BOLETIM
A B R I L- J U N H O 2018
CENTRO DE INFORMAÇÃO DO MEDICAMENTO [Link]
UTILIZAÇÃO DE MEDICAMENTOS ANTIEPILÉTICOS
EM PEDIATRIA
A epilepsia é uma doença do sistema nervo- de 62% do total de crianças resistentes aos Os fármacos mais antigos (fenobarbital e fe-
so central caracterizada pela existência de MAEs têm menos de quatro anos de idade, nitoína) são aqueles que mais precocemente
convulsões. Segundo a Liga Internacional resistência esta que está associada a atrasos podem ser administrados, sendo terapêuticas
contra a Epilepsia, trata-se de uma “doença do desenvolvimento cognitivo e motor.7,8 frequentes nas convulsões neonatais. Além
do cérebro caracterizada por uma predis- disso, alguns fármacos não estão indicados em
posição prolongada para gerar convulsões MEDICAMENTOS monoterapia e só poderão ser utilizados em
e pelas suas consequências neurobiológicas, ANTIEPILÉTICOS APROVADOS regimes terapêuticos contendo outros MAEs.
cognitivas, psicológicas e sociais”. Uma con- PARA UTILIZAÇÃO EM IDADES A utilização de MAEs nas idades pediátricas
vulsão “consiste numa ocorrência transitória PEDIÁTRICAS necessita frequentemente de estudos clínicos
de sinais e sintomas causados por ativida- A larga maioria dos MAEs tem indicação nestas populações devido à especificidade de
de neuronal síncrona e anormalmente ex- aprovada em RCM para utilização em doen- muitas das síndromes epiléticas em crianças
cessiva no cérebro”.1 Estas convulsões são tes pediátricos, porém, a idade a partir da e a diferenças a nível farmacocinético (por
essencialmente classificadas como de início qual é autorizado o seu uso varia (Tabela 1). exemplo, maturação de vias de eliminação
focal, quando a atividade epileptiforme se
inicia numa região discreta do cérebro; ge-
neralizadas quando a atividade neuronal se TABELA 1 – FÁRMACOS ANTIEPILÉTICOS E O SEU USO EM PEDIATRIA.
inicia sincronizadamente nos dois hemisférios
cerebrais; ou desconhecida. As convulsões de Fármaco Idade mínima de uso Monoterapia?
início focal podem propagar-se bilateralmente, Ácido Valpróico Lactentes até vida adulta sim (a partir de 1 mês)
envolvendo por fim ambos os hemisférios.2,3 Carbamazepina Lactentes até vida adulta sim (a partir dos 6 anos)
O tratamento das epilepsias é, em primeiro Oxcarbazepina A partir dos 6 anos sim (a partir dos 6 anos)
lugar, realizado com medicamentos antiepi- Eslicarbazepina A partir dos 6 anos não
léticos (MAEs); no caso das epilepsias focais Etossuximida A partir dos 3 anos sim (a partir dos 3 anos)
resistentes aos MAEs, a cirurgia poderá ter Clobazam A partir dos 2 anos não
um lugar de destaque. Clonazepam Recém-nascidos até vida adulta sim
Levetiracetam Lactentes até vida adulta sim (a partir de 16 anos)
GENERALIDADES SOBRE Brivaracetam A partir dos 16 anos não
EPILEPSIAS DAS IDADES Fenobarbital Recém-nascidos até vida adulta sim
PEDIÁTRICAS Fenitoína Recém-nascidos até vida adulta sim
A incidência de epilepsia é mais elevada nas Perampanel A partir dos 12 anos não
crianças do que nos adultos. Na população Topiramato A partir de 2 anos sim (a partir de 6 anos)
europeia, a incidência de epilepsia no pri- Zonisamida A partir de 6 anos não
meiro ano de vida foi estimada em 153-256
Lamotrigina A partir dos 2 anos sim (ausências)
novos casos em cada cem mil habitantes,
Gabapentina A partir dos 6 anos sim (a partir dos 12 anos)
diminuindo com o avanço da idade (o míni-
Estiripentol Lactentes até vida adulta não
mo atinge-se pelos 20-39 anos) e voltando a
Tiagabina A partir dos 12 anos não
aumentar a partir da sexta década de vida.1,4
Vigabatrina Lactentes até vida adulta sim (síndrome de West)
As epilepsias infantis são mais variadas do
Felbamato A partir dos 4 anos não
que as dos adultos. Além disso, a idade de
Pregabalina Adultos não
maior incidência poderá depender de cada
síndrome em particular, como consequência Lacosamida A partir dos 4 anos sim (a partir dos 4 anos)
do desenvolvimento cerebral.5 As epilepsias Primidona Lactentes até vida adulta não
focais representam cerca de 50% do total Retigabina A partir dos 18 anos não
de epilepsias das crianças, enquanto que Rufinamida A partir dos 4 anos não
nos adultos essa percentagem é significativa- Midazolam A partir dos 3 meses sim (a partir dos 3 meses)
mente superior.6 Em particular, a resistência Diazepam A partir dos 6 meses sim (a partir dos 6 meses)
aos MAEs é frequente em crianças e prin- Lorazepam Adultos não
cipalmente em crianças mais novas: cerca Tetracosactido A partir dos 3 anos sim
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e alteração do peso). Alguns fármacos atual- várias as causas de síndrome de West, entre resistentes à terapêutica com MAEs, a dieta
mente disponíveis possuem indicações muito alterações genéticas (trissomia 21, esclerose cetogénica poderá ser uma alternativa eficaz
específicas para algumas síndromes epiléticas tuberosa), mas também adquiridas, como na redução das crises convulsivas.23 Recente-
das crianças, como a síndrome de Dravet (es- no caso da hipóxia-isquémia perinatal.14 O mente, um estudo aleatorizado e duplamente
tiripentol) e a síndrome de Lennox-Gastaut tratamento desta síndrome baseia-se na uti- cego, controlado com placebo, de canabidiol
(felbamato e rufinamida). Porém, no caso lização de corticosteroides ou análogos da em crianças e jovens adultos com síndrome de
particular das epilepsias focais, os efeitos hormona corticotrofina (tetracosactido) e Dravet, revelou uma significativa redução na
clínicos poderão ser extrapolados a partir na vigabatrina. Num recente estudo aberto, frequência de convulsões.24 Finalmente, um
de estudos efetuados em adultos.9 comparando a terapêutica hormonal (tetra- recente estudo de segurança com o canabidiol
cosactido ou prednisolona) versus terapêuti- em doentes de Dravet revelou mais efeitos se-
SÍNDROMES EPILÉTICOS ca hormonal mais vigabatrina, verificou-se cundários que o placebo, mas foi considerado
COM TERAPÊUTICAS que a associação das duas terapêuticas foi como bem tolerado na generalidade; revelou
ESPECÍFICAS mais eficaz na redução dos espasmos do que também interagir com o metabolismo do clo-
apenas a terapêutica hormonal.15 Embora bazam (aumento da conversão no metabolito
CONVULSÕES NEONATAIS a vigabatrina esteja associada a alterações N-desmetilclobazam).25
As convulsões neonatais representam um tipo visuais, por vezes de difícil diagnóstico em
de epilepsia de difícil tratamento, quer pelo crianças, é uma terapêutica de escolha prin- SÍNDROME DE LENNOX-GASTAUT
início precoce das convulsões e os impac- cipalmente quando os espasmos infantis se A síndrome de Lennox-Gastaut representa
tos no desenvolvimento cerebral, quer pela encontram associados a esclerose tuberosa.13 outro tipo de encefalopatia epilética típica da
dificuldade em identificar clinicamente as Outros fármacos poderão ser ainda úteis, infância, com um pico de incidência entre os
convulsões. Estas advêm principalmente de como o ácido valpróico, o topiramato ou o 3-5 anos, embora inícios mais tardios sejam
causas estruturais, como hipóxia-isquémia felbamato.16 possíveis (incluindo na idade adulta). Entre
perinatal, acidentes vasculares cerebrais is- as características que a definem, estes doentes
quémicos ou hemorrágicos. Embora poucos SÍNDROME DE DRAVET apresentam-se com vários tipos de convul-
estudos de eficácia tenham sido efetuados, A síndrome de Dravet, também designada sões (tónico-clónicas, ausências, mioclonias,
os fármacos mais utilizados neste tipo de de epilepsia mioclónica severa da infância atónicas), um perfil de EEG interictal com
convulsões são dos mais antigos, a fenitoí- (Severe Myoclonic Epilepsy of Infancy), constitui- “ponta e onda” bem como alterações no EEG
na e o fenobarbital.10 Recentemente, alguns -se como outra epilepsia encefalopática, com do sono não-REM, e um significativo atraso
estudos clínicos iniciaram a investigação de os primeiros sintomas da doença a aparece- cognitivo.26 Esta síndrome apresenta também
outras classes de fármacos no tratamento rem por volta dos seis meses de idade. Está uma elevada taxa de mortalidade, 14 vezes
destas convulsões, em concreto, a utilização associada a mutações no gene SCN1A, que superior quando comparada com crianças da
de bumetanida. Este fármaco pertencente codifica para a subunidade α dos canais de mesma idade sem epilepsia.27 Tal como na
ao grupo dos diuréticos da ansa foi estudado sódio voltagem dependente NaV1.1, e que síndrome de West que, aliás, frequentemente
em convulsões neonatais, embora o ensaio são detetadas em cerca de 80% dos doentes.17 precede a síndrome de Lennox-Gastaut, as
tenha sido interrompido precocemente pela Inicialmente, são mais frequentes convulsões suas causas são variadas: de origem estrutural
ocorrência de casos de surdez irrecuperável.11 generalizadas (tónico-clónicas e clónicas) as- (por exemplo, hipóxia-isquémia perinatal) ou
A utilização da bumetanida está relaciona- sociadas a episódios de febre, geralmente com genética (por exemplo, esclerose tuberosa).
da com o fenómeno da inversão do GABA um perfil de EEG normal. À medida que a Devido à apresentação de diversos tipos de
(GABA “shift”): a utilização de agonistas criança se desenvolve, outros tipos de convul- convulsões, o tratamento farmacológico desta
GABA em neurónios gabaérgicos imaturos sões emergem, nomeadamente mioclonias síndrome é efetuado com recurso a fármacos
provoca uma despolarização destes neurónios, e ausências atípicas, bem como alterações como o ácido valpróico, topiramato, clona-
ao contrário da hiperpolarização verificada no EEG (perfil de ponta e onda). Porém, no zepam ou lamotrigina.16,28 A seleção entre
em neurónios maturos. Tal acontece em con- que respeita ao desenvolvimento cognitivo, estes fármacos poderá depender do perfil
sequência de concentrações intracelulares de que aparenta ser normal, estagna ou mes- de convulsões que o doente apresenta: se a
iões cloro mais elevadas em relação ao meio mo regride a partir dos dois anos de idade, frequência de mioclonias for mais elevada, a
extracelular nestes neurónios imaturos, sen- sendo frequentes atrasos cognitivos severos utilização de lamotrigina poderá estar con-
do que a bumetanida poderia inverter estas aos seis anos de idade.18 No que respeita ao traindicada, favorecendo o clonazepam. No
concentrações ao inibir o transportador de tratamento farmacológico, foram realizados entanto, se forem frequentes crises focais, po-
cloro NKCC2.12 muito poucos ensaios clínicos, baseando-se derá ser útil a administração de carbamaze-
o tratamento em fármacos para convulsões pina.28 Alguns fármacos comercializados em
SÍNDROME DE WEST generalizadas como o ácido valpróico ou o Portugal têm indicação apenas na síndrome
A síndrome de West é uma das síndromes topiramato. Muitos doentes acabam por se- de Lennox-Gastaut – felbamato e rufinami-
epiléticas típicas da primeira infância, com guir um regime terapêutico constituído por da, ambos como terapêutica adjuvante. No
um pico de incidência no primeiro ano de ácido valpróico, clobazam e estiripentol. O entanto, estes fármacos apresentam alguns
vida. É considerada um subtipo de um grupo estiripentol foi estudado em ensaios clínicos efeitos adversos graves, como anemia aplás-
englobando os espasmos infantis: consistem aleatorizados em dupla ocultação e controla- tica no caso do felbamato, e risco de status
em rápidas contrações de músculos, segui- do por placebo em doentes com síndrome de epilepticus e de hipersensibilidade no caso da
das de uma curta fase tónica. Na síndrome Dravet, tendo sido observada uma redução de rufinamida.
de West, os referidos espasmos ocorrem em 50% das crises convulsivas em mais de 70% Recentemente, foi estudado em ensaios clí-
clusters, acompanhados de um traçado do de doentes já tratados com ácido valpróico e nicos de fase III o efeito do canabidiol como
eletroencefalograma (EEG) denominado clobazam.19,20 O estiripentol, que inicialmente terapêutica adjuvante em doentes com síndro-
de hipsarritmia, e de um significativo atraso se considerava um inibidor do metabolismo me de Lennox-Gastaut. Num estudo aleato-
no desenvolvimento intelectual da criança, do clobazam, provou ter atividade agonista rizado, duplamente oculto e controlado com
inclusivamente regressão. Défices motores e direta sobre os recetores GABAA e inibição da placebo, verificou-se uma redução de 43,9%
visuais podem estar também presentes.13 São enzima lactato-desidrogenase.21,22 Nas crianças na frequência das convulsões atónicas no gru-
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po tratado contra 21,8% no grupo placebo, desenvolver convulsões generalizadas, bem CONCLUSÃO
com um perfil de efeitos adversos aceitável.29 como evoluir para epilepsia mioclónica ju- A utilização de MAEs em doentes de idades
venil.30,31 Embora não se conheça por com- pediátricas reveste-se de alguma especifi-
AUSÊNCIAS pleto a causa das ausências, alterações nos cidade, principalmente no que respeita às
As ausências são um tipo de convulsões ge- canais de cálcio voltagem dependentes em diferentes síndromes epiléticas das crianças
neralizadas, caracterizadas pela presença de algumas vias talâmicas foram assinaladas e a diferenças de caráter farmacocinético e
breves períodos de perda de consciência e como origem das convulsões.30 Num estudo farmacodinâmico em relação aos adultos.
pela presença de um padrão típico de EEG clínico aleatorizado e em dupla ocultação, Não somente estas síndromes têm picos de
de “ponta e onda”. Podem ocorrer alterações comparando a eficácia de etossuximida, áci- incidência em determinadas classes de idade,
neuropsicológicas, com frequência défices do valpróico ou lamotrigina, verificou-se que mas também estão muitas vezes associadas
de atenção, mas também alterações na lin- quer a etossuximida, quer o ácido valpróico, a significativos atrasos no desenvolvimento
guagem. Com uma frequência de 10-17% resultaram num melhor controlo das crises. cognitivo e motor. A seleção de MAEs para
de todos os casos de epilepsia em crianças Contudo, o ácido valpróico apresentou maior o tratamento destes doentes necessita, assim,
em idade escolar, é uma das epilepsias da taxa de efeitos adversos, pelo que a etossu- de uma especial atenção para melhorar os
infância mais frequentes (podem ocorrer ximida é considerada fármaco de primeira resultados da terapêutica farmacológica.
várias crises ao longo do dia), porém o seu linha no tratamento das ausências.32 Embora
prognóstico é dos mais favoráveis: taxas de o mecanismo de ação da etossuximida nas
remissão de até 84% foram relatadas, sendo ausências não esteja totalmente conhecido,
RICARDO VIANA SOARES
mais elevadas nas situações em que o controlo o seu efeito inibidor sobre alguns canais de CEDOC – Centro de Estudo de Doenças
das ausências é efetuado mais precocemen- cálcio voltagem dependentes poderá expli- Crónicas
te. Algumas crianças poderão, no entanto, car a sua eficácia neste tipo de epilepsia.30 Nova Medical School
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CONVERSÃO TERAPÊUTICA DA VIA INTRAVENOSA
PARA A VIA ORAL
No momento do internamento hospitalar ou •T
erapia descendente: conversão de um meningite, endocardite, osteomielite, abcesso
no pós-operatório, devido à instabilidade clí- medicamento injetável para um agente oral hepático ou cerebral, ou infeções associadas
nica do doente, é frequentemente instituída pertencente a outra classe terapêutica ou a próteses).1-3,7,12
terapia intravenosa (IV). Regra geral, e as- para um princípio ativo diferente dentro da
sim que se verifica uma melhoria do estado mesma classe, na qual a frequência, dose e O sucesso da conversão terapêutica da via IV
clínico e o doente começa a tolerar a admi- espetro de atividade poderão ser diferentes. para a via oral num doente depende da ela-
nistração de alimentos e medicamentos por boração e implementação de programas de
via oral, a terapia IV deveria ser convertida Entre as classes terapêuticas com maior núme- conversão, nos quais o farmacêutico e a Co-
para a sua forma oral o mais precocemen- ro de publicações que abordam esta temática, missão de Farmácia e Terapêutica do hospital
te possível, no contexto da situação clínica assinalando os benefícios da conversão tera- desempenham um papel fundamental. Para
em causa. De facto, a conversão terapêutica pêutica da via IV para a via oral, encontram-se tal, devem ser seguidos os seguintes passos:1,3
para a via oral apresenta inúmeras vantagens os antibióticos, antifúngicos, analgésicos (por
comparativamente à via IV, tais como: menor exemplo, paracetamol) e fármacos do sistema 1) Identificar os medicamentos mais usados de
risco de complicações ao reduzir a ocorrência cardiovascular (por exemplo, amiodarona e forma inapropriada por via IV, que acar-
de efeitos adversos associados ao acesso IV clorotiazida) e gastrointestinal (por exemplo, retam grandes custos para o hospital pela
(por exemplo infeções nosocomiais e trom- pantoprazol e ranitidina).4,6,8-11 sua elevada taxa de prescrição e que são
boflebites); maior probabilidade de o doente A fim de averiguar a elegibilidade do doen- passíveis de serem facilmente convertidos
receber o tratamento no tempo e nas doses te para a conversão terapêutica, deverão ser para a via oral, tendo em conta critérios
corretas; menores custos de aquisição, prepa- considerados diversos critérios clínicos e far- farmacológicos;
ração e administração da terapia oral; menor macológicos (Quadro 1), devendo o doente ser 2) Definir os critérios clínicos para recomen-
sobrecarga de trabalho para a equipa de en- reavaliado a cada 24-48 horas.1,3,5-7,12 dar a conversão terapêutica e as situações
fermagem; maior comodidade, mobilidade e Apesar de a conversão terapêutica da via IV nas quais a terapia IV deve ser prolongada;
independência para o doente; e possibilidade para a via oral apresentar benefícios, tanto 3) Elaborar protocolos de conversão terapêu-
de alta hospitalar antecipada.1-4 Apesar das para o sistema de saúde como para o doente, tica, considerando conjuntamente critérios
vantagens associadas a esta conversão da via existem situações nas quais é justificável a con- clínicos e farmacológicos para os medica-
de administração do fármaco, nem sempre se tinuação da terapia IV por um período mais mentos anteriormente identificados;
verifica esta prática. Isto deve-se, em parte, longo, por exemplo, quando o doente apresenta 4) P romover ações educativas dirigidas
à perceção errada por parte de muitos clíni- risco de sofrer convulsões com possibilidade de aos profissionais de saúde (médicos,
cos de que a terapia por via IV é a melhor aspiração, em doentes imunocomprometidos, farmacêuticos, enfermeiros) implicados
opção de tratamento comparativamente à e em determinados tipos de infeção devido no programa de conversão, disponibilizando
terapia oral e de que esta deve ser mantida à sua severidade e localização (por exemplo material informativo por escrito;
durante todo o curso do tratamento e não
apenas nos primeiros dias de hospitalização
do doente.5 Deste modo, torna-se necessário QUADRO 1: CRITÉRIOS CLÍNICOS E FARMACOLÓGICOS A CONSIDERAR NA AVALIAÇÃO
implementar estratégias nas quais o farma- DA ELEGIBILIDADE DO DOENTE PARA A CONVERSÃO TERAPÊUTICA.
cêutico deverá intervir ativamente, de forma
a potenciar a tomada de decisões dos clínicos Critérios clínicos Critérios farmacológicos
relativamente à conversão terapêutica da via
IV para a via oral no tratamento dos doentes Formulação oral disponível com as seguintes
hospitalizados. características:
A conversão terapêutica tem como objetivo Trato gastrointestinal (GI) intacto e
manter ou melhorar a evolução clínica do funcional (ausência de náuseas, vómitos, • Absorção rápida, completa e consistente;
doente e diminuir em simultâneo os custos as- disfagia, diarreia, hemorragia GI, • Biodisponibilidade de, pelo menos, 75%;
sociados ao seu tratamento,3 podendo esta ser síndrome de intestino curto, síndrome de
má absorção, obstrução GI); • Metabolismo
de 1.a passagem inexistente ou
levada a cabo de três maneiras diferentes:1,5-7
negligenciável;
•T erapia sequencial: substituição da versão • Vias
metabólicas semelhantes. A via oral não
parenteral pelo seu análogo oral, mantendo- Estabilidade clínica e hemodinâmica: deveria originar metabolitos adicionais. Se se
-se o princípio ativo e a dose. Existem muitas formarem metabolitos ativos, deverão ser os
• Apirexia há, pelo menos, 24 horas; mesmos para ambas as vias;
classes terapêuticas cujas formas farmacêuti-
cas orais são terapeuticamente equivalentes • Frequência cardíaca <90 bpm; • Valores
de clearance renal e total idênticos;
às formas parenterais. • Frequência respiratória <20 ciclos/min;
• Terapia alternativa: conversão de um • Ligação
às proteínas e volume de distribuição
medicamento injetável para um equivalente • Pressão arterial estável; comparáveis;
oral, o qual pertence à mesma classe • Contagem leucocitária normal. • Excreção
urinária e/ou biliar semelhante;
terapêutica e apresenta potência idêntica, • Eficácia
e segurança comprovadas.
mas consiste num princípio ativo diferente.
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5) Definir o papel do farmacêutico e o sistema FIGURA 1: ALGORITMO DE DECISÃO PARA A CONVERSÃO TERAPÊUTICA DE ANTIBIÓTICOS.2,12
de notificação (notas informativas, telefone,
verbal, sistema informático);
6) Identificar os doentes que estão a receber O doente preenche algum critério para continuar terapia IV?
terapia IV e avaliar se estes cumprem os
critérios para a conversão terapêutica, ou se
existe necessidade de manter a terapia IV;
7) Informar o médico acerca dos doentes Via oral e trato GI comprometidos
que se encontram elegíveis para a conver-
são terapêutica, caso esta ainda não tenha Sinais de sépsis persistente
sido efetuada; Dois ou mais dos seguintes parâmetros:
8) Monitorizar a evolução clínica do doente
Temperatura > 38°C ou < 36°C
após a conversão terapêutica e reverter para
a terapia IV, se necessário;
Frequência cardíaca > 90 bpm
9) Avaliar periodicamente o impacto do pro- Frequência respiratória > 20 ciclos/minuto
grama de conversão na evolução clínica dos Contagem leucocitária > 12x109/L ou < 4x109/L
doentes e nos encargos económicos, dando
a conhecer os resultados aos clínicos e ad- Indicações específicas
ministradores do hospital. Infeções de elevado risco ou profundas (que requerem doses elevadas
para garantir níveis adequados no local de infeção)
No momento da alta hospitalar e caso o doente Infeções da pele e tecidos moles (na presença de calor,
tenha necessidade de continuar o tratamen- eritema e endurecimento ou síndrome séptica)
to no domicílio, a sua correta administração
por via oral, em termos de dose e frequên-
Febre associada a neutropenia
cia, dependerá apenas do próprio doente ou
cuidadores. Neste contexto, o farmacêutico
deve também assegurar que os doentes ou Hipotensão/choque
cuidadores compreendem a correta utiliza-
ção do medicamento, de maneira a que o Formulação oral indisponível
tratamento seja cumprido, podendo ainda
identificar potenciais interações entre os me-
dicamentos prescritos.
Nas figuras 1 e 2 estão apresentados exemplos Se SIM a qualquer um dos critérios: Se NÃO a todos os critérios:
de algoritmos que poderão auxiliar a tomada - Continuar terapia IV
de decisões pelos profissionais de saúde na con-
- Converter para terapia oral
- Rever a necessidade de terapia IV
versão terapêutica de antibióticos e do parace- após 24h - Monitorizar a evolução clínica do doente
FIGURA 2: ALGORITMO DE DECISÃO PARA A CONVERSÃO TERAPÊUTICA DO PARACETAMOL.13
O doente apresenta alguma indicação clínica para o uso de
paracetamol por via IV?
SIM NÃO
Via oral/trato GI comprometidos?
- Continuar terapia IV
- Rever a necessidade de terapia IV após 24h
SIM NÃO
- Converter para terapia oral (1 g até 4x/dia)a
- Monitorizar a evolução clínica do doenteb
a
Para adultos com peso superior a 50-60 kg
b
Se o paracetamol por via oral não for eficaz, considerar a administração de um analgésico adicional/
alternativo, se apropriado
BOLETIM DO CENTRO DE INFORMAÇÃO DO MEDICAMENTO 5
ABRIL-JUNHO 2018 BOLETIM DO
tamol, medicamentos amplamente utilizados cetamol por via IV está apenas indicada nas semelhantes aos apresentados acima para ou-
por via IV em meio hospitalar. seguintes situações:13,14 tros analgésicos utilizados no pós-operatório
A utilização inadvertida de antibióticos por via • Tratamento de curta duração da dor ligeira a e outros grupos farmacoterapêuticos, a fim
IV poderá acarretar inúmeras consequências moderada, particularmente após intervenções de garantir um tratamento seguro e eficiente
para o doente assim como para os recursos cirúrgicas; dos doentes, minimizando ao máximo o des-
humanos e financeiros hospitalares, podendo • Controlo da febre quando a administração perdício associado.
ainda estimular o aparecimento de resistências parenteral se justifica clinicamente;
microbianas. Como tal, devem ser reunidos • C ontrolo da dor ou febre em casos de SARAH POUSINHO
esforços para que a prescrição desta classe de emergência e/ou quando não estão disponíveis Mestre em Ciências Farmacêuticas, Farmacêutica
medicamentos seja feita de forma racional, a outras vias de administração; Comunitária
qual passa pela escolha adequada da via de • Apneia do sono obstrutiva severa; ANA RITA DUARTE
administração e duração do tratamento. • Cirurgia torácica e disfunção pulmonar; Mestre em Ciências Farmacêuticas
Relativamente ao paracetamol, embora a • Sépsis severa.
MANUEL MORGADO
biodisponibilidade varie consoante a via de Especialista em Farmácia Hospitalar dos Serviços
administração, ambas as vias (IV e oral) são Idealmente, as Comissões de Farmácia e Te- Farmacêuticos
igualmente eficazes.13 A utilização de para- rapêutica locais devem elaborar algoritmos do Centro Hospitalar Cova da Beira, E.P.E.
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