2.5 A atividade racional.
A atividade racional e suas modalidades
A Filosofia distingue duas grandes modalidades da atividade racional, realizadas pela razão
subjetiva ou pelo sujeito do conhecimento: a intuição (ou razão intuitiva) e o raciocínio (ou
razão discursiva).
A atividade racional discursiva, como a própria palavra indica, discorre, percorre uma realidade
ou um objeto para chegar a conhecê-lo, isto é, realiza vários atos de conhecimento até conseguir
captá-lo. A razão discursiva ou o pensamento discursivo chega ao objeto passando por etapas
sucessivas de conhecimento, realizando esforços sucessivos de aproximação para chegar ao
conceito ou à definição do objeto.
A razão intuitiva ou intuição, ao contrário, consiste num único ato do espírito, que, de uma só
vez, capta por inteiro e completamente o objeto. Em latim, intuitos significa: ver. A intuição é
uma visão direta e imediata do objeto do conhecimento, um contato direto e imediato com ele,
sem necessidade de provas ou demonstrações para saber o que conhece.
A intuição.
A intuição é uma compreensão global e instantânea de uma verdade, de um objeto, de um fato.
Nela, de uma só vez, a razão capta todas as relações que constituem a realidade e a verdade da
coisa intuída. É um ato intelectual de discernimento e compreensão, como, por exemplo, tem
um médico quando faz um diagnóstico e apreende de uma só vez a doença, sua causa e o modo
de tratá- la. Os psicólogos se referem à intuição usando o termo insight, para referirem-se ao
momento em que temos uma compreensão total, direta e imediata de alguma coisa, ou o
momento em que percebemos, num só lance, um caminho para a solução de um problema
científico, filosófico ou vital.
Um exemplo de intuição pode ser encontrado no romance de Guimarães Rosa, Grande Sertão:
Veredas. Riobaldo e Diadorim são dois jagunços ligados pela mais profunda amizade e
lealdade, companheiros de lutas e cumpridores de uma vingança de sangue contra os assassinos
da família de Diadorim. Riobaldo, porém, sente-se cheio de angústia e atormentado, pois seus
sentimentos por Diadorim são confusos, como se entre eles houvesse muito mais do que a
amizade. Diadorim é assassinado. Quando o corpo é trazido para ser preparado para o funeral,
Riobaldo descobre que Diadorim era mulher. De uma só vez, num só lance, Riobaldo
compreende tudo o que sentia, todos os fatos acontecidos entre eles, todas as conversas que
haviam tido, todos os gestos estranhos de Diadorim e compreende, instantaneamente, a
verdade: estivera apaixonado por Diadorim.
2.6 A razão discursiva: dedução, indução e abdução
A intuição pode ser o ponto de chegada, a conclusão de um processo de conhecimento, e pode
também ser o ponto de partida de um processo cognitivo. O processo de conhecimento, seja o
que chega a uma intuição, seja o que parte dela, constitui a razão discursiva ou o raciocínio.
Ao contrário da intuição, o raciocínio é o conhecimento que exige provas e demonstrações e se
realiza igualmente por meio de provas e demonstrações das verdades que estão sendo
conhecidas ou investigadas. Não é um ato intelectual, mas são vários atos intelectuais
internamente ligados ou conectados, formando um processo de conhecimento.
Um caçador sai pela manhã em busca da caça. Entra no mato e vê rastros: choveu na véspera e
há pegadas no chão; pequenos galhos rasteiros estão quebrados; o capim está amassado em
vários pontos; a carcaça de um bicho está à mostra, indicando que foi devorado há poucas
horas; há um grande silêncio no ar, não há canto de pássaros, não há ruídos de pequenos
animais.
O caçador supõe que haja uma onça por perto. Ele pode, então, tomar duas atitudes. Se, por
todas as experiências anteriores, tiver certeza de que a onça está nas imediações, pode preparar-
se para enfrentá-la: sabe que caminhos evitar, se não estiver em condições de caçá-la; sabe que
armadilhas armar, se estiver pronto para capturá-la; sabe como atraí-la, se quiser conservá-la
viva e preservar a espécie.
O caçador pode ainda estar sem muita certeza se há ou não uma onça nos arredores e, nesse
caso, tomará uma série de atitudes para verificar a presença ou ausência do felino: pode
percorrer trilhas que sabem serem próprias de onças; pode examinar melhor as pegadas e o tipo
de animal que foi devorado; pode comparar, em sua memória, outras situações nas quais esteve
presente uma onça, etc.
Assim, partindo de indícios, o caçador raciocina para chegar a uma conclusão e tomar uma
decisão. Temos aí um exercício de raciocínio empírico e prático (isto é, um pensamento que
visa a uma ação) e que se assemelha à intuição sensível ou empírica, isto é, caracteriza-se pela
singularidade ou individualidade do sujeito e do objeto do conhecimento.
Quando, porém, um raciocínio se realiza em condições tais que a individualidade psicológica
do sujeito e a singularidade do objeto são substituídas por critérios de generalidade e
universalidade, temos a dedução, a indução e a abdução.