural sobre todo um local — okay, Jessica, agora
você está oficialmente bilu-tetéia das ideias.
Pareciam estar vegetando, como em um coma, porém,
ainda despertos. Até mesmo Wallace, que não se calava um
minuto sequer, permanecia resumido a diálogos estranhos sobre
“A terra do peixe ser o mar”, mas como os outros, em uma voz
chata e repetitiva. Seria aquilo uma hipnose? Uma magia
desconhecida que fazia virar lelé? Por que todos eles menos eu?
Mais uma vez minha mente se enchera com perguntas que
ninguém era capaz de responder.
Durante o percurso, todos ficaram estáticos, de modo
que um silêncio sepulcral fazia companhia ao noticiário
medonho, cuja narração me trazia uma horripilação contínua.
Naquele exato momento, a alguns meses atrás eu estaria
deitada em um sofá-cama, comendo algo excessivamente
açucarado, assistindo a qualquer comédia romântica de
segunda, após minha aula de teatro, sem me preocupar com
nenhum monstro gigante ou pessoas que desmaiam do nada;
porém, agora, a cada esquina que virávamos ou semáforo que
surgia, eu temia topar com um Papai Noel assassino ou um
Coelhinho da Páscoa com uma serra elétrica. Pensei em como
nunca chegaria à Broadway se antes fosse transformada em um
inseto ou me desmaterializasse em uma nuvem de poeira rubra.
Ao estacionarmos em casa, tive a ligeira impressão de
ver um vulto na janela do meu quarto, como se alguém nos
observasse. Mesmo em uma segunda olhada, nada foi
encontrado — deduzi ser apenas algum reflexo ou minha mente
51
me pregando peças, de novo. Nenhuma terapia do mundo
repararia aquilo tão fácil nos próximos anos.
Mas antes que qualquer coisa pudesse ser pensada ou
dita, assim que Wallace pôs os pés na calçada, sua cabeça fora
atingida por um nada comum objeto.
O Tóin chamou a atenção dos presentes, aparentemente os
trazendo de volta do transe, pois guiaram ao mesmo tempo os
olhares para onde uma pá vermelha de jardim havia cruzado a
rua em um Head shot inesperado.
Do outro lado, em sua jaqueta verde aviador com gola
felpuda por cima de um pijama de gatinhos, um homem velho,
de pouca estatura — se bem que todo mundo é de pouca
estatura perto de mim — bradava com toda a capacidade
pulmonar uma lista inusitada de palavrões contra Wallace e sua
trupe. A cara amassada pela idade fazia jus às cataratas em um
par de olhos rodeados de marcas de expressão, agora
arregalados em cólera. Todo seu físico se parecia com uma
iguana furiosa trajada para uma festa com o tema Top Gun. A
casa cinza e mórbida às suas costas combinava com a essência
bizarra do idoso, com uma vegetação mal podada e depressiva,
junto à uma roseira morta.
— Vá se danar, seu velho gagá! Vá atacar as coisas na
sua mãe, aquela velha coroca! — Wallace tomou a pá do chão e
a arremessou de volta, atingindo a cerca mal pintada em cheio,
o que o fez ficar ainda mais furioso, mas dessa vez, o velho
começou a recuar.
Dois dos garotos avançaram contra o agressor o
xingando em palavrões tão feios quanto — e esbanjando quatro
dedos médios enquanto caçavam pelo chão pedaços de madeira,
pedras, ou qualquer coisa que pudessem arremessar de volta.
Exceto um, ou melhor, uma.
Ela se aproximou de mim, em um andar pacato e lento,
como a única pacífica no grupo caótico. Seu cabelo liso, na
mesma cor do amigo da bandana — porém muito melhor
cuidado —, fazia uma única onda assim que recaía sobre um
suéter cinza de lã. Não evitei de notar um par de olhos escuros e
amendoados, que me trouxeram um pingo de certeza de que era
de origem oriental, pois toda sua aura remetia a isso. Era, de
52
fato, uma linda garota — até mesmo mais linda do que eu, além
de ser pouco mais alta.
— Desculpa, mas... o que estamos fazendo aqui? — uma
voz masculina veio da figura, o que enterrou minhas primeiras
impressões a sete palmos do solo.
— O que?! — meu choque era sobre estar diante de um
homem, mas ele entendeu como se sua pergunta tivesse sido
idiota, pois corou imediatamente.
— Eu... não me lembro como vim parar aqui, e... nem
quem é você.
— Eu... — abrandei minha voz após um breve suspirar,
trouxe à memória que ele também estava perdido. — Eu me
chamo Jessica, e... não faço ideia do porquê está aqui.
— Certo, hum, Jessica, muito prazer. Me chamo Dipp, eu
sou amigo do Wallace. Bom... é melhor eu levar meu grupo antes
que estoure uma guerra no seu quintal.
— Sim, mas... hum... você não se lembra de estarmos na
escola e meu tio te dar carona? Do selo arcano, dos estrondos,
de Wallace e eu saindo da parede do nada...
Considerei, antes de prosseguir, que se aquilo fosse
algum tipo de magia, pela lógica, nada do que eu perguntasse
faria sentido a ele. Mas quem eu estava querendo enganar?
Magia não existe! Ou, ao menos, era o que eu mentalizava
repetidas vezes, ecoando no oco de meus pensamentos. Aquilo
deveria ser apenas uma ilusão, mas... como Wallace também viu
aquilo?
O lindo sorriso de Dipp se dissolveu lateralmente
enquanto ergueu uma das sobrancelhas — senti um aperto no
estômago por dizer algo que soou como a maior idiotice do
planeta, como se estivesse escrito BABACA em caixa alta e
negrito em minha testa. Pouco desconfortável, o garoto apenas
se afastou em um misto de surpresa e desacato.
— Eu... ouvi meu irmão me chamar, eu acho. Tchau! —
se afastou aos poucos até puxar pelo braço e arrastá-lo
novamente junto ao grupo.
O rebuliço crescia conforme tio Harald prendia, com
uma chave de braço, um Wallace enfurecido, impedindo-o de
acertar o velho na cabeça com uma tábua de prego na ponta.
Um deles, loiro e um pouco rechonchudo, acariciava com
expressão de choro um galo na cabeça, enquanto caçava seus
53
óculos que se espatifaram no chão, murmurando palavrões e se
afastando da briga.
Demorou alguns minutos até que finalmente a confusão
cessasse, quando um deles ouviu o velho balbuciar algo sobre
“chumbar alguém”. Embora tio Harald me dissesse mais tarde
que o velho Nick — que era o nome do nosso amigo e vizinho
simpático — Nunca verdadeiramente andasse armado, frisou
que esse tipo de conflito poderia por vezes voltar a acontecer.
Ao que parecia, a única coisa realmente perigosa nele seria seu
ódio misterioso por Wallace, que retribuía o sentimento na
mesma intensidade, comprando briga com o idoso sempre que
se trombavam. A família de Nick sumira desde quando foi
diagnosticado com Alzheimer, sendo abandonado às custas de
funcionários da saúde que o visitavam a cada mês apenas para
saber se não morreu tentando fritar um ovo, ou coisa parecida.
De certa forma, isso me fez sentir pena. Fiquei imaginando o
quão solitária uma vida assim poderia ser. De certa forma,
Wallace era sua única fonte de entretenimento.
Ruffus, como se identificou o loiro, finalmente retomara
os óculos redondos acima do nariz, já trincados, e
choramingando, pediu aos outros que parassem. Quando a
poeira baixou e o velho já se cansara, rouco de gritar, foram
todos embora, rindo e praguejando, fazendo uma arruaça que
levou muitos dos vizinhos fecharem as cortinas de suas casas
com olhares de desaprovação.
— Porque deu carona pra eles, tio? — disse eu, já
sentada confortavelmente em uma poltrona, acalmando os
nervos ao som de algum desenho antigo em um televisor de
tubo.
— Eles quem, cabeça de abóbora? — a calma em que
disse isso contrastou com minha incredulidade.
— Os garotos com Wallace, aqueles que vieram conosco,
que brigaram com o velho Nick...?
— Eu não vi ninguém além de você e sua tia o dia todo,
Jessica. O que aconteceu foi que você me perguntou sobre o
vizinho e eu te respondi, ora.
— Não, tio — estiquei as pernas sobre um pequeno pufe.
— Eu falo da hora em que saímos da escola, quando eu disse a
respeito do...
— Ora, Jess, você nem foi à escola hoje. Olhe, não
precisa inventar histórias, como quando era mais nova, para
54
chamar nossa atenção, okay? Nós te amamos, e vamos sempre
acreditar em você quando disser a verdade — a preocupação era
mascarada por uma gentileza na voz já normalizada de meu tio.
— Tio, fala sério! Eu quase morri pra um monstro
gigante, e ainda, por pouco não fomos decapitados por um velho
maluco, sem contar o mago e o selo arcano bizarro na escola! —
já estava quase gritando quando sufoquei um suspiro, já
envergonhada e suando.
— Jess, você está bem mesmo?
— Venham, vocês dois, lavem as mãos e parem de
discutir como se fossem idosos — tia Betty, se apoiou na
passagem entre a sala, a cozinha e a escadaria, vestindo um
avental que dizia Esse cozinheiro merece um aumento.
Meus pés batiam buliçosos no chão enquanto uma colher
de chá trincolejava no pires que fazia companhia à minha
solitária torta de frango. Milhares de possibilidades envolviam
minha mente, circunscrevendo minhas ideias como abelhas em
uma colmeia. Buscava, ansiosa, uma resposta para tudo aquilo,
porém a cada pensamento conclusivo, uma nova interrogação
piscava como uma luz de Natal. A evitar que meus tios
percebessem e me direcionassem uma série de perguntas sobre
meu bem-estar, educadamente me retirei, seguindo rumo ao
andar de cima, buscando a paz do meu quarto — embora eu
tenha ouvido comentários sobre me deixar em paz por causa da
pressão do primeiro dia, enquanto alcançava os últimos degraus.
Enquanto andava, senti algo cutucar o meio de minhas
costas, algo como uma pequena folha ou um graveto, do qual me
contorcendo, alcancei. Era um postite cor de rosa, grudado por
um chiclete, com um número de telefone nele. Uma mensagem
escrita em uma péssima caligrafia continha a frase:
Apertei os olhos por alguns momentos enquanto tentava
compreender o que dizia. O papel estava amassado,
provavelmente vindo dos bolsos sujos de Wallace.
Obviamente não o iria chamar. Aquele garoto irritante, sem
escrúpulos, que gritava o tempo todo como se fosse um louco e
que quase me fez virar panqueca de Jess pelas mãos de um
55
ogro? Não, obrigada, eu passo. Amassei-o em uma bolinha e
joguei ao nada.
Cacei D’Artagnan com os olhos, porém, aparentemente o
Pug sumira — o que era estranho considerando que evitava com
frequência a escadaria a fim de não fazer esforço. Ao girar a
maçaneta e jogar ao lado meus tênis roxos, minha garganta
sufocou um grito ante ao choque iminente.
A mesma figura alta, aquilina e aguda, com mãos de seis
dedos, agora alçava-se entre minha cama e meu guarda-roupas,
segurando em mãos um par de minhas meias ante uma gaveta
aberta com mais pares guardados. Tentei voltar e chamar meus
tios, mas a porta magicamente se fechou atrás de mim, me
trancando com a ameaça. Minha respiração falhou, meus
ombros se contraíram, certamente viera atrás de mim para
eliminar testemunhas, e aqueles eram meus últimos —
definitivos — momentos.
Não tinha forças para gritar até que estivesse presa,
onde bradei por meus tios.
— SONIDUS MINIMUS! — proferiu uma voz rouca,
pouco mais rija que da última vez que o ouvira.
Literalmente senti como se um cadeado se trancasse no
interior de minha garganta, reduzindo qualquer barulho a um
mero sopro. A segurei com as mãos e tentei falar algumas vezes,
mas era semelhante aos pesadelos mudos que temos quando
crianças.
Tremendo de medo em um desespero exponencial, entrei
em um modo defesa implacável, enquanto a figura se
aproximava detidamente com as mãos grotescas erguidas —
provavelmente para mais um dos malignos truques.
Atirei o que tivesse a alcance; o abajur, alguns livros, meus tênis
e até D’Artagnan que saíra debaixo da cama. Porém tudo o que
seguia em sua direção, voltava a seu respectivo lugar sem nem
um arranhão, dançando suavemente pelo ar em uma poeira
esverdeada e cintilante.
Minhas costas sentiram a porta, onde escondi meu rosto
com os antebraços, desviando o olhar para não lidar com minha
morte inevitável.
— Jessica Amberly Halley...
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— Por favor, não me mate! Eu juro que não falo a
ninguém, digo, foi sem querer, eu falei ao meu tio, e o Wallace
sabe, mas não os mate! Quer dizer, o Wallace tanto faz, mas não
mate meu tio, por favor! — parei de choramingar ao perceber
que minha voz tinha voltado.
— Não se preocupe, criança, eu não vou lhe fazer mal
algum, vim para lhe avisar de algumas coisas, e te livrar de algo
mui terrível. Mas por hora, não tema, está protegida conosco.
Baixei os braços, trêmula, hesitante, porém de alguma
forma suas palavras pareciam me reconfortar a primeiro
momento, como se qualquer coisa que saísse de sua boca seca e
pálida, fosse a mais pura verdade.
Sua pele era alva como o luar, de uma forma até mesmo
doentia, quase como se sumisse ante a folha mais branca. O
nariz parecia ainda maior de perto, porém não tão comprido
quanto o par de orelhas pontudas que ostentava. Me observava
com olhos azuis, donos de um brilho que emanava um poder
ainda vigoroso em uma carcaça cansada e aparentemente
moribunda.
— Você... Existem mais de você? São um grupo? Uma
ordem? Era mesmo você na escola? Você se formou em algum
tipo de castelo mágico e saiu depois de sete anos? — arregalou
os olhos ante meus questionamentos, mas logo abriu um largo
sorriso, rindo disfarçadamente.
— Você realmente ama fazer perguntas, e isso é ótimo,
porém, não posso respondê-las todas agora. Mas a respeito do
castelo, não, não nesse universo — sentou-se no carpete e
cruzou as pernas magras, calçadas com botas de cano longo até
a altura dos joelhos. — Mas o que posso lhe dizer é: Me chamo
Terêncio Stermfeld, o mago imortal e dono de todo e qualquer
conhecimento térreo e divino.
— E eu sou Jessica Halley... — forcei meus lábios a
pararem de tremer, engolindo em seco — Aluna de teatro, a
menina mortal e dona de muito medo de morrer e sedenta por
uma vida rasa e pacata.
Terêncio sorriu, fazendo seus olhos sumirem em meio ao
reflexo dos óculos.
— Sei exatamente quem é, senhorita Halley. Venho a
acompanhando desde algum tempo. Sei dos Spectrobominus e
do Omnivorax presentes no dia de hoje, sei também que têm
sido difícil lidar com tudo isso, é muito a se digerir em pouco
tempo. Saiba que é completamente compreensível que sua
57
mente ainda crua não assimile todo esse universo sem sentido
da magia.
Minhas pernas se cansaram. Sentei em frente a ele, por
alguma razão sem mais temor de ser incinerada viva,
transformada em um sapo, ou que uma verruga do tamanho de
uma laranja crescesse na ponta de meu nariz.
Meu olhar baixou ao carpete, ainda insegura, porém com uma
prévia de uma calmaria que ao fundo queria acreditar ter
encontrado.
— Você fez tudo isso? — perguntei, ousando olhar seus
olhos anil.
— Não teria motivos, por mais que quisesse. O que vem
te caçando é algo ainda pior, maior e mais perigoso.
— Como o que?
— Como o Herói Maltrapilho.
Uma aura pesada caiu sobre nós. D’Artagnan rosnou ao
ouvir aquele nome. Inconscientemente o quarto ficara mais
sombrio, como se a luz da janela cessasse — depois espiei por
cima de seu ombro mágico, vendo que a cortina fora fechada.
— Esse nome não é tão assustador — ponderei,
apoiando-me em meus braços ao pender para trás. — Alguém
cujo adjetivo é “Herói” não deveria consequentemente ser
alguém do bem?
O mago soltou um suspiro prolongado dentre sua barba
emaranhada e simétrica. Aparentemente aquele era um assunto
delicado.
— Ele foi, de fato. Porém, a injustiça do universo se
juntou a ganância mortal por poder, o tornando a criatura
sedenta por sangue que é hoje.
— Me desculpe, mas... o que eu tenho a ver com tudo
isso? Okay, eu entendo que seja uma ameaça do mal e tudo
mais, mas... por que eu? Assim, por qual razão esse Herói
maltrapilho está atrás de mim?
— Você tem algo que ele anseia a milênios, porém nunca
conseguiu — sua voz rouca se tornou grave e séria. — A chave
de redenção.
— O que é uma...
A atenção de Terêncio se voltou ao nada, como quem
ouve vozes, sintonizando a uma frequência que eu não era capaz
de ouvir. Levou as mãos enormes e finas às têmporas, e em
gemidos, semelhante a uma enxaqueca, voltou a falar.
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— Sei que sua mente deve arrodear em dúvidas, criança,
porém não tenho tempo de lhe explicar agora. Os planos
mudaram. O pior aconteceu, ele está em perigo!
— Ele quem?! — questionei em pânico.
Se levantou abruptamente, o manto estalando com um
chicote ao esticar as pernas. Tinha uma expressão preocupada
no rosto que se misturava com um senso de urgência que me
contagiou. Apenas um nome veio em mente.
Wallace.
Capítulo iv
Dedo no toba e gritaria
S
empre tive um pavor visceral de bruxas,
independentemente do tipo ou proporção. Lembro-me
vividamente de correr para o banheiro durante a
celebração de Halloween na escola quando tinha
apenas seis anos, dominada por um medo avassalador
de ser transformada em anfíbio ou envolvida em algum culto
macabro. Tremia de medo, lágrimas escorriam, e me debatia
59
como se estivesse em choque — e, de fato, estava. E lá estava
eu, ao lado de um. Seriam magos e bruxos a mesma coisa?
Terêncio Stermfeld, autoproclamado como o mago mais
poderoso daquele universo durante todo o tempo em que estive
com ele, agora navegava tranquilamente por um turbilhão de
cores e linhas que me provocava uma náusea quase desmaiante.
Antes de deixar meu quarto, minha casa, meu conforto, ele
simplesmente disse que Wallace precisava da minha ajuda, sem
oferecer mais explicações.
Num estalo dos dedos, uma poeira roxa nos envolveu, fazendo
com que meus pés se desgrudassem do chão até eu ter a certeza
de que estava voando. No meio de giros e rodopios dentro de um
vórtex infinito, uma mancha negra surgiu ao nosso lado,
prendendo um dos braços do mago, que após conjurar uma luz
vermelha nas mãos compridas, me disse, um tanto atribulado:
— Encontre Nix, ela saberá o que fazer. Eu logo
chegarei! — foi tudo o que ouvi antes que um clarão me
envolvesse e o chão sólido se firmasse sob meus pés.
Estava diante de uma casa de dois andares, pintada em
um tom verde-oliva, com uma garagem espaçosa cercada por
algumas árvores que projetavam sombras vespertinas sobre
caixas empilhadas nos cantos. Alguns dos meninos,
anteriormente vislumbrados, se escondiam ali, chamando por
suas mães freneticamente — nem sinal dos garotos marrentos
que antes encararam o velho Nick.
Para qualquer observador casual, a cena pareceria
normal e cotidiana, exceto pelo círculo mágico de fogo que
envolvia uma mulher vestida de forma horripilante dos pés à
cabeça. Suas mãos irradiavam, ocasionalmente, uma energia
roxa que se transformava em algo semelhante a campos de
força.
Seus cabelos, ocultos sob um chapéu pontudo de abas largas e
redondas, fluíam até a cintura, lisos e impecavelmente
arrumados. Vestia um manto espalhafatoso de cor azul-marinho,
preso por um cinto ornado com uma fivela em forma de crânio
de esquilo. Suas mãos, exibindo seis dedos alongados e brancos,
eram adornadas com unhas de um roxo escuro, como garras
afiadas. Não havia dúvida em minha mente: era uma bruxa.
60
Minhas pernas se recusavam a me sustentar, a respiração
parecia fugir para longe, onde estaria segura, mas meus
sentidos não retornavam o suficiente para que eu pudesse
sequer gritar. Enfrentava minha maior fobia, sem saber onde
estava nem como escapar.
Os olhos dela, irradiando um brilho violáceo
aterrorizante, encontraram os meus verdes — o que fez minha
espinha gelar instantaneamente. Surpreendentemente jovem,
não possuía nariz proeminente nem verruga saltitante. Parecia
ter pouco mais que a minha idade, por volta dos dezenove anos.
— Mors veio com você? — berrou ela para mim,
tentando sobressair o som das chamas a circulando.
— O que? Não! Quem é Mor... — uma brasa atingiu com
mais força os escudos arcanos da moça, que cambaleou e os
reforçou com uma proteção em formato de abóbada.
— Não temos muito tempo! Meu pai, ao menos, veio com
você?
— Quem é seu pai?! — Meu desespero transpareceu em minha
voz. Contudo, após aquela troca de palavras, minhas pernas
finalmente obedeceram, permitindo-me dar um passo para trás.
Me engasgando no desespero, tropecei em um pequeno
irrigador de quintal. O círculo de fogo se desfez, e do meio dele
saiu algo que em toda a minha vida eu nunca esperaria
encontrar.
Os olhos elípticos me fitavam entre duas escamas que a
cada segundo se retraíam como duas pálpebras sobre as íris
amarelo vivo. Senti minha cabeça latejar, minha visão turvou, e
um nome veio em mente.
Foguslinxs
Normalmente dóceis, mas travessos, os Foguslinxs são
criaturas que vivem em bandos, semelhante a uma matilha,
sempre em busca do lugar mais quente e com pouca luz da
região, em prol de sua sobrevivência. Uma vez domesticados, o
que facilmente ocorre devido a seu jeito brincalhão e
extrovertido, se tornam fiéis e devotos aos companheiros ou
donos.
61
Agora, minha última visão seria a fusão de um tigre e um
dragão me devorando até que eu me tornasse um patê ruivo, o
que, em todas as conotações, seria horrível. As patas eram
achatadas e enormes, contendo garras mortais que queimavam
a grama ao tocá-la, movendo-se sobre pernas tonificadas e
cobertas por escamas que variavam do vermelho fogo ao laranja
conforme avançava predatoriamente.
Rosnava, encarando minha alma, enquanto liberava uma fumaça
opaca e rala pelas narinas. Sobre sua terrível cabeça, duas
orelhas pontudas e cobertas por escamas pontiagudas — que
davam a impressão de um "cabelo eriçado" — captavam os
murmúrios e choramingos dos outros.
— Eu odeio adolescentes... — a bruxa revirou os olhos
enquanto juntou os seis dedos em um símbolo que mais parecia
um nó, disparando uma rajada de energia vermelha sobre o
Foguslinxs, que rugiu agressivamente se virando e disparando
uma brasa pelas narinas.
Saltei — com uma coragem que desconheço de onde
surgiu — e consegui pousar sobre uma árvore que estava ao
lado direito do quintal, junto à porta da garagem, onde um
Wallace medroso e encolhido se escondia.
— Wallace!
— Quem é você?! Sai daqui! — uma garrafa de plástico
atingiu minha testa, fazendo doer o hematoma.
— Ei, calma, sou eu, Jessica, nos conhecemos na escola,
lembra?
— Nunca vi mais gorda! Sai daqui! Eu tô avisando!
Franzi o cenho ao me afastar um pouco dele e me agachei atrás
de uma pilha de caixas de papelão, enquanto ouvia a luta entre a
bruxa e a criatura, ainda sob o olhar atento de Wallace.
— O que aconteceu aqui? — questionei, erguendo as
mãos em sinal de rendição.
— Eu que pergunto! Estávamos tranquilos ensaiando
quando aquela coisa invadiu minha casa e correu atrás de mim!
Foi você quem mandou?! Você está com aquela bruxa
esquisita?! — em sua raiva, o medo era evidente.
— Eu não mandei nada, nem estou com ninguém. Assim
como você, estou perdida e surpresa por você não se lembrar de
mim!
62
— A única menina que conheci está bem longe daqui,
então, NÃO, oficialmente, eu não te conheço! Agora, ou você
revela algum poder escondido nessa sua manga suada, ou cai
fora!
Fomos interrompidos por uma figura lançada contra a
cerca a uma velocidade surreal, jogando caixas ao ar e
quebrando parte da estrutura que dava acesso ao quintal
vizinho. Assim que a mulher se recompôs, a cerca foi envolvida
em uma poeira verde e reconstruiu-se em instantes. Tive um
vislumbre de sua mão esquerda, que segurava um pequeno nó
verde sobre a palma, conectado a um fio finíssimo da mesma
cor, que se estendia até o céu, ligado a um — até então
imperceptível — encantamento em forma de bolha que nos
confinava.
— Onde meu pai se meteu? Ele poderia manter esse
feitiço facilmente enquanto eu dou conta do Foguslinxs, ora,
aquele morfético cabeça de pilão! — murmurou, proferindo
outros xingamentos enquanto limpava suas vestes. Seus olhos,
agora parcialmente roxos, se voltaram para mim, como se eu
tivesse capturado sua atenção. — E você, o que sabe sobre eles?
— Você sabe o que é aquela coisa? — questionou
Wallace, baixando outra garrafa que tinha apanhado.
— É um Foguslinxs, uma criatura élfica muito antiga... —
o conhecimento parecia surgir em minha garganta, como se
falasse por si próprio. — Ele vive em lugares...
A bruxa foi novamente atingida no tronco por uma
investida da criatura, que emergiu abruptamente de um
turbilhão de chamas, movendo-se tão rapidamente que mal
conseguíamos respirar. Fora arremessada para longe. Antes de
cada investida, ele balançava seu traseiro — como os gatos
fazem antes de saltar longas distâncias — e deixava uma trilha
de fogo por onde passava, seja na terra ou no ar.
Estávamos novamente diante do perigo iminente, e
Wallace segurou a garrafa de plástico com mãos trêmulas — era
irônico como aquilo voltara a acontecer ainda naquele mesmo
dia, o que me causou um déjà vu, e aparentemente, a ele
também. Seus olhos azuis piscaram como lâmpadas com defeito
e, ao se virar, ele arregalou-os.
— A menina ruiva de hoje cedo... o que...? — suas pernas
bamboleavam enquanto se afastava do Foguslinxs, que
63
avançava, distanciando-se de outro monte de caixas,
aproximando-se cada vez mais de nós.
Dessa vez, Wallace não parecia assustado ao me ver; sua voz
denotava familiaridade, embora ambos estivéssemos temerosos
de nos tornarmos petisco de Tigre-dragão.
Mas de repente, contra todas as nossas expectativas, a
criatura proferiu algo entre um miado e um rugido quando um
pedaço de madeira fino e comprido — uma baqueta — atingiu
em cheio a lateral de sua cabeça, logo abaixo da orelha. De pé,
do outro lado do quintal, próximo onde a bruxa se recompunha,
estava o garoto da bandana, com a testa encharcada de suor,
desafiando seu próprio destino.
— Aí, bafo de forno! Se mexer com meu amigo, vou
chutar tanto sua bunda escamosa que ela vai ficar tão torta
quanto a sua cara! — Sua voz denotava tanto medo quanto a
nossa, e sua vulnerabilidade era evidente.
O Foguslinxs, aparentemente satisfeito em nos
encurralar, alterou sua rota e saltou em direção ao garoto antes
mesmo de piscarmos. Sua morte era iminente. Uma única
mordida e o melhor amigo de Wallace se tornaria uma
lembrança, assim como todos nós. Minha mente projetou um
filme em questão de segundos, detalhando cada aspecto da
minha vida.
Vi meus pais juntos, felizes, em um campo. Testemunhei minha
mãe se formando, meu pai sendo promovido. Revivi os
momentos em que Antonieta e eu brincávamos no parquinho, o
dia do teste e suas lágrimas no vestiário. A notícia da traição,
seguida pela imagem de minha mãe se trancando no escritório...
Tudo o que antes parecia crucial agora carecia de importância.
Será que meus tios haviam notado minha ausência? Estariam
eles preocupados? Eu não teria nem mesmo a chance de me
despedir antes de ser atacada por algo que estranhamente eu
conhecia.
Porém, como uma entrada triunfal, a mesma voz rouca
de antes conjurou algo que reconheci instantaneamente:
LUXIS MINIMUS!
64
Um sibilar foi ouvido, seguido por um grito de surpresa
vindo do garoto, o que nos aliviou, indicando que ele estava
ileso. Um clarão, como um flash fotográfico, nos fez coçar os
olhos antes que a figura imponente de Terêncio surgisse diante
de nós, agora visivelmente enfraquecida.
— Pai! — a bruxa correu em sua direção, coxeando
agoniante. — O senhor está ferido, o que aconteceu? Por que
demorou?!
— Nix... — ele tossiu secamente, deixando um fio de
sangue manchar sua barba pomposa. — É pior do que
pensávamos... o Maltrapilho, ele... tem... CUIDADO!
O manto azul-turquesa se agitou enquanto ele conjurava
um feitiço que lançou a criatura para cima do telhado, fazendo
com que folhas caíssem sobre duas pessoas que — eu não havia
notado antes — estavam desacordadas sobre os degraus e o
gramado, próximas à porta da frente. Eram os pais de Wallace.
Os místicos trocaram olhares rápidos e se dispersaram,
enquanto Terêncio tomava o fio verde de sua mão, fazendo com
que a bolha verde fluorescente recuperasse sua cor. Agora, nos
restava apenas esperar até que ela derrotasse a fera, ou, na pior
das hipóteses, fosse derrotada. Ao ver o bandana se esconder
atrás de outras caixas, junto com mais dois garotos, uma coisa
surgiu em minha mente.
— Já sei! — estalei os dedos, me arrependendo
instantaneamente ao pensar que o gato-lagarto poderia ouvir.
— Que é? — respondeu Wallace, se escorando em uma
árvore como um espião em filme indiano.
— Eu acho que sei como podemos prender esse bicho.
— Oh, não me diga — o sarcasmo em sua voz já voltara a
me irritar. — E o que faremos? Vamos vencer essa coisa com a
“força da amizade”?
Tenho certeza de que fiz uma cara feia, pois a malícia nos olhos
do garoto se dissipou.
— Não, nós não somos e nunca seremos amigos. Mas de
alguma forma, eu sei que essas criaturas odeiam luz forte!
Talvez se os dois ali usarem algo, ou... se acharmos algum
espelho, podemos...
— JÁ SEI! — Wallace sorriu, revelando os dentes da
frente espaçados, e deu um salto com uma cambalhota em
direção à garagem.
65
— O que está fazendo, moleque?! — Nix protestou
enquanto se esquivava de uma mordida flamejante, mas nada
respondeu ele, que já estava enfiado em entulho por trás do Gol
bolinha coberto por um enorme cobertor.
Segundos depois, trouxe em mãos algo que mais
lembrava um controle remoto, contendo apenas um único botão
vermelho e um rolamento na lateral. Agachou-se ao meu lado, e
disse orgulhoso de si:
— Aqui está!
— Não é por nada, mas a “força da amizade” seria
melhor — ergui uma sobrancelha, ainda tentando compreender
como aquilo ajudaria.
Murmurando alguns palavrões e erguendo-se sobre a caixa onde
estivemos escondidos, Wallace apontou o controle para o meio
do gramado e pressionou com o polegar o botão. Nada acontece.
Ao fundo, escutamos um som semelhante à várias vozes vindo ao
longe. Teria ele invocado um exército de punks anônimos? Ou,
de alguma forma, chamado criaturas tão ferozes quanto? Seria
aquele o plano falho mais ridículo da história? Os olhares
arregalados de Terêncio e Nix o observavam como se dissessem
Estamos todos condenados.
Um feixe de água surgiu como um gêiser bem ao centro
do gramado, seguido de outro, e outro, e outro, e logo todos
estávamos encharcados. Wallace sorriu e regulou o botão ao
lado do controle, e um show de luzes coloridas pareceu
amedrontar a criatura — fico pensando como, cargas d’água,
aquilo funcionou. O Foguslinxs se viu cercado por uma discoteca
infernal, que parecia o ferir sempre que a água tocava suas
escamas, com um estalo semelhante à quando se frita algo. Nix,
com um de seus braços ferido, conjura algumas correntes, que
imobilizam a fera antes que a bruxa caísse de joelhos, sem
forças.
— Isso poderia ter dado muito errado. Como sabia que
as luzes dos irrigadores seriam suficientes? — perguntei
enquanto saíamos de trás da árvore junto à garagem.
— Na verdade eu tava esperando que ele virasse pó ou
derretesse, ele é um bicho de fogo, então a água o derrotaria, na
lógica. Mas até que distrair ele foi uma boa.
66
— Vocês estão bem? — Terêncio espiou até que os
outros garotos saíssem de seus esconderijos, e então socorreu a
bruxa, que ainda jazia de joelhos.
— O que fizeram com meus pais?! — Wallace se adianta
e fica frente a frente com o mago, que se curva até ele com
alguns gemidos de dor.
— Seus pais estão bem, usamos um encantamento do
sono para os livrar de presenciar a situação. Mas fique
tranquilo, assim que acordarem suas memórias vão ser
apagadas. Te asseguro que tudo voltará ao normal, meu
pequeno amigo.
— Foi isso, então? Isso que fez com eles e meu tio no
colégio? Aquele selo arcano, era um encantamento de
esquecimento? — o ajudei a levantar, percebendo o quanto era
maior do que eu.
— Exato, criança. Humanos como vocês nunca estarão
prontos a eventos mágicos como este. Por isso, sempre que os
testemunham, temos a obrigação de apagar suas memórias e
substituir por algo que suas mentes limitadas possam explicar.
— Que loucura toda é essa, Wall? Quem é essa menina?
— Dipp, agora com algumas folhas presas a seu cabelo já
bagunçado, limpava a terra de suas calças rasgadas.
— Ela foi quem nos deu carona para a casa próximo do
velho Nick, tá lembrado não?
— Como assim? Nós pegamos carona? Quando?
Terêncio apenas riu entre tosses e seguiu mancando até
Nix, já pouco mais vívida, que enfaixava o braço com um
pequeno feitiço. Os pais de Wallace foram levitados em uma
poeira verde, da qual educadamente abriu a porta para que os
dois, já roncando, deitassem tranquilos e salvos no sofá.
— Agora seria uma boa hora para me explicar o que
houve — Nix baixa o chapéu, tocando com dedos mágicos um
galo próximo à nuca, que se curou imediatamente.
— A batalha contra Maltrapilho está atingindo
proporções fora do controle, precisaremos de reforços, e muitos
— a voz do mago era grave e imutável.
Fizemos um círculo em torno do Foguslinxs, que se
debatia inutilmente atado às correntes. Algo nele me chamou a
atenção: seu medo.
— Omnivorax e agora um Foguslinxs. O que ele mandará
depois, um Megadon? — a irreverência de Nix pareceu irritar
Terêncio, que deixou cair uma sombra sobre a fronte.
67
— Fui interceptado durante o percurso até aqui, por isso
a jovem Halley veio sozinha.
— Quem, exatamente?
— Saberá quando chegarmos ao Labirinto das Anáforas.
Ele pode ter mandado um escuta, estamos correndo riscos aqui.
Farei os garotos esquecerem, diga a Mors para dobrar a guarda
com Jessica.
A bruxa, fez um beicinho, cruzou os braços e bateu as
botas impaciente, mas logo suspirou assentindo.
— Por hora, vamos nos livrar desse...
— Não! — protestei, sentindo um calafrio ao me por
entre a criatura e o mago.
— Não? — Uma sobrancelha esfarrapada surgiu por
cima dos óculos de Terêncio.
— Ele... é só um filhote... — não soube eu revelar de que
parte do meu cérebro viera tal informação, mas tinha total
certeza do que dizia.
— O que está dizendo? Essa coisa quase matou meu
amigo! — o da bandana se exalta, dando um passo à frente, já
pouco irritado. — Temos que acabar com esse... esse monstro!
O Foguslinxs se encolheu e miou agudo quando saliva
caiu da boca do garoto ao gritar.
— Ele foi mandado pra cá, por alguém... não sei explicar,
mas... ele é pequeno demais, e também... um adulto teria
matado todos muito mais rápido.
— Como ela sabe dessas coisas? — Perguntou Dipp
— Ela é lelé da cuca — responde Wallace, levando de
mim um pisão. — Ai, para com isso!
— Você tem razão, criança. Vamos, dessa vez, poupar
essa pobre criatura, mas não antes sem saber de onde veio —
com duas palmas estaladas, uma luz branca piscou, fazendo o
felino-dragão sumir quando esfregamos os olhos. — Depois
poderemos o estudar com calma.
O sol já abandonara seu brilho excessivo do meio-dia,
onde as casas parecidas com a de Wallace eram acariciadas em
um feixe que se estendia sobre as árvores, que levavam sobre
uma brisa gélida folhas de cores já alaranjadas. Algumas
pequenas sombras surgiam sobre alguns pontos, como carros,
arbustos e os postes de luz, ainda apagados. Ao ver carros
passando, o mago se escondeu atrás de uma das árvores, e
pediu para que o seguíssemos.
68
— Bom, é hora de vocês irem. Lamento, mas tudo o que
viram e ouviram hoje, será esquecido — Terêncio esfrega as
mãos, criando um tecer verde de fios mágicos cintilantes. Peço
que fiquem todos juntos e não pensem em nada. Exceto você,
Jessica.
Os garotos, incluindo Wallace, se amontoaram em um
abraço coletivo, espremendo os olhos como quem está prestes a
levar uma pancada. Porém, antes que Nix fechasse a porta da
casa após conferir se os pais estavam ainda adormecidos, uma
lâmina surgiu.
Seu fio revelava um metal úmbrio, reluzente e etéreo, como se
estivesse e não estivesse lá, forjada nas sombras, moldada para
matar, em uma curva cruel que se estendia malignamente para
frente, atravessando o corpo de Terêncio, que cuspiu algumas
gotas de sangue azul, antes de termos a chance de ver quem o
atingira.
De um redemoinho vindo de uma parte escura, projetada
pela árvore, estava um homem — ou algo que um dia fora um —,
cujo braço e lâmina estavam interligados, como se a arma fosse
extensão de seu corpo. Seu rosto oscilava entre transparente, e
logo escuro, logo claro, logo não visível, mas sempre sombrio e
assustador. Uma sombra viva, ou uma alma em sombras. Não
tinha expressão, mas soava em um sibilar ardiloso e impiedoso,
conforme o vórtice de sombras revelava apenas a parte superior
de seu tronco.
— Grígoras... — Nix sussurrou, em choque, com a voz
presa na garganta.
Mal tivemos tempo de reagir antes que Terêncio fosse
puxado para dentro do vórtice umbrífero. Pareceu trocar olhares
com sua filha antes de sumir completamente, nos deixando em
um choque pós-traumático enquanto tentávamos nos manter de
pé no gramado.
— Vocês não estão seguros aqui, agora tudo foi por água
abaixo... — a bruxa se virou para nós com uma expressão de
puro pânico. — Escutem-me com atenção, pestinhas irritantes,
vocês correm perigo! Maltrapilho pode... não, mas... ele não...
— Desembucha, mulher! — rugiu Wallace, já impaciente.
— Olhe os modos que fala com um mago, garoto! Quer
que eu lhe transforme em uma fuinha?!
69
Contraindo o maxilar, o punk de cabelos brancos franziu o cenho
e cruzou os braços, revoltado. Estava certa, poderíamos ser
transmutados ou pulverizados se ela simplesmente estalasse os
dedos.
— No Labirinto, Maltrapilho ao menos não vai conseguir
te achar até que meu pai esteja de volta — prosseguiu ela,
acariciando o queixo pequeno e partido.
— Do que está falando? Terêncio foi partido ao meio,
você tem certeza que ele...
— Meu pai é imortal, menina burra, ele não morreria de
uma maneira tão tosca a não ser que tivesse um plano muito
bem orquestrado para isso.
— Bom, não é por nada não, mas... o velhote ali virou
estampa de camisa, sabe? — Wallace jogou os ombros
simultaneamente para cima junto às mãos. Nix o fitou em fúria
no mesmo momento, nos fazendo estremecer.
— Desrespeite um mago mais uma vez e eu lhe faço
comer capim pelo resto de sua miserável vida, seu inseto
esdrúxulo — Nix chacoalhou os punhos furiosamente enquanto
esbravejava. — O máximo que podem fazer com ele é feri-lo de
imediato. Seu fator de cura mágico o restaura milésimos de
segundo após a batalha.
— Não tá mais aqui quem falou — disse o alvo
novamente, erguendo as mãos em rendição junto aos ombros.
— E que Labirinto é esse? — perguntei.
— O Labirinto das Anáforas.
— Que é...?
A bruxa revirou os olhos e bufou.
— Uma passagem? Que dá acesso ao covil dos maiores
magos do mundo, ainda vivos? — nossos rostos deviam ter se
tornado pontos enormes e coloridos de interrogação, pois a
moça grunhiu e estapeou a testa. — Céus, eu tenho que explicar
tudo pra vocês? Parecem que não entendem nada de magia!
Nos entreolhamos por alguns segundos com as testas
franzidas e expressões confusas. Acho que Nix havia se
esquecido que, literalmente, não sabíamos nada sobre magia;
exceto Wallace — cujo conhecimento de magia em RPGs era tão
extenso quanto sua lista personalizada de palavrões —, que
aparentava estar amando cada segundo de toda aquela história
pra boi dormir. Mesmo contrariada, Nix respirou fundo como
quem contém um ataque de histeria, e prosseguiu.
70
— Fujam daqui o mais rápido que puderem, sem olhar
para trás. Dispersem-se, e assim que tiverem certeza de que
estão bem longe, chequem os bolsos.
— Não seria melhor você levar a gente com um pó de
pilim pimpim ou algo assim ? — o bandana questiona, erguendo
uma das sobrancelhas e cruzando os braços.
— Estou muito ferida, não conseguiria cuidar de todos
vocês no caminho.
— Ah, te vira! Você quem nos meteu nessa furada!
Seus olhos de cor violeta quase saltaram das órbitas quando a
encaramos ainda mais engodados em infindas dúvidas. Era como
se estivesse falando um misto de grego, latim e uma língua
antiga maléfica, pois cada sentença concluída não fazia o menor
sentido, chegando como quem fora criptografada a nossos
ouvidos.
— Eu odeio adolescentes — bufou ela antes de se
teletransportar em um redemoinho verde e sumir sem deixar
rastros.
— Ei, volta aqui! Eu não terminei de te dar a bronca que
você merece!
— Bom, pelo jeito temos que picar a mula — Dipp
estapeou as coxas, limpando-se.
— Mas e os meus pais? Eu vou deixar que eles
possivelmente virem papinha de monstro? — Wallace torceu o
nariz, inconformado.
Ruffus ergueu a mão timidamente.
— Fala — permitiu o punk.
— E-e se... bom, é... eles estiverem... — a voz do loiro
baixou até sumir.
— Fale com a boca, caramba! — nosso companheiro alvo
já esbanjava um rosto rosa e suado com olhos azuis.
— Eles devem estar protegidos por algum feitiço!
O bandana trocou olhares rápidos com os outros, certamente o
medroso Ruffus tinha um ponto.
— Wall, você tem certeza de que vai dar ouvidos pra
aquela mulher? E se ela for uma doida, ou estiver na verdade
nos levando pra uma armadilha? — a voz da razão vinha de
Dipp, que agora tirara todas as folhas do cabelo.
71
— Eu não sei o que cargas d’água está acontecendo,
china, mas pelo jeito não temos tanta opção quanto a gente
queria.
Sabíamos que aquilo certamente não era um blefe. O
que presenciamos quase nos rendeu um caminho sem volta,
porém, agora estávamos diante de um dilema: Correr ou não
correr, eis a questão.
— Sabe que aonde tu for, eu também vou, né, Wall? — o
bandana apoiou a mão sobre o ombro do amigo, que esboçou
certo ânimo. Dipp suspirou e esfregou as têmporas.
— Okay... meu irmãozinho vai precisar que alguém tome
conta dele, não é? — sua resposta arrancou sorrisos de ambos.
— E você, Ruffus, não vem?
O garoto rechonchudo tinha cabelos loiros e
embramados como os de um anjinho de presépio, e um olhar
amedrontado e ativo, que sempre prestava atenção aos mínimos
detalhes. Seus óculos acima do nariz avermelhado tremiam
sempre que estava prestes a falar algo, como se a habilidade de
se socializar custasse toda a sua energia — diferente de mim,
aquele garoto odiava ter os holofotes sobre si. Era um típico
Nerd-Maria-vai-com-as-outras, que se torna insuportável com
más companhias, mas quando olhado com uma lupa era medroso
e tímido.
Engoliu em seco quando se deu conta de que estávamos
o encarando, e umedecendo os lábios respondeu com um jóinha.
— Ótimo, pé na tábua!
Em instantes, uma frota de bicicletas de tamanhos
sortidos se posicionava como em uma largada de Interlagos —
porém com um pânico iminente substituindo a euforia dos fãs de
adrenalina. Dipp levava seu irmão — que deduzi ser o garoto de
bandana em uma extensão do selim acima de uma aro vinte e
nove de cor preta. Ruffus vinha quase imperceptível em sua
bicicleta urbana azul bebê. E por fim, e mais espalhafatoso,
Wallace, que ostentava uma aro vinte e um vermelha fogo,
coberta de labaredas e desenhos de pequenas caveiras que se
erguia em um guidão prateado reluzente e comprido como o de
uma Harley Davidson.
— Que foi? — disse ele, prestes a dar o tiro de largada e
interrompido por meu olhar carrancudo.
72
— Eu não tenho bicicleta, imbecil! — respondi um pouco
envergonhada, sentindo meu rosto queimar.
— Ué, mas você tem perna, minha filha, dá teus pulos —
os outros riram e trocaram caretas surpresas enquanto ele me
encarava maliciosamente.
— Eu não vou a pé, e se eles me interceptarem ou algum
monstro me encontrar?
— Sei lá, tira uma vara de condão do...
— Wall, ela pode ter razão — Dipp interpôs a fala do
garoto, que se virou para ele com um olhar desgostoso, como
quem diz Estraga prazeres. — Se essas coisas estão atrás dela,
pode ser que andando sozinha ela machuque mais gente ou até
pior.
— E a gente pode se machucar, né? — esganiçou a voz o
alvo, contrariado.
— E se quando ela estiver junto com a gente, eles não
conseguirem achar ela, tipo, quando os caras se misturam em
uma horda de zumbis pra não serem farejados? — bandana
supôs.
— Bom... — Wallace esfregou o queixo, pensativo, o que
deve ter-lhe custado muito de sua capacidade cerebral. — contra
fatos não há argumentos. Mas, goste você, ou não, meu possante
tem lugar para apenas um, o que significa que vai ter que ir aqui
na frente comigo.
— Nem pensar! Com você? Até parece, deve pilotar
como um doente! — era inegável que amou cada segundo de
minha revolta. Tinha me esquecido que uma das coisas que eu
sempre odiei em punks era sua maldita mania de dar em cima
de qualquer criatura que respira.
— Então você vai de Oscar, sua mal-agradecida! — o
garoto fez um beicinho torto e cruzou os braços.
Revirei os olhos, agora sem muita escolha. Teria de ser a
garupa de um garoto caótico que acabei de conhecer —
certamente, nada do que eu passara antes fora humilhante o
suficiente, pelo jeito. Sentei-me no quadro da magrela, sentindo-
a cambalear. Tinha minhas dúvidas se aquilo realmente
aguentaria meu peso, a julgar que meus joelhos teriam de ficar
flexionados à altura dos olhos, como uma enorme letra M.
Porém, sem muito pensar, os outros pesaram os pés sobre os
pedais, girando os pneus sobre os eixos antes de um rastro de
poeira se erguer, com os rugidos das catracas, em direção a
uma descida íngreme.
73
Tenho um ditado pessoal que diz “Se as coisas começam
errado, elas tendem a dar errado por todo o processo”, e minha
sina tem sido viver isto tão irrefutavelmente a ponto de me
irritar pelo fato de sempre estar certa. Wallace mal conseguia
alcançar os pedais com minhas pernas compridas atrapalhando,
o que o fez pender para o lado e nos arremessar bruscamente
para o chão como dois mamões maduros, sem sairmos um
centímetro sequer do lugar. Alguns instantes depois, os outros
se deram conta de que sumimos e voltaram.
Após rirem até enxugarem lágrimas, os garotos nos ajudaram a
levantar.
— Do chão não passa, hein, Wall?! — o da bandana
segurava um riso enquanto punha a bicicleta novamente de pé.
— Vá pentear macaco, seu burro manco! É essa jamanta
que pesa duas toneladas quem me atrapalhou!
— Eu? Você quem teve a brilhante ideia de me levar na
garupa mesmo sendo um tampinha! — protestei, ofendida.
— Quem você chamou de tampinha, pedaço de...
— EI, PAREM! — todos nos calamos ao brado grave de
Dipp, que separou meu nariz do de Wallace. — Se realmente
estamos em perigo, essa é uma péssima hora pra brigar. Wall,
talvez se você for na garupa e ela pedalar, será mais fácil de
irmos.
— NUNCA! Ela não é digna de empunhar a Hellbound!
Isso aqui é uma máquina de velocidade e quebra de regras,
placa de Pare, não uma casa de bonecas!
Um estrondo reuniu os olhares ao céu, que
instantaneamente escureceu como em um eclipse. Agora, as
luzes dos postes se fariam úteis, mas permaneciam apagadas.
Um vento gélido e cortante nos fez estremecer antes que
Wallace subitamente mudasse de ideia. Nuvens de chuva
começaram a se formar, trazendo consigo uma aura de terror e
urgência.
— A previsão dizia céu aberto pra hoje... — o bandana
coçou a nuca.
— Deve ser mais uma das paranoias da ruiva! — cada
palavra do punk agora me irritava profundamente.
— Vamos embora logo! Andem, montem nas bicicletas!
— Dipp agora tomara a dianteira. Porém, Wallace não se
importou de ceder a liderança por alguns segundos.
74
Aparentemente o irmão mais velho do bandana era algum tipo
de figura experiente para o grupo.
Meus tênis, agora lambuzados de lama e sujos pelo
asfalto, se apoiaram nos pedais enquanto um punk de um metro
e cinquenta e cabelo branco, enfurecidamente se punha a frente
de mim, com as pernas para o lado — como uma feiosa mocinha
indefesa. Respirei fundo e forcei para que meus pés nos
empurrassem para a frente, o que fez absolutamente nada.
Mesmo umedecendo as têmporas em suor, o pedivela não movia
nem um milímetro sequer.
— Como você pedala isso aqui? — perguntei. As mãos
trêmulas no guidão, equilíbrio no meu tamanho não é lá um
mamão com açúcar.
— Ela só funciona com os dignos — respondeu Wallace,
claramente descontente, criando um beicinho.
— Wall, qual é! — Dipp o censura, juntando as
sobrancelhas perfeitas, o que fez meu copiloto bufar.
— Pedale ao contrário... — aparentemente aquilo o
trazia vergonha, pois vi suas orelhas passarem de pálido para
vermelho.
— Como é?
— Só faz o que eu tô mandando, caramba!
Com o calcanhar direito, atingi o pedal, que girou a catraca em
um sonido metálico insistente, nos lançando para frente em
disparada, aos gritos de Wallace, que se agarrava ao corpo da
magrela com todas as suas forças.
A rua agora era apenas um borrão cinza em movimento,
tal como as casas ao lado se misturaram em cores que
chegavam e saíam em segundos, estávamos em alta velocidade,
sem pensar, sem parada, sem chance de respirar. Não tive, a
primeiro momento, tempo para questionar se pedalei forte
demais, pois meus pensamentos foram levados com o vento que
nos atingia no rosto, fazendo-nos cerrar os olhos por causa de
pequenos flocos de poeira que casualmente diziam oi.
Os sons das correntes sendo engatilhadas pelos outros soaram,
minutos antes de os ver pelo pequeno espelho retrovisor ao meu
lado esquerdo. Para minha infelicidade, eles não eram os únicos.
Uma massa em movimento os perseguia, com sons estalados e
75
rosnados furiosos, tinidos de garras no asfalto e mandíbulas se
fechando, enquanto uma figura maior os liderava.
— Wallace, é a gangue do caolho! — bradou o bandana,
mas o zunido do vento nos deixou surdos.
76
Capítulo v
O labirinto das anáforas
E
m Marylin, tínhamos mais pessoas que animais — isso sem
contar as antas no trânsito —, portanto, poucas de nossas
preocupações envolviam correr de um grupo de cachorros
furiosos do tamanho de bois.
O grupo continha cães de todos os tamanhos, cores e carrancas
— uma pior que a outra —, tal como olhos esbugalhados, dentes
quebrados e pelos arrepiados e duros como fios de solda. À
frente do bando, o pior deles golpeava com suas garras vorazes
em um trotar sedento por nos alcançar, mesmo em alta
velocidade. Pelagem creme, musculoso, de uma cara amassada e
feiosa — dono de enormes patas brancas contrastando com toda
sua robustez. Pelo que compreendi depois, aquele gigantesco
animal era o líder do grupo selvagem — o tão temido, Caolho;
que fazia jus ao nome por ter um dos olhinhos de pitbull ferido
por uma enorme cicatriz que cobria toda a sua fronte periculosa
molhada pela espuma que vinha dentre as presas amareladas.
Wallace tentava alcançar o guidão direito, mas sua
pouca envergadura apenas lhe rendeu um esticar em vão em
movimentos tão desengonçados quanto uma toupeira na
superfície — porém bem mais feiosa e baixinha. Meu pavor me
rendeu um congelar súbito nas pontas dos dedos, que agora
sacolejavam ao ar como um joão-bobo de tênis roxos.
Descemos por todo um percurso que a primeiro momento
pareceu durar horas. Meu estômago aparentemente quis um
lugar ao lado de meu coração, pois o senti gelar bem alto — os
77
cookies de tia Betty nunca pesaram tanto quanto naquele
momento. A ideia de chocar-se contra uma árvore ou parede não
era nada atrativa a ponto de estar na minha Bucket list da vida
nova.
— Nós vamos bater! — Berrou Wallace. Sua voz oscilava,
como adolescentes fazem.
— Faz isso parar!
— Não consigo, cabeçuda! Preciso que você tome o
controle!
— Eu não sei... espere, olhe! — minha atenção se voltou
a um grupo de vultos que iam e vinham por entre árvores, como
sombras que dançavam uma valsa maligna.
Em alguns momentos, tive a impressão de ter visto
flashes da luta entre Terêncio e o Grígora em pontos do céu,
algo parecido com fendas, mas não tive tanta certeza ao me dar
conta de que os outros não o viram — talvez porque estavam
tentando fugir de um pitbull gigantesco que poderia engolir
qualquer um vivo.
Uma bifurcação nos aguardava ansiosamente a alguns metros
depois de nossas frontes assustadas — fico me perguntando
sempre como a vizinhança não saiu para checar o que era toda
aquela barulheira, pois em momento algum vimos nenhuma
outra alma vivente por lá. Wallace murmurou algo que não
decifrei a primeiro momento, mas que me rendeu um súbito
desespero ao reconhecer Sem freio em um momento mais
lúcido.
Com um pouco de coragem ou desespero que juntei,
meus olhos se viraram aos que nos seguiam. Vi Ruffus perder
parte da calça marrom bem no traseiro por uma beliscada das
presas de um enorme buldogue babão, enquanto o bandana
afastava dois pequenos e infernais chihuahuas com uma de suas
baquetas, os acertando bem ao centro dos olhos do tamanho de
bolas de sinuca em um Tuc.
Não restava tempo. Wallace pressionou o freio da
direita, esticando muito o braço, o que causou um ranger agudo
de pastilhas gastas por um bom tempo até que reduzíssemos a
velocidade o suficiente para fazer uma curva tão inclinada que o
próprio Einstein se questionaria em questões gravitacionais.
Seguimos em direção a uma rua sem saída que ficava no lado
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direito da bifurcação, acertando em cheio um trecho cheio de
árvores em uma mata aparentemente fechada.
Arbustos, folhas, galhos, todos partidos pela bicicleta em
movimento. Meu piloto/copiloto nos fazia esquivar a quase todo
momento de algum tronco na direção oposta — me fazendo
admirar sua habilidade com as duas rodas, mas só um pouco. O
ouvi murmurar algo a respeito de queda e perto, o que não foi
nada animador ao ver que nosso horizonte se findaria em um
enorme desfiladeiro. A beirada era visível alguns metros à frente
enquanto os sons dos outros se tornavam cada vez mais
distantes junto a alguns choros caninos.
Wallace agarrou minha cintura e me puxou para a esquerda, nos
derrubando da bicicleta, que seguiu rolando penhasco abaixo,
caindo incógnitos metros adiante. Por um milésimo de segundo
o alívio me veio à mente, junto à raiva de ser puxada sem aviso
prévio; ambos se dissolveram ante a meu sentimento mais novo
naquele momento: remorso.
Meu quadril atingiu o gramado seco agressivamente
quando rolei encolhida até próximo a uma árvore seca, trazendo
pedrinhas e terra em minhas roupas e alguns arranhões — um
de meus tênis havia sumido. Meu companheiro, por outro lado,
teve um fim mais trágico.
Wallace chocou-se violentamente, deixando não somente a
pedra, como seu cabelo, agora vermelho, manchados em sangue
de uma ferida vinda de sua nuca. Instantaneamente
inconsciente, nem ao menos suspirou; apenas caiu, e ali ficou,
até que os outros ouvissem meus gritos e chegassem.
Tudo se tornou um redemoinho infindo quando minha
visão turvou, ao som de Dipp repetindo meu nome várias vezes
antes que minhas costas encontrassem o solo. Não sei dizer se
foi o choque, ou nervoso, mas desmaiei.
Os meus pés descalços chapinhavam em uma grama
molhada já envolvida pelo barro cinzento e pútrido, cujo odor
me trazia o arrependimento dos erros e aflição de espírito. A
vegetação era tão sem vida quanto o homem de joelhos ao
centro. A nossa volta, apenas uma sombra pairava, como se um
79
grupo de holofotes evidenciasse a figura em sofrimento, que até
então não havia reconhecido.
Era o homem do sonho anterior. Dessa vez, em prantos. Sem
espada e sem mulher ensanguentada. Apenas com a dor aguda
do remorso em um clamor resoluto, que levava de si todas as
suas forças a cada gemido vindo do fundo de sua alma — seu
semblante fazia lembrar qualquer funcionário de atendimento
ao público depois de uma longa semana na escala seis por um.
A capa de ombreiras felpudas e espetadas jazia caída sobre o
chão, já imunda, tal como suas mãos manchadas pelo líquido
escarlate da morte, seco. Ainda seu rosto era um mistério, mas
os cabelos escuros, espetados e mal penteados me traziam uma
sensação de familiaridade; um sentimento nada comum quando
se está sonhando lucidamente.
Minha respiração arranhava minha garganta por toda a
vastidão das trevas, me trazendo calafrios toda vez que
retornavam. Minhas mãos frias como as de um cadáver. Por
alguma razão, eu sabia que não estava sozinha, e que alguma
outra coisa nos espreitava, ainda escondida. Seria a Morte
novamente?
— Olá... — tentei pronunciar, dessa vez, em português
perfeito. — Me desculpe, eu...
— Minha Angelina... minha doce Angelina... Minha
culpa... — sua voz tremelicava, como se sofresse uma
interferência de rádio am.
— Se refere à mulher loira? Bom... eu não sei quem ela
foi, mas... posso te fazer companhia... você pode me contar com
mais detalhes o que aconteceu, e... se isso foi minha culpa.
— Ele não vai te responder — rugiu uma voz que
preencheu o ambiente à nossa volta, fazendo tremer o solo.
Me virei assustada, e um grito se libertou de minha
garganta assim que encarei o que estava às minhas costas. A
criatura mais terrível que eu já vi em toda a minha vida.
Não a reconheci, como fiz com os outros, ao que senti um
calafrio tremer em minhas pernas cobertas pelo mesmo pijama
de antes, quando o encarei nas cavidades oculares, cuja energia
verde fluía malignamente.
80
Suas enormes garras tinham tamanho suficiente para partir uma
Kombi ao meio sem muito esforço, tal como seus terríveis dentes
encavalados poderiam triturar ossos humanos como
adolescentes mastigam um chiclete. Era um misto de lobo,
monstro, morcego e humano, com uma altura estonteante que
me fez sentir como uma criança em um parque de diversões
olhando para uma colossal roda gigante. Meus olhos se atraíram
por uma runa em um brilho cerúleo-esverdeado, no formato de
um losango, bem ao centro de seu peito, rodeados de escritos
minúsculos que não fui capaz de discernir.
— Você... — meus lábios tremiam enquanto eu me
afastava em puro pavor. — Você é o monstro do meu primeiro
sonho... Você fez isso?!
— Muitas dúvidas em uma mente rápida, agora entendo
por que o mago te escolheu — sua voz parecia estar sendo
sobreposta por muitas outras, ainda mais graves e retumbantes.
— A resposta te confundiria de muitas formas, minha pequena
criança, portanto estou aqui apenas para lhe informar de
algumas coisas.
— Você é o Maltrapilho, não é? O homem que está atrás
de uma tal chave sei lá do que.
Um chiado veio de seu peito peludo, da qual entendi como uma
risada lupina, a julgar por uma contração terrível em sua boca
rachada.
— Essa resposta também seria muita informação para
você, mas... podemos dizer que sim.
— E... o que você quer?
— O que todos querem, Jessica Halley... salvação.
Suas últimas palavras ecoaram dramaticamente,
trazendo um arrepio sobre minha espinha que me fez enrijecer.
— Olhe bem para este homem — passo após outro, a
criatura se movimentou em meio às trevas, ainda não revelada
por completo, me permitido apenas acompanhar o brilho
supérfluo de seus olhos. — Ridículo, fraco e derrotado, por suas
próprias ambições. Essa é sua espécie, Halley, humanos, fracos,
asquerosos e podres por dentro. Se não fosse por forças
superiores, essa raça teria sido extinguida a muito tempo...
— Mas o que isso tem a ver comigo? — ousei
interromper.
A fera rugiu, chacoalhando meus órgãos internos, e
golpeou o chão, que se partiu em mil rachaduras e levou ao ar
81
respingos de lama. Minhas pernas fraquejaram e caí de joelhos,
incapaz de me mover.
— Sempre pensando em si mesmos, humanos egoístas! É
este o maior de todos os males. Ser mais forte, mais poderoso
sempre foram os dínamos que impulsionam essa escória que
domina a terra.
— Me desculpe... — trêmula, mal conseguia juntar as
palavras. — Eu só... estou assustada com tudo isso... por favor,
eu...
— Não terá motivos para temer se escolher o lado certo
dessa guerra, Jessica Halley — o homem de joelhos agora
reunira um pouco de suas forças, e pondo-se de pé, empunhava
a lâmina longa e violácea sobre uma das mãos.
— Ele ainda não desistiu... — murmurou a fera,
lambendo os lábios partidos com uma língua fina e bifurcada.
— Seus companheiros ainda precisam de você, Jessica. O
memório deve ser protegido a qualquer custo... e você precisa
estar lá. Agora... volte! — ao se virar, o azul reluzente dos olhos
do cavaleiro me acometeu em um clarão, sendo o último
vislumbre antes que uma voz interrompesse o som do combate
mortal.
— Jessica, ei! Acorde!
Abri os olhos. Estava deitada em um gramado mais seco,
mais verde, e menos frígido. Aquilo era Marylin novamente, e a
voz era Dipp, que me segurava em seus braços, fazendo-me
corar ao recobrar a conciência. Seu rosto fora ferido aqui e
acolá por alguns arranhões, assim como suas roupas estavam
rasgadas e cheias de terra.
— O que aconteceu? — perguntei, ainda desnorteada. —
Onde estão os...
— Eles nos alcançaram depois da bifurcação. Tentamos
lidar com eles no soco, mas eram muitos — o da bandana disse
melancolicamente, enquanto tratava de um ferimento na testa,
agora partida por filetes de um sangue cadente. — Eles foram
despistados quando deixamos as bicicletas para trás.
— Wallace! O que aconteceu com ele? — minhas
têmporas latejaram com o soar de minha voz.
Um silêncio me fez tremer os lábios em uma imediata
preocupação. Mas não poderia ser nada ruim, ele ficaria bem,
não é? Ele aparenta sempre ficar bem. Milhões de possibilidades
percorreram minha mente recém-desperta.
82
— Ele... — Ruffus tirou os óculos estilhaçados de seu
nariz, pôs dois dedos em um ponto específico da garganta do
punk já pálido e estático; e com os olhos forrados em lágrimas
completou. — Ele está sem pulso... O Wall, ele... morreu.
— NÃO! — o da bandana mancou até o amigo caído, e
então pude ver que sua perna fora ferida gravemente por uma
horrenda mordida. — Wall! Levanta, cara! Acorda!
Quando seus joelhos fraquejaram, desabou aos prantos ao lado
do cadáver, com um brado vindo do fundo de seu âmago na mais
pura dor e amargura. Pingos grossos e salgados caíram sobre
meu rosto, vindos dos lindos olhos amendoados de Dipp, que
sofria em silêncio.
Levei alguns segundos para assimilar tudo aquilo, o
mundo agora ficara mudo, somente ecoando minhas negações
ante a tragédia. Teria ele realmente morrido? Não... não poderia
ser. A penumbra gélida do desespero surgiu, preenchendo
nossos pulmões com o ar tóxico da culpa. Não consegui chorar
de imediato — creio que seja o choque pós-traumático — mas
zilhões de pensamentos iam e vinham como mosquitos em uma
lixeira. Dúvidas me dominavam, junto a uma melancólica
revolta.
Wallace nunca teria morrido se Terêncio mantivesse
seus assuntos para si, que em consequência, nunca ocorreria se
eu não tivesse ido à escola, nem me mudado. E nada disso
estaria acontecendo se meus pais ainda estivessem juntos —
meu coração encheu-se de um ódio corrosivo, que parecia
crescer em meio a imobilidade de meu corpo cansado e ferido,
como se uma chama me consumisse por dentro.
— Você não pode morrer, cara... — o garoto agora tirara
sua bandana, deixando os cabelos longos cobrirem seu rosto
mofino. — Você fez tudo pela gente... lutou pela banda quando
ninguém mais dava nada...
— Tontom... ele... — Dipp tentou interromper. Seu peito
tremendo ao soar afônico.
Seu irmão rosnou e franziu o cenho em plena cólera.
— Cale a boca! Ele não morreu, ele vai ficar bem!
Chamem uma ambulância, qualquer coisa!
83
— Não será necessário, Antony Cheng... — pude
reconhecer a rouquidão na voz de Terêncio por através dos
ombros de Ruffus.
— Você! — me ergui dolorosamente do colo de Dipp e
aos tropeços ergui um dedo trêmulo ao nariz comprido do mago.
— Você o matou! Nos colocou nisso sem termos escolha! Eu
vou... eu vou...
Desabei em lágrimas ao mesmo tempo em que me sentei
na grama, abatida. Já não tinha mais forças para culpar
ninguém, só queria chorar em algum canto em posição fetal.
Dipp me amparou em um abraço, e logo o mago retomou sua
fala após uma tosse seca.
— Chequem seus bolsos, preciso que me digam qual foi o
ponto que Nix deu a vocês.
— Isso não é hora pra joguinhos mágicos, mago filho
da...
— Tontom! Quieto! — O irmão mais velho o censurou
com um olhar firme. — Não adianta nada ficarmos aqui se existe
algo atrás dela. Quer que mais alguém seja... bom... — Tontom
pôs sua bandana novamente, balbuciando maldições.
— M-meu... bolso... ele... diz: Rua Mercedez número...
bom, hum, é... oito — Ruffus irrompeu, timidamente, e depois
baixou o queixo como quem pede desculpas por falar uma
asneira. Em suas mãos tinha um pequeno cartão de visita.
— Não temos tempo a perder. Estou ferido, mas posso
levá-los com um último feitiço antes que minhas forças naturais
se esgotem — o mago chacoalhou as mãos de seis dedos em um
selo arcano, e em instantes nos enredamos em mais um vórtex
encantado.
Pousamos delicadamente sobre uma sacada de madeira, cujos
degraus foram difíceis de subir com um integrante ferido e um
cadáver.
Com certa dificuldade li Biblioteca Municipal, em um
toldo verde escuro, em letras douradas. Os degraus davam
acesso à parte da frente, cuidadosamente planejada para trazer
um ar mais rústico ao local, cujo conforto me trazia um desejo
insaciável de deitar, dormir e esquecer os problemas ao tão
infame som do silêncio. As paredes eram, do lado externo, feitas
de pequenos tijolinhos, que vez ou outra comportavam um prego
e um pequeno pendente de luz amarelada. O escuro céu
84
ressaltava e nos atiçava ainda mais a entrar no local, do qual,
fomos todos de uma vez. Seria agradável a se passar uma tarde,
se não fossem pelas circunstâncias, o quão intocado aquele
lugar estava.
Mal consegui ver mais além disso, pois vez ou outra quase
derrubávamos o punk já pálido e frio, o que redirecionava minha
atenção em não deixar com que se esborrachasse mais uma vez.
O desespero tomava conta de mim, ao risco iminente de
qualquer um de nós perder a vida em um simples deslize, ato de
nobreza ou coisa parecida trazia uma inquietação mesmo nos
momentos mais simples e aparentemente inofensivos. Não sabia
eu, mas o medo constante do desconhecido perduraria por
muitos anos após aquilo.
Nossos sapatos ficaram em um pequeno armário de
madeira próximo à porta, revelando algumas meias furadas e
dedões de fora, outras decoradas inusitadamente com
coraçõezinhos e bichinhos. O chão laminado em madeira rangia
pouco aos nossos passos conforme seguíamos desengonçados
em direção à mesa da bibliotecária — uma mulher de expressão
firme, com cabelos negros presos em um rabo de cavalo e um
par de óculos fundos retangulares sobre um nariz arredondado
—, que simplesmente nos esgueirou por cima de uma pilha de
Atlas empoeirados e voltou a preencher uma papelada assim que
cruzamos sua mesa em direção aos fundos. Estaria ela
relacionada? Alguns jovens quebrados e um mago carregando
um morto com certeza não é uma cena a se ver todo dia,
entretanto, sua naturalidade me trouxe perguntas.
Passamos pela sessão de história natural como ninjas,
sem fazer um único ruído, até que finalmente uma confortável
sala que abrigava uma bancada de mármore se abriu à nossa
frente. A decoração lembrava os chalés noruegueses que meu
pai por várias vezes me levara, com quadros de paisagens do
mundo e pontos dos quais muitos homens apenas sonharam em
estar; sem contar as pequenas prateleiras, pratos e talheres
espalhados em mesinhas por todo o canto. Seria encantador em
um dia menos trágico. Algumas poucas pessoas se dispersavam
em cantos específicos do lugar, porém pareciam tão entretidas
em seus livros que nem um único olhar foi direcionado a nós —
me peguei perguntando se aquilo era mais um feitiço.
85
— É aqui — afirmou Terêncio, se inclinando sobre uma
das pontas da bancada e tocando uma mão fria sobre sua
superfície. — Tragam Wallace com cuidado, o caminho pode ser
estreito a se andar em muitos.
Fizemos como recomendou, segurando nosso falecido amigo
como em um funeral, mas sem as honrarias, e também
desengonçados.
Wallace não é alguém difícil de se carregar durante um tempo —
por ser baixinho até demais —, mas ao acrescentar o bônus de
que um de nós tinha uma perna ferida, isso se torna um desafio.
Uma luz roxa surgiu de onde o místico tocara, fazendo o
chão tremer e engrenagens rangerem de algum lugar, vindo de
todas as direções. O mármore se recolheu como um portão
automático, revelando uma escadaria que fora instantaneamente
alumiada por tochas que formavam uma fileira reluzente,
ascendendo-se por tabela magicamente.
Ouvimos um Demais! de Ruffus, seguido de um Ai, para com
isso! após Tontom lhe dar um soco no braço enquanto saltitava.
Descemos a escadaria seguindo o mago, que após uma
respiração ruidosa e um suspiro, tremelicou as orelhas e
ordenou: Esquerda.
O caminho era semelhante a um vitral, com desenhos e luzes
proeminentes de algum lugar abaixo de nossos pés, nos
instigando a seguir em frente no corredor que se estendia pelo
breu. As paredes se erguiam até onde nossos olhos podiam
acompanhar, totalmente preenchidas por prateleiras com livros
idênticos ao que vi na casa de tia Betty — medievais e com
ponteiras de ferro.
Instantaneamente, enormes prateleiras moveram-se,
fazendo um caminho na mesma direção ordenada, como se
fossem responsivas. O mármore se fechou assim que o último de
nós o atravessou, e o som de vozes dos leitores voltou, como se
antes estivessem paralisados.
— Não sei se aguento mais andar... — choramingou
Tontom.
Terêncio estalou os dedos, e instantaneamente uma
pequena nuvem de poeira verde rodeou o corpo do garoto, o
suspendendo delicadamente no chão, nos acompanhando sem
86
que precisasse andar. Estávamos tensos demais para ficar
boquiabertos, mas ele aparentava se divertir como uma criança.
— Onde estamos? — perguntei depois de pigarrear.
— Este é o Labirinto das Anáforas, sua burra — Nix
surgiu do nada atrás de nós, nos fazendo quase derrubar
Wallace em um susto coletivo.
— Minha filha... sinto muito pela demora, eu...
— Está tudo bem, pai — o tom da bruxa era mais brando
com ele, a fazendo até parecer outra pessoa. Sei que torci o
nariz ao ver sua falsa doçura. — O ataque foi inesperado para
nós, fiquei preocupada...
— O feitiço healus maximus consegue anestesiar os
efeitos do ferimento, mas meu corpo mortal não resistirá muito
mais tempo. Eu não tenho mais energia arcana para um
conjurar de cura.
— Mêrene está esperando no covil, ela sem sombra de
dúvidas saberá o que fazer.
O mago assentiu pigarreando secamente.
Não havia percebido até então, mas Terêncio estancava
com uma das mãos o enorme buraco onde a lâmina das trevas o
perfurara, e o sangue azulado escorria entre os dedos. Os
meninos se indagaram de como ele fizera para não desfalecer
até então, mas concluíram que, para um místico de prováveis
milhares de anos, aquilo era melzinho na chupeta.
— Temos mais um efeito colateral. O jovem Wallace foi
morto em um ato heroico — murmurou misteriosamente ele,
ainda nos guiando enquanto as paredes com milhares de livros
que se erguiam infindamente se abriam. Me questionei pelo fato
de apenas Tontom estar flutuando e nós sermos obrigados a
carregar o presunto Wallace.
Os dois magos tocaram logo abaixo do olho direito em
um ato reverente — como quando soldados batem continência —
e após isso, suas vozes voltaram ao tom apressado.
— Meu esforço para salvá-lo foi em vão? Titicas de
dragão! — Nix parecia pouquíssimo preocupada com o real
problema ali. Nossos olhares enfurecidos a fizeram corar
levemente em um tom azulado. — Mas... é claro que Mêrene
pode o trazer de volta.
— Podem reviver meu amigo? — uma fagulha de ânimo
trouxe a voz rasgada de Tontom ao eco. — Droga, tá doendo...
87
— Mêrene é uma magista que estudou por milênios as
conjuras de cura. E também guardiã do Labirinto. Com certeza
ela poderá trazê-lo de volta — o acalmou o mago, agora
passando os dedos pelas lombadas dos livros enquanto
andávamos.
— Magista? — Dipp pergunta.
— Feminino de mago.
— Achei que era “maga” — zombou Tontom na nuvem, o
que claramente não agradou Nix, a julgar por um olhar
ameaçador eu direcionou ao menino.
Ouvimos algumas palavras quase imperceptíveis de
quem segurava uma das pernas de Wallace: Ruffus.
— Mas como?! É impossível, segundo a medicina, reviver
alguém! Se... isso fosse verdade... esse conhecimento poderia
salvar muitas vidas!
Não tínhamos nos dado conta, mas essa fora a primeira vez que
ouvimos sua voz claramente e sem gaguejos.
— Entenda uma coisa, seu bolo fofo, as leis da magia não
são iguais às naturais — Nix fizera o loiro se encolher entre os
ombros, com a fronte totalmente rosa.
— Meu caro — Terêncio amenizou a tensão tocando nos
ombros contraídos do loiro. —, o conhecimento arcano é algo
fora da alçada humana. Os deixaria loucos ter uma pequena
fração de nosso poder.
— Mas então... magos não são humanos? — Tontom
agora esfregava sua perna ferida acima da calça rasgada. —
Sempre pensei que magos fossem pessoas que estudaram muito
e ficaram poderosas.
— Magos são seres superiores aos humanos, estrume de
Vorax. Temos características únicas e místicas que nos
permitem uma conexão poderosíssima com a natureza e as
origens dos poderes arcanos — a bruxa cruzou os braços e
respondeu, ranzinza. Seu orgulho por sua espécie também me
irritava.
— Por isso vocês têm seis dedos? — ousei perguntar,
tirando os cabelos espetados de Wallace do rosto.
— Também, espertinha — retrucou ela. — Mas nossas
mãos são autênticas para que o uso de selos seja facilitado.
Somos o apogeu da raça vivente.
— Ou seja, esquisitos de nascença — Tontom não
conseguir segurar a piada, o que involuntariamente arrancou
esboços de risos de alguns de nós, incluindo Terêncio.
88
Nix vez ou outra proferia uma ameaça a cada piada de
mal gosto que os garotos faziam.
Durante nossa conversa, por vários momentos, o mago
ordenara outras direções, como Esquerda, para trás, noroeste,
para frente! e as paredes do labirinto o obedeciam, como se
fossem moldadas conforme o que dizia. Continuamos assim pelo
que deduzi ser vinte minutos, embora tivesse minhas dúvidas a
respeito da métrica de tempo arcana. Pelo que ele nos disse, o
labirinto possuía um caminho específico, que, uma vez decorado,
levaria ao covil; seu único problema era possuir mais de
setecentos e sessenta e sete comandos até que finalmente
chegássemos.
Quando nossos olhos se acostumaram com o brilho tenro das
tochas nas paredes, um clarão surgiu após um ranger de
dobradiças, nos introduzindo a uma vasta sala, decorada
pitorescamente após uma porta de carvalho entalhada — cujos
desenhos retratavam toda a história da humanidade, desde um
Adão e uma Eva em ranhuras rústicas.
— Bem-vindos de volta, meus senhores! — disse uma voz
feminina estridente e melodiosa assim que pisamos o carpete
vinho.
A voz vinha de uma pequena e jovem bruxinha, dona de
cabelos bem arrumados, donos de um castanho escuro
decorados com mechas turquesa, que caiam em caracóis sobre
dois ombros desnudos vindos de um vestido preto que cobria
seus pés em dois laços de fita roxos. Seus enormes olhos
redondos e atentos fitaram-nos minusciosamente assim que
entramos, em um brilho arroxeado, semelhantes aos de Nix —
porém, sua pele não era pálida, e sim de um tom quase bronze,
pouco mais que Tontom. Os lábios carnudos e os cinco dedos
nas mãos me faziam perguntar se ela era humana. Tirando um
enorme chapéu com fivela da cabeça, pediu-nos para que
colocássemos Wallace sobre um divã vinho e dourado.
— Oh, céus, coitadinho... tão lindo e condenado a um
destino tão cruel... — disse ela, acariciando seu rosto gélido. —
A quanto tempo ele faleceu?
— Aproximadamente meia hora — respondeu Terêncio.
— Ainda está fresco, posso ouvir seus órgãos implorando
pela vida, embora sua alma esteja calada — ela afastou os
cabelos para trás, revelando orelhas pontudas, que correram
89
por todo o corpo do punk. — Graças ao Bom Criador, seu
espírito ainda permanece nesse menino, ainda é possível trazê-
lo de volta.
— O que vai fazer com meu amigo?!! — Tontom foi
impedido por um braço ornamentado em renda de Nix, o
censurando com olhos afiados.
A pequena bruxinha se apoiou sobre Wallace, e delicadamente
beijou seus lábios. Senti minhas orelhas queimarem por alguma
razão, aquilo era realmente estranho, até que...
90
Capítulo vi
Os oSSOS DO OFÍCIO de Mêrene
A
pergunta feita a princípio por Wallace a respeito de um
dia morrer sem nunca beijar na boca fora respondida da
maneira mais improvável possível. Ele realmente o fizera,
mas só depois de
bater as botas.
Quando o toque suave da garota fez a cor voltar ao rosto
do punk, que instantaneamente abriu os olhos azuis e saltou do
divã em desespero, estava perfeitamente vivo. Pela animação em
que se levantou, ninguém ousaria dizer que estava morto.
— Incrível... — balbuciou Ruffus, boquiaberto. Mas seus
ombros caíram no mesmo ritmo que seus olhos esguios. — Ah,
cara, por que nunca sou eu?
— Ela sempre tem que beijar os outros para que eles
revivam? Tipo, pensando assim, quantas pessoas ela já beijou?
— cochichou o irmão mais velho de Tontom para Nix.
— Não. Normalmente ela só põe as mãos sobre eles e
instantaneamente eles revivem. O feitiço exige apenas um
toque, mas pelo jeito ela achou seu amiguinho irritante atraente
— A bruxa respondeu revirando os olhos em um tom de
deboche.
— Eu estou no céu? — questionou um Wallace recém
acordado que recebia ainda carícias de uma bruxinha que o
admirava com olhinhos brilhantes.
Terêncio deixou escapar um riso, mas uma tosse o
acometeu, lembrando-o de seu ferimento.
— Acho que vou precisar de suas habilidades também,
Mêrene, mas sem o beijo, por favor.
— Nem em mil milênios, com todo respeito, meu senhor
— a garota pediu para que se sentasse, e nesse meio tempo, me
pus a admirar o local onde estava.
91
O teto da sala se erguia em um vitral em abóbada
semicircular rico em tantos desenhos, que o próprio
Michelangelo se sentiria tonto de olhá-los um por um. Uma luz
viva caía sobre a decoração excêntrica, que revelava uma
mistura de várias culturas, tendo crânios de animais em um
canto, lanternas de papel em outro, tapeçarias gigantescas com
brasões e várias poltronas ao lado de mais prateleiras com
livros. Se estávamos abaixo do solo, eu me perguntaria de onde
vinha a luz, mas depois de tudo o que aconteceu naquele dia,
qualquer dúvida seria ousada demais, ou provavelmente
respondida com um levantar de ombros e um: Ah, é mágica.
Um punhado de minutos depois, estavam todos novos em folha,
contando para Wallace tudo o que viram até ali e como ele havia
me salvado de cair em um precipício — mas é claro que
aumentaram seu heroísmo em mil vezes, o que atiçou ainda
mais a admiração de Mêrene por ele.
— Mas... por que trouxeram todos eles para cá? Pensei
que os humanos não fossem permitidos no labirinto depois que
aquele...
— Não tivemos escolha, Mêrene, Maltrapilho retomou o
controle dos Grígoras, e agora a superfície já não é mais um
lugar tão seguro para eles — Terêncio tinha um tom firme,
porém cauteloso.
— Grígoras?! — a bruxinha faltou explodir em terror, seu
rosto azulou imediatamente ao ouvir aquele nome.
— O que são gigas? — Wallace interrompe, após pegar
um turbante de algum lugar e pôr na cabeça, ficando
instantaneamente invisível.
— Grígoras, seu moleque idiota, e guarde isso! — Nix
estapeou a nuca do punk, como se o vesse o tempo todo.
Wallace pôs o turbante no lugar.
— Os Grígoras são... almas perdidas... — a atmosfera se
tornou sombria enquanto Mêrene nos explicava, e uma fumaça
preencheu a sala, formando figuras que logo reconhecemos
como pessoas. — Soldados, assassinos, bandidos, todos mortos
no ato, ainda inconformados por seu rapto prematuro, buscam
vingança na forma de sombras.
— Foi por isso que não os reconheci... eles não são
criaturas — afirmei, esfregando o queixo.
92
As figuras na fumaça se tornaram um cenário de guerra
abstrato, onde flechas eram lançadas, canhões disparavam e
gritos eram ouvidos. Meu peito parecia estar congelando, e o
colar que até então eu carregava, me incomodara.
— Maltrapilho conseguiu uma das quatro armas
primordiais, o que significa que está um passo mais próximo de
alcançar seu objetivo... — o tom solene de Mêrene nos trazia
mais aflição que alívio.
— E quem é esse Maltrapilho? O que ele quer? Por que
está atrás de mim? — questionei.
O mesmo homem do meu sonho surgiu em meio à
guerra, dividindo carruagens e batalhões ao meio com sua
lâmina longa e poderosa. Dessa vez pude ver seu rosto.
Era esbelto, com uma beleza cansada por inúmeras batalhas, o
que lhe trazia uma experiência atraente no maxilar bem definido
junto ao nariz angulado e belíssimos olhos azuis. A cota de
malha revelava golpes sofridos em doloridas feridas abertas, que
pareciam não desfalcar sua determinação.
— Maltrapilho, ou “herói Maltrapilho”, como era
chamado antes de ser morto, era um poderoso cavaleiro que
pertencia à guarda de Terêncio, sendo seu campeão.
As imagens na fumaça seguiam conforme sua narrativa se
desenrolava, como se aquilo fosse um enorme teatro sombrio
contado pela bruxinha. Sentimos em nossos pés uma brisa que
provinha das frestas nas pedras enormes que decoravam as
paredes.
— Campeão? — perguntou Dipp.
— Eu acho que sei como isso funciona — interpôs
Wallace. — Magos por muitas vezes escolhem guerreiros muito
tops das galáxias pra ser meio que pupilo deles, não é?
— Tens razão, jovem Silver — Terêncio libertou um
sorriso desbotado. — Valente, que era seu nome real, foi o único
guerreiro da qual eu tive o prazer de condecorar. Mas... a
ganância por poder e seu egoísmo o levaram à ruína.
— E isso te afeta, Jessica, pois você tem algo que ele
quer — Nix complementa.
— A chave de redenção — os olhos do mago pareciam
sérios.
— E o que é essa chave? — perguntei.
93
Mêrene veio em minha direção um tanto quanto ouriçada, como
quem teme as consequências de cada passo que der, e puxou
meu colar do interior da blusa cáqui em um movimento tão
rápido que mal pude enxergar.
— Isso — disse ela — é a chave de redenção.
Por alguns minutos observei o objeto atado a meu
pescoço. Parecia nada além de uma simples bijuteria a primeiro
momento. Mas quando atentamente analisado, era possível
contemplar minúsculas runas em seu perímetro, que nunca,
caso não me tivessem dito, eu notaria. Seu cordão de ouro
descia até uma pequena pedrinha de uma cor rosada, que
cintilava em um brilho arco-íris sempre que inclinava para ver
melhor.
— Mas porque ele precisa disso? O que um simples colar
pode fazer? — minha cabeça girava em dúvida, o ar pesado me
fazia delirar pouco.
— A chave de redenção, como o nome sugere, abre algo.
E não somente uma porta comum, e sim, a tumba onde está a...
— Foreshadow — Terêncio completa, estalando os
lábios.
— O que é Forisérgio? — Wallace encontrara alguns
biscoitos, dessa vez, apenas biscoitos.
— Foreshadow — Nix o poda, limpando a garganta
arrogantemente. — É uma das armas primordiais. Uma espada
longa tão poderosa que pode destruir qualquer criatura viva por
um simples contato de sua lâmina.
— Maltrapilho carregava com ele quatro itens muito
importantes, e cremos que de alguma maneira ele retornou, mas
não vivo. E se conseguir reunir os quatro, não mais teremos o
que fazer para detê-lo — Mêrene se sentou, e toda a poeira se
afastou ao seu comando.
— Então precisamos reunir as três restantes antes que
esse maluco consiga completar o plano? — Wallace questiona.
Minha visão turvou, me fazendo enxergar mais dois pares de
cada um dos presentes em uma súbita tontura e enjoo.
— Muito bem, jovem Silver — o punk encheu o peito em
orgulho, ostentando aos outros, que apenas reviraram os olhos.
— Mas para isso, precisamos de vocês, pois... Jessica! O que
está...
94
Cambaleei para trás, espatifando um pequeno vaso que
estava atrás de mim em uma mesinha de pernas prateadas, o
que libertou pequenas poeirinhas brilhantes que se misturavam
na espiral em que minha vista se encontrava.
— Jessica! — ouvi alguém gritar, antes de ceder à queda.
CAPÍTULO vii
A guarda pessoal de Jessica Halley
M
eu peso caiu sobre os braços de alguém, que
nem mesmo após alguns segundos consegui
reconhecer. Os sons sumiram, o cheiro de
95
poeira e componentes mágicos permanecera em meu nariz —
aquele cheiro ácido e tóxico que a magia tem, não sei explicar.
Meus pensamentos voaram por cortes aleatórios de partes de
minha vida, e logo em seguida revelaram minhas inseguranças
quanto a meu futuro, como se meu subconsciente amasse
resumir meus últimos problemas.
Abri os olhos. Estava em meu quarto.
— Jess, querida, levante! Seu tio já está te esperando lá
embaixo, não se atrase ou ele vai comer todas as suas torradas!
— o som das cortinas se abrindo só não era tão irritante quanto
os raios de sol aos meus olhos e a voz álacre de tia Betty.
— Onde estão os meninos... e Terêncio, e o labirinto?! —
apalpei minha fronte, caçando pelo hematoma, mas nada senti.
Ela se sentou ao meu lado. Pude sentir o cheiro de
framboesa em seu avental quando me abraçou e acariciou meus
cabelos, perguntando se estava bem. Por um momento senti
como se estivesse livre de toda a pressão do provável dia
anterior — se é que ele existiu.
— Foi só um sonho... é isso... — respirei fundo, muito
aliviada, tirando uma das mechas ruivas ensopadas dos olhos. —
Acho que minha imaginação fértil anda me pregando peças
demais, tia.
— Isso, de certa forma, é bom, meu bem — pôs suas
mãos sobre as minhas e sorriu gentilmente, o que me trouxe
mais uma vez o conforto de um lugar para chamar de lar. —
Nossa imaginação é a arma mais poderosa que temos, e se
souber usá-la, pode fazer o que ninguém poderia imaginar que
fizesse, sabia?
Aquela frase me lembrou, por alguma razão, do livro flutuante,
mas não julguei ser importante.
O calor do alívio acometeu meu peito, me enredando na
sensação de tranquilidade que todo aquele ambiente me
proporcionava. Minhas prateleiras, meu guarda-roupas, a cama
quentinha, aquilo era muito melhor do que covis sujos e
empoeirados. Teria eu dormido por todo o tempo até ali desde
quando cheguei em casa? Tudo parecia estar da exata maneira
que me foi apresentado. Seria enfim hoje, meu primeiro dia? —
dessa vez, de verdade.
96
— Quase me esqueci de avisar — minha tia estapeou de
leve a testa. — Harald teve algum problema com o carro, e por
isso não vai poder te levar hoje, querida. Mas por sorte você
está a tempo de pegar o ônibus que passa por aqui.
— Problemas com o carro?
— Pois é — ela deu de ombros inclinando a cabeça. —
Por mais extraordinário que pareça, uma das janelas foi atingida
por uma pá. Provavelmente é Smith quem se meteu mais uma
vez em brigas com o filho do Reverendo. Esses dois... Parecem
duas crianças.
Meus olhos se voltaram para fora, onde instantes depois
chequei ao me levantar para ver se a velha e mórbida casa do
velho Smith ainda estava lá. E para minha surpresa, as marcas
de pedras na cerca e as madeiras arremessadas pelos garotos
permaneciam intactas, tal como cacos de vidro espalhados pelo
quintal e uma velha pá vermelha.
Velho Smith, pouco antes de chegar ao ápice de sua fúria,
arremessou novamente o objeto de escavação em uma tentativa
falha de decepar a cabeça do punk, ou algo que fosse tão ruim
quanto. Wallace esquivou sem muita dificuldade, mas, a pá
atingiu em cheio o vidro esquerdo no lado do motorista na
Doblô, criando rachaduras por toda sua extensão. Foi só aí que
tio Harald interveio, e separou a briga entre os meninos e o
idoso.
Estive do outro lado do carro, portanto pensei que a pá não o
tinha feito tanto estrago. Mas lá estava ela, pomposa e estirada
em nosso gramado. Era estranho tentar ligar os pontos sabendo
que todos, menos eu, estavam acometidos por um selo arcano de
esquecimento.
— Não pode ser verdade... — solucei, ainda apoiada no
parapeito da janela.
— Acalme-se, meu amor, o transporte daqui não é tão
ruim assim. Você pode fazer novos amigos, não é? — mal sabia
ela que o transporte público era o menor de meus problemas.
Maltrapilho realmente queria minha cabeça à prêmio, e
buscava a todo custo itens específicos — entre eles o colar que
meu pai havia me dado quando deu no pé para a Irlanda com
uma loirona de um e oitenta; resumindo: nada fazia sentido. Se
aquele labirinto dava acesso aos covis dos maiores magos ainda
97
vivos, como disse Nix, porque eles não poderiam ajudar e sim
eu, uma jovem e linda garota que mal sabe segurar um secador
sem levar um choque?
Quando se despediu de mim com um beijo aéreo e seguiu pelas
escadas, tia Betty aparentava segurar a dúvida sobre meu
estranhamento repentino sobre tudo e todos. Mas afinal, como
explicar à sua tia que um mago invadiu seu quarto e te levou
para uma aventura psicodélica com uma banda de punks
aleatória para salvar seu próprio pescoço? — definitivamente
enlouqueci.
Alguns feixes de luz transpassavam a janela ao fundo do
corredor através de uma samambaia sonolenta acima de um
armarinho envernizado, seguindo por todo o corredor vazio onde
meus pés descalços arrastaram. A porta da qual o livro mágico
estava fora muito bem trancada — aparentemente meus tios
foram obrigados a adotar as medidas, como minha mãe
carinhosamente chamava, “anti-Jess”.
— Chegou a tempo de pegar alguns bolinhos, cabeça de
abóbora, se passassem mais cinco minutos...
— Largue de ser esfomeado, homem, não é à toa que
está com esse barrigão!
— Em minha defesa, Betty, eu gosto tanto do meu
abdômen a ponto de o proteger a todo custo.
Esbocei um sorriso ao me juntar a eles, num alternar entre
devorar bolinhos com geleia e me questionar sobre a vida,
verdade e universo.
— Mafalda me disse hoje cedo que o mercadinho da
esquina fora assaltado de novo, Harald, acredita? — minha tia se
sentou conosco, servindo-se delicadamente com chá.
— Mais uma vez? Donald não tinha dobrado a vigilância
pelas câmeras?
— Bom, sabe como aquela velha supersticiosa é. De
acordo com ela todas as moedas de um real sumiram, mas as
notas de cem e cinquenta permaneceram intocadas. Daqui um
tempo ela vai começar a exigir um mandado de busca para
espíritos zombeteiros — bufou e desamarrou o avental,
pendurando-o ao braço da cadeira ao lado.
— Com certeza ela já passou do prazo de validade na
gerência daquela loja. Mas seja lá quem foi o ladrão, tem um
gosto um tanto estranho — tio Harald levou à boca um café
98
quentíssimo, o que lhe rendeu um estremecer quando queimou
os lábios.
Estranho. Era irônico destacar algo tão banal perto do
que eu havia vivido anteriormente.
Me arrumei em alguns poucos minutos — um pouco mais
sóbria que no dia anterior. Tênis escuros e sem estampas, uma
camiseta de cor marrom escuro, calças sob medida e cabelos
presos. Não seria animador ser novamente o centro das
atenções.
Lá fora, o dia esbanjava já um ar garrido e verdejante
como as gramas dos quintais vizinhos, com suas caixas de
correio enfileiradas enquanto carros de todos os formatos saíam
de suas garagens para o começo de mais um expediente. Mais
um dia se iniciava em Marilyn. Nuvens brancas em um céu
pouco azul e melancólico — ou talvez fosse meu humor que
deixasse tudo mais feio. O vento gélido e algumas poças d’água
revelavam que uma chuva moderada caíra durante a noite,
embora eu não houvesse ouvido um único pingo.
O ônibus chegou por volta de seis e quarenta, freando
tão bruscamente a ponto de arrastar um único garoto, aos
tropeços, de nariz ao para-brisa: Wallace.
— Jess! — disse ele animado quando as portas se
abriram, esfregando a cara.
— Vai pro seu lugar, rápido! Não quero que me vejam
com você — balbuciei com os dentes cerrados.
O punk fez uma careta emburrada, mas logo agitou as calças
rasgadas e seguiu novamente para seu lugar, me revelando a
figura nada agradável do motorista, cujo nome também estava
expresso em uma pequena plaqueta. Por um momento temi que
ele fosse um elfo disfarçado ou um duende fantasma; mas
aparentemente ele era apenas o Sr. Freitas, um homem
corcunda, de nariz repleto de buracos, cuja expressão cansada
me fazia querer bocejar vendo meu próprio reflexo em sua testa
oleosa e reluzente, que ficava visível entre tufos laterais de um
cabelo cinza e emaranhado.
Ele me pediu para ir logo em uma voz anasalada e rouca, e eu o
fiz, enquanto acenava para tia Betty, que me inspecionava da
porta de casa.
99
Não sei se apenas eu tenho esse problema, mas entrar
em um ônibus lotado é tão constrangedor quanto dançar hula na
frente de um padre. As pernas tremem, a respiração fica mais
acelerada, as mãos suam. As risadinhas e comentários parecem
ser todos maldosos e direcionados à sua aparência estranha,
sem contar as dúzias de olhares que me faziam queimar cada
centímetro do rosto.
— Se esborrachou legal ali, hein, Wall? — Tontom,
apoiado em um dos bancos com os braços sobre um rapaz
adormecido, zombava do amigo.
— Eu tropecei sem querer, seu otário! — vociferou o
punk em resposta.
— Sentem-se todos em seus lugares, ou chuto seus
traseiros e obrigo vocês irem a pé! — O berro de Sr. Freitas
sobrepôs todas as vozes e murmúrios, deixando um silêncio
sepulcral que permaneceu por todo o caminho.
Quando finalmente chegamos, alguns minutos depois, os
meninos me cercaram e passaram a andar em minha volta, como
se eu fosse uma sardinha enlatada.
Além de chamar muita atenção, era extremamente
desconfortável, se formos considerar que três deles estavam
passando pela puberdade e claramente não conheciam a
definição de “desodorante”.
— Ei, esperem! Saiam de cima de mim! — gritei mais
alto do que gostaria, pois, além de os afastar, as pessoas em
volta nos encararam. — Me digam uma coisa, tudo o que
aconteceu ontem foi real?
— O ogro gigante? — perguntou Wall.
— Ou os cães raivosos que fizeram Wall morrer? —
complementou Tontom.
— Ou o esconderijo com aquela bruxinha linda pacas? —
Ruffus corou ao lembrar.
— Sim, Jess, foi tudo verdade, aparentemente — Dipp
inclinou a cabeça, com um sorriso lamentoso.
Não pude evitar baforar em decepção e desânimo.
— Isso tudo está ficando pior a cada minuto — pontuei.
— Eu deveria atirar esse colar para longe e deixar os magos que
se virem!
100
— Jess, calma! — adiantou Dipp. — Terêncio nos
explicou algumas coisas, e uma delas foi que, se Maltrapilho
encontrar as armas primordiais, não vão ser só os magos que
pagam o pato.
— Como assim?
— Meio que todo mundo vai morrer se esse cara
conseguir o que quer — Wallace acrescenta, tirando meleca do
nariz com o dedinho. — Ele é pirado das ideias, e simplesmente
quer extinguir a raça humana.
— Mas... por quê?! — questionei, já em um misto de
indignação e aflição. — Nos apresentaram todo esse problema e
agora nós temos que simplesmente aceitar, dar as mãos e correr
enfrentar um maluco que pode estar em qualquer lugar? Mas...
espere...
O sonho que tive... é isso! O discurso da criatura horrenda sobre
a natureza humana e o quanto ela é inferior; se sim, minhas
suspeitas seriam confirmadas, aquele era realmente
Maltrapilho. Mas como um cavaleiro se tornaria algo tão
asqueroso e assustador daquele jeito?
Quando se tem dúvidas em um mundo mágico tão
intrigante e confuso quanto o meu, a prática de guardar suas
dúvidas na esperança de serem explicadas depois, se torna
frequente. Já começara a me acostumar com a ausência de
sentido em cada pequeno acontecimento, e o medo crescente
vinha se expandindo em meu peito trazendo uma sensação de
urgência, junto de uma voz suave em minha conciência que vez
ou outra sussurrava: Não há para onde correr.
— Alô? — cantarolou Wallace. — Terra chamando
Ferrugem?
Afastei os pensamentos como moscas quando esfreguei os olhos
e chacoalhei a cabeça.
— São muitas informações... Precisamos saber
exatamente o que fazer, se não seremos apenas cinco
adolescentes comuns contra uma criatura maligna milenar — eu
disse.
— Criatura?
O sino que reunia todos os adolescentes esquisitos no
pátio retiniu em um som agudo e constante, nos fazendo
dispersar e deixar o assunto inacabado. Certamente aquilo seria
101
o início de muitos problemas. Os meninos mencionaram algo a
respeito de se encontrar novamente na biblioteca, o que me
trouxe uma mistura de preguiça e receio ao lembrar que o
desmaio provavelmente ocorreria de novo.
Assim como as folhas correram pelas janelas com um
vento que começara a rodear as árvores no pátio, assim correu o
tempo enquanto estive em aula. Equações de segundo grau com
certeza são mais agradáveis do que enfrentar um tigre-dragão
tentando te devorar viva. O professor Cheng era gentil, porém
seu sotaque nos fazia questionar o sentido de algumas palavras
e seu significado — mas no geral, era um ótimo professor. Olhos
esguios e puxados, um cabelo cuidadosamente penteado para
trás por cima de duas entradas que começavam a dar as caras.
Vestia uma camisa branca que era decorada apenas por uma
única e fina gravata vermelha, acima de calças de cor azul
marinho pouco maiores que seu número, a ponto de revelar
apenas as pontas de sapatos muito bem polidos.
— Com licença, pai — saltei da cadeira ao ver Dipp com
metade do tronco para dentro da sala. — A professora Hillpkins
pediu pra que eu buscasse alguns livros, se importa?
— Já falei você não chamar eu de pai na escola, Dippu —
respondeu o professor movendo decididamente a cadeira. —
Temos livros aqui, veja qual precisa.
Guiou o filho até uma pequena prateleira metálica ao canto da
sala.
Pai? Como assim “Pai”?! Dipp era filho de... Não é
possível. Como alguém como o senhor Cheng deu a luz à uma
beldade como ele?
Todas as outras garotas suspiravam a cada passo que ele dava,
me fazendo sentir uma queimação nas maçãs do rosto enquanto
alguns assovios maliciosos e beijinhos aéreos o assediavam.
— Lindo! — dizia uma delas, tremendo em histeria ao
perceber que todos ouviram.
— Gatão! — complementava outra.
— Foi mal, meninas, mas eu sou comprometido — Dipp
ergueu a mão direita de forma que todos puderam ver uma
reluzente aliança prateada, da qual apenas eu pude ver uma
inicial T, por causa da distância que estava dele. — Ah, e aí,
Jess!
102
Senti uma dúzia de olhares me fuzilando pelas costas. Agora
definitivamente todas as meninas da sala me odiavam. Obrigada,
Dipp Cheng.
Os meninos me esperavam depois da aula logo no portão
de entrada, todos olhando atentamente aos lados — como se sua
proteção fosse muito forte mesmo —, o que me deixava
levemente desconfortável se fôssemos lembrar que, além de
Antonieta Stone, eu tinha agora um exército de fãs platônicas de
Dipp na minha cola.
Acho que perceberam meu descontentamento, pois não
tentaram puxar assunto quando cruzamos o espaço onde todos
os ônibus estavam estacionados até que chegássemos próximo a
um terreno baldio, onde formularíamos a rota da qual
seguiríamos. Após cada um deles deixar sua mochila em um
canto onde não havia barro, para checar nos papeizinhos antes
deixados nos bolsos, ouvimos um som. Um ruído vindo de
alguma coisa pequena, peluda e que constantemente sumia.
Ouvimos um PUÁ!
Vi poucas pessoas na vida derrubarem cercas com a
cabeça, e esperava não ver tão cedo. Mas Wallace se desesperou
tanto em capturar o Spectrobominus surpresa, que, em uma
esquiva do bichinho, foi de encontro à cerca de madeira velha e
caindo aos pedaços que separava o terreno de uma casa
geminada, levando-a ao chão com uma cabeçada violenta.
Após darmos graças ao ver que ninguém além de nós
vira aquilo — depois de rir um pouquinho, é claro —,
dispersamo-nos em um círculo em torno da criatura, onde, um
por vez, tentamos pegá-lo. Mas uma das desvantagens de se
capturar um monstrinho mágico da neve é o fato de eles
sumirem e aparecerem tão rápido quanto os olhos podem ver,
nos fazendo frequentemente chocar uns contra os outros com as
cabeças. Após Ruffus quase segurá-lo com uma mochila, o
Spectrobominus picou-se para dentro de um matagal ao fundo
do terreno, que dava acesso ao outro lado da rua.
— É impossível pegar esse diabinho! — Tontom bradou,
revoltado.
— Vamos nos dividir — sugeriu Wallace, esfregando um
galo na cabeça. — Eu e Jessica vamos tentar pegar ele do outro
lado do terreno, e vocês fiquem aqui para caso voltar!
103
Ninguém ousou questionar. Corri junto a Wallace
tentando contornar a rua, desviando de caixas de correio,
extintores e postes de luz — sem contar um idoso ou outro que
nos xingava quando trombávamos com eles, dizendo que em sua
época as crianças tinham mais respeito.
Encontramos a outra saída do terreno baldio, onde o floquinho
branco com pernas espreitava sobre um arbusto, provavelmente
procurando por nós. Zap! A criaturinha se debatia nos braços de
Wallace, porém o punk não cederia tão cedo.
— Fique bem paradinho, marshmallow do mau! — o alvo
o pôs em sua mochila; que até então eu não havia percebido que
trouxera.
O Spectrobominus socava, chutava e mordia a mochila, mas
parecia totalmente inútil, por alguma razão. Senti uma leve
tontura junto à uma memória que vagamente surgia em minha
mente como um incenso que levemente chega às narinas. Eles
não podiam se teletransportar onde não houvesse luz.
— É esse bicho que fez com que eu fosse parar na
detenção com você — eu disse, esfregando as têmporas.
— Bom, eu acho que tô ficando doido que nem você,
Jess, mas... Ai!
Um pé roliço e calçado de um tênis verde-água plataforma
atingiu o traseiro de Wallace, o arremessando a um arbusto
seco. Vinha de um garoto baixinho, corpulento, e olhos aguados
e dentes tortos provenientes de uma boca de lábios finos onde
um sorriso malicioso era estampado.
— Dois pontos! — gargalhou ele, arrumando seu
moicano enquanto um outro, bem maior com cara de debiloide,
surgia.
— Um ponto e meio, eu acho... ou... quanto é dois mais
dois? — pergunta o grande.
— Richard, Bill! Parem com essa babaquice! — uma voz
azeda, porém mais grave, soou por trás dos dois garotos,
revelando um terceiro; que logo desejei nunca ter visto.
O rosto ossudo colaborava com suas expressões doentias
enquanto um sorriso torto ornamentado por um aparelho sujo e
amarelado era evidente entre lábios partidos. Um de seus
braços longos e finos era destaque, envolvido em uma tipoia
104
pendente sobre um uniforme amarelo e roxo dos Lakers. Era
muito, mas muito feio.
— Pensou que o troco não viria, Wall? — disse ele. — Eu
disse que ninguém sai impune depois de mexer comigo.
— Não consegue se vingar sem convocar suas mocinhas,
Cole? — Wallace debochou, ainda se levantando e limpando as
roupas, caçando a mochila com a criatura com os olhos.
Para nossa infelicidade, estava logo adiante dos meninos.
A expressão horripilantemente sorridente de Cole se
dissolveu em ódio ante o comentário de Wallace, contraindo seu
rosto amassado como em um X.
— Meninos, se divirtam por mim. E façam questão de
humilhá-lo na frente da namoradinha — sorriu malignamente.
— Isso não é divertido! — berrou Wallace.
— Eu não sou namorada dele! — berrei também.
Ao menos não seria eu quem levaria uma surra, mas
ainda sim não seria legal ver Wallace sendo destroçado pelos
garotos, cujos braços eram grandes e robustos como se fossem
dois aríetes, prontinhos para fazer com que o punk se
arrependesse de seja lá o que ele tivesse feito. Aquilo era
injusto — dois contra um —, mas o alvo não parecia se importar,
pois cerrou os punhos e encarou os dois, que seguiam rindo e
roncando como porcos.
Porém, nossa sorte mudou quando algo sólido atingiu a
nuca de Bill, o maior; um tronco, vindo de Dipp, que quase caiu
pelo peso de ambos. Wallace socou o rosto de Richard, o
moicano, que se imbramou em suas pernas rechonchudas e caiu
de maduro em uma enorme poça de lama.
Por trás dos ombros de Cole, vi uma pequena massa com uma
camiseta com o logo Star Wars raptar a mochila de Wallace com
o Spectrobominus; era Ruffus, que me fez duvidar de seu
condicionamento físico depois disso.
— Seu maldito! — Tontom salta sobre uma lata velha de
tinta posta pouco atrás deles, ganhando altura o suficiente para
disferir uma boa bofetada na cabeça do que estava com uma
tipoia. — Não se atreva a encostar suas mãos imundas no meu
amigo!
105
Logo, a confusão cessara quando Tontom imobilizou
Cole de joelhos enquanto Dipp arrastava um Bill inconsciente
até o meio do matagal — sem as calças e com algo obsceno
desenhado na testa.
Foi então que, pela primeira vez, me dei conta de que Wallace
não era apenas um garoto burro e inocente.
O rosto de Richard mais se assemelhava a uma ameixa
quando diversas pancadas o atingiam dos punhos de um punk
em fúria, montado sobre ele. Tive uma leve impressão de que
Wallace queria, de fato, matá-lo.
— Entenda uma coisa — pela primeira vez, a voz do alvo
era mais tênue e grave. — Vocês nunca vão me pegar, tá me
ouvindo?! NUNCA!
Mais alguns socos chegaram ao rosto do moicano, que agora
repousava sobre uma poça de sangue até que os outros
Cabeças-ocas tirassem Wallace de cima dele. Cole o observava,
tremendo dos pés à cabeça enquanto Tontom segurava seu
braço bom nas costas.
Wallace arfou lentamente até seu adversário, que em
pânico agitava as pernas inutilmente. O raio que cortava as
roupas do punk fora salpicado pelo líquido vermelho da dor, tal
como seu rosto e seus punhos foram igualmente marcados por
tal atrocidade. Andava agora como um predador, marchando
rumo à sentenciar sua presa.
— Pode me bater agora, seu idiota, mas nunca vai ser
como eu! Meu pai vai demitir seu...
Cole não pode terminar sua frase. Afinal, precisaria de sua boca
para isso, e a bota de Wallace impediu que isso acontecesse
quando o nocauteou bem ao queixo.
— Vamos embora, Wall, Terêncio deve estar se
perguntando o porquê de termos atrasado — Dipp acaricia o
ombro do amigo, igualmente ofegante.
Levantei da grama molhada. Havia ficado paralisada
ante a tanta ação inesperada, o que me rendeu manchas
enormes de barro no traseiro e nos cotovelos. Mas isso pouco
importava agora.
Seguimos rua acima rumo à biblioteca, torcendo para não
encontrar nenhum outro contratempo — o que, Graças ao bom
106
Deus, não aconteceu. O Spectrobominus pareceu aquietar na
metade do caminho, mas mesmo assim Ruffus frequentemente
conferia se ainda estava lá. Me dei conta de que não estava
realmente indefesa na companhia dos Cabeças-Ocas.
Capítulo viii
a carruagem e o banheiro químico
T
erêncio não pareceu surpreso com a situação dos garotos
ao chegarmos na biblioteca. Estava muito diferente do
habitual, usando um terno azul claro reluzente, da qual
sua barba, já muito bem arrumada em cachos simétricos, lhe
fazia parecer um idoso qualquer — porém muito bem-vestido.
Suas orelhas pontudas eram pouco evidentes sobre os cabelos
laterais compridos.
— Um Spectrobominus, eu vejo — disse ele esfregando o
queixo com seus dedos compridos.
— Estamos aqui, como pediu, e trouxemos essa... coisa,
junto — Wallace o interrompe, impaciente.
107
O mago estalou os dedos. Uma poeira verde fez a mochila do
punk, contendo a criatura, desaparecerem — o que ele
aparentemente não deu a mínima.
— Muito bem, jovem Silver. Mêrene está esperando por
vocês. Seremos céleres — o mago agitou as abas do terno e
seguiu caminhado rapidamente pelos corredores.
O punk esboçou um sorriso, mas ainda sim permaneceu
emburrado. Seguimos o mago enquanto o olhar dissecador da
bibliotecária nos espreitava entre dois enormes exemplares de
Guerra e Paz.
Vinte minutos se passaram depressa no labirinto, me
fazendo lembrar em um devaneio corriqueiro que não avisei
meus tios sobre chegar mais tarde em casa, o que me renderia
um extenso interrogatório quando chegasse.
— Onde o monstro de ontem e esse de hoje foram? Vocês
têm algum tipo de jaula especial para criaturas esquisitas? — a
pergunta de Dipp não foi respondida quando as enormes portas
do covil se abriram, revelando uma Mêrene que correu aos
braços de Wallace, o apertando por alguns minutos.
— Até que enfim chegaram — Nix estava deitada
despojadamente sobre o divã, arremessando uma maçã para
cima, desmaterializando-a e a reconstruindo com magia. —
Consegui a localização do Nimbus, está em Fort Colorado, do
outro lado do país.
A respiração ruidosa do mago atravessou o lugar junto
ao som das botas trotando pelo tapete repleto de mosaicos ao
chão. Esteve pensativo durante todo o trajeto, mas agora sua
voz viria a ter espaço.
— Temo que não possa ir — disse ele —Maltrapilho
facilmente me encontraria enviando alguns Grígoras, assim
como fez ontem.
— E o que isso significa? — Tontom questiona.
— Significa que nenhum de nós três, meu pai, Mêrene e
eu podemos ir até a superfície — Nix responde, pondo-se de pé,
emburrada.
— Bom, se estiverem seguros aqui... — Wallace tenta
interpor, mas Mêrene posiciona um dedo indicador em seus
lábios.
— Não, meu querido — suavemente ela diz. — Se
permanecermos aqui, Maltrapilho vai encontrar as armas
primordiais e todos estaremos fadados.
108
— Deixe-me adivinhar — eu disse um pouco
enfadada. — Nós vamos ter que ir atrás desses artefatos
mágicos, acertei?
— Criança, eu...
— Não precisa tentar justificar, Terêncio. Já
entendi que magos são arrogantes o suficiente para
meterem mortais simples e indefesos em seus problemas
simplesmente porque não conseguem lidar com eles
sozinhos!
— Sua garota imunda! Como ousa falar assim
com meu pai?! — Nix fez acender pequenas brasas nas
mãos.
— Eu não tenho medo de você! — vociferei. —
Vai fazer o que, me partir na metade também?!
A expressão da bruxa se dissolveu em instantes, em um
semblante melancólico e indignado.
— Parem, vocês duas! — a voz rouca de Terêncio gerou
um eco por alguns segundos. —Você tem razão, Jessica Halley,
isso realmente pode ser muito para uma mente tão resumida
quanto a sua. Mas saiba que você está mais envolvida nisso
quanto qualquer um de nós.
— Como, e por quê? — disse um pouco mais alto.
— Não cabe a mim dizer agora. Por hora, precisamos
encontrar Nimbus antes de Maltrapilho. Mas para isso, preciso
que aceite de bom grado a missão da qual estou humildemente
lhe pedindo.
Vi os olhos do mago piscarem levemente em um tom esverdeado
antes que os outros começassem a me dizer:
— Jess, talvez seja melhor fazer o que ele diz, não temos
muitas opções — Dipp.
— Fazer o que, né? O velhote pode ter razão — Wallace.
— Bom... — meus olhos fitaram meus tênis sem graça em
contato com o tapete. — Que seja rápido, quero resolver isso o
quanto antes. O que devemos fazer?
Terêncio nos deu coordenadas e dados em específico por
aproximadamente meia hora, mas, no geral, eis aqui o que
deveríamos fazer:
Em algum lugar em Fort Colorado estava guardado um arco
muito poderoso chamado Nimbus, cujo poder é tanto a ponto de
109
pulverizar qualquer ser vivo uma vez atingido por suas flechas.
E de acordo com os místicos, seria ele nossa chave para a
derrota de Maltrapilho, impedindo-o de localizar a espada
Foreshadow.
Obviamente questionamos a respeito de um detalhe pequeno,
mas um tanto problemático: Como iríamos atravessar um país
inteiro sozinhos?
— Mêrene, preciso que convoque uma Carruagem
Flamejante para eles — Terêncio disse enquanto rodopiava seus
dedos, o que controlava algumas xícaras e bules que distribuíam
chá pelos ares em sincronia.
— Claro, meu senhor — a bruxinha fez um selo arcano
com seus cinco dedos, o que a levou dali instantaneamente em
uma nuvem de fumaça roxa, como quem simplesmente
desaparece.
— Ainda hoje, pela madrugada, virá até vocês a
Carruagem Flamejante, e então os levará até seu destino, onde
encontrarão o Nimbus — o mago prosseguiu. — Boa sorte em
sua missão. Estarei aqui os aguardando quando terminarem.
Mal tivemos tempo de assentir quando o cenário se
materializou em meu quarto, como se o enorme salão arcano
fosse uma fina camada de poeira varrida pelo vento. Terêncio
havia nos teletransportado de volta para casa.
Acima de minha cama estava um pequeno postite
amassado, que imediatamente reconheci como o número que
Wallace pusera em minhas costas anteriormente. Dessa vez, o
tomei e desci rapidamente as escadas, onde D’Artagnan me
perseguiu em euforia mesmo sem saber o que estava
acontecendo, rumo ao telefone fixo em um banquinho abaixo de
um quadro.
— Querida? Não vi você chegando, quando...
— Oh, você estava na cozinha, distraída, nem quis
incomodar, sabe? — respondi, tentando afastar qualquer outro
questionamento de tia Betty.
— Ora, mas eu ouviria se você...
— Bom, eu tô um pouquinho ocupada, sabe? A gente
pode conversar depois? — sorri desengonçadamente enquanto
andava de costas com um dos braços estendidos na tentativa de
alcançar o telefone.
110
Minha tia pareceu tirar suas próprias conclusões da situação,
pois apenas riu de modo travesso e seguiu pelo corredor
carregando uma pequena suculenta em mãos. Creio que meu
rosto não ajudou muito na assertividade de seu veredito, pois sei
que corei instantaneamente.
Disquei o número no papelzinho, após alguns minutos tentando
decifrar a terrível letra de Wallace.
— Alô? — disse alguém do outro lado da linha.
— Alô, aqui é a Jessica, eu gostaria de saber se o Wallace
está.
A voz do outro lado gargalhou incredulamente.
— Nem ferrando, Wally tem uma namorada? Tá
explicado o porquê da chuva assim tão do nada! — a voz parecia
vir de um outro rapaz, irritantemente.
— Não, não! Eu não sou namorada dele, nós só... —
tentei pensar numa boa desculpa. — Estamos fazendo trabalho
de Geografia juntos, só isso!
— Mentirosa! Wally não leva nem material escolar, como
ele faria lição de casa?! Bom, de qualquer maneira, vou chamá-
lo para você. WALLY, SUA NAMORADA ESTÁ NO TELEFONE
TE ESPERANDO!
Minha cabeça inteira pareceu ferver em vergonha, e minhas
têmporas amorteceram no mesmo instante. A julgar pela
babaquice, aquele deveria ser algum parente chato.
— Que é!? — resmungou um Wallace emburrado no
outro lado, rodeado de risadas.
— Wallace, sou eu.
— Jess! Por que ligou justo hoje? Meus irmãos tão em
casa, e eles são uns babacas...
— Eu precisava ter algum meio de comunicação com
você, já que vamos fazer isso juntos. Mas não se acostume, não
somos amigos!
— Tranquilo! Os meninos acabaram de me avisar que
chegaram em suas casa também. Mas aí, você tá a fim de depois
de tudo isso...
— Babaca — murmurei, desligando o telefone.
Passei um tempo com D’Artagnan antes que o jantar
fosse servido, pouco antes de começar a escurecer. Ele era, no
111
geral, uma boa companhia. Seus olhinhos sempre estavam com
um aspecto cansado, junto a uma respiração arfante que chiava
a todo momento. Não era um cão da qual se arremessaria uma
bolinha e pediria para que trouxesse de volta, pois em meio
trajeto ele teria perdido seus pulmões.
Me deitei em minha cama determinada a não dormir, mas falhei
em meu pequeno objetivo, alguns minutos depois já estava toda
babada com meu Pug aos meus pés em cima de um monte de
roupas recém lavadas que tive preguiça de arrumar. Até que o
tilintar do telefone me despertou.
Já era por volta de quatro da manhã e ainda a tal
Carreta de Fogo — ou seja lá qual nome aquilo tinha — não
havia chegado. Desci as escadas apoiando o traseiro sobre o
corrimão e deslizando até embaixo, sabendo que, se algum de
meus tios estivesse acordado, eu ficaria de castigo por pelo
menos seis meses. Ao me aproximar do telefone, enquanto vez
ou outra espiava a ver se mais alguém acordara, ele
subitamente cessou seu barulho.
Uma luz feérica transpassou as cortinas de renda na sala de
estar, o que me fez erguer um dos braços para proteger meus
olhos, junto a um ronco profundo e um rugido. Me espantou o
que vi, após destrancar a porta da frente; um Fusca 70 puxado
por quatro Foguslinxs adultos enormes. E pior, com todos os
Cabeças-Ocas dentro dele.
— Vamos logo, Jess! — Berrou Wallace, tão feliz quanto
pinto no lixo.
— Oh, meu Pai, eu nem me arrumei, estou de pantufas
ainda! — respondi, desesperada.
— Bom, chefia, lamento ser desagradável, mas
precisamos sair antes que o dia amanheça, pois creio que a
vizinhança não reagiria nada bem à Linky, Binky, Twinky e
Robert — disse o motorista enquanto os Foguslinxs bufavam
como cavalos, que me chamou a atenção por alguns momentos.
Seus olhos de uma cor verde pastel contrastavam com o
loiro de seus cabelos cacheados, que logo me fizeram procurar
por suas orelhas pontudas e seis dedos nas mãos, que prendiam
firmemente o volante. Estava vestido em um uniforme salmão
com uma camisa de gola alta, junto a um terno vermelho veludo
e luvas impecavelmente brancas.
112
— Meu nome é Dust, e eu vou ser seu motorista hoje.
Então entre, aperte os cintos e vamos embora!
Ponderei por alguns segundos antes que os meninos me
puxassem para dentro do automóvel ao mesmo tempo em que
minhas pantufas se aventuraram a saltar de meus pés, se
despedindo do fusca branco que deixou uma trilha de pneus
queimados por onde disparou.
Estávamos na mais alta velocidade já percorrida pelo
homem, onde as casas de formatos estranhos e árvores sem
graça de nosso bairro se tornaram uma linha dançante que
alternava nossa visão entre as chamas produzidas pelos
Foguslinxs adultos, que eram maiores que um búfalo.
— Sugiro que fechem os vidros, ninguém gostaria de ter
as extremidades do cabelo torradas na viagem, não é?!
Todos fechamos os vidros automaticamente, enquanto Tontom
chupava a ponta de seu dedo queimado.
— Quando me disseram Carruagem, eu pensei em algo
mais... pomposo, eu diria, não um Fusca! — reclamei.
— Ei! Essa belezinha, caso queira saber, é a única
máquina movida a motor feita pelo homem capaz de aguentar a
pressão dos meus quatro bebês aqui — Dust parecia levemente
ofendido, pois ergueu seu nariz pálido e fino e fez um beicinho.
— A uns cem anos atrás realmente usávamos carruagens, mas
elas sempre queimavam pedaços durante os percursos, então
decidimos substituir por algo que não nos desse tanto prejuízo.
Era impressionante como nada além do som do vento era
ouvido até alguns minutos, e depois, nem isso, e depois, tudo em
torno do carro se tornou escuro. Então, chegamos.
— Bom, pelo que entendi, aqui é o ponto onde vão
descer. Obrigado por escolherem o serviço Carruagem
Flamejante viagens! Qualquer coisa estamos à disposição.
Verifiquem se não esqueceram nada no carro e tenham um bom
dia! — Dust amigavelmente desceu do Fusca e abriu a porta
educadamente para que eu descesse.
Nos encontrávamos no meio do nada.
E quando digo “nada”, não me refiro a uma vila pacata
onde quase ninguém esse encontra em meio à rua. Estou falado
113
de absolutamente nada! Dust nos deixara em um deserto árido,
onde apenas a estrada de asfalto dividia ambos os lados
compostos de uma terra vermelha que erguia vez ou outra uma
poeira que irritava os olhos. O vento me fez estremecer, até que
todos descemos do táxi-carruagem. O céu se fazia como um
enorme cobertor azul escuro, composto das mais delicadas
estrelas que se espalhavam como grãos de areia.
O Fusca sumira em um piscar de olhos, envolto em um turbilhão
de fogo que deixara para trás uma trilha chamuscada.
— Ótimo, eu sabia que era furada! — Wallace chutou um
torrão para longe.
— Por que ele nos trouxe para esse fim de mundo? —
Dipp olhava em volta, vendo apenas um único banheiro químico
aleatoriamente posicionado pouco atrás de nós.
— Bom, eu não sei — Tontom seguiu em direção à cabine
azul. — Mas tô precisando tirar a água do joelho. Vai que eu
acho o tal arco aqui dentro, né?
— Eu duvido muito — disse eu, debochada.
O garoto apertou a bandana e fechou a porta do
banheiro. Ficamos, por alguns minutos, cogitando cada
improvável possibilidade de onde poderia se encontrar o tal
Nimbus; desde cavar no chão até bater palmas três vezes
seguidos de pulinhos. Nada, simplesmente nada em meio ao
nada nos fazia encontrá-lo. Começamos a nos questionar do
porquê abandonamos nossas camas quentinhas e acolhedoras
por um frio cortante do deserto.
— Tontom, eu tô apertado! Anda logo aí! — Wallace deu
três pancadas na portas, não respondidas.
Ruffus permaneceu tão quieto ao meu lado, que se não fosse por
um toque trêmulo em meu ombro, oferecendo uma blusa que
trouxera de sobra, não teria reparado que veio conosco.
— Qualé, maninho, entalou aí, é? — Dipp agora denotava
um pouco de preocupação em seu tom de voz.
Nos entreolhamos, com um certo receio de abrir aquela porta e
nos deparar com algo que provavelmente engolira Tontom.
— No três — disse Wallace enquanto ele e Ruffus
seguraram a maçaneta. — Um.... dois.... três!
114
A porta se escancarou, e dentro dela... Nada estava além de uma
privada, um rolo de papel higiênico e uma plaquinha que dizia
Não faça xixi no chão, mantenha a higiene.
— Tontom! — Dipp disparou banheiro adentro, caçando
seu irmão em cada pedaço, porém sem nada achar. — Onde ele
foi parar?!
— Isso é mais uma magia, não é? — Ruffus ousa
perguntar, partilhando do mesmo desespero.
— Provavelmente — disse eu. — Mas... o que ele fez?
Como ele sumiu assim?
— Não faço ideia... Ele pode estar em qualquer lugar! —
o irmão mais velho parecia legitimamente preocupado e em
desespero. — E se ele foi para alguma dimensão paralela e
agora tá correndo perigo?!
— Dipp — interpôs Wallace.
— Que foi!?
— Confere se tem cocô na privada.
— Cê tá ficando maluco? — Dipp esganiçou a voz,
incrédulo. — Isso não é hora pra piada, Wa...
— Eu não tô fazendo piada, caramba! Eu tô falando
sério!
Ruffus e eu compartilhamos um riso. Aquilo dessa vez era
realmente cômico.
— Bom, já que você não acredita em mim, eu mesmo vou
provar. Olhem! — o punk se sentou na privada e discorreu em
uma explicação. — Vejam que aqui não tem nenhum dejeto, ou
seja, temos duas opções: Ou ele não fez nada, e a privada o
teletransportou apenas por sentar...
— O que não faz sentido, se considerar que você acabou
de fazer isso e nada aconteceu.
— Isso aí, Ruffus, obrigado — Wallace fingiu uma pose
pomposa com um indicador erguido esnobe. — Nossa outra
opção seria, caso alguém mais tenha ouvido, a descarga!
— Pare com essa palhaçada, Wallace, me diga onde meu
irmão foi parar! — Dipp rugiu, furioso.
— Calma, garoto, me deixa brilhar! — Wallace franziu o
cenho. — Como eu ia dizendo, de acordo com minha vasta
experiência em quadrinhos de suspense, provavelmente Tontom
se sentou aqui, fez o que tinha que fazer, pegou esta linda
cordinha de descarga e...
115
Quando Wallace puxou a corda, um redemoinho de luzes verdes
o envolveu, fazendo com que sumisse diante de nossos olhos,
enquanto a água na privada restava apenas girando em espiral.
— Wallace...? — Dipp permaneceu boquiaberto,
enquanto Ruffus se sentava e fazia o mesmo, repetindo toda a
cena. — Isso é... bom, as damas primeiro, heh...
Franzi o cenho ante sua covardia, mas, para mostrar que eu sou
uma mulher de atitude, sentei na privada, antes pondo alguns
pares de papel em sua porcelana molhada, e puxei a cordinha.
Já não estava mais no deserto, e sim, em um cenário
completamente novo.
116
Capítulo ix
Um emprego de meio período
W
allace tinha um chiclete na sola de seu sapato. A
humidade em minhas roupas me fazia torcer para que
aquela água que gelava minha pele estivesse
minimamente limpa. O banheiro, dessa vez, tinha em suas
paredes sujas a cor verde encardido, onde temíamos tocar e
sujar os dedos — ou, na pior das hipóteses, pegar tétano.
— Minha teoria tava certa! — Wallace exclama chutando
a cara de Tontom, que agora estava apoiado sobre um balde
virado de cabeça para baixo. — Eu sabia que aquilo era um
portal, é igual naquela edição de...
— Pessoal? — Tontom pergunta. — Eu nem vi vocês
chegarem!
— Abra logo essa porta! Esse lugar está me dando ânsia
de vômito! — protestei, tapando minhas narinas enquanto
Wallace chutava a porta.
O odor fedegoso do local apertado me fazia querer decorar o
chão de terra com bolinhos do café do dia anterior, esverdeando
minhas bochechas, a julgar por meu reflexo na água amarelada
da privada suja.
A porta se abriu em um solavanco que quase derrubou o
retângulo sebento em uma pilha de pedrinhas que jazia ao lado
de um monte de terra vermelha. Os joelhos de meu pijama
encontraram uma pequena poça de água vinda de uma garrafa
suada de ferro que Tontom derrubara ao rolar no chão em
direção a um pequeno banco onde uma caixa de ferramentas
estava posicionada.
O estrépito atraiu até nós a atenção de uma figura um tanto
quanto inusitada.
117
Seus pés enormes calçados com botas sujas de concreto
recém feito pisoteavam displicentemente alguns cacos de tijolos
espalhados pelo terreiro, vindos de um enorme e desbotado
macacão jeans que revelava tufos gigantescos e emaranhados de
pelos nas axilas ossudas do sujeito. Sua presença fez uma
sombra sobre nós três, e logo sua voz sonorosa e rasgada
irrompeu:
— Quê é que cêis trêis tão fazêno aí, sô? — veio de uma
boca desdentada e gigantesca, que era visível abaixo de um
nariz em formato de batata.
— Estávamos só... bom... — Wallace coçou o queixo,
pensativo. Aparentemente gastara todos os seus neurônios
ativos com a questão do banheiro mágico.
— Estávamos perdidos, senhor — forcei um sorriso,
tentando não entortar as laterais do rosto em aversão. — Bom,
se o senhor não se importa, poderia me dizer em que cidade
estamos?
— Mais é craro, minha frô! — ergueu um braço maciço,
onde afastou uma camisa xadrez amarela e vermelha para
revelar um relógio que sumia em sua circunferência. — Cêis tão
em Fort Colorado.
— O lugar que Terêncio disse que... — Wallace quase
disse demais, antes que eu tapasse sua boca e apenas
agradecesse, tirando os outros dois dali com uma risadinha sem
graça.
— Boa sorte, crianças, se cuide! — berrou ele
alegremente, chacoalhando seu capacete amarelo de construção
e revelando uma pequena carequinha, ornada penas por dois
pequenos olhinhos felizes.
Atravessamos o canteiro de obras depois que o galpão
de ferramentas ficou para trás, nos deixando na calçada do que
parecia ser a rua principal. Por duas ou três vezes levamos
ombradas de pessoas vestidas como se estivessem indo ser
coadjuvantes em um filme de faroeste — tenho certeza de que
Clint Eastwood sentiria suas tripas revirarem se as visse. Eram
estúpidos, resmungavam coisas incompreensíveis a cada passo
que davam.
O dia ainda mal tinha raiado, pois víamos entre as casas a
mistura de cores proporcionadas pela alvorada ao fundo, em
uma valsa formada pelas nuvens vindouras e o vento carregado
de uma poeira que arrastava bolas de mato ao sabor do asfalto.
118
Algo me dizia que eu iria precisar de uma arma e um par de
botas dali cinco minutos.
— Certo, me digam, qual de nós vai parar um desses
boçais perguntando pelo arco mágico? — Wallace parecia
incomodado com a ausência de qualquer pessoa abaixo de
cinquenta anos, ou de garotas.
— Você que é o viciado em magia, não é? Não se lembra
de algum quadrinho, sessão nerdola de RPG ou algo do tipo que
seja como isso? — questionei, me divertindo pouco em vê-lo em
dúvida.
— O lugar era esse — Tontom pontua, olhando as
lojinhas e restaurantes enfileirados, cujas garçonetes tinham o
mesmo físico de um orangotango. — Só precisamos saber onde
está esse treco e onde estão os outros...
O bandana fora interrompido por uma pancada, proveniente de
algo às nossas costas: Uma loja de instrumentos, onde Dipp e
Ruffus batiam incessantemente no vidro da vitrine em um afã de
chamar nossa atenção.
— Como foram parar aí, seus miolos-moles? — o punk se
adiantou em subir em um pequeno rodapé e ficar nariz à nariz
com eles. — Okay, alguém tem algum pé de cabra ou...
— Não vamos quebrar nada, Wallace! — o censurei,
tirando sua graça em um dissolver de sorriso. — Precisamos
pensar em um jeito de tirá-los daí. Mas enquanto isso, meninos,
não mecham em nada aí dentro!
Os dois assentiram sincronizados, enquanto o alvo se sentava
com os braços cruzados em dois degraus juntos à porta de
acrílico cuja plaquinha pendurada exibia um Fechado.
Esperamos por cerca de meia hora a quarenta minutos até que
um grupo de roncos longínquos nos despertassem em um
sobressalto. Nos pusemos de pé em um instante, com os cabelos
em pé, quando Wallace tropeçou em seus pés e caiu rolando no
meio da rua, onde o perigo eminente se aproximava.
Vinham como em uma nuvem de fumaça ao som de
Metal pesado, nos dando a sensação urgente de que o mais
sábio a se fazer era correr e esconder-se no primeiro lugar que
aparecesse. Os roncos eram ensurdecedores, mas os habitantes
de Fort Colorado pareciam não se importar, pois o motivo de
suas reclamações ainda era o calor excessivo de dia e o frio de
noite. As rodas dianteiras foram as primeiras a se revelar,
119
cortando o asfalto já quente como uma manada de tratores
enfurecidos, logo abaixo de enormes faróis redondos que
evidenciavam guidões altos e prateados como os da falecida
Hellbound. Eram motoqueiros, e estavam rachando em direção a
nosso amigo, sem que pudéssemos fazer absolutamente nada.
Wallace seria partido na metade, se não tivessem freado alguns
segundos antes, arremessando pedrinhas aos nossos olhos.
— Qual foi, moleque, tá querendo morrer é? — berrou
um deles, que tinha ombros enormes e pernas finíssimas.
— Aqui pra você seu... — Wallace se levantou
desajeitadamente, erguendo dois dedos médios e novamente
estreando seus palavrões excêntricos. — Pensam que são o que,
donos da estrada?
Desceram dos possantes, onde as costas de suas jaquetas
revelaram o nome Os donos da estrada ao redor de uma enorme
rosa em chamas. O punk mordeu os beiços em indignação ao
ver, mas ainda sim estava a postos para caso houvesse uma
troca franca de socos — o que, dessa vez, seria bem mais
drástica.
— Eu vou te puxar do avesso, seu garoto...
— Calma, Hoss, esse tem fibra, eu gosto disso — disse
um maior, cuja jaqueta vermelha exibia duas labaredas vindas
de uma águia ao centro do peito. Um capacete de visor escuro
escondia sua identidade. — Aí moleque, qual é o seu nome?
— Wallace Silver, seu pedaço de...
— Silver... hum... legal.
— Dêem o fora daqui, ou vou chutar o traseiro de vocês
até o buraco de onde vieram! — O punk agora cerrara os punhos
e seguiu em direção a eles, que já o tornaram motivo de
chacota, trocando risos.
— Bom, Wallace Silver... — voltou à palavra o da jaqueta
vermelha. — Tenho certeza de que o xerife Gonzalez vai adorar
saber o porquê de dois de seus amiguinhos estarem dentro da
minha loja.
Todos engolimos em seco sob suas palavras, pensando como
sobreviveríamos à uma prisão de faroeste. Eu precisava
interromper Wallace antes que algum deles o transformasse em
peneira.
— Com licença, hum, senhores motoqueiros — interpus,
empurrando um Wallace que caiu de traseiro no chão. — Meus
120
amigos foram, bem... pegar uma bola que perdemos lá dentro
e... — minha criatividade se esvaía conforme eu falava,
encarando carrancas enrugadas franzidas a mim, uma mais feia
que a outra.
— Tadeus, chame Gonzalez aqui, acho que descobrimos
quem anda sumindo com o troco — o líder em vermelho deu a
ordem a um dos seus companheiros, tinha uma fronte
semelhante a um buldogue francês, que prontamente assentiu e
se afastou a passos largos. — Hoss, Lampard, amarrem esses
outros.
Sebo nas canelas, mais tarde voltaríamos e buscaríamos os
outros — eu acho —, mas a primeiro momento nossa prioridade
era voltada a não ser arrastada por uma moto custom. Wallace
desviou de um deles, que caiu de cabeça em um agrupamento
de latas de lixo do lado de fora de uma lanchonete mal-acabada,
o que lhe rendeu tempo de afastar-se. Eu, entretanto, não era a
mais veloz do grupo — minhas melhores notas em educação
física eram com trabalhos teóricos; pernas longas não são as
aliadas mais fortes no quesito corrida —, o que me fez ser
facilmente capturada por Lampard, cujo capacete estava tão
fundo em sua cabeça, que apenas o cabelo ensebado e uma boca
eram visíveis.
— Jess! Solta essa ruiva agora, seu...
Shwap!
As bochechas de Wallace foram empanadas em poeira
avermelhada quando foi de cabeça ao chão, ficando atordoado
instantaneamente. O líder de jaqueta vermelha o havia atado em
um laço muito bem-feito, que enredara os pés do punk,
impedindo-o de ir a qualquer lugar.
Tontom já havia sido pego por Hoss, que segurava seu punho
com indiferença enquanto nos uniam novamente em frente à
loja, ante os olhares horrorizados de Dipp e Ruffus.
O tempo se passou, o que julguei ser quinze ou mais
minutos. Já se aproximava das nove horas quando o restante dos
estabelecimentos abriu, revelando um pouco mais de movimento
junto a alguns carros antigos que se cruzavam pelas estradas,
ao lado de onde a frota de motos havia estacionado.
121
A loja de instrumentos abriu, e os dois membros da banda
restantes foram igualmente atados a nós, sem muita resistência.
Um sino tocou quando a porta da frente se abriu para dentro, e
nós fomos puxados para próximo de enormes caixas de som. A
figura imponente e taciturna se aproximava de nós.
O líder tirou seu capacete, revelando enormes tranças
grisalhas que vinham de uma carranca invocada para a frente,
cuja pele oliva era marcada ao pescoço por diversas tatuagens
tribais. O nariz largo vinha de um rosto determinado e sério, que
em poucos momentos direcionou a mim um olhar coberto por
um par de óculos redondos de lente vermelha, tal como sua
jaqueta.
— Vocês não são daqui, não é? — perguntou ele.
— Bom, não — respondi, temendo dizer mais qualquer
coisa.
— Percebi. As crianças de Fort Colorado são mais
esbeltas que os mimadinhos da cidade — afrouxou pouco a
atadura, que já assara nossos braços. Pude notar um pingente
de caveira ao seu pescoço, que condizia com dois brincos
enormes de ossos às orelhas. — Mas... vocês não viajariam tão
longe para roubar uma velha loja de instrumentos, não é?
O dilema de contar ou não era insuportável, só não tanto quanto
o odor incômodo de tabaco que o homem exalava, que me fez
espirrar com tanta intensidade a ponto de fazer saltar meu colar
de dentro da blusa que Ruffus emprestara.
— Espere... porque você tem uma das... não pode ser...
— seu semblante denotava mais admiração que curiosidade. —
Quem enviou vocês? Não minta pra mim, garota.
— Por que quer saber? — ousei desafiá-lo, desconfiada.
O homem apenas afastou as tranças das orelhas, que eram
pontudas como as de Terêncio, Nix, Mêrene e Dust, o que me
fez instintivamente procurar por seus seis dedos nas mãos; me
decepcionando ao ver apenas cinco.
— Você... é um mago também? — perguntei, sufocando
um soluço.
— Sou um mestiço, garota. Aliás... qual é seu nome?
— Jessica Halley, eu vim de Marilyn, do outro lado do
país, enviada por Terêncio Stermfeld.
— Me chamo Bronco, senhorita Halley, Bronco
Lockbrook — inclinou a cabeça cordialmente enquanto se
122
apresentava. — Mas... o que aquele velho ranzinza queria
quando os mandou para cá?
— Maltrapilho está por aí em algum lugar, tentando
encontrar a Foreshadow, e agora tem sob seu poder os Grígoras
novamente — Dipp irrompe timidamente, enquanto empurra
Wallace, abrindo um espaço e se aproximando de nós, que
estávamos sentados em fileira. — De acordo com o que ele nos
disse, em alguns poucos meses, se continuarmos nesse ritmo,
ele terá se equipado com as armas primordiais, o que...
— Vai causar um problema do caramba... — Bronco
coçou uma barba por fazer. — Lampard, Hoss! Desamarrem
esses garotos, e avisem Tadeus que o xerife pode tirar uma
folga.
Os brutamontes vieram até nos e nos desataram, colocando um
Wallace que começara a despertar em uma poltrona em um
lugar acompanhado de uma pequena mesa e um bule.
— Bom, me digam como posso ajudá-los, garotos —
Bronco disse amigavelmente enquanto se punha atrás do caixa.
— O mago mandou a gente atrás de um tal Nimbus.
Mas... onde ele está? — Tontom pergunta, enquanto eu
observava cada detalhe da loja.
Em todo canto onde pusesse os olhos, guitarras, baixos
elétricos, banjos, violões e todo tipo de instrumento voltado a
Rock’n Roll era contemplado, o que, depois e alguns momentos,
se tornou o paraíso para os Cabeças-Ocas, que se ocuparam
testando a distorção de alguns deles por bons minutos. Wallace
dedilhou agilmente uma guitarra prateada, dona de um braço
decorado por relâmpagos, no solo eletrizante de Thunderstruck.
— Nimbus está escondido aqui em algum lugar, mas,
não posso entregá-lo a vocês antes que concluam uma tarefa —
Bronco irrompe, cortando o barato dos garotos.
— Qual é, tio Bronco! Você parece ser um cara tão legal,
por que não quebra esse galho pra gente? — Wallace parecia
revoltado, pondo a guitarra de volta no suporte.
— São regras do mundo arcano, Silver, não há nenhum
espólio que não venha a ser conquistado através de alguma
proeza ou grande feito.
— Ser mago deve ser um tédio — complementa Tontom.
— O que temos de fazer? — perguntei.
— Vão tomar conta da loja até uma, ou duas, da tarde.
123
— Não sei ao certo, não estava esperando ninguém,
portanto não despertei nenhum dragão — Bronco coçou o
queixo, pensativo.
A palavra “dragão” me trouxe um arrepio na espinha.
— Podíamos deixar eles responsáveis pela loja, Bronk —
sugeriu Hoss.
— Eles são adolescentes, não devem ter maturidade
para...
— Bom, isso vai ser moleza! — Wallace explodia em
alegria. — É o emprego dos sonhos! Caso não saiba, senhor
Lockcoisa, somos os Cabeças-Ocas, a melhor banda de rock de
todo país! Somos especialistas em instrumentos.
Bronco sorriu, revelando sobrancelhas grisalhas por cima das
armações douradas nos óculos escarlate.
— Temos pouquíssimo tempo, chefe — apressou Tadeus,
tocando o ombro do líder. — Vamos dar um voto de confiança
aos meninos, ainda temos que avisar os outros sobre
Maltrapilho.
Lockbrook grunhiu enquanto formulava possibilidades.
— Pode ir tranquilo, chefia, eu tô aqui pra dar conta do
recado — o punk apontou para o próprio peito, inflando-o em um
largo sorriso com fresta. — Vamos sair daqui com esse arco e
salvar o mundo.
— Certo..., mas terão que guardar essa loja como sua
própria vida, entenderam?
Todos nós assentimos ao mesmo tempo. E Wallace trocou um
firme aperto de mãos com o motoqueiro.
— Daria um ótimo Dono da estrada, Silver — riu Bronco,
caminhando em direção à porta.
— Foi mal, mas eu sou um Cabeça-Oca de nascença,
sabe?
Os motoqueiros se despediram de nós um por um, com
seus passos desajeitados, e deixando para trás uma fragrância
de suor que fazia coçar o nariz. E logo, estávamos sozinhos de
novo.
Mal sabíamos nós que uma tarefa tão simples poderia se
tornar uma enorme dor de cabeça.
124
125
Capítulo x
Corrida do ouro
O
espelho do banheiro não era o melhor lugar a se treinar
atendimento ao cliente. Sua superfície suja, com algumas
marcas de quem o limpara de qualquer jeito, já denunciara a
falta de esmero de seu proprietário — aparentemente sair por aí
roncando uma moto era mais importante. Para nossa surpresa e
meu alívio, nem uma alma viva apareceu, o que fez com que os
meninos se dispersassem, como já o queriam desde que
vislumbraram as várias possibilidades musicais. A poeira nas
baterias era a distração de Tontom, tal como conferir se os
botões dos contrabaixos funcionavam bem parecia ser a razão
de vida de Dipp.
Ruffus se punha a checar se a corrente elétrica dos teclados
estava devidamente calibrada, enquanto Wallace simplesmente
escolheu a guitarra mais atraente enquanto cantava uma música
com uma letra um tanto quanto inapropriada. No fim, eu estava
sozinha com quatro bebês enormes — excedendo Wallace — em
um playground de músicos.
O tempo parecia ter congelado. Nem uma única bola de
feno rolava peala rua, assim como também nenhum idoso mais
praguejava sobre a sequidão nos últimos dias. Já não tinha graça
verificar se todos os instrumentos estavam perfeitamente
enfileirados, e o chão se encontrava impecável a ponto de
vermos nossos reflexos quando olhávamos para eles. Não havia
literalmente nada restante a ser feito.
— Tá bem parado hoje, né não? — disse o punk enquanto
afinava novamente.
— Sábado, Wall, e fora que, nessa cidade, acho que eles
não tocam nada além dos próprios ouvidos para arrancar cera —
Tontom deitou sobre a poltrona, levando alguns biscoitos palito
a boca.
— Vocês querem parar com a “hora do recreio” e fazer
algo de útil? — protestei, enquanto abria uma gaveta onde
deveria estar a chave do caixa. — E se o teste for justamente
não mexermos em nada? Certamente já teríamos reprovado!
126
— E vamos fazer o que, Pica-Paua? Não tem mais nada a
se fazer. Eles estão bem longe daqui. E outra, o serviço é
simples, o que de tão macabro poderia...
TONK!
O bater da porta de acrílico eriçou os pelos de minha
nuca em um susto que me fez bater as costas no balcão, junto
aos garotos que saltaram sobre os lugares. As luzes começaram
a oscilar freneticamente até que apagaram por completo,
enquanto as cortinas rapidamente se fecharam, deixando-nos no
completo breu. Ouvimos sons como de ratos vindos da porta.
— Você e sua boca santa, né, Wall? — disse alguém que
achei ser Tontom.
— Calma, não se movam! — sobrepôs Dipp. — Ruffus,
você tem uma lanterna ou algo parecido?
O loiro acendeu uma luzinha trêmula, poucos segundos depois,
vinda de uma mochila, que, devido à sua discrição em quase
todo tempo, não o vira trazer. Nos agrupamos ao centro do salão
sem muita espera.
— Todo mundo bem? — conferiu o irmão de Tontom.
— Eu tô inteira, pelo menos — confirmei.
— Fechem as matracas, escutem! — aguçou Wallace, nos
fazendo prestar atenção em um chapinhar que seguia por todos
os cantos, como se alguém tivesse arremessado uma substância
melequenta nas paredes e pisasse sobre elas.
As pontas dos meus dedos endureceram e se tornaram
frias quando os ouvi, já mentalizando algum bicho papão cowboy
ou coisa pior, até que, em um direcionar de luz vimos um
Ukulele se mover sozinho, seguido do som do caixa se abrindo.
— Mãos para cima, eu estou arma... — tampamos a boca
de Wallace antes que chamasse a atenção, seja lá do que fosse.
— São fantasmas... eles vão chupar meus olhos... —
choramingou Tontom, se benzendo.
— Cale a boca, mano! — Dipp o censura, também se
benzendo.
— Não os vimos entrar, são ladrões? — questiona o nerd
loiro. — Ali! Em cima do balcão!
A luz acometeu um grupo pequeno de figuras gosmentas
que subiam pela bancada, indo em direção ao caixa em fila,
como uma lagarta de gosma de modelar azul e roxa. Seus
127
pequenos olhinhos foram os primeiros a refletir a luz, que os
evidenciava em um corpo gelatinoso e viscoso, como se sua
composição fosse à base de algo que eu tinha plena certeza de
que seria horrível tirar do cabelo. Em seu interior, de um para o
outro, passavam pequenas moedinhas de um real, cinquenta e
vinte e cinco centavos, como em uma brincadeira de criança
vinda do caixa registradora enquanto faziam um som
semelhante a o de uma digestão.
Minha cabeça latejou, minhas têmporas queimaram, e um nome
veio em mente.
Metamoformos.
Conhecidos como “Os mãos leves do mundo arcano”, os
Metamoformos são pequenas criaturas babentas que vivem em
grupos de até trinta ou mais, onde são autoras de pequenos
furtos por onde quer que passem, normalmente tomando objetos
que possuem um misto entre prata e ouro, ou qualquer coisa
com o mesmo aspecto.
Aparentemente estive avoada enquanto isso me veio à memória,
pois quando recobrei a conciência, o cenário era bem diferente,
onde pedaços de madeira, pratos, baquetas e outros acessórios
cruzavam afoitamente a sala, enquanto um cheiro azedo
misturado a enxofre me fazia querer vomitar.
— Jess! — Dipp me protegia com um violão, que rebateu
uma das gosmas como se fosse uma bola de beisebol. — O que
aconteceu, você está bem?
— Que barulho todo é esse? — tentei sobrepor ao som de
muitos vidros se quebrando e prateleiras desabando.
— Essas gosmas assassinas se transformaram em luvas
de boxe, nocautearam Ruffus, e agora estão vindo pra cima de
nós! E como se não bastasse, tome! — atingiu mais um, que
voou diretamente a uma campana de um souzafone. — Eles
ainda sabem voar!
— Vem pro Fight, seus bostas! — berrou Wallace,
calçando dois Metamoformos desacordados nas mãos.
— Como essas coisas vieram parar aqui?
Saltei para trás de uma bateria, torcendo para que ela também
não fosse um monstro. O caos se estendia a cada minuto, os
128
cacos de vidro no chão nos fazia pensar duas vezes antes de
correr para qualquer lugar.
— Provavelmente eles se disfarçaram de instrumentos, e
se aproveitaram da calmaria pra isolar a loja e roubar! — o
irmão de Tontom fez com que um dos monstrinhos fizesse um
Strike em várias maracas em uma prateleira.
Era um caos em meio às trevas. A lanterna de Ruffus —
agora após ter beijado a lona — jazia caída sobre os pés do
garoto, o que alumiava parte do salão, suficiente para que
víssemos as dúzias de luvas de boxe, porretes e cacetetes
policiais voadores.
— Eles são muitos, eu preciso de cobertura, meidei,
meidei! — Wallace berrou, com o colarinho de seu colete ensopa
em suor.
— Jess, esses bichos têm alguma fraqueza ou algo do
tipo?
Forcei minha memória ao máximo, e então, como uma lâmpada
que se acende... nada acontece. Isso mesmo, me julgue, mas,
pelo que parecia, aquelas criaturas não tinham fraqueza, ou, na
melhor das hipóteses, tudo era sua fraqueza.
— Não consigo lembrar de nada! Normalmente essas
coisas vêm à mente sem que eu precise... — reclamei,
esfregando as têmporas.
— Ótimo, a ruiva enguiçou!
— Socorro! — Tontom foi imobilizado por um grupo de
Metamoformos que atou suas pernas e braços no teto, como se
fosse uma estrela do mar gigante.
— Tontom! — Wallace saltou em direção ao amigo,
tentando soltá-lo, mas sua falta de altura não o permitia
alcançar o teto, fazendo-o cair com os pés sobre as cabeças de
dois monstrinhos, que instantaneamente se tornaram sólidos e
cinzas como pedras.
— O que você fez?! — berrei.
— Eu não sei, foi cagada! — respondeu o punk.
— Tente fazer de novo!
Wallace saltou sobre mais alguns deles, fazendo-os solidificar a
tempo do irmão de Tontom por todos em tabela em uma capa de
Tuba que, por uma sorte inacreditável, estava por perto. Dois,
três, cinco, dez, quinze, um por um, par por par foram todos
postos na capa, que se tornou redonda quando fecharam com
129
esforço o zíper — pareceram se divertir com isso, pois riam
sempre que uma gosma era solidificada.
Tontom fora colocado de volta ao chão, me parecendo mais
empolgado, a julgar por sua expressão que dizia De novo! , que
com medo.
— Acho que foram todos — Dipp limpa as mãos aos tapas
ao mesmo tempo em que arrastava a capa inchada para um
canto.
— Isso aí, geleia do mal, pega no meu...
— Gente, tem mais um sobrando — apontei a um
minúsculo Metamoformo restante escondido atrás de um
cavaquinho. — Não acham melhor colocar ele aí dentro
também?
— Nah! O que esse carinha ridículo pode fazer? É tão
pequeno! E além do mais, ele tá sozinho, né? — Wallace zomba
mostrando a língua. — Aí, sua meleca de Smurf! Tá sentindo
saudade dos seus amiguinhos, é?
O bichinho pareceu se ofender, pois grunhiu fazendo um
borbulhar como debaixo d’água, criando bolhas em seu corpinho
entre os olhos, piscando fluorescentemente entre azul, verde,
amarelo e outras cores. Para nossa alegria, ou não, a capa de
tuba estremeceu, como quem guarda um furacão em uma
garrafa, criando um estouro que fez muitos monstrinhos voaram
até seu amigo pisca-alerta, no mesmo show de luzes, se
tornando algo um tanto... maior. Trocamos olhares em choque
enquanto a massa crescia à luz da lanterna, me trazendo um
formigamento estranho por todo o corpo.
130
131
Capítulo xi
O relâmpago de cabelos eriçados
E
m um dia nublado, em uma das raríssimas folgas do meu
pai, ele me fizera um breve resumo de como era cada país
do mundo. Mamãe ficara enrolada com mais uma de suas
viagens a trabalho, portanto meu pai e eu nos mantínhamos
entretidos passando trotes nos telefones do hotel ou dentro do
próprio quarto lendo livros. Me lembro de conjecturar a
possibilidade de ele ser o criador do Atlas, pois, a meu ver com
cinco anos, ele sabia de tudo. Mas agora, ante a um monstro de
quase dois metros inteiramente feito de uma gosma mística azul
fluorescente que rugia a cada passo que dávamos, todo o
conhecimento vindo de meu pai parecia não ter utilidade —
inclusive, tenho certeza de que ele ficaria boquiaberto em meu
lugar.
— Okay, não dá pra bancar o encanador italiano com
esse carinha — sentenciou Wallace após engolir em seco.
— Bronco vai matar a gente, tô até vendo — se
descabelara Tontom enquanto o monstro gosmento se
aproximava de nós, ainda sendo construído por pequenos
Metamoformos, se tornando algo que mais tarde conhecemos
como Megamoformo.
Todos os instrumentos tremeram freneticamente quando um
rugido tremeu o solo abaixo de nossos pés, quase nos
132
derrubando. Torci, por alguns momentos, que os vizinhos não
ouvissem nada do que estava por acontecer.
Wallace tentara saltar da bancada do caixa rumo à
cabeça do Megamoformo, porém uma bofetada aérea do
monstro o fizera estilhaçar um expositor com bottons de várias
bandas de Hard Rock, o deixando, até onde parecia, vendo
estrelinhas após atingir a parede violentamente.
As extremidades de seus dedos gelatinosos vez ou outra
respingavam ao chão envernizado, em pequenas geleinhas que
assim que tocavam o solo, retornavam ao monte que rodopiava
os braços desproporcionais na tentativa de acertar alguns de
nós, que, por alguns milímetros não fomos arremessados como
bonecos de pano por todo o salão.
Os estilhaços de madeira e cacos de vidro se espalhavam por
todo o chão, nos trazendo um frio na barriga sempre que a visão
do cenho de Bronco franzido retornava. Já não restavam indícios
de que aquilo um dia fora o lugar pacato e bem-organizado que
encontramos algumas horas atrás.
Não mais nos comunicamos, mas a movimentação dos
meninos passava a mim uma mensagem bem clara: Iríamos nos
dividir e distrair a coisa para que um saltasse sobre a cabeça do
monstro e o petrificasse assim como Wallace — agora tão tonto
quanto uma criança em gira-gira — havia feito. Mas até mesmo
para mim, que sou alta, atingir o cocuruto de algo daquela
proporção não era mamão com açúcar.
Tontom tomou certa distância enquanto Dipp chacoalhava um
braço de violão quebrado ao som do chapinhar dos pés chatos e
viscosos do Megamoformo, que faziam o solo tremer enquanto
um sibilar asqueroso provinha de uma garganta tão oca que dela
saía uma pequena luz onde se originava.
— No meu comando, mano — disse Dipp, olhando a
criatura nos milhares de olhos aglomerados na cabeça tão
achatada quanto a de uma arraia.
— Isso vai dar ruim — choramingou o bandana, apoiando
os tênis sujos em uma enorme caixa de som, flexionando as
pernas.
133
Me posicionei ao lado de Dipp e, me movimentando tão
desajeitada quanto uma barata desnorteada, tentei certificar
que o gosmento não desviaria seus pares de olhinhos de nós.
— Agora!
Um braço azul atingiu Tontom em meio ao ar assim que tirou os
pés de onde saltara. O Megamoformo gerara um terceiro braço
vindo do meio de suas costas, ou seja, nosso plano derretera da
mesma maneira em que o rosto de nosso adversário fazia a
cada segundo.
— Me solta! Dipp, socorr... — Tontom fora arremessado
contra a vitrine, o que lhe rendeu um grito sofrido assim que
suas costas fizeram uma enorme rachadura.
— Não! — Dipp corre em sua direção, mas é
rapidamente atingido por um quarto braço que surgira do meio
da barriga do vil ser azulão, que agora rugira em fúria.
Aparentava ser impossível de derrotar, não tinha pontos fracos,
cada pedaço de seu corpo estava protegido por algum membro
— sem contar a possibilidade de mais braços, ou até mesmo um
tentáculo, surgirem.
Os passos taciturnos seguiam até o punk, que agora se
punha novamente sobre seus pés. Era incrível como ainda
estava de pé, retirando alguns bottons que grudaram em seu
colete jeans quando fora arremessado. Nossa luz cessou quando
a pequena lanterna fora esmagada pelos pés monstruosos, mas
pude ver que o Megamoformo apanhara o alvo pelo braço, antes
que a escuridão nos abraçasse ante os gritos desespero de meu
amigo.
— Wallace! — berrei, antes que um clarão me fizesse
cobrir os olhos, ao mesmo tempo em que ouvi:
ZAP!
A luz privara que visse algo, mas senti cada minúsculo
pelo de meu corpo, desde cabelos até sobrancelhas se eriçarem
como se uma onda de eletricidade me atingisse, o que era bem
provável se constarmos que senti como se as solas de meus pés
saíssem brevemente do chão. Um relâmpago, vindo de algum
lugar, atingira a criatura, a petrificando no mesmo instante num
134
reluzir de queimar retinas, criando uma larga cavidade onde
antes se encontravam os dois braços salientes.
— Lampard! Puxe as cortinas! Tem um Megamoformo
morto aqui dentro! — reconheci instantaneamente a voz de
Bronco quando a porta se escancarou, trazendo de fora uma luz
que me cegou temporariamente.
O mestiço estalou os dedos, e eu senti minhas narinas
coçarem quando a mesma poeira verde presente em muitos
momentos, restaurou toda a loja da maneira exata da qual a
encontramos quando encarregados da tão desventurada tarefa.
Caí sobre meus joelhos ao ver os vultos de alguns motoqueiros
preocupados se aproximando enquanto minha visão se tornava
um redemoinho de cores e linhas.
Desmaiara, novamente. Porém, dessa vez, não fora uma visão
ruim.
Os olhos, inteiramente da cor do céu noturno, me
fitavam graciosamente enquanto uma mão delicadíssima de um
tom profundo dava apoio a um queixo que parecia ser esculpido
pelas mãos de uma divindade em seu dia mais inspirado. Seu
sorriso me trazia conforto enquanto ainda estava despertando.
— Às vezes me pergunto que fim iremos levar, sabia? —
disse em uma voz melodiosa, que vinha do fundo de meu
subconsciente. — Antes tudo costumava ser muito simples, na
verdade.
— Wallace! — instintivamente minha voz ecoou, mesmo
que não abrisse a boca.
— Meu pequeno garotinho... Como está lindo... —
mechas de um cabelo alvo e sedoso caía em caracóis sobre toda
a extensão de seus ombros reluzentes, desnudos apenas pela
renda de um enorme vestido branco. — Peço a você que cuide
bem dele, Jessica, pois eu não pude fazer isso. Meu pequeno
Wallace agora será procurado, assim como eu fui.
— Quem é você? — perguntei. Minha voz se esvaindo
como se o vento vindo do fundo branco levasse minhas palavras
suavemente.
— Ele despertou, e agora ninguém pode protegê-lo...
terá de aprender a lutar por conta própria, pois ainda dois
grandes desafios os esperam, minha querida.
— Do que você está falando? Por que estou aqui?
135
— Porque a você, Jessica Halley, está sendo dada a
missão de proteger o último nefiliano puro. A partir de... agora.
Um vento forte acometeu meu rosto, de maneira que minha
visão fora afetada.
Tentei esfregar os olhos, mas o clarão parecia impedir que
enxergasse algo realmente relevante, me deixando à mercê dos
meus sentidos, que sussurravam palavras doces como apenas
desista e se renda.
— Está correndo contra a direção do vento, Jessica
Halley... peço apenas que desperte!
— Jess! Jess! Acorda, cabeçuda! — senti uma mão
pequena e quente em minhas bochechas.
Ao abrir os olhos. Percebi que ainda não havia saído da loja, e
nem sido teletransportada para nenhum lugar sem meu
conhecimento. Meu desmaio durara apenas alguns momentos.
Wallace, com certa dificuldade, me carregava com um dos
braços, o que me fez corar a primeiro momento, e socar sua
barriga ao me afastar, depois.
— De nada — resmungou ele, limpando os braços.
— Agora faz todo sentido... — Bronco admirava a, agora
petrificada, criatura horrenda, ainda com um dos braços
estendido à frente do corpo, como se ainda carregasse o punk.
— Por isso o troco andou sumindo.
— Obrigada por nos ajudar e... Sinto muito pela loja —
estapeei os joelhos, me levantando ao apoiar na bancada.
— Nada que um pouco de magia não resolva. O que
importa é que vocês estejam bem. Derrotar um Megamoformo é
uma tarefa um tanto difícil, estou admirado.
— Espere, não foi você que...
— Chefe, os outros acordaram! — Hoss ajudava um
Tontom dolorido a se curar com um conjurar simples, o que
pareceu ajudar de acordo com sua expressão de alívio.
— Vocês precisam ir, Terêncio está esperando por vocês
— Bronco abriu um largo sorriso, que revelou um par de caninos
afiados. — E quanto a você, Silver, é uma honra te conhecer.
— É o que? — Wallace questionou, tirando com o
dedinho uma meleca do nariz.
— Espere — Dipp, acariciando a cabeça onde antes
possuía um galo, se pôs de pé ao nosso lado. — Mas e o Nimbus?
— Vocês já o tem. Tadeus, use o FastusPassus.
136
O motoqueiro com cara de buldogue se apressou em tirar de sua
jaqueta um graveto bifurcado, e apontou para nós como se dele
fosse sair um feixe de laser destruidor, o que me decepcionou ao
apenas estalar em faíscas enquanto o ar era preenchido por
pequenas fagulhas que giravam em torno de nós.
— Como assim nós “já o temos?”, isso não faz sentido!
Foi a única coisa que consegui dizer antes que Tadeus
arremessasse o FastusPassus para Wallace, que o agarrou ainda
no ar, ao mesmo tempo em que um redemoinho em chamas nos
envolveu, levando-nos à entrada da cidade de Marylin.
Lar doce lar.
Ficamos em silêncio por alguns momentos, ainda digerindo tudo
aquilo — ou tentando, da melhor maneira; se é que isso seria
possível. Enfim, desmontamos em risos.
— Ninguém acreditaria se a gente contasse o que tem
acontecido por esses dias, né não? — um Wallace ofegante ainda
se recompunha das risadas.
— Vocês são, sem sombra de dúvidas, os amigos mais
doidos que eu já tive — acrescentei, igualmente recobrando o
ar.
Wallace e os meninos arregalaram os olhos e me encararam por
alguns segundos.
— Somos amigos? — pergunta Tontom.
— É a primeira vez que alguém se arrisca tanto por mim
assim, eu... devo uma a vocês — sorri com o canto da boca,
sentindo minhas bochechas corarem ante um olhar fixo de
Wallace.
A fresta no sorriso malicioso do punk aparecera novamente, mas
dessa vez, não me causando revolta.
— Vejo que concluíram com êxito sua missão —
reconhecemos a voz rouca de Terêncio por trás de nossas
costas.
— E aí, velhote. Pois é, então... meio que não ganhamos
nada indo pra lá. Acho que o maluco da motona nos passou o
calote — Wallace responde, causando estranheza no mago por
sua irreverência. Mas pareceu não ligar.
137
Terêncio caminhou com certa cautela na direção do alvo,
e retirando um dos bottons remanescentes em seu colete, verde,
cujo desenho era uma rachadura e um relâmpago, disse:
— Isso é o Nimbus.
138
Capítulo xii
O elo dos Grígoras
W
ood permanecia com seus dedos inquietos tictapeando
sobre sua mesa de carvalho enquanto o discurso da
vice-diretora Romilda nos enchia os pacovás a quase
uma hora. Sobre eles, notei um luxuoso e minusciosamente
ornado anel de prata, com um símbolo ômega ao centro. Não o
havia reparado anteriormente, e nem consegui ver nada além
disso antes que a mulher vestida em um xale violeta estralasse
os dedos ante meus olhos.
— Está me ouvindo, senhorita Halley?
— Oi, hum, é... claro, senhora vice-diretora — respondi,
tentando enxergar Wallace de rabicho de olho.
A revolta na expressão do punk era notável, a julgar por
suas sobrancelhas franzidas e braços cruzados enquanto
encarava alguma coisa no teto. Talvez para não encarar Cole,
que forjava uma expressão de choro, com um queixo inchado do
tamanho de uma laranja.
Novamente confinados em meio a sala
desorganizadíssima conhecida como diretoria. Ainda mais
repleta de entulho de da última vez que a vimos.
— Vocês são a pior geração de delinquentes que eu já vi,
tenho certeza de que os pais de vocês se envergonham! —
prosseguiu a mulher, vez ou outra apalpando o cabelo.
— Senhorita Romil... — o diretor tenta sobrepor, mas ela
prossegue incessantemente.
— Em vinte anos trabalhando com organizações
educacionais, nunca vi uma classe tão desprezível quanto...
— Romilda, cale a boca!
Os lábios finos se comprimiram enquanto o queixo
escondido entre duas bochechas caídas se ergueu. Seus
olhinhos redondos e minúsculos sumiram entre as maçãs
inchadas do rosto.
139
— Halley... — ele esfregou a testa como se aquela fosse
a conversa mais exaustiva do mundo. — Qual é... É apenas o seu
segundo dia e você já se meteu em uma confusão novamente?
— Eu posso explicar! — protestei educadamente. —
Nós...
— Não dê ouvidosh a elesh, diretor — Cole interrompe,
quase não conseguindo ser compreensível. — Esses doish e
maish unsh outrosh nosh agrediram covardemente, merechem
ser punidosh!
O diretor lançou sobre mim um olhar cansado, cujos olhos azuis
gastos pareciam me inquirir até a alma.
— Vocês fizeram isso, senhorita Halley?
— Sim... diretor, mas...
— Tão vendo? Ela asshume!
— Qual é, Wood! Esses idiotas vieram em grupo tentar
me bater só porque ele perdeu a namoradinha, ou melhor, foi
babaca de trair ela e não aguentou as consequências — Wallace
agora punha os pés sobre a mesa do diretor, que pareceu não se
importar tanto quanto a vice-diretora.
— Silver, é de seu conhecimento que as normas não
permitem, inclusive, proíbem, atos de violência dentro das
dependências da escola, não é? — Romilda estala uma régua de
plástico nos pés do alvo, que os retira mostrando a língua.
Uma lâmpada se acendeu em minha mente.
— Não estávamos nas dependências da escola — disse
um pouco mais confiante, certamente com um sorriso ousado
entre lábios.
— Mentirosha! Estávamosh...
— Estávamos em um terreno baldio a mais ou menos
duas ou mais quadras do prédio da escola, ou seja, não
estávamos dentro das dependências, como a vice-diretora disse.
Agradeci ao bom Deus por minha mãe ser advogada.
— Issho é um abshurdo! — o rapaz se tornara ainda mais
feio quando nervoso, de sua testa repleta de espinhas,
esquivavam algumas gotas de suor, como em um rally. — Elesh
merechem sher exhpulshosh!
Romilda engoliu em seco antes de tentar argumentar a favor de
Cole. Ao que parecia, sua meta de vida era fazer com que, ao
menos uma vez, Wallace fosse realmente penalizado por seus
140
atos de vandalismo, o que lhe causou espanto quando Wood
disse:
— Você tem razão, Jessica.
— Mas, senhor diretor, como a diretoria de ensino vai
reagir se souber que nossos alunos...
— O que os alunos fazem do portão da escola pra fora,
Romilda, já não é nossa responsabilidade — sentenciou
enquanto esticava as costas com ambos os braços esticados para
cima. — Silver, Chavez, vocês vão acompanhar a senhorita
Romilda até a sala de detenção, e ficarão lá por uma semana
após o período de aulas, entendido.
— Shim, diretor.
— Tanto faz...
Antes que eu me levantasse para acompanhar os meninos, que
vez ou outra se ombreavam pela sala, tendo casualmente que
ser separados pela mulher baixinha e entroncada, o diretor
irrompe:
— Você não, Halley, sente-se novamente.
— Olha, eu sei que eu dei muito trabalho ultimamente,
mas... se me expulsar agora eu vou ter que me mudar de novo,
e...
— Sua mãe veio à escola ontem pela tarde.
— Minha... mãe? — tomei assento com uma das
sobrancelhas erguida.
Fiquei brevemente decepcionada por ela não ter nem entrado
em contato comigo.
— Ela me trouxe alguns documentos restantes enquanto
eu zerava Donkey Kong.
— Você não falou a ela sobre...
— Não, e nem pretendo.
Ao mesmo tempo em que um alívio me preencheu, um súbito
incômodo me veio à mente ao pensar que muitos outros delitos
poderiam ter sido negligenciados como esse. Como eu iria
confiar na segurança dessa escola se o diretor passa pano pra
absolutamente qualquer coisa?
— Fiquei sabendo que você fez parte do clube de teatro,
e que também foi redatora do jornal da escola, estou correto?
— Sim, senhor.
141
— Certo. Temos alguns planos semelhantes para o ano
que vem, e seria uma ótima chance de se redimir pelos
“incidentes” dos dias anteriores, não acha?
— Oh... — tentei fingir empolgação, mas meu nervosismo
me fazia tremer os lábios. — Claro, quer dizer, eu adoraria...
O diretor se levantou, e acariciando o anel prateado, pôs a mão
sobre o enorme quadro exibido logo atrás de sua poltrona. Com
um dos pés, afastou uma pilha de livros do chão e admirou a
obra com uma expressão vazia.
— Você provavelmente se pergunta “Porque esse diretor
é tão mole com os alunos?”, não é?
— Claro que não.
Claro que sim.
— A verdade é que... eu entendo os “delinquentes” — a
curvatura de suas costas me fazia querer arrumar sua coluna
por ele, pois me dava aflição. — Porque fui um.
— Ah... interessante.
Alguém me tira daqui!
— Cresci numa família muito rígida. Todos
frequentemente me lembravam de como vínhamos de sangue
nobre, e meus antepassados eram nobres cavaleiros, e que eu
deveria honrar seu legado, e não perder meu tempo com coisas
ridículas, como videogames.
Tirou de suas calças um chiclete mascado, cuja procedência não
ousei conjecturar, e se pôs a caminhar lentamente pela bagunça,
afastando a sujeira conforme passava. O silêncio da sala
evidenciava o odor terrível de frituras e chulé, o que privava
minhas capacidades respiratórias, me dando uma certa tontura
sempre que falava comigo.
Corra! — uma voz em minha mente gritava constantemente, mas
não iria simplesmente disparar dali enquanto o diretor da
escola abria seu coração — ou simplesmente queria desabafar;
o porquê seria comigo? Eu não fazia ideia.
— A graça da feminilidade trás aos mais rejeitados uma
esperança de ser alguém maior do que impõem sobre eles, como
se retirassem um fardo que, antes, os levava à perdição. Esse
quadro, senhorita Halley, é meu. Embora eu nunca tenha sido
bom entre os pincéis, a mulher da qual amei despertou em mim
142
não somente a delicadeza da arte, quanto me transformou por
completo.
Desde quando ele era tão sombrio e formal daquele jeito? A aura
se tornara tensa, como se cada órgão de meu corpo fosse
esmagado pela pressão de estar ante à própria morte. Seria
aquele o ponto chave de tudo isso? Ao mesmo tempo em que
tudo parecia se conectar, ainda muitas dúvidas iam e vinham em
minha mente, enquanto apenas um nome se tornava visível:
Angelina.
Meu estômago revirou enquanto minha cabeça
rodopiava em seu próprio eixo, fazendo com que tanto a figura
de Wood, quanto o quadro, duplicassem. Por alguma razão, a
aura do homem me trazia falta de ar, como se uma das mãos dos
Grígoras.
— Wallace parece gostar de você, senhorita Halley.
Seria interessante se isso o estimulasse a melhorar, assim como,
bom, eu fui.
Aquilo varreu meu mal-estar, o trocando imediatamente por um
misto de nojo e surpresa. Aquela nunca, em mil anos, seria uma
opção. Emudeci, enquanto senti o colar abaixo de minhas roupas
estremecer e se tornar gelado a ponto de queimar-me de leve.
Nossos ouvidos foram acometidos pelo tinido insistente
do sino que indicava a hora de irmos. Fora salva pelo gongo.
— Não vou te segurar aqui comigo, Halley, mas pense no
que eu te disse. Sei que Wallace é um bom garoto afinal.
— Certo... — disse segurando uma ânsia.
A cadeira bateu quando me levantei rapidamente, como se cada
passo em falso pudesse decidir o rumo de minha vida. Chegar à
porta parecia ser de importância vital, o que me trouxe um alívio
assim que girei a fechadura e pus parte de meu corpo para fora,
até que a voz do diretor novamente soou, como se ecoassem em
minha mente:
— Ah, e... diga ao mago que seus dias estão contados.
Ao me virar, vi seus olhos reluzirem em um azul místico acima
de um sorriso perverso que feria meus ouvidos em um zumbido
agudo.
143
Os corredores pareciam não acabar. Caçava entre a
manada de alunos que andavam despreocupadamente, algum
rosto familiar. Meu peito pareceu se descontrair ao enxergar
Dipp, Tontom e Ruffus próximo aos banheiros.
— Jess, o que houve? — Pergunta o maior.
— Dipp... — tentei me recompor, o ar me faltava ante as
tantas interrogações. — O diretor Wood, ele... é o Maltrapilho!
Capítulo xiii
Cara de um, focinho metálico de outro
T
io Harald não apresentou resistência quando pedi que me
levasse até a biblioteca, muito menos minha tia. Porém,
quem eu menos esperava, não me permitiu sair sem que o
levasse junto: D’Artagnan. Mordiscou meus jeans a ponto de
fazer neles dois pequenos furos ensopados em saliva de Pug, o
que, no momento de pressa apenas relevei, o tomando no colo e
ponto dentro do carro.
Nada de suspeito durante o percurso, mas minha mente
não ousava descansar após descobrir que nossa segurança
144
estava comprometida. Minha mãe estivera frente a frente com
alguém cujo poder pode extinguir toda a raça humana em
questão de segundos. E pior, agora, o ser da qual Terêncio
Stermfeld, autoproclamado mago mais poderoso do universo,
temia, sabia exatamente tudo sobre mim — o que em breve
poderia por meus tios, minha mãe, e até meu pai, em risco.
Quase uma semana havia se passado desde que cheguei,
entretanto, eu parecia ter cruzado uma linha da qual era
impossível retornar.
— Cabeça de abóbora? — a voz passiva veio do
retrovisor. — Está tudo bem?
— Tô! Digo, tô sim, tio, por quê? — minha testa suava a
ponto de tê-la que secar com as mangas do suéter.
— Está respirando bem alto, quer que eu abra os vidros?
— sua testa franzia-se enquanto um par de olhos preocupados
me acometiam.
— Eu... — respirei lentamente, segurando novamente as
pontas. — Eu tô bem, tio. É só... coisa de mulher.
Suas bochechas inflaram ao mesmo tempo em que ganharam um
aspecto avermelhado, o que implicou em apenas um balançar de
cabeça envergonhado. Aparentemente eu improvisara melhor do
que imaginava — pelo menos isso eu deveria agradecer à
Wallace.
Havia voltado diretamente para casa após à escola, onde
contei alguns dos meninos sobre o que o diretor Wood havia me
dito. A reação foi unânime em surpresa e desespero. Dipp
recomendou que não falássemos sobre aquilo, não ao ar livre,
onde Grígoras poderiam estar espreitando, e me disse que, no
dia seguinte, num sábado, na parte da manhã, deveríamos todos
nos encontrar na biblioteca por volta das dez horas. E lá estava
eu.
— Sabe que pode nos contar tudo o que precisar, não é,
Jess? — tio Harald chamara minha atenção em legítima
preocupação assim que abri a porta da Doblô e pus um de meus
pés pra fora.
Engoli em seco, e umedecendo os lábios, respondi:
— Alguns problemas eu preciso resolver sozinha, tio...
— fui retribuída com um sorriso penoso, seguido de um olhar
compassivo.
— Você é uma menina muito forte, sabia?
145
De minha boca escapou um longo suspiro. Não estava tão certa
de que, contra Maltrapilho, minhas forças seriam suficientes.
Me lembrei que, para meus tios, eu estava apenas passando por
problemas adolescentes. Tive desejo de que minha vida fosse
simples e pacata como antes pensei que seria.
— Jess.
— Oi, hum... oi, tio...
— Nós te amamos, tudo bem?
— Eu também amo vocês... — algo aqueceu meu
coração, me trazendo um trecho de uma viciante paz. — se
cuidem, ta bom?
Nos despedimos com uma troca de sorrisos, seguido de um
bater de porta e os sons dos pneus se dispersando para o meio
da rua, que pareceu ser o único som existente na vizinhança
posteriormente silenciosa.
O vento cortava meus calcanhares, que eram a única
parte acessível — me entupira de blusas por conta do frio
insistente vindo desde a madrugada, que me fazia sentir
saudades do calor acolhedor de Fort Colorado. Minhas luvas
roxas afastaram um cachecol de lã quando sorri para um
Wallace que esquentava as mãos com baforadas. Peguei
D’Artagnan nos braços e caminhei até a fachada.
— Os outros já estão lá dentro, tava só esperando por
você — disse ele após nos cumprimentarmos;
— Wall, eu sinto muito por te envolver em tudo isso, tá
bom?
— Do que tá falando? — passamos pela porta, deixando
os tênis ao lado.
— Você sabe... Por minha causa você agora é obrigado a
ficar me vigiando e correndo risco de morrer, o que, inclusive, já
aconteceu.
O punk abaixou um capuz, revelando seus fios platinados, que
pareciam ligeiramente mais brancos do que de costume,
enquanto um par de olhos cerúleos me fitavam de maneira que
fez meu estômago se sentir estranho. Parecia pouco mais pleno
do que quando o conheci, como se os traumas recém vividos o
trouxessem uma pontinha de maturidade.
— A vida é um tédio sem o risco de perder tudo,
cabeçuda — sorriu revelando uma fresta entre os dentes da
146
frente. — Agora, chega de papo furado. Terêncio vai nos
mostrar como o tal Nimbus funciona.
O graveto bifurcado surgiu nas mãos miúdas de Wallace
assim que a bancada se abriu, e entramos no labirinto assim que
as luzes das tochas se acenderam. Foi simples passar pela
biblioteca, mesmo com um cachorro — o que era expressamente
proibido —, pois a única alma vivente ali era a bibliotecária, que
lutava contra o editor de textos em um computador enorme e
empoeirado.
— Esse negócio é mesmo útil! — disse o alvo. — Com ele
a gente não fica dependente de nenhum mago pra passar pelo
labirinto.
— Bem interessante — tentei esboçar interesse.
Quando chegávamos ao fim do caminho, o objeto tremia
para alguma direção, e então dávamos a ele a ordem — que
frequentemente o punk confundia; pontos cardeais não eram
seu forte. O labirinto era muito mais assustador quando se
andava desacompanhado de um mago, contendo ruídos, sibilos e
sons que assimilamos como risadas longínquas — que faziam um
D’Artagnan em meu colo estremecer das patinhas ao rabinho —
antes de chegarmos à enorme porta de carvalho.
— Você não sabia de nada, é essa a verdade! — Nix
vociferava quando passamos pelo saguão, que agora era um
verdadeiro caos.
— Minha filha, eu...
— Assuma que errou, pai! Se o que eles disseram for
verdade, tudo estará comprometido! — os olhos de cor roxa
pareciam querer saltar do belo rosto da bruxa.
— Ora, bem-vinda, criança — Terêncio sacudiu seu
manto azul ao mudar de assunto e flutuar até mim. — Estávamos
esperando por você.
— Os meninos contaram o que você viu e presenciou,
Jessica — Mêrene surgiu timidamente de trás do mago, e baixou
o olhar enquanto contraiu o maxilar ao ver Wallace junto a mim.
— Oh, oi, Wall...
O punk não respondeu, apenas umedeceu os lábios e ignorou.
Seja lá o que houve naquele covil, o clima estava pesado a ponto
de parecer nos achatar assim que chegamos.
147
— Maltrapilho esteve escondido esse tempo todo, pai,
bem debaixo dos nossos narizes! — Nix, do outro lado,
vociferava ferozmente, tremendo o chão a cada estampido.
— Valente está morto, Nixandra! — rugira o mago,
criando um silêncio que calou até mesmo as vozes e ruídos nos
corredores do labirinto. — Eu mesmo vi sua alma sair do corpo!
Ele pode ter voltado em forma de espectro, ou como um Grígora,
mas não em um corpo novamente... se isso fosse verdade,
teríamos de enfrentá-lo novamente, e estou fraco demais para
um segundo embate.
— O senhor tem a mim e a Mors, podemos te proteger!
D’Artagnan latiu.
— Não contra ele... — o mago sentou-se no divã com as
mãos longas acariciando as têmporas. — Tivemos sorte da
última vez... estávamos em três, e eu estava no meu auge.
Porém, após tantos anos, já não estou certo de que
conseguiríamos.
— Wall! — Dipp e o restante dos meninos surgiu com
um punhado de guloseimas nas barras das camisetas. — Eles
têm uma cozinha mágica, sabia? Eu... Oh, péssima hora,
desculpe.
Terêncio esboçou um sorriso, mas grunhiu em um respirar
ruidoso.
— Se encontrarmos o Espelho, teremos três das cinco
armas primordiais — Mêrene pontua, evitando contato visual
com Wallace.
— O que são essas tais armas primordiais? — perguntei,
apoiando-me sobre uma coluna grega. — Acho que perdi essa
parte da explicação.
Mêrene estalou os dedos, e uma fumaça rala preencheu o ar, me
causando certa náusea. Percebendo, a bruxinha moldou com
suas próprias mãozinhas enluvadas em couro quatro figuras
crescentes que se tornaram, respectivamente, uma espada, meu
colar, um pequeno espelho sem borda e um arco.
— As armas primordiais são itens encantados forjados
pelo grande mago e cavaleiro, Humbros, que manteve a paz
entre humanos e arcanos por séculos antes de sua morte — ela
prossegue, solenemente.
148
Nix bufou, e andando até nós, complementou o que a bruxinha
dissera:
— Quando partiu desse mundo, Humbros trancou junto à
sua tumba a espada Foreshadow, a mais poderosa das armas
primordiais, com a condição de que, se um dia houvesse alguém
digno o suficiente, a empunharia após reunir as outras três
armas.
— O arco Nimbus, que tem o poder de matar qualquer
criatura viva existente com um simples contato com suas flechas
— Mêrene disse.
— O Espelho, que, por mais simplório que seu título seja,
concede a seu usuário a localização da espada e um poder de se
transmutar em qualquer coisa por alguns momentos — o mago
disse levitando uma pena.
— O Elo dos Grígoras, um anel poderosíssimo capaz de
convocar um poderoso exército das trevas conforme a vitalidade
de seu usuário.
— E o seu colar, pirralha, que é a chave de redenção.
Uma jóia que concede a quem usa uma sabedoria sobre o mundo
arcano e todas as criaturas místicas existentes — Nix finaliza.
Terêncio se põe de pé, erguendo deu tronco alongado e
estralando a coluna em diversos e infindos pontos.
— Se conseguirmos unir três das quatro, teremos uma
vantagem considerável, já que Enviei uma mensagem à Gládio.
Preciso que busquem o Espelho em Gladiarca.
Mêrene sufocou um suspiro, mas disfarçou quando se deu conta
de que Wallace estava olhando para ela.
— Mas, meu senhor, aquele lugar é repleto de...
— Eles vão ficar bem, Mêrene — Nix a censura, fazendo
com que a pequena apenas contraísse seu maxilar e
permanecesse em silêncio.
O mais importante a se considerar era que, não
estaríamos seguros, independentemente de onde, agora que
Maltrapilho me tinha na palma da mão.
— Maltrapilho sabe tudo sobre mim, acabei me tornando
um alvo também, sem contar que meus tios estão cada vez mais
desconfiados de mim por conta desses sumiços e aparições
repentinas.
149
Terêncio riu, prazeroso, como se estivesse esperando o
momento da qual eu fosse dizer isso.
— jovem Britto, mostre o que construímos — ordenou a
Ruffus, que rapidamente correu até uma cortina ao fundo, que
dava acesso à cozinha de onde os meninos vieram.
Em alguns instantes passos metálicos foram ouvidos até
que um enorme chapéu de cozinheiro surgisse da cortina,
revelando uma cabeça que mais se assemelhava a um pequeno
velocímetro, cujos olhos brilhantes exibiam um brilho neon
futurista, enquanto os sons de suas dobradiças retiniam ao ser
empurrado pelo loiro.
Pensei que nada mais faria menos sentido do que toda aquela
aventura até que Ruffus arrastou um robô até o centro do
saguão, que se mostrava descontente, lutando para estar
novamente entre as panelas.
— Você está BIP louco, menino? BIP — uma voz no estilo
E.T parecia provir de um sintetizador dentro de seu corpo
reluzente e prateado.
— Jess, Wallace, eu vos apresento: Pepper-one! O
primeiro robô capaz de formular pensamentos e aprender por
conta própria! — Ruffus parecia tão radiante, que nos
esquecemos que era tímido.
Passaram alguns minutos em faniquitos pelo novo
“brinquedinho” até que Nix os controlasse. Terêncio parecia
partilhar da alegria dos meninos, porém com muito mais
discrição. Homens são tão simples.
— Bom, eu não vejo como um robô resolveria meus
problemas, mas sem sombra de dúvidas é bem impressionante
— eu disse.
— Pepper-one tem um recurso muito interessante que o
jovem Britto teve a ideia de acrescentar, o que acho que pode
ajudar nos dias em que estiverem fora, já que nenhum de nós
magos podemos sair do covil — respondeu o mago.
Pepper-one soltou um TIC , e depois um BIBOM e então uma
poeira verde arcana o envolveu, fazendo com que eu
permanecesse de frente... comigo mesma?
Os olhos verdes radiantes, cabelos ruivos que ondulavam
levemente nas extremidades, um sorriso gracioso e um nariz
150
delicado — tal como as roupas sem combinar e All Stars roxos
—, aquela era eu! Porém, uns cinco centímetros menor.
— Santo Deus! — saltei para trás, fazendo um crucifixo
com os dedos.
— Impressionante BIP, não é? — disse minha sósia, com
o mesmo tom de voz agradável.
— O único detalhe é esse tique, que o faz dizer “Bip” a
cada minuto, mas... ainda estamos trabalhando nisso — o loiro
estufou o peito, orgulhoso de si.
— Ruffus, isso... é incrível... — toquei as bochechas
macias de Pepper-one, completamente chocada com sua
perfeição. — Como você fez isso sozinho?
— Oh, ele não fez sozinho — Nix sobrepõe, bufando
como sempre fazia. — Meu pai e ele estão desde as seis da
manhã construindo essa coisa. Pelo que entendi, é o que
acontece quando se junta magia e tecnologia.
— Estou orgulhoso do quão sábio o jovem Britto é, ele
seria um ótimo mago, se tivesse nascido um.
— Ele pode aprender alguns truques, né? Tipo torção
testicular — Tontom sugere.
— Pela última vez, moleque, não existe feitiço de torção
testicular! — brada Nix, já sem paciência.
— Pois eu vou inventar um.
Todos riram tanto — exceto Nix — que nem perceberam
que Mêrene sumira, o que me causou certa preocupação. Mas
não podíamos demorar muito, agora que sabíamos o que
tínhamos que fazer.
— Dust vai buscar vocês assim como da última vez,
estejam preparados — disse Terêncio, enquanto os meninos
aplaudiam Pepper-one fazer malabarismo com duas três
panquecas e duas frigideiras.
— Aí, tio, me fala um negócio — Wall se dispersa dos
outros, carregando D’Artagnan como se fosse um rocambole. —
Aquele tal Nimbus. Vocês disseram que ele é um arco, mas...
meio que eu não vejo como um botton pode atirar flechas.
Terêncio se deixou levar pelo riso assim que limpou a garganta.
— Me esqueci de dizer a vocês. Alguns itens mágicos
são, por muitas vezes, disfarçados com feitiços, por serem
chamativos demais, ou difíceis de carregar. Olhe.
151
O mago prendeu o botton verde com desenho de raio no manto,
e no mesmo momento, diante de nossos olhos, um arco
gigantesco, ornado em ouro fino, cuja corda era um relâmpago
bruxuleante, surgira em sua mão. O Pug se agitou nos braços
de Wallace — certamente ativar armas mortais arcanas na
frente de cachorros não era uma boa ideia.
— Oh, me desculpe, Mors... — disse o mago, mesmo sem
eu saber a quem ele se referia. Preferi entender que “Mors” era
o nome dos Pugs no mundo arcano.
Não fomos teletransportados. Dessa vez, Terêncio nos
acompanhou até a fachada, onde a bibliotecária fechava
tranquilamente a porta da frente, se despedindo de nós com
uma admirável naturalidade mesmo ante a presença
extravagante do místico.
Pepper-one se transformou em um adolescente genérico,
com touca de lã vermelha, moletom sujo e jeans maiores que o
número acima de chuteiras — que carinhosamente apelidamos
de Norman —, o que não atraiu suspeita nenhuma de tio Harald
ao chegarmos em casa todos juntos de carona. Norman se
transformou em mim, e enquanto Tontom e os meninos
enrolavam meus tios. Tomou meu lugar, tentando segurar seus
bipes.
— Contanto que não te vejam, tudo vai correr bem. O
cabeça de lata ali vai dar conta do recado — Wallace disse
enquanto nos escondíamos atrás de casa.
— Bom, eu só preciso de um lugar pra ficar até de
madrugada. Posso ficar na sua casa?
— Ih, acho melhor não... Meus irmãos tão lá ainda, e vão
ficar te enchendo de perguntas idiotas e também piadinhas sem
graça.
— Relaxa, é só dessa vez, eu não faço muita questão de
te visitar mesmo — percebi que fora grossa, mas ele
aparentemente levou na esportiva, pois riu.
— Você é quem sabe. Vamos logo, sua tia está vindo tirar
o lixo!
152
Capítulo xiv
Gladiarca
w
allace não havia me contado até aquele momento que tinha, não
só um, mas três irmãos mais velhos. Porém, como uma sátira do
universo, eles eram o total oposto do punk. Sua família era, sem
nenhum esforço, tudo o que eu um dia sonhara que a minha
fosse. A casa certamente nunca ficava silenciosa por muito
tempo, o que me fazia questionar o quão feliz fora a infância do
alvo, e o que o levara a ser daquele jeito mesmo sem nenhuma
influência.
— Bom, então... a quanto tempo estão namorando? —
perguntou a mais velha dos quatro.
— Eca! — me contive após deixar isso escapar. — Quer
dizer, hum, nós não estamos namorando, senhorita...
— Sem namoro então, tá tudo certo! — ela ergueu as
mãos como em rendição, abrandando o clima com um humor
suave que me fez sentir mais confortável. — E pode me chamar
de Dora, embora eu seja linda e jovem, já tenho alguns bons
anos nas costas.
153
O sorriso impecavelmente branco decorava um rosto
firme quase intocado pelo tempo, cujos olhos constantemente
alertas de um azul pouco mais profundo que os de Wallace, me
traziam uma paz inexplicável. Era alta, esbelta, possuía ombros
largos e mãos fortes que sem sombra de dúvidas me quebrariam
facilmente ao meio. Todavia, sua graça e delicadeza podiam ser
vistas enquanto arrumávamos a mesa para o jantar, onde vi, em
sua mão esquerda uma belíssima aliança de ouro.
Diferentemente de Wallace, seus cabelos eram de um castanho
tenro e cintilante, que pouco era evidenciado quando preso em
um coque desajeitado ou em temporários rabos de cavalo. Me
questionei como Wallace ainda era o único feinho da família,
pois os outros dois eram de proporcional formosura.
— Foi você quem ligou aqui a um tempo, não é? — disse
uma voz aveludada por trás de minhas costas, antes que me
virasse e corasse com o que vi.
Era, sem a mínima dúvida, o homem mais lindo que eu já
vira. Sua postura ereta e confiante lhe trazia um ar de comando
frequente, porém seu comportamento gentil e doce lhe dava
características cujos atos nos faziam sentir em máxima
segurança em sua companhia. Era alto, robusto, de cabelos
curtos e escuros, olhos de um âmbar amadeirado, que reluzia
quando a luz vinda das janelas os acariciavam.
— Oh, hum... é, sim, eu... Fui eu sim —
involuntariamente corei, sentindo queimar as orelhas e palmas
das mãos.
— Eu achei estranho mesmo, é mais fácil chover
cheeseburguers do que Wally arranjar uma namorada. Com essa
carcaça é um pouco difícil — caçoou um terceiro, de beleza mais
despojada.
O último deles tinha uma beleza um tanto quanto
discreta, mas impossível de se negligenciar. A cabeça
parcialmente raspada e o físico tonificado me traziam o pré-
conceito de que era esportista, o que era confirmado pelas
roupas de corrida largas e os tênis plataforma — o que o
diferenciava tanto quanto Wallace, enquanto os dois mais velhos
preferiam a sobriedade de uma boa e velha camisa flanelada
xadrez. O sorriso malicioso comprovava seu parentesco com o
punk, porém uma fileira de dentes perfeitos me fez pensar que
eram abençoados de nascença.
154
Eu, que me acho a garota mais atraente do universo, senti uma
leve pressão que a beleza natural daquela família irradiava.
Wallace, emburrado, de braços cruzados, nos encarava com um
bico ao canto da mesa até que se revoltou:
— Cale a boca! Aqui calvo não opina! — sua pequena
mão estapeou a mesa ao se levantar bruscamente.
— Eu tenho um físico maneiro, um carro e uma
namorada, tampinha. E você, tem o que além de uma decepção
amorosa com aquela ruivinha e uma magrela velha?
— Eu vou quebrar seus dentes, seu...
— Chega! — o irmão do meio agarrou o ombro do careca
tão firme que o vi estremecer com o simples sobrepor de mão. —
Papai e mamãe logo vão chegar da igreja, e eu não quero
nenhum tipo de gracinha, discussão ou desavença entre vocês
dois. Ultimamente nós mal nos vemos, então façam com que os
encontros sejam minimamente agradáveis, por favor.
— Peça pra ele parar, o Gib não consegue passar cinco
minutos sem fazer a sala feder de tanto que fala merda!
— Wally, já chega — Dora direcionou ao pequeno um
olhar de censura, em uma mistura de repreensão e serenidade.
O punk revirou os olhos e se arremessou sobre a cadeira
apoiando-a com apenas dois pés, enquanto o outro, debochando
do mais novo, voltou a me encarar sedutoramente — o que,
inconscientemente me fez exibir um sorriso falso e sem graça.
— Mas que surpresa mais maravilhosa! — do arco que
dividia a sala da cozinha, uma voz feminina nos surpreendeu. —
Vocês estão tão lindos, vejam só!
Todos — excedendo o alvo — se levantaram e abraçaram uma
pequena mulher de cabelos curtos e ondulados que trazia um
conjunto tão aglomerado de sacolas de compra que me fez
questionar sua capacidade física. Vestia um modesto vestido
azul marinho e um bolero de renda.
— Seu pai e eu passamos no mercado pegar algumas
coisinhas restantes antes de voltar pra cá, por isso... Oh, olá! —
seus olhos redondos rodeados de rugas que evidenciavam o tom
noturno, me encontraram — Quem, digo, a que devo a honra de
sua visita, garotinha?
— Ela é uma amiga de Wally, mãe, aparentemente nosso
pequeno furacãozinho está ampliando seu círculo social além
155
dos membros da banda — riu Dora enquanto o outro irmão
maior passava a ela uma jarra com suco.
— Não me chame assim, mana! — corou o punk,
escondendo o rosto entre os dedos. Não pude evitar rir um
pouco, cobrindo minha boca ao mesmo tempo que os outros.
— Isso é... maravilhoso, meu bem — uma prévia de
preocupação surtiu brevemente entre o sorriso acolhedor da
mãe, antes que sorrisse para mim novamente.
— Céus, April, a graxa para sapato vazou sujando todo o
assoalho , depois vou precisar usar a... Oh, temos uma visitante?
— um homem de meia idade irrompeu em meio à nossa conversa
limpando as mãos em um pequeno lencinho que tirara de seu
terno.
Olhos idênticos aos de Wallace se arregalaram em sua
expressão idêntica à do filho — era como se eu vislumbrasse o
punk dali a uns vinte anos, porém muito mais civilizado e com os
cabelos grisalhos, cujas costeletas eram muito mais longas.
— Você deve ser a namorada do meu filho, não é? Muito
prazer! Me chamo Patrick, sou pai dele. Qual é seu nome? —
disse ele, jovialmente agarrando uma de minhas mãos e
chacoalhando de modo que tive que puxá-la. A fragrância de seu
perfume amadeirado parecia querer me sufocar.
— Jessica... — balbuciei.
— Muito bem, Jessica. Seja bem-vinda à família. Somos
simples, mas muito bem-humorados e unidos. Espero que goste
de nossa companhia — sorriu, revelando covinhas e uma fresta
nos dentes idênticas às do punk.
Apenas desisti de explicar, enquanto os outros
sufocavam um riso ao nos ver corando ante a “união de última
hora”.
Quando todos se sentaram, senti o aroma dos perfumes
se misturarem ao da refeição, que parecia apetitosa. Pude
finalmente reparar que as cortinas com muitos desenhos de
vaquinhas caíam sobre uma pia de mármore que se estendia
lateralmente, onde a louça recém lavada ainda secava sobre a
brisa proveniente de uma janela, onde se via o sol poente. Era
uma casa confortável, embora — como dissera Patrick —
simples.
156
— Acho que nem todos nos apresentamos direito — disse
o irmão bonitão. — Me chamo Owen, e esse careca aqui é o
Gibson.
— A propósito, me chamo April, Jessica — a mãe sorriu
para mim gentilmente enquanto despejava ervilhas no prato de
um Wallace carrancudo. — Mas então, como se conheceram?
Obviamente eu não diria algo como: Oh, nos conhecemos na
enfermaria, onde logo após quase fomos mortos por um ogro
samurai. Ah! E sem contar a vez em que ele morreu! Da última
vez que vi os pais dele, estavam flutuando sobre uma poeira
encantada de fumaça, desmaiados! Teria de inventar algo,
porém quem era especialista nisso se preocupava apenas em
partir um bife com muito esforço a ponto de suar — Wallace.
— Nos conhecemos na escola, ele... quis entrar para o
clube de teatro — menti. O alvo ergueu uma das sobrancelhas
para mim quando seus olhos azuis quase saltaram das órbitas
como quem dizia Do que você tá falando?
— Uau, Wally! Teatro? — Patrick agora pendurava seu
paletó sobre o braço da cadeira onde estava. — Está expandindo
seus dotes artísticos?
— Hum, bom, é — respondeu ele, cabisbaixo e
completamente rosado. Era estranho vê-lo quieto.
Pareceram instantaneamente compreender que ele não queria
comunicação com absolutamente ninguém. Mas, por quê?
Embora fossem um pouco... espalhafatosos demais, eu diria,
eram ótimas pessoas, de agradável companhia. O que de tão
errado se passava na mente daquele punk?
— Achei que depois da Violet ele nunca mais traria
ninguém aqui — inflamadamente pontuou Gibson, sob a
inesperada desaprovação de todos
— Tinha que abrir a boca — bufou Owen.
— Meu bem, espere, ele...
Wallace encostou sua cadeira sobre a mesa, e sem
nenhum comentário, se retirou após deixar o prato ao lado da
cuba prateada abaixo da janela. O clima se tornara pesado assim
que ele cruzou a sala e seguiu até os fundos, onde deduzi ser
seu quarto. Não ousaram falar mais nada, exceto por Gib que
tentava instigar em nós uma vontade de rir que somente ele
tinha.
157
— Me desculpe, Jessica, nosso... nosso Wally não é assim
sempre... — disse com pesar o pai do garoto.
— Me perdoe tocar em um assunto delicado, mas... quem
é Violet?
Os olhares a minha volta me fizeram sentir como se um grupo de
holofotes fossem direcionados ao meu rosto, me obrigando a
admirar mais uma vez meus All Stars roxos.
— A alguns anos atrás, Wallace trouxe uma garota pra
cá dizendo ser sua namorada, e o nome dela era esse — Dora
responde, enchendo suavemente seu copo. — Ela era muito
radical. Nosso pai não gostava de como ela não respeitava
nenhuma autoridade, odiando e xingando a tudo e todos. Uma
verdadeira punk.
Assim como Wallace, pensei.
— Depois de um ano juntos, ela e o irmão mais velho
simplesmente sumiram — continuou Owen, ainda de boca cheia.
O que foi repreendido por April. — Desde então, Wally vem
sofrendo muito, e mudando drasticamente a cada ano que passa.
— Eu já não o reconheço mais... — concluiu a mãe. —
Suas roupas mudaram, comportamentos... já não resta mais
nada do garotinho que dizia colecionar meteoros que
conhecíamos.
Wallace já fora diferente? , tentei conjecturá-lo em roupas
casuais, com um moletom simples ao invés de uma jaqueta jeans
surrada, e tênis esportivos ao invés de botas de couro. Mas era
como tentar imaginar o paraíso: impossível.
— É uma fase de mudanças, April — acrescentou
Patrick, se levantando e deixando com que a água da torneira
caísse sobre seus talheres usados. — Vivo dizendo a eles,
Jessica, que o que precisamos fazer é mostrar que estamos
sempre aqui quando precisar.
— É muita gentileza de sua parte, senhor Silver —
respondi cordialmente. — Meus tios não teriam essa concepção
se eu mudasse de comportamento tão drasticamente. Minha tia
provavelmente me colocaria para dormir com o cachorro.
Só o devaneio de uma bronca de tia Betty me fazia ter calafrios.
— Wallace vem nos falando sobre você, meu bem. Só não
esperávamos que viria tão cedo — disse April.
158
Ele... falou de mim?
Poucos minutos depois, cada um deles se dispersou pela
casa. Em frente à TV, ao lado do rádio, em algumas poltronas ou
até pelo chão. Insistiram para que eu fosse verificar se o caçula
estava bem, indicando-me que seu quarto ficava do lado de fora
da casa — de acordo com eles, pois em um belo dia, decidira que
queria ter um quarto só pra ele, enquanto ainda os mais velhos
moravam ali.
Alguns quadros sobre as paredes verde-oliva mostravam
momentos felizes que os Silver tiveram ao longo do tempo. Vi
Dora vestida em uma beca ao lado de sua família, Gibson ainda
criança e desdentado segurando uma enorme bola de baquete
com shorts maiores que seu número, Owen montado em um
pônei, e por fim...
Os pezinhos como pequenas bisnaguinhas apoiavam um
corpinho que mal se sustentava acima do sofá. Sua barriguinha
de umbigo saltado era visível na brecha deixada por seu pijama
de dinossauros azul, apenas ornado por uma enorme máquina
fotográfica que cobria seu rostinho, revelando apenas um cabelo
desarrumado e branco como a neve. Era Wallace, a muito tempo
atrás.
Estava sempre tão elétrico, sempre tão ativo e agressivo com
qualquer mínima coisa, a ponto de se irritar pelo tempo de
espera de uma torradeira, que era difícil imaginá-lo como um
bebê tranquilo e risonho.
O vento no exterior me fez esfregar as extremidades dos
braços ao fechar a porta atrás de mim, diante do quintal que se
estendia como um tapete de grama, cujo único preenchimento
era uma pequena casinha, da qual uma luz amarelada parecia
vir do interior. Ousei entrar, me espantando com o que vi.
Esperei ver meias jogadas por todos os cantos, pôsteres
com mulheres seminuas e embalagens de doces variados — em
suma, uma miniatura da diretoria. Porém minhas preconcepções
foram abaladas ao me deparar com um lugar minusciosamente
organizado. Uma cama se encostava ao canto direito do pequeno
cômodo, que era iluminado por um pendente com uma lâmpada
159
de luz amarela, que trazia sobre os quadros — todos com
imagens de foguetes, sistemas solares e constelações — um
aspecto vivo. Sobre uma pequena caixa de som no canto oposto,
estava uma jaqueta de couro amarela e preta, displicentemente
jogada, como se recém posta, cujas costas, quando conferi,
tinham o nome Os Cabeças-Ocas mas em uma letra melhor que
a de Wallace.
— Wall!
— Eu tô aqui! — respondeu uma voz acima de minha
cabeça, do lado de fora.
— Como subiu até aí?
— Tem uma escada ali — apontou para uma saliência
que não reconheci em meio ao escuro, mas que logo avistei os
degraus.
O cômodo não tinha telhado, era um bloco de concreto,
que originalmente seria usado para guardar ferramentas ou
qualquer outra quinquilharia. Acima dele, se estendia um céu
estrelado que nunca antes eu percebera — talvez porque em
minha casa não tivesse tamanho espaço livre.
— O pessoal não gostou muito da sua saída — disse eu,
me sentando distante dele.
— Eles nunca gostam de nada. Garanto que explanaram
toda a minha vida pra você — não me olhou nos olhos, mantendo
seu queixo acima dos braços apoiados aos joelhos.
— Sua família parece legal, quer dizer, eles ao menos
estão juntos, né? Você tem um pai e uma mãe que se amam,
irmãos... Sabia que eu sempre quis ter irmãos? — tentei animá-
lo, me aproximando.
— Você desiste da ideia quando precisar dividir uma
festa de aniversário — respondeu Wallace. Não consegui evitar
rir.
— Posso te pedir uma coisa, Jess? — o punk virou seus
olhos azuis brilhantes para mim, enquanto, por alguma razão,
senti um desconforto no estômago.
— Claro, dependendo do que for.
— Não fale a mais ninguém sobre o que ouviu hoje, tá
legal?
— Bom, eu já não ia mesmo.
— Obrigado — o alvo suspirou — April vive tentando
convencer meu pai a me mandar para uma escola militar. Na
concepção dela, um lugar com regras me faria ser “perfeito”
como os meus irmãos.
160
— Tem inveja deles, não tem? — questionei, me pondo a
seu lado.
Mordeu os lábios, mas após bufar, assumiu:
— Tenho... — aquilo pareceu lhe doer mais do que
deveria. — Eles sempre foram mais, “mais”, entende? Crescer
sob uma sombra não é lá tão agradável.
— Isso é bem irônico, vindo de você — brinquei, na
esperança de fazer o clima abrandar.
— Vai se ferrar — o punk riu enquanto chacoalhava a
cabeça. Após um silêncio, prosseguiu, mesmo sem que eu o
perguntasse. — Sabe, enquanto estive morto, até que vocês me
levassem até o covil, eu pude pensar, por alguma razão.
— Não brinca...
— Tô te falando — ele estapeou os próprios tênis,
limpando um pouco de terra. — Pensei em como meu pai
reagiria à notícia, e como ele seguiria daqui pra frente.
— Você é muito apegado a ele?
— Eu era. Nos afastamos quando ele casou com a April.
— April.... não é sua mãe? — perguntei, apoiando-me
sobre meus braços e contemplando o céu aberto enquanto a
brisa nos esfriava.
— Minha mãe biológica morreu quando eu tinha quatro
anos. Não lembro muito dela, mas meu pai diz que ela era muito
apegada comigo. Dois anos depois, April o conheceu na igreja, e
desde então, os gêmeos e o careca vêm sendo como se fossem
divindades; e eu, fiquei de escanteio.
— Sei como é... Meu pai também me deixou “de
escanteio”. Ele traiu minha mãe com uma modelo bonitona na
Irlanda, e depois disso ela também quis se livrar de mim — não
tinha certeza de que era seguro me abrir para ele, mas sua
vulnerabilidade me comoveu.
— Que babacas.
— Pois é... As vezes eu me culpo por pensar demais nele,
sabe? Mas é meio que impossível não pensar demais em alguém
que foi... seu porto seguro por uma vida toda, entende? — disse
eu, afastando uma mecha para trás da orelha.
— Sei lá... é como dizem, né? Quem pensa demais, talvez
ame demais — sua fresta entre os dentes ficou visível por alguns
instantes.
Wallace, por mais incrível que pareça, começara a ser uma boa
companhia.
161
— Mas... — pigarreei. — quanto àquela tal de Violet,
vocês...
— Fogo...
— Peraí, sério? Vocês dois eram tão apaixonados assim?
Tipo, eu entendo que paixão seja ardente, mas vocês eram meio
novos, não eram?
— Não, idiota, fogo! — o punk virou meu tronco para
que visse além da cerca, onde uma nuvem de fogo vinha em
nossa direção em alta velocidade.
Descemos do cômodo depressa ao reconhecer os roncos
exagerados do fusca de Dust. E falando no diabo, este acenava
desesperadamente para nós, que nos apoiamos sobre a cerca,
vendo os outros membros da banda no interior. Quando os
Foguslinxs cessaram seus rugidos, a voz do motorista sobressaiu
o som da alta conversa no interior da casa de Wallace.
— Chefia, temos que apressar os passos! — interpôs ele.
— Dust? O que aconteceu? — perguntei, apoiando meus
pés em uma caixa de madeira.
— As linhas convencionais estão todas lotadas, o mundo
arcano entrou em quarentena!
— Que porcaria de conversinha é essa, seu maria-mole?
— Wallace voltara a ser estúpido.
— Recebemos o alerta vermelho de que Maltrapilho está
encarnado, e isso paralisou toda a nossa frota, está tudo um
completo caos! Vim até aqui porque o senhor Stermfeld me
pagou um bom dinheiro extra! — o motorista deixava com que
algumas gotas de suor deslizassem sobre seu nariz rosado. —
Precisamos sair imediatamente, ou não conseguiremos chegar
até outro portal!
— Mas todos vão ouvir se sairmos! O que aconteceu com
sua discrição?! — senti meu coração errar as batidas em
nervosismo.
— Jess, o mundo tá a ponto de explodir, e nós estamos
na linha de frente. Cê acha mesmo que a opinião de algumas
velhas fofoqueiras realmente importa?! — Wall desceu da cerca
e abriu, com um solavanco, uma passagem entre as tábuas, da
qual ele facilmente passou. — Ande! Você não quer virar
papinha de Maltrapilho, quer?
— Eu te odeio... — resmunguei antes de passar pelas
tábuas erguidas e me sentar no banco dianteiro do fusca, que
roncou ferozmente antes que fôssemos rodeados de chamas e
sumíssemos no horizonte.
162
Me espantei ao sentir um passageiro clandestino fazer
xixi quente em meus pés. D’Artagnan, que mal sabia andar,
estava conosco em uma máquina mortífera de velocidade. Como
e por que estivera ali? Ninguém conseguiu me responder. De
acordo com eles, quando se deram conta de que o traziam, já
estavam longe demais para voltar. Por hora, teríamos de levar o
pequeno e incômodo corpudinho conosco.
— Gladiarca, não é? — perguntou Tontom, se apoiando
sobre o banco do motorista. — Não me parece lá um nome e um
Resort de Férias ou um Hotel cinco estrelas.
— Vocês vão para Gladiarca? Puuuxa! Que o Criador os
tenha! — Dust fez uma breve reverência, como Terêncio uma
vez fez ao citar os mortos.
Não tivemos tempo de perguntar a razão daquele
comentário tão animador antes que chegássemos a uma rodovia
deserta, cuja tira de concreto se ascendia com os postes
enfileirados até o horizonte infindo. O motorista apenas abriu as
portas, e com um feitiço convocou uma leve ventania que nos
apressou para fora do veículo, caindo de traseiro no chão.
— Bom, foi um prazer conhecer vocês! — disse antes de
sumir em um clarão flamejante, que se desfez pouco a pouco em
uma trilha de queimaduras no solo.
— Prazer em conhecer? — Ruffus estremeceu.
— Relaxa, Ruff, a gente vai ficar bem — Wallace o
acalma. — Outro banheiro químico? Bronco também sabe onde
essa Galdi... Gladio... Galadi... Dêbukzondeteibou, fica?
— Só vamos saber quando entrarmos — Tontom parecia
mais com pressa que temeroso.
— Deve ser a mesma coisa que da última vez — Dipp,
que bufava em suas mãos enluvadas, disse.
— Bom, mas... quem vai puxar a fila? — A pergunta de
Ruffus pareceu nos calar por alguns segundos.
Nos entreolhamos.
— Damas primeiro, heh... — Wallace se curvou numa
falsa etiqueta, sinalizando o cubículo azul e branco.
— Seu calça-frouxa... — murmurei irritada enquanto
abria a porta do banheiro e me sentava na privada.
— Nos vemos do outro lado — cantou Tontom com uma
voz de fantasma.
163
Ao puxar a corda da descarga, instantaneamente senti
como se as paredes de plásticos fossem arremessadas em um
forno gigante, pois minha testa começou a jorrar em suor como
se toda a água de meu corpo pedisse as contas. A porta se abriu
sozinha, e algo do qual eu não desejei ver nunca mais em minha
vida se dirigiu a mim em um assombroso Olá!
Bradei em desepero, meu peito doeu como se me tivessem
esfaqueado no lado esquerdo. Onde estariam os outros?
A mão gigantesca continha mistos entre dedos de
humano, mago e ogro, segurando na outra semelhante uma
enorme lança prateada, cuja ponta me fazia ter falta de ar só de
imaginar o estrago que faria em carne humana. Não era gente,
nem monstro, e sim, algo pior. Vários dentes tortos em múltiplas
direções decoravam um horripilante sorriso em um rosto que
mais parecia um conjunto de dobrinhas na nuca de um idoso. E
o mais estranho de tudo isso, é que vestia uma camiseta regata
com a frase Eu sou o docinho da mamãe.
Ao pôr meus pés sobre o solo pedregoso, meu All Stars fez um
som chiado enquanto o ergui com as mãos para ver o que
acontecera. O monstro até ali não me atacara — pelo contrário,
surpreendentemente, fora extremamente educado —, o que era
um vislumbre de um possível bom sinal. Mas minha
tranquilidade durou pouco ao perceber que a sola de meu tênis,
no lugar onde tocara o chão rochoso, derretera.
Mais outras criaturas humanoides vestidas como se
tivessem acabado de sair de um Mosh Pit — com jaquetas de
couro espinhadas, botas de cano alto e regatas de manga
rasgadas —, desenrolaram um tapete vermelho que rolou diante
de mim até os pés de uma mulher, que desde o início me
observava com um par de olhos frios e analíticos.
Vestia-se elegantemente dos pés à cabeça, escondendo sobre a
renda de um enorme chapéu de abas redondas acima um
belíssimo rosto de cor pálida e bruxuleante. Ao seu redor,
surgiram muitos outros seres humanoides, até que me dei conta
de que estava cercada por dezenas, centenas, milhares deles.
— É um prazer te conhecer, Jessica Amberly Halley —
disse ela, elegantemente enquanto sua voz ecoava sobre toda
164
uma escuridão, alumiada apenas por um clarear de chamas
vindas de um lugar desconhecido.
— Quem é você? — perguntei, ousando pisar no tapete.
— Meu nome é Madame Gládio — ela riu brevemente. —
Seja bem-vinda à Gladiarca.
165
Capítulo xv
A escudeira de cabelos ruivos
S
eus olhos ardiam como se em chamas, o que me trazia o
vislumbre de um sentimento de desespero, como se sua
mera presença me fizesse temer pela vida. Olhos cruéis,
de quem um dia não poupara a vida dos aflitos, e assim
os executara.
Madame Gládio era dona de um rosto de aspecto afiado,
com maçãs do rosto pontiagudas junto a um nariz proeminente
que lhe trazia uma amedrontadora elegância. Vestida em gala
dos pés à cabeça, cuja cor escarlate a fazia parecer se misturar
ao cenário soalheiro, cuja fumaça exalava de pequenas crateras
no chão abaixo dos pés das criaturas monstruosas humanoides
que me cercavam, admirando espantados alguém sem mais
pares de braços ou quantia exorbitantes de olhos.
— Meus amores, afastem-se, por gentileza, estão
intimidando nossa convidada. Voltem aos treinos, logo estarei
com vocês, meus amores — caminhou tão suavemente até mim
que pensei estar flutuando, sob um vestido que nem se sujava ou
chamuscava.
166
Como um grito de guerra, todos bateram três vezes no
peito — exceto os que tinham espinhos lá — e em coro disseram
“SIM SENHORA!”.
— Onde estão os outros, e... D’Artagnan... Por favor, não
me machuque, não viemos por mal, só viemos buscar...
— Da arma primordial guardada por mim, meu amor, eu
sei — respondeu com uma serenidade que instantaneamente me
trouxe um alívio repentino. — Terêncio me avisou de antemão
sobre sua vinda. Me pergunto apenas onde estão...
Um som espalhafatoso ecoou de dentro da cabine do
banheiro químico, como se um monte de estrume caísse de uma
só vez dentro dele. Eram os meninos.
D’Artagnan foi o primeiro a sair, e vindo em minha direção num
cambalear exaustivo — que o fez parar no meio do caminho para
respirar, e só então prosseguir — até meus pés, onde fez xixi.
— Acho que já tem sua resposta — disse eu, enquanto a
mulher alta se aproximava da cabine acinzentada. Afastei o Pug,
que continuou suas necessidades em uma estalactite, cujo calor
evaporava sua urina.
— Sejam bem-vindos, Wallace Silver, Ruffus Britto,
Dipper e Anthony Cheng — proferiu ela ao abrir os braços de
maneira convidativa e chique.
— Jess! — o punk me notou ao tirar o loiro que estava
acima de suas costas para o chão. — Tá pelando aqui dentro, é
esse o lugar?
— Sim, meu amor, aqui é Gladiarca. Vieram em busca da
arma primordial sobre minha proteção, não é?
— Rapaz... — os meninos a fitaram com pares de olhares
brilhantes, como se tivessem instantaneamente se apaixonado
por ela.
— Você é um xuxuzinho, sabia? — Wallace,
inconvenientemente a elogiara enquanto tomava delicadamente
sua mão e a beijava até o meio do antebraço onde sua luva de
cetim se estendia.
— Ora, meu amor, é muito amável de sua parte. Mas
creio que vocês tenham um objetivo importante a ser cumprido
— respondeu ela em invejáveis bons modos.
Por um breve momento, desejei se cortejada assim —
mas bem breve. Até mesmo D’Artagnan se deitou com a barriga
167
para cima ao ver a mulher tão bem vestida como quem vai a um
baile de gala.
Ela acenou delicadamente para que a seguíssemos por
um caminho onde dois humanoides se apressavam a estender o
tapete diante de nossos pés, o desenrolando frenéticos. Os
Cabeças-Ocas acertavam uns aos outros enquanto ela os
observava com olhos finos e sedutores, como se, através de seu
charme, a mulher despertasse neles seus instintos mais
primitivos. Seu encanto os guiou por todo um caminho cujas
paredes eram rochas em combustão que assoviavam ao exalar
uma fumaça ocre e escura, enquanto, a cada minuto o ar se
tornava mais pesado — senti por alguns momentos que tinha
perdido a capacidade de respirar.
— A senhora aparentemente sabe como conquistar
corações — disse eu, aparelhando meu caminhar como o de
Madame Gládio, olhando para cima a fim de a olhar nos olhos.
Tentei disfarçar minha inveja.
— Os corações humanos são atraídos instintivamente à
minha natureza mítica, meu amor. Eles não são os primeiros, e
nem serão os últimos à se apaixonarem assim, afinal, são
homens — vi que seus lábios avermelhados se esticaram em um
lindo sorriso. Pude ver enormes brincos igualmente vermelhos e
reluzentes.
Por todos os cantos, vez ou outra, mais humanoides nos
espreitavam em fendas de rochas, com comentários em línguas
variadas, mas que algumas compreendi como “Eles são puros”
ou “Como são lindos”. Senti uma melancolia se misturar ao
medo diante do desconhecido. Me pus a imaginar o quão
desesperador para eles era ter alguém mais “perfeito”. Pouco
mais claro, pude perceber que a mesma admiração/inveja que
senti ao ver como os meninos tratavam Gládoi, era o que os
humanoides sentiam por nós. No fim, somos todos obcecados
inutilmente por uma perfeição que não existe.
— São rejeitados por todo o mundo.
— O que? — perguntei, chacoalhando a cabeça ao
recobrar a linearidade dos pensamentos.
— Eles, meus meninos, meus pequenos — olhou a eles
de volta, mandando donairosos beijos aéreos que fizeram os
punks logo atrás de nós xingarem de ciúmes. — São os filhos
rejeitados da infeliz irresponsabilidade da raça humana.
168
— Eu ainda... não entendi, desculpe — cocei a nuca
envergonhada.
— Todos esses seres que rodeiam e enchem Gladiarca
nas frestas, cantos, ou planícies, são mestiços. Filhos da junção
de humanos e seres mágicos, que, assim que nasceram, foram
rejeitados por seus pais, abandonados à uma realidade que os
fez acreditar que são monstros.
Senti um aperto no coração. Não gostava muito da aparência
dos humanoides, mas nada justificava ser abandonado assim.
— O que exatamente é esse lugar? Está esquentando
tanto que penso estarmos dentro de um vulcão! — Dipp nos
interrompe, aparentemente menos atraído à Gladio que os
outros.
— Vejo que o encanto já se passou em você. Bom, meu
amor, Gladiarca é um recanto fora da realidade conhecida, onde
os filhos rejeitados encontram paz e podem ser treinados e viver
em comunhão — seu olhar se tornou um vazio. — Assim que
nascem, enviamos Thorn para os buscar, e então são trazidos
até aqui. Todos os meus pequenos são ainda crianças. Alguns
deles nasceram a poucos dias atrás.
Nos imbramamos em uma mistura de dúvida e surpresa.
Imagino o quão dolorido seria um parto de um humanoide com
cerca de um metro e oitenta de altura. Me peguei questionando
se as mães teriam morrido em seus partos, e por isso, também,
estariam ali, desgarrados.
— Quem é Thorn? — o punk não teve mais tempo de ser
respondido antes que o som ensurdecedor de milhares de
humanoides em histeria alcançasse nossos ouvidos logo à frente,
onde uma enorme arena revelava algumas figuras se
enfrentando ferozmente.
O horizonte se abriu num mar de seres disformes que
cercavam um único trecho de pedra batida, cujas marcas e
rachaduras no chão não faziam do lugar o mais agradável
possível. Todavia, até mesmo os próprios guerreiros ao centro,
pareciam se divertir com o furor da batalha, pois riam em
gargalhavam como várias crianças correndo em um pega-pega.
— Muito saudável essa brincadeira — acrescentei
retoricamente.
— Mamãe, está radiante hoje, como sempre — um
homem robusto, cuja roupa se resumia a uma camiseta da
169
Guns’n Roses da qual o ombro era protegido por uma enorme
placa de bronze, se curvou ante a mulher.
Madame Gládio o ergueu, acariciando seu rosto — dessa vez
sem o protesto dos meninos conosco —, e então pude ver os
olhos de íris alaranjados, que decoravam um rosto
perfeitamente esculpido dono de cabelos curtos e escuros como
carvão. Seu único “porém” era um enorme chifre prateado onde
devia estar seu nariz. Minha mente não pode evitar pensar que,
uma vez sem aquela anomalia, seria um lindo homem. Os
meninos o olharam emburrados assim que chegou.
— Este, meus amores, é meu filho, Thorn — disse Gládio,
acariciando as bochechas do rapaz, que sorriu cheio de
gratidão. — Ele vai guiá-los com os preparativos até a sala de
armas, onde vão se preparar para o desafio.
Nossos olhos se arregalaram em conjunto ante essas palavras.
— Peraí, como assim desafio?! — Tontom parecia ter
desencantado apenas naquele momento.
— Bom, devem saber que, no mundo mágico, espólios de
guerra não podem ser dados sem que uma missão ou proeza seja
cumprida, meus amores — um doce sorriso quase nos fez
esquecer que nos dizia atrocidades.
— O que devemos fazer? — Dipp irrompe,
aparentemente tentando manter a calma.
— Irão enfrentar nosso campeão mais fraco, e se
vencerem, podem levar o espelho com vocês — concluiu Thorn,
revelando um sorriso de dentes perfeitos.
— Tá ficando louco, ô, Narizinho bombada? Aqueles
caras ali vão amassar a gente em menos de cinco segundos! —
Wallace chacoalhou os braços, indignado.
— Eu disse campeão mais fraco, garoto. Qualquer um
consegue derrotar ele sem muitos problemas — respondeu
Thorn, incrivelmente ainda calmo. — Não seríamos loucos de
dar a pessoas fracas como vocês um guerreiro de nível superior.
Suspirei aliviada, levando uma das mãos ao peito. Wallace, por
outro lado, pareceu enfurecido ao ouvir as palavras “pessoas
fracas” na frase do rapaz. O que lhe fez subir em uma pedra,
sem notar que esta estava quente como uma lareira.
— Fraco é tua vó, essência de tucano! — algumas
gotículas de saliva foram limpas pelo rapaz enquanto o punk
170
berrava, tentando sobrepor a plateia. — Pode mandar o mais
forte deles que eu mesmo acabo com a raça!
Os outros meninos o encararam de cenhos franzidos enquanto o
alvo vociferava com Thorn. Não pude entender por que tamanha
revolta tão repentinamente.
— Meu filho tem o efeito contrário em homens, meu
amor — Madame Gládio sussurrou ao meu lado, quase como se
lesse meus pensamentos. — Ele causa um infeliz ódio instintivo
em homens, mas isso passa com o tempo.
— Wallace, larga de ser idiota! — protestei, após ouvir.
— Vamos só terminar isso com o mais fraco e ir embora.
— Cale a sua boca, cabeçuda! — apontou um dedo em
fúria para mim. — Eu vou enfrentar essa porcaria de guerreiro
mais forte! Nem que seja sozinho! Quem é ele, você, ô da
nareba? Vem que eu te parto em dois!
Thorn riu como um bebê ante as ameaças, o que parecei
inflamar os meninos mais ainda. Ao olhar para sua mãe e vê-la
assentir, fez um sinal para um humanoide que permanecia
trêmulo próximo de nós ao ver o punk berrando.
Seus passos eram tão embramados que senti que um
sobro o derrubaria a nunca mais levantar — o que fazia muito
sentido se considerássemos que tinha apenas uma das pernas, e
em compensação, quatro braços com quatro dedos cada. Vestia
uma armadura enferrujada que sacolejava enquanto saltitava,
obviamente muito maior do que deveria em seu corpo esguio.
Cabelos de um loiro mofado, olhos escuros e profundos em um
rosto ossudo foi o pouco que consegui ver, pois ficava quase
sempre cabisbaixo e assentindo.
— Barnes, tenho ótimas notícias — disse Thorn a ele,
que batia uma continência. — Você não vai mais lutar. Peça aos
outros pra despertarem Tyro, ele vai entrar na arena em dez
minutos.
A felicidade estampou o rosto do mestiço, que sorriu revelando
duas línguas bifurcadas no interior de sua boca larga.
Rapidamente se apressou, usando a lança para impulsionar-se
após assentir de maneira célere.
— Senhorita Halley — prosseguiu o rapaz. — Você não
lutará, mas deverá permanecer como escudeira na batalha.
171
Olhei para Wallace com um sorrisinho malicioso, tentando imitar
como o próprio fazia frequentemente, querendo dizer algo como
Eu quem não queria estar em sua pele. Mas o punk parecia tão
possesso em uma cólera incompreensível por Thorn, que não
deu bola e continuou encarando o gladiador, que nos guiou até
uma escada lateral que dava acesso a um túnel alumiado apenas
por tochas robustas.
Chegamos a uma sala de decoração rudimentar
composta por uma enorme mesa preparada com um farto
banquete, que às luzes das tochas, parecia ainda mais apetitoso.
Nossos estômagos rugiram, mas tememos que estivesse
encantado. Se tinha uma coisa que aprendemos sobre o mundo
arcano era: Absolutamente tudo pode te matar.
— Vão, meus amores, se sirvam! Não quero meus
guerreiros fracos para o combate — Gládio brandiu os braços
com fineza enquanto os meninos atacavam a refeição antes
mesmo que baixasse os braços, como animais famintos.
— Eu não.... confio muito, sabe, nada pessoal — disse eu,
sob risos da mulher, que assentiu.
— Essa comida tem benefícios que as refeições humanas
não tem, como a capacidade de aumentar a força física, meu
amor, não se preocupe, não quero o mal de nenhum de vocês.
Me sentei com eles, me rendendo à fome e tomando um
punhado de carne com batatas em um prato de pedra polida.
Estava realmente saborosa, com um tempero que quase ousei
julgar ser encantado, mas me ocupei em me encher o máximo
possível até que meus olhos revirassem em fartura. A mulher
nos direcionou um belíssimo sorriso enquanto se sentava
conosco e fazia uma breve refeição — obviamente com muito
mais classe, e inúmeras vezes menor. Não sei quantos copos de
suco tomei, mas me senti tão redonda que meu cinto começara a
me apertar. D’Artagnan se divertia enquanto os meninos, e
Thorn, arremessavam a ele pedaços de carne, que
impressionantemente mordia ainda no ar.
Ao que julguei ser cerca de uma hora e meia depois, já
estávamos todos prontos após uma conversa esclarecedora.
Gladiarca era um lugar perdido entre as dimensões,
praticamente posicionada no literal “lugar nenhum”. Madame
nos disse que escolheram esse lugar após à perseguição aos
172
mestiços em 1803, o que me fez criar dúvidas à respeito de sua
idade, sendo dissolvidas quando me lembrei de sua natureza
arcana. Era uma ninfa, a última existente, e por essa razão
deveria estar tão protegida quanto os próprios meninos de que
cuidava. Uma das coisas que ela fez questão de pontuar, foi uma
regra vital do mundo arcano: “Em hipótese nenhuma humanos e
seres, arcanos ou divinos, devem se reproduzir”.
— Foi exatamente o que Mêrene me disse — comentou
um Wallace melancólico. — Ela me falou que qualquer relação
entre humanos e mestiços pode gerar resultados catastróficos.
— Alguns mestiços nascem com menos distorções
genéticas, outros usam de magia para esconder de maneira
temporária suas peculiaridades, e esses são chamados de
“sangue-azul” — Thorn nos explicou, enquanto devorava uma
enorme coxa de peru.
— Bronco Lockbrook é um deles, não é? — concluí, com
um assentir de Madame Gládio e seu filho.
— Mêrene também — complementou Tontom.
— Em alguns casos extremamente raros, a junção dos
dois mundos ocasiona em uma criança “perfeita” que é o
equilíbrio que fazia esse mundo permanecer em paz, meus
amores — complementou Gládio, levando com sofisticação um
garfo aos lábios carnudos.
— Humbros era um deles, sendo cem por cento mago e
cem por cento humano — conclui Thorn.
— São muitas regras... — reclama Tontom, esfregando a
cabeça como que doía.
Me perguntei o porquê de os meninos estarem em paz mesmo
na presença de Thorn ao lado deles, mas isso foi respondido ao
notar um enorme diamante multicolorido ao centro da mesa,
que trazia um leve incenso sobre nós, cujo odor me fazia pensar
que tudo estava e ficaria bem. A mulher, momentos depois me
disse que era uma tradição no mundo arcano nunca brigar à
mesa, e aquilo, um Filtro de Guerra, ajudava a manter o
costume ainda vivo.
Ouvimos um soar triunfante de algo que deduzi ser uma
trombeta de chifre — não me pergunte como eu sabia disso,
julguei ser obra do colar em meu pescoço. Estava na hora.
Thorn pôs a cadeira no lugar enquanto ordenou que o
seguíssemos por um corredor vindo de uma porta ao fundo da
sala, cujas pareces eram pedregulho bruto.
173
O calor me fazia implorar por uma breve brisa que fosse,
quase me fazendo cogitar ficar apenas em minhas roupas de
baixo — me questionei como Madame Gládio permanecia seca e
impecável com aquela temperatura. O túnel deu acesso à uma
espécie de gruta, cujas paredes rústicas em um vermelho fogo
continham todo tipo de armamento, desde enormes espadas até
escudos com rostos esculpidos.
— Escolham o que julgarem necessário, vocês tem oito
minutos para se arrumarem. Os chamarei à arena quando for a
hora. Halley, recomendo que se vista em armadura também, a
arena não é muito segura — Thorn sorriu gentilmente,
parecendo ignorar meu desespero.
Armadura? Arena? Eu? Imaginei que ficaria dentro dos
Boxes bem tranquila enquanto os garotos se matavam sendo
pulverizados por um gladiador de cinco metros de altura. Não
havia me preparado psicologicamente para entrar numa arena e
ficar diante de milhares de seres mestiços com ânsia por
violência.
Antes que pudesse protestar, o rapaz gladiador deixou a sala
com uma reverência, que sua mãe assentiu com um beijo em seu
rosto. Nunca senti tanta raiva de um gatinho daqueles antes. A
mulher permaneceu em postura firme enquanto os Cabeças-
Ocas futricavam entre as armaduras buscando algo de relevante
em ombreiras e capacetes.
— Eu tô passando mal — reclamei sentindo um enjoo
acompanhado de tontura.
— Acalme-se, meu amor, os escudeiros são os únicos que
permanecem ilesos durante as batalhas, olhe — Gládio apontou
para uma grade que nos separava da arena, onde vislumbrei um
pouco do discorrer da batalha que acontecia quando chegamos.
Dois enormes mestiços se esmurravam enquanto
gargalhavam a cada pancada que os atingia, e ao lado, dois
outros menores os acompanhavam segurando escudos, porretes
e enormes manoplas. Me senti pouco mais aliviada ao perceber
que nem um fio de cabelo ou perna saliente era atingido durante
a troca de socos. Vesti uma couraça de bronze que encontrei ao
lado de um machado gigantesco, e também um capacete em
formato de coxinha que jazia sobre um monte de escudos
vikings. Me sentia pouco mais confiante, mas ainda não segura.
174
— Bom, acho que já estamos prontos — Disse Tontom
quando afundou um elmo templário no rosto. — Vamos por esse
tal Tyro pra beijar a lona!
Madame abafou um riso delicadamente, enquanto os outros
gritavam Hurra! Acéfalos. Não reconheci a inteligência de
Ruffus, nem a sensibilidade de Dipp, assim como as risadas
constantes de Tontom. Desde quando adentramos Gladiarca, os
meninos pareciam todos seguir uma única linha de raciocínio,
como se pensassem, sentissem e quisessem a mesma coisa a
todo momento. Como se uma energia os tomasse a cada
segundo, se deixavam levar por seus genes, como quem age de
maneira involuntária a todo instante. Senti o peso que suas
masculinidades traziam quando bateram os peitos de ferro
berrando frases motivacionais.
A batalha na arena teve fim, mas ambos estavam ainda
de pé. Os meninos me entregaram, respectivamente, uma
espada nua de prata, um escudo em formato de losango, um
martelo de guerra pesadíssimo e... uma guitarra? Franzi o cenho
ao ver algo tão estranho vindo das mãos do punk, que agiu tão
naturalmente a ponto de sua expressão dizer Não questione
meus métodos. A voz grave de Thorn pode ser ouvida ao centro
do coliseu arcano enquanto os milhares de rugidos da plateia
sumiam aos poucos.
— Meus irmãos! — berrou ele com os braços abertos. —
Temos hoje a honra de contar com cavaleiros da ordem de
Stermfeld, que vieram bravamente enfrentar nosso melhor
guerreiro e irmão, Tyro!
O público foi ao delírio ante tal exclamação, batendo os pés
energicamente a ponto de sentirmos o solo tremer enquanto
bolhas de lava explodiam ao fundo.
— Por isso, chamo à arena os guerreiros que irão
mostrar sua coragem e determinação! — continuou o gladiador,
sobrepondo o mar de vozes. — Wallace Silver!
O punk estava vestido dos pés à cabeça em um verdadeiro
Frankenstein medieval, em um variar de bronze, metal
enferrujado e couro. Marchou triunfante até a arena, onde
encarou Thorn com um olhar flamejante levando, com
dificuldade uma enorme espada que mais parecia um cutelo.
— Anthony Cheng!
175
Bandana berrou ferozmente antes de bater em um peito
revestido de couro entre duas enormes ombreiras de ouro cujos
espinhos iam até a altura a altura de suas orelhas, cobertas por
um elmo romano — que pusera no lugar do templário por cobrir
demais a visão. Em mãos tinha dois pequenos porretes do
tamanho de pás de limpeza.
— Dipper Cheng!
Me assustei ao não enxergar Dipp adentrar à arena, e isso se
devia ao fato de ter encontrado em meio à bagunça metálica, um
capuz verde escuro ornado em ramas douradas, que o fazia ficar
invisível sempre que o sobrepunha à cabeça, junto a uma
couraça leve de couro surrado e duas pequenas adagas de
lâminas fluorescentes.
— Ruffus Britto!
Por último, e não menos importante, o loiro cruzou
lentamente minha frente, onde me espantei ao ver uma
armadura que parecia ter sido forjada especialmente para ele.
Em um de seus ombros posicionava-se uma enorme face de um
leão dourado em uma ombreira cravejada de rubis. Sua couraça
prateada e reluzente trazia sobre suas pernas, igualmente
protegidas, tiras de um couro cuja extensão estava coberta de
runas em um vermelho sangue. Em suas mãos calçava duas
manoplas douradas que possuíam um símbolo arcano que minha
mente e o colar trouxeram a tradução como “Justiça divina”.
Centenas de mestiços vibraram frenéticos ao vê-lo entrar na
arena, como se fosse uma celebridade, mas por alguma razão,
não pareceu se importar, ao invés disso, marchou firme até onde
os outros o esperavam.
Deixei o Pug sob os cuidados de Madame Gládio antes
que entrasse na arena sem ser apresentada como os outros —
aparentemente os escudeiros não eram parte do show principal
—, mas ouvi diversos comentários sobre “a escudeira de cabelos
ruivos”. Pés gigantescos faziam um solo tremer enquanto os
mestiços cantavam num tom subgrave uma antiga canção rúnica
que me fazia querer encolher até me tornar um átomo, enquanto
os meninos só se animavam cada vez mais.
— Agora — prosseguiu Thorn, radiante. —
Libertem o poderoso, impiedoso, e feroz... Tyro!
176
Ouvimos o som estalado de várias correntes passando
por debaixo de nossos pés enquanto oito mestiços de braços tão
maciços quanto vigas de ferro as puxavam, erguendo de um
alçapão que abriu, uma jaula de proporções gigânticas, cujo
componente — ou melhor, ser que estava dentro dela — me fez
encher os pulmões e gritar com todas as minhas forças.
Dois olhos vermelhos elípticos nos fitavam. Olhos do
tamanho de pneus de Monster trucks.
Capítulo XVI
Mors Dente-de-dragão
D
iferentemente de Madame Gládio, que tinha o efeito de
apaixonar qualquer homem a primeiro momento, Thorn
possuía o efeito contrário, fazendo todos os homens
177
sentirem puro ódio ao mero contato ou proximidade. E por conta
desse infeliz incidente, estávamos agora diante da morte certa
— mais uma vez.
Seus dentes afiadíssimos enfileirados como uma cerca
de estacas de marfim cujo odor era pior que um aterro. Entre
eles dançava uma língua enorme e bifurcada vinda de uma
mandíbula cravejada de escamas coloradas em um laranja fogo
que parecia se inflamar conforme a respiração pesada vinha de
um enorme peito tonificado. Seu rugido fez o público se calar,
tirando após instantes minha capacidade auditiva e turvando
brevemente minha visão ante ao perigo iminente. Seus pés
enormes cujas garras cor de mármore faziam gigantescos
arranhões na pedra batida, agora moviam todo um corpo
fortemente protegido por uma armadura amassada de bronze,
onde lanças, espadas e flechas o espetavam inutilmente por
inúmeros cantos.
— Pelo amor de Van Halen... — Wallace balbucia,
arregalando os olhos ao erguer o queixo infindamente para
enxergar seu adversário.
Grunhia, em carne e osso, bem na nossa frente, um
enorme lagarto humanoide que mais parecia um Tiranossauro
Rex adulto, equipado dos pés à cabeça, prontinho para fazer de
nós um patê bem malcheiroso.
— Eu quero a minha mãe... — choramingava Ruffus
antes de receber um soco no braço de Tontom.
— Vamos nos dividir, esse cara deve ter um ponto fraco!
— Dipp tenta encorajar os outros, mas inutilmente, todos
tremiam dos pés à cabeça.
— Combatentes, aproximem-se! — Thorn chamou os
meninos e o enorme lagarto ao centro, onde se encararam. —
Lembrem-se das regras: Não é permitido matar, retalhar e nem
amaldiçoar. Se nocautearem o adversário, ganham. Se o
adversário se render, ganham. E se desarmarem os escudeiros,
ganham premiações extras. Entenderam?
Minhas pernas cambalearam ante a possibilidade de
Tyro, o lagartão, ir ao meu encontro com aquele bocão que
facilmente engoliria um ônibus com um fechar de beiços. Senti
os equipamentos dos meninos pesarem ainda mais, tanto que, os
derrubei. Olharam para mim, mas por pouco tempo, pois Thorn
deu um brado que ecoou por toda a caverna, o que fez com que
os mestiços espectadores o acompanhassem em ferozes rugidos
178
compostos por diversas cornetas de chifres que brandiam em
suas milhares de mãos.
A batalha começou! Tyro abocanha o vento após Wallace
rolar para a esquerda, alguns centímetros apenas de perder
parte da perna — aparentemente o lagarto gigante não
entendera muito bem as regras. Tontom corre na direção do
réptil na tentativa de o golpear, mas uma cauda o atinge como
um chicote antes que pudesse sequer saber de onde veio, o
arremessando contra as paredes da arena, onde alguns mestiços
o encorajavam, empurrando-o de volta.
— Vou ter o prazer de derrotar os cavaleiros de
Stermfeld, que alegria! — incrivelmente pronunciou em
português perfeito o dinossauro. — Se quiserem que isso acabe
logo, fiquem bem paradinhos. Prometo que não vai doer nada...
em mim.
Dipp se escorou em uma das lanças sobre a superfície de
bronze nas costas de Tyro, e mesmo com sua resistência, o
garoto não conseguiu se manter firme, pois Tyro rolou
lateralmente sobre o solo, me fazendo implorar aos céus para
que Dipp não tivesse virado panqueca. Para minha felicidade,
ele surgiu ao meu lado enquanto tirava o capuz, totalmente
suado.
— Não tô vendo nenhum ponto fraco! — grita Ruffus
para Wallace.
— Vamos tentar cansar ele! — o punk responde. —
Corram o máximo que puderem!
O loiro não me pareceu nem um pouco animado com a
ideia, pelo visto, nunca realmente pensara que as aulas de
Educação Físicas matadas para jogar RPG fariam tanta falta.
Cercaram o dino, que riu enquanto girava sua cauda terrível na
intenção de acertar mais alguém, acompanhado do delírio dos
mestiços nas arquibancadas.
Permaneci estática, nem ao menos me afastar era
possível, pois minhas pernas se recusavam a me obedecer. Me
perguntei como uma criatura tão grande conseguia ser tão ágil
ao ponto de meus olhos muitas vezes não conseguirem
acompanhar suas mordias, investidas ou pisões. Os Cabeças-
Ocas já deixavam rastros de suor pela arena que, vez ou outra
os fazia escorregar — todas as estratégias possíveis pareciam já
179
terem sido usadas, mas o enorme lagarto de fogo permanecia
gargalhando e caçoando deles como se aquilo fosse brincadeira
de criança.
— Tenho que admitir, foram ótimas tentativas — rugiu o
réptil. — Mas alguém que treinou por séculos, como eu, não será
facilmente enganado por elas. Enquanto vocês vêm com o milho,
eu volto com o mingau!
— Droga... — reclamou um Wall Exausto. — Espere...
Jess! Me dê essa guitarra!
Olhei para o instrumento em mãos, a urgência me
consumia, o medo de errar nos mínimos passos poderia por tudo
a perder. Maltrapilho nos derrotaria, iríamos ser mortos e
extinguidos junto com toda a raça humana. Eu, tia Betty, tio
Harald, papai, mamãe, Wallace, os meninos, tudo por minha
culpa.
— Jess! — o grito do punk me tirou do transe enquanto
tomou de minhas mãos a Telecaster prateada.
O olhei nos olhos, e meu corpo se arrepiou como se fosse
atingida por um raio. Aquele não era Wallace. Ao menos, não o
que eu conhecia. Senti minhas bochechas corarem quando
trincou o maxilar e disparou em direção ao dinossauro, que o
esperou aproximar com um sorriso malicioso.
Wallace esquivou deslizando de joelhos de uma pisadura
das garras enormes, que fizeram uma rachadura do tamanho de
uma van pequena, enquanto seus dedos pequenos arrastaram
sobre as cordas enferrujadas do instrumento, trazendo, de
algum lugar uma tempestade elétrica que nos tomou a visão em
um clarão forte a ponto de alumiar os cantos mais escuros de
Gladiarca. Ao retomar a visão, vi Ruffus segurando um braço
ferido enquanto o punk empunhava um escudo do formato exato
do corpo da guitarra, ao mesmo tempo em que, da monstruosa
boca de Tyro, saiam chamas azuis, cujo calor fez todo o redor
dos meninos verter em fuligem.
Todos ficaram em silêncio após as chamas cessarem, e
percebermos que o punk alvo se erguera como quem pedia por
mais um impacto, ainda implacável e firme sobre seus pés, com
um olhar em fúria que fitava o enorme Tyro nos olhos em um
azul brilhante, cujas laterais, vez ou outra revelavam pequenas
faíscas elétricas.
180
Madame Gládio, que agora assistia à batalha do outro
lado da grade, segurando D’Artagnan nos braços, se levantou
com o rosto preenchido por puro espanto, boquiaberta e
incrédula pela cena que acabara de ver. Pude ler em seus lábios
algo não tão comum. O nome “Gordon”.
— Quer machucar meus amigos, sua lagartixa
fermentada?! Vai ter que passar por mim primeiro —
decididamente proferiu o punk, agora com uma voz severamente
mais grave enquanto ofegava, se recuperando do baque que as
chamas o proporcionaram.
Tyro contraiu as escamas que cercavam sua boca no que
entendi ser um esboço de sorriso. Mas nada mais pode
acontecer, pois algumas lâminas se chocaram entre os mestiços,
o que instantaneamente levou meus olhos para o olho do
furacão. Entre os espectadores, empalando um dos mestiços
com uma lâmina que provinha de um braço composto de matéria
escura tremeluzente. Era um Grígora, cuja face horripilante se
desfazia e recompunha em um oscilar demoníaco.
— Jess, cuidado! — tive tempo suficiente apenas sentir
algo raspar meu pescoço. Algo afiado, que levou parte do meu
cabelo quando atingiu a parede de pedra atrás de mim.
Minha respiração parou, meu coração podia ser ouvido
como tambores que estouravam meus tímpanos enquanto alguns
espasmos pareciam querer ter lugar. Meus olhos contemplavam
a criatura de minhas visões, aquela cujo peito exibia uma runa
em um verde místico em anátema. Seus dentes tortos
compunham uma boca de laterais rasgadas, em um sorriso
terrível em formato de V, enquanto um chiado podia ser ouvido
de uma respiração ruidosa mal-ouvida por conta do desespero e
o som da batalha que irrompera.
— Eu disse que os dias estavam contados, Halley —
sibilou ele, se aproximando de mim enquanto os enormes braços
peludos e desproporcionais se esticavam. — Meus planos não
podem ser alterados pela vontade humana, sua criatura
efêmera!
Uma faísca surgiu ante meus olhos quando Thorn
bloqueou as garras do monstro com uma espada curva. A
criatura grunhiu em ódio, o que me deu tempo suficiente para
181
que corresse em disparada em direção à grade que dava acesso
a sala de armas, entre os berros e sons de crânios se quebrando.
Gladiarca se tornara um verdadeiro campo de batalha, onde
corpos eram atirados escadas abaixo, lanças e flechas cruzavam
os ares, acertando, ora inimigos, ora amigos. Machados
cortavam corpos feitos do composto úmbrio, e também lâminas
das trevas decepavam braços e chifres salientes. O desepero
tomou conta de meu coração antes que Gládio se direcionasse a
mim em um chamado que não pude atender. Meus sentidos
começavam a trocar as bolas.
Entre flashes vi a mesma moça loira que antes estava
despedaçada ao meio, dizendo suavemente enquanto uma névoa
cobria os arredores, me fazendo por alguns momentos esquecer
do caos que nos envolvia. Minha armadura pesava muito mais
do que deveria, o que me fez cair de joelhos.
Desista, ela dizia. É uma luta perdida.
— Não! — gritei, sentindo as garras do monstro
envolverem meu tronco e me erguerem cara a cara com a
criatura nojenta e endiabrada.
— Alegre-se, minha criança, pois você e sua raça terão a
honra de ser dizimados pelas mãos do Herói Maltrapilho, aquele
que trará a salvação a todos os impuros — com a outra garra,
tirou de meu pescoço o colar, não me deixando ver para onde
fora.
Ouvi Madame Gládio vociferar de dor, e ao inclinar
levemente a cabeça, pude a vislumbrar escorada entre a grade e
um Grígora gigantesco, cuja lâmina pingava um sangue de cor
azul. Estava ferida, mas onde estariam os meninos? Thorn
morrera? Tyro não poderia ajudar? Minha visão se resumiu a um
rodopiar de cores enquanto o odor ocre e azedo do interior da
horrível boca semiaberta do monstro se aproximava de meu
rosto. Estava fadada a ser morta em alguns poucos segundos.
Pensei em tudo o que vivera até ali, e nada realmente
compensou, morreria cheia de arrependimentos.
— Caso queira saber, fui eu quem enviei o
Spectrobominus, e também o Omnivorax, assim como o
Foguslinxs que os atacaram alguns dias atrás — sua voz surgia
sem que seu maxilar babado movesse. — precisava chamar a sua
atenção de algum jeito para que tivesse a certeza de que estava
com a chave de redenção...
182
— Me... solta... — meus pulmões lentamente deixavam se
funcionar, estava sendo esmagada entre as horríveis garras do
monstro.
— A última peça do quebra cabeça está logo à minha
frente. Mas não se preocupe... Terêncio sabe que o destino um
dia virá para cobrar sua dívida. Aproveite seus últimos
momentos de vida, Jessica Halley!
Antes que afrouxasse as mãos, uma luz verde
resplandeceu sob minhas costas, e um retumbante terremoto fez
com que a criatura maltrapilha rosnasse enquanto encarava a
grade da sala de armas.
Foi então que vi Madame Gládio mancando para longe
da arena, enquanto, em meio à fumaça caiu um Grígora sem
cabeça, morto. Ouvi passinhos caninos pelo chão de pedra
batida se aproximarem de nós em um ritmo mais acelerado que
o normal.
— D’Artagnan, não! — tentei gritar antes que o Pug
saltasse uma altura impressionante em direção ao braço do
monstro que me segurava.
Das narinas achatadas do cão, saiu uma fumaça densa e
esverdeada, que o envolveu até o cobrir inteiramente. Dela, uma
mão maciça ergueu um machado reluzente ornado em toda sua
extensão por runas antigas, que ao descer, decepou o comprido
braço peludo do monstro, que rugiu dentro de nossos ouvidos
vendo seu sangue gosmento e escuro esguichar sobre o rosto
feroz de um homem robusto que me carregou quando caí.
— Mors proteger menina Halley, Mors ser bom garoto!
— disse ele, me fitando com olhos verdes brilhantes que se
escondiam sobre sobrancelhas volumosas caindo sobre um nariz
achatado e uma barba áspera e longa, atada em tranças.
O pensamento mais louco que minha mente poderia
imaginar percorreu-me. Meu Pug era um viking.
— Você... — sibilou o monstro ferido. — Eu deveria ter
lhe matado quando tive a chance! — sua voz esganiçava
dolorosamente.
— Agora nóis estar quites — respondeu Mors
acariciando o braço esquerdo, ou melhor, onde ele deveria
estar, pois no lugar havia apenas um atado de couro e pano.
183
A criatura sumiu entre a fumaça, enquanto o som da
vitória dos mestiços nos alcançava. Aparentemente a batalha
estava ganha, mesmo com todo o caos.
— D’Artagn... — tentei murmurar seu nome, porém
minhas forças se esvaíram, e desmaiei novamente.
184
Capítulo XVII
A verdade, nada além da verdade
Meu lençol rosa me fazia espirrar sempre que chegava
perto o suficiente de minhas narinas. Era minha cama, mas não
a que tinha dormido nos últimos dias, e sim, a cama do meu
quarto, em minha casa, bem no centro da metrópole. Senti uma
onda de alívio me encher quando vislumbrei meus antigos
brinquedos, os livros enfileirados em uma pequena cômoda
entre alguns pufes que decoravam um centro de quarto
alumiado por uma lâmpada led no teto. Ao me levantar, percebi
que minhas pernas já ultrapassavam os limites da cama, o que
me fez desequilibrar e dar de nariz no carpete cor carmim.
Sabia que havia alguém fritando algo, o estalo que o fogão fazia,
tão escandaloso, era inconfundível. O cômodo onde estava era
banhado por um brilho dourado, era verão, mais
especificamente no domingo.
Meus pés mal cabiam nas pantufas de coelhinho aos pés da
cama, dessa vez sem D’Artagnan, ou seria Mors? Bom, eu sabia
que não estava no mesmo lugar nem linha temporal. Segui o
maravilhoso cheiro de bacon por todo o corredor, onde as
paredes cinza me levaram até a cozinha, onde uma única mulher
preparava uma farta mesa de café da manhã.
— Minhas últimas palavras nunca foram ditas, apenas
pensadas — disse ela retoricamente.
— Perdão, o que... — minha cabeça instantaneamente
começou a doer quando o brilho místico e esmeralda de seus
185
olhos encontrou os meus, me trazendo uma forte náusea que
fazia minha alma querer escapulir pelos ouvidos.
— Valente me partiu ao meio sem hesitar, mas... teria
ele se arrependido disso?
— Você é...
— Angelina Hall, sim, esse foi meu nome. Tão bela, tão
graciosa, mas abruptamente raptada pela lâmina daquele que
um dia jurei amar — Em suas palavras notei um tom apático,
— Você... — acariciei minhas têmporas enquanto tentava
focalizar seu rosto. — A voz que eu ouvia... era você, me
mandando não lutar...
— Não, minha criança... A responsabilidade de
intermediar o mundo arcano por vezes nos faz imbramar em
devaneios e loucuras.
— Onde eu tô, onde estão os outros? Eles sobreviveram?
Maltrapilho pegou meu colar, e provavelmente o Espelho! —
sufoquei um suspiro, o peito palpitando. — Eu tô inconciente,
né? Isso é uma visão porque desmaiei quando fui salva por
D’Art... Mors!
— Os outros estão bem, pequena — reconheci a voz de
Terêncio por através de meus ombros. — Isso é só uma ilusão
temporária do seu subconsciente enquanto Mêrene realiza um
conjurar de proteção, agora que estamos vulneráveis.
Angelina o fitava alegremente com um sorriso encantador. Era
linda, entre cachos dourados cadentes em ombros descobertos
pelo mesmo vestido branco da qual a vira na primeira visão. Mas
algo ainda me incomodava — seus olhos, que passavam uma
aura cinza e inumana. Sentia como se ela estivesse eternamente
em um comercial de margarina, sorrindo a toa em uma vida
etérea e superficial.
— Por que ela tá no meu subconsciente? — perguntei ao
mago, que estalou os lábios e pigarreou.
— É exatamente a razão de eu estar aqui — levitou uma
xícara de café às mãos enquanto andava pela sala. — Mêrene
identificou energia obscura Grígora em você quando te levamos
ao covil após a situação em Gladiarca amenizar. Todos vocês
estão dormindo.
— Conseguimos o espelho? — me precipitei, derrubando
um copo com suco sobre a mesa, que se limpou ante um estalar
de dedos do místico.
— Seus amigos lutaram bravamente, mas foram todos
feridos mortalmente. Todavia, Mors conseguiu pegar a arma
186
primordial sob posse de Gládio, logo antes de virem para cá —
responde Terêncio enquanto Angelina se ocupava em tirar uma
poeira inexistente da geladeira. — Quando cheguei, me deparei
com ela aqui, e logo em seguida você.
— Ela é o problema?
— Não, ela é um sinal arcano, muito usado em conjuras
de manipulação mental.
— E o que.... isso significa? — experimentei o suco
subconsciente. Era doce.
— Uma vez usada uma conjura de manipulação, criança,
aquele da qual controla tem o poder de ludibriar a mente do
manipulado, fazendo-o ver pessoas mortas, criaturas horríveis
ou até mesmo a própria morte. E é exatamente isso que ele fez
com você, sem que você ao menos percebesse.
Algo não me cheirava bem, e com certeza não eram os bacons
queimados.
— Ela ficou murmurando alguma coisa a respeito de
como foi morta, mas quando você... digo, o senhor chegou, ela
parou.
— Entendo... — suspirou profundamente, alisando a
barba em um ritmo penoso e cabisbaixo. — Já está na hora de
você saber toda a verdade, pequena.
Suas mãos se deitaram na mesa, enquanto o cenário se
dissolvia em imagens tremeluzentes de um extenso campo onde
apenas duas figuras se viam em disparada. A grama, alta e
ondulante, balança suavemente ao ritmo da brisa, criando ondas
que se movem preguiçosamente pelo horizonte. Pontilhadas aqui
e ali, flores silvestres de cores vibrantes contrastam com o verde
intenso, suas pétalas tremulando delicadamente.
Ao longe, a linha do horizonte era uma fina faixa onde o
céu e a terra se encontravam, sem qualquer interrupção pela
presença de árvores ou colinas. O sol brilha intensamente,
lançando seus raios dourados sobre o campo, fazendo a relva
brilhar e cintilar como se estivesse coberta de minúsculos
diamantes.
O ar era fresco e puro, carregando o aroma doce da grama
recém-cortada e o canto distante dos pássaros. A imensidão do
campo transmitia uma sensação de liberdade e paz, um refúgio
187
sereno longe da agitação do mundo, onde o tempo parece parar
e a natureza reina soberana. Não consegui pensar em mais nada
que não fosse o papel de parede do computador no escritório
antigo de minha mãe.
— Aquele sou eu — disse o mago, apontando para uma
das figuras vindouras que ria ao esquivar de uma investida do
outro.
Um par de olhos castanho escuros eram escondidos por
maças rosadas sobre uma pele pálida, onde um nariz avantajado
se posicionava acima de um sorriso torto. Seus cabelos de um
cinza grisalho caiam em cachos abaixo das orelhas, onde a gola
de uma pomposa camisa terminava.
— Lhe disse que chegaria mais rápido, Ter — ofegava o
outro, da qual reconheci pelo mesmo cabelo espetado e escuro.
Valente. — Não te moves mais rápido que um jumento manco.
Deve-me dois pesos.
— Certamente suas habilidades desportivas lhe renderão
muitas proezas, meu irmão — respondeu o jovem Terêncio
enquanto se recompunha.
— Façamos um trato — Valente ergueu um dedo. —
Assim que te tornares um poderoso mago, me escolherás como
seu campeão.
— Feito — o jovem místico e o rapaz trocaram um forte
aperto de mão e um abraço. — Dar-lhe-ei esta honra. Será um
prazer ser patrono de meu melhor... olhe, Valente, que bela
moça!
Um par de olhos se direcionou a uma Angelina cambaleante, que
tropeçando na barra de um vestido camponês bordado,
carregava dois pesadíssimos baldes d’água enquanto rumava ao
topo de uma colina. Os dois rapazes a interceptaram, oferecendo
ajuda, e a doce garota afetivamente aceitou. Eram os três de
um encanto único, o que me fazia questionar a veracidade de
algumas pinturas antigas quanto aos padrões de beleza
medievais.
— Após esse dia... — o mago, mais velho, continua. —
Soube que meu coração pertencia inteiramente àquela dama, e
que a amaria por todos os dias de minha vida. Porém, não pude
impedir que o coração de meu amigo se inflamasse em paixão
por ela. Durante décadas ausentei meus pensamentos de
Angelina, mas os sentimentos da bela mulher me escolheram
188
graciosamente, o que fez com que Valente entrasse em um
estado de compulsão de poder que o levou à ruína.
— Então Maltrapilho matou a mãe de Mors e Nix
simplesmente porque ela escolheu você ao invés dele? Me
parece um pouco tosco — ponderei enquanto mordiscava uma
torrada.
— Valente era meu melhor amigo — vi uma lágrima
atravessar suas rugas e regar sua barba crespa. — Mas o
coração partido o fez almejar ser mais poderoso do que eu, o
que o levou a realizar rituais macabros, treinamentos ocultos,
que o fizeram ficar semelhante a um monstro; isso, inclusive, foi
o que o fez ter tanto afeto com as criaturas mágicas.
— Por isso ele mandou aquelas coisas atrás de mim... —
esfreguei o queixo, pensativa.
— Porém, o poder corrompe, minha criança, e te vicia a
ponto de te levar a seus instintos e desejos mais pútridos.
Valente, já possesso por sua fúria descontrolada, invadiu nossa
casa, matou minha esposa... Minha... maior alegria — aos
soluços, concluiu a frase, enquanto dei tapinhas em sua costa
corcunda.
— Eu... não consegui... não consegui lutar com ele. Eu
não sou forte, não tenho coragem. Perto de vocês eu sou
totalmente inútil, um peso morto... — aquilo doía dizer. — Eu...
não sabia que... Bom, agora que sabemos quem é o Maltrapilho,
podemos matá-lo, não é?
— Valente já está morto, criança.
Aquilo não fazia nenhum sentido. Minha dor de cabeça
apenas piorava a cada minuto, como se o conhecimento daquilo
fosse dois enormes espinhos que perfuravam minhas têmporas.
— Como... isso... — tentei pronunciar, mas minha visão
começara a turvar.
— Você está despertando... vou levá-la para casa
enquanto ainda pode. Deve descansar, pois a guerra contra
Maltrapilho atingiu proporções que vocês não podem mais
interferir. Não quero que mais mortes acompanhem meu nome
por onde quer que eu vá.
— Okay, eu... tô bem, é só... uma tontura.
— Obrigado por sua ajuda, Jessica Halley.
Meus olhos reviraram assim que pendi a cabeça para
trás, repousando delicadamente em meu travesseiro, no meu
quarto, na casa de tia Betty. Mas algo não estava certo. Em meu
189
estômago o revirar fazia com que um gosto de enxofre
preenchesse minha boca, cujos lábios e garganta secos
pareciam me impedir de falar.
No espelho, vi que parte de meu cabelo havia sido
cortada, e que ao lado direito do meu pescoço estava
posicionada uma enorme cicatriz que seguia até a nuca. Um
milímetro dentro e as garras terríveis da criatura me teriam
matado. Tudo parecia normal. Minhas pernas estavam
amortecidas, porém bem cobertas por dois edredons que me
traziam a maciez a primeiro momento. Exceto pelo peso acima
de minhas coxas, que me fisgou a curiosidade ao perceber o que
era.
O mesmo livro com vida própria que encontrei no primeiro dia,
porém, fechado.
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(ESSA SERÁ A ÚLTIMA PÁGINA)
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@andymatthdo_oficial
Tipografias — Palatino LT. 9 — Showcard Gothic 14/18
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