Análise de Sistemas Lineares e Semiótica
Análise de Sistemas Lineares e Semiótica
Resumo: A presente pesquisa visa investigar como acadêmicos resolvem atividades que envolvam
transformações cognitivas de tratamento e conversão, e quais são os registros mobilizados por eles,
assim como, elencando quais os métodos escolhidos para a resolução dos sistemas lineares. Para
atender o objetivo o texto discorre sobre a teoria dos Registros de Representação Semiótica, aporte
teórico da pesquisa. Trata-se de uma pesquisa de caráter qualitativo definida como um estudo de caso.
Os participantes dessa pesquisa são acadêmicos dos cursos de Licenciatura em Matemática,
Bacharelado e Licenciatura em Física e Ciências Econômicas, que estavam matriculados nas
disciplinas de Álgebra Linear I e II no segundo semestre de 2018. Os dados foram produzidos a partir
de duas das atividades envolvendo o conteúdo já mencionado. Na análise referente aos Registros de
Representação Semiótica as resoluções dos acadêmicos evidenciaram os registros de representação em
língua natural, algébrica, matricial e, por último, a gráfica, nesta ordem. Ao analisar os métodos
apresentados para a resolução de Sistemas Lineares, identificou-se que em ambas as turmas os
métodos escolhidos em maioria foram Substituição e Escalonamento/Eliminação Gaussiana.
Palavras-chave: Sistemas Lineares. Registro de Representação Semiótica. Álgebra Linear. Ensino
Superior.
Introdução
1
Mestra em Educação Matemática, Universidade Federal do Pampa. E-mail: gabrielledossantos15@[Link] -
ORCID: [Link]
2
Doutora em Educação, Universidade Federal de Pelotas. E-mail: thaisclmd2@[Link] – ORCID:
[Link]
3
Doutora em Educação nas Ciências, Universidade Federal do Pampa. E-mail: mariasoares@[Link] –
ORCID: [Link]
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(TCC) da primeira autora, tendo por objetivo analisar os encaminhamentos dados pelos livros-
textos de Álgebra Linear do Ensino Superior quanto ao ensino de Sistemas Lineares, Matrizes
e Determinantes. A análise seguiu alguns pressupostos da teoria dos Registros de
Representação Semiótica (RRS)4, em particular, as transformações cognitivas de tratamento e
conversão. Os livros-texto analisados foram o livro Álgebra Linear de José Luiz Boldrini et
al., 3ª edição, de 1980 (livro A) e o livro Álgebra linear com aplicações de Howard Anton e
Chris Rorres, 10ª edição5, de 2012 (livro B).
Karrer (2006), que também realizou uma pesquisa com livros-texto, destaca que os
livros não são a única fonte para o trabalho docente. No entanto, estes assumem um papel de
destaque no processo de ensino. Logo, o estudo de livros-texto de Álgebra Linear representa
uma forma de pesquisa, que auxiliaria a obtenção de “um referencial para a elaboração de
conjecturas com relação ao ensino que está sendo desenvolvido, sem, contudo, ter a pretensão
de esgotar as diversas variáveis que possam intervir na prática docente” (KARRER, 2006, p.
62).
Os livros-texto são uma das principais ferramentas utilizadas pelos professores para o
planejamento das aulas, bem como dão suporte aos estudantes para o entendimento dos
conteúdos (GRANDE, 2006; KARRER, 2006). Entende-se que, a maneira como conceitos
são apresentados, nesses materiais, pode influenciar o modo como as transformações
cognitivas são propostas aos estudantes e a forma como mobilizam e articulam os registros de
representação semiótica, necessários à resolução de problemas. Além disso, considera-se que
a análise de como os livros-textos apresentam conceitos matemáticos pode contribuir para
identificar e compreender dificuldades geradas no processo de ensino.
Os entendimentos expressos por Karrer (2006) e Grande (2006) a respeito dos livros-
texto, e os resultados da investigação de TCC supracitada contribuíram para a primeira autora,
deste artigo, decidir a problemática de sua pesquisa de mestrado, a qual teve por objetivo
mapear os entendimentos de acadêmicos do Ensino Superior sobre Sistemas Lineares sob a
ótica dos Registros de Representação Semiótica.
Os participantes da produção de dados foram acadêmicos que cursavam as disciplinas
de Álgebra Linear I (AL I) e Álgebra Linear II (AL II) no segundo semestre letivo de 2018.
Disciplinas que fazem parte da matriz curricular dos cursos de Licenciatura em Matemática.
O grupo era constituído por 16 discentes (AL I) e sete discentes (AL II), dentre os quais havia
acadêmicos da Licenciatura em Matemática, Licenciatura e Bacharelado em Física e Ciências
4
Pressupostos dessa teoria serão expostos no próximo tópico do texto.
5
Optou-se por analisar a 10° ed., pois era a única que foi possível ter acesso à versão impressa.
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Econômicas.
Destaca-se que a opção por Sistemas Lineares justifica-se pelo fato deste conteúdo
estar presente no currículo matemático da Educação Básica (Ensino Fundamental e Médio) e
nos Projetos Pedagógicos de vários cursos do Ensino Superior (Matemática – Bacharelado e
Licenciatura, Física, Química, Engenharias, Ciência da Computação). Os Sistemas Lineares
estão presentes em componentes curriculares como a Álgebra Linear, que abordam conceitos
que serão ensinados pelo futuro professor de Matemática. Nesses componentes é desejável
que tais conceitos sejam abordados de modo a proporcionar conhecimento abrangente da
Matemática, relacionando aspectos desta com sua construção histórica, suas aplicações,
métodos empregados ao longo dos tempos, assim como, as questões percebidas, atualmente,
nesta área de conhecimento, como, por exemplo, avanços e desafios (SBEM, 2003).
Neste artigo, apresenta-se um recorte da pesquisa realizada na dissertação citada
anteriormente, contendo a análise aprofundada de duas atividades aplicadas aos discentes
participantes das turmas de Álgebra Linear, com o objetivo de entender como esses
acadêmicos resolvem atividades que envolvam transformações cognitivas de tratamento e
conversão, e quais são os registros mobilizados por eles. Assim como, elencar quais os
métodos escolhidos para a resolução dos sistemas lineares (escalonamento – eliminação
gaussiana; método de Gauss-Jordan; Regra de Cramer; outros).
6
“Semiose e pensamento humano: registros semióticos e aprendizado intelectual” (tradução nossa).
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semióticas. As representações mentais têm por intuito a objetivação, ou seja, uma expressão
particular independente da comunicação, isto é, que não depende da expressão para o outro.
No caso das representações computacionais, estas se referem ao tratamento, pois já não
podem ser satisfeitas apenas pelas representações mentais. No que confere as representações
semióticas, estas “[...] realizam de maneira indissociável, uma função de objetivação e uma
função de expressão. Elas realizam de alguma forma uma função de tratamento, porém este
tratamento é intencional, função fundamental para a aprendizagem humana” (DAMM, 2012,
p. 174).
As representações semióticas são “produções constituídas pelo emprego de sinais
(enunciados em língua natural, fórmula algébrica, gráfico, figura geométrica, ...)” (DUVAL,
2009, p. 15), compreendidas, por alguns, como forma de exteriorizar as representações
mentais. Ou seja, as representações semióticas seriam “inteiramente subordinadas às
representações mentais e contemplariam apenas as funções de comunicação” (DUVAL, 2009,
p. 15). No entanto, conforme Duval (2009), além de estas serem essenciais para fins de
comunicação, elas também são necessárias para o desenvolvimento de qualquer atividade
matemática.
Na Matemática, a importância das representações semióticas se explica pelo fato de
que os objetos matemáticos só podem ser acessados através de suas representações
semióticas, o que a diferencia das demais áreas, e o modo como se dá a apreensão dos
conceitos matemáticos (DUVAL, 2011). Duval (2009, 2011, 2012, 2013) designa como
Paradoxo Cognitivo da Matemática o questionamento: Como não confundir o objeto
matemático com a sua representação semiótica se só se tem acesso a ele por meio delas? Os
números, as funções, as retas, etc., por exemplo, com suas representações, decimais ou
fracionárias, simbólicas, gráficas (DUVAL, 2009). Além disso, Duval (2009) destaca que
muitas vezes, devido às diferentes representações de um mesmo objeto matemático, os
estudantes acabam por não reconhecerem um objeto em uma representação diferente. Os
Sistemas Lineares, por exemplo, são definidos como um conjunto de equações lineares
(ANTON; RORRES, 2012) e podem ser representados por registros de representação
distintos, por exemplo, registro de representação algébrica (equações), registro de
representação gráfica (retas e planos), registro de representação matricial (matrizes dos
coeficientes).
As dificuldades de aprendizagem resultantes do paradoxo cognitivo do pensamento
matemático, para Duval (2012, p. 270, grifos do autor), “se dão pelo fato de que não há noesis
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sem semiósis”7, portanto, enquanto o ensino não considerar essa questão, tais dificuldades
permanecerão. Pois, segundo o autor
7
Entende-se nas palavras de Duval (2009, p. 15, grifos do autor) que, “semiósis é a apreensão ou produção de
uma representação semiótica, e noésis os atos cognitivos como a apreensão conceitual de um objeto”.
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tratamento envolva um número reduzido de etapas e a atividade seja resolvida (DUVAL,
2012). Pois, segundo o autor, compreender um conceito do ponto de vista cognitivo é
“reconhecer o mesmo objeto em diferentes representações semióticas que podem ser feitas a
partir dele, [...] substituir uma dada representação semiótica por outra representação semiótica
útil para um tratamento” (DUVAL, 2013, p. 20).
Para isso, a conversão é considerada fundamental para esse processo de compreensão
cognitiva. No entanto, segundo Duval (2013), ela é negligenciada no ensino de Matemática, e
quando é utilizada há o privilégio de apenas um sentido de conversão (KARRER, 2006).
8
Disponível em: [Link]
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Sistemas Lineares é proposto nesses materiais e como são mobilizados os RRS nos exemplos
e atividades. As pesquisadoras Battaglioli (2008) e Boemo (2015) constataram que há ênfase
ao registro algébrico, sendo os outros registros, por exemplo, o gráfico pouco explorado, além
de ser priorizado o ensino de algoritmos como a Regra de Cramer.
No que diz respeito às pesquisas realizadas no âmbito do Ensino Superior (GRANDE,
2006; FRANÇA, 2007; ANDRADE, 2010; KARRER, 2006; CARDOSO, 2014; KRIPKA,
2018), essas tratam de conceitos como transformações lineares, vetores, base, dependência e
independência linear. Grande (2006) lança um olhar sobre os livros-texto de Álgebra Linear
no que tange ao ensino de dependência e independência linear, investigando se os livros
utilizam-se dos RRS e exploram as transformações cognitivas: tratamento e conversão. Este
estudo permitiu ao autor inferir que, nas seções destinadas a abordar noções de dependência e
independência linear há uma escassez da abordagem de alguns registros de representação, à
saber: geométrico e registro em língua natural. Também, verificou a pouca abordagem de
conversões nas atividades propostas pelos livros.
França (2007) propõe e aplica uma sequência didática, baseada na teoria dos RRS,
com discentes de um curso de Licenciatura em Matemática, sobre vetores e coordenadas,
dependência linear, base e transformações lineares. No decorrer da pesquisa, França (2007)
constatou a facilidade na mobilização do registro de representação algébrica, bem como um
domínio mais amplo das representações gráficas, algébrica e geométrica, realizando as
conversões em ambos os sentidos. O trabalho com o software, segundo a autora, contribuiu
para a elaboração de conjecturas, a validação experimental das hipóteses e estratégias
levantadas durante a resolução das atividades devido ao uso de diferentes ferramentas do
software dinâmico.
Andrade (2010) explora as potencialidades de uma sequência didática sobre vetores
linearmente dependentes com discentes de um curso de Licenciatura em Matemática EaD,
produzindo e utilizando um software para auxiliar nesse processo. O protótipo de software
criado possui características de software colaborativo de geometria dinâmica com ferramentas
específicas para a aprendizagem de vetores, dependentes ou independentes, sendo possível a
manipulação direta dos vetores e de botões de adicionar e multiplicar os vetores por escalares,
por exemplo. A análise do protótipo mostrou que o uso desse sistema favoreceu a
compreensão informal dos objetos e a pesquisadora identificou que os acadêmicos possuíam
dificuldades referentes à manipulação das representações dos objetos e à comunicação
necessária para a aprendizagem no contexto da Educação a Distância (EAD).
Referente às teses, Karrer (2006) desenvolveu, com um grupo de acadêmicos do curso
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de Engenharia da Computação, uma sequência de ensino para a aprendizagem de
transformações lineares, destacando a articulação entre geometria e álgebra. Realizando,
também, uma análise de livros-texto de Álgebra Linear para embasar sua sequência. Durante a
aplicação da sequência de ensino, Karrer (2006) verificou que o uso de tecnologias digitais e
as atividades propostas proporcionaram aos acadêmicos a ampliação do conhecimento sobre
transformações lineares, além de ampliar o domínio das representações semióticas e a
realização de conversões.
Lino (2014) realizou um estudo teórico sobre transformações geométricas, tendo como
finalidade trazer uma concepção ampla desse conteúdo, assim como, uma visão geométrica
com uma nova organização destas transformações, com o intuito de significar o estudo das
mesmas. Como conclusão de sua pesquisa a autora destaca que através dela foi possível
compreender as transformações geométricas e “apresentá-las em um estudo desde as séries
iniciais com dobraduras até o ensino superior” (LINO, 2014, p. 8).
Cardoso (2014) investigou as contribuições do uso da metodologia de vídeos didáticos
no ensino de conceitos da Álgebra Linear. Para tanto, trabalhou com duas turmas do Ensino
Superior, em uma delas foram realizadas aulas expositivas-dialogadas seguindo o cronograma
presente no plano de ensino e em outra foram inseridos o uso de vídeos didáticos, utilizando a
proposta de aulas reversas9. A teoria dos RRS foi utilizada para a realização da análise dos
exercícios resolvidos presentes em cinco livros didáticos de Álgebra Linear. O autor pode
verificar que em alguns conceitos de Álgebra Linear as atividades que envolvem conversões
são poucas, a exemplo, no ensino de espaços vetoriais. Também, foi identificado que o
registro de representação mais utilizado foi o simbólico-algébrico e os menos utilizados foram
simbólico-matricial, geométrico-figural e gráfico. Com relação às considerações sobre a
análise das aulas, percebeu-se que o método das aulas reversas contribui com a aproximação
entre os acadêmicos e o professor, com isso, facilitou a conceitualização dos conceitos
abordados.
Kripka (2018) buscou identificar as potencialidades e fragilidades percebidas pelos
discentes e pela docente de Álgebra Linear sobre o uso de recursos tecnológicos digitais nas
tarefas propostas. Participaram do estudo três turmas de Álgebra Linear do curso de
Engenharia Civil, destas, duas fizeram uso de recursos tecnológicos em todas as tarefas e uma
9
Nessa metodologia, o professor grava previamente todo o curso, dividindo-o em vídeos digitais de, no máximo,
5 minutos e, semanalmente, indica aos estudantes quais vídeos deverão ser assistidos e quais as páginas do livro-
texto devem ser lidas para as aulas da próxima semana. Nas aulas presenciais, o professor fornece listas de
exercícios e discute com os estudantes as possíveis dúvidas e a resolução dos exercícios propostos (CARDOSO,
2014, p. 105).
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utilizou tais recursos em apenas uma tarefa. Um dos pontos levantados pela autora diz
respeito à dificuldade dos discentes em expressar-se utilizando o registro de língua natural,
pois faltava no momento da escrita clareza ao relatar os procedimentos utilizados e nas
justificativas para as respostas apresentadas. O uso dos recursos tecnológicos digitais
influenciou nos momentos de aprendizagem, pois exigiam que os estudantes tivessem o
entendimento necessário sobre o objeto de estudo para transitar entre os diferentes registros
semióticos (KRIPKA, 2018).
O mapeamento realizado possibilitou concluir que a maioria das pesquisas, em ambos
os contextos, evidenciam e expõem a importância da mobilização dos registros de
representação semiótica no processo de ensino e aprendizagem dos conceitos de Álgebra e as
potencialidades da utilização de recursos tecnológicos digitais nesse processo, pois estes
auxiliam no trabalho com diversos registros de representação de um mesmo objeto, bem como
permitem a visualização no registro de representação gráfico de alguns conceitos (vetores,
planos, transformações lineares, dentre outros).
Algumas lacunas, identificadas nas pesquisadas mapeadas, podem ser apontadas, tais
como: a falta de estudos sobre outros conteúdos a serem abordados na Educação Básica, por
exemplo, vetores e transformações lineares; e, o número restrito de pesquisas no Ensino
Superior, preocupadas com os livros-textos presentes das bibliografias básicas das disciplinas
de Álgebra Linear. Ademais, ressalta-se a necessidade de pesquisas sobre conteúdos de
Álgebra Linear tendo como participantes da pesquisa futuros professores de Matemática, dos
sete trabalhos mapeados apenas França (2007) realizou um trabalho com acadêmicos de
licenciatura em Matemática.
Opções metodológicas
A pesquisa seguiu uma abordagem qualitativa, pois segundo Borba e Araújo (2004),
este tipo de metodologia é utilizado por estudos que visam analisar a percepção, através do
trabalho com discursos e linguagens, para aqueles que priorizam entender, interpretar e
problematizar os dados obtidos, e não apenas expô-los quantitativamente.
O estudo foi realizado em uma universidade federal, os participantes da pesquisa
foram os acadêmicos que estavam cursando as disciplinas de Álgebra Linear I (AL I) e
Álgebra Linear II (AL II), no segundo semestre letivo de 2018, sendo 16 acadêmicos da
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disciplina de Álgebra Linear I e sete de Álgebra Linear II10. A participação dos discentes se
deu de maneira voluntária, os quais assinaram o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido, autorizando o uso de seus dados. A produção dos dados se deu pela realização de
nove atividades sobre Sistemas Lineares que foram escolhidas a partir dos dados obtidos no
mapeamento de pesquisas sobre o tema e a partir dos dados resultantes do TCC da primeira
autora. Os objetivos e as justificativas para as escolhas das atividades são descritos a seguir.
A atividade 5 teve por finalidade verificar como os acadêmicos resolvem atividades
que envolvam o registro de representação gráfica e o registro de representação numérica. A
escolha dessa atividade se deu pelo fato de que durante a pesquisa de TCC da pesquisadora
foram identificadas poucas atividades com esta ênfase, tendo por registro de partida o registro
de representação gráfica, por exemplo. O propósito da questão 8 foi verificar quais os
métodos escolhidos para a resolução dos Sistemas Lineares: escalonamento ou eliminação
gaussiana; método de Gauss-Jordan; Regra de Cramer; outros.
A análise do material produzido foi realizada seguindo as ideias de Bardin (2004)
referente à metodologia de Análise de Conteúdo, que conforme a autora é
10
De modo a preservar a identidade de cada um dos participantes desta pesquisa, cada discente está sendo
representado por uma letra do alfabeto, das letras A até P tratam-se dos acadêmicos da turma de Álgebra Linear I
e de Q ao X os acadêmicos da turma de Álgebra Linear II.
11
“O corpus é o conjunto dos documentos tidos em conta para serem submetidos aos procedimentos analíticos”
(BARDIN, 2004, p. 96).
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análise. Estas categorias estão descritas na sequência, definidas conforme as atividades
propostas e o objetivo de cada uma delas.
As atividades que serão foco de discussão, deste texto, são a 5 e a 8, conforme já
mencionado. A escolha destas atividades se deu pelo fato de que durante a pesquisa de
Trabalho de Conclusão de Curso da pesquisadora e nas pesquisas mapeadas - Boemo (2015) e
Karrer (2006) - foram identificadas poucas atividades com esta ênfase, tendo por registro de
partida o registro de representação gráfica, por exemplo. Entende-se como registro de partida
a representação em que a atividade é apresentada, inicialmente, havendo a conversão para
uma representação em outro registro, o registro de chegada (DUVAL, 2009).
Nesta seção são apresentadas a análise e discussão das atividades e suas resoluções.
Iniciando pela atividade 5 (Quadro 1), a qual teve por finalidade verificar como os
acadêmicos resolvem atividades que envolvam o registro de representação gráfica e o registro
de representação numérica.
Quadro 1: Atividade 5
5. Determine o sistema linear e encontre a solução quando possível, justifique sua resposta
a) b)
c) A reta a: passa pelos pontos (3, 1) (2, 2) e a reta b: passa pelos pontos (0, 4) (5, – 1).
d) A reta a: passa pelos pontos (1, 4) (2, 2) e a reta b: passa pelos pontos (5, 4) (3, 2).
Fonte: Elaboração da autora, 2019.
252
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Tabela 1: Análise da resolução atividade 5, turma de Álgebra Linear I
Resolução Registros Mobilizados Quantidade Percentual
Satisfatória -- -- --
Parcialmente
RGRLN; RNRLN 2 12,50%
Satisfatória
Equivocada RGRA, RNRA, RNRG 4 25,00%
Nula -- -- --
Em branco -- 10 62,50%
Total de respostas 16 100%
Fonte: Elaboração da autora, 2019, com base nos protocolos dos discentes da turma de AL I.
Para considerar uma resposta como satisfatória esta teria que conter, para cada Sistema
Linear, a sua classificação e, para aqueles que possuíssem solução, apresentá-la. Havia a
possibilidade de os discentes realizarem a interpretação da representação gráfica, como
também, aos que preferissem, realizar a conversão para a representação algébrica e recorrer a
um método conhecido para a resolução de sistemas. Com isso, esperavam-se como possíveis
interpretações:
253
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Quadro 2: Resolução do discente L da atividade 5
Transcrição
𝑃1 (1,2) 𝑃3 (0,4) Transcrição
𝑃2 (0,5) 𝑃4 (3,3) 𝑃 (0,4) 𝑃3 (0,4)
𝑎) 𝑏) 1
𝑟⃗ = (0,5) − (1,2) 𝑞⃗ = (0,4) − (3,3) 𝑃2 (5,1) 𝑃3 (3,2)
O sistema é impossível e determinado, já que as
𝑟⃗ = (−1,3) 𝑞⃗ = (−3,1) retas se cruzam em um único ponto, pois são
O sistema será impossível, já que as retas não se concorrentes.
cruzam em momento alguma, pois são paralelas.
Fonte: Protocolo do discente L da turma AL I.
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dos acadêmicos da turma de Álgebra Linear II.
Transcrição
5- a) A solução será a interseção das retas. Porém, Transcrição
não existe solução já que as retas são paralelas. 4 = 𝑐1 + 𝑑1 (1)
d) a {
b) A solução será 𝑥 = 4 e𝑦 = 0, já que o ponto 2 = 2𝑐1 + 𝑑1 (2)
(4,0) é a interseção das duas retas. (1) − (2)
1 = 3𝑐1 + 𝑑1 (1) 4 − 2 = 𝑐1 −2𝑐1 + 𝑑1 − 𝑑1
c) reta a {
2 = 2𝑐1 + 𝑑1 (2) 2 = −𝑐1 , 𝑐1 = −2 em (2):
(1) − (2) 4 = −2 + 𝑑1 ⇒ 𝑑1 = 6
1 − 2 = 3𝑐1 −2𝑐1 + 𝑑1 − 𝑑1 𝑎: 𝑦 = −2𝑥 + 6
𝑐1 = −1, em (2): 4 = 5𝑐2 + 𝑑2 (3)
2 = −2 + 𝑑1 ⇒ 𝑑1 = 4 b{
2 = 3𝑐2 + 𝑑2 (4)
𝑎: 𝑦 = −𝑥 + 4 (3) − (4)
4 − 2 = 5𝑐2 −3𝑐2 + 𝑑2 − 𝑑2
4 = 𝑑2 2 = 2𝑐2 , 𝑐2 = 1 em (4):
reta b {
5 = −𝑐2 + 𝑑2 2 = 3 + 𝑑2 ⇒ 𝑑2 = −1
5 = −𝑐2 + 4 ⇒ 𝑐2 = −1 𝑏: 𝑦 = 𝑥 − 1
255
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𝑏: 𝑦 = −𝑥 + 4 𝑦 + 2𝑥 = 6 (5)
{
As soluções são infinitas, pois as retas são 𝑦 − 𝑥 = 1 (6)
coincidentes.
(5) − (6)
2𝑥 + 𝑥 = 6 + 1
7
3𝑥 = 7 𝑥=
3
Em (6)
7 7 3 4
𝑦 = −1 𝑦 = − 𝑦=
3 3 3 3
7 4
A solução é o par (𝑥, 𝑦) = (3 , 3)
Fonte: Protocolo do discente T da turma AL II.
Transcrição Transcrição
5) a) 𝑣⃗ = (1, −3) 𝑢 ⃗⃗ = (1, −3) −1 5 − 𝑥 + 5𝑦 = 0
c) [ ] 𝑑𝑒𝑡 = 0 inf.
1 1 𝑥+𝑦 =0 1 −5 𝑥 − 5𝑦 = 0
[ ] 𝑑𝑒𝑡 = 0 inf. Soluções
−3 −3 −3𝑥 − 3𝑦 = 0
Soluções
b) ) 𝑣⃗ = (1, −2) 𝑢⃗⃗ = (−1, −1) d)
1 −1 𝑥−𝑦 =0 𝑥=𝑦 𝑥 = 0 [ 1 −2] 𝑥 − 2𝑦 = 0 𝑥 = 2𝑦 𝑥=0
[ ] −2𝑥 − 2𝑦 = 0 −2𝑥 − 𝑥 = 0 𝑦 = 0
−2 −1 −2𝑥 − 𝑦 = 0 −2𝑥 − 𝑥 = 0 𝑦 = 0 −2 −2
Fonte: Protocolo do discente V da turma AL II.
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Por exemplo, no Quadro 5, nas letras (a) e (c) o determinante da matriz de coeficientes
é zero, logo o discente classificou-os como sistemas com infinitas soluções. No entanto, na
letra (a), o sistema dado não possui solução, o que poderia ter sido contornado se o acadêmico
recorre-se a representação gráfica disponível na atividade, verificando que se tratava de retas
paralelas, logo o sistema é impossível.
Em sua maioria, os acadêmicos optaram por utilizar os registros de representação
algébrica e matricial para a resolução desta atividade, tratam-se dos registros aos quais eles
estão mais habituados em mobilizar quando o assunto é Sistemas Lineares, pois recorrem a
regras predefinidas para a resolução dos sistemas. No entanto, o tratamento, nesses dois
registros, gera um custo cognitivo desnecessário que poderia ser facilitado pelo uso do
registro gráfico.
Para complementar é preciso mencionar que mesmo os acadêmicos avançando nas
componentes curriculares alguns erros conceituais permanecem, talvez, porque as
representações enfatizadas e suas articulações sejam limitadas, assim como, o uso do método
de Cramer, ensinado na Educação Básica, ainda esteja presente e enraizado no imaginário dos
acadêmicos.
Em relação à atividade 8 (Quadro 6), esta tinha o propósito de verificar quais os
métodos escolhidos para a resolução dos Sistemas Lineares: escalonamento ou eliminação
gaussiana; método de Gauss-Jordan; Regra de Cramer; outros.
Quadro 6: Atividade 8
8. Resolva o seguinte Sistema de Equações Lineares, utilizando dois métodos de resolução.
𝒙𝟏 + 𝒙𝟐 + 𝒙𝟑 = 𝒂
{ 𝟐𝒙𝟏 + 𝟐𝒙𝟑 = 𝒃
𝟑𝒙𝟐 + 𝟑𝒙𝟑 = 𝒄
Fonte: Elaboração da autora, 2019.
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Transcrição
1 1 1𝑎
2° (2 0 2|𝑏) 𝐿2 ← 𝐿2 − 2𝐿1
0 3 3𝑐
1 1 1 𝑎 𝐿2
(0 −2 0|𝑏 − 2𝑎 ) 𝐿2 ←
𝑐 −2
0 3 3
𝑎
1 1 1 𝑏
(0 1 0|− + 𝑎 ) 𝐿1 ← 𝐿1 − 𝐿2
0 3 3 2𝑐
𝑏
1 0 1 2
0 1 0|| 𝑏 𝐿3 ← 𝐿3 − 3𝐿2
0 3 3 −2 + 𝑎
( 𝑐 )
𝑏
2
1 0 1| 𝑏 𝐿3
0 1 0 − +𝑎 𝐿3 ←
2 3
0 0 3|
3𝑏
( 𝑐+ − 3𝑎 )
2
𝑏
2
1 0 1| 𝑏
0 1 0 − + 𝑎 𝐿1 ← 𝐿1 − 𝐿3
0 0 1| 2
𝑐 𝑏
( + − 𝑎)
3 2
𝑐
+ 5𝑏 + 𝑎
3
1 0 0| 𝑏
0 1 0 − +𝑎
2
0 0 1|𝑐 9𝑏
( + − 𝑎)
3 2
Fonte: Protocolo do discente B da turma AL I.
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RPEM, Campo Mourão, PR, Brasil, v.10, n.22, p.242-266, mai.-ago. 2021.
1 0 1𝑎
𝐿
(0 1 0|𝑏 ) 𝐿3 ← 33
0 0 3𝑐
1 0 1𝑎
(0 1 0|𝑏 ) 𝐿1 ← 𝐿1 − 𝐿3
0 0 1𝑐
O tipo de resolução considerada nula, nesta turma, é o caso do discente J, que apenas
reescreveu o sistema apresentado e não realizou a atividade, e do acadêmico N, que
reescreveu o Sistema Linear substituindo as letras que representavam os valores
independentes, por números inteiros, não realizando o solicitado na atividade.
Os métodos escolhidos pelos discentes da turma de Álgebra Linear I (considerando os
acadêmicos que realizaram a atividades, somente dez, somando resoluções parcialmente
satisfatórias e equivocadas) para realizar a atividade foram: Substituição, Escalonamento e
Gauss-Jordan, dos quais dois dos discentes recorreram como um dos métodos a Substituição,
seis o Escalonamento, um os métodos de Substituição e Escalonamento e um acadêmico o
método de Gauss-Jordan.
Na Tabela 5 estão descritos os dados quantitativos das classificações das resoluções
dos acadêmicos da turma de Álgebra Linear II, assim como, os registros de representação
mobilizados.
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RPEM, Campo Mourão, PR, Brasil, v.10, n.22, p.242-266, mai.-ago. 2021.
Quadro 9: Resolução do discente U da atividade 8
Transcrição
Método Convencional
𝑥1 + 𝑥2 + 𝑥3 = 𝑎 Transcrição
𝑐 − 3𝑥2 𝑐
{ 2𝑥1 + 2𝑥3 = 𝑏 ⇒ 𝑥3 = = − 𝑥2 𝑏 𝑐 𝑐
3 3 + 𝑥2 − + 𝑥2 + − 𝑥2 = 𝑎
3𝑥2 + 3𝑥3 = 𝑐 2 3 3
𝑐 𝑏 𝑐 𝑏 𝑐
2𝑥1 + 2( − 𝑥2 ) = 𝑏 𝑥2 = 𝑎 − 𝑥3 = − 𝑎 + 𝑥1 = 𝑎 −
3 2 3 2 3
2𝑐
2𝑥1 + − 2𝑥2 = 𝑏
3
2𝑐 𝑏 𝑐
2𝑥1 = 𝑏 − + 2𝑥2 → 𝑥1 = + 𝑥2 −
3 2 3
𝑏 𝑏 𝑐 𝑐
+𝑎− − 𝑥1 = 𝑎 −
2 2 3 3
Fonte: Protocolo do discente U da turma AL II.
simplificação das frações. Cabe ressaltar que, a simplificação de uma fração pode ser
realizada se houver uma multiplicação de fatores no numerador e não uma adição ou
subtração, como era o caso.
As resoluções classificadas como equivocadas consistiam na realização da atividade
utilizando apenas um método e, também, encontrando a solução incompleta e com alguns
erros, como no caso do acadêmico S (Quadro 10), que não escreveu o valor de 𝒙𝟏 , e cometeu
um erro de sinais em 𝒙𝟑 .
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RPEM, Campo Mourão, PR, Brasil, v.10, n.22, p.242-266, mai.-ago. 2021.
Quadro 10: Resolução do discente S da atividade 8
Transcrição
𝑥1 = 𝑎 − 𝑥2 −𝑥3
2(𝑎 − 𝑥2 −𝑥3 ) + 2𝑥3 = 𝑏
𝑥1 + 𝑥2 + 𝑥3 = 𝑎
2𝑎 − 2𝑥2 −2𝑥3 + 2𝑥3 = 𝑏
8) { 2𝑥1 + 2𝑥3 = 𝑏 ⇒ −2𝑥2 = 𝑏 − 2𝑎
3𝑥2 + 3𝑥3 = 𝑐
−𝑏 + 2𝑎
𝑥2 =
2
−𝑏 + 2𝑎
3( ) + 3𝑥3 = 𝑐
2
−3𝑏 + 6𝑎
+ 3𝑥3 = 𝑐
2
6𝑥3 = 𝑐 − 3𝑏 + 6𝑎
2𝑐 − 3𝑏 + 6𝑎
𝑥3 =
6
Fonte: Protocolo do discente S da turma AL II.
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RPEM, Campo Mourão, PR, Brasil, v.10, n.22, p.242-266, mai.-ago. 2021.
solução do sistema.
Para isso, o uso da programação dos métodos numéricos para a resolução de Sistemas
Lineares, seria uma maneira de verificar as potencialidades e limitações dos métodos, assim
como, compreenderem as ligações entre os métodos estudados em Álgebra Linear e
revisitados no Cálculo Numérico, relacionando as discussões elaboradas nestes dois
componentes curriculares, integrando a Álgebra Linear e a programação. Os softwares, por
exemplo, podem ser utilizados para facilitar a resolução de sistemas, pois através da
programação, pode-se organizar um algoritmo para sua resolução, agilizando o processo e
potencializando o trabalho com as várias representações matemáticas (numérica, algébrica e
gráfica).
Considerações Finais
Referências
ANTON, H.; RORRES, C. Álgebra linear com aplicações. 10. ed. Porto Alegre: Bookman,
2012.
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RPEM, Campo Mourão, PR, Brasil, v.10, n.22, p.242-266, mai.-ago. 2021.
JORDÃO, A. L. I. Um estudo sobra a Resolução Algébrica e Gráfica de Sistemas
Lineares 3×3 no 2° ano do Ensino Médio. 2011. 193 f. Dissertação (Mestrado Profissional
em Ensino de Matemática) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2011.
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RPEM, Campo Mourão, PR, Brasil, v.10, n.22, p.242-266, mai.-ago. 2021.