1.
1 Evolução histórica da saúde ocupacional
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Desde que o homem existe, existe também o trabalho. Ele sempre foi uma necessidade
para o homem, seja apenas para seu sustento ou para sustento de uma família, ou ainda
para benefício de terceiros, como seria o caso da escravidão, ou da relação
empregado/empregador.
Mesmo sendo um tema tão antigo, a relação trabalho e doença foi ignorada durante
muito tempo. Vejamos os primeiros relatos sobre saúde ocupacional, que foram feitos
no período antes de Cristo (a.C.). A tabela abaixo mostra como essa relação
saúde/trabalho passou a existir.
Tabela 1 - Primeiros relatos sobre saúde ocupacional
Primeiros relatos sobre saúde ocupacional
Período antes de Cristo
Quem fez? O que fez?
Hipócrates (460- Revelou a origem das doenças profissionais que
375 a.C.) acometiam os trabalhadores nas minas de estanho.
Constatou e apresentou enfermidades específicas do
Platão (428-348
esqueleto que acometiam determinados
a.C.)
trabalhadores no exercício de suas profissões.
Aristóteles (348- Cuidou do atendimento e prevenção das enfermidades
322 a.C.) dos trabalhadores nos ambientes das minas.
Preocupou-se com o saturnismo. (O saturnismo é uma
Galeno (129-201
intoxicação causada pelo chumbo. Estudaremos
a.C.)
esse assunto em outra aula).
Período depois de Cristo
Quem fez? O que fez?
Publicou a História Natural, em que pela primeira vez
foram tratados temas referentes à segurança do
Plínio (23-79
trabalho.
d.C.)
Discorreu sobre o chumbo, mercúrio e poeiras. Menciona
o uso de máscaras pelos trabalhadores dessas atividades.
Primeiros relatos sobre saúde ocupacional
Júlio Pólux (124- Narra o uso de sacos ou capas de bexigas como
192 d.C.) máscaras.
Preocupou-se com o saturnismo e indicou-o como causa
Avicena (908-
das cólicas provocadas pelo trabalho em pinturas que
1037 d.C.)
usavam tintas à base de chumbo.
Paracelso (1493- Divulgou estudos relativos às infecções dos mineiros do
1541 d.C.) Tirol.
Georg Agrícola
Escreveu sobre o sofrimento dos mineiros.
(1556)
Foram criadas corporações de ofícios que organizaram e
Europa (século
protegeram os interesses dos artífices que
XVI)
representavam.
Inglaterra (1601) Criada a Lei dos Pobres.
Fonte: Brasil (1996)
Como pudemos ver no quadro, foram feitos alguns trabalhos a respeito de doenças
ocupacionais e também sobre como preveni-las. Esses trabalhos enfatizavam
principalmente a importância do ambiente, tipo de trabalho e posição social como
fatores determinantes na produção de doenças.
Mesmo com tantos trabalhos elaborados nesse período, somente em 1700, na região de
Modena na Itália, foi publicado o livro “De Morbis Artifi cum Diatriba”, que significa
“As doenças dos trabalhadores”, de autoria do médico Bernadino Ramazzini (1633-
1714). Esse livro relatou uma série de doenças que estavam diretamente relacionadas
com mais de cinquenta diferentes profissões, o que fez dessa obra um marco na saúde e
segurança ocupacional. E deu o titulo de pai da Medicina do Trabalho a Ramazzini.
1.2 Revolução Industrial: marco inicial da
moderna industrialização
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Com o início da Revolução Industrial ocorrida entre 1760 e 1830, inicialmente na
Inglaterra e estendendo-se depois para Alemanha, França e demais países da Europa, os
problemas de saúde relacionados ao trabalho começam a aparecer. Isso acontecia
porque nas grandes cidades as fábricas eram construídas em locais improvisados e a
mão de obra era constituída por homens, mulheres e inclusive crianças. Normalmente
essas pessoas eram de famílias muito numerosas e de nível socioeconômico baixo,
vindas do campo em busca de uma vida melhor.
Não existia nenhum controle no ambiente de trabalho e nem cuidado voltado para a
saúde dos trabalhadores. Os locais de trabalho eram pouco ventilados, as máquinas
geravam muito ruído, o que dificultava a comunicação e favorecia o aumento do risco
de acidentes. Não existia um limite na jornada de trabalho, começavam muitas vezes de
madrugada e continuavam até o início da noite, ou se estendendo até a hora que fosse
necessária. Os trabalhadores não recebiam nenhuma orientação sobre como deveriam
operar as máquinas.
Já podemos imaginar os sérios problemas ocupacionais que esses trabalhadores
enfrentavam. O número de acidentes era altíssimo e a intoxicação pela manipulação de
substâncias desconhecidas e a ausência de inúmeras medidas de segurança acabavam
causando morte, principalmente em mulheres e crianças.
Os problemas não eram só esses. Devido a aglomeração e a promiscuidade dos
trabalhadores, muitas doenças não-profissionais, principalmente as infecto-contagiosas
acabavam se disseminando. Um exemplo seria o tifo europeu ou “doença das fábricas”
como era conhecida.
Devido ao caos que havia se formado na capital, o Parlamento Britânico resolveu criar
uma comissão de inquérito para avaliar as reais condições de trabalho nas fábricas.
Então, em 1802, foi criada a “Lei da Saúde e Moral dos Aprendizes”, que foi a primeira
lei de proteção aos trabalhadores. Ela estabelecia uma jornada de trabalho de 12 horas
diárias, proibia o turno noturno, obrigava a ventilação nas fábricas e obrigava também
os trabalhadores a lavarem as paredes da fábrica duas vezes por ano.
Mesmo com essa lei em vigor, devido à evolução dos processos industriais, as
condições de trabalho continuavam ruins. Então, o governo Britânico nomeou em 1830
o medico Robert Baker, como inspetor médico das fábricas. Surgiu o primeiro serviço
medico ocupacional no mundo. Mesmo com esse serviço em funcionamento, somente
em 1833 é que as condições de trabalho começaram a melhorar, pois os empresários
continuavam a resistir (o que vemos até hoje!).
Vimos que durante a Revolução Industrial, devido às condições sanitárias no trabalho,
algumas doenças se instalavam causando prejuízos à saúde dos trabalhadores. A
principal delas era o tifo europeu ou “doença das fábricas”. Pesquise sobre essa doença
e a descreva indicando modo de transmissão, sintomas e possíveis tratamentos.
Enquanto isso, no Brasil...
Em nosso país, demorou um pouco mais para que as preocupações com os problemas
ocupacionais começassem a ser discutidas. Somente em 1940 foi fundada a Associação
de Prevenção de Acidentes do Trabalho, e em 1943 a Consolidação das Leis do
Trabalho – CLT – entrou em vigor. A CLT foi o marco da proteção aos trabalhadores
no Brasil, pois foi a partir dela que os empregadores passaram a ter maiores
responsabilidades quanto à saúde e qualidade de vida dos trabalhadores.
Na década de 50, os trabalhadores passam a contribuir para os institutos de
aposentadorias e pensões. Em 1960, foram criados os seguros contra acidentes de
trabalho, o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS) e o Fundo de Garantia por
Tempo de Serviço (FGTS). Ainda na década de 60 foi criada também a Fundação Jorge
Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho, a FUNDACENTRO.
Em 1972, as Portarias 3.236 e 3.237 do Ministério do Trabalho, tornaram obrigatório,
nas empresas com mais de 100 funcionários, um serviço de saúde com os seguintes
profissionais: médico do trabalho, engenheiro de segurança, técnico de segurança e
auxiliar de enfermagem do trabalho.
A Portaria 3.214, de 08 de junho de 1978 do Ministério do Trabalho, aprovou a criação
de 28 Normas Regulamentadoras (NRs). Essas normas vão sendo modificadas e criadas
de acordo com os conhecimentos técnicos que vão sendo adquiridos ao longo dos anos.
Hoje já temos 36 NRs, são elas:
• NR 1 - Disposições Gerais
• NR 2 - Inspeção Prévia
• NR 3 - Embargo ou Interdição
• NR 4 - Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do
Trabalho
• NR 5 - Comissão Interna de Prevenção de Acidentes
• NR 6 - Equipamentos de Proteção Individual – EPI
• NR 7 - Programas de Controle Médico de Saúde Ocupacional
• NR 8 - Edificações
• NR 9 - Programas de Prevenção de Riscos Ambientais
• NR 10 - Segurança em Instalações e Serviços em Eletricidade
• NR 11 - Transporte, Movimentação, Armazenagem e Manuseio de Materiais
• NR 12 - Segurança no Trabalho em Máquinas e Equipamentos
• NR 13 - Caldeiras e Vasos de Pressão
• R 14 - Fornos
• NR 15 - Atividades e Operações Insalubres
• NR 16 - Atividades e Operações Perigosas
• NR 17 - Ergonomia
• NR 18 - Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção
• NR 19 - Explosivos
• NR 20 - Segurança e Saúde no Trabalho com Inflamáveis e Combustíveis
• NR 21 - Trabalho a Céu Aberto
• NR 22 - Segurança e Saúde Ocupacional na Mineração
• NR 23 - Proteção Contra Incêndios
• NR 24 - Condições Sanitárias e de Conforto nos Locais de Trabalho
• NR 25 - Resíduos Industriais
• NR 26 - Sinalização de Segurança
• NR 27 - Registro Profissional do Técnico de Segurança do Trabalho no MTB
• NR 28 - Fiscalização e Penalidades
• NR 29 - Norma Regulamentadora de Segurança e Saúde no Trabalho Portuário
• NR 30 - Norma Regulamentadora de Segurança e Saúde no Trabalho Aquaviário
• NR 31 - Norma Regulamentadora de Segurança e Saúde no Trabalho na
Agricultura, Pecuária Silvicultura, Exploração Florestal e Aquicultura
• NR 32 - Segurança e Saúde no Trabalho em Estabelecimentos de Saúde
• NR 33 - Segurança e Saúde no Trabalho em Espaços Confinados
• NR 34 - Condições e Meio Ambiente de Trabalho na Indústria da Construção e
Reparação Naval
• NR 35 - Trabalho em Altura
• NR 36 - Segurança e Saúde no Trabalho em Empresas de Abate e
Processamento de Carnes e Derivados.
1.3 O que é saúde ocupacional?
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Tudo o que fazemos no trabalho ou fora dele interfere na nossa saúde e
qualidade de vida. Então, para que possamos entender melhor o que é
saúde ocupacional, devemos primeiramente entender o que é saúde de
forma generalizada.
Em 1957, a Organização Mundial de Saúde (OMS) conceituou saúde como
sendo “um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não
apenas a ausência de doenças”. De fato, a saúde ou a falta dela engloba
diversos aspectos da nossa vida. Como exemplo de saúde, podemos citar
fatores como um bom emprego, as relações de amizade, a boa
alimentação. Por outro lado, fatores como estresse, desemprego e
problemas familiares podem causar a falta de saúde ou a doença
propriamente dita. Em 19 de setembro de 1990, foi criada a Lei 8080,
considerada a Lei Orgânica da Saúde. Ela dispõe, dentre outras coisas,
sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde.
Em seu título I, das Disposições Gerais diz:
Art. 2º - A saúde é um direito fundamental do ser humano, devendo o
estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício.
§ 2º - O dever do Estado não exclui o das pessoas, da família, das empresas
e da sociedade.
Como podemos perceber, a Lei 8080 complementa o que foi dito pela
OMS em 1957. A saúde é uma obrigação do Estado, mas é também das
empresas. Ainda nessa lei, vamos ao título II, Capitulo I, Artigo 6º, parágrafo
terceiro:Entende-se por saúde do trabalhador, para fi ns desta lei, um
conjunto de atividades que se destina, através das ações de vigilância
epidemiológica e vigilância sanitária, à promoção e proteção da saúde
dos trabalhadores, assim como visa à recuperação e reabilitação da
saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das
condições de trabalho.
Já entendemos o que é saúde e percebemos que não é só a inexistência
de doença. Mas então o que é a doença? A doença é algo bem mais
complexo do que simplesmente um distúrbio biológico, ela envolve
também aspectos sociais, culturais e psicológicos do individuo. Não temos
como separar o homem racional do emocional, o biológico do social, pois
o ser humano é um sistema complexo que é formado a partir desses
diversos fatores.
Se formos conceituar o que, de fato, é “doença”, teríamos que buscar
diversos autores e seus conceitos. Muitos deles afirmam que a doença é
um “estilo de pensamento”. Mas como assim? A pessoa pensa que está
doente e acaba adoecendo? Sim, seria isso em termos gerais. Um bom
exemplo seria quando acordarmos com dor de cabeça. Já imaginamos
diversas situações, como uma virose ou uma gripe. A partir desse
pensamento, começamos a investigar. Porém, às vezes, para não
cumprirmos com nossas obrigações diárias, como escola ou trabalho,
supervalorizamos essa dor de cabeça. Mas uma doença pode sim estar se
instalando em nosso organismo e os diversos aspectos dos quais já falamos,
interferem nesse processo saúde-doença.
No século XIX, Louis Pasteur descobriu a existência de micro-organismos
causadores de patologias. Essa descoberta modificou a compreensão que
se tinha a respeito dos mecanismos determinadores de doenças. Passa-se
a pensar que o contágio é a única forma de se contrair alguma doença.
Com o tempo, viu-se que na verdade existiam outros fatores, como a
hereditariedade, condições ambientais e outros.
Mas agora vamos ao nosso objeto de estudo, que é a saúde ocupacional.
Depois de entendermos o que seria saúde e doença, fi cará bem mais
simples entender o que é saúde ocupacional, pois na verdade são termos
que caminham juntos.
De acordo com Chiavenato (2002), a saúde e a segurança do trabalho
referem-se ao conjunto de normas e procedimentos que visam à proteção
da integridade física e mental do trabalhador, preservando-o dos riscos de
saúde inerentes às tarefas da função e ao ambiente físico no qual essas
tarefas são executadas. Estão diretamente relacionadas ao diagnóstico e
à prevenção de doenças ocupacionais a partir do estudo e controle de
duas variáveis: o homem e seu ambiente de trabalho.
Para um trabalhador ter saúde no seu ambiente de trabalho é necessário
um conjunto de determinantes, o Ministério da Saúde (2001) aponta esses
determinantes como sendo os condicionantes sociais, econômicos,
tecnológicos e organizacionais responsáveis pelas condições de vida e os
fatores de risco ocupacionais – físicos, químicos, biológicos, mecânicos e
aqueles decorrentes da organização laboral – presentes nos processos de
trabalho.
Vamos exemplificar. Comparemos as condições de trabalho numa
empresa na época da Revolução Industrial (1760-1830), em que não existia
controle de idade, não era necessário instrução, a jornada de trabalho era
sem limite, o pagamento mal dava para sustentar uma família. E temos as
empresas nos dias atuais, nas quais existem leis que regulamentam horários,
inclusive para descanso, desenvolvimento de novas tecnologias que visam
a melhoria nos processos de produção e ergonomia, dentre outras infinitas
melhorias aplicadas. Todos esses condicionantes que foram sendo
estudados e aplicados geram saúde e segurança nos ambientes
ocupacionais.
1.4 Objetivos da saúde ocupacional
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Levando todos esses condicionantes em consideração, a Organização Mundial de Saúde
elaborou alguns objetivos para a saúde ocupacional:
• Promover e manter no seu mais alto grau o bem-estar físico, mental e social dos
trabalhadores de todas as profissões.
• Evitar a deterioração da saúde provocada pelas condições do trabalho.
• Protegê-los em suas atividades dos riscos dos agentes nocivos.
• Manter os trabalhadores de forma adequada às suas aptidões fisiológicas e
psicológicas, quer dizer adaptar o trabalho ao homem.
1.5 Doenças profissionais x doenças
ocupacionais
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Já falamos sobre saúde, doença e saúde ocupacional. E por fim falaremos sobre as
doenças ocupacionais. Mas será que doença ocupacional é a mesma coisa que doença
profissional? Na verdade, existe sim diferença. Vamos entender:
Doença profissional é aquela adquirida ou desencadeada em decorrência do exercício
do trabalho de determinada atividade e que conste na relação do Anexo II do
Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado pelo Decreto nº 3.048, de
06/05/1999. Por exemplo: Silicose (provocada pela exposição à sílica), Asbestose
(causada pelo asbesto), Anemia aplásica (causada pelo benzeno). Normalmente são
doenças causadas pelos agentes químicos (gases, vapores, poeiras), físicos (radiações,
calor, ruído) ou biológicos (vírus, bactérias).
Doença ocupacional ou relacionada ao trabalho é ocasionada em função de condições
especiais em que o trabalho é realizado e se relacione com ele diretamente e que conste
também na relação do Anexo II do Regulamento da Previdência Social – RPS, aprovado
pelo Decreto nº 3.048, de 06/05/1999. Como exemplo, podemos citar a surdez
ocasionada por ambientes muito ruidosos, como os orientadores de aeronaves em
aeroportos. Ou doenças pulmonares adquiridas por mineiros, que trabalham em minas
subterrâneas. Essas são condições de trabalho consideradas especiais, pois mesmo com
a utilização dos EPI não há como evitar essas exposições.
Algumas doenças não constam nessa relação do RPS, como por exemplo, o estresse.
Porém, se for comprovado que está relacionado ao trabalho, o trabalhador terá seus
direitos garantidos. Essa comprovação é feita através de laudo médico.